Coordenação
Maria Patrícia Lopes Goldfarb (UFPB), Igor Shimura (INSTITUTO PLURIBRASIL)
Pessoa debatedora
Mercia Rejane Rangel Batista (UFCG)
Muitas áreas de estudos, especialmente nas chamadas Ciências Sociais, tem realizado pesquisas sobre Ciganos/Roma no Brasil. Neste sentido, a antropologia tem se voltado a realização de estudos etnográficos, históricos ou documentais sobre os grupos Ciganos/Romani em diversas regiões e estados do país. Observamos a produção de pesquisas etnográficas que muito nos informam sobre as situações sociais que vivem tais grupos, bem como a criação de políticas públicas, relações de gênero, demandas por direitos, território e as relações entre ciganos e não ciganos em diferentes contextos. Apesar da crescente quantidade e qualidade das produções antropológicas, nota-se uma escassez de informações sobre estes grupos ou famílias na região Centro-Oeste, cujos estados possuem forte presença de Ciganos, como é o caso de Goiás, Brasília, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Neste sentido, é necessário diálogos entre pesquisadores de diferentes regiões e formações, priorizando o exercício comparativo entre grupos, comunidades ou famílias de Ciganos no Brasil. Deste modo, este Grupo propõe a criação de um espaço de debates e diálogos, onde pesquisadores possam ampliar e aprofundar as discussões teóricas e metodológicas; refletindo, ainda, sobre o papel da antropologia na mediação entre grupos Ciganos/Romani e as esferas públicas.
Títulos e Resumos
-
"Nós vamos cuidar dos ciganos": Direitos Humanos, família, infância e a gestão da diferença em Camaçari (BA)
— Cleiton Machado Maia
— Cleiton Machado Maia
O foco deste texto são os projetos do Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos direcionados aos grupos ciganos, especialmente aqueles relacionados às políticas e aos dispositivos de cuidado voltados à família e à infância no município de Camaçari, no estado da Bahia, no período de 2019 a 2023. Refiro-me às atividades desenvolvidas pela Secretaria de Educação de Camaçari, bem como à atuação de alguns Conselhos Tutelares existentes no município.
Privilegio, por meio dessa abordagem voltada às crianças e às famílias ciganas, a análise das agências governamentais, de seus profissionais e dos entrelaçamentos que nelas se produzem, sobretudo no que se refere aos mecanismos de controle e disciplina da infância e da família cigana. Busco analisar, neste texto, a centralidade das categorias “infância” e “família” no campo dos Direitos Humanos e sua operacionalização enquanto dispositivos de gestão de populações minoritárias e periféricas, tendo como foco o campo político cigano.
Para alcançar esses objetivos, proponho, em escala local, uma análise de alguns casos etnográficos que acompanhei nas duas sedes dos Conselhos Tutelares do município de Camaçari, no estado da Bahia. De forma complementar, realizo também a análise de alguns documentos pertencentes ao arquivo da secretaria de uma escola vinculada à SEDUC do município.
Apresento também a elaboração do documento intitulado Referencial Curricular Municipal do Ensino Fundamental da Rede Municipal de Ensino de Camaçari (2020), bem como a forma como a Secretaria de Educação de Camaçari (SEDUC) realizou sua implementação em algumas escolas selecionadas do município. Em escala nacional, analiso ainda como as ações da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (SNDCA), vinculada ao Ministério das Mulheres, da Família e dos Direitos Humanos, no período do governo federal entre 2019 e 2023, repercutiram nas políticas e nos dispositivos de cuidado voltados à família e à infância no município de Camaçari, no estado da Bahia.
-
Representações dos Ciganos de Carneiros-AL no cinema: relação do real com o imaginado e autorreconhecimento identitário
— Edluza Maria Soares de Oliveira
— Edluza Maria Soares de Oliveira
O presente artigo tem como objetivo principal analisar as experiências de formação, simbologias que marcam a identidade cigana e as representações do grupo cigano na cidade de Carneiros-Al, através da lente da diretora Julia Zakia. Isso é realizado por meio da exploração de sua produção cinematográfica, que resultou no curta-metragem documental intitulado "Tarabatara" (Alagoas, 2007). Neste contexto, o artigo se propõe a examinar aspectos do filme que destacam características relacionadas às categorias audiovisuais do gênero documentário e seu subgênero, embasando reflexões sobre como a produção cinematográfica lida com a interseção do real e do imaginado, conforme descrito por Nichols (2005). Além disso, o estudo busca criar uma síntese em relação à maneira pela qual as imagens apresentadas no filme impactam o processo de autorreconhecimento identitário dos ciganos de Carneiros-Al. Este aspecto é particularmente relevante, uma vez que o cinema documental tem o potencial de moldar a percepção pública e a autoconcepção de grupos culturais minoritários.
-
ENTRE REDES E RITOS: uma etnografia sobre jovens ciganos criadores de conteúdo
— José Aclecio Dantas, Maria Patrícia Lopes Goldfarb
— José Aclecio Dantas, Maria Patrícia Lopes Goldfarb
Este trabalho emerge das primeiras investigações de uma tese de doutorado em Antropologia na Universidade Federal da Paraíba - UFPB, e da participação no projeto de pesquisa Os Ciganos no Estado da Paraíba, do Grupo de Estudos Culturais - GEP/UFPB. O problema norteador deste estudo é se as fronteiras do trabalho para os jovens ciganos estão se flexibilizando para formas menos tradicionais de geração de renda, em direção a proposições menos territorializadas, sem a perda de traços identitários ancestrais. O objetivo geral é investigar como os ciganos ressignificam a produção material da vida ao migrar para trabalhos em ambientes virtuais, como criadores de conteúdo para a internet. Como método etnográfico, optou-se pela Participação Observante a partir das contribuições de Loïc Wacquant (2002), no qual as vivências do pesquisado, e do pesquisador, se completam como um todo experimentado, por isso, é concomitantemente uma etnografia digital e uma autoetnografia. Escolhemos a primeira pessoa do discurso como método predominantemente de escrita etnográfica. As principais categorias que norteiam a pesquisa são tempo, trabalho, redes virtuais, criadores de conteúdo e ciganos. No ciberespaço a pesquisa se delimita aos espaços do Instagram, TikTok e Youtube. O estudo está em fase de mapeamento de campo de pesquisa.
-
Quem fala pelos ciganos? Redes sociais, terreiros e os limites da fala autorizada sobre cultura cigana
— Maria Cristina Marques
— Maria Cristina Marques
Este artigo analisa o conceito de romanifishing, proposto por Vilela (2025), com o objetivo de refletir sobre práticas de apropriação cultural envolvendo a espiritualidade cigana na Umbanda, especialmente em ambientes digitais. Sem a intenção de refutar o conceito, a autora propõe um deslocamento analítico, ratificando que nem todas as casas de Umbanda que evocam signos ciganos estão envolvidas em usos mercantis da cultura cigana. A partir da vivência de uma dirigente de culto, que atua com linhas espirituais ciganas, defende-se a necessidade de distinguir entre diferentes formas de presença, ressignificação e reverência simbólica, evitando generalizações que invisibilizam terreiros de religiosidade afro-brasileira, comprometidos com a ética da caridade.
Ressalta-se, ainda, o apagamento histórico sofrido por povos ciganos, como no caso do esquecimento de seu extermínio durante o Holocausto, e a baixa presença digital de vozes ciganas autônomas que possam explicitar suas culturas de maneira situada. A pesquisa é qualitativa, situada na Antropologia, e combina etnografia digital, análise documental e cartografia de controvérsias com pesquisa de campo em terreiro da Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Foram realizadas observação participante, registro em diário de campo, conversas informais e entrevistas em profundidade com integrantes do terreiro, além do mapeamento de postagens públicas, comentários, materiais de divulgação e perfis digitais relacionados à escrita do autor do conceito. Ao final, o artigo propõe critérios de letramento étnico e religioso no campo digital e nos solos sagrados da Umbanda, visando nomear com precisão o estatuto espiritual das entidades e articular essas práticas às lutas por reconhecimento e por políticas públicas que contemplem a diversidade interna dos povos ciganos. A análise evidencia que a sobreposição entre categorias como povo de sangue e entidade espiritual, linha cigana e cultura étnica, nome interno de culto e designações de representação pública, alimenta ruídos interpretativos, conflitos interétnicos e disputas simbólicas.
-
"Nosso jeito": traços particulares de culturas Calon como elementos de identificação étnica
— Mário Igor Shimura
— Mário Igor Shimura
É muito comum encontramos, em diferentes produções literárias, acadêmicas, artísticas, governamentais etc., a expressão "cultura cigana". Trata-se de um conceito indefinido, à mercê das mais diferentes interpretações, tanto de quem o menciona e/ou instrumentaliza, como de quem o ouve. O que seria, afinal, "a cultura cigana", assim, no singular, apresentando-se como algo concretamente definido? O campo etnográfico – e aqui me refiro ao exercício comparativo entre diferentes pesquisas – nos apresenta particularidades, especificidades e uma ampla pluralidade do que poderíamos chamar de "culturas ciganas", diversas, diferentes entre si, influenciadas por distintos contextos e, portanto, heterogêneas. O que se pode observar em etnografias realizadas em diferentes comunidades ciganas, aponta para distintas vestimentas, costumes, línguas e dialetos, histórias, artefatos, ofícios, culinárias, musicalidades, crenças, regras de conduta, moradias, formas de comunicação etc., demonstrando que cada comunidade, grupos étnico, coletivo etc., possui sua própria cultura local, ao que comumente os próprios membros de cada comunidade se referem como “nosso jeito”. Quanto a isso, temos um objeto de intenso debate, tanto no campo político, como social e acadêmico: as identidades ciganas (ou identificações). Quem são os ciganos? Como vivem? Qual e como é a “sua cultura”? Nesse debate nos deparamos com uma série de questões complexas que tocam em temas complexos, tais como os estereótipos, as relações interétnicas, as legitimações de representação política etc. Para a presente apresentação, focalizo o que chamo de “ciganiarismo”, um termo inspirado na ideia abordada por Edward Said, em Orientalism (1978), onde ele faz uma análise de como o Ocidente construiu uma imagem padronizada, exótica e, muitas vezes, inferiorizada do “Oriente” (Ásia, Norte da África e Oriente Médio). Essa imagem construída sugere a hierarquização nas relações de poder que marcaram processos de colonialismo, e que tratam os ditos povos “orientais” inferiores. Stuart Hall (1997) também nos ajuda no presente debate, quando analisa os discursos midiáticos que não refletem a realidade sobre determinado grupo ou cenário, mas constroem significados. Para Hall os estereótipos funcionam como “significantes reduzidos”, isto é, reduzem grupos complexos a traços simplificados – tal como se faz com os ciganos através do exaustivo uso da categoria “cultura cigana”, uma abstração que sugere uma cultura padronizada, uniforme e simples. O presente texto aborda essas questões, apresentando a necessidade de se reconhecer que o “ser cigano” não pode ser reduzido a um determinado conjunto de costumes, artefatos, perfis etc. que pretensamente seria comum a “todos os ciganos”.
-
Propondo e Implementando: Reflexões sobre o Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos (PNPPC) do Ministério da Igualdade Racial (MIR) e seus Desdobramentos nas Políticas Públicas
— Mércia Rejane Rangel Batista, José Gabriel Silveira Corrêa
— Mércia Rejane Rangel Batista, José Gabriel Silveira Corrêa
O presente trabalho configura-se como um exercício de investigação acerca do impacto das políticas públicas instituídas pelo Plano Nacional de Políticas para Povos Ciganos (PNPPC) na promoção da inclusão social e econômica das comunidades ciganas no Brasil. Trata-se de um marco histórico, por se tratar da primeira política nacional do Brasil focada integralmente na proteção e valorização dos povos ciganos. Lançado pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR) em 1º de agosto de 2024, o PNPPC (2021-2027) tem como meta estabelecer ações estratégicas voltadas para o reconhecimento, a proteção e a garantia dos direitos das comunidades ciganas no país. Entre as principais ações propostas pelo MIR, destacam-se o combate ao anticiganismo e preconceitos, com ações voltadas para eliminar estereótipos e dscriminação étnico-racial. Bem como o reconhecimento territorial, pela construção de políticas para garantir o direito ao território, à moradia e a valorização da cultura itinerante. Além disso, o PNPPC concentra-se em dez objetivos transversais que abrangem áreas essenciais, como educação, saúde, documentação civil básica, segurança e soberania alimentar, bem como trabalho, emprego e renda. Essas ações são implementadas em colaboração com o Comitê Gestor do Plano Nacional, visando articular as esferas do governo federal com estados e municípios, através do Sistema Nacional de Promoção da Igualdade Racial (SINAPIR). Assim, a partir dos materiais disponibilizados pelo MIR, este trabalho buscará refletir sobre os efeitos dessas políticas, especialmente no que se refere às demandas das comunidades ciganas. Para tanto, consideraremos o papel das diferentes agências estatais e organizações sociais nas ações, mediações e intervenções que se desenvolvem neste contexto.
Coordenação
Joana Ramalho Ortigão Corrêa (Coletivo Florescer Cerrado), Ana Carolina Carvalho de Almeida Nascimento (CNFCP)
Pessoa debatedora
Patricia Martins (SGPR)
O fazer antropológico tem se organizado também no campo da cultura, para além da academia, também em instituições públicas e do terceiro setor que atuam na construção de políticas culturais no campo das culturas populares, do patrimônio imaterial e do acesso a direitos sociais de povos e comunidades tradicionais. Desde a estruturação dos estudos de folclore no Brasil, especialmente a partir da primeira metade do século XX, intelectuais da antropologia e das ciências sociais, ao lado de agentes do campo das culturas populares e das matrizes tradicionais, têm se dedicado a criar de estratégias de valorização e participação social destes segmentos em uma república pautada pelo racismo e pela exclusão social. As políticas de patrimônio imaterial, ao lado daquelas voltadas aos povos e comunidades tradicionais constituíram novos caminhos políticos de inclusão e reconhecimento consolidados pela Constituição Federativa de 1988. As pautas afirmativas e da diversidade têm avançado em novos modelos de construção de políticas reparatórias. Trataremos mais sobre as políticas de cultura nestes cenários de reparação e inclusão, por meio da atuação de agentes sociais diversos. Serão bem vinda pesquisas sobre a antropologia em ação no campo da cultura em cenários ampliação da efetividade e da capilaridade das políticas sociais e de enfrentamento de conflitos de territórios de povos e comunidades tradicionais.
Títulos e Resumos
-
Cartografias da Salvaguarda: o Inventário da Capoeira em Mato Grosso entre a Norma Institucional e a Potência dos Territórios
— Luciana Monteiro de Campos, Patricia Silva Osorio
— Luciana Monteiro de Campos, Patricia Silva Osorio
Este trabalho apresenta o planejamento metodológico e as reflexões preliminares sobre o Inventário Cultural da Capoeira em Mato Grosso, projeto aprovado no âmbito das políticas de patrimônio cultural imaterial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial (PNPI). O trabalho discute os desafios de operar a antropologia em contextos de políticas públicas, nos quais a sistematização burocrática frequentemente colide com a complexidade das práticas culturais. A partir de uma tessitura de duas vozes — que articula o saber da pesquisadora-capoeirista (de dentro da roda) com a análise antropológica (de fora da roda) —, propõe-se uma abordagem cartográfica fundamentada na antropologia e nos estudos culturais. O desenho amostral articula a base analítica das Regiões de Planejamento (SEPLAN, 2018) com a regionalização oficial vigente no Plano Plurianual 2024–2027. A análise preliminar utiliza dados do Mapeamento da SECEL (2025), indicando um cenário de vulnerabilidade que exige um inventário orientado não apenas ao registro estético, mas à disputa por representação, visibilidade política e acesso à cidadania.
-
Identidade, Narrativas e Território: A construção do pertencimento no Baixo-Onça, Belo Horizonte.
— Yuri Kaique Valadão Ambrozio
— Yuri Kaique Valadão Ambrozio
A identidade sendo lida como um conjunto de símbolos que acompanha um grupo, é construída a partir de narrativas e discursos, e coloca-se na interpretação de si e do outro (HALL, 1997). A questão da identidade é um tema em destaque nas discussões sobre o mapeamento de povos e comunidades tradicionais no Brasil. Sua relevância transcende esse campo, manifestando-se em diversas outras áreas, como nos levantamentos censitários (por meio da autoidentificação de cor), na implementação de programas de cotas e em programas de assistência social.
O presente trabalho propõe-se a analisar as dinâmicas de identidade que se estabelecem na região do Baixo-Onça, localizada na Zona Norte de Belo Horizonte. O Centro Comunitário Unidos pelo Ribeiro de Abreu (COMUPRA), espaço que acompanho em minha pesquisa de monografia, revela-se um local ideal para aprofundar reflexões sobre as interações sociais, as mobilizações coletivas e as iniciativas de educação socioambiental. A proposta de se mobilizar por um objeto simbólico que é o Ribeirão da Onça foi o gatilho inicial para o desenvolvimento deste trabalho, sendo ele a questão; sermos mobilizados pelo ribeirão e vivermos à sua volta nos torna ribeirinhos?
PALAVRAS-CHAVE: Identidade, Baixo-Onça, mobilizações, símbolo.
Coordenação
Patricia Trindade Maranhão Costa (UNB), Ana Rocha (UFRGS)
A partir do olhar disciplinado adquirido na formação em Antropologia, avançamos em uma postura crítica e reflexiva para além da academia. Isso resultou em estudos estratégicos que expandiram os saberes disciplinares na interação com metodologias criativas em diferentes espaços. Para ampliar tais reflexões queremos estimular a troca de experiências e trajetórias de antropólogas cujas atuações profissionais resultaram em diferentes modos de olhar a Antropologia brasileira no século 21. Foram conquistados novos espaços para práticas antropológicas delineadas em projetos implementados a partir de instituições públicas, privadas, organismos internacionais e organizações da sociedade civil, alocados de forma fixa ou flexível, permitindo o acompanhamento estratégico de temáticas cruciais para o desenvolvimento social. Neste GT, estamos abertas a artigos, ensaios, mostras de experimentos e dispositivos criativos que nos permitam entender como os horizontes da Antropologia têm sido ampliados para além da academia. Buscamos identificar caminhos a serem trilhados criando uma oportunidade de reflexão sobre a atuações profissionais que partem da etnografia, e que primam pelos critérios éticos e epistemológicos da Antropologia, resultando em novos conceitos e categorias que ajudam a construir novas práticas sociais em diferentes contextos e divulgados em espaços diversos.
Títulos e Resumos
-
Antropologia aplicada e patrimônio imaterial: uma análise da trajetória do CEFOL em Caxias (MA)
— Cayo Cruz
— Cayo Cruz
Este trabalho tem como objetivo analisar a trajetória do Centro de Folclore e Arte Popular de Caxias (CEFOL) de 2019 até 2025. O CEFOL é uma ONG com sede em Caxias, Maranhão, fundada por meu pai, Antonio Cruz, no ano de 2006, a partir da junção de quatro grupos de cultura popular: um bumba meu boi, um tambor de crioula, um grupo de caixeiros e uma escola de samba, cada qual com origens e trajetórias diferentes. A série histórica escolhida refere-se ao período em que assumi a presidência após o falecimento de meu pai, em 2019, e busquei desenvolver, dentro da instituição, um núcleo de pesquisa voltado para a salvaguarda do patrimônio imaterial local, diretamente alinhado às atividades do Museu da instituição e com foco no desenvolvimento de ações educacionais. A pesquisa possui caráter autoetnográfico, apoiando-se na análise documental, na observação participante e na sistematização das práticas institucionais. Busca-se refletir sobre as formas pelas quais a antropologia foi mobilizada como ferramenta de gestão cultural e produção de conhecimento, bem como sobre os impactos dessa abordagem no fortalecimento institucional e nas estratégias de preservação do patrimônio imaterial
-
Entre encantarias, desenhos e pinturas: uso da arte como ferramenta etnográfica e afetiva em comunidades de várzea amazônica (Pará-Brasil).
— Emilly Yasmim Lopes Cardoso
— Emilly Yasmim Lopes Cardoso
Abordar a manifestação de seres encantados em determinados contextos sociais exige sensibilidade e respeito, pois nem sempre a pessoa interlocutora se sente à vontade para expor uma experiência vivenciada em frente a câmera ou ao caderno de campo. Partindo desse pressuposto, encontrei no uso do desenho a possibilidade de expressar a maneira como essas manifestações ocorrem. Também investiguei e busquei retratar nas imagens a moradia dos encantados nas diferentes paisagens que compõem o ecossistema de várzea e a dinâmica de permanência ou deslocamento destes seres frente a atual crise climática. Os encantados são entidades espirituais da cosmologia afroindígena da Amazônia que se manifestam em forma de animais, como boto, peixe, cobra e humano. Seus locais de morada podem constituir, igarapés, lagos e árvores antigas como a castanheira. A convivência dos humanos com esses seres exige um repertório de normas ancestralmente estabelecidas e seguidas pelos moradores. Entretanto, quando não cumpridas, podem acarretar problemas de saúde no corpo e na mente de quem desrespeitou o cumprimento da norma. Nesse sentido, buscamos apresentar neste estudo a experiência de uso do desenho no processo de desenvolvimento de pesquisa. As atividades foram desenvolvidas em três comunidades de várzea (Centro, Carapanatuba e Água Preta) da região do Aritapera em Santarém (Pará) ao longo de 2023 e 2024. Durante a pesquisa, estimulamos o envolvimento de jovens do Ensino Médio da escola-polo da região para a produção de desenhos e versos temáticos sobre os encantados. Adicionalmente, confeccionei 12 obras de arte digital, inspirada nas conversas estabelecidas com as interlocutoras das comunidades. A utilização dos desenhos no processo de pesquisa permitiu melhor organização e compreensão do acervo das informações coletadas. Paralelamente, consegui expressar nas telas o que sentia e compreendia ao ouvir as memórias relatadas por anciãs e anciãos das comunidades estudadas. Os desenhos proporcionaram sensação afetiva junto ao lugar e as pessoas envolvidas na pesquisa. Além disso, o uso dos desenhos permitiu a difusão de parte dos resultados da pesquisa junto aos moradores das comunidades e a outros públicos, durante as exposições realizadas sobre o acervo imagético produzido. O uso da arte em pesquisas etnográficas auxilia na percepção de vivências sensoriais que não são facilmente descritas e possibilita novas formas de diálogos, sobretudo para compreensão de mundos diferentes.
Palavras Chaves: Mulheres Varjeiras, Encantados; Emergência Climática.
-
Acervos Etnográficos e Repositórios Digitais: cidade, memória ambiental e tempo em formas pluriversas e diferentes linguagens.
— Flávia Maria Silva Rieth, Elisa Algayer Casagrande
— Flávia Maria Silva Rieth, Elisa Algayer Casagrande
Neste trabalho, abordamos o debate sobre acervos etnográficos e repositórios digitais como espaços de extroversão, em que a organização dos materiais e conhecimentos gerados pelas pesquisas sejam devolvidos à sociedade, efetivando o direito à memória e o acesso aberto à informação (ROCHA et al., 2025). A organização dos acervos etnográficos se coloca como uma ação de cuidado e mediação, bem como de construção de conhecimento. Aqui, evidenciamos as relações entre cidade, memória ambiental e a descontinuidade do tempo em suas formas pluriversais e em diferentes linguagens, fragmentos que traçam a atualidade do passado em suas vicissitudes. Buscamos uma reflexão sobre as possibilidades do trabalho antropológico e as devolutivas para interlocutores e a sociedade como um todo, perpassando questões éticas e estéticas que constituem o pensamento antropológico. A restituição de pesquisas é tema amplamente abordado na antropologia, presente inclusive em debates dos cânones da área, como Franz Boas, Lévi-Strauss e Margaret Mead, e parte de uma noção do papel social de antropólogos e antropólogas. É relevante pensar que a produção do conhecimento avança a partir da narrativa imagética. A produção de imagens possibilita o conhecimento das formas sensíveis da vida social. A imagem conjugada à escrita constitui um processo de reflexão importante para pesquisadores e pesquisadoras que se colocam como narradores da cidade ou de referências culturais, na coleta de depoimentos, dados e informações, atuando ativamente na construção de memórias, implicados no processo de narração das formas da vida social (ECKERT e ROCHA, 2005). É dessa maneira que compreendemos a atuação de profissionais e pesquisadores(as) nas práticas de conversão de pesquisas em produtos culturais, e nos processos de organização e catalogação de acervos de pesquisa, como práticas de devolutiva da pesquisa etnográfica. Nesse sentido, trazemos a experiência de desenhar o acervo do Inventário da lida campeira nas regiões de Bagé/RS e do Alto Camaquã/RS (RIETH, 2023), como forma de dizer o sensível das relações entre pessoas, animais, coisas e ambientes que constituem o modo de vida campeiro. E, da mesma forma, o trabalho no suporte para a organização de acervos e atuação técnica junto a interlocutores, como o Ponto de Cultura e Memória Centro Cultural Mestre Borel, na cidade de Viamão, e o Ponto de Cultura Quilombo da Família Machado, em Porto Alegre, ambos territórios negros (CASAGRANDE, 2024). Ressaltamos que estes trabalhos, integram-se ao Banco de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV/PPGAS/UFRGS), para pensar a curadoria e difusão de acervos de pesquisa como devolutiva à sociedade, e o papel de pesquisadores e pesquisadoras nesse contexto.
-
Vendo o Estado por dentro: pesquisa aplicada e participação social no Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social
— Haydée Caruso, Luciane Patricio Barbosa Martins, Marcelle Gomes Figueira
— Haydée Caruso, Luciane Patricio Barbosa Martins, Marcelle Gomes Figueira
Este trabalho apresenta os resultados de uma experiência de pesquisa aplicada desenvolvida no interior de uma arena institucional estratégica da política de segurança pública brasileira: o Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (CNSP).
A pesquisa foi realizada a partir de uma demanda da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, combinando formação antropológica, atuação institucional e produção de conhecimento situada. O estudo articula análise documental, entrevistas com conselheiros e gestores públicos, além de observação direta de reuniões do Conselho, mobilizando a etnografia como metodologia para observação e de processos decisórios e de produção normativa.
O estudo analisa a trajetória institucional do Conselho Nacional de Segurança Pública e Defesa Social (CNSP), desde sua criação, no final dos anos 1980, até sua atual configuração no âmbito do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). A partir de uma abordagem qualitativa e documental, o estudo examina decretos, leis, regimentos internos e atas de reuniões produzidos entre 1989 e 2024, combinados a entrevistas com atores institucionais e observação direta de reunião ordinária do Conselho em 2025. O objetivo é compreender como diferentes desenhos normativos e contextos políticos moldaram as formas de participação, funcionamento e capacidade de incidência do CNSP ao longo de seus 35 anos de existência.
O trabalho também evidencia as tensões e dilemas próprios da prática antropológica fora da academia, especialmente no que se refere às fronteiras entre pesquisa, assessoria técnica e intervenção institucional. Os resultados indicam que, embora o CNSP seja formalmente reconhecido como instância estratégica do SUSP, persistem limitações estruturais que afetam sua efetividade política, como a baixa regularidade das reuniões, a fragilidade da secretaria executiva, a ausência de grupos de trabalho permanentes e a restrição dos mecanismos de participação social. Ao acompanhar os limites estruturais do CNSP a pesquisa demonstra como a etnografia pode funcionar como ferramenta crítica e criativa para tornar visíveis assimetrias de poder, disputas simbólicas e silêncios institucionais.
-
Da crítica Kaingang, à construção de uma loja online de artesanato: alguns registros de uma etnografia dita colaborativa
— Luis Felipe de Oliveira Bernardy
— Luis Felipe de Oliveira Bernardy
Imagine-se o leitor na seguinte situação. Um aspirante à antropologia decide realizar uma pesquisa sobre artesanato com uma comunidade Kaingang em uma região ao sul do Brasil, este, muito preocupado com as implicações sociais das pesquisas acadêmicas, e fortemente influenciado pelos conceitos de Antropologia sob demanda de Rita Segato (2021) como também do Pacto Etnográfico (Kopenawa e Bruce Albert), parte para campo rumo a uma reunião marcada na aldeia sobre os delineamentos deste projeto. Críticos sobre a academia, a comunidade Kaingang revela que está descontente com as pesquisas realizadas, pois eles são objetos de pesquisa e não ganham nada em troca. Além do mais, esta comunidade registra dificuldades para a confecção do artesanato, seja pela distância percorrida para coletar os materiais decorrentes da diminuição das matas seja também pelo não reconhecimento do não-indígena sobre o trabalho indígena. Desta forma, uma pesquisa só seria possível mediante o fato de que a comunidade também saísse beneficiada, e não somente o pesquisador, erguendo para cima o seu certificado de mestrado. Tangenciando o que chamei de etnografia colaborativa, em que há a ação mútua entre pesquisador e comunidade na pesquisa para a realização de um subprojeto, de modo que esse sub-projeto é o projeto que permite a realização etnográfica. Sem saber o que esperar da comunidade, o pesquisador toma um susto quando esta finalmente revelam o que esperar da pesquisa: Nós desejamos que seja construído um site de vendas online. Aceitando o desafio, o etnógrafo é posto em campo nas matas e em beiras de rios vultosos, tomando picadas de abelhas, fotografando, filmando e compreendendo o fazer artesanato Kaingang, que posteriormente ganhará forma online. Assim sendo, esta pesquisa se propõe a relatar estas atividades e das problemáticas postas em campo, não com o intuito de concluir algo, mas de repercutir outros modos criativos e ativos de realizar etnografias.
-
Antropologia aplicada e políticas públicas: a experiência das Estações Tech no Maranhão
— Nicole Pinheiro Bezerra, Laís Rabêlo
— Nicole Pinheiro Bezerra, Laís Rabêlo
Este trabalho apresenta uma experiência de produção antropológica realizada no âmbito da implementação de políticas públicas no estado do Maranhão, evidenciando a relevância do olhar antropológico no desenvolvimento das chamadas Estações Tech. Trata-se de espaços tecnológicos descentralizados de apoio às comunidades, promovidos pelo governo estadual em articulação com os governos federal e municipal, além de associações comunitárias locais. As Estações Tech estão distribuídas tanto na capital, São Luís, quanto em diversos municípios do estado, contemplando contextos sociais heterogêneos. Esses espaços podem estar vinculados a associações culturais, como grupos de bumba-meu-boi, ou a órgãos municipais, como prefeituras. A capacitação desenvolvida junto aos gestores das Estações Tech é conduzida pelo governo do estado a partir de metodologias criativas e participativas, que articulam Tecnologia Social da Memória, pesquisa de campo, observação participante e elaboração de relatórios analíticos. Essas metodologias possibilitam a valorização dos saberes locais, a reconstrução das trajetórias dos territórios e a tradução de demandas sociais em subsídios qualificados para a gestão pública. A partir dessa experiência, o trabalho analisa como a política se manifesta no cotidiano das pessoas, evidenciando os acordos, tensões e relações estabelecidas entre agentes estatais e atores locais. Essas relações, por vezes, extrapolam a lógica institucional e assumem contornos pessoais, revelando práticas de cuidado, conflitos, negociações e formas situadas de atuação do Estado. Ao inserir a antropologia nas dinâmicas de construção e aplicação de políticas governamentais, o texto desloca o foco das definições institucionais sobre o que se entende por política, enfatizando como essa categoria é acionada na vida das pessoas. Destaca-se, assim, o caráter dinâmico da política nos territórios, onde modos de vida, saberes diversos e compreensões distintas sobre o mundo tornam a vida possível, produzem estratégias de resolução de problemas e reinterpretações da lógica estatal, evidenciando formas de criatividade que resistem a processos de homogeneização e dominação.
-
Karênhpo Apinajé é cultura cannábica ancestral: relatos de uma oficina "ready made" de introdução ao audiovisual com jovens indígenas da aldeia Cipozal
— Rafael de Almeida Ávila Lobo
— Rafael de Almeida Ávila Lobo
Em janeiro de 2026, após cinco anos de parcerias a distância na escrita de projetos com a Associação Indígena Akrôhti da Aldeia Cipozal do Povo Apinajé, localizado em Tocantinópolis/TO, tive a oportunidade de visitar a aldeia para ministrar uma oficina de introdução ao audiovisual com smartphones. Esta ação foi parte do projeto da Akrôhti Documentar para educar: memória, tradição e saberes entre os Apinajé, contemplado pelo edital 002/2025 do Instituto Educa, instituição implementadora do Programa Àwúre Educa, uma iniciativa conjunta com o Ministério Público do Trabalho (MPT). O objetivo principal desta oficina era aprimorar as habilidades dos jovens no audiovisual para fins educativos, pensando no protagonismo da juventude Apinajé no registro e na construção da própria cultura e memória no e com o digital, visando as novas gerações. A oficina foi ao estilo ready made pois contou com pouquíssimos recursos materiais e técnicos: R$ 10 mil para equipamentos básicos (2 celulares, microfones, iluminação e tripés), logística (alimentação e deslocamento no território) e ainda com um sinal de internet instável na aldeia. O "ready made", proposta radical do Dadaísmo, subverteu a arte tradicional ao definir que a obra de arte é determinada pela intenção do artista e pelo contexto institucional, e não pela execução manual ou beleza (ELGER, 2010). Assim, eu, um cientista social enfiado na sociologia política, com uma formação bem básica em antropologia, atuante em projetos culturais com coletivos urbanos há uma década, videomaker amador autodidata atuante num coletivo de audiovisual neo dadaísta (Facção in-Versa), porém parceiro da Akrôhti, fui escolhido e acolhido pela aldeia Cipozal para essa tarefa. O meu interesse paralelo à execução das oficinas era vivenciar e documentar a cultura ancestral da Karênhpo (cannabis sativa) entre os Apinajé. Uma vez no território, meus interesses se transformaram a partir das vivências. Não queria mais apenas documentar essa cultura a partir do meu olhar antropológico e neo dadaísta, a ideia evoluiu para que tivéssemos os próprios jovens que participaram das oficinas co-produzindo este documentário, em parceria comigo, atuando desde as filmagens até a edição final. Este artigo visa discutir essas experiências, que ainda estão em andamento, do encontro inusitado entre um pseudo antropólogo amante do audiovisual neo dadaísta, com jovens indígenas entusiastas do audiovisual dando seus primeiros passos, tendo como pano de fundo a documentação da cultura ancestral da Karênhpo entre os Apinajé.
-
Antropologia para além da academia: coprodução de tecnologias sociais digitais em contexto amazônico
— Raul da Silva Ventura Neto, Nírvia Ravena, Uriens Maximiliano Ravena Cañete, Jússia Carvalho da Silva Ventura, Roberta Cristina de Oliveira Soares
— Raul da Silva Ventura Neto, Nírvia Ravena, Uriens Maximiliano Ravena Cañete, Jússia Carvalho da Silva Ventura, Roberta Cristina de Oliveira Soares
Este artigo propõe uma reflexão metodológica situada sobre a atuação antropológica para além da academia, a partir de uma experiência etnograficamente orientada de co-produção de tecnologias sociais e digitais junto a comunidades tradicionais da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu, em Bragança (PA). Inserido no campo dos Estudos de Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) e ancorado em perspectivas decoloniais, o trabalho aborda a co-produção não apenas como técnica participativa, mas como uma prática antropológica ética, reflexiva e criativa.
O artigo analisa o percurso metodológico de construção colaborativa de um aplicativo de celular e de um software de monitoramento participativo, compreendidos como dispositivos etnográficos e sociotécnicos capazes de traduzir e inscrever ontologias e práticas extrativistas locais no âmbito digital. No contexto da Resex Caeté-Taperaçu, o trabalho se desenvolve em diálogo com o Conselho Deliberativo da Resex, que reúne a comunidade pesqueira, o terceiro setor, instituições de ensino e o governo local. Para além do desenvolvimento do aplicativo, esta pesquisa e atuação também constroem processos de capacitação dos povos e comunidades tradicionais que integram o Conselho para o uso de tecnologias de gestão da informação e de dados, incluindo a construção e administração de bases de dados via PowerBI, o mapeamento participativo e a realização de oficinas sobre marcos legais, como o SNUC e a Convenção 169 da OIT.
Esses processos de capacitação não apenas qualificam o debate técnico, como também promovem o letramento sociotécnico dos povos tradicionais, possibilitando que pautem suas demandas a partir de estruturas legais e de evidências digitais. Em um cenário empírico etnográfico, mapas digitais projetados se entrelaçam com relatos orais sobre marés e pesqueiros: pescadores utilizam dashboards para visualizar tendências de sua própria produção, ao mesmo tempo em que discutem como o respaldo jurídico da Convenção 169 da OIT protege esses conhecimentos. Essa ponte criativa entre saberes locais e tecnologias digitais reposiciona a comunidade de objeto das políticas públicas a sujeito ativo na produção de conhecimento e na defesa de seus territórios.
Ao discutir a co-produção de tecnologias digitais como um experimento metodológico da Antropologia contemporânea, o trabalho evidencia como práticas antropológicas desenvolvidas em contextos institucionais e territoriais específicos podem ampliar os horizontes da disciplina, contribuindo para a justiça epistêmica, a democracia ambiental e a construção de novas categorias analíticas e práticas sociais no contexto amazônico.
-
O uso do GenoPro como metodologia em pesquisas antropológicas com comunidades quilombolas
— Tâmara Ramos Coimbra, Taisa Lewitzki
— Tâmara Ramos Coimbra, Taisa Lewitzki
Este trabalho tem como objetivo principal apresentar o uso do software GenoPro em pesquisas antropológicas. Demonstra como a genealogia contribui para a compreensão das relações de parentesco, afinidade e os códigos próprios que estruturam as relações em um território específico.
A motivação para este trabalho surgiu da minha integração, em 2024, à equipe de antropologia do Projeto do Termo de Execução Descentralizada (TED Quilombos). Esta parceria entre INCRA e UFPR de Curitiba visa elaborar o relatório de identificação de território quilombola das comunidades envolvidas.
No trabalho de campo e na inserção nas comunidades, a genealogia é utilizada como uma ferramenta multifacetada:
Abertura de espaço: Facilita a apresentação das famílias, seus antecessores e pessoas de referência.
Resgate de memória: Permite às famílias lembrarem e recontarem suas histórias através das relações de parentesco.
Visualização da origem: Cria um desenho, ou mapa genealógico, que materializa a história da comunidade.
No contexto técnico do relatório antropológico, o GenoPro permite trabalhar a materialidade do mapa genealógico, transformando as descrições da comunidade em gráficos claros. Este documento é uma peça-chave do relatório final, pois apresenta a complexidade das relações sociais e de parentesco necessárias para o reconhecimento legal do território.
-
Direitos, questão agrária e conflitos territoriais: reflexões sobre a experiência da extensão universitária e da assessoria jurídica popular no Semiárido Mineiro
— Thais Barroso Queiroz, Clebson Souza de Almeida, Geraldo Miranda Pinto Neto
— Thais Barroso Queiroz, Clebson Souza de Almeida, Geraldo Miranda Pinto Neto
Os territórios do semiárido mineiro vivem um contexto de intensificação dos conflitos territoriais e socioambientais, marcado por violações de direitos humanos aos povos e comunidades tradicionais diante da implementação de projetos desenvolvimentistas. Diante disso, vimos apresentar e discutir sobre as ações de extensão desenvolvidas pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri UFVJM, a Universidade do Estado de Minas Gerais UEMG e o Coletivo de Direitos Humanos do MST Norte de Minas, com o objetivo de promover a formação e a pesquisa no campo da assessoria jurídica popular, voltadas à defesa dos direitos humanos e territoriais, envolvendo juventudes universitárias e lideranças de povos e comunidades tradicionais. A proposta metodológica fundamenta-se na educação popular e na pesquisa participante, assumindo uma perspectiva crítica diante dos conflitos socioambientais vivenciados. Os procedimentos metodológicos consideram os modos de vida e as demandas locais, articulando participação universitária e comunitária, promovendo reflexões sobre as estruturas de poder e de desigualdades e a defesa de direitos humanos e territoriais. Neste sentido, o projeto se desenvolve em duas linhas centrais de atuação: a) a assessoria jurídica popular para povos e comunidades tradicionais em situações de conflitos no Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha; b) a realização do curso de extensão Direitos Territoriais, Questão Agrária e Assessoria Jurídica Popular, visando a formação, através da educação jurídica popular, de cerca de 50 juristas populares e/ou lideranças de povos e comunidades tradicionais. Dessa forma, este trabalho vem discutir as potencialidades de uma antropologia do direito nas relações entre movimentos sociais e a academia, buscando consolidar uma atuação universitária comprometida com a realidade local, articulando ensino, pesquisa e extensão a partir dos grupos subalternizados da sociedade na construção coletiva de estratégias para garantir os direitos diante da emergência dos conflitos socioambientais e ao mesmo tempo, das mais variadas estratégias de resistência dos povos.
Coordenação
Anelise dos Santos Gutterres (UFRJ), Viviane Vedana (UFSC)
A proposta do grupo é ampliar o debate iniciado na mesa “O papel das imagens nos estudos sobre o antropoceno, catástrofes e crise ambiental global”, ocorrida no 47º Encontro Anual da ANPOCS. Nossa meta, portanto, é compilar pesquisas que destacam a importância da imagem e do som na elaboração de estudos que investigam os vestígios dos ciclos de desenvolvimento nos biomas, os impactos de projetos de infraestrutura em comunidades e arranjos interespécie, cosmotécnicas e criações em paisagens e ruínas. Teoricamente, estamos ancoradas na reflexão da imagem como artefato tanto na análise de mutações e alianças interespecíficas como na reflexão sobre os diferentes percursos e ritmos modulados pelo mundo do trabalho e suas infraestruturas. Em nossa proposta, a imagem e o som atuam tanto como mediadores de histórias, memórias e resistências, quanto como instrumentos na geração de conhecimento e reconhecimento sobre fluxos, sistemas e paisagens em transformação. Diante dos efeitos antrópicos causados por práticas humanas que instauram formas de habitação destrutivas no contexto capitalista, como gerar conhecimentos e saberes a partir de paisagens sonoras e visuais, em meio às interferências de ecologias simplificadoras? No que diz respeito ao debate sobre o argumento proposto por este grupo, almejamos congregar etnografias, experimentos, investigações e/ou projetos elaborados de forma colaborativa em regiões e comunidades, com propostas reflexivas em relação ao tema.
Títulos e Resumos
-
Gente-planta e outras formas de natureza: curadoria e arte-contemporânea para pensar as relações humano-animais nas Amazônias
— Emerson Silva Caldas
— Emerson Silva Caldas
Este trabalho busca adentrar na construção curatorial da exposição Gente-planta e outras formas de natureza, inaugurada em Belém do Pará, no Parque da Residência, durante o Motins do Festival Psica em janeiro de 2025. Sendo assim, serão abordadas questões relacionadas à prática curatorial da exposição; pesquisa conceitual, poética, seleção de trabalhos e diálogos com as/os artistas. Com enfoque nas tessituras que delineiam a exposição, fincadas nas relações desenvolvidas entre seres humanos e não-humanos, ou seja, a formas como essas naturezas se apresentam no bioma e ecossistemas das Amazônias em suas relações simbióticas. Para tanto, o diálogo teórico é feito a partir do pensamento de Donna Haraway (2013), Davi Kopenawa (2015) e Bispo dos Santos (2023), tendo em vista as elaborações que esses autores nos apresentam sobre as relações humano-animais para pensar as realidades do mundo contemporâneo. Neste caso, as reflexões e observações se dão a partir das visualidades construídas por artistas da Pan-Amazônia que a partir de seus corpos, experiências, histórias, vidas e imaginários criam suas obras. Dessa maneira, o que se busca é apresentar possibilidades de fruição, apreciação e reflexão, através dessas criações artísticas em suas simbioses; gente-bicho, gente-folha, gente-árvore, gente-planta, gente-água, gente-flor, gente-fogo, gente-rios, gente-ventos e gente-outras formas de natureza. É essencial pensar as múltiplas facetas presentes nos trabalhos da exposição, sobretudo o seu viés poético-político, ao reivindicar que há vidas negras, indígenas, quilombolas, periféricas e ribeirinhas que através de suas práticas artísticas propõem alternativas visuais que almejam a manutenção das vidas em confluência com a natureza. Demonstrando o caráter indissociável das lutas por justiça ambiental e socioterritorial, mesmo diante de sistemáticas que corroboram para sua constante destruição.
-
Biografias que transbordam: imagens e etnografias com rios
— Fernando Monteiro Camargo
— Fernando Monteiro Camargo
Este trabalho nasce de uma atenção prolongada aos movimentos, sons e imagens das águas, acompanhando rios como existências mais-que-humanas que se constituem em fluxos, transbordamentos e alianças interespécíficas. A partir de uma etnografia sensível, a proposta é pensar como os rios narram, inscrevem e ocultam histórias em suas margens e leitos, em contextos marcados por infraestruturas e desastres. A biografia é aqui compreendida não como uma narrativa linear de eventos, mas como um gesto de composição de vínculos, memórias e afetos entre humanos e mais-que-humanos; nessa perspectiva, imagens e sons operam como mediadores etnográficos, capazes de revelar temporalidades e modos de existência que excedem a escrita textual e tensionam formas convencionais de produção de conhecimento. Serão apresentadas a experiência de construção do Atlas Biográfico do Rio Piracicaba, elaborada no âmbito da pesquisa de doutorado do autor, cuja proposta central foi investigar se e de que modo seria possível elaborar a biografia de um rio, tomando seus transbordamentos, materialidades, assombrações e relações como operadores analíticos e narrativos, bem como a experiência coletiva da Mesa de Trabalho com as Águas, desenvolvida no âmbito do Grupo de Trabalho multiTÃO, da Unicamp, que tem produzido experimentações entre arte e ciência voltadas a práticas sensíveis de comunicação, educação e divulgação científica com as águas. Ambas as experiências são compreendidas como movimentos especulativos que mobilizam imagens, sons e corpos para fabular outras formas de atenção, escuta e relação com rios e paisagens em transformação, sugerindo que a biografia, quando praticada em relação com corpos dágua, pode operar como um dispositivo etnográfico potente para pensar alianças interespecíficas e modos de existência que insistem em exceder as margens.
-
"Diga-me aonde vais, que eu te direi quantas placas há": meu despertar como pessoa atingida por barragens em Congonhas/MG.
— Gabriela Guimarães Gouvêa de Oliveira
— Gabriela Guimarães Gouvêa de Oliveira
Caminhar, fotografar e seguir as placas de rotas de fuga. Esse será o percurso deste texto. O que proponho, como autora-congonhense-caminhante-fotógrafa, é apresentar aos leitores alguns pontos de encontro entre linguagem verbal e não-verbal / texto e fotografia, porque foi nesse sentido que, vindo do Planejamento Territorial, me aproximei da Antropologia. A partir de um exercício de construir uma narrativa fotográfica e de assim cultivar um olhar antropológico para minha própria cidade, revisitei o álbum (digital) e voltei às ruas para registrar aqueles elementos coloridos e estranhos que passaram a compor os cenários da Cidade dos Profetas: as placas laranja-azuladas de rotas de fuga.
Embora sejam recentes essas sinalizações orientativas, a história da cidade com a mineração é longínqua. As minas gerais são exauridas há tanto tempo que os mineiros-congonhenses se acostumaram com alguns marcadores dessa extração contínua: a poeira, os caminhões das empresas mineradoras (que já não transitam pelo centro) e os uniformes da Vale ou da CSN estendidos nos varais, geração a geração. No entanto, estabeleceu-se um ponto de inflexão nessa trajetória quando, a partir de 2022, cerca de duas mil placas de áreas de risco, rotas de fuga e pontos de encontro foram espalhadas pela cidade segundo o Plano Municipal de Segurança de Barragens (PMSB).
A partir de 2022, em outras palavras, significa dizer “depois de 2015”, “depois de 2019” e dos desastres-crimes que ficaram associados às imagens dos municípios mineiros de Mariana e Brumadinho. Ou seja, os rompimentos das barragens vizinhas mudaram a percepção dos congonhenses sobre os riscos de desastres. Nesse sentido, creio que as fotografias alcançaram um novo registro por captarem um deslocamento na minha percepção do risco: de “impactada pela mineração” para “atingida por barragem”. Essas aproximações e distanciamentos levaram-me a estranhar o que era familiar: ao simples caminhar despretensioso pela cidade, placa-de-rota-de-fuga.
Parar e fotografar constituiu um exercício de reavaliar essa coexistência com o risco. E na construção dessa narrativa fotográfica, mineração e patrimônio também colocaram-se em disputa, de modo a não me deixarem esquecer de que Congonhas é a Cidade dos Profetas de Aleijadinho, Patrimônio Cultural da Humanidade. As sinalizações às quais estamos familiarizados são as turísticas. Nossos pontos de encontro são as igrejas. Assim, para que o nome da minha cidade não seja reduzido à ocorrência de um evento extremo de rompimento de barragem, compartilho algumas fotografias com o intuito de refletir sobre e de contribuir para desnaturalizar os riscos, que são socialmente construídos.
-
As sociabilidades mais que humanas do cultivo da espécie Nicotiana tabacum em Guarani, Minas Gerais - documentar para manter viva a memória biocultural
— Giovanna Vieira Casarin Henriques
— Giovanna Vieira Casarin Henriques
Esta é uma pesquisa preliminar que desenvolvo de forma autônoma desde 2023, motivada pelo fato de família paterna plantar e produzir o fumo desde 1960, na cidade de Guarani – Minas Gerais. O fumo é há séculos, um elemento central da cultura e da economia desta cidade, onde fui criada. A socialização entre humanos e plantas começa no ato de plantar a Nicotiana tabacum, prática que envolve um conhecimento profundo do “temperamento” do solo, do clima, das raízes, das sementes e das folhas. Com o passar dos anos essa planta se consolidou como parte da cultura local, quando os agricultores do fumo – os fumeiros, tornaram-se conhecedores de seu cultivo e do preparo para transformá-la em fumo de corda (ou fumo de rolo).
Portanto, nasceu dessa história resumida minha vontade de compreender como uma espécie de planta foi capaz de moldar a cultura, o modo de viver e ser, e a economia da cidade de Guarani. Decidi, então usar este tema como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), principalmente como uma forma de materializar a história do fumo na cidade e documentar o processo de sua feitura, passando pelas diversas sociabilidades, humanas e não humanas que a permeiam – ideia inspirada nas teorias da antropóloga estadunidense Anna Tsing. Neste ano de 2026, pretendo acompanhar a produção do tabaco desde seu plantio, até ser transformado em fumo e rapé (pó de fumo), em uma vivência participativa, propondo entrevistas gravadas com os fumeiros e pesquisa com fotografias, antigas e atuais.
A cultura artesanal do fumo vem se perdendo em Guarani, os mais velhos estão se encantando e as novas gerações já não se interessam por aprender esse trabalho, que antes era passado entre gerações. É nesse contexto que considero ser de extrema importância documentar a história do fumo na cidade. Sendo esta uma tradição de técnicas repassadas oralmente, pretendo utilizar a gravação dessa oralidade e das diversas vozes, juntamente com um acervo visual dos processos e dos próprios fumeiros, com a intenção de materializar a história dessa planta que criou mundos entrelaçada aos agricultores do fumo, moldando a cultura e a economia de Guarani. Utilizarei também fotografias analógicas, expostas em livros sobre Guarani, de arquivo pessoal de minha tia e, além dos meus próprios registros e do material encontrado com os fumeiros entrevistados. Será possível criar um registro material dessa prática ancestral por meio de conversas e vivências com aqueles que dominam as técnicas da produção do fumo, utilizando a ferramenta de coleta de vozes e imagens para produção de conhecimento e memória biocultural? Ao fim, espero que essa pesquisa sirva para guardar e manter viva a memória dessa interação entre humanos e não humanos proporcionada pelo cultivo do fumo – a Nicotiana tabacum.
-
Mundos em Ruínas: Narrativas Audiovisuais e Sobrevivência no Antropoceno do Baixo São Francisco, em Pão de Açúcar/AL.
— Igor Luiz Rodrigues da Silva
— Igor Luiz Rodrigues da Silva
Este trabalho investiga a centralidade da imagem e do som na construção de narrativas e memórias que revelam os aspectos críticos de mundos em ruínas e catástrofes ambientais no Baixo São Francisco. Inserida no debate sobre o Antropoceno, a pesquisa aborda o rio não apenas como recurso natural, mas como um território de colapsos e reexistências. A metodologia fundamenta-se na antropologia multimodal, utilizando dispositivos diversos — celulares, câmeras profissionais e câmeras de ação (GoPro) — para capturar "rastros de perturbação" e acompanhar as linhas de vida que se emaranham em meio à devastação. A análise propõe que o som e a imagem operam como agentes ontológicos, ultrapassando a função de registro para se tornarem multiplicadores de mundos. Ao documentar a aceleração da ruína e a resiliência das comunidades ribeirinhas, o audiovisual potencializa estratégias de ação e reação, fundamentais para a promoção da diversidade de vidas e realidades. Conclui-se que o fazer sensível é indispensável para uma antropologia que se pretenda engajada com as paisagens de sobrevivência das margens do Rio São Francisco, transformando o registro da catástrofe em uma ferramenta de intervenção política e ética.
Palavras-chave: Rio São Francisco; Antropoceno; Antropologia Visual e Sonora; Ruínas; Memória.
Coordenação
Lauriene Seraguza Olegário e Souza (UFGD), John Cunha Comerford (UFRJ)
Pessoa debatedora
Graziele Dainese (UFF)
Neste GT discutiremos como se relacionam distintas políticas e éticas da terra descritas a partir da convivência tensa entre o agronegócio e modos indígenas, quilombolas, camponeses de habitar o território. O objetivo é mapear composições e confrontações entre formas de coexistência e resistência praticadas pelos povos em contextos marcadamente orientados pelas dinâmicas do agro. Nesse sentido, nos interessa conhecer trabalhos que pensam as relações entre a fazenda (entendida como forma paradigmática da plantation) e modos minoritários da vida na terra, vistas desde diferentes entradas: arrendamentos e parcerias agrícolas, trabalho, política (eleições, mesas de conciliações e demais espaços de negociação). Problematizaremos as relacionalidades que participam do mundo organizado pela plantation, com destaque para os contrapontos vividos em variadas formas e direções, partindo de pontos de vista distintos e muitas vezes antagônicos, inclusive em termos raciais/étnicos, porém conectados em combinações ambivalentes e nem sempre opostas: tanto mobilizações políticas e institucionalmente organizadas quanto expressões de repúdio ao modelo monocultor manifestadas em práticas e processos mais sutis, menos estruturados e mais dispersos. Neste ponto, nos interessamos pelas políticas inimagináveis (seguindo De la Cadena) criadas nas brechas do convívio, postas em curso em variados projetos de colaboração e recusa à plantation e sua dinâmica anti-negra, anti-indígena e anti-camponesa.
Títulos e Resumos
-
Memória e permanência territorial: coexistências e resistências ao agronegócio no Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha
— Ana Flávia Rocha de Araújo, Andrea Maria Narciso Rocha de Paula
— Ana Flávia Rocha de Araújo, Andrea Maria Narciso Rocha de Paula
Este trabalho apresenta resultados parciais de projeto de pesquisa desenvolvido junto a comunidades tradicionais do Norte de Minas Gerais e do Vale do Jequitinhonha, em contextos marcados pela expansão do agronegócio e pela implantação de grandes empreendimentos que incidem diretamente sobre os territórios, o acesso à terra e os modos de vida locais. A pesquisa articula trabalho de campo, formação comunitária e metodologias participativas, como oficinas da nova cartografia social, mapeamentos coletivos e o registro de narrativas orais e visuais. Os dados evidenciam que os impactos do agronegócio extrapolam a expropriação material da terra, afetando a saúde, o bem-estar e as formas de organização social, ao mesmo tempo em que intensificam processos de mobilidade e migração. Muitas famílias passam a "transitar" entre os territórios de origem e cidades médias e grandes, como Uberlândia, Belo Horizonte e São Paulo, configurando estratégias de coexistência que não implicam abandono definitivo da terra, mas a rearticulação de vínculos territoriais e redes de solidariedade. Nesse cenário, a memória coletiva assume papel central nas lutas pela terra, sendo mobilizada como prática política de resistência frente à desterritorialização promovida pelo agronegócio. A transmissão de saberes, a afirmação identitária e a valorização das histórias locais operam como formas de permanência territorial e de produção de outras políticas do possível, que escapam tanto ao enfrentamento direto quanto às narrativas hegemônicas do desenvolvimento. Os resultados indicam que as resistências não se limitam à oposição explícita aos empreendimentos, mas se expressam na reelaboração simbólica do pertencimento, na circulação de saberes e na construção cotidiana de alternativas que afirmam a terra como espaço de vida, memória e continuidade coletiva.
-
...E o que é a resistência? É a permanência na terra": a constante luta pela terra no quilombo Grotão-TO
— Bruno dos Santos Hammes
— Bruno dos Santos Hammes
Busco compartilhar neste estudo um olhar etnográfico sobre o material da minha pesquisa de doutorado, ainda em desenvolvimento. Esta etnografia, realizada entre 2021 e 2023, investiga o cotidiano da comunidade quilombola Grotão, localizada em Filadélfia-TO. Toma-se como foco da pesquisa o tensionamento decorrente da circunscrição da comunidade a uma parcela do total do território ancestral, que corresponde a uma espécie de "franja" do território total localizada longe dos cursos d'água e das melhores terras para cultivo que historicamente tinham acesso. A referida situação de acesso parcial ao território é resultado dos efeitos liminares de um recurso judicial em favor dos posseiros que reivindicam uma reintegração de posse alegando a propriedade. Contudo, apesar da situação inicial, a pesquisa in loco revela a persistência da prática de deslocamento dentro do território, historicamente observada na comunidade bem como a utilização da tecnologia do mutirão de pessoas na produção de gêneros alimentícios na comunidade com vistas a soberania alimentar. Analisa-se essa dinâmica como uma estratégia de sobrevivência/fuga originada no período da escravização e internalizada como prática costumeira, mesmo após a abolição. Os litígios fundiários permeados por ilegalidades como as grilagens, dificultam esse deslocamento ao mesmo tempo que intensificam os fluxos de êxodo, levando parte das famílias quilombolas a residir na periferia urbana do município de Filadélfia. Este rearranjo espacial implica na constituição de novas territorialidades, ou melhor dizendo, na expansão da territorialidade, que se evidencia através da categoria "derredor", para se referir aos membros que não conseguem ou não podem estar dentro do território. É assim que, a partir desta categoria, da compreensão de território que ela traz e das implicações desta sobre as relações sociais que este estudo se organiza. Para tanto, busco lançar luz sobre um aspecto, bom para pensar e diz respeito a tecnologia do mutirão de pessoas na produção de gêneros alimentícios na comunidade com vistas a soberania alimentar. Na análise as categorias, saberes orgânicos e saber sintéticos de Antônio Bispo dos Santos (2015) são tomadas para compreender a mobilização política contemporânea da Comunidade visto que a apropriação do saber técnico fortalece a luta pela permanência na parcela que veem ocupando do território sem, com isso perder de horizonte o desejo da retomada da totalidade. Revelando assim um emaranhado de estratégias de resistência e permanência na terra.
-
Impactos do agronegócio na comunidade indígena Gamela Vão do Vico no sudoeste do estado do Piauí
— Cristhyan Kaline Soares Mineiro
— Cristhyan Kaline Soares Mineiro
O presente resumo explana uma pesquisa em andamento no doutorado em Antropologia Social Universidade Federal do Rio do Norte, junto ao povo indígena Gamela, localizados no município de Santa Filomena sudoeste do estado do Piauí. O principal eixo temático da pesquisa é analisar as relações entre os indígenas com a paisagem do cerrado, bioma que nas últimas décadas tornou se uma nova fronteira do avanço do agronegócio, e no qual vivem várias comunidades tradicionais. O território da comunidade fica localizado no entre serras do cerrado piauiense, nos limites da comunidade, há lagoas, brejos e nascentes de rios. A vida cotidiana no território se desenrola em rotinas, hábitos rituais entre brejo, roças, nas capoeiras e nos terreiros de que circundam a casas e nesses espaços há atividades de extrativismo do buriti, caça e coleta de mel, pesca. A pesquisa tem como objetivo narrar como os indígenas Gamela estão lutando contra e ao mesmo convivendo com o sistema de agroindústria que provocou mudanças na paisagem e nos modos de vidas na região. Para tal estou levando em consideração a temática da etnologia, ressurgência das paisagens e outras vidas face aos impactos socioambientais e conflitos que chegaram a região por meio da expansão monocultura de soja, milho, milheto, algodão etc. Como metodologia para a execução da pesquisa estou realizando uma etnografia, em um compartilhamento de vida com os indígenas e suas relações com o território e com os outros que humanos que habitam o cerrado. Estou interessadas em registrar o dia a dia na comunidade e como se dão as relações entre comunidade e as fazendas do agronegócio. Inspirada nas escritas de Nego Bispo (2023) e Felipe Tuxá (2017) Anna Tsing (2015, 2019), Tim Ingold (2011, 2015) a pesquisa reflete acerca dos conceitos de paisagem, conhecimentos tradicionais e impactos socioambientais.
-
Terras-territórios sociobiodiversos e a soja no Oeste do Pará
— Diego Amoedo Martinez
— Diego Amoedo Martinez
“O sojeiro, quando chegou, ele só viu o caminho, mas o caminho foi meu pai que fez dentro da nossa terra, e agora ele usa como se fosse dele.”
Essa frase de Sileuza, liderança de um coletivo de mulheres agroecológicas, evidencia a importância de compreender a territorialidade como processo. O sojeiro não conhece a história desse caminho, como se constituiu a Terra Preta dos Lúcios, nem compartilha a vida com os comunitários, pois ninguém o conhece. Eles são tratados pelo termo genérico de “gaúchos”. Essa sociabilidade contrasta com a comunidade de parentes, amigos, compadres e companheiros que compartilham histórias de vida, de família e daquela terra-território.
Do outro lado dos polígonos latifundiários de soja, no município de Mojuí dos Campos — que desde sua fundação, em 2013, até a atualidade multiplicou por quatro sua área de plantio de grãos — encontram-se as Flores do Campo, coletivo de mulheres agroecológicas em lotes de proporções diminutas quando comparados aos da monocultura.
De suas “hortas, roçados e sítios” provém uma grande variedade de cultivos comercializados em feiras de Santarém, Mojuí dos Campos e destinados a políticas públicas como o PAA e o PNAE.
Dona Ivete Bastos, liderança sindical histórica de Santarém e do PAE Lago Grande, sintetiza sua percepção sobre a terra-território: “Mulher lida com a terra, conversa com a terra, produz na terra, faz resistência, zela, porque o seu olhar não é só de zelar por si, mas de olhar pelos outros. Então é tudo isso de sentimento que rola dentro da gente quando faz uma defesa do território.”
Encontram-se, assim, narrativas que envolvem a terra-território nas quais se entrelaçam humanos e mais-que-humanos, pois, com a expansão da soja, também os macacos se alimentam em seus roçados e sítios. Sileuza afirma que não cultiva apenas para vender e que o fato de os macacos se alimentarem de sua plantação é mais um motivo para continuar trabalhando a terra: “as nossas terras são seus refúgios”.
O sistema agrícola de Sileuza e Dona Ivete resulta de um processo de adaptação e inovação com a terra e seus múltiplos entes, evocando a necessidade de cuidar da “natureza”, que é política, e que implica “respeito, família, comunidade e bem viver”, sendo que o “econômico vem como consequência”
Pretendo discutir como as terras-territórios sociobiodiversos enfrentam as lógicas do Antropoceno de formas distintas, aproximando-nos da ideia de patchy Anthropocene (Haraway), por meio de múltiplas estratégias de organização, comercialização e articulação, bem como os impactos desses agentes em suas vidas políticas, organizativas e produtivas, estejam elas ao lado da soja, ameaçadas pela mineração da Alcoa ou inseridas em uma unidade de conservação, como a Floresta Nacional do Tapajós
-
Insurgências vazanteiras e quilombolas: conflitos territoriais, agronegócio e mediações envolvendo as terras marginais do rio São Francisco
— Elisa Cotta de Araújo, Claudia Luz de Oliveira, Felisa Cançado Anaya
— Elisa Cotta de Araújo, Claudia Luz de Oliveira, Felisa Cançado Anaya
O ordenamento fundiário das terras marginais ao rio São Francisco no norte de Minas é algo complexo, são áreas instáveis, que se movimentam e se transformam a cada novo ciclo de cheia e vazante do rio. São áreas que tanto podem receber material carreado pelo rio e crescer, como podem perder e diminuir. Assim, onde foi rio um dia, hoje pode ter terra e vice-versa. Há um regime próprio de classificação e de acesso ás terras baixas, instituído no convívio dos ribeirinhos com o rio e suas terras crescentes. São visões de mundo e relações que persistem sendo atualizadas, mas também afetadas pelos grandes projetos de desenvolvimento e políticas governamentais que se intensificaram na região após 1970, com implantação do Perímetro Irrigado do Jaíba via atuação da Ruralminas e SUDENE e implicações sobre a estrutura agrária, formas de produção e relações de trabalho.
No presente, o termo fazenda vem sendo empregado, por vezes, como sinônimo de “propriedade particular”, o que é informado através de placas afixadas em porteiras, pela imposição das cercas fechando antigas passagens beira rio, pelo uso de seguranças privados e da força policial para garantir o monopólio de uso da terra. Por outro lado, a memória social informa a existência das chamadas terras livres, onde era possível constituir direitos a partir da colocação de roças e moradias.
A insurgência de grupos sociais nos últimos 20 anos, por meio de retomadas territoriais, tem gerado conflitos fundiários. As iniciativas são lutas por reconhecimento dos seus modos de vida e vínculos com o rio, suas margens, lagoas, vazantes, águas e encantados. O que envolve alianças diversas seja para garantir formas de permanência e acesso a políticas públicas, como para enfrentamento do avanço do agronegócio sobre as áreas inundáveis do rio São Francisco, responsáveis pelo seu encurralamento.
As leituras realizadas têm como referência pesquisas acadêmicas e trabalhos de campo etnográfico para elaboração de relatórios de identificação e caracterização de comunidades quilombolas e territórios tradicionais em diferentes municípios ribeirinhos, o que nos levaram posteriormente a acompanhar os processos judiciais e de mobilizações políticas das comunidades. Nos interessa pensar como o “processo de formação das fazendas” avança sobre as terras públicas da União, de modo articulado por processos cartoriais e judiciais que envolvem a despossessão por meio de elaboração de “enquadramentos epistemológicos” (Butler, 2025), por parte dos órgãos públicos, bem como, das instancias de decisão e mediação jurídica.
-
As forças de reprodução da vida e as atividades predatórias do agronegócio da soja no Baixo Tapajós e no Planalto Santareno, Pará
— Emília Pietrafesa de Godoi
— Emília Pietrafesa de Godoi
Fundamentada nas pesquisas que venho realizando na região amazônica, no Sudoeste do Pará, junto a comunidades dos municípios de Belterra e Mojuí dos Campos – Revolta e Santa Cruz no entorno da Floresta Nacional do Tapajós e São Domingos e Jamaraquá na FLONA/Tapajós e com a comunidade Jatobá da Volta Grande no Planalto Santareno - argumento que a expansão das atividades predatórias da monocultura da soja, acelerada nos últimos anos, vem trazendo ameaças aos vínculos vitais entre corpos e terra constitutivos da diversidade das micro paisagens domésticas – hortas, jiraus de plantas terapêuticas e temperos, pomares, roças – isto é, ao conjunto a que os ribeirinhos e agricultores agroextrativistas chamam sítio. Trabalharemos a diversidade das micro paisagens domésticas, reconhecendo nelas a interação de humanos e outros que humanos na sua coprodução e as “memórias da e na Terra”, que evocam distintas temporalidades impressas nas paisagens que serão trabalhadas, como a dimensão temporal profunda da “terra preta dos índios” e a dimensão temporal que encontramos incorporadas nos sítios, cujas plantas criam cadeias intergeracionais de longa duração, incorporando relações de parentesco. Lançaremos mão da noção ecofeminista de “forças de reprodução” (BARCA, S. 2020) da vida – como as atividades de subsistência e aprovisionamento, de regeneração, de restauração e de cuidado – enquanto agências alternativas que estão inscritas dentro e contra a modernidade capitalista.
-
A cultura do agronegócio em Viçosa - MG: uma abordagem antropológica
— Fabiane Ferreira Neiva
— Fabiane Ferreira Neiva
A pesquisa permeia pelo tema da relação histórica entre o termo “agronegócio” e as universidades públicas, com o objetivo de compreender o papel na consolidação do setor agrícola enquanto projeto político, econômico e cultural no Brasil. Sob o olhar do município de Viçosa – MG criada em 1873, a Universidade Federal de Viçosa – UFV analisada neste trabalho, tem sua criação como Escola Superior de Agricultura e Veterinária – ESAV em 1922 por Arthur da Silva Bernardes, Governador de Minas Gerais e filho da cidade, posteriormente inaugurada em 1926, enquanto Presidente da República. A UFV é baseada no modelo norte-americano (land-grant college system), implantado por Peter Henry Rolfs, professor da Universidade da Flórida e que veio morar no Brasil em 1921 a convite de Arthur Bernardes. O modelo é voltado para o desenvolvimento econômico e social, articulando o ensino, pesquisa e extensão, com a união da sociedade e suas demandas. Nesse sentido, a circulação de ideias sobre economia agrícola e a visão do resgate do termo estadunidense agribusiness foi assumido como projeto político-econômico nacional, conforme discutido por Ribeiro Neto (2018). Essa visão, demonstra como a universidade se constituiu enquanto espaço estratégico na formação de quadros técnicos, voltados para a agricultura como projeto de nação. No cenário nacional e internacional, a UFV ocupa um lugar de destaque por ter formado personagens centrais da agricultura e do agronegócio brasileiro, lideranças políticas e gestores públicos, como Tereza Cristina (senadora e ex-ministra da Agricultura), Celso Moretti e Eliseu Alves (presidentes da Embrapa), Paulo Romano e Antônio Souza (deputados). Em ações permanentes na UFV, temos a Semana do Produtor Rural e o evento tradicional a Semana do Fazendeiro, tomada como recorte etnográfico neste trabalho a sua 95ª edição, realizada entre os dias 12 e 18 de julho de 2025. O evento materializa a estrutura voltada ao agronegócio, com stands de empresas e de ações dos setores da universidade, além de expositores, seminários, torneio leiteiro e cursos ligados às ciências agrárias. A etnografia evidencia a coexistência de distintos atores, discursos e práticas, agronegócio e agroecologia, sendo realizado a 16ª Troca de Saberes no mesmo evento, pelo Núcleo de Educação do Campo e Agroecologia – ECOA, contando com interessados e povos tradicionais do Polo Agroecológico e de Produção Orgânica da Zona da Mata Mineira. A pesquisa dialoga diretamente com o GT 005, inserindo o debate antropológico da coexistência de visões antagônicas de agricultura, disputas de espaço e convívio de resistência, amparado no enfrentamento ao agronegócio institucional.
-
Economias-políticas indígenas e não indígenas em tempos de soja: alianças, acumulações e diferenciações
— Lucas Cimbaluk
— Lucas Cimbaluk
A política indigenista no século XX tinha como perspectiva a transformação dos indígenas em agricultores, a partir da modernização do campo e da agricultura, no processo de ocupação do interior do Brasil. Atualmente, com o avanço das tecnologias voltadas à monocultura em larga escala e às commodities, as pressões sobre as Terras Indígenas progridem e transformam a posição indígena e de suas Terras demarcadas nas economias regionais e globais. Neste contexto, este trabalho explora a situação de algumas Terras Indígenas no sul do Brasil onde residem populações kanhgág que tem aderido ao projeto de expansão das commodities, sobretudo da soja e outras culturas de entressafra associadas, através de arrendamentos e parcerias com fazendeiros. Procura-se explorar como a política local se articula nestas relações e os arranjos econômicos alterados pela perspectiva da renda obtida com este avanço, a partir do valor da terra, e a perspectiva de indígenas que se tornam não mais produtores, mas gestores de parcerias desde uma visão fortemente abalizada por relações pessoais e alianças. Aborda-se assim a organização política interna em algumas aldeias, indicando como é sustentada pelo projeto econômico da monocultura e que se reproduz através da acumulação de boas relações na aldeia, mas também na manutenção de desigualdades econômicas e diferenciações internas e externas relacionadas tanto a estética e à força daqueles que efetivam os acordos com fazendeiros, ou que conseguem produzir relações de maior proximidade com eles. E, de outro lado, aborda-se as estratégias de lobby e de manutenção de alianças por diferentes fazendeiros em relação a lideranças indígenas, influenciando a política na aldeia na disputa entre fazendeiros pela Terra Indígena.
-
Entre agrotóxicos e ofensivas da Polícia Militar: A (re)existência Kaiowá e Guarani em Guyraroka e as dimensões psicossociais da violência/resistência
— Lucas Luis de Faria
— Lucas Luis de Faria
Os povos Kaiowá e Guarani habitantes originários do território que se compreende como Mato Grosso do Sul vivenciam historicamente contextos de guerra pela ocupação colonial-capitalista-extrativista da região (PEREIRA, 2003; BRAND, 2004; T. BENITES, 2014). O presente ciclo exploratório, que se inicia na década de 1940 e se intensifica em 1970, é protagonizado pelo agronegócio e suas políticas de extermínio. O paradigma exterminacionista (MUNDURUKU, 2012) efetivado por esse regime agrário incide destrutivamente sobre a fauna e flora - e seus respectivos guardiões, identificados como teko jára (E. BENITES, 2021) - e sobre os corpos-territórios indígenas (SILVA [TUXÁ], 2022). Dentre as armas utilizadas nessa disputa desigual estão os agrotóxicos. Diversas comunidades Kaiowá e Guarani forçosamente retiradas de seus territórios (tekoha) sobrevivem sob a incidência dos agroquímicos, sofrendo múltiplas consequências (CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO, 2016, 2019, 2023). A comunidade de Guyraroka é emblemática dessa situação, convivendo desde a retomada do território, realizada em 1999, com a aplicação dos agrotóxicos nas proximidades da área reocupada. Em 2025, motivadas/os pela efeitos adoecedores dos agrotóxicos na saúde das crianças e pela improdutividade das roças, a comunidade decidiu ampliar a retomada. Esse avanço resultou na reação violenta da Polícia Militar do estado com a mobilização de um aparato bélico desproporcional, que contou com a utilização de viaturas, helicópteros, disparos de arma de fogo e de borracha, bombas de gás, spray de pimenta, dentre outros. Apesar disso, Guyraroka permanece resistindo na ocupação do território tradicional, organizados pela liderança anciã e feminina, e fortalecidos pelas rezas na articulação com os teko jara e outras divindades. As mobilizações espirituais-cosmológicas e políticas têm sustentado a comunidade frente às ofensivas latifundiárias e institucionais-militares. Contudo, esse processo tem sido marcado por repercussões psicossociais causadas pela intensa violência empreendida contra os corpos-territórios indígenas. A partir da relação de apoio construída com a comunidade através de visitas e ocupação de lugares de escuta, pudemos identificar narrativas que indicam para processos de traumatização psicossocial a nível individual e coletivo, sendo compreendido como feridas instauradas pelas relações de violência. Os mecanismos de produção do trauma se instituem por meio dos atos violentos, da desumanização e da interdição ao território (componentes materiais e simbólicos). As consequências têm sido vivenciadas nos termos de sofrimento profundo causado por experiências de humilhação, medo e violações diversas. É neste contexto de políticas inimagináveis que Guyraroka (re)existe [e vencerá].
-
Prefigurações ecológicas: agroecologia, heterotopias e experimentação política no Assentamento Marielle Vive (leste paulista)
— Lucas Rocha Salgado
— Lucas Rocha Salgado
Em contextos marcados pela hegemonia do agronegócio e pela persistente concentração fundiária, o Assentamento Marielle Vive, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, configura um espaço no qual a transitoriedade territorial não implica suspensão da vida social, mas se converte em campo ativo de imaginação política e experimentação de modos alternativos de habitar o rural. Mesmo sob condições de instabilidade material e jurídica, o assentamento produz práticas agroecológicas, arranjos coletivos de trabalho e formas de cuidado que tensionam os sentidos dominantes da terra, da produção e da vida no campo.
A partir de trabalho de campo realizado no Marielle Vive, o artigo compreende esse território como uma heterotopia, nos termos de Foucault: um espaço real, enraizado na ordem social, que coexiste com a plantation e com o agronegócio, mas os interpela ao justapor outras temporalidades, racionalidades produtivas e formas de sociabilidade. Nesse contexto, a agroecologia emerge não apenas como técnica agrícola, mas como prática ética e política orientada pela construção cotidiana de alternativas.
Dialogando com o conceito de prefiguração política formulado por David Graeber, o trabalho propõe a noção de prefiguração ecológica para descrever processos pelos quais relações desejadas de futuro são ensaiadas no presente por meio da organização do trabalho, do cultivo da terra e da produção de paisagens agroecológicas. Plantar, cuidar, compartilhar e planejar tornam-se gestos que materializam valores políticos e ecológicos, articulando práticas agrícolas, vínculos comunitários e modos de relação multiespécie.
O caráter transitório do Marielle Vive não impede a constituição de paisagens cultivadas e de projetos de permanência; ao contrário, evidencia formas de resistência que operam no cotidiano e produzem experimentos de vida que escapam parcialmente à lógica produtivista e à hegemonia do agronegócio. Ao analisar o assentamento como uma heterotopia em trânsito e como espaço de prefiguração ecológica, o artigo contribui para os debates sobre coexistências, resistências e políticas inimagináveis nas brechas do mundo organizado pela plantation.
-
"Aqui a gente cria tudo solto e deixa comer livre": boiadeiros e garrotes entre roças e fazendas de Vão da Horta e Vão das Calçadinhas (GO)
— Luiza Letícia Mendes de Alcântara
— Luiza Letícia Mendes de Alcântara
Neste trabalho proponho discutir como o boi é mobilizado na construção de imaginários por uma comunidade negra rural do interior de Goiás. Nas vertentes das serras do município de Cavalcante, famílias quilombolas se distribuem pelas fazendas de gado de corte, onde atuam na reprodução e manejo dos animais. Vão da Horta e Vão das Calçadinhas são comunidades em processo de certificação pela Fundação Cultural Palmares; é nesse contexto que acompanho os percursos de acionamento dessa pertença étnica diante do Estado. A maior parte das famílias habita nas próprias fazendas em que trabalham, configurando uma forma de territorialização análoga à “brecha camponesa” (Cardoso, 1979) — isto é, um escape do sistema plantation mediante o usufruto de terras concedidas aos escravizados nas fazendas coloniais. Observa-se, portanto, a continuidade desse modelo de territorialização em Vão da Horta e Vão das Calçadinhas, marcado por práticas orientadas à autonomia. O gado de corte, predominante na região, integra uma etapa inicial da cadeia do agronegócio. O trabalho de cuidado dos bezerros e garrotes — conduzido majoritariamente por homens quilombolas — tem por objetivo a venda futura dos animais para engorda. Esses cuidados, enquanto “modos de ação” (Ferret, 2012), percorrem a roça e a fazenda, de modo que símbolos e práticas circulam formando uma linguagem comum (Haudricourt, 2013), contudo com gramáticas distintas. As diferenças se manifestam tanto nas relações de poder bem demarcadas entre o proprietário da fazenda e o boiadeiro quilombola, quanto nas projeções e imaginários produzidos a partir das múltiplas relações com os mais-que-humanos presentes na roça (Tsing, 2022). Práticas e estratégias ancoradas no desejo de autonomia coexistem com as formas de trabalho impostas nas fazendas, mas tornam-se mais rígidas quando há tensionamento ou cerceamento do acesso a direitos. Nesses momentos, o movimento em direção à resistência materializa-se, inclusive, na ação de reivindicar a etnicidade quilombola, pois tal ação incide diretamente sobre um dos pilares centrais do contexto negro rural: o trabalho (Plínio dos Santos, 2016).
-
Relatos do fim do mundo: agronegócio e movimento veredeiro no Norte de Minas Gerais
— Luzimar Paulo Pereira
— Luzimar Paulo Pereira
Nas últimas décadas, os municípios de Januária, Bonito de Minas e Cônego Marinho, no Norte de Minas Gerais, têm sido palco de conflitos socioambientais decorrentes da expansão do agronegócio. Nesse cenário, as veredas - ambientes úmidos e biodiversos, típicos do Cerrado - emergem como marcos de territórios de resistência, onde as autodenominadas "populações veredeiras" desenvolvem estratégias dissidentes de recuperação diante das ruínas produzidas pela chegada das "firmas". Minha apresentação quer compreender as premissas e motivações que orientam a ação dos veredeiros a partir de relatos que descrevem a expansão das plantations na região. Quero destacar, em especial, a construção de "drenagens" em veredas, lagoas e riachos, tendo em vista a viabilização do agronegócio e seu impacto destrutivo no ambiente do Cerrado.
-
Territórios em Movimento: as migrações como resistência entre comunidades Vazanteiras do Médio São Francisco frente ao agronegócio
— Maria Cecília Cordeiro Pires
— Maria Cecília Cordeiro Pires
O que significa lutar pela permanência no território quando a sobrevivência exige a partida? Este texto resgata uma discussão clássica, pautada em estudos como os de Woortmann (1990), mas ainda extremamente atual: as migrações internas como estratégia de resistência. Demonstra-se como as mobilidades se tornam costume vital para as Comunidades Tradicionais, um sistema intergeracional em que alguns indivíduos partem para prover recursos e garantir que outros permaneçam no território. Circuitos de ajuda e conexões são criados entre lugares distantes geograficamente, mas intrinsicamente ligados. Este trabalho apresenta resultados de tese de doutorado, que teve como objetivo compreender as dinâmicas e os sentidos do Sistema Vazanteiro e seus movimentos e mobilidades. Bem como, discussões realizadas pelo Grupo OPARÁ-MUTUM, através do projeto “Dinâmicas territoriais em terras tradicionalmente ocupadas no Brasil e em Portugal” (APQ04978-24). Vazanteiro é uma categoria étnica acionada por representar o modo de vida de comunidades que vivem nas beiras e ilhas do Rio São Francisco, que além das plantações nas terras altas nos meses de chuva, plantam nas vazantes deixadas pelo rio, nos tempos de seca. O modo de vida representa sua fluidez e movimento, mas para além do território tradicional, esses sujeitos tiveram que “tentar a vida lá fora”. A análise partiu do modo de vida e das mobilidades que ocorrem conforme os tempos do rio, suas cheias e vazantes. Também foram analisados os movimentos de migrações para o trabalho, que destinam “cidades grandes” e fazendas de café. A pesquisa etnográfica ocorreu no Médio São Francisco, nas comunidades: Quilombo de Praia, Quilombo da Lapinha, Comunidade Pau Preto (Matias Cardoso-MG) e Ilha de Pau de Légua (Manga-MG). Tais comunidades foram afetadas pelas expropriações de suas terras tradicionais, por grandes fazendeiros e por megaempreendimentos agropecuários, como o Projeto Jaíba, maior projeto de fruticultura irrigada da América Latina, situado entre os rios São Francisco e Verde Grande, nos municípios de Jaíba e Matias Cardoso. Devido à sua magnitude, o projeto alterou profundamente as dinâmicas locais, especialmente entre os anos 1990 e início dos anos 2000, quando sua ampliação exigiu contrapartidas ambientais mediante a criação de Unidades de Proteção Integral (UPI), que se sobrepuseram aos territórios vazanteiros. A pesquisa revelou os sentidos das migrações e como elas atravessam gerações em contextos de Comunidades Tradicionais que, embora lutem pela manutenção do território, necessitam sair para a reprodução da vida. Essas mobilidades estão profundamente ligadas ao modo de vida e, mesmo os movimentos que os levam a “sair para fora”, não desarticulam, mas atualizam o sistema, sendo formas de resistência.
-
Agroecologia e Extrativismo da Castanha de Baru pelo Cerrado: formas produtivas sincréticas para um desenvolvimento sustentável frente ao avanço do agronegócio
— Mariana Pesce Ribeiro
— Mariana Pesce Ribeiro
O trabalho tem como objetivo contemplar as formas de resistência ao avanço do agronegócio e devastação do cerrado na região do Vale do Urucuia, localizada no Noroeste de Minas Gerais. Para isso, serão contempladas as ações da COPABASE (Cooperativa Regional de Base na Agricultura Familiar e Extrativismo Ltda) que, em parceria com ONGs, fundações e outros agentes atuantes na região, promove ações de recuperação das matas nativas e nascentes, e de aplicação da agroecologia e do extrativismo do Baru como uma forma de propiciar um desenvolvimento sustentável no bioma. Serão abordados os modos como a cooperativa faz um contraponto à agroindústria que, operando a partir do paradigma da plantation, rompe vínculos e transforma o Cerrado para o cultivo de plantas exóticas. Para isso, o trabalho perpassa a política de assistência técnica continuada, capacitação e melhoria da infraestrutura das unidades produtivas da COPABASE. Essa atuação permite aos pequenos produtores, extrativistas e povos tradicionais da região cumprir as demandas que possibilitam sua inserção em um mercado mais amplo – nacional e internacional. Além disso, promove uma coalizão de saberes, visto que a organização entende as práticas agroecológicas que difunde como um manejo da terra que aproveita seu “potencial natural”, o que torna o conhecimento intergeracional e local relevante. Assim, os cooperados associam “tradições do cultivo” à ciência moderna e suas “inovações agroecológicas” e estabelecem a possibilidade de uma nova relação com o bioma do Cerrado, que não é nem a forma ancestral de cultivo nem a exploração e controle do meio-ambiente com base nas tecnologias modernas. Em seguida, o trabalho deve abordar a forma como, ao operar como uma ponte entre diferentes modos de pensar e fazer o trabalho agrícola, a cooperativa ocupa um papel ambíguo, promovendo outra forma de produção na região, que é contrária à monocultura e à exploração predatória do Cerrado, ao mesmo tempo em que mantém diálogo com agentes que estão envolvidos em cadeias de produção que operam nesse formato ao qual se propõe a contrapor. Por fim, o trabalho aborda as diferentes concepções de valor que são acionadas pelos paradigmas da cooperativa e do agronegócio. Aponta que a COPABASE teve que desenvolver estratégias para atuar no território e agregar valor aos seus produtos, por isso a agroecologia familiar e a ligação com o território é utilizada como diferencial de mercado e tornada elemento de destaque na composição das embalagens e outras expressões da marca. Nesse sentido, as formas encontradas pela cooperativa de agregar valor aos seus produtos são outra forma de oposição ao modo como o agronegócio opera.
-
Comércio transnacional de grãos e a "containerização" da Amazônia
— Matthew Abel, Katiane Silva
— Matthew Abel, Katiane Silva
Esta apresentação examina os investimentos recentes em infraestrutura de transporte de contêineres e granéis na Amazônia brasileira para refletir sobre as limitações da noção de fronteira como ferramenta analítica para a compreensão das transformações agrárias (Oliveira 2016). Nas últimas três décadas, empresas transnacionais de comércio de grãos investiram em uma rede multimodal de terminais fluviais de grãos, ferrovias e rodovias que respondem por uma parcela crescente das exportações agrícolas do Brasil. Embora as conceituações da Amazônia como uma fronteira capitalista a coloquem como um espaço de investimento e conflito ambiental, a metáfora da fronteira enfatiza a descontinuidade nos processos de desenvolvimento regional, ignorando a continuidade e a confluência no nível do sistema mundial. Com base em trabalho de campo com agricultores ribeirinhos e indígenas ao longo do corredor de comércio de grãos do Arco Norte do Brasil, argumentamos que a abordagem linear e teleológica da teoria da fronteira, tanto em suas variantes brasileira quanto norte-americana, não consegue explicar os padrões cíclicos de investimento de capital e mobilização rural que caracterizam os conflitos em torno da infraestrutura de transporte regional. Em vez de ser a vanguarda de uma nova onda de expansão da fronteira, a Amazônia brasileira hoje ocupa uma encruzilhada histórica entre os produtos tecnológicos e sociais de dois episódios anteriores de desenvolvimento capitalista: o paraíso perdido (Cunha 1909) do ciclo da borracha do século XIX e a linha de desmontagem (Sinclair 1906) das cadeias de suprimentos agroindustriais globais.
Cunha, E. da. 1967 [1909]. À Margem da História. Editora Lello Brasileira S.A.
Oliveira, J. P. de. 2016. A conquista do vale amazônico: fronteira, mercado internacional e modalidades de trabalho compulsório, in O nascimento do Brasil: pacificação, regime tutelar e formação de alteridades, pp. 117-160. Rio de Janeiro: Contra Capa.
Sinclair, U. 1906. The Jungle. New York: Grosset & Dunlap.
-
Andanças, movimentos e luta quilombola no Norte de Minas Gerais
— Pedro Henrique Mourthé de Araújo Costa
— Pedro Henrique Mourthé de Araújo Costa
Nós ficamos em um assentamento em Itapeva, em São Paulo. Ficamos lá setenta e cinco dias. De dentro do acampamento foi tirado um de Brejo [Brejo dos Crioulos] e da região Norte. Nós fomos em uma equipe de quatro pessoas, três do MST e eu como representante quilombola aqui do Brejo. Saindo de lá nós fomos para a Conferência Terra e Água. Eu mesmo tenho quatro certificados de formação política! Certificado da Conferência Terra e Água, Encontro do ENA [Encontro Nacional de Agroecologia] que teve em Recife e Encontro Quilombola que teve em São João da Ponte, a nível estadual. Esses lugares tudo aí nós andamos com o movimento (Nilson, Ribeirão do Arapuim, Brejo dos Crioulos, 2014).
Uma dimensão muito valorizada pelos quilombolas do Norte de Minas Gerais que estão engajados nas lutas pelos territórios é a mobilidade. Ao falarem das suas lutas, costumam reviver, com bastante gosto, as andanças e viagens realizadas com os movimentos sociais e parceiros. Para Nilson e outros moradores de Brejo dos Crioulos, comunidade quilombola localizada nesta região, prosear e narrar aquilo que foi vivenciado e aprendido ao longo das andanças é prática levada muito a sério. Tão importante quanto participar de um determinado movimento social ou luta é transformar as vivências em narrativas. Narrativas que tratam dos lugares visitados e conhecidos, das amizades tecidas, das experiências e aprendizados, bem como do sofrimento e das dificuldades vivenciadas.
Inspirado por essa prática nativa e pelas diversas histórias que venho ouvindo sobre as andanças quilombolas, este trabalho tem como objetivo apresentar algumas das reflexões feitas em minha tese de doutorado (MOURTHÉ, 2021a). O material etnográfico coletado nas pesquisas realizadas nos últimos anos (MOURTHÉ, 2015, 2017, 2021a e 2021b) apontou para diferentes modalidades de deslocamentos e para a importância que meus companheiros e companheiras de pesquisa atribuem às práticas, ideias e valores associados à mobilidade e à luta. Pode-se dizer que, além de serem constituintes das lutas territoriais do Norte de Minas, as andanças também são imanentes aos modos quilombolas de viver e habitar seus territórios. Espera-se que a participação no GT 005 contribua para aprimorar as discussões desenvolvidas na tese, em especial as reflexões sobre as lutas e movimentos quilombolas, favorecendo, assim, a publicação dos seus resultados.
-
Festas de peão e parcerias: coexistências inesperadas em Terras Indígenas do baixo Tibagi (PR)
— Roberta de Queiroz Hesse
— Roberta de Queiroz Hesse
Esta comunicação reflete etnograficamente sobre as relações econômicas entre coletivos kaingang do baixo Tibagi (Paraná) e o agronegócio regional, focalizando as chamadas "parcerias" agrícolas e as festas do Dia dos Povos Indígenas, organizadas atualmente no formato de rodeios. Desde 2015 acompanho famílias kaingang, guarani e xetá da região do baixo Tibagi e ao longo desses anos ouvi muitas narrativas sobre as festas do Dia dos Povos Indígenas, sempre muito aclamadas. Essas festas são animadas celebrações que ocorrem na região do baixo Tibagi desde o tempo do SPI e ocupam uma grande relevância no calendário anual dos coletivos indígenas da região. As festas ocorrem e são organizadas majoritariamente nos territórios kaingang, contudo, as famílias guarani e xetá, em menor escala, também participam delas. A qualidade de uma festa é comumente utilizada como índice de aprovação ou rejeição do mandato dos caciques e eles próprios costumam enfatizar que a organização das festas é parte crucial de seu “trabalho” enquanto caciques.
A viabilização financeira desses eventos, contudo, depende das chamadas "parcerias". A “parceria” é um sistema no qual os indígenas, impossibilitados de conseguir crédito junto às cooperativas, negociam com um não-indígena para que ele possa plantar em suas terras em troca de uma porcentagem da produção. Segundo os caciques, ela é o único sistema de renda que, atualmente, consegue “manter o funcionamento das aldeias”. Pelo que entendo, para os caciques, “manter o funcionamento” significa tanto pagar os funcionários indígenas contratados para executar certas tarefas dentro das aldeias, tais como tratorista, fiscal da mata e serviços gerais, quanto e, principalmente, para sustentar as festas.
Além disso, essas festas atualmente são organizadas como “festas de peão” e “rodeio show”, formato paradigmático do agronegócio brasileiro. Ao mesmo tempo elas também apresentam características muito comuns às “tradicionais” festas indígenas com abundante distribuição de alimentos e participação de todas as faixas etárias. A partir da proposta de Marisol de la Cadena (2024) de ‘colaborações inesperadas’, sugiro que os rodeios indígenas são festas no estilo do agro e simultaneamente excedem essa categoria. Assim, proponho pensar a dinâmica dessas festas através da matriz festa-guerra (Cf: Perrone-Moisés, 2015): momentos nos quais se flerta perigosamente com inimigos enquanto se atualizam redes de parentesco e obrigações de magnificência das lideranças.
-
Sitiantes e agronegócio canavieiro no interior paulista: coexistências, transformações e dinâmicas territoriais locais.
— Rosemeire Salata
— Rosemeire Salata
Este trabalho visa discutir as formas de coexistência entre famílias de sitiantes do município de Itápolis (SP) e o crescimento do agronegócio canavieiro na localidade. A região central do estado de São Paulo tem seus espaços rurais historicamente marcados pela presença de plantações e usinas canavieiras. Nas duas últimas décadas, a cana-de-açúcar transformou-se no principal produto em termos de área cultivada e volume de produção no município. Contudo, há também uma expressiva presença de sitiantes, isto é, pequenos agricultores que cultivam a terra em regime familiar, cuja formação e reprodução social remontam à crise do ciclo do café, à chegada de imigrantes europeus e aos então incipientes processos de industrialização e urbanização. Nesse sentido, este trabalho explora alguns condicionantes sociais e econômicos que engendraram a expansão da cana-de-açúcar sobre as terras desses pequenos agricultores, transformando paisagens, sociabilidades e dinâmicas territoriais locais. Observa-se, por outro lado, que tal expansão não provocou um esvaziamento dos espaços rurais nem os alterou de forma unívoca. A pesquisa empírica em desenvolvimento, constituída por observações de campo, levantamento de dados secundários e entrevistas com famílias, indica que o avanço canavieiro não se deu prioritariamente por meio da compra e venda de terras, mas sobretudo por meio de contratos de arrendamento firmados entre usinas de açúcar e álcool e as famílias de sitiantes locais. Verificam-se diferentes arranjos, como aqueles que envolvem o arrendamento total da terra e a mudança da moradia para o centro urbano; aqueles que combinam o arrendamento total com a permanência na terra; e aqueles que articulam arrendamento parcial, moradia e trabalho agrícola. Discute-se, assim, como as práticas econômicas dessas famílias, longe de serem homogêneas, configuram uma diversidade de estratégias que sinalizam os esforços desses pequenos agricultores para continuar trabalhando e vivendo nos sítios ou, ainda, para permanecer na condição de proprietários, preservando um patrimônio familiar a ser transmitido. Por fim, aponta-se, em diálogo com os estudos sobre o campesinato, como tais práticas remetem a lógicas e sentimentos de pertencimento articulados a projetos familiares e a éticas e valorações específicas sobre a terra e o trabalho. Essas lógicas distinguem-se das dinâmicas instauradas pelo agronegócio, embora com elas coexistam e por elas também sejam transformadas, conferindo contornos muito específicos à expansão canavieira naquela localidade e sinalizando para atualizações nas formas de reprodução dessa parcela do campesinato.
-
A Genealogia do Capital Político: O Estado de Goiás como propriedade da Família Caiado
— Vittor Andrade Vieira de Melo
— Vittor Andrade Vieira de Melo
A presente pesquisa trata-se de um estudo de caso sobre a genealogia do capital político da Família Caiado no estado de Goiás, a partir da desocupação da Comunidade Antinha de Baixo com foco na perenidade das estruturas de poder da Família e sua relação com o conflito fundiário na comunidade citado A pesquisa foi aplicada por meio de uma análise historiográfica da trajetória política da família por meio da análise da relação dos Governantes do Estado de Goiás, cruzada com uma abordagem antropológica do litígio agrário recente e a cobertura midiática do evento. Essa pesquisa tem como objetivo geral compreender como o parentesco e a linhagem operam como infraestruturas de poder no Brasil contemporâneo, transformando o despojo de populações tradicionais em mecanismo de reafirmação de um projeto dinástico. De acordo com o estudo bibliográfico desenvolvido por Maria Odila (20005) e Xavier (2015), é possível mostrar que a formação do Estado brasileiro não rompeu com as lógicas coloniais, ocorrendo uma interiorização da metrópole que permitiu a famílias como caso dos Caiados fundir o prestígio do latifúndio com a autoridade de cargos públicos. Para o embasamento teórico se utilizou autores centrais como Maria Odila Leite da Silva, para a análise histórica da perpetuação política da família; Veena Das, com o conceito de Evento Crítico para explicar o conflito ocasionado na desocupação do território; Pierre Bourdieu, com o conceito de capital simbólico para explicar parte do poder político dos Caiados; além de Frantz Fanon, W. E. B. Du Bois e Glauber Lopes Xavier para as discussões raciais e políticas. A natureza da pesquisa é qualitativa, exploratória e descritiva, caracterizando-se também como um estudo de caso que examina como instituições modernas, como o Judiciário e a Polícia, atuam na gestão da violência e da ordem social em Goiás, a fim de entender como o Caso Antinha de Baixo pode ajudar a entender o modus operandi que viabiliza o poder político da Família Caiado no Estado. Por fim, a pesquisa constatou que o Estado frequentemente age como substituto da vítima, retirando sua agência, e que a elite política utiliza uma formação acadêmica moderna para manter estruturas arcaicas de dominação, comparável em alegoria a ideia de um arquiteto moderno reformando uma fortaleza medieval, perpetuando uma "Linha de Cor" que exclui a comunidade local.
Coordenação
Antonio Carlos Seizer da Silva (UCDB), Felipe Bruno Martins Fernandes (UFBA)
O GT reúne estudos e experiências sobre a alfabetização de povos indígenas no Brasil, vinculando a produção de materiais didáticos, a crítica ao letramento e ao numeramento, e à avaliação crítica da relação das secretarias estaduais de educação na aplicação de políticas específicas e diferenciadas na Educação Escolar Indígena. Procura-se refletir sobre a fragilidade da alfabetização em comparação com outros níveis de ensino, a vivência da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em contextos indígenas e as oportunidades de práticas pedagógicas contracoloniais que combatam desigualdades linguísticas, territoriais e institucionais. O GT dará prioridade a vozes indígenas e de educadoras/es que criam materiais e metodologias interculturais, estabelecendo um diálogo entre investigações acadêmicas e ações comunitárias para fortalecer processos de letramento que sejam contextualizados e autônomos. A coordenação do GT também estimula a submissão de trabalhos de membros de redes ligadas ao programa do Ministério da Educação "Saberes Indígenas na Escola", que são fundamentais na criação de reflexões e práticas pedagógicas interculturais.
Títulos e Resumos
-
Boe Edugo
— Claudineia Borobo Kiakia, Ana Paula Purcina Baumann
— Claudineia Borobo Kiakia, Ana Paula Purcina Baumann
No contexto de ações pedagógicas desenvolvidas na comunidade Boe do Território Tadarimana, apresentamos um trabalho realizado com alunos do 9º ano da EMI Leosídio Fermau. O tema central foi Boe Edugo, que, na língua portuguesa, significa Pinturas Faciais e Corporais. Este trabalho nasce de uma preocupação manifestada por sábios e lideranças culturais diante do uso inadequado, sem o devido respeito aos seus significados espirituais e rituais, das pinturas faciais e corporais por jovens, especialmente em movimentos indígenas e apresentações culturais. O Boe Edugo não se resume a traços e linhas que podem ser aplicados livremente apenas por seu valor estético; cada pintura carrega significados profundos relacionados à identidade, à ancestralidade e à organização social e espiritual do povo Boe. Diante dessa realidade, o objetivo central do trabalho foi conscientizar os jovens quanto ao uso correto das pinturas, respeitando as normas culturais. O estudo fundamenta-se em pesquisas realizadas com conhecedores compreendidos como uma bibliografia viva. Todo o processo pedagógico ocorreu em espaços considerados sagrados, onde a escola se articula com a aldeia, reconhecendo o território como local fundamental de aprendizagem. As aulas foram desenvolvidas a partir do Tema Contextual, metodologia trabalhada no curso de Educação Intercultural da UFG. Trabalhar nessa perspectiva significa desenvolver práticas pedagógicas que valorizam todos os saberes, pois não há nem conhecimentos superiores, nem conhecimentos completos; há constelações de conhecimentos (UFG, 2020, p.58). Assim, buscou-se aproximar jovens e sábios para fortalecer os conhecimentos ancestrais, além de proporcionar o contato direto com materiais próprios da cultura, por meio do preparo das tintas e das narrativas de sua origem. Atividades de desenho e pesquisa possibilitaram aos estudantes confrontar seus conhecimentos prévios com registros existentes, promovendo reflexão crítica e aprendizagem significativa. Ao longo do processo, evidenciou-se o comprometimento dos jovens com a temática, demonstrando envolvimento e compreensão quanto ao respeito aos significados, contextos e restrições das pinturas faciais e corporais. Ao sensibilizar os jovens para o uso adequado dessas pinturas, o trabalho contribui para o fortalecimento da ancestralidade Boe e para a formação de futuros guardiões de sua memória cultural. Os resultados indicam o papel fundamental da escola como mediadora do diálogo entre juventude e comunidade, bem como a importância dos sábios na manutenção e fortalecimento da cultura Boe. Indica, ainda, que a educação escolar indígena pode e deve constituir-se como um espaço de valorização da identidade, respeito ao sagrado e formação de jovens conscientes de sua responsabilidade cultural.
-
Qual(is) língua(s) você fala? A revisão da ortografia da língua parikwaki como prática social situada
— Elissandra Barros da Silva, Lenise Felicio Batista, Aldiere Orlando, Carina Santos de Almeida
— Elissandra Barros da Silva, Lenise Felicio Batista, Aldiere Orlando, Carina Santos de Almeida
Em novembro de 2025, no âmbito do projeto Qual(is) Língua(s) Você Fala? Rumo à identificação e salvaguarda das línguas indígenas do Oiapoque e como ação articulada ao programa Saberes Indígenas na Escola, foram realizados a Oficina de Revisão da Ortografia da Língua Parikwaki e o I Inetit Parikwaki Ganhan (I Encontro da Língua Parikwaki), reunindo professores indígenas em exercício, estudantes em formação, mestres e mestras do saber, lideranças s e outros membros do povo Arukwayene (Palikur), falantes da língua Parikwaki (Arawak), localizados principalmente na região do baixo rio Oiapoque, no estado do Amapá, e em vilas da Guiana Francesa. Este trabalho analisa esse processo de revisão ortográfica como uma prática social situada, afastando-se da compreensão da escrita como procedimento técnico ou meramente normativo. Ao longo das atividades, a definição das grafias constituiu-se como um espaço de conflito, negociação e produção relacional de consensos, no qual diferentes trajetórias de uso da língua escrita foram colocadas em interação. Experiências associadas à escolarização, à vivência religiosa e ao uso cotidiano da língua mobilizaram repertórios distintos de escrita, frequentemente percebidos como concorrentes, evidenciando que a ortografia do Parikwaki não corresponde a um sistema homogêneo ou estabilizado. As discussões revelaram a centralidade de memórias linguísticas, diferenças geracionais, afetos e posicionamentos políticos internos na atribuição de legitimidade a determinadas formas de escrever, bem como na definição de quem pode falar com autoridade sobre a língua. As decisões ortográficas — envolvendo grafemas, segmentação de palavras e critérios de correção — extrapolaram aspectos fonológicos e acionaram valores morais, concepções de continuidade e mudança e expectativas em relação aos usos futuros da escrita. Nesse processo, determinados modos de escrever foram defendidos como mais adequados ou representativos, enquanto outros foram questionados, relativizados ou resignificados coletivamente. Argumenta-se que a revisão da ortografia operou como um dispositivo de reflexão metalinguística e política, no qual escrever em Parikwaki implicou negociar sentidos e pertencimentos, tornando visíveis as dimensões sociais, históricas e relacionais da escrita e evidenciando a ortografia como uma prática continuamente construída e renegociada no interior da comunidade falante.
Coordenação
Talita Prado Barbosa Roim (UFG), Rogéria Campos A. Dutra (UFJF)
Pessoa debatedora
Carolina Cadima Fernandes Nazareth (UNILA)
Para a 35ª RBA, alinhado ao tema “Antirracismo e Pluridiversidade”, o GT convoca pesquisas que explorem as trajetórias que a comida percorre — do plantio ao preparo, do corpo ao território — e as trajetórias das pessoas que a produzem, transportam, transformam e consomem. Comida e pessoas se movem juntas, produzindo vínculos, afetos, pertencimentos e fronteiras. Esses percursos revelam fluxos de poder marcados por racismo, colonialismo e patriarcado, que atravessam sistemas alimentares, redefinem possibilidades de vida e organizam desigualdades. A proposta busca fortalecer análises que articulem memória, mobilidade, território e futuro, destacando os modos pelos quais povos indígenas, comunidades negras, quilombolas, populações tradicionais e grupos urbanos periféricos constroem conhecimentos, práticas de resistência e reinvenções cotidianas. Ao acompanhar trajetórias alimentares — sementes, receitas, mercados, rituais, políticas públicas, migrações, diásporas — torna-se possível compreender como a comida atua como campo de disputa material e simbólica, envolvendo terra, território, mudanças climáticas, agronegócio e direitos coletivos. Assim, o GT reafirma seu compromisso com uma antropologia que reconhece a pluridiversidade e o bem viver, entendendo a alimentação como espaço de luta por justiça social, autonomia e dignidade, e como ponto de encontro entre histórias, corpos e mundos em relação.
Títulos e Resumos
-
Ouro de Minas: a quitanda como elemento de resistência frente aos impactos ambientais da mineração em Minas Gerais
— Carolina Cadima Fernandes Nazareth, Amilton Rosa de Lima
— Carolina Cadima Fernandes Nazareth, Amilton Rosa de Lima
Em 2025, realizamos pesquisas de campo para agregar informações para compor o dossiê para o registro do ofício das quitandeiras como patrimônio imaterial do Brasil. Em agosto do mesmo ano, a pesquisa de campo foi realizada em Paracatu – MG, cidade importante no circuito das quitandas.
Paracatu, como tantas cidades em Minas Gerais, é atravessada pelo ciclo do ouro e suas terras ainda são exploradas. A extração traz impactos socioeconômicos e ambientais para a região. Ao chegar à cidade, nos deparamos com grandes lagos de rejeitos sob a responsabilidade da mineradora alemã KinRoss. Para mitigar os impactos ambientais, a mineradora promove diversas ações e projetos de melhoria à cidade e um destaque são as ações voltadas para o quilombo São Domingos, localizado sob lago.
Este resumo tem como objetivo as discutir ações de resistência da comunidade quilombola São Domingos de Paracatu – MG frente os riscos que permeiam a sua existência e manutenção, em especial, os riscos socioambientais promovidos pela extração do ouro na região. Ao mesmo tempo, como a produção das quitandas, reflete uma importante forma de reconstrução e manutenção de memórias nos processos de resistência do quilombo.
Acreditamos que as quitandas aparecem como importantes ferramentas de manutenção de memórias. Em São Domingos são produzidos pães de queijo, pães de batata, bolos e o carro-chefe da produção: biscoitos de polvilho. Ainda são produzidos no local os produtos oriundos da plantação própria de cana-de-açúcar, como o melaço e a rapadura.
Dentre os bolos, um se destaca como significativo pra pensar a ideia de quitanda como um espaço de memória e resistência, é uma criação-ancestral das quitandeiras do quilombo, o bolo Zumbi. Feito com base de angu de fubá, rapadura, melaço e especiarias. De sabor marcante e muito aromático, o bolo é uma emblemática ferramenta de resistência e de permanência da população na região.
Entendemos que a memória não seja um depósito de lembranças armazenadas no cérebro, documentos preservados nos arquivos, ou de objetos guardados em museus. Mas antes a própria continuidade do passado no fluxo do tempo vivido. Quando agimos ou percebemos algo, certos elementos do passado são ativados e atualizados conforme novas agências do presente. Lembrar não é reproduzir, é atualizar. Atualiza-se para continuar existindo.
Nas conversas com as quitandeiras, não existe um relato de que a receita tenha sido repassada de uma geração a outra, não existe um local no passado em que se localize essa receita, mas os modos de fazer, as formas de tratar os diversos ingredientes, são todos, esses sim localizados. Mobilizados, ativados, na atualidade criando algo, trazendo todo o rastro de uma temporalidade ancestral, mantendo a memória viva.
-
Entre trajetos e temperos: a circulação dos alimentos nas cozinhas coletivas
— Fabiola Paulino da Silva, Rogéria Campos A. Dutra
— Fabiola Paulino da Silva, Rogéria Campos A. Dutra
As cozinhas coletivas podem ser compreendidas como espaços de relações múltiplas e com diferentes dimensões de investigação. Mais do que locais de preparo de refeições, constituem pontos de articulação de redes sociais, econômicas e políticas que conectam agentes, práticas e sentidos em torno da alimentação. Neste trabalho, que integra uma pesquisa em desenvolvimento, destaca-se uma dessas dimensões: a circulação dos alimentos. O foco recai sobre os circuitos que viabilizam o acesso, o deslocamento, a transformação e a distribuição de refeições, compreendendo a circulação como um processo cultural por meio do qual a matéria alimentar se converte em relações sociais.
A pesquisa é realizada em cozinhas coletivas do município de Juiz de Fora (MG) e analisa as parcerias estabelecidas com agricultores familiares, o banco de alimentos, a central de abastecimento, redes de supermercados, comércios de alimentos em geral, doadores individuais, o poder público, outras cozinhas coletivas e a população atendida. O objetivo é compreender como esses circuitos alimentares se organizam e como são estruturados por relações de reciprocidade, negociação, dependência e cuidado, articulando políticas públicas, iniciativas solidárias e práticas cotidianas de enfrentamento da insegurança alimentar.
A metodologia adotada é a etnografia, com acompanhamento das rotinas de abastecimento, seleção, transporte, armazenamento e distribuição dos gêneros alimentícios, além de registros em diário de campo e entrevistas com gestores sociais, trabalhadores, voluntários e usuários. Essa abordagem possibilita apreender tanto os fluxos materiais dos alimentos quanto os significados simbólicos, morais e políticos atribuídos às doações, às trocas e às parcerias.
Os primeiros resultados sugerem que a circulação dos alimentos produz e revela hierarquias, solidariedades e tensões. Os alimentos carregam valores, histórias e expectativas que influenciam decisões e práticas, evidenciando marcadores sociais como gênero, raça e classe. As cozinhas coletivas emergem, assim, como espaços privilegiados para analisar como os alimentos, em seus trajetos, conectam pessoas, instituições e políticas públicas.
Palavras-chave: Antropologia da Alimentação; Circulação dos Alimentos; Cozinhas Coletivas.
-
Trajetórias de vida e circuitos de sementes: a preservação das sementes crioulas como um projeto de alimentação
— Juliana Ribeiro Buzanello
— Juliana Ribeiro Buzanello
As trajetórias de quatro agricultoras/es se cruzaram através das sementes crioulas. Manuela, Dantas, Marianne e Ines migraram para a cidade de Mandirituba, na região metropolitana de Curitiba-PR e se engajaram em coletivos de preservação de sementes e da agrobiodiversidade paranaense e brasileira. Manuela, de 43 anos, se mudou para a cidade com os filhos há poucos anos para trabalhar na Casa da Semente, uma instituição que promove o plantio e a comercialização de sementes crioulas. Dantas tem 63 anos, se deslocou de Minas Gerais para o Paraná quando criança, junto a sua família, devido à escassez de terras e a pressão de grandes fazendeiros. Há 24 anos escolheu se estabelecer em Mandirituba, buscando seu sonho de poder plantar sem usar veneno. Ines, de 58 anos, integrou a Comissão Pastoral da Terra por décadas, se dedicando ao trabalho com pequenos agricultores e em ocupações de terra em diversas regiões do Brasil. Se instalou em Mandirituba com a família após uma Romaria da Terra, por volta de 2010, com o objetivo de fortalecer a atuação agroecológica na região. Já Marianne, de 83 anos, migrou da Suíça para o Brasil em 1972, fundou uma associação de educação socioambiental e hoje é uma guardiã do milho avaxi etei, alimento sagrado para o povo indígena Guarani. Atualmente, todas/os se identificam e atuam como guardiãs e guardiões de sementes crioulas, contribuindo para a partilha e propagação dessas variedades. Suas trajetórias de vida estiveram entrelaçadas a sementes específicas, vínculos que foram moldados por longos percursos familiares, por tradições, por motivações políticas e ativismos agroecológicos. Através das sementes crioulas, discute-se um projeto de alimentação, um projeto que percorre pelos circuitos de mobilidade da semente, da partilha de mão em mão, da terra à cozinha, das feiras regionais às casas dos consumidores. Esse trabalho trata-se de um ensaio, com base em entrevistas com as/os interlocutoras/es e trabalho de campo realizado entre 2023 e 2025.
-
Comida de rua: uma etnografia na praça gastronômica da Cidade 2000
— Karina Fernandes de Alcantara
— Karina Fernandes de Alcantara
O presente artigo apresenta uma reflexão sobre o fenômeno da comida de rua como uma prática social e não apenas nutricional, por ao ser uma alimento democrático, ao estar disponível em diferentes locais, com preços acessíveis e diversas opções, permite que as pessoas não se alimentem apenas pelo ato biológico, mas que a ação se torne a manutenção de costumes, o resgate de memórias e a criação de momentos de lazer. O objetivo do trabalho é realizar uma etnografia e compreender as práticas alimentares da Praça gastronômica Cidade 2000, localizada num bairro de classe média da cidade de Fortaleza–CE. A feira gastronomica funciona todos os dias, a partir das dezoito horas, e é frequentada por moradores do bairro mas também, cada vez mais, por pessoas que se deslocam de outros bairros e turistas vindos de outras regiões. Para isso, realizou-se um mapeamento dos produtos oferecidos e a organização da praça, a fim de identificar as preferências alimentares e os símbolos culturais associados aos pratos, juntamente com uma análise qualitativa das percepções e experiências dos vendedores, de modo a explorar suas motivações, desafios e estratégias para venda de alimentos. Por fim, investiga-se como os alimentos são consumidos e se correspondem à práticas alimentares específicas à cidade de Fortaleza, como comer pratinhos que remetem a uma tradição gastronômica.
-
"A Piracaia é assim né...": Comensalidade, Memória e Relações Socioambientais em Vídeos na Web
— Leiliane Moreira de Araújo Pacheco
— Leiliane Moreira de Araújo Pacheco
“A PIRACAIA É ASSIM, NÉ...”:
COMENSALIDADE, MEMÓRIA E RELAÇÕES SOCIOAMBIENTAIS
EM VÍDEOS DA WEB
Leiliane Moreira de Araújo Pacheco – Ufopa/Pará
Esta pesquisa pretende analisar a Piracaia, palavra do Nheengatu: pira-peixe, caia-brasa, prática alimentar que faz parte do modo de vida das populações ribeirinhas da região oeste do Pará, para as quais o peixe e a farinha formam a base da cultura alimentar, considerada uma “clássica combinação amazônica” (Murrieta, 2001, p. 39), constituída pela relação com o rio, a paisagem, a memória, mobilizando conhecimentos de pescaria, lugares e interações de comensalidade nos territórios, e assumindo uma perspectiva que compreende o ato de comer inscrito numa dimensão sociocultural (Picanço, 2025). O caminho inicial foi realizar uma busca de vídeos de Piracaia, publicados livremente na WEB, que registram aspectos da Piracaia de formas distintas, sendo selecionados dois vídeos produzidos por pessoas que vivem e praticam a Piracaia. O primeiro vídeo apresenta uma Piracaia familiar na região de várzea, na comunidade Guajará do PAE Lago Grande; o segundo vídeo, apresenta uma Piracaia entre dois amigos na praia do Cajueiro da vila balneária de Alter do Chão. A partir disso, é realizada uma descrição etnográfica seguida de discussão teórica que toma como principais elementos: comensalidade, memória e questões socioambientais nas “arenas amazônicas” (Almeida, 2025). O estudo possibilita pensar a Piracaia enquanto prática alimentar marcadora de identidade, crenças, resistência e sociabilidades atravessadas por uma tensa dinâmica de transformações ambientais, imprimindo impactos e desafios.
Palavras-chave: Piracaia. Memória e ambiente. Vídeos da WEB.
-
Trajetos de comensalidade em Mossoró-RN
— Libia Amaral Corrêa
— Libia Amaral Corrêa
A comida é mediadora das relações sociais, um marco que diferencia a natureza da cultura, no momento em que o homem produz o seu próprio alimento. Percebe-se, portanto, a comida como importante produto cultural, ao mesmo tempo em que, não só produto, é, também, forma de se produzir cultura. Montanari (2008) explica que comida é cultura sempre: quando produzida, quando pensada, preparada e quando consumida. A comida sempre carrega uma carga de valores simbólicos no momento da decisão por consumir este ou aquele alimento. Assim, em condições de normalidade socioeconômica, o homem seleciona seus alimentos com base em preferências individuais e coletivas ligadas aos valores, ao gosto e à cultura. Pensando nisso, este trabalho quis entender como se dava as decisões de comensalidade, do comer junto, na cidade de Mossoró, no período de 2019 a 2022, momento cronológico da pesquisa. Como caminhos metodológicos optou-se pelos recursos da revisão bibliográfica, da prática da observação participante, da entrevista semiestruturada e, mesmo, de formulário de entrevista virtual e de conversas informais, no intuito de se obter informações, em uma abordagem interdisciplinar. Os autores que dialogam entre si aqui foram os da sociologia e antropologia da alimentação, filosofia, dos estudos culturais, da epistemologia e da história do cotidiano como Poulain, Montanari, Hall, Bourdieu, Bakhtin, Certeau e Boaventura, dentre outros. Foi traçado um passeio gastronômico que passou pelos estabelecimentos de restauração como restaurantes, bares, lanchonetes, quiosques e boxes de mercado, com conversas com comensais e restauradores donos e chefs de cozinha, bem como, pelas comidas degustadas nesses locais. Dentre as categorias apresentadas estão a comensalidade, as festas, o gosto, o lazer, a distinção, o gourmet, a etiqueta, os ambientes público e privado, a cidade, a memória, a identidade e mesmo, o desafio da Gastronomia em encampar estudos socio antropológicos. Como resultado, construiu-se uma espécie de mapas de trajetos. Esses trajetos do comer são fortemente marcados por modismo, marcas de distinção social, hibridismos, um pensamento do que vem a ser o lazer, o que se deve comer e como se portar para parecer distinto, não chega a estabelecer-se um circuito, mostra-se mais como trajetos de comida, onde o tradicional, a comida doméstica da memória, dos dias de festa, da identidade sertaneja do município, receitas antigas e sabores reconfortantes ficam em segundo plano relegadas a um espaço menor, o da tenra memória de idos tempos ou do esquecimento e são substituídos pelos fast foods, comidas híbridas e ditas globalizadas, pelo aspecto de cidade pólo que o lugar ostenta, com avidez de inserção na sociedade de espetáculo. A comida é marca dos tempos e da prática do homem.
-
Entre o "Saudável" e o Tradicional: Trajetórias, Mercados e Disputas de Poder no Patrimônio Alimentar do Caminho de Cora.
— Marlon Henrique Costa de Castro
— Marlon Henrique Costa de Castro
Este trabalho analisa as trajetórias e as reconfigurações do patrimônio alimentar em duas cidades históricas de Goiás Pirenópolis e a Cidade de Goiás articuladas pelo projeto turístico "Caminho de Cora". A partir de uma etnografia realizada "de perto e de dentro" , investigamos os fluxos de poder e as tensões que emergem entre a produção de pequenos produtores locais e a demanda do mercado turístico. Em Pirenópolis, os resultados apontam para a predominância de um discurso de "alimentação saudável" e "orgânica", muitas vezes apropriado como valor de mercado para o consumo externo, em detrimento de simbologias tradicionais locais. Em contrapartida, na Cidade de Goiás, a comida é mobilizada como um forte marcador de identidade e memória, evidenciado no contraste entre a apresentação "polida" do empadão para turistas em Pirenópolis e o rigor tradicional servido em cumbucas de barro na antiga capital. O estudo também destaca a fragilidade dessas trajetórias, revelada no trabalho de doceiras tradicionais que, apesar da visibilidade patrimonial, enfrentam a escassez de retorno financeiro. Conclui-se que o turismo redefine hábitos e fronteiras alimentares, transformando a comida em um campo de disputa material e simbólica onde a tradição é constantemente tensionada pela lógica do consumo.
Palavras-chave: Antropologia da Alimentação; Patrimônio Alimentar; Turismo; Goiás.
-
Comida e memória: Uma etnografia com estudantes africanos na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM)
— Medilanda Eliseu Amós Tubento Sanca, Jamiro Paulo Sanca
— Medilanda Eliseu Amós Tubento Sanca, Jamiro Paulo Sanca
Na UFSM, a presença dos estudantes africanos é uma realidade, e estes vivem entre dois mundos. Se por um lado, vivem mantendo os elementos culturais dos seus países de origem na tentativa de preservar a identidade, por outro lado, buscam se enquadrar na cultura brasileira. Um dos elementos visíveis na vida cotidiana destes estudantes é a comida. E “de tudo o que os seres humanos têm em comum, a comida é o mais comum pois precisam comer e beber” (Simmel, 2004). A comida sempre é acionada nos encontros destes estudantes, como um elemento cultural, algo que remeteria ao continente, que os acompanha nessa mobilidade, dos seus países para Santa Maria, Brasil. Esse fato é explícito na fala da Fatumata na preparação de uma destas atividades: “Vamos fazer nossa comida! Sabe, aquelas comidas bem africanas, mesmo” (risos), aquele caldo de mancarra, o funghi”. Dentre inúmeras coisas que acontecem nas suas vivências, a comida sempre se destaca, como enfatiza estes interlocutores: Bacar comenta: “a comida é cultura, por isso não como no RU ”Jônatas fala: “eu prefiro tempero da minha mãe”, depois do passamento físico dela, uma das coisas que faço talvez para me reconectar com ela foi cozinhar, pegar as receitas dela para cozinhar, era como se fosse um refúgio para mim, a memória da comida me faz lembrar da comida dela, é meio que manter a pessoa dela viva”. Rui disse: “Os israelita ao sair do Egito reclamavam muito, das cebolas, das carnes e comida do Egito! Eu não estou reclamando da comida, mas arroz feijão, arroz feijão todo dia cansa também! Mas eu também não quero voltar para Nigéria, mas queria comer fufu, peixe, inhame, mandioca, mandioca muito bom! Essas observações e falas sobre comida e memória justificam a proposta da escrita deste trabalho, que foi construído metodologicamente por meio das observações e convívios dos/com estudantes africanos, nas “junta panelas” dos finais de semana ou feriados, nas atividades oficiais da universidade, tais como Semana de África, nas comemorações das independências. Além disso, soma-se as leituras da disciplina de Introdução a Antropologia da Alimentação, e as entrevistas com estudantes africanos de Angola, Nigéria, Gana e Moçambique. Os autores que vos escrevem são estudantes guineenses e africanos, inseridos nesse meio acadêmico e na comunidade africana. Essa inserção permite-lhes vivências com tais estudantes e viabiliza a observação participante, nesse campo. A comida, portanto, foi considerada amplamente, na sua produção, preparação, distribuição, consumo, tomando-a como parte “do alimento nas suas operações humanas ubíquas, que se desdobram em dimensões ecológicas, econômicas, sociais, nutricionais e simbólicas (MINTZ, 2001), dimensões que perpassam a vida destes estudantes.
-
O circuito de alimentos orgânicos em Campo Grande (MS): trajetórias da agricultura familiar entre o campo e a cidade
— Tiago Eloi de Lima
— Tiago Eloi de Lima
Este trabalho aborda a criação, ascensão, queda e reconstrução da primeira cooperativa de produtores(as) de orgânicos de Campo Grande - MS: Cooperativa dos Produtores Orgânicos da Agricultura Familiar de Campo Grande (Organocoop). Atualmente, em formato de associação, a organização se reorganiza na Associação Sul-mato-grossense de Produtores de Orgânicos e Agroecológicos (Asulpoa). Partindo por uma orientação etnográfica da única feira de produtos orgânicos e agroecológicos da cidade, o trabalho desvenda histórias de pequenos(as) produtores(as) rurais da agricultura familiar, envolvidos entre um passado campesino agrário, um presente cada vez mais urbano e rumos de um futuro cada vez mais digital, na luta por uma alimentação saudável, respeito territorial e economia circular. Em meio ao trânsito de uma vida rural e o acesso ao mercado urbano, entre a tradição de práticas agrícolas ecológicas e a pressa consumista da modernidade, o estudo analisa a história do grupo, desde as dificuldades da manutenção da vida campesina às vendas nas feiras da cidade, além do contraste com o agronegócio e políticas públicas acessadas. O trabalho evidencia desafios da produção orgânica e a prática agroecológica, dinâmica nas barracas, processos em direção ao delivery e sobrevivência da agricultura familiar em uma cidade com cada vez mais adeptos aos supermercados, marcada pela queda no número de produtores rurais e vendas nas feiras, reconfigurando a manutenção do comércio. O trabalho é dividido em duas etapas. A primeira parte de uma etnografia da Feira de Orgânicos na cidade, onde são analisados aspectos de venda do grupo, suas práticas, clientela, estratégias, hábitos e ciclos de manutenção das feiras. A segunda, consiste em ida a campo nas chácaras e sítios, com uma etnografia rural e composta por entrevistas, onde são apresentadas histórias do grupo, da terra, do alimento e do universo da produção de orgânicos da cidade. A ideia é ampliar o conceito de cidade não auto-referente em que Campo Grande se enquadra, inconclusa com seu passado rural e em direção a um futuro urbano moderno. Por fim, pelas lentes da antropologia da alimentação, urbana e rural, o estudo problematiza o acesso de pequenos(as) agricultores(as) às terras, evidencia dificuldades na produção e venda de alimentos orgânicos, analisa políticas públicas e redes de comercialização acessadas pelo grupo. Caminhos para a preservação de uma cultura campesina agonizante são apontados pelos(as) interlocutores(as), buscando a harmonia ecológica entre a alimentação, comércio e território, nesta capital pra lá de rural.
Coordenação
João Daniel Dorneles Ramos (UFPEL), Josiane Wedig (UTFPR)
Pessoa debatedora
Simone Alves de Almeida (UNIFESP), Stella Maris Nunes Pieve (Grupo de Pesquisa - Resistências indígenas, quilombolas e camponesas diante do Antropoceno/Plantationoceno)
Este grupo de trabalho acolhe pesquisas que abordam relações multiespécies e resistências de povos indígenas, quilombolas, camponeses e de outros coletivos, na contracolonização do Antropoceno/Plantationoceno. Partimos da análise do colonialismo e da plantation como violências que expropriam territórios destruindo as condições de habitabilidade e acentuando as mutações climáticas de escala planetária, que afetam, distintamente, as comunidades. O modo de existência moderno-colonial-ocidental sustenta a dicotomia entre natureza e cultura, reduzindo os ecossistemas à condição de recursos exploráveis, rompendo vínculos vitais e erodindo a sociobiodiversidade. Contudo, a vida depende da relacionalidade entre diferentes espécies e das socialidades que possibilitem ressurgências. Em contraposição ao avanço do capital – materializado em monoculturas, mineração, construção de grandes obras de desenvolvimento, entre outros empreendimentos que têm provocado catástrofes – diversos povos realizam resistências, (r)existências e retomadas para cuidar de seus corpos-territórios. Tais experiências são constituídas por práticas e saberes cotidianos e territoriais, que estabelecem relações cosmopolíticas para compor mundos. Portanto, este GT objetiva criar um espaço coletivo de compartilhamento de pesquisas e ações realizadas por e em colaboração com coletivos indígenas, quilombolas, camponeses e outros povos ligados à terra e às agriculturas.
Títulos e Resumos
-
Fratura Animal: raça, espécie e a crítica antiespecista
— Akuenda Translésbicha
— Akuenda Translésbicha
Este trabalho investiga como o veganismo, ao tratar a exploração animal como falha ética individual e ao universalizar um sujeito moral abstrato, estabiliza fronteiras rígidas entre “humano” e “animal” que foram historicamente produzidas pela modernidade. O arcabouço teórico articula a noção de “dupla fratura da modernidade”, de Malcolm Ferdinand (2022), com a crítica de Aph e Syl Ko (2017) à categoria “animal” como âncora da supremacia branca, para propor o conceito de Fratura Animal. Essa categoria analítica nomeia o ponto em que raça, espécie e colonialidade se coproduzem: a animalização como tecnologia de desumanização, a humanização como privilégio racializado, a natureza como ambiente do animalizado e a cultura e a política como trunfos da excepcionalidade humana. A partir dessa chave, o artigo amplia o entendimento das interações entre racismo, exploração animal e crise ecológica, mostrando que a distinção humano/animal não é apenas ontológica ou moral, mas um operador político que organiza regimes de vida e morte, distribui vulnerabilidades e legitima formas de violência. Ao deslocar o debate do registro normativo universalizante para a genealogia das categorias e seus efeitos materiais, o trabalho contribui para uma crítica antiespecista situada, atenta às continuidades coloniais que estruturam tanto a produção do “animal” quanto as promessas de emancipação associadas ao veganismo.
Palavras-chave: antiespecismo; colonialidade; racismo; veganismo; especismo
-
O recrudescimento onírico em meio às ruínas coloniais
— Alany Mariana Kardec do Nascimento de Oliveira
— Alany Mariana Kardec do Nascimento de Oliveira
As últimas notícias não mostram um quadro favorável para a mãe terra, para a humanidade e para os extra-humanos. Nos encontramos na liminaridade (in)consciente da crescente crise climática, humanitária e política. Com isso, as condições de vida no planeta e os meios de coexistência com a terra estão se alterando drasticamente. Ao que tange os dualismos insistentes das ciências humanas e sociais, como natureza e cultura, as feridas coloniais continuam abertas e escancaram imposições hierárquicas em um mundo marcado por ruínas e violências ambientais, epistêmicas e ontológicas (Povinelli, 2024). Apesar do campo onírico ocupar um lugar central na vida social de diversos povos ameríndios, funcionando como canal de acesso aos extra-humanos e encantados, campo de formação do corpo e ainda veículo de pensamento territorial e ecológico, o atual modo de existência antropocêntrico dominante no Ocidente relega o sonho a um espaço marginal, em vista do capitalismo tardio que privilegia o domínio da vigília produtiva. Nesse sentido, o sonho ameríndio ganha contornos ambientais para além dos dualismos impostos, uma vez que é um espaço de luta, memória e existência. Ao conectar múltiplas formas de (r)existência, o onírico atua como “mecanismo” de negociação e recomposição com mundos outros, frequentemente negligenciados devido às práticas coloniais, resgatando não apenas práticas e ensinamentos ancestrais, como também transmitindo as aflições da floresta e outros territórios devastados. Assim, a presente comunicação parte inicialmente de uma revisão crítica de etnografias e estudos recentes sobre os sonhos ameríndios, tendo como objetivo central investigar os potenciais cosmopolíticos (Stengers, 2018) oníricos que se destacam em alguns povos indígenas do Brasil, como entre os Yanomami e os Tupi Guarani. Como prática cotidiana e extracotidina, o sonho é exercido muitas vezes por meio de uma pedagogia ancestral e como “tecnologia” de conhecimento territorial, logo, a recepção do sonho é fundamental para o tratamento de certas ações e possíveis interpretações, assim como a flexibilidade intrínseca para mapear, reconhecer territórios e localizar recursos são indicativos que esse campo se articula como dispositivo político de resistência e afirmação dos modos de existência frente às crises climáticas, reconhecendo seres outros e a necessidade de negociação com estes como essenciais para a produção e manutenção da vida.
-
Resistências humanas e extra-humanas Kaingang na Aldeia Alto Pinhal (PR): a floresta (nen) e as águas (gój)
— Carlos Frederico Branco, Josiane Carine Wedig, João Daniel Dorneles Ramos
— Carlos Frederico Branco, Josiane Carine Wedig, João Daniel Dorneles Ramos
Este trabalho de pesquisa vem sendo realizado na Aldeia Alto Pinhal, município de Clevelândia, no sudoeste do estado do Paraná, desde o ano de 2014. As conversas estabelecidas com a comunidade são referentes aos processos de resistências Kaingang frente ao avanço colonial a partir da cosmopolítica estabelecida com os extra-humanos, como as plantas, as nascentes, os rios e entidades que compõe o cosmo. Um dos principais interlocutores é o senhor Euclides Borges, curandeiro da Aldeia, que estabelece relações com o Monge São João Maria. Ele nos levou a conhecer vários olhos d'água do Monge São João Maria no município, incluindo um olho d'água próximo da Aldeia onde ele realiza benzimentos, curas e batismos. Euclides relata experiências oniricas com seus tronco velhos, seus avós maternos e paternos, que lhe repassam conhecimentos para a realizações de curas através das plantas, da água e das rezas. As águas (gój) e a floresta (nen) são composições importantes na realização de curas, elas permitem a própria existência Kaingang. Segundo Euclides, ao retomarem a área atual da Aldeia em 2007, as águas do Arroio Cachoeirinha foram importantes, seja na coleta de água para consumo ou o seu uso para banho e lavagem de roupas. Atualmente, as águas desse arroio são imprórias para o consumo, pois estão poluídas contudo, elas se mantém como um território de proteção da mata existente na Aldeia, como um território de fronteira com os não indígenas (fóg). Outro vínculo importante dos Kaingang é a floresta de araucárias (fág), que além de nomear a aldeia, elas compõe o cotidiano de Alto Pinhal, onde uma área é composta por diversas araucárias e seus frutos, o pinhão, além de fazerem parte da alimentação, é fonte de renda para diversas famílias no período de outono e inverno, quando os pinhões estão maduros. Atualmente ocorre a efetivação do projeto Agrofloresta Ancestral Kaingang junto com a Associação das Mulheres da Aldeia Alto Pinhal. O projeto envolve conhecimentos e práticas Kaingang da floresta que estão relacionados à alimentação e à cura, como por exemplo, a composição de uma horta medicinal e alimentar junto à escola, o plantio de um pomar com plantas ancestrais Kaingang, como araucárias, jabuticabas, pitangas e erva-mate. Essas experiências têm permitido refletir a resistência Kaingang a partir das relações comopolíticas e contra-coloniais, onde mulheres, homens e crianças, relacionam-se e territorializam o cosmo com a Floresta (nen) e com as águas (gój).
-
Mulheres Kaiowa e Guarani: contra o veneno, pelo futuro.
— Graciela Pereira Vilela Alencar
— Graciela Pereira Vilela Alencar
O presente texto é referente e faz parte da pesquisa de mestrado que venho (des)envolvendo no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGAnt/UFGD) junto às (e não sobre) mulheres indígenas kaiowa e guarani no Mato Grosso do Sul. As comunidades kaiowa e guarani no estado vivenciam um contexto ainda permeado pela colonização onde inúmeras violências, praticadas em conjunto pelo Estado, latifundiários e jagunços, atravessam seus corpos-territórios tendo como objetivo final a expropriação de terras ancestrais indígenas, com a expulsão ou eliminação dos povos e a destruição dos ecossistemas em que historicamente praticam seu modo de vida. O objetivo aqui é situar e discutir a importância das mulheres nos cuidados com seus parentes e com a Mãe-terra, tendo em vista que suas práticas proporcionam a manutenção da cultura e a transmissão dos valores ao longo das gerações. Na atualidade, onde já experienciamos catástrofes climáticas a nível global, mas que se relacionam a realidades locais, pontuais, é primordial dar atenção ao modo como as mulheres atuam sobre esse processo, construindo estratégias de continuidade de seu sistema social e de luta por seus territórios, afastando assim o fim do mundo ao mesmo tempo em que constroem outros mundos. Na revisão bibliográfica e em campo, dou prioridade aos saberes indígenas e de mulheres, aos contemporâneos e aos ancestrais, utilizando a metodologia etnográfica de interação in loco com as/os interlocutoras/es indígenas, participando do seu cotidiano de vida especialmente em territórios auto demarcados/retomadas.
-
Uma reforma agrária urbana: habitar a cidade em um gesto de reparação das fraturas ecológicas
— Igor Artur de Freitas Martins
— Igor Artur de Freitas Martins
Habitar a cidade como uma testemunha da violência da fome pode ser paralisante porque, quando confrontados com a violência que se infiltra nas relações e age como uma atmosfera que parece não poder ser expulsa, a linguagem frequentemente nos trai na tarefa de criação do presente. Mas habitar a cidade com essa violência também nos impele a confrontá-la com gestos de cuidado que se atentem em reparar o sofrimento causado por ela. Da mesma forma, impelida por esses gestos, esta pesquisa trata dos mutirões agroecológicos realizados pelo coletivo Marmitas da Terra, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) de Curitiba, para cuidar de hortas comunitárias no Assentamento Contestado ¬— um assentamento rural da Lapa — e na Vila 29 de Janeiro — uma ocupação urbana de Curitiba. Esses mutirões, que começaram a ser organizados durante a pandemia de covid-19 contra o avanço da fome em Curitiba e Região Metropolitana, visam o cultivo de hortaliças para a produção de marmitas destinadas a pessoas em situação de insegurança alimentar e o engajamento com comunidades para o fortalecimento da autonomia popular. Partindo da minha participação nesses mutirões como pesquisador e voluntário, a proposta deste texto é refletir sobre as formas que a relação entre o urbano e o rural assume no projeto de Reforma Agrária Popular do coletivo ao articular, nos mutirões, cidade e agroecologia. Essa velha fratura que imagina esses dois espaços como zonas existenciais radicalmente separadas é, para os militantes do Marmitas, um dos pilares da desagregação comunitária. Contra ela, na tentativa de reparar essa fratura em suas ações, a aposta do coletivo é mostrar a indissociabilidade das cidades com as lavouras, a qual se apresenta hoje na precarização da existência através de uma política da fome nas periferias urbanas. Com o trabalho na 29 de Janeiro, mas também em outros espaços urbanos, seu objetivo é mostrar que é possível construir hortas na cidade e produzir alimentos saudáveis de forma comunitária para lutar pela soberania alimentar das comunidades. É isso que eles chamam de Reforma Agrária Popular. Nesse sentido, os mutirões se propõem como momentos de constituição de uma socialidade no movimento de entrelaçamento do campo com a cidade. Assim, articulam dois espaços, dois ritmos, duas lógicas, que permanecem separados em outras narrativas. Essa composição singular é orientada por uma atitude de atenção à alteridade, uma solidariedade que cuida e que, para o coletivo, não é apenas um valor humanista, mas um método organizativo para enfrentar o capitalismo.
-
Encontro de saberes em uma experiência de recuperação florestal
— Joaquim Augusto de Araujo
— Joaquim Augusto de Araujo
Nesta pesquisa, proponho acompanhar uma experiência de recuperação ambiental na área hoje ocupada pelo reservatório principal da usina hidrelétrica de Belo Monte, onde está sendo criado o Território Ribeirinho, uma iniciativa de reterritorialização de famílias ribeirinhas deslocadas pela construção da usina para as margens do rio Xingu. A intenção é investigar como os modos de fazer e de viver das famílias ribeirinhas e sua instalação, ao longo da última década, em um território alterado tanto pelo desmatamento como pela instalação da usina, tem resultado na recuperação florestal de áreas degradadas. Essa proposta contribui com dois objetivos específicos do projeto maior em que se insere: 1) a análise dos usos pretéritos e atuais do território com foco nos sistemas agroflorestais; e 2) no conhecimento e uso dos recursos florestais pelas comunidades locais. Além de acompanhar as experiências de reflorestamento em andamento, os resultados desta pesquisa devem contribuir com o próprio processo de restauração ambiental de territórios tradicionais degradados ao fornecer subsídios sobre como as populações locais compreendem o território e seus usos.
-
Guarani e Kaingang no Planalto Ocidental Paulista: Arqueologia x Agronegócio
— Neide Barrocá Faccio
— Neide Barrocá Faccio
O estudo dos assentamentos indígena do Oeste Paulista evidencia uma longa continuidade territorial e cultural dos povos Kaingang e Guarani, contrariando, no caso dos Kaingang, interpretações historiográficas que restringem sua presença a períodos mais recentes (Faccio, 2025). Pesquisas arqueológicas realizadas no âmbito do Museu de Arqueologia Regional da FCT/UNESP demonstram a existência de assentamentos pré-coloniais Kaingang e Guarani de pequeno porte, localizados fora das áreas tradicionalmente associadas aos grandes rios, como o Paranapanema, o Paraná e o Tietê (Faccio, 1992; Rodrigues, 2007; Faccio et al., 2022). Datações entre 380 ± 70 AP e 570 ± 80 AP confirmam a ocupação Kaingang no extremo Oeste Paulista em período anterior ao contato colonial, evidenciando a ancestralidade desses territórios (Rodrigues, 2007; Faccio et al., 2022, Tosso, 2025).
As análises cerâmicas, fundamentadas no estudo da cadeia operatória, indicam a resiliência tecnológica e estilística de ambos os povos, mesmo em contextos de coabitação territorial. A presença de cerâmica Guarani em assentamentos Kaingang e de cerâmica Kaingang em sítios Guarani sugere interações interétnicas complexas, possivelmente relacionadas às investidas coloniais e ao deslocamento forçado dos Guarani para áreas menos acessíveis, tradicionalmente ocupadas pelos Kaingang (Faccio et al., 2022). Esses dados arqueológicos reforçam a hipótese de continuidade entre os assentamentos pré-coloniais e aqueles descritos pela etnografia e pela historiografia, ampliando a compreensão dos sistemas de ocupação indígena no Planalto Ocidental Paulista (Robrahn, 1989, Faccio, 2025).
No contexto contemporâneo, observa-se que esses territórios ancestrais indígenas seguem sob intensa pressão, principalmente, da monocultura da cana-de-açúcar, no Planalto Ocidental Paulista. A expansão do agronegócio, de modo geral, dificulta a retomada de áreas ancestrais indígenas, em um cenário em que os indígenas ficam restritos ao uso de uma pequena área, insuficiente para o desenvolvimento de suas práticas culturais, como, por exemplo a pesca e a coleta de sementes, de penas e de corantes. Ainda, nessas envoltas pelo plantio de cana-de-açúcar tem-se a diminuição das espécies de pássaros e das espécies vegetais.
Conclui-se que a articulação entre dados arqueológicos e análises ambientais contemporâneas evidencia a persistência histórica dos povos indígenas no Planalto Ocidental Paulista e os efeitos cumulativos da violência territorial, desde o período colonial até a atual expansão do agronegócio, configurando um cenário de violação dos direitos indígenas assegurados pela Constituição Federal de 1988.
-
O avanço do agronegócio no entorno da TI Vanuíre (SP): análise da evolução do uso e cobertura do solo e percepções locais sobre os impactos socioambientais
— Rafael Kenisley de Oliveira, Neide Barrocá Faccio, Paulo Eduardo Valerio Barbulho, Júlia Araújo Carvalho, Dirce Jorge Pereira, Susilene Elias de Melo, Elizeu Caetano
— Rafael Kenisley de Oliveira, Neide Barrocá Faccio, Paulo Eduardo Valerio Barbulho, Júlia Araújo Carvalho, Dirce Jorge Pereira, Susilene Elias de Melo, Elizeu Caetano
O Estado de São Paulo, assim como o restante do país, foi marcado por uma colonização violenta e pelo massacre de diversos povos indígenas (Peggion; Danaga, 2016). A Arqueologia comprova antigos assentamentos Kaingang nos vales dos rios Aguapeí e do Peixe região da Terra Indígena (TI) Vanuíre , com cerâmicas datadas de até 570 ± 80 AP, caracterizando a área como território ancestral (Rodrigues, 2007 apud Toso, 2025, p. 90; Faccio, 2019). Marcados por relações de escambo, conflito e escravidão, esses povos foram massacrados conforme os não indígenas avançavam sobre os territórios indígenas (Monteiro, 2016). O bandeirismo iniciou as invasões e sistemas escravagistas, intensificados pelas Capitanias Hereditárias (Taunay, 1937; 1924; 1925; Brasil, 1948 apud Carvalho, 2023, p. 51) e posteriormente pela expansão cafeeira e construção das ferrovias. Nota-se que a violência contra os indígenas sempre caminhou junto aos interesses econômicos dos grandes posseiros de terra. Diante disso, é necessário compreender como o agronegócio se expande no entorno das terras indígenas e os impactos provocados nesses territórios e nas formas de manutenção cultural.
Dito isso, este trabalho propõe-se a analisar o aumento das fronteiras agrícolas no entorno da TI Vanuíre, nos municípios de Arco-Íris e Tupã (SP), entre 1985 e 2023, discutindo os impactos ambientais e socioculturais sobre os povos que ali residem. A metodologia baseou-se no uso de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), com o QGIS e a plataforma MapBiomas, para mapear o uso e a cobertura do solo nos períodos analisados. Os produtos cartográficos foram discutidos com três moradores indígenas da TI (dois Kaingang e um Guarani Nhandeva), que apresentaram percepções locais sobre o avanço do agronegócio e seus impactos socioambientais.
Os resultados apontam para o crescimento do agronegócio a partir de 2005 principalmente da agricultura especializada e mecanizada , evidenciando o avanço predatório sobre o território ancestral, sobretudo da cana-de-açúcar, cuja área passou de cerca de 5 mil hectares, em 1985, para aproximadamente 17 mil hectares, em 2023. Relatos dos indígenas e a literatura analisada confirmam a contaminação de nascentes por agrotóxicos e a eliminação de espécies nativas no pequeno fragmento de mata da TI. Essa degradação acarreta problemas socioambientais, como a perda de sementes inviabilizando artesanatos e rituais , além de potenciais danos à saúde. Conclui-se que a expansão agrícola no entorno da TI Vanuíre impede o exercício pleno dos direitos assegurados no artigo 231, § 1º e § 2º da Constituição Federal de 1988, que garantem aos Povos Indígenas as condições ambientais necessárias ao seu bem-estar e à sua reprodução física e cultural, segundo seus usos e costumes tradicionais.
-
Agroecologia como cuidado do corpo território
— Sofia Silva Lemos
— Sofia Silva Lemos
Este trabalho discute a agroecologia como uma prática de cuidado do corpo-território, articulando contribuições do pensamento decolonial e do ecofeminismo. Parte-se da noção de corpo-território, afirmada por feminismos indígenas, negros e camponeses de Abya Yala, que compreende corpo e território como dimensões indissociáveis, afetadas conjuntamente pelos processos históricos de colonização, patriarcalização e mercantilização da vida. Nesse sentido, as violências dirigidas aos territórios — como a expropriação da terra, a imposição das monoculturas e o uso intensivo de agrotóxicos — incidem diretamente sobre os corpos, sobretudo os corpos das mulheres, historicamente responsabilizadas pelo cuidado da vida e, simultaneamente, desvalorizadas e marginalizadas por esse trabalho. E são também as mulheres que, muitas vezes, organizam a resistência a partir da agroecologia em suas comunidades.
Em um contexto de crise civilizatória e de sindemia global, marcada pela coexistência de fome, subnutrição, obesidade e mudanças climáticas, a agroecologia emerge como uma estratégia de (r)existência frente ao modelo hegemônico do agronegócio e da agricultura patronal. A partir de experiências protagonizadas por mulheres agricultoras, povos indígenas, comunidades quilombolas e camponesas, a agroecologia é compreendida não apenas como um conjunto de técnicas produtivas, mas como um modo de vida que valoriza saberes ancestrais, relações multiespécies, circuitos curtos de produção e a autonomia dos territórios.
O artigo dialoga com o conceito de cuidado enquanto ética e prática política, destacando sua centralidade para a sustentabilidade da vida humana e não humana. Ao politizar o cuidado — com a terra, as sementes, a alimentação e os corpos — a agroecologia tensiona hierarquias de gênero, raça e classe, promovendo processos de emancipação social, construção de territórios sustentáveis e saudáveis e fortalecimento da soberania alimentar. Compreende-se que o cuidado do corpo-território constitui um eixo fundamental para a construção de alternativas ao sistema agroalimentar dominante, contribuindo para o bem viver das comunidades e para a reconfiguração das relações entre humanos e natureza. Perceber o Antropoceno a partir das agriculturas implica reconhecer as responsabilidades históricas do colonialismo e valorizar as experiências que, a partir dos territórios, produzem formas contra-hegemônicas de habitar e cuidar do corpo e da Terra, formas essas que valorizam a diversidade, resistem à dominação e criam redes que sustentam a soberania popular e a manutenção da vida.
Coordenação
Alexsânder Nakaóka Elias (UNIMONTES), Daniele Borges Bezerra (UFPEL)
A Antropologia percorreu longo caminho desde as suas primeiras preocupações com as imagens, assim como com as implicações da mediação tecnológica no trabalho de campo. Com efeito, foi a partir das experimentações iniciais em Antropologia (Audio)visual que surgiram reflexões pioneiras sobre as fronteiras difusas entre ciência e arte, realidade e representação, objetividade e subjetividade. Essas experiências também destacaram a centralidade das emoções, da multissensorialidade e da dimensão narrativa da etnografia, em todas as suas linguagens. Nesse sentido, este GT colocará em diálogo as múltiplas práticas etnográficas e perspectivas teórico-metodológicas que envolvam a produção, recepção e reflexão acerca das imagens na Antropologia, sejam elas fotos, desenhos, filmes, mídia social, grafites, arte corporal, montagens, imagens geradas com IA, entre outras. O intuito não é o de criar um dualismo ou ruptura com a escrita, tampouco acionar as imagens em pesquisa como meras coadjuvantes do processo de conhecimento. Trata-se, antes, de ponderar sobre narrativas multimodais surgidas da convergência dessas distintas e potentes linguagens, bem como das diversas formas de relação, apreensão e reapresentação do campo. Assim, serão aceitas contribuições que reflitam sobre os regimes de produção (audio)visual no campo etnográfico, enfatizando o caráter dialógico e compartilhado; assim como aportes que ressaltem os aspectos teóricos-metodológicos das produções imagéticas na Antropologia.
Títulos e Resumos
-
APÃNJEKRÁ, MEMORTUM’RÉ: OS CANELA NA HISTÓRIA Análise de um filme etnográfico entre dois povos Timbira
— Adalberto Luiz Rizzo de Oliveira
— Adalberto Luiz Rizzo de Oliveira
Este trabalho apresenta o filme etnográfico Apãnjekrá, Memortum’ré – Os Canela na História (2019), pautado em metodologias da Antropologia Visual. Resulta de um processo de pesquisa de longa duração desenvolvido nas últimas décadas e reflete em audiovisual os principais temas pesquisados. Através da narrativas de um ancião canela apresenta o mito de Awkhêe, elemento da mitologia Timbira (Macro-Jê) que aborda sobre a origem do Kupên (não-índio) e as relações de poder estabelecidas com esses povos. Essa abordagem é feita de forma paralela à narrativa deste ancião sobre a Paixão de Cristo A seguir apresenta uma narrativa sobre o movimento messiânico canela de 1963 e os conflitos junto a segmentos sertanejos decorrentes deste processo. O filme apresenta ainda, o ritual de iniciação Ketwayê e a formação de novos líderes políticos e cerimoniais associada a este ritual. Através de narrativas de um líder ritual e político tematiza sobre as dificuldades relacionadas à transmissão dos cantos e rituais às novas gerações dos Canela. Aborda, ainda, temas relacionados à vida contemporânea desses povos, como educação escolar, questões de territorialidade e projetos de etnodesenvolvimento, a partir de narrativas de líderes políticos, professores indígenas e de um agente tutelar. Esses temas são analisados por um antropólogo com longa experiência de pesquisa junto a esses povos. Conclui-se pela persistência de uma perspectiva messiânica entre os Canela, marcada pelo seu desejo de incorporação dos recursos da sociedade envolvente e de equidade no plano das relações intersocietárias.
-
Laboratório Multiuso Audiovisual de Pesquisa Etnográfica: uma experiência de pesquisa, ensino e extensão
— Alexsânder Nakaóka Elias, Felisa Cançado Anaya
— Alexsânder Nakaóka Elias, Felisa Cançado Anaya
Este trabalho tem como objetivo elucidar a experiência de pesquisa, ensino e extensão desenvolvida, desde 2024, no âmbito do “Núcleo Interdisciplinar de Investigação Socioambiental” (NIISA/Unimontes), a partir da implantação do “Laboratório Multiuso Audiovisual de Pesquisa Etnográfica com Povos Tradicionais e Desenvolvimento Sustentável”, financiado pela Fapemig. O projeto possibilitou a aquisição de equipamentos de fotografia, cinema e som, de uma ilha de edição de áudio e vídeo, bem como a incorporação e a formação de pesquisadores/as doutores/as no campo da Antropologia Visual, contribuindo para a elaboração e experimentação de metodologias audiovisuais no campo etnográfico. Nesse período, o Laboratório ofertou disciplinas na pós-graduação, oficinas em linguagens audiovisuais, realizou etnografias filmadas das discussões sobre Protocolos de Consulta Livre, Prévia e Informada junto às comunidades tradicionais vazanteiras e quilombolas do médio São Francisco (Lapinha, Pau Preto, Pau de Légua e Quilombo de Praia), organizou Mostras locais e nacionais de Filmes Etnográficos e de Fotografia sobre a temática dos Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) e produziu oito entrevistas etnobiográficas junto à lideranças comunitárias, que atualmente se encontram no estágio de decupagem e transcrição. Desses processos resultou um acervo profícuo, constituído por etnobiografias, fotografias, filmagens, áudios, desenhos e diários de campo, um material heteróclito composto por múltiplas “grafias” (Ingold, 2012, 2015). Além disso, o Laboratório, a partir da criação do grupo de pesquisa “Toró”, vem se consolidando como um importante espaço de pesquisa, ensino e extensão, formado por docentes e estudantes de graduação e pós-graduação, dos mais variados campos do conhecimento (Antropologia Social, Direito, Cinema e Audiovisual, Biologia, Psicologia, etc.). A incorporação das tecnologias audiovisuais como dispositivos etnográficos, junto ao NIISA, tem contribuído para a inovação teórico-metodológica de seus/suas integrantes, que vêm realizando pesquisas interculturais, de longa duração, junto aos PCTs com quem trabalha. Um diálogo que permite a continuidade empírica das experiências de campo, fortalecendo o compromisso ético-político com os grupos étnicos da região, ao investir em processos formativos situados e na produção de uma Antropologia Audiovisual compartilhada (Rouch, 1955).
-
Filmar a espera: aprendendo a ver com os pescadores do Campeche, Florianópolis (SC)
— Artur Hugo da Rosa
— Artur Hugo da Rosa
Busco, nesse artigo, compreender as estratégias teórico-metodológicas da antropologia visual aplicadas à documentação da pesca artesanal da tainha no Campeche (Florianópolis/SC), acompanhando um dia de pesca com a parelha do Rancho do Seu Getúlio. Partindo da premissa de que, parte do trabalho da pesca é “olhar o mar”, logo se constitui uma tecnologia de aprender com (INGOLD, 2022), reflito por meio da produção de um diário de campo visual, explorando um paralelo entre o ofício do pescador, baseado na visão "analógica" de monitoramento da paisagem e a prática do pesquisador munido de uma câmera digital. A produção do diário visual (um mini-documentário) opera como mecanismo de tradução desse tempo de espera. Argumento que o registro audiovisual da "espera" na praia não captura um “tempo morto”, mas revela a taskscape (INGOLD, 2022), ou seja, as tarefas de uma paisagem composta pela relação pescador-ambiente. O ato de filmar, neste contexto, não se limitou ao registro passivo, mas constituiu um exercício de filmar com os pescadores, onde a câmera opera como instrumento de aprendizado e leitura do campo. Entre outras funções, diante das rápidas transformações urbanas e da pressão imobiliária sobre o território da pesca do Campeche, o registro visual em vídeo transcende o registro nostálgico, sendo também um dispositivo de salvaguarda, capaz de projetar futuros possíveis e legitimando a complexidade técnica desse saber-fazer.
-
Do digital ao material: processos de montagem e edição de uma pesquisa com fotografias de arquivo
— Bruna Triana
— Bruna Triana
Este trabalho busca problematizar e refletir sobre os processos de montagem, composição e edição, em brochuras, da pesquisa realizada com as imagens digitalizadas do acervo do fotógrafo moçambicano Ricardo Rangel. A investigação, realizada no Centro de Documentação e Formação Fotográfica (CDFF), arquivo público localizado em Maputo, buscava analisar o acervo e contexto de produção e atuação de Rangel, problematizando sua obra na elaboração de memórias e histórias sobre o cotidiano de Maputo no período tardo-colonial (1950-1975), bem como seus usos e contra-usos no presente.
Contudo, a ideia de fazer um “caderno de imagens” separado do texto foi tomando novos contornos a partir das experimentações materiais. A montagem deixou de ser apenas a articulação digital de fotografias entre si e passou a explorar a materialidade do papel que as comportava, seus formatos, dobras, possibilidades e aberturas narrativas.
Vale dizer que esse processo de experimentação foi debatido e compartilhado coletivamente, o que foi fundamental para chegar nas construções relacionais entre imagens, encartes e textos. Se minha ideia inicial de fazer um “caderno de imagens” partia tanto do desejo de realizar montagens com as fotografias de Rangel, quanto pela percepção de que, ao separá-las do texto escrito, eu conseguiria trazer ao leitor potencial da pesquisa alguns deslocamentos na leitura, foi no processo dialogado de experimentação e edição visual-material que se tornou possível construir relações imagéticas e conceituais da montagem enquanto procedimento teórico-metodológico.
Nesse percurso, foi se constituindo a proposta de um dispositivo visual-material que convidasse o leitor a tocar, manusear e interagir com as imagens, muitas delas esquecidas no arquivo. As montagens e cadernos buscaram configurações que possibilitassem caminhar pelas fotos, abrindo e descobrindo imagens, jogando com combinações e, a partir delas, constituir planos capazes de provocar, ampliar e intensificar as discussões e relações suscitadas entre imagens e textos. Dessa forma, cada brochura ou encarte produzido acompanhou um eixo analítico que se converteu em formato: panfleto, dobradura, fanzine, sanfona, carta-convite.
Assim, a partir da descrição dos itinerários trilhados ao longo desse processo, analiso os procedimentos, desafios, impasses e potencialidades envolvidos no trabalho de transformar um campo em arquivos e com imagens em encartes manuais-materiais.
-
Mutações climáticas e o imaginário das IAs: Quando memórias e novas tecnologias se encontram
— Daniele Borges Bezerra, Juliane Conceição Primon Serres, Isadora de Leon Torres
— Daniele Borges Bezerra, Juliane Conceição Primon Serres, Isadora de Leon Torres
“Descreva a imagem que você tem em mente, e eu vou dar vida a ela” (CANVA IA, 2026).
Quais os limites e potencialidades abertos pelo surgimento das IAs generativas nos processos de produção multimodal em pesquisas científicas? Pensar o regime de imagens é ter presentes as relações intencionais produzidas por meio da visualidade, diretamente relacionadas ao poder, à técnica, à sensorialidade e às formas de conhecimento. O regime de imagens com o qual trabalhamos produz ressonâncias sobre as dimensões éticas e estéticas das narrativas construídas.
Por muito tempo, a produção de imagens esteve atrelada à ideia de talento ou dom, relacionada a uma noção estética purista e elitizada, sobretudo no campo das artes visuais e do cinema. Contudo, a antropologia desenhada, por exemplo, nos ensina que todos somos capazes de desenhar e que, antes da destreza técnica, o que importa é a capacidade de comunicar e as possibilidades abertas pelas imagens produzidas para a compreensão do universo cultural estudado.
As imagens também são forma de relação, estabelecida entre nós e o mundo, entre nós e nossos interlocutores, entre memórias e tecnologias, enfim, entre conhecimentos, práticas e saberes diversos, desde o mais intuitivo e sensível ao mais objetivo e maquínico. O surgimento das IAs generativas ainda é controverso e cercado por dilemas éticos importantes; no entanto, pode encorajar a produção de imagens em pesquisa, mesmo quando a pessoa pensa que não “sabe” desenhar, fotografar etc.
Por trás do trabalho com as imagens há um contingente de saberes e pensadoras que vieram antes de nós. O trabalho com imagens não é algo leve de se fazer em antropologia; pelo contrário, pode ser extremamente pungente e uma forma de comunicar o que, muitas vezes, não é possível dizer por meio de palavras. Trabalhar com imagens é acolher seus sentidos subterrâneos, seus simbolismos, suas potências e limitações e entender que os sentidos se completam por meio de uma via sensorial e até inconsciente, que está para além do quadro ou frame.
Neste trabalho, pretendemos provocar reflexões sobre a produção de imagens etnográficas geradas por Inteligência Artificial, articuladas ao contexto de um novo regime climático planetário (Latour,) e aos debates contemporâneos da antropologia (áudio)visual. Ao interrogar os regimes de imagens mobilizados por sistemas algorítmicos, investigamos em que medida essas tecnologias são capazes de dar forma sensível ao imaginado, produzir visualidades empáticas associadas aos desastres climáticos, preservar memórias e contribuir para a construção de narrativas críticas e a promoção de consciência sobre as relações entre pessoas, tecnologias e o planeta.
-
Os Modos de Fazer Imagem entre os Pataxó da Aldeia Imbiruçu (MG) e Os Desafios Teórico-metodológicos em Pesquisa
— Fabiano José Alves de Souza, Alexsânder Nakaóka Elias, Carlos Caixeta de Queiroz
— Fabiano José Alves de Souza, Alexsânder Nakaóka Elias, Carlos Caixeta de Queiroz
O presente trabalho tem como objetivo discutir os desafios teórico-metodológicos de uma pesquisa em curso com os Pataxó da Aldeia Imbiruçu, situada na Reserva Indígena Fazenda Guarani, em Carmésia (MG). O foco da investigação em andamento é compreender as percepções dos/as participantes da pesquisa sobre as linguagens audiovisuais digitais (especialmente a fotografia e o filme etnográfico) e como tais linguagens podem ser eficazes na circulação dos saberes tradicionais na/da aldeia. Com uma abordagem qualitativa, a proposta inclui a realização de oficinas de fotografias e de produção audiovisual, bem como a composição de grupos de discussão com os/as participantes. Os principais desafios teórico-metodológicos que se pretende apresentar neste resumo consistem, de início, no reconhecimento da diferença entre as “culturas” envolvidas na pesquisa. De um lado, podemos dizer, uma cultura branca, “civilizada” e marcadamente antropocêntrica; de outro, uma cultura indígena, diferenciada, não-antropocentrada, permeada pela presença de outros-que-humanos (Price & Chao, 2023). Tal diferença impõe o significativo desafio de não pautar a pesquisa a partir dos conceitos e instituições culturais dos próprios pesquisadores. Nesse sentido, o aporte teórico dialoga com as premissas da “antropologia reversa”, invocando a ideia do autoetnográfico e da autoantropologia a partir de uma troca equilibrada de perspectivas, conforme nos inspira Roy Wagner em “A Invenção da Cultura” (1975). Um segundo desafio teórico-metodológico, que se evidencia à medida que a pesquisa avança, refere-se ao modo pelo qual os Pataxó se garantem, isto é, como se autodeterminam e constroem a própria cultura. Observações iniciais sugerem que muitos dos processos vivenciados entre os Pataxó não demandam necessariamente a escrita, nem mesmo devem ser revelados ou enunciados, mas antes se organizam segundo uma lógica do segredo e da não publicação. Ante esses desafios, coloca-se a seguinte questão: como os Pataxó designam imagem, fotos, filmes? E, a partir daí, indagamos de que maneira esses elementos podem ou não estarem implicados na circulação dos saberes tradicionais? Os resultados parciais do trabalho de campo têm possibilitado boas reflexões acerca das diferenças culturais, bem como sobre o próprio modo ocidental de produzir e inventar cultura. As próximas etapas da pesquisa terão como ponto de investigação as lógicas que orientam a produção das imagens na circulação dos saberes tradicionais.
-
Palimpsestos fotográficos e memória ambiental: etnografia das paisagens de Porto Alegre/RS
— Felipe da Silva Rodrigues
— Felipe da Silva Rodrigues
Esta pesquisa apresenta uma investigação em Antropologia Visual que utiliza fotografias, do passado e do presente, como uma das linguagens na produção de conhecimento etnográfico sobre as paisagens urbanas de Porto Alegre/RS. Através da refiguração de palimpsestos fotográficos, a partir da superposição de imagens da cidade em diferentes temporalidades, explorando as potencialidades epistemológicas das imagens como forma de investigação e de fabulação de narrativas antropológica sobre as memórias ambientais e as transformações urbanas contemporâneas.
Os palimpsestos fotográficos operam simultaneamente como procedimento metodológico, dispositivo dialógico e procedimento etnográfico. Ao reunir fotografias antigas e atuais da cidade em composições visuais superpostas, a técnica torna visíveis as camadas temporais inscritas nas paisagens urbanas, revelando a rítmica temporal das transformações que configuram a experiência urbana contemporânea. Diferentemente de usos meramente ilustrativos da fotografia, aqui a imagem produz conhecimento próprio, evidenciando dimensões da vida urbana que escapam à narrativa exclusivamente textual.
Em diálogo com a etnografia da duração e com a etnografia da rua (Eckert e Rocha, 2013a, 2013b), a produção de palimpsestos permite investigar vestígios e rastros da memória urbana porto-alegrense através de uma narrativa multimodal que articula imagem, temporalidade e espacialidade. As paisagens são compreendidas em devir, acúmulos de formas superpostas resultantes de sucessivos planejamentos e práticas cotidianas inscritas materialmente no território.
A pesquisa reflete sobre implicações teórico-metodológicas do trabalho com imagens na Antropologia, considerando: os regimes de produção visual no campo etnográfico, incluindo processos dialógicos e compartilhados de coleta de fotografias de acervo; procedimentos técnicos da captação e superposição imagética como operação analítica; a potência narrativa dos palimpsestos fotográficos como forma de reapresentação etnográfica que torna sensível a duração temporal inscrita nas paisagens urbanas; a convergência entre diferentes linguagens na produção de conhecimento antropológico.
Ao propor os palimpsestos fotográficos urbanos (Rodrigues, 2023) como estratégia teórico-metodológica, esta pesquisa contribui para as reflexões sobre as múltiplas práticas etnográficas e narrativas que emergem do trabalho com imagens na Antropologia, e nesta pesquisa, sobre produção de conhecimento sobre processos de transformação urbana, e sobre as memórias dos territórios das cidades contemporâneas.
-
Alimentados de quê? Opções de alimentos aos motoristas de caminhão de longa distância nos pontos de parada e descanso
— Fernanda Lise, Flávia Lise Garcia, Claudia Turra Magni, Daniele Borges Bezerra, Wilson Teixeira de Ávila, Marina Longaray, Ana Paula do Nascimento de Andrade, Herison de Carvalho Silva, Mona Shattell
— Fernanda Lise, Flávia Lise Garcia, Claudia Turra Magni, Daniele Borges Bezerra, Wilson Teixeira de Ávila, Marina Longaray, Ana Paula do Nascimento de Andrade, Herison de Carvalho Silva, Mona Shattell
Os motoristas de caminhão de longa distância frequentemente realizam as suas refeições em pontos de parada e descanso, nas proximidades de postos de combustíveis. As opções de alimentos disponíveis nesses locais, caracterizam-se, em grande medida, por serem ricas em gordura saturada, produtos ultraprocessados e açucares, elementos reconhecidamente prejudiciais à saúde e associados ao aumento da incidência de doenças cardiovasculares. Quando comparados os valores nutricionais e monetários, percebe-se que as frutas ou um prato de uma refeição mais equilibrada nutricionalmente, tendem a ser menos atrativas em relação aos chamados “value meals” ou combos de bebidas açucaradas, hot-dogs, pizzas, hamburgers, batata frita, macarrão instantâneos ou donuts, cujo valor é de baixo custo, com mais itens agregados que uma refeição completa, mais saudável, o que contribui para sua preferência entre os motoristas. Além disso, esses locais parecem carecer de ambiente destinados ao consumo das refeições que favoreçam a interação social. Em geral, os motoristas encontram-se restritos aos restaurantes fast food, onde os motoristas precisam consumir produtos desses estabelecimentos para ter a oportunidade de realizar a refeição trazida de casa, preparada no caminhão, ou mesmo comprada na loja de conveniências localizadas nos postos de combustíveis. Junto a esta reflexão, apresentamos um ensaio fotográfico que apresentam algumas opções de alimentos disponíveis aos motoristas de caminhão de longa distância em pontos de parada e descanso de uma rodovia interestadual do estado do Oregon, Estados Unidos da América. As imagens que compõem o ensaio são resultado da observação direta, sistematizada e estruturada, realizadas em 17 visitas de observação em 13 pontos de parada e descanso da rodovia I-5, Oregon, entre setembro de 2023 e julho de 2024. Nessa reflexão a fotografia é vista como uma sequência de paisagens onde elas são “Boas para pensar”, por revelarem motivações de uma prática cultural (RECHENBERG, 2014), assim como, para pensar sobre os fatores socioculturais e ambientais (ACHUTTI, 1997; 2022; FACHEL LEAL; 2013) que influenciam no bem estar e na saúde dos motoristas de caminhão de longa distância. A partir desse estudo outros questionamentos surgiram, visando compreender a influência dos determinantes socioculturais e ambientais na saúde dos motoristas de caminhão de longa distância e de suas famílias, inspirada em conceitos de Achutti (2022) sobre a fotoetnografia compartilhada em saúde da Organização Sistêmica (Friedemann, 1995), no fortalecimento da abordagem à saúde do trabalhador e das famílias.
-
A cidade-imagem de Claudia Andujar: uma etnografia de sobrevoos e sobreposições de São Paulo
— Gabriel Lopes Franco de Godoi
— Gabriel Lopes Franco de Godoi
A presente pesquisa parte da interlocução com a série "São Paulo" (1974-2014), da fotógrafa Claudia Andujar, para se relacionar com a cidade-imagem produzida na fricção entre estas oito fotografias analógicas. A série é composta por um conjunto de duas fotos datadas de 1974 e seis datadas de 2014, as quais retratam a cidade homônima. Nos anos 1970, Claudia Andujar, com sua câmera, sobrevoou prédios e construções, focalizando a imensidão de concreto presente na capital paulista. Já nos anos 2010, as imagens foram produzidas a partir da sobreposição de diversas fotos anteriores, propondo uma visualidade urbana de entrelaçamentos e de figuras menos explícitas. Partindo desse conjunto imagético, esta pesquisa se propõe a investigar a experiência urbana suscitada pelo trabalho da fotógrafa nessa série, pensando as especificidades presentes em cada fotografia e na relação entre elas, pensando os recursos técnicos e artísticos que corroboram a criação dessa São Paulo de imagens. Portanto, partimos da Antropologia Visual para construir nossa relação com as fotos, adensando questões a respeito do urbano e da modernidade na cidade-imagem. Ademais, nos aproximamos dos Estudos da Performance, considerando-os aguçadores críticos da noção de movimento na experiência urbana, inscrita na criação visual, e pensando as fotografias também como performance. Deste modo, a etnografia é o caminho através do qual construímos, lidamos e reposicionamos os problemas junto com as imagens, levando a sério a forma específica com que fotos comunicam e refletindo sobre as possibilidades de se fazer conhecimento em diálogo com elas.
-
Além dos sonhos: A construção da paisagem Yanomami na fotografia de Cláudia Andujar.
— João Piuzana Rosa
— João Piuzana Rosa
Este trabalho, fruto de uma das discussões encampadas na minha monografia de conclusão de curso, busca discutir algumas fotografias produzidas por Claudia Andujar durante suas vivências com os Yanomami, que começam em 1971 e se estendem por mais de quatro décadas, resultando em inúmeras séries, ensaios, livros e exposições voltadas à construção imagética de como esse povo originário enxerga o mundo. O ápice desse processo costuma ser ligado à série “Sonhos” (2002-2004), onde Andujar se aprofunda em resgatar diversas fotos dos seus vários anos de presença na Terra Indígena Yanomami (TIY) e, através de um processo de sobreposições e elaboração de novas associações entre essas imagens, nos apresenta uma maneira de ver (Maresca, 1998) o xamanismo Yanomami. Sendo assim, esse é possivelmente o ensaio, junto de outros que se alinham com o tema, que mais ganha atenção dentro do meio artístico, acadêmico e popular, uma vez que a perspectiva xamânica desse povo é alvo constante de um fascínio ocidental que nos leva a um exotismo muitas vezes capaz de reduzir os Yanomami a essa vivência.
Dessa maneira, optei por usar as discussões já existentes como ponto de partida para tentar encontrar outros caminhos visuais nas obras de Claudia que nos ofereçam maneiras de ver o mundo Yanomami, mas que não tenham seu foco principal na temática xamânica. Nesse viés, meu olhar se voltou para as primeiras produções e experiências da artista na TIY, em especial “Catrimani” (1972-1976) e “Yanomami” (1998), onde foi possível enxergar associações diretas sobre a construção de paisagem desse povo (Ingold, 2021; Nilsson, 2018; Nogueira, 2018) através de atividades que julgamos cotidianas, mas que revelam a importante relação dessas pessoas com aquilo que está ao seu redor. Quer dizer: todo Yanomami tem uma conexão com esse cosmos ancestral que estamos acostumados a ver apenas através das figuras dos xamãs.
Desse modo, várias das imagens que Andujar nos oferece têm um potencial para serem “refotografadas”, como sugere Pinney (1996), na chave da relação dessas pessoas com a floresta enquanto entidade viva, das redes de relações construídas entre as aldeias, além do multi-naturalismo e perspectivismo presentes em todo esse viver. Diante disso, minha ideia aqui é trazer essa reflexão para o grupo de trabalho, com o objetivo de estimular o diálogo com meus pares, a fim de entender a consistência do que estou propondo e explorar possíveis caminhos para a continuidade dessa análise.
-
Arquitetura, antropologia urbana e etnografia da acessibilidade na co-criação do Memorial Ferroviário de Pelotas: jogo de tabuleiro e educação patrimonial no Simões Lopes
— Juliana Aidê Bortolotti, Isadora de Leon Torres, Claudia Turra Magni, Adriane Borda
— Juliana Aidê Bortolotti, Isadora de Leon Torres, Claudia Turra Magni, Adriane Borda
Este trabalho, desenvolvido na Universidade Federal de Pelotas, aborda a criação do futuro Memorial Ferroviário de Pelotas/RS, a partir da intersecção entre arquitetura, urbanismo e antropologia, em consonância com ações de educação patrimonial, por meio do uso de imagens com crianças na escola do bairro Simões Lopes. A estratégia da pesquisa reside na co-criação de materiais pedagógicos mediante o uso de inteligência artificial e na etnografia da acessibilidade, buscando compreender como a comunidade escolar do bairro percebe e significa a Estação Férrea. O referencial teórico articula a morfologia urbana de Lamas (1993) e a legibilidade de Lynch (1997) com a filosofia do design de Flusser (2007). A metodologia é definida como participativa e multimodal. O foco está na preservação técnica e experiência sensorial e corporal dos indivíduos, alinhando-se ao projeto coletivo e interdisciplinar Acessibilidade e Emoções Mediadas por Inteligência Artificial (AEMIA), que visa fomentar a acessibilidade emocional e física em contextos patrimoniais. Como ferramenta prática, foi desenvolvido um jogo de tabuleiro que opera como um dispositivo de mediação e produção de dados antropológicos. O tabuleiro possui o mapa do bairro Simões Lopes ao centro e casas periféricas que acionam baralhos temáticos: Estação Férrea, Trilhos do Trem, Trem e o mapa do Rio Grande do Sul. As cartas foram criadas no Chat Gpt, a partir de prompts que dão destaque a Estação Férrea, seu entorno e a cidade de Pelotas. Há ainda imagens e perguntas para estimular narrativas sobre trajetos, memórias e percepções de permanência ou mudança no cotidiano. Mapas históricos da malha ferroviária (1898 a 2022) impressos em acetato permitem a sobreposição temporal, auxiliando na visualização da expansão urbana e das transformações do território. A atividade funciona como um rito de circulação de saberes. O registro dos dados ocorre com combinações entre imagem, palavra-chave e justificativa verbal, revelando o repertório simbólico do estudante, que permite mapear lugares citados, trajetos e barreiras de acessibilidade (como a passarela local). O momento final da atividade educativa são as rodas de conversa para debater discordâncias e lacunas de informação, consolidando o corpus da pesquisa. A proposta visa transformar a leitura pública do patrimônio em diretrizes práticas para futuras exposições e problematizar a criação de imagens com uso de IA como ferramenta pedagógica de educação patrimonial. Os resultados esperados incluem um diagnóstico interpretativo que conecta a salvaguarda institucional às memórias afetivas locais, garantindo que o museu não seja apenas um depósito de objetos, mas um espaço dialógico e acessível que reflita o cotidiano de quem habita o entorno da Estação.
-
O que a Traça Tese: Processos visuais a partir de andanças entre o Norte da Argentina e o Sul do Rio Grande do Sul
— Katiane Ferreira, Flor Wienke Tavares
— Katiane Ferreira, Flor Wienke Tavares
Habito uma casa que eu mesma teci: um casulo feito a partir do que coletei e teci com minhas próprias mãos. Dentro dela, guardo o meu corpo-arquivo, uma cartografia de tudo o que colhi pelo caminho e de cada encontro que me atravessou. Existo em um território de confluência, onde a subjetividade das artes visuais e o rigor das ciências humanas se fundem para gerar novas formas de produção de conhecimento.
Neste trabalho, assumo a identidade de uma "traça cartógrafa". Apresento meu processo artístico-poético de criação de conexões entre as ciências humanas (a partir do meu mestrado em Memória Social e Patrimônio Cultural) e as artes visuais (vinda da Especialização e Graduação em Artes), utilizando imagens, vídeos e áudios coletados durante um intercâmbio cultural realizado no norte da Argentina e no sul do Rio Grande do Sul em 2025, no qual encontrei tecelãs e tecelões que trabalham com o artesanato em lã.
Para que este corpo-obra se desenvolvesse, alimentei-me de forma antropofágica. Devorei autores que me permitiram existir e criar no espaço acadêmico à minha própria maneira. Destaco, primeiramente, os cartógrafos do desejo: Suely Rolnik (2011), com sua sensibilidade vibrátil, e Deleuze e Guattari (1977), que apresentaram a possibilidade de uma cartografia para além da geografia tradicional, permitindo-me pensar mapas que não buscam territórios fixos, mas linhas de fuga.
Seguindo essas linhas, busco em Tim Ingold (2022) o ritmo das tramas e a força da interdisciplinaridade para pensar o gesto. Minha busca pelo gesto do tecer levou-me a Tania Pérez-Bustos (2023), que me inspira a escrever com autenticidade dentro da academia e a conceber um outro tempo: o tempo têxtil, que lhe é próprio.
Aproprio-me da pergunta: como habitar o mundo como traça? Inspirada por Vinciane Despret (2022), uso o inventariar como uma forma de vida possível dentro das interdisciplinaridades, mas também me invento enquanto mulher, artista e pesquisadora. Penso, como Despret (2022) e Ursula K. Le Guin (2021), que inventar novas formas e mundos, a ficção científica, é "tentar descrever o que de fato está acontecendo" no mundo, com as pessoas e conosco, mas de uma forma narrativa que possibilita criar novas maneiras de ser e existir em um mundo que, muitas vezes, nos limita ao consumo e à hierarquia das espécies.
O presente trabalho conta com a coautoria da pesquisadora e antropóloga Flor Wienke Tavares, que esteve comigo desde o início do projeto de intercâmbio cultural, me auxiliando nas entrevistas, na produção e na pós-produção do audiovisual.
-
Imagens em relação: constelações a partir de uma pesquisa com filmes de horror
— Marianna Knothe Sanfelicio
— Marianna Knothe Sanfelicio
Este trabalho é um dos resultados de minha pesquisa de mestrado, defendida em novembro de 2025 no PPGAS/USP. Nesta pesquisa, faço uma análise etnográfica em que o filme é analisado como mito, ideia que tem diversos precursores dentro da área (Kim, 2005, Hikiji, 2012, Triana, 2012, Gómez, 2012, e Wittmann, 2023, entre outros). Em um segundo momento, fiz uso da ideia de constelação, proveniente do Atlas Mnemosyne de Aby Warburg, para criar montagens de imagens e cenas selecionadas dos filmes analisados. As ideias de Warburg permitem pensar que “Imersas em contextos, as imagens estabelecem relações entre si, arranjam-se em constelações que são variáveis e permitem ao pesquisador enfatizar um ou outro percurso, transcurso, nexo, contexto, uma ou outra relação, inversão, polarização, (...)” (Warburg, 2015, p. 13). Dessa maneira, compreendo que as imagens são formas que pensam e que fazem pensar (Samain, 2012, p. 23), e que permitem que a pesquisa vá além do texto. No decorrer da pesquisa construí pranchas, nos mesmos moldes dos criados por Warburg em seu Atlas. As pranchas foram importantes porque acredito que as imagens só existem em relação a outras imagens. Além disso, trabalhar a partir da metodologia das constelações passou a me interessar também a partir do momento em que percebi que elas permitem diversas compreensões além daquelas que trago no meu processo de escrita. As pranchas se tornaram parte narrativa da dissertação, mas foram colocadas ao seu final, como anexos, e não no decorrer dos capítulos em que foram analisadas. Esta foi uma escolha deliberada e bastante pensada, pois considero que as reflexões que fiz no decorrer da escrita não são as únicas que podem ser feitas a partir destas montagens, e acredito que olhar para estas pranchas pode trazer pensamentos diferentes a outras pessoas. Retirar as pranchas da narrativa escrita é compreendê-las como possibilidades de extensão desta pesquisa para além de si mesma, como constelações que podem ser visualizadas e usadas por outros além de mim. A partir desse ponto, comecei a pensar maneiras em que podia disponibilizar a pesquisa para outras pessoas. Passei a explorar a possibilidade de construir este material de maneira física, e me voltei a álbuns de fotografia. Aos poucos, o projeto tomou a forma de um antigo álbum fotográfico, com páginas autocolantes cobertas com um fino plástico transparente. As imagens usadas na pesquisa foram impressas em papel fotográfico, recortadas, e coladas nas páginas autocolantes, de acordo com as constelações. Como se trata de papel autocolante, é possível retirar as imagens dessas posições e reconstruir as constelações, repensando a pesquisa, seus desdobramentos e seus resultados. É este álbum que trago para o GT, na esperança de compartilhar a pesquisa feita.
-
Serra, família e sangue: a serra elétrica, o fazer-família e o fazer-sangue na franquia O Massacre da Serra Elétrica (1974-2022)
— Mário Ferreira da Silva
— Mário Ferreira da Silva
Este trabalho versa sobre uma análise da franquia O Massacre da Serra Elétrica (1974-2022) na qual o foco é refletir sobre as formas com que a família é produzida, reproduzida, criada e recriada nas obras. A instituição familiar, no cinema de horror, é parte de uma relação intrínseca e, nessa franquia em específico, a família ocupa um lugar central. A família do [prot/ant]agonista Leatherface é um nexo central e narrativo para os filmes da série. Seja através da família Sawyer, Slaughter ou Hewitt, a relação intrafamiliar e com suas vítimas é um ponto focal e uma potência da série de filmes. Isso nos permite refletir sobre a forma que se dão as relações entre integrantes da família, as tensões, violências e afetos que são imbricados e praticados tanto entre familiares quanto nas relações com outros, nas formas de gerar e produzir, formar e fazer-família. O sangue e o fazer-sangue é mobilizado nessa franquia fílmica tanto para evocar relações consanguíneas quanto também permite ressignificar essa produção sanguínea como formas de espessamento e diluição do parentesco. Formas de produzir, derramar e gerar sangue são elementos que entrecortam comensalidades, pois a produção sanguínea, o entrecruzamento entre serra e carne é um balizador de status familiar. A serra, é um elemento mecânico-tecnológico que marca e potencializa essa produção sanguínea, um marcador e momento liminar entre o familiar e desconhecido. Desta feita, a serra enquanto um elemento material-tecnológico possibilita pensar nessas produções que mediam parentesco e sangue. A família é produzida não apenas pela consanguinidade mas também pela serra, que instaura a presença familiar. A serra, na franquia, é um elemento balizador e produtor de família e não apenas simboliza, como dá materialidade, se torna a matéria do parentesco. A metodologia da etnografia fílmica possibilita uma outra relação com o cinema e o filme, estabelece uma participação do etnógrafo com os personagens, com o mundo criado em tela, assim somos ao mesmo tempo que espectadores, partícipes desse mundo fílmico enquanto antropólogos-espectadores. A potencialidade do cinema de horror para a pesquisa antropológica se dá nessa relação outromundística, nessa troca e nesse encontro que temos ao habitar esse mundo fílmico, o mundo-película, ao nos abrirmos para essa relação criada entre o filme em tela e a realidade social. Assim, podemos elucubrar sobre o reflexo social desses mundos perversos, brutais, nefandos mas que também dispõem de entrelaçamentos de afetos, laços e relações familiares em película. O cinema se conforma como uma tecnologia de família, na qual a película é a gênese dessa relação familiar e, a partir de seu efeito sobre os corpos, a reprodução desses modelos.
-
Legado em Movimento: as imagens na pesquisa sobre performances e corporeidades na dança tradicionalista gaúcha
— Olavo Marques
— Olavo Marques
Debato neste trabalho uma produção audiovisual sobre os ensaios do Piquete Bocal de Prata em preparação para apresentação de dança no Encontro de Artes e Tradição Gaúcha (ENART) de 2025. Às vésperas do certame, o piquete, sediado em Osório/RS mas que conta com integrantes de diversas cidades do Litoral Norte Gaúcho, reúne-se praticamente todos as noites para ensaiar, muitas vezes madrugada adentro. O trabalho visual enfoca as dimensões das performances e corporeidades, inspirados sobretudo nas premissas da pesquisa etnocinematográfica de Jean Arlaud, para quem “o cinema é como uma dança”, e nas “Técnicas Corporais” de Claudine de France, sendo o corpo-objeto e o conjunto dos movimentos tomados como fios condutores da observação. A proposta pautou-se na premissa de que a participação em um evento competitivo como o ENART é o grande objetivo. No entanto, apresentação no concurso, que dura às vezes alguns pares de minutos, é precedida por incontáveis horas de ensaio exaustivo e trabalho sobre os corpos, cada vez mais encompassados, em que o grupo se constitui e se fortalece como coletivo, construindo efetivamente pertencimento e identidade no contexto do tradicionalismo gaúcho. O tema escolhido para a performance do ano pelo piquete foi LEGADO EM MOVIMENTO, que apresenta “uma jornada simbólica sobre o tempo, a herança e a paixão pela dança gaúcha” nos termos do próprio grupo - homenageando o legado deixado por Paixão Côrtes, referência absoluta no Movimento Tradicionalista Gaúcho.
O trabalho vem apresentar e debater experiências de ensino e pesquisa em Antropologia Visual e da Imagem junto ao Bacharelado em Gestão Publica e Desenvolvimento Regional e ao Programa de Pós-Graduação em Dinâmicas Regionais e Desenvolvimento (PGDREDES) da UFRGS - Campus Litoral Norte. Os cursos, embasados no campo das Humanidades e caracterizados pela interdisciplinaridade, buscam promover uma sólida formação nas áreas de pesquisa, planejamento e gestão a partir da compreensão de aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos e ambientais de realidades regionais. Como antropólogo e professor responsável pelas disciplinas de Pesquisa Qualitativa II e Tópico Especial - A Imagem como Instrumento de Pesquisa, conduzimos, no segundo semestre de 2025, oficinas de vídeo etnográfico em que produzimos as imagens sobre a dança tradicionalista no Rio Grande do Sul, a partir da pesquisa do mestrando Mateus Fernandes de Souza junto ao PGDREDES. O exercício resultou no documentário “Legado em Movimento”, atualmente em fase de apresentação e debate junto aos interlocutores. Ressalta-se, por fim, o lugar da antropologia visual na formação de pesquisadores e gestores em dinâmicas regionais e desenvolvimento.
-
Análise Fílmica: "Oeste Outra Vez" (Erico Rassi, 2025)
— Rebecca Temes Evangelista
— Rebecca Temes Evangelista
Esta análise investiga como o filme “Oeste Outra Vez” utiliza a estrutura do western para desconstruir criticamente o mito do homem sertanejo no imaginário brasileiro, expondo uma crise profunda da masculinidade hegemônica. O trabalho adota uma dupla abordagem metodológica: a etnografia fílmica (GAMA, 2024), que trata o filme como um campo de pesquisa em si, e a perspectiva antropológica que vê narrativas fílmicas como análogas a mitos culturais (HIJIKI, 1998). Através do conceito de “habitação” (INGOLD, 2000), a paisagem do cerrado é interpretada não como cenário passivo, mas como agente ativo que corrói e expõe a fragilidade da performance masculina.
A narrativa centraliza-se em Totó, um personagem que tenta, sem sucesso, performar o arquétipo do homem agro: heterossexual, vingativo, stoico. Seus gestos ritualizados – o consumo de cachaça, o silêncio, a busca por uma vingança que é terceirizada – fracassam sistematicamente. Através da teoria da performatividade de Judith Butler, entendemos que essa não é uma falha individual, mas o colapso do skhēma (o modelo cultural) que busca materializar esse corpo masculino ideal. A paisagem árida e vazia atua como um espelho distorcido, absorvendo e anulando seus gestos.
A análise avança com Paul B. Preciado, cujo conceito de regime farmacopornográfico define a masculinidade como um sistema técnico de produção de corpos, gerido por objetos, hormônios e códigos. A crise de Totó é a falência desse “kit de masculinidade”: seus objetos (a caminhonete, a cachaça) e rituais perdem a eficácia, revelando um sistema obsoleto.
Em contraste com a explosão barulhenta e excessiva da masculinidade em A Febre do Rato (Cláudio Assis), Rassi opta pela implosão. Sua crítica se dá pelo esvaziamento silencioso, pela ausência de clímax e pela inanição dos significados. O filme não oferece um novo modelo heroico, mas diagnostica a falência de um antigo. Essa implosão, contudo, é lida como uma abertura política. Ao desnaturalizar o gênero e expor a contingência de suas normas, "Oeste Outra Vez" esvazia um terreno simbólico, convidando à imaginação de formas de ser menos rígidas, violentas e mais plurais. A obra de Rassi se consolida, assim, como uma potente etnografia fílmica da desmaterialização de um arquétipo cultural.
-
Cinematografia dos Dispositivos: Da Representação à Operatividade
— Yunna Lima Cherubini
— Yunna Lima Cherubini
A visão maquínica capitalista utiliza-se de diferentes dispositivos que realizam formas de controle e vigilância, incidindo diretamente sobre o funcionamento e percepção da realidade. No ensaio A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica (1946), Walter Benjamin já apontava o potencial da imagem técnica de transformar a experiência e percepção na modernidade. A imagem como um meio de controle técnico é retomada no cinema ensaístico de Harun Farocki nos anos de 1990-2000, na transição do analógico-digital, apresentando o olhar vigilante dos dispositivos, denominado por Farocki como “cinematografia dos dispositivos”. Pretende-se neste trabalho compreender uma modalidade de produção de imagem chamada de “imagem operacional”, a partir da análise da trilogia de filmes-ensaio Eye/Machine (2001-2003) de Farocki, articulando imagem dialética (Benjamin) e montagem dialética (Didi-Huberman) com o objetivo de revelar sentidos latentes das imagens operativas, fraturando sua aparente neutralidade técnica. Buscamos assim, expor nessa apresentação a cinematografia dos dispositivos como ferramenta crítica da visão maquínica pós-representacional, para refletir o universo tecnopolítico atual onde se configura o domínio e onipresença das imagens operativas. Se torna evidente a relação entre a produção de imagens operacionais e o controle automatizado dos dispositivos, e como esse controle contribui para um estado de neutralização da percepção, considerando que essas imagens deixam de ser meros registros do real e passam a ser agentes ativos na organização, monitoramento e modulação da vida cotidiana.
Coordenação
Verlan Valle Gaspar Neto (UFRRJ), Pedro da Glória (UFPA)
A compartimentação do fenômeno humano em dimensões supostamente independentes tem se revelado cientificamente insatisfatória, assim como a ausência de diálogo entre os diversos subcampos da Antropologia. Por um lado, a Antropologia Biológica em particular, outrora marcada por um determinismo biológico de cunho racialista, caracteriza-se hoje por uma profusão de temas e abordagens que, em certa medida, pretendem a superação dessa compartimentação e uma maior aproximação com os demais subcampos antropológicos (Antropologia Sociocultural, Linguística e Arqueologia), além do diálogo com outras ciências. Por outro lado, são escassos os espaços reservados, no campo antropológico brasileiro, para pesquisas e discussões realizadas em Etnobiologia, Antropologia Ecológica, evolução biocultural, Antropologia Forense, Bioarqueologia, Antropologia Genética, Socioecologia da Saúde, Primatologia, entre outras especialidades correlatas, muitas delas marcadas por abordagens bioculturais e biossociais. Isso exposto, este GT, nesta 4ª edição, segue com o propósito de se consolidar como um espaço aberto, dentro das RBAs, a investigações, teóricas e/ou baseadas em trabalho de campo, na interface biologia e cultura. Está, portanto, em consonância com as recentes discussões em torno de uma Antropologia Integrada, que veem no diálogo entre perspectivas teórico-metodológicas de mais de um campo antropológico e áreas afins como incontornável para o avanço científico da Antropologia.
Títulos e Resumos
-
Um ensaio sobre raça, genômica populacional e narrativa nacional no Projeto DNA do Brasil
— Jadhe Santana Azevedo Mineiro
— Jadhe Santana Azevedo Mineiro
O presente trabalho busca, de maneira exploratória, ensaiar formas de interpretação sobre a materialização da categoria “raça” no Projeto DNA do Brasil, financiado pelo Programa Nacional de Genômica e Saúde de Precisão (ou Programa Genomas Brasil) do Ministério da Saúde. Liderado por Lygia da Veiga Pereira e Tábita Hünemeier, professoras da Universidade de São Paulo e renomadas geneticistas, o projeto sequenciou, até meados de 2025, o genoma de 2700 pessoas de diferentes regiões do país.
Como dito por Pereira no IV Summit Internacional de Saúde de Precisão, “com 2700 genomas, você não tem o poder estatístico para fazer grandes descobertas em saúde, mas […] tem um poder estatístico para contar várias histórias sobre a formação da nossa população […] e mostrar a riqueza da diversidade dos genomas brasileiros”. Os resultados, publicados na revista Science (Nunes et al., 2025), ganharam grande atenção midiática em manchetes que destacam “a descoberta de que o Brasil é o país mais geneticamente diverso do mundo” (Jornal Nacional, 2025; Casemiro, 2025), “os impactos da miscigenação no país” (Escobar, 2025) e “como a história nacional deixou marcas até no DNA” (Biernath, 2025).
Este trabalho pretende tatear de que forma as categorias “raça”, “etnia” e “miscigenação” são agenciadas nos discursos e práticas laboratoriais do Projeto DNA do Brasil, nas publicações acadêmicas, nas entrevistas e palestras dos pesquisadores e nas divulgações científicas que saúdam a iniciativa.
Longe de apontar respostas definitivas, a pesquisa bibliográfica utiliza os Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia (ESCT) para levantar questões e traçar caminhos possíveis de análise. Recorre-se à perspectiva da política ontológica e das práticas de Amade M’Charek e Annemarie Mol sobre a materialização da raça em contextos genômicos como um objeto múltiplo. Acrescentam-se os conhecimentos situados de Donna Haraway, além da interlocução com a produção brasileira sobre ciência e marcadores da diferença — de trabalhos mais recentes, como os de Ricardo Ventura Santos, Marcos Chor Maio, Rosana Castro e Fabíola Rohden, até estudos mais antigos, como os de Francisco Salzano e Newton Freire-Maia.
Dessa forma, esta peça visa demonstrar como a Antropologia da Ciência e Tecnologia oferece ferramentas essenciais para analisar o maior empreendimento genômico do país, cuja complexidade reside não apenas no sequenciamento de genomas, mas na co-produção entre dados genéticos, categorias sociais e a narrativa da formação da população brasileira. O estudo pode contribuir, assim, para a crítica epistemológica nos ESCT, ao mesmo tempo em que oferece um olhar reflexivo fundamental para o desenvolvimento e comunicação da própria ciência genética no Brasil.
-
Notas de aprendiz sobre cultura, comunicação e aprendizado.
— João Miguel Manzolillo Sautchuk
— João Miguel Manzolillo Sautchuk
Proponho expor e debater esforço inicial de reflexão e elaboração de questões para pesquisa de longo curso acerca da comunicação, interação, linguagem, aprendizado e cognição. Tomo por base reflexões da Antropologia que buscam dissolver dicotomias como indivíduo/sociedade, subjetivo/coletivo, cognição/estrutura social, natureza/cultura, corpo/mente, organismo/ambiente, pensamento/ação, prática/estrutura para tecer diálogos entre perspectivas da Antropologia Social e Cultural (ressaltando recortes temáticos da Etnomusicologia e da Antropologia Linguística), da Linguística (de algumas vertentes clássicas à linguística evolutiva) e da Biologia (abordando de modo ainda incipiente os subcampos da Biologia Evolutiva, da Etologia, da Ecologia e da Neurociência). Por um lado, critico construções (da Linguística e da Biologia, mas não apenas) que reproduzem irrefletidamente tais dicotomias, sobretudo projetando em teorias e análises os valores do individualismo moderno por exemplo, considerar o falante como realidade autônoma, isolar o organismo como nível fundamental do comportamento, supor que ideais relativos a um contexto cultural humano sirva como definição universal ou até mesmo tomar a espécie como imagem ampliada de um indivíduo. Por outro, sendo antropólogo social de formação, busco nessas disciplinas aportes para relativizar (ou seja, expandir, complexificar e sofisticar) de modo mais radical as noções de cultura, linguagem, comunicação, realidade simbólica, significado, sociabilidade, aprendizado, cognição, continuidade, mudança, variação etc. Duas perguntas dão o mote desse início de caminhada: Qual o proveito para as Ciências Sociais de entender a cultura, a linguagem e a cognição humanas como caso específico de fenômenos filogeneticamente e ontogeneticamente mais amplos no reino animal (ou mesmo no mundo da vida)? Seria factível produzir conhecimento na(s) Biologia(s) a partir de diálogo profundo com questões e enquadramentos teóricos das Ciências Sociais?
-
O caso do Homem de Piltdown: A prévia e a persistência do Racismo (dito) Científico Contemporâneo
— Leonardo Jacques de Castro Alves
— Leonardo Jacques de Castro Alves
O conceito de identidade humana é permeada pela noção de Evolução a qual atravessa campos biológicos e culturais os quais, sendo epistemicamente antropológicos, são considerados marcadores de tal identidade desde o século XX, época marcada por grandes avanços no campo da antropologia e pela tentativa de manipular o discurso científico através da fraude do Homem de Piltdown. O presente trabalho busca, a partir dos estudos em evolução humana e em antropologia da ciência e da tecnologia, fazer a análise uma análise do caso do Homem de Piltdown e o que ele nos revela sobre a instrumentalização do discurso por agendas eurocêntricas para com o Racismo dito Científico. A relação entre discurso cientifico e legitimidade do poder se mostrou nítida 1912 quando uma descoberta inusitada conquistava as elites intelectuais britânicas, e a mesma Inglaterra que tinha apresentado ao mundo A origem das Espécies de Charles Darwin estava agora apresentando ao mundo o Eoanthropus dawsoni, conhecido como sendo o Homem de Piltdown. Competindo como uma das grandes descobertas da Evolução Humana do século XX ao lado do Homo heidelbergensis na Alemanha (1908) e do Homo neanderthalensis na França (1908), o Homem de Piltdown se destacava por sua ruptura com os entendimentos acerca da Evolução Humana que vinham se construindo ao mesmo tempo que prometia ser a prova material que traria a fundamentação teórica necessária para o Darwinismo racial, princípio central para o Racismo dito Científico. Por fim, o presente trabalho salienta a importância da análise do discurso no mundo científico, reforçando seu papel como um campo de autoridade simbólica que pode ser apropriado para legitimar projetos políticos e identitários.
-
De Darwin e Durkheim até Dunbar: Experimentos da Hipótese do Cérebro Social em Rituais Religiosos e Seculares
— Miguel Farias
— Miguel Farias
A hipótese do cérebro social, proposta por Robin Dunbar, postula que o cérebro dos primatas é, ao mesmo tempo, resultado da socialização e um fator que contribui para a sua capacidade de socializar. Embora os vínculos sociais tragam benefícios, sua manutenção ao longo do tempo é difícil, devido à necessidade de investir tempo, energia e, frequentemente, outros recursos para garantir a continuidade desses vínculos. Em razão dessa dificuldade, os primatas desenvolveram comportamentos destinados a promover e manter tais laços, como a limpeza corporal (grooming) realizada de forma individual.
Dunbar propôs ainda que os seres humanos desenvolveram comportamentos que, de maneira semelhante ao grooming, estimulam a liberação de endorfinas em grupos maiores de pessoas do que aqueles alcançados pelo contato físico típico do grooming entre primatas. Alguns desses comportamentos incluem a produção musical e a narração de histórias. Tais práticas apresentam uma vantagem em relação ao grooming, pois podem envolver grupos maiores, em vez de interações exclusivamente individuais, tornando-se assim um meio muito mais eficiente, em termos de tempo, para promover a formação e a manutenção de vínculos sociais. Outro comportamento humano que, segundo cientistas sociais clássicos como Durkheim, favorece o desenvolvimento do vínculo social, são os rituais religiosos.
Nesta apresentação, relatarei e discutirei uma série de estudos que conduzi em colaboração com Robin Dunbar para testar sua hipótese do cérebro social em rituais. Nosso objetivo foi investigar se: (a) rituais religiosos promovem níveis mais elevados de vínculo social; (b) o vínculo social é mediado por um mecanismo biológico de liberação de endorfinas; (c) rituais não religiosos promovem níveis semelhantes de vínculo social aos rituais religiosos. Ao todo, realizamos quatro estudos: um estudo quase experimental conduzido na Inglaterra e no Brasil com grupos cristãos e de Umbanda; um estudo experimental duplo-cego utilizando um inibidor de endorfina versus placebo; um estudo laboratorial de cinco semanas com Yoga (condição espiritual versus condição secular); e um estudo quase experimental sobre um ritual secular (Sunday Assemblies). Posteriormente, conduzimos um estudo fenomenológico comparando as experiências de incorporação de uma entidade espiritual em um ritual afro-brasileiro e em um ritual evangélico pentecostal.
Os resultados dos quatro primeiros estudos fornecem evidências robustas em favor da aplicação da hipótese do cérebro social de Dunbar aos rituais, tanto religiosos quanto seculares, enquanto o quinto estudo oferece importantes insights sobre como diferentes sistemas de crenças moldam a experiência cognitiva e emocional dos indivíduos de maneiras contrastantes e, por vezes, singulares.
-
Patrimônio biocultural afrodiaspórico: ensaiando uma conceituação
— Paula Balduino
— Paula Balduino
Este trabalho tem por objetivo propor uma primeira aproximação conceitual sobre patrimônio biocultural da diáspora africana a partir de um recorte de pesquisa com plantas, em especial com a espécie Dioscorea bulbifera, conhecida no Brasil como cará-moela, dentre outras denominações. Para tal, traz inicialmente uma recapitulação de pesquisas realizadas entre 2021 e 2024 em Etnobotânica, a partir das quais emergem inquietudes que alimentam as reflexões ora propostas. Busca em seguida situar a abordagem biocultural na Antropologia percorrendo uma trajetória teórica no campo da Biologia Humana, da Ecologia Humana e da Antropologia Biológica. No âmbito da Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB) da Organização das Nações Unidas (ONU), o artigo aborda as concepções de diversidade biocultural (Biocultural diversity) e patrimônio biocultural (Biocultural heritage), bem como a recente decisão (CDB/COP/DEC/16/6) que reconhece o papel de Povos Afrodescendentes que formam coletivos encarnando estilos de vida tradicionais (People of African descent comprising collectives embodying traditional lifestyles) na conservação e uso sustentável da biodiversidade. Este percurso conduz a uma série de questões que visam traçar contornos sobre formas de se pensar o patrimônio biocultural afrodiaspórico. O que caracteriza este patrimônio? Seria uma localização de seu centro de origem em algum lugar da África? Seria sua vinculação contemporânea com Povos Afrodescendentes? Como se expressam as relações entre pessoas e plantas na diáspora africana? O que ocorre com as espécies que compõem este patrimônio diante da migração acarretada pela afrodiáspora? Quais os possíveis efeitos da mudança de ambiente sobre as espécies? O que conecta uma espécie do patrimônio biocultural em diferentes pontos da diáspora africana?
-
Confiabilidade e Precisão de Métodos Morfológicos Cranianos em uma Amostra da Colecção de Esqueletos Identificados Século XXI
— Schneidar Barbosa Guerreiro, Renata de Castro e Silva, Francisco Curate, Maria Teresa Ferreira
— Schneidar Barbosa Guerreiro, Renata de Castro e Silva, Francisco Curate, Maria Teresa Ferreira
Palavras-chave: Estimativa do sexo; dimorfismo sexual; perfil biológico.
Resumo: A estimativa do sexo biológico é fundamental para a construção do perfil biológico, sendo o crânio amplamente utilizado devido à sua elevada preservação1-3.
Amostra e Métodos: O estudo avaliou a confiabilidade e a precisão da estimativa do sexo biológico 209 indivíduos adultos da CEI/XXI da UC. Aplicando os métodos de morfológicos cranianos de Buikstra e Ubelaker (1994)4 e Ferembach et al. (1980)5.
Resultados: A calibração intra e interobservador apresentou um coeficiente kappa
entre 0,72 e 0,89. O método de Ferembanch et al. apresentou maior precisão geral (71,8%) em comparação ao método de Buikstra e Ubelaker (58,4%). Ambos os métodos demonstraram melhor desempenho na estimativa do sexo masculino, com maior precisão no método de Ferembanch et al. (38,8% vs 33,0%) e no método de Buikstra e Ubelaker (31,1% vs 27,3%).
Discussão e Conclusão: Os métodos apresentaram boa reprodutibilidade e precisão moderada. A variabilidade morfológica do crânio, o dimorfismo sexual menos acentuado e a subjetividade da avaliação visual podem ter contribuído para erros de estimativa1. Reforçando a necessidade de abordagens integradas para aprimorar a estimativa do sexo biológico.
Referências
1 Bruzek J. A method for visual determination of sex, using the human hip bone. American Journal of Physical Anthropology, v. 117, n. 2, p. 57-168, 2002.
2 Curate F. The estimation of sex of human skeletal remains in the Portuguese identified collections: history and prospects. Journal of Forensic Sciences, v. 2, n.1, p. 272-286, 2022.
3 Kasa TYP., Plens, CR., Souza, CD., Paiva LAS de, Lopez-Capp TT. Estimative sexual por meio da análise das suturas maxilares/Sexual estimate through the analysis of the maxillary sutures. Brazilian Journal of Forensic Anthropology & Legal Medicine, v. 2, n. 2, p. 71-84, 2020.
4 Buikstra J., Ubelaker D. Standards for data collection from human skeletal remains. Fayetteville: Arkansas Archeological Survey, 1994. (Research Series, 44).
5 Ferembach D. Recommendations for age and sex diagnosis of skeletons. Journal of Human Evolution, v. 9, p. 517-549, 1980.
-
A Inclusão da Pauta Socioambiental na Agenda Política dos Movimentos Sociais das Baixadas de Belém: uma abordagem bioantropológica
— Uriel Melquisedeq Lopes Coelho, Hilton Pereira da Silva
— Uriel Melquisedeq Lopes Coelho, Hilton Pereira da Silva
Embora a Amazônia seja lembrada principalmente pelo meio ambiente natural, há grandes cidades na região. Porém, tradicionalmente, as políticas urbanas implementadas são marcadas por visões dicotômicas, que separam urbe e natureza, ignoram a condição de integralidade entre estas dimensões e repercutem em diversos problemas socioambientais e ecológicos. Em Belém, as soluções técnicas propostas para as consequências deste processo se basearam em visões igualmente desconexas, muitas vezes intensificando os transtornos vividos nas regiões de várzea (“baixadas”) da cidade. Diante deste cenário, nos últimos anos os movimentos sociais das baixadas de Belém têm incluído pautas socioambientais em suas agendas, denunciando as limitações das abordagens técnicas, o racismo ambiental, e também criando novas oportunidades de articulação e estratégia política frente a desafios como o avanço da crise climática global. Este trabalho analisa como a situação corrente tem influenciado as leituras políticas sobre as relações entre processos urbanos e ambientais nas periferias de Belém e como a abordagem biocultural/biossocial pode, ao mesmo tempo, colaborar e se beneficiar da operacionalização analítica deste debate. A metodologia combina etnografia, realizada durante ações e encontros promovidos pelos movimentos sociais, análise de dados secundários e bibliográfica de estudos relacionados ao Urbanismo Amazônico, Ecologia Política e Histórica e Antropologia Fenomenológica/Relacional. Os resultados preliminares apontam que fatores como oportunidades políticas recentes, somadas a avaliação crítica de contradições entre discursos e práticas durante a COP30 e maior convergência com o conhecimento de povos tradicionais repercutiram no fortalecimento de ideias sobre justiça climática e socioambiental como diretriz mobilizadora dos movimentos sociais das baixadas de Belém, o que possibilita diálogos com abordagens bioantropológicas que enfatizam o caráter integral e adaptativo, ao invés de “complementar”, das relações entre processos urbanos e ambientais, contribuindo para a dissolução da dicotomia natureza/cultura e novas perspectivas para o urbanismo.
-
A Antropologia Forense é antropologia? Disputas disciplinares e regimes de legitimidade científica
— Valentina da Silva Dias Pereira
— Valentina da Silva Dias Pereira
Este trabalho apresenta um projeto de pesquisa em andamento no âmbito do doutorado em Antropologia Social, cujo objetivo central é examinar se a chamada Antropologia Forense no Brasil pode ser compreendida como parte constitutiva do campo antropológico e, em caso afirmativo, sob quais bases epistemológicas e disciplinares em especial, se pode ser situada no interior da Antropologia Biológica ou se configura como um campo híbrido tensionado por distintas tradições de saber.
A investigação parte da hipótese de que a posição ambígua da Antropologia Forense no Brasil resulta de disputas históricas entre instituições, formações profissionais e regimes de legitimação científica. A pesquisa encontra-se em estágio inicial e combina análise documental de materiais institucionais (estatutos, documentos normativos, diretrizes de atuação, materiais de formação e produção pública de associações científicas e órgãos periciais) com observação participante em espaços como o Centro de Antropologia Forense (CAAF) e atividades promovidas pela Associação Brasileira de Antropologia Forense (ABRAF).
A metodologia de análise documental orienta-se por uma abordagem qualitativa e interpretativa, buscando identificar categorias, pressupostos epistemológicos e modelos de autoridade científica mobilizados nos documentos. Ao propor uma leitura antropológica das próprias práticas e classificações forenses, o trabalho pretende contribuir para o debate sobre os limites disciplinares da antropologia, bem como para reflexões mais amplas sobre ciência, poder e produção de classificações no contexto brasileiro.
-
Onde está a Bioantropologia nos livros brasileiros de introdução à Antropologia?
— Verlan Valle Gaspar Neto, Pedro José Tótora da Glória
— Verlan Valle Gaspar Neto, Pedro José Tótora da Glória
Os livros de introdução à Antropologia são uma porta de entrada para os estudos na área, tendo um potencial simultaneamente formativo e informativo. A depender de como a Antropologia é conceituada, esses materiais podem incutir em seus leitores, de forma decisiva, uma concepção ampliada ou reducionista da área, especialmente no que se refere ao seu pertencimento às Ciências Naturais / Biológicas e/ou Ciências Humanas / Sociais. O desenho impresso nesses livros, que muitas vezes funcionam como manuais, reflete a formação de seus autores e as dinâmicas do campo antropológico, em que um ou mais subcampos podem ter proeminência. Isso é particularmente verdadeiro para o campo antropológico brasileiro, dada a hegemonia da Antropologia Sociocultural nos mais diferentes planos (formação profissional, produção e circulação de conhecimento etc.). Neste trabalho, são apresentados os resultados de uma análise sistemática de quatro títulos hoje disponíveis no mercado editorial nacional, assinados por brasileiros, e que têm por pretensão, em maior ou menor escala, servirem de introdução à Antropologia: DaMatta (2010); Gomes (2019); Machado (2023); Marconi & Presotto (2022). O objetivo central dessa pesquisa foi o de verificar o lugar ocupado (ou não) pela Antropologia Biológica nas definições de Antropologia adotadas nesses materiais. Para tanto, foram aplicadas as seguintes indagações, todas interligadas: a) em que medida a Antropologia é concebida (também) como uma ciência biológica; b) há menções à Antropologia Biológica; c) como os autores lidam com fenômenos que, claramente, demandam explicações bioculturais; d) o que esses autores entendem por biologia em geral, biologia humana em particular, e o quão estão atualizados em relação às teorias e pesquisas biológicas e bioantropológicas contemporâneas. A análise revela que, grosso modo, os livros brasileiros de introdução à Antropologia oscilam entre uma concepção ampliada e reducionista dessa ciência, muitas vezes tomando a Antropologia Biológica como um universo distante das pesquisas antropológicas em geral, com menções quase exclusivas à Paleoantropologia e ao tema da evolução biológica humana. Com um foco claro na Antropologia Sociocultural, temas ligados à Bioantropologia são ignorados quase por completo, assim como a dimensão biológica da existência humana é reduzida a um epifenômeno frente à dimensão sociocultural, inviabilizando qualquer análise que conjugue biologia e cultura simultaneamente.
-
Se não plantar, a nossa história morre: o cultivo do marmelo como processo biocultural no Quilombo Mesquita
— Wdson Lyncon Correia de Oliveira
— Wdson Lyncon Correia de Oliveira
Este trabalho propõe um debate a partir de uma etnografia em andamento, baseada em observação participante das práticas agrícolas e do trabalho cotidiano no território. A pesquisa toma o cultivo do marmelo como entrada empírica para investigar o trabalho agrícola como um processo biocultural, no qual corpos humanos, plantas cultivadas, solos, água e técnicas se articulam na produção de condições de vida. A partir do marmelo, o estudo propõe uma leitura integrada de fenômenos frequentemente separados entre dimensões biológicas e socioculturais.
Embora não seja uma planta nativa do Cerrado, o marmelo ocupa um lugar central na economia, na alimentação e na memória do quilombo. Seu cultivo exige cuidados específicos e uma atenção contínua às condições do ambiente, mobilizando técnicas locais de manejo do solo, da umidade e da vegetação, bem como a leitura fina dos ciclos climáticos. A etnografia mostra que a permanência do marmelo depende diretamente da manutenção de condições ecológicas do próprio Cerrado, revelando que a conservação do ambiente não se dá pela exclusão de determinadas espécies, mas pela sustentação das relações que tornam o território habitável.
O acompanhamento do cultivo permite descrever o trabalho agrícola como um processo que envolve esforço físico, gestos técnicos, adaptação corporal ao clima, aprendizado sensorial e transmissão intergeracional de conhecimentos. Humanos e plantas respondem conjuntamente às variações ambientais, produzindo ajustes contínuos ao longo do tempo. Esses processos são analisados em diálogo com a antropologia biológica contemporânea, a partir de noções como adaptação situada e produção de ambientes.
Em diálogo com a antropologia multiespécies e com etnografias da agrobiodiversidade, o trabalho propõe compreender o cultivo do marmelo como criação de mundos, nos quais corpos, plantas e paisagens se co-produzem. Ao situar o olhar em uma planta específica e nas relações que a sustentam, a pesquisa contribui para os debates da antropologia biológica em chave integrada, evidenciando como a continuidade da vida humana e não humana se constrói na interface entre biologia, técnica, território e história.
-
Saúde e modo de vida dos remanescentes humanos esqueletais do sambaqui de Piaçaguera (Cubatão, SP)
— Yuri Escobar Tuermorezow
— Yuri Escobar Tuermorezow
A partir de 5000 anos AP tornam-se frequentes no litoral brasileiro estruturas monticulares, feitas primariamente de conchas, chamadas sambaquis. Essas construções, que poderiam chegar a alturas monumentais, serviam principalmente como locais de sepultamento, mas também poderiam ser usadas como locais de habitação. Eram sociedades bem adaptadas ao ambiente marítimo, como mostrado pela presença de ossos de peixe, conchas e ferramentas de pesca. Os remanescentes humanos e o material arqueológico desses sítios fornecem dados que contribuem para a compreensão da ocupação pretérita da costa sul e sudeste. Este trabalho analisou os remanescentes humanos esqueletais do sambaqui Piaçaguera (localizado no estado de São Paulo), que possui datação mais antiga de 4930 ± 110 anos AP. O objetivo é acessar alguns aspectos do modo de vida e da saúde dessa população que habitava a costa brasileira. Para isso, foram examinados ossos e dentes a fim de identificar cinco aspectos relacionados à saúde humana: Indicadores de estresse nutricional e desenvolvimento (estatura, hiperostose porótica, cribra orbitalia e hipoplasia do esmalte dentário); indicadores de atividade física (doença degenerativa da articulação, nódulos de Schmorl, espondilólise e exostose do meato auditivo); doença infecciosa (periostite); saúde oral (cáries, doença periapical, perda dentária, doença periodontal e cálculo) e traumas. A partir desses dados, será feita uma análise descritiva dos valores, com uma divisão por sexo e idade, e esses dados serão comparados com outros sítios do tipo sambaqui e sítios monticulares. Dado a pouca quantidade de dados paleopatológicos na literatura científica, a comparação da amostra de Piaçaguera será estendida para sítios pré-histórico do continente Americano. O intuito dessas comparações será o de verificar possíveis diferenças entre os padrões de saúde e modo de vida de Piaçaguera com os de sítios pré-históricos que serão usados como referência, a fim de caracterizar os dados de Piaçaguera dentro da literatura paleopatológica de sítios costeiros. Os resultados preliminares mostram que os indivíduos de Piaçaguera, quando comparados com outros sítios, tinham baixos indicadores de estresse nutricional, o que pode indicar uma dieta diversificada e baixos episódios de doenças parasitarias; altos marcadores de atividades, principalmente doenças degenerativas nas articulações do cotovelo e ombro, o que condiz seus hábitos de pescadores; baixos indicadores de doenças infecciosas e baixos índices de saúde oral. Como adendo, a amostra de Piaçaguera apresenta perda dentária e desgaste dentário, que o último não tenha sido analisado estatisticamente, ambos podem interferir na prevalência de marcadores de saúde dental, como cáries e cálculo.
Coordenação
Ligia Amparo da Silva Santos (UFBA), Anelise Rizzolo (UNB)
Ao longo dos anos, os GTs de Antropologia da Alimentação têm contado com a participação de pessoas de distintas regiões do Brasil e de outros países, promovendo cada vez mais um debate transdisciplinar, pluri epistêmico, interseccional e transnacional profícuo para pensar as questões relativas a culturas, identidades, patrimônios, sustentabilidade, Direito Humano à Alimentação Adequada, Segurança e Soberania Alimentar e Nutricional e distintas temáticas que têm ocupado o centro das discussões, tendo a comida como objeto privilegiado também para estudos de interseccionalidades entre gênero, raça, classe, entre outras. Deste modo, este GT tem o propósito de acolher trabalhos que discutam em uma perspectiva antropológica e interdisciplinar os sistemas alimentares em suas múltiplas dimensões socioculturais, políticas, ambientais, religiosas, econômicas, étnicas e interculturais, abrangendo contextos rurais e urbanos, considerando as profundas desigualdades socioeconômicas, de gênero, raça, classe e região, bem como os significados sobre a noção de alimentação saudável, práticas culinárias e as experiências educativas, como também em agroecologia, território, memórias e patrimônios alimentares, em perspectivas críticas. Em síntese, são esperadas contribuições para traçar novas configurações aos estudos das relações entre alimentação e cultura e as vivências de diferentes sujeitos para a garantia do direito à alimentação.
Títulos e Resumos
-
Promoção da segurança e soberania alimentar dos povos e comunidades de matriz africana e de terreiros: uma articulação política em construção
— Camila Carneiro, Luiz Antonio de Oliveira, Eloá Moraes
— Camila Carneiro, Luiz Antonio de Oliveira, Eloá Moraes
Historicamente, no campo das políticas de Segurança Alimentar e Nutricional (SAN), a principal ação do governo federal brasileiro para povos e comunidades tradicionais de matriz africana e de terreiros tem sido a distribuição de cestas de alimentos. No entanto, o propósito desta ação governamental seria atuar de forma tempestiva no combate à fome, considerando, sobretudo, as emergências provocadas por crises climáticas e sanitárias graves e/ou violações do direito humano à alimentação. Em outras palavras, a Ação de Distribuição de Alimentos (ADA), constituída pela distribuição de cestas, não deveria ser uma política de longa duração. Mas, a vulnerabilização histórica desses segmentos da população brasileira como fruto dos racismos a que foram submetidos ao longo do tempo tem feito com que políticas públicas mais efetivas de promoção da alimentação adequada e saudável, como as que apoiam a agricultura familiar, não os tenham alcançado, mesmo nos contextos políticos de governos mais progressistas. Assim, aos povos e comunidades de matriz africana e de terreiros têm sido destinadas políticas ineficazes e incipientes na promoção da segurança e, principalmente, da soberania alimentar, tendo em vista que, muitas vezes, tais políticas desconsideram as suas culturas alimentares e as redes de relações sociais que regem o funcionamento dos terreiros ou outros equipamentos comunitários em seus territórios. Todavia, é importante lembrar que os terreiros desempenham o papel de acolher e alimentar não só as pessoas pertencentes a essas comunidades e povos tradicionais, mas também a população do entorno. Durante os desastres provocados pelas chuvas no Rio Grande do Sul em 2024, por exemplo, destacou-se a atuação de muitos deles como Cozinhas Solidárias ou Emergenciais fornecendo alimentos para pessoas em situação de insegurança alimentar provocada pelas enchentes. É a partir do entendimento de que os terreiros desempenham este importante papel de um equipamento de segurança alimentar que, no âmbito do governo federal, vem sendo pensada mais recentemente uma estratégia de articulação de políticas de SAN para eles. A partir do diálogo entre diferentes órgãos públicos e organizações da sociedade civil vem se desenhando uma abordagem de atuação para os terreiros com vistas a retirá-los da dependência de ações emergenciais que não geram autonomia. Alguns dos principais desafios na construção desta estratégia estão relacionados à necessária intersetorialidade das ações, destacando uma maior intercessão entre políticas de promoção da igualdade racial e de SAN, além do desconhecimento, por parte dos diferentes agentes públicos e da sociedade civil, a respeito dos programas e políticas do governo federal, bem como sobre as especificidades desses povos e comunidades.
-
VÍSCERAS OU FILÉ: GASTRONOMIZAÇÃO, MEMÓRIA ALIMENTAR E DISPUTAS DE VALOR DA PANELADA EM TERESINA
— Carlos Alberto Sousa Lustosa Filho
— Carlos Alberto Sousa Lustosa Filho
Este artigo discute como a panelada (prato a base de bucho, tripas e mão bovinos) vem sendo consumida em Teresina e como seus significados se transformam no período de 2019 a 2026, com ênfase na mediação de restaurantes especializados. A análise se baseia em entrevista com Gardênia Mesquita, cozinheira e proprietária da "Casa da Panelada", articulando memória afetiva, mercados e disputas simbólicas em torno das vísceras. O depoimento revela um passado de baixa valorização - quando a panelada era "muito barata" e associada à vergonha no cotidiano familiar - com um presente de transição, no qual o prato se valoriza economicamente e se torna um símbolo da culinária local. Nesse processo, o restaurante aparece como instância de legitimação e segmentação de públicos, ao reinscrever a panelada como "experiência" ligada a lembranças da infância e pertencimento. A criação do "filé de panelada" (prato adaptado feito apenas com o bucho) evidencia a seletividade, estetização e reconfiguração do prato, com foco no desejo dos clientes que aceitam o aumento de preço, o que permite discutir a noção de "gourmetização" como mudança de estratégia para manutenção das vendas e consumo. Por fim, percebe-se a "gentrificação" como questão empírica a ser testada: em que medida a requalificação do prato implica exclusões, deslocamentos e/ou reordenamento de circuitos populares de consumo.
Palavras-chaves: panelada; gourmetização; memória alimentar; mercados alimentares; Teresina.
-
A demanda institucionalizada pelo bode: uma análise pela Teoria Ator-Rede
— Celiana Nogueira Cabral dos Santos
— Celiana Nogueira Cabral dos Santos
Este trabalho analisa a institucionalização da demanda pela produção e pelo acesso ao bode pelos povos tradicionais de matriz africana, tomando como referência a Recomendação nº 08/2023 do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e a “Carta de Intenções da Rota do Bode”. A partir da Teoria Ator-Rede (TAR), busca-se compreender como diferentes atores, humanos e não-humanos, articulam estratégias para consolidar essa reivindicação no campo das políticas públicas.
O estudo foi construído com base em documentos oficiais e entrevistas com representantes do Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (FONSANPOTMA), principal porta-voz da demanda. A análise evidencia como a interação entre sujeitos, instituições e documentos traduz a demanda original em linguagem burocrática, revelando disputas de poder e processos de negociação que culminaram na aprovação da Recomendação nº 08/2023.
A inclusão do bode como produto da sociobiodiversidade representa um marco estratégico, pois amplia a valorização das práticas alimentares tradicionais, fortalece a agricultura familiar e abre possibilidades de inserção em políticas como a PGPM-Bio e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). Trata-se da segunda proteína animal contemplada pela PGPM-Bio, o que sublinha a singularidade da demanda. Além de garantir preço justo e fomentar a produção tradicional, a medida possibilita que o bode seja destinado aos terreiros, reconhecidos como equipamentos de segurança alimentar e nutricional.
A Carta de Intenções da Rota do Bode, elaborada em Jaguarari (BA) em 2023, amplia essa articulação ao propor medidas concretas para a construção de uma cadeia produtiva sustentável, incluindo fomento, capacitação, assistência técnica e preocupações com o bem-estar animal. Como artefato de articulação, a Carta materializa a rede sociotécnica em torno do bode, reforçando sua vinculação à sociobiodiversidade e à identidade cultural dos povos de matriz africana.
As entrevistas com porta-vozes do FONSANPOTMA revelam ainda a dimensão ritual e simbólica do bode, alimento central nos sistemas alimentares tradicionais e nos rituais de nascimento, marcado por dificuldades de acesso e pela necessidade de garantir sua integridade e ancestralidade. A redefinição semântica da “rota” para “Teia Ubuntu dos Caminhos do Bode” exemplifica estratégias de adaptação diante de conflitos com a lógica mercadológica e normas sanitárias.
Em síntese, a institucionalização da Teia do Bode não se limita a um pleito alimentar, mas configura uma rede de traduções e negociações que reafirma direitos, valoriza saberes tradicionais e contribui para a soberania alimentar, a afirmação cultural e a economia dos povos de matriz africana em tempos de crise.
-
"Nutricídio": um itinerário conceitual em diálogo com a antropologia brasileira
— Daianire Carneiro Rocha
— Daianire Carneiro Rocha
Josué de Castro, renomado sociólogo, e referência para os estudos relativos à fome, possui dois conceitos centrais em sua teoria: 1) a “fome endêmica” e 2) a “fome epidêmica” (1983). A “fome endêmica”, também chamada de “fome crônica”, nos ajuda a entender o “Nutricídio” (Afrika, 2000), um conceito contemporâneo que debate este tipo de fome - ainda que não utilize do conceito de Josué de Castro - num contexto de genocídio e racismo alimentar, apontando que minorias raciais estão mais sujeitas à fome e à uma alimentação inadequada que gera problemas de saúde, resultantes do que o autor conceitua como “colonialismo alimentar”. Dessa forma, esta proposta de comunicação pretende-se à realização de um itinerário conceitual de “Nutricídio”, cruzando o atlântico e passando por sua chegada ao Brasil, bem como seu diálogo com a antropologia brasileira, objetivando dar início a um debate no interior das Ciências Sociais a fim de lançar luz sobre essa forma particular de violência e, assim, contribuir para a formulação de novas pesquisas e políticas públicas. Para isso, foi feita uma pesquisa de caráter bibliográfico (Severino, 2017), usando repositórios científicos para encontrar artigos que tratassem do tema para entender seu itinerário e sua absorção junto à comunidade antropológica do país. Outras plataformas de buscas, mais abrangentes, foram acionadas para pesquisar o uso do conceito dentro do contexto de movimentos sociais e outras organizações (Fragoso; Recuero; Amaral 2020). Adicionalmente, foram analisados dados recentes levantados e publicados pelo IBGE e de outras plataformas sobre a fome e a soberania alimentar no país, em especial a Rede Penssan. O material selecionado valeu-se do recorte temporal entre 2020 e 2025. Os achados foram debatidos ao longo do texto para chegar a uma síntese do debate Brasileiro. Ficou evidenciado que a noção de “Nutricídio” chega ao país de forma muito mais abrangente do que sua teorização conceitual de origem, tanto na literatura científica quanto na sua apropriação por movimentos sociais. Assim, o “Nutricídio” passa a ser entendido pelos brasileiros como um fenômeno que abrange todos os tipos de grupos marginalizados, que perpassa pela dimensão da violência nos diversos tipos de insegurança alimentar, sendo de fato entendido como uma forma similar à do conceito de “genocídio” . O trabalho levanta um apanhado de como o conceito é utilizado no Brasil como forma de debater um tema sensível ao país, e contribuir com uma modesta base para ensejar trabalhos acadêmicos futuros, que possam se aprofundar nas diversas nuances do tema e nas buscas por alternativas mais saudáveis para a população, o meio ambiente, e para a rica variedade de culturas alimentares do nosso território nacional.
-
Alimentar-se no Sertão: memórias, saberes e práticas alimentares em comunidades rurais da Bacia do Jacuípe (BA)
— Dulcimara Alves dos Santos Silva, Thais Penaforte
— Dulcimara Alves dos Santos Silva, Thais Penaforte
As transformações contemporâneas dos sistemas alimentares têm produzido impactos profundos sobre os modos de vida, saúde e territorialidades, especialmente em contextos rurais historicamente marcados por desigualdades socioambientais. A expansão de sistemas agroalimentares industrializados, combinada à homogeneização das dietas e ao aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, tem contribuído para a erosão da diversidade alimentar e para a desvalorização de saberes tradicionalmente associados à produção, ao preparo e ao consumo dos alimentos.
No semiárido brasileiro, esses processos assumem contornos específicos. Trata-se de um território frequentemente representado a partir de narrativas de escassez e vulnerabilidade, que tendem a obscurecer repertórios históricos que forjam a convivência com as condições climáticas adversas. Em contraste, as comunidades rurais desse território seguem mobilizando práticas alimentares e saberes tradicionais profundamente enraizados no território e na sociobiodiversidade.
A Bacia do Jacuípe, localizada no semiárido baiano e inserida no bioma da caatinga, constitui um contexto privilegiado para a análise dessas dinâmicas. Com forte presença de comunidades rurais cujos modos de vida estão fortemente vinculados à agricultura familiar e a práticas de subsistência, a região oferece um campo fértil para compreender como alimentos circulam como substâncias, valores e relações. É nesse cenário que miramos a alimentação não apenas como “cultura alimentar” em sentido descritivo, mas como via de acesso às pessoas, seu cotidiano e às interseções junto ao território e às redes de sociabilidade. Interessa-nos compreender como os alimentos e suas preparações são percebidos, selecionados, consumidos e compartilhados no nível local e cotidiano. Nossa hipótese é que os alimentos podem nos levar a espaços de memória, ancestralidade, pertencimento e cuidado, além de delinear especificidades de gênero, ocupação e desenhos de trabalho.
Ao enfatizar a dimensão relacional da alimentação, a Antropologia contribui para o diálogo com a Nutrição, sobretudo ao descrever cenários etnográficos capazes de complexificar diagnósticos sobre “mudanças no padrão alimentar”, evidenciando que tais alterações se inscrevem em histórias locais, em disputas de valor e em condições materiais específicas do semiárido. O foco, assim, recai sobre a comida como operador analítico capaz de revelar continuidades, fricções e rearranjos contemporâneos nos modos de habitar e produzir vida no sertão.
-
O que comer para não sentir dor: uma análise antropológica de manuais de alimentação para pessoas que vivem com fibromialgia
— Eric Vinícius Fernandes Frutuoso, Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego
— Eric Vinícius Fernandes Frutuoso, Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego
A fibromialgia configura-se como uma síndrome crônica de dor musculoesquelética generalizada, fadiga e sensibilidade aumentada, cujas bases etiológicas permanecem indefinidas, podendo seguir e/ou produzir outras formas de sofrimento físico e psíquico. O manejo terapêutico eficaz representa um desafio para os sistemas de saúde, gerando grande aflição nos sujeitos acometidos. Nesse contexto, observam-se ações voltadas ao alívio dos sintomas por meio de estratégias multidisciplinares que combinam terapêuticas farmacológicas e não farmacológicas. Destacam-se explicações e práticas que medicalizam a alimentação, com a crescente veiculação de orientações, guias e manuais sobre prescrições e restrições alimentares visando o controle da dor. Esse universo situa-se, portanto, no âmbito da atribuição de eficácia terapêutica ao ato de comer, levando-se à reflexão sobre seus efeitos sociopolíticos nos sistemas alimentares e na construção de itinerários terapêuticos.
Este trabalho propõe uma análise antropológica de manuais, guias e materiais informativos que prescrevem práticas alimentares aos sujeitos diagnosticados com fibromialgia, de modo a compreender as noções de corpo, saúde e doença neles subjacentes. Trata-se de um resultado parcial inserido no âmbito de uma pesquisa etnográfica mais abrangente sobre a experiência social da fibromialgia no Rio Grande do Norte.
Busca-se analisar, sob a ótica da produção, os materiais que fornecem tais diretrizes para compreender seus efeitos sociológicos e subjetivos. Para isso, foram selecionados artefatos que abordem recomendações alimentares para pessoas que vivem com a síndrome. A pesquisa foi realizada em ambiente digital, via mecanismos de busca e sites comerciais, utilizando descritores como manuais de alimentação e fibromialgia e manual fibromialgia dieta. Foram identificados 46 manuais, dos quais 4 foram analisados, produzidos por: Vanessa Kohler, Etiene Silva e Liwra Inspira.
Esses materiais reproduzem uma racionalidade de autoajuda, com o predomínio de modelos prescritivos, dietas padronizadas e e-books de receitas. Baseiam-se em padrões alimentares genéricos e replicam discursos como dieta anti-inflamatória, dietas sem glúten e estigmatização do leite animal e seus laticínios, mobilizando narrativas alarmistas de soluções rápidas para problemas complexos. Nota-se a reprodução de um discurso biomédico centrado na doença, descontextualizado, que não reconhece os marcadores sociais, econômicos, culturais e individuais. Esses materiais não apenas orientam práticas alimentares, mas produzem sentidos sobre saúde e cuidado por meio de modelos hegemônicos normativos que invisibilizam especificidades e condições concretas de existência dos sujeitos, principalmente quanto aos sistemas alimentares.
-
Alimentar e punir: comida, poder e desumanização no sistema prisional brasileiro
— Igor Souza de Abreu
— Igor Souza de Abreu
O trabalho se propõe a analisar a alimentação no sistema prisional brasileiro como um dispositivo político central nos processos de desumanização e produção da vulnerabilidade, tomando-a não como prática corriqueira ou dimensão privada do cuidado, mas como construção social, ideológica e institucionalmente produzida. A partir de uma pesquisa em andamento com familiares de pessoas privadas de liberdade no Estado de Minas Gerais, argumenta-se que a oferta sistemática de alimentação deteriorada, insuficiente e nutricionalmente precária constitui uma violação estrutural do Direito Humano à Alimentação Adequada e um elemento constitutivo da gestão cotidiana do cárcere.
Em diálogo com a antropologia da alimentação, filosofia e saúde coletiva, compreende-se que o prato servido na prisão materializa posições sociais e hierarquias morais, de modo que a chamada comida de cadeia não expressa escassez contingente, mas uma ideologia punitiva que comunica ao corpo preso sua condição de sujeito subalternizado e desvalorizado. A alimentação, longe de refletir uma escolha individual, revela-se totalmente capturada por uma lógica de controle estatal, operando como microfísica do poder (Foucault, 1978).
A partir de Judith Butler (2019), argumenta-se que a precariedade alimentar produz vulnerabilidade induzida sobre corpos cuja vida é desrealizada, situados em zonas não-vivíveis da vida social. Já em diálogo com Hannah Arendt (2008), sustenta-se que a banalização dessa precariedade se inscreve em uma racionalidade burocrática que fabrica a superfluidade humana, tornando a negligência alimentar na prisão uma violência ordinária e socialmente tolerável.
Reflete-se ainda o deslocamento da responsabilidade pela alimentação do Estado para as famílias, majoritariamente mulheres, produzindo a privatização da sobrevivência e aprofundando desigualdades de gênero, classe e território. Nesse sentido, discutir alimentação na prisão implica tensionar soberania alimentar, controle e território, compreendendo como a comida opera como tecnologia de punição, mas também como fronteira ética que define quais vidas merecem ser sustentadas.
Palavras-chave: Alimentação; Poder; Direito; Precariedade;
-
"Canetas emagrecedoras", cultura corporal e reordenação da relação com a comida: tensões socioculturais e de saúde em tempos de magreza farmacológica
— Isabella Bahia Dutra Rezende, Tayná Egas Costa
— Isabella Bahia Dutra Rezende, Tayná Egas Costa
Os análogos do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1ra), como
Ozempic e Mounjaro, consolidaram-se como terapias eficazes para diabetes tipo 2 e
obesidade. Contudo, observa-se uma expansão significativa de seu uso off-label (por
pessoas sem indicação clínica, impulsionada por discursos midiáticos, pela cultura da
estética corporal e pela promessa de emagrecimento rápido. Esse fenômeno tem sido
interpretado como expressão de uma magreza farmacológica, na qual a conformação
corporal passa a ser mediada por tecnologias biomédicas e por uma lógica de performance
estética, levantando preocupações quanto a riscos à saúde, acesso desigual e justiça
distributiva. Este trabalho procura problematizar as implicações socioculturais do uso de
agonistas de GLP-1 na relação com a comida, o corpo e a saúde, considerando seus efeitos
sobre subjetividades, moralidades da saúde e desigualdades sociais. Trata-se de um ensaio
teórico-reflexivo, de natureza qualitativa, baseado em revisão narrativa da literatura
interdisciplinar. A análise mobiliza aportes da antropologia da alimentação, da
antropologia médica e da saúde coletiva, articulados a evidências biomédicas e
epidemiológicas publicadas nos últimos dois anos. Adotou-se uma leitura interpretativa
e temática, voltada à compreensão da circulação social desses medicamentos para além
de suas indicações clínicas tradicionais. A literatura analisada indica que a supressão
farmacológica do apetite reconfigura experiências subjetivas de fome, prazer e controle
alimentar, ao mesmo tempo em que reforça moralidades associadas ao autocontrole, à
racionalidade e à responsabilização individual pelo corpo. O uso off-label de GLP-1ra se
insere em disputas simbólicas em torno do corpo ideal, aprofundando desigualdades de
classe, raça e gênero no acesso aos medicamentos e na produção de estigmas relacionados
à gordura corporal. Evidenciam-se ainda fragilidades regulatórias, riscos pouco
conhecidos a longo prazo e impactos sobre a disponibilidade desses fármacos para
pessoas que deles dependem clinicamente. Os achados apontam que a difusão das
chamadas canetas emagrecedoras não apenas transforma práticas alimentares, mas
também reconfigura sentidos de cuidado, saúde e normatividade corporal. Em contextos
como o brasileiro, esse fenômeno se articula a desigualdades estruturais e a limitações do
Sistema Único de Saúde, exigindo abordagens transdisciplinares, regulação sanitária e
políticas públicas orientadas pela equidade. O olhar antropológico crítico mostra-se
fundamental para compreender os efeitos sociais da magreza farmacológica e subsidiar
respostas éticas aos desafios contemporâneos no campo da saúde.
-
Sobre à mesa: comensalidade, consumo e as fronteiras do comestível no Mercado Municipal de São Paulo
— João Pedro Marinho Rodrigues
— João Pedro Marinho Rodrigues
O presente trabalho tem como objetivo investigar as práticas, classificações e tensões que marcam a circulação e o consumo de alimentos entre o interior e o entorno do Mercado Municipal de São Paulo, compreendido como um espaço privilegiado de observação — um microcosmo urbano onde se manifestam fronteiras culturais em torno das categorias do comestível e do não comestível. Tais categorias ultrapassam a dimensão biológica, constituindo um campo de significados, disputas e negociações culturais que são socialmente construídas e constantemente renegociadas. Parte-se da hipótese de que o Mercado Municipal de São Paulo não é apenas um local de transações econômicas de alimentos, mas também um espaço performático, no qual classificações alimentares são desafiadas e reconstruídas, convertendo “lixo” em alimento, dinheiro, sociabilidades, culturas e modos de vida. A metodologia adotada será a etnografia, compreendida como prática de imersão e interpretação das experiências cotidianas relacionadas à alimentação, sustentada pelos aportes teóricos da Antropologia e, em especial, da Antropologia da Alimentação. Busca-se, como resultado, compreender as múltiplas dimensões do comestível que se entrelaçam cotidianamente naquela região — onde o “lixo” de uns é alimento, trabalho, história e cultura para outros —, promovendo reflexões críticas sobre segurança e soberania alimentar, sustentabilidade e as formas de resistência e reinvenção presentes na economia popular.
Palavras-chave: comestível e não comestível; cultura alimentar; práticas de resistência; antropologia da alimentação; Mercado Municipal de São Paulo.
-
Alimentação, territorialidades e cosmopolítica kanhgág: aspectos de um sistema alimentar em des-equilíbrio
— Laísa Massena de Castro
— Laísa Massena de Castro
A alimentação diferenciada a partir da perspectiva kanhgág difere da noção eurocêntrica na qual a alimentação ocorre exclusivamente pela via oral. Busca-se trazer elementos que criam e transformam corpos e demonstram a indissociável relação existente entre as comidas - entendidas como tradicionais ou típicas pelos Kanhgág - e a concepção de território e das territorialidades deste povo. O trabalho com a kujá Gãh Té (Iracema Nascimento) e no diálogo com saberes alimentares kanhgág, articula-se à cosmologia dual Kamé-Kanhru, à recuperação territorial — incluindo combate a espécies invasoras como o pinus — e à luta cosmopolítica.Na retomada Gãh Ré, o plantio de reconhecimento ancestral, liderado por Gãh Té, é um espaço distante de hortas convencionais se conecta à floresta, integrando espécies nativas, cura e negociação com seres não humanos (macacos, lagartos), reafirmando a saúde ampliada e coletiva.As categorias "comida forte" e "comida fraca" refletem lógicas opostas na cosmologia kanhgág, atuando na constituição dos corpos. A primeira, proveniente da mata (fonte máxima de potência), sustenta o sistema alimentar e as práticas culinárias ligando passado e presente por meio da continuidade e transformação. Já a "comida fraca", associada ao mundo dos não-indígenas, traz riscos como enfraquecimento corporal e doenças, tornando-se mais presente devido à degradação da terra e à redução dos territórios ancestrais. A soberania alimentar kanhgág engloba humanos e não humanos, desafiando políticas públicas.
-
Gestão da precariedade, fome e políticas públicas: experiências de mulheres negras e pardas na Favela do Tripé.
— Viviane Mattar Villela Salles
— Viviane Mattar Villela Salles
Este trabalho propõe refletir sobre como a instabilidade na gestão da precariedade, marcado por um sistema irregular de assistência social, afeta a vida de moradoras do Tripé, favela localizada na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. A incerteza no acesso a benefícios sociais (Programa Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada) , somada a outras inseguranças, contribui para o agravamento da pobreza e da fome, que passam a fazer parte do dia a dia dessas mulheres.
A partir de 2018, o Brasil passou a registrar um crescimento expressivo da fome, que alcançou seu ápice em 2022. Esse agravamento ocorreu em meio a uma crise sanitária e a transformações no cenário político, que contribuíram para o aprofundamento das desigualdades sociais. Nesse contexto, as mulheres negras foram desproporcionalmente afetadas, enfrentando maiores taxas de desemprego e a redução das possibilidades de inserção no trabalho informal. Diante dessas condições, os benefícios sociais passaram a ocupar um lugar central em suas trajetórias, não apenas como meios de subsistência, mas também como formas de resistência e de construção de alternativas para a vida cotidiana (Mattar, 2023).
Entre 2023 e 2024, esse cenário começou a se transformar, resultando na saída do Brasil do Mapa da Fome da ONU. Essa mudança foi impulsionada pela retomada de investimentos e de políticas públicas voltadas à garantia de renda e cidadania, como o Bolsa Família, a valorização do salário-mínimo e ações de inclusão produtiva; à promoção da alimentação adequada e saudável, com apoio à agricultura familiar, ao PAA, ao PNAE e ao combate ao desperdício; e à mobilização institucional, por meio do fortalecimento do sistema de segurança alimentar e de ações interministeriais. Essas iniciativas se articularam em programas como o Plano Brasil Sem Fome, com o objetivo de assegurar a produção, a distribuição e o acesso à alimentação, priorizando a autonomia e a dignidade da população.
A partir dessas duas conjunturas - o agravamento da fome e as estratégias de enfrentamento desse problema - e baseada em uma perspectiva interseccional, este trabalho busca refletir sobre como a vivência da fome e o acesso aos auxílios governamentais, atravessados por negociações, conflitos e vínculos afetivos, produzem relações que organizam o cotidiano da vida social. A ampliação e o encolhimento da fome não apenas media a relação das mulheres com as políticas públicas, mas também produzem e reorganizam relações sociais, arranjos familiares e estratégias de sobrevivência, estruturando o ordinário da vida social e revelando as formas pelas quais a precariedade é vivida, administrada e ressignificada no dia a dia.
Coordenação
Emilene Sousa (UFMA), Flávia Ferreira Pires (UFPB)
Pessoa debatedora
Vanessa Ponte (UNB), André Filipe Justino de Morais (UFMT)
Propomos a constituição de um Grupo de Trabalho dedicado à Antropologia da Criança com foco nas Infâncias que se posicione como espaço crítico, reflexivo e politicamente comprometido com a compreensão das múltiplas experiências infantis em seus contextos concretos, atravessados por relações de poder e desigualdade. Este GT parte de uma premissa fundamental: não existe "a infância", mas infâncias plurais, situadas, interseccionadas por classe, raça, gênero, sexualidade, (dis)capacidade, territorialidade e geração. Buscamos romper com abordagens universalizantes que abstraem a criança de suas condições materiais, simbólicas e relacionais de existência. Mais que um espaço acadêmico, o GT se constitui como agora política e epistêmica, reunindo vozes múltiplas: pesquisadores universitários, educadores de infâncias, ativistas de direitos, crianças e adolescentes pesquisadores, movimentos sociais, profissionais de diferentes campos que trabalham com crianças, e as próprias crianças como protagonistas do conhecimento sobre suas vidas. A antropologia das infâncias oferece ferramentas para documentar, compreender e transformar experiências infantis frequentemente invisibilizadas. Em um momento de crises múltiplas—negação de direitos, colonialidade persistente, deslocamentos forçados, violência estrutural —a pesquisa etnográfica rigorosa e comprometida torna-se ato de resistência, denúncia e afirmação de dignidade.
Títulos e Resumos
-
Diálogos entre educadores: uma experiência de cuidado na companhia de uma bebê com microcefalia
— Altair Anderson Venancio Dos Santos, Emilia Juliana Correia do Nascimento
— Altair Anderson Venancio Dos Santos, Emilia Juliana Correia do Nascimento
O presente trabalho tem como objetivo compartilhar a experiência de dois educadores no ano letivo de 2025 com uma bebê com microcefalia. A partir da observação sensível do cotidiano, o estudo busca compreender o cuidado infantil para além de uma perspectiva estritamente biológica, articulando contribuições teóricas da antropologia, da pedagogia e da psicologia. Entretanto, elucidamos a necessidade de compreender a teoria antropológica como uma ferramenta essencial para e com o estudo das infâncias. É através de diálogos entre os educadores e como anotações de diários de campo que trazemos de forma sensível e afetuosa análises que evidenciam o corpo da criança como uma construção social, marcada por desigualdades, relações de classe e processos de socialização que antecedem o nascimento. O trabalho também problematiza as dimensões éticas do cuidado, destacando a importância da escuta dos sinais corporais da criança e do respeito às suas singularidades. Conclui-se que o cuidado com bebês exige uma postura ética, relacional e inclusiva, capaz de reconhecer as infâncias como múltiplas e socialmente situadas, contribuindo para práticas pedagógicas mais sensíveis e comprometidas com o respeito às diferenças. No caso da criança com microcefalia: como lidar com uma infância que já nasce marcada por vulnerabilidade social? Como a creche pode ser um espaço de transformação para essa criança com microcefalia? Os educadores sabem lidar com infâncias que fogem da tessitura formal esperada?
Nesse contexto, procuramos não criar respostas, mas expor através de nossas reflexões e atravessamentos como um estudante de ciências sociais, uma educadora e uma bebê com microcefalia desenvolveram suas relações de cuidado, afeto, compreensão e aprendizagem mútua. E também, elucidar as potencialidades da criança em questão, trazendo à tona a importância de não somente compreender as características da sua diferença estando perto (Malinowski, 1978), mas também de sua agência como ator social ativo na cultura de pares (Corsaro, 1987), com contextos culturais específicos (Mead, 1951) e que não se sujeita a uma lógica social (Tebet, 2013).
Além disso, o estudo consegue abordar a questão de gênero (Butler, 2019) da figura masculina no contexto da prática do cuidado, formas contra-hegemônicas de lidar com o corpo físico de uma bebê que foge da norma social (Mauss, 1934) e sobre o processo de ensino-aprendizagem que coloca criança e educador como potenciais aprendizes um do outro (Pires, 2010), onde o ato de aprender não necessariamente começa na criança e termina no adulto, ambos estão imersos nessa condição.
-
O menino que não conhecia a chuva e outras histórias: reflexões antropológicas sobre a construção do imaginário de crianças cabo-verdianas
— André Filipe Justino de Morais
— André Filipe Justino de Morais
Este trabalho é fruto de uma pesquisa etnográfica realizada em Praia, capital de Cabo Verde, entre os anos de 2019 e 2020 no contexto do meu doutorado em Antropologia Social. A partir do caso de Jefinho, uma criança cabo-verdiana que certo dia me disse não conhecer a chuva, analiso a construção de elementos do imaginário infantil que estão ancorados na realidade objetiva do mundo, isto é, a natureza. Como se constroem os arcabouços coletivos dos quais se saca a referência para compreender os fenômenos do mundo é a questão que norteia a análise antropológica que proponho. Uma criança que nunca viu a chuva, imagina o que quando ouve outras crianças contarem suas experiências?
Jefinho, ao migrar por várias ilhas do arquipélago cabo-verdiano, nunca havia encontrado a chuva, estava sempre “no lugar errado, na hora errada”. Sendo o clima cabo-verdiano marcado por longas secas, era mais que compreensível que o menino nunca tivesse experienciado o fenômeno das chuvas. Mas ele conhecia a palavra e estava minimamente familiarizado com o conceito. Ou familiarizado a tal ponto, que era capaz de dizer que não conhecia, por empiria, aquilo que seu arcabouço de conceitos referenciava enquanto “chuva”.
Dessa provocação, retorno aos meus dados de campo para refletir sobre como as crianças cabo-verdianas (ou migrantes que estavam em Cabo Verde à época) constroem seus referenciais que ancoram a imaginação e a produção de visões de mundo. Foi acompanhando as caminhadas e brincadeiras das crianças que consegui entender parcialmente como fauna e flora se constituem aos poucos no imaginário infantil, mesmo quando não há referência material para ancorar a presença desses elementos. Como imaginar um elefante? Como se sabe que o que tinha por trás da moita era um leão? Como a criança sabe como é a bruxa se ninguém nunca a viu?
Por trás dessas construções há outros elementos que são fundantes das sociabilidades no arquipélago cabo-verdiano, como as dinâmicas interétnicas e a problemática racial, principalmente quando o assunto é imigração, campo que estabelece uma dinâmica fundamental para entender a vida social cabo-verdiana e da qual as crianças não escapam.
-
Sexualidade, moralidades e infâncias em meninas na periferia da Zona Leste de São Paulo
— Debora Caje Yamamoto, Marina Nascimento Minarelli
— Debora Caje Yamamoto, Marina Nascimento Minarelli
A partir de uma etnografia realizada na Zona Leste de São Paulo, questiona-se a forma com que a sexualidade é construída para meninas do bairro. Esse trabalho é parte de uma pesquisa mais ampla sobre as experiências dos moradores, incluindo perspectivas de crianças e adolescentes. Durante nossas idas a campo, recordo de conversas que tivemos com agentes de saúde e cuidadoras. Em algumas delas, questionando sobre questões de saúde, muitas falavam sobre aumento de doenças sexualmente transmissíveis e da "gravidez precoce" entre as adolescentes. Para essas mulheres, esse cenário resulta do contato que essas meninas têm com os "bailes funks" que ocorrem na região. Elas ressaltam, como as crianças, "hoje em dia", são mais "maliciosas", que tem mais "maldade", como uma maneira de contrapor as suas infâncias, quase sempre lembradas e narradas de forma saudosa.
Já em conversas com meninas de 11 e 12 anos que tivemos ao longo da pesquisa, muitas delas disseram que tem, na verdade, "medo de engravidar". Algumas chegaram a contar que temiam o momento que menstruassem porque sabiam que a partir dele a gravidez passaria a ser um risco. A forma com que essas meninas falam sobre, contrasta com as narrativas das mulheres que conversei. As meninas quando falam sobre seus namoros, pedem para que guardemos seus relatos em segredo, com receio de que fossem punidas por andarem de mãos dadas com um menino. Há também adolescentes que relatam como o relacionamento e a gravidez foi uma forma de adquirir "autoridade" e "autonomia", de "sair da casa dos pais".
Nesse sentido, a sexualidade aparece nesse território marcada por categorias morais que acabam produzindo entendimentos que relacionam o corpo feminino e a sexualidade como algo perigoso. Dessa forma, busca-se questionar como a figura da menina periférica é marcada por narrativas que atrelam esse corpo a esse perigo e a sexualização, em que a "gravidez precoce" aparece como um problema resultante dos males que um local marcado pela vulnerabilidade social possa oferecer a elas.
-
Crianças indígenas no aldeamento urbano Badu Guajajara em Imperatriz
— Edlene Sales Galeno, Brenda Marques Sousa
— Edlene Sales Galeno, Brenda Marques Sousa
A presente pesquisa se inscreve em um campo de crescente reconhecimento dentro da antropologia: o estudo das infâncias, com uma atenção particular para a experiência singular das crianças indígenas Tentehar-Guajajara em um aldeamento urbano em Imperatriz. As crianças emergem cada vez mais como atores sociais plenos, dotados de agência e inseridos em complexas teias de relações sociais e culturais. No contexto brasileiro, a antropologia da criança tem avançado significativamente no estudo das infâncias indígenas em aldeias, revelando a centralidade das crianças na dinâmica sociocultural e desafiando noções etnocêntricas sobre desenvolvimento e socialização. No entanto, persiste uma lacuna alarmante no que concerne à compreensão das infâncias indígenas em contextos urbanos. A invisibilidade desses sujeitos se agrava devido a uma noção equivocada que frequentemente associa a identidade indígena exclusivamente à presença em Terras Indígenas, negligenciando as complexas dinâmicas de migração e as novas formas de territorialidade construídas nas cidades. Em Imperatriz, município marcado pela presença de diversas etnias indígenas, essa invisibilidade se traduz em um acesso precário a serviços públicos essenciais, como a educação infantil institucional. Esta pesquisa se torna, portanto, antropologicamente urgente e socialmente relevante ao direcionar seu olhar para essa população específica, buscando desvelar as condições de vida, as práticas de cuidado e as representações sociais que permeiam a experiência da infância indígena na cidade. A escolha de Imperatriz como lócus da pesquisa se justifica pela significativa presença indígena em contexto urbano, tornando-se um campo fértil para a investigação das intersecções entre a cultura indígena, a vida na cidade e as políticas públicas de educação infantil. Em suma, esta investigação se justifica pela sua capacidade de produzir conhecimento sobre a experiência da infância indígena em contexto urbano, de influenciar a formulação de políticas públicas mais equitativas e culturalmente sensíveis atenta a estas minorias sociais no âmbito da cidade.
-
O acesso dos bebês indígenas às creches públicas de Imperatriz - MA
— Emilene Leite de Sousa
— Emilene Leite de Sousa
Em 2025 o estado do Maranhão lançou o Plano Estratégico Maranhão 2050, apontando o baixo percentual de bebês de zero a três anos nas creches públicas em todo o estado. Diante disso, esta pesquisa partiu da hipótese da ausência de bebês indígenas aldeados ou em situação de dispersão, nas creches públicas de Imperatriz - MA. De posse dos dados da Secretaria de Educação do Município, que confirmaram a escassez de bebês indígenas, apesar do grande número de etnias indígenas que residem na cidade, realizei uma pesquisa preliminar junto ao maior aldeamento urbano da cidade, o Badu Guajajara. Lá encontrei os bebês nos braços de suas mães ou engatinhando pelo aldeamento, entre esgotos e restos de matéria-prima do artesanato confeccionado por eles, em condições de miserabilidade. Ao questionar por que os bebês não estavam nas creches, as famílias revelaram: a) representações negativas das creches – medo de maus-tratos e medicamentos para induzir o sono; b) preocupações por conta da distância entre os modos de cuidar – creches sem redes de dormir, banho de imersão, dieta alimentar adequada, etc.; c) receio da perda da identidade cultural –também pela ausência de cuidadores bilíngues nas creches. Logo, esta pesquisa nasce para desvendar, por meio de um mapeamento criterioso, a presença dos bebês indígenas na cidade de Imperatriz e os pormenores das razões de sua ausência nas creches públicas. A metodologia articula dados estatísticos – índices, censos e matrículas –; análise documental - a partir dos dados dos órgãos oficiais; e análise etnográfica - junto ao maior aldeamento da cidade, à famílias em situação de dispersão e às creches locais - guiada pela observação, conversas informais e entrevistas, para propor políticas públicas para a adequação das creches já existentes na cidade, de modo que estas possam acolher os bebês indígenas, de maneira respeitosa, considerando os saberes, os modos próprios de cuidar, crenças e valores indígenas.
-
Experiências de infâncias brasileiras migrantes em Portugal: um olhar a partir das brincadeiras
— Karoline Cipriano dos Santos, Alex Sander da Silva
— Karoline Cipriano dos Santos, Alex Sander da Silva
O presente resumo apresenta um recorte da pesquisa em andamento intitulada: “Brincadeiras de infâncias brasileiras em Portugal: influências culturais da migração”. Os sujeitos da pesquisa são crianças migrantes que frequentam o primeiro ciclo de ensino em Portugal. O foco da pesquisa são crianças de nacionalidade brasileira e suas brincadeiras, mas serão observadas também as brincadeiras realizadas com crianças de outras nacionalidades. A pesquisa de campo situa-se na região metropolitana de Lisboa com grande número de imigrantes brasileiros e de outras nacionalidades e culturas. Uma premissa que fundamenta eticamente a pesquisa é o compromisso com a epistemologia da infância. Isso implica pensar as infâncias não como um vir a ser, com viés de desenvolvimento, mas como vida já, no presente. Os principais autores que se baseiam nessa ética são Arroyo e Silva (2012), que, ao escrever sobre a infância, criticam os futurismos incrustados na ética pedagógica, que bloqueiam uma ética de compreensão e de cuidado da infância no presente. O futurismo, de certa forma, faz parte da própria proposta de escola, que organiza sua atividade com base num projeto de humanidade. Mas as crianças existem hoje, com suas diferentes formas de vivenciar a infância, e com suas necessidades. Nesta pesquisa, em síntese, pretende-se ouvi-las. Será necessário averiguar formas de como transformar as vivências em conhecimento científico, saber qual a melhor forma de acessar aos conteúdos, às vivências e, em suma, ao campo das infâncias. Se a linguagem da criança é a brincadeira, se pretende não só saber quais brincadeiras que estão fazendo, mas também brincar com elas para conseguir ouvir e entender os sentidos dos elementos envolvidos. Parte-se do pressuposto do conceito de infâncias a partir de Benjamin (2002), em que a brincadeira é uma categoria de destaque nas experiências de infância. A criança brinca, é produtora de sentido e de imaginação. Além disso, parte-se do pressuposto que o mundo da infância não é um mundo separado do restante da sociedade. Nesse sentido, assim como há inúmeras sociedades, há também inúmeras infâncias. Partimos também da brincadeira segundo Baron (2002), como campo privilegiado para a coletividade e experiência de sentimento de proximidade, assim como aspecto social mimético do mundo adulto em que a criança que brinca está inserida. Assim, na brincadeira, atividade que pode parecer simples, aspectos das configurações sociais em que a criança está inserida ficam evidentes. Diante desse panorama, o olhar estará voltado para a análise de brincadeiras, tendo como objetivo perceber melhor as experiências de infâncias migrantes e contribuir para este domínio de estudos.
-
A Floresta de Cacau e as Crianças: Práticas Especulativas de Cuidado
— Kássia Pedrosa
— Kássia Pedrosa
O resumo a seguir, discorre sobre uma investigação etnográfica realizada com crianças que moram em um assentamento do Movimento de Trabalhadores Sem Terra, localizado em Ipiaú, no sul da Bahia, Brasil. Trata-se de um território marcado pela luta por reforma agrária em regiões historicamente caracterizadas pelo regime da plantantion. Este trabalho compreende que as crianças participam como agentes produtoras de práticas de cuidado em florestas de cacau. Os dados etnográficos demonstram que, existe uma relação de aliança e identidade entre criança e o vegetal. Inaugura-se assim uma ritualização cotidiana de práticas de cuidado.
A cena etnográfica é descrita através de processos que envolvem a produção do mel do cacau, é narrado as etapas técnicas com observações detalhadas da secagem da semente até o produto final. Para além de demonstrar conhecimento sobre a produção do vegetal, identifiquei um regime de cuidado que não se restringe apenas às relações de produção familiar, mas um tipo de percepção em dar atenção a floresta de cacau.
O dado dialoga, assim, com formas de produção de relações implicadas em tornar a terra habitável, mesmo em meio às ruínas. Os modos de cultivo realizados pelas crianças não as constituem apenas como receptoras passivas de cuidado, mas como agentes engajadas em práticas de criação de mundos. Sustento, portanto, que as crianças são sujeitos habilidosos em produzir um cuidado especulativo e orientado pela manutenção dos vínculos e pela responsividade ao outro, seja humano e o não-humano.
Dito isto, proponho um giro ontológico no qual a criança estabelece vínculos de cuidado com o cacau por meio de sinais sensíveis como cor, cheiro e umidade que exigem atenção contínua e situada. Essa prática implica estar em contato com uma rotina de produção de saberes locais sobre os ciclos da árvore, fruto e da semente. Nesse entrelaçamento, a floresta de cacau e a criança expressam um cuidado que não é apenas ético, mas também relacional e epistemológico com categorias não-humanas. Abordagem metodológica, é baseada em uma etnografia com crianças filhos de trabalhadores rurais e atuantes do MST da Bahia.
Em síntese, esta comunicação propõe pensar o cuidado como uma forma de ritualização cotidiana das relações humano-vegetal a partir das práticas das crianças. O conhecimento a produção de mel de cacau não se encontra separado da ética que orienta sua produção; ao contrário, revela uma dimensão especulativa e relacional do cuidado com a floresta e com o território. Ao acompanhar os gestos, percepções e narrativas das crianças, a comunicação sugere que a criação de mundos habitáveis passa, também, pela perspectiva com que elas aprendem em sua dimensão especulativa junto a floresta
-
As crianças e suas relações no cotidiano de uma instituição de educação infantil
— Lígia Antunes de Siqueira
— Lígia Antunes de Siqueira
Esta comunicação traz resultados de pesquisa doutoral em desenvolvimento realizada com crianças de 4 a 6 anos, que tem como objetivo entender os processos de socialização infantil no que diz respeito à gênero e violências. Meu interesse por este tema surgiu de minha experiência como professora de educação infantil, através da observação de atitudes das crianças reproduzindo violências, muitas vezes realizadas por meninos. Destaco que esta é uma pesquisa com crianças, ancorada no paradigma interdisciplinar de estudos da infância, que questiona tanto a visão universal e naturalizada de infância, como o viés adultocêntrico do pensamento ocidental, que não considera como relevantes as percepções e ações das crianças, privilegiando a perspectiva de pessoas adultas (Tassinari, 2011). Partindo da hipótese de que as crianças são capazes de reproduzir violências em suas relações e, ciente de que a socialização masculina costuma incentivar a resolução das situações por meio da força e diferentes formas de violências (Seidler, 2009), realizei uma etnografia e observei através da permanência diária entre agosto e dezembro de 2025, em uma instituição de educação infantil da Rede Municipal de Florianópolis, localizada em um bairro de camadas populares, como se produzia a construção das masculinidades neste grupo de crianças. Além disso, a partir das perspectivas da antropologia feminista, que permite a exploração das complexas experiências culturais associadas ao gênero (Bonetti, 2011) e da antropologia da criança, que oferece ferramentas privilegiadas para analisar as culturas infantis e defende que é preciso entender as crianças e seu mundo por meio de seus próprios pontos de vista (Cohn, 2005), tive como objetivo problematizar como as crianças reproduzem violências e as conexões com as masculinidades, trazendo centralidade para suas percepções e buscando garantir participação ativa delas e, assim, tentar entender como as próprias crianças simbolizam tais relações. Como resultados iniciais não identifiquei meninos reproduzindo violências com frequência, pois utilizavam o diálogo para resolver as situações. Tal constatação promoveu deslocamentos teóricos, pois a violência apareceu de outras formas: meninos brincavam mais com armas que as meninas, eles ocupavam espaços maiores e ambos brincavam de lutinha. Ao realizar tais brincadeiras as crianças costumavam dar risada e muitas vezes conseguiam demonstrar limites até onde a brincadeira poderia ir. Além disso, constantemente reproduziam experiências virtuais em suas brincadeiras reais, trazendo para o enredo destas o que assistiam em vídeos e jogos de celular. Por fim, entendo que, dentre outras coisas, as brincadeiras funcionam como tecnologias de gênero e moldam subjetividades (Lauretis, 1994).
-
Infâncias e políticas públicas: notas comparativas sobre o PBF entre os estados da Paraíba e Maranhão
— Patrícia Oliveira S. dos Santos, Emilene Leite de Sousa
— Patrícia Oliveira S. dos Santos, Emilene Leite de Sousa
Este trabalho apresenta uma pesquisa em fase inicial que investiga as experiências cotidianas de crianças pertencentes a famílias beneficiárias do Programa Bolsa Família nos estados da Paraíba e do Maranhão, articulando uma abordagem etnográfica com uma análise estatística comparativa preliminar. Inserido no campo da antropologia da criança e dos estudos sociais da infância, o estudo parte do entendimento de que as crianças são sujeitos sociais ativos, cujas experiências são atravessadas por desigualdades estruturais, relações de poder e transformações nas formas de proteção social. A proposta analítica combina, em um primeiro momento, o exame de dados estatísticos secundários — provenientes de bases oficiais como IBGE, IPEA e Ministério do Desenvolvimento Social — com o objetivo de traçar um panorama comparativo inicial sobre pobreza infantil, escolarização, composição familiar e acesso a políticas públicas nos dois estados. Essa leitura quantitativa não é tomada como explicação em si, mas como ferramenta de contextualização das diferenças e semelhanças territoriais que informam e tensionam o trabalho etnográfico. Ao dialogar com o eixo do GT “Antropologia da criança: desigualdade, poder e transformações”, o estudo propõe uma discussão introdutória sobre os desafios analíticos de investigar políticas públicas a partir das experiências infantis, refletindo sobre como desigualdades sociais e relações de poder estruturam tanto os dados oficiais quanto os cotidianos que a etnografia busca compreender. A contribuição do trabalho reside, assim, na problematização teórico-metodológica do olhar antropológico sobre a infância no contexto das políticas de proteção social, mais do que na apresentação de resultados empíricos.
-
Entre o cuidar e o educar: estratégias infantis nas dinâmicas de cuidado na Educação Infantil
— Viviana Thais Vargas Zorzi
— Viviana Thais Vargas Zorzi
Este trabalho situa-se nos debates contemporâneos da antropologia da criança, da educação e nos estudos do cuidado. Elabora uma reflexão sobre as estratégias mobilizadas por crianças no contexto da Educação Infantil pública do município de Santa Maria (RS). Parte de uma perspectiva etnográfica que entende as crianças como sujeitos sociais ativos na produção, no manejo e na ressignificação de suas experiências cotidianas e busca observar como as crianças vivenciam e se relacionam com as dinâmicas de cuidado cotidiano. No contexto institucional observado, o cuidado se organiza a partir do binômio cuidareducar, materializado nas divisões de tarefas entre professora regente e estagiária, assim como responsabilidades e expectativas em torno do trabalho com as crianças. Esse binômio não apenas orienta as práticas pedagógicas e de cuidado, mas também produz hierarquias específicas no interior do ambiente escolar, configurando assimetrias entre adultos e modos diferenciados de presença, atenção e responsabilização no cotidiano infantil. A partir desse arranjo, o estudo desloca o foco para as crianças, investigando de que formas elas percebem, manejam, negociam e, por vezes, resistem ou brincam com essas dinâmicas de poder que atravessam as situações de aprendizagem e de cuidado. As crianças não são tomadas apenas como destinatárias das práticas institucionais, mas como participantes ativas na produção dessas relações, acionando estratégias cotidianas que reconfiguram os sentidos do cuidado e da autoridade adulta. A reflexão integra uma pesquisa de mestrado em Ciências Sociais (UFSM) em desenvolvimento e tem como foco empírico o contexto da chamada Educação Inclusiva. Nesse contexto, integram-se, no cotidiano das salas de aula, crianças com diferentes formas de agir, comunicar-se e relacionar-se com o cuidado, bem como crianças com deficiência e/ou neurodivergentes que contam com o acompanhamento individualizado de estagiários/as remunerados/as, muitas vezes sem formação específica na área. Nessas relações intensificadas de cuidado, observa-se como as crianças mobilizam, observam ou rejeitam a presença constante dos/as estagiários/as, produzindo e reconfigurando vínculos, dependências e formas situadas e negociadas de controle no cotidiano escolar. Ao analisar essas interações, o estudo busca compreender como as experiências infantis de cuidado evidenciam tensões entre proteção, autonomia, poder e agência na Educação Infantil pública.
Coordenação
Leonardo Carbonieri Campoy (UPE)
Olivia von der Weid (UFF)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Valéria Aydos Rosário (UNIPAMPA)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Pedro Lopes (USP)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Carolina Branco de Castro Ferreira (UNICAMP)
Deficiência, uma categoria em constante disputa e reconstrução analítica e política, guarda amplo potencial para a antropologia. É o que as contribuições do campo de estudos da deficiência têm demonstrado. Por meio delas, nota-se diferentes corporeidades, linguagens, temporalidades e sensorialidades, assim como as dinâmicas das relações com políticas públicas, tecnologias, saberes médicos, escolares e jurídicos, dentre outros, na conformação de possibilidades e barreiras de acessibilidade, inclusão e acesso a direitos. Prosseguindo com os debates de edições anteriores da RBA e da RAM, este GT visa reunir pesquisas, em andamento ou concluídas, que versam sobre essas temáticas. Convidamos à submissão de investigações que tomam a deficiência como vetor determinante e que partam, mas não exclusivamente, de interpelações tais como: a) o papel dos movimentos sociais e de políticas públicas para pessoas com deficiência na construção de condições e parâmetros relativos aos direitos e cidadania em campos como os da saúde, educação, mercado de trabalho e afins; b) narrativas e práticas de pessoas com deficiência, e/ou de seus cuidadores, que organizam a presença em distintas coletividades; c) ensaios teóricos e etnográficos que problematizam a deficiência desde os diferentes aportes da antropologia; e d) considerações políticas, teóricas e ontológicas acerca do capacitismo e de suas intersecções com outras discriminações, especialmente o racismo, tema central desta edição da RBA.
Títulos e Resumos
-
Demasiado humano: aproximações entre Estudos da Deficiência e Antropologia Multiespécie
— Amanda Dias Winter
— Amanda Dias Winter
A partir de cenas etnográficas situadas no Centro Histórico de Porto Alegre, este trabalho propõe uma aproximação entre a epistemologia dos Estudos da Deficiência e a Antropologia Multiespécie, tomando o capacitismo como ideologia e sistema de valoração que atravessa corpos humanos e e também não-humanos. O ponto de partida empírico são observações cotidianas envolvendo a circulação de um homem cego, Airton, acompanhado de seu cão-guia, Habib, e a presença de animais urbanos considerados indesejáveis, como ratos, em um território marcado pela precariedade infraestrutural, pela materialidade do lixo e pelas marcas recentes das enchentes de maio de 2024.
Ao refletir sobre a relação entre Airton e Habib, argumento que o cão-guia não pode ser compreendido apenas como uma tecnologia assistiva instrumental, mas como um ser vivo dotado de agência e subjetividade, inserido em uma relação de cuidado mútuo e interdependência. Essa relação produz formas específicas de percepção da cidade: se o uso da bengala torna sensíveis obstáculos como buracos e desníveis das calçadas, a mediação do cão-guia evidencia cheiros, resíduos e a presença de outros animais, reconfigurando a experiência sensorial e material da deficiência.
Em diálogo com Sunaura Taylor (2017), defendo que a vulnerabilidade compartilhada entre pessoas com deficiência e animais não-humanos é estruturada por um mesmo sistema de valoração capacitista, que hierarquiza vidas a partir de ideais normativos de autonomia, produtividade e normalidade. Nesse sentido, tanto as barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência quanto a precariedade vivida por animais são justificadas por uma ideologia que atribui menor valor moral a corpos considerados desviantes ou improdutivos, produzindo exclusões que operam de forma transversal entre o humano e o não-humano.
A partir dessa aproximação, o trabalho propõe um deslocamento epistemológico que questiona a centralidade do sujeito autônomo, capaz e visualmente orientado que historicamente protagonizou a antropologia. Inspirando-se na noção de Cripistemologia (Johnson; McRuer, 2014), sugere-se que o conhecimento antropológico pode emergir das fricções sensoriais, das limitações corporais e das relações multiespécie que sustentam a vida social. Ao articular deficiência, tecnologia e animalidade, esta proposta contribui para os debates do GT ao oferecer um posicionamento político e epistemológico da diferença e da vulnerabilidade como condições de enfrentamento a um mundo em ruínas.
-
O Masculino In-Interrompido: Gagueira, Performance Vocal e Normatividade da Fluência
— Café Cafeseiro
— Café Cafeseiro
Este trabalho analisa o entrelaçamento entre gagueira, masculinidade e performance vocal a partir do conceito de normatividade da fluência, compreendida como regime que institui a fala contínua, veloz e controlada como condição de legitimidade comunicativa e reconhecimento social. Argumenta-se que, para homens que gaguejam, a disfluência ultrapassa o campo da comunicação individual, operando como marcador social que reorganiza expectativas de masculinidade, autocontrole e presença social. Nesse enquadre, a fala masculina é atravessada por dispositivos que exigem firmeza, segurança e domínio, convertendo a disfluência em signo de fragilidade ou incompetência.
A pesquisa articula netnografia e autoetnografia, mobilizando referenciais da antropologia da corporalidade, dos estudos críticos da deficiência, da teoria crip e dos estudos sobre masculinidades. O material empírico é constituído por postagens e comentários publicados em ambientes digitais. A análise indica que a disfluência não atua de forma isolada, mas se coproduz com normas de masculinidade hegemônica que demandam assertividade, prontidão e eficiência comunicacional. A disfluência tensiona esse roteiro ao introduzir pausas, repetições e hesitações que desorganizam métricas produtivistas da fala e tornam visível o caráter performativo da virilidade vocal.
Sustenta-se que essa experiência não se reduz a uma soma entre capacitismo e estigma individual, mas materializa um dispositivo relacional de regulação da escuta, responsável por definir quem pode falar, por quanto tempo e sob quais condições de reconhecimento. Em contextos institucionais, como o trabalho, a gagueira afeta a credibilidade do sujeito e aciona mecanismos recorrentes de interrupção, correção e silenciamento. Simultaneamente, emergem estratégias de negociação e reinscrição da disfluência como gesto político, capaz de deslocar a centralidade da fluência e reconfigurar a cena interacional.
Conclui-se que a masculinidade, longe de se restringir a atributos visíveis do corpo, constitui um regime acústico que organiza tempos, ritmos e expectativas da fala. A gagueira, ao interromper a linearidade vocal exigida do masculino, expõe a historicidade dessas normas e afirma-se como prática de resistência micropolítica, capaz de produzir outras formas de presença, escuta e reconhecimento no espaço público contemporâneo.
-
Como a pessoa surda é tratada quando precisa acessar a Justiça Criminal? Análises morais sobre a jornada dos surdos para "serem ouvidos" e "terem voz".
— Danielle Rodrigues de Oliveira
— Danielle Rodrigues de Oliveira
O presente trabalho é fruto de uma pesquisa de doutorado em andamento realizada no PPGSA-UFRJ por uma professora de Sociologia da Educação Básica do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), localizado no Rio de Janeiro que, baseada em sua relação com a comunidade surda e inquietações próprias de estudos anteriores realizados no campo da Violência e Moralidades nas Ciências Sociais, buscou analisar a experiência do surdo no Sistema de Justiça Criminal (polícia e Justiça).
Tradicionalmente, os mecanismos de denúncia e defesa estão ligados à oralidade e a oportunidade de “escuta” dos sujeitos. Mas, como é realizado o tratamento a pessoas surdas que não se comunicam via estas habilidades orofaciais? Por direito, os surdos possuem uma língua própria, a LIBRAS, reconhecida oficialmente pelo Estado Brasileiro e podemos supor que a presença de um tradutor e intérprete de LIBRAS sanaria essa lacuna na comunicação, como ocorre com qualquer estrangeiro que precise de um tradutor para mediar sua relação com essa instituição judicial. Porém, verificamos que a existência de uma deficiência no meio deste caminho provoca barreiras próprias que não estão centradas apenas a uma variação linguística.
A metodologia empreendida nesta pesquisa é o trabalho de campo realizado com pessoas surdas e os profissionais intérpretes de LIBRAS que as acompanham em denúncias realizadas em Delegacias de Polícia e Audiências de Custódia, e também entrevistas semiestruturadas com intérpretes e pessoas surdas para avaliar a forma como os agentes do Estado (policiais e juízes) se portam frente a esses indivíduos nesses contextos de acesso à Justiça. Existe uma verificação de tratamento desigual dessas pessoas no que tange o direito à acusação e à defesa? Que tipo de frases e manifestações públicas são acionadas no processo de atendimento desses indivíduos? Algum pressuposto moral ligado à presença da deficiência produz determinado tipo de influência no andamento ou resultado do processo judicial?
Os desdobramentos preliminares desta pesquisa apontam que existe uma “invisibilização do surdo” e um destaque acentuado para a “fala do intérprete”, tendo esta um papel de “verdade” e não apenas de tradução, como é o esperado. Esta pesquisa busca verificar a hipótese de que a deficiência imputa a estes indivíduos uma contradição lógica moral: os surdos seriam ao mesmo tempo “elevados” moralmente - como vítimas necessitadas de compreensão, de empatia - e rebaixados moralmente, como “incapazes de serem entendidos/respeitados”, dado que o fato de não ouvirem atribuiria a eles uma “não compreensão adequada do mundo”. A observação das falas dos agentes do Estado aponta para um tratamento alinhado à valores capacitistas que serão problematizados e analisados ao longo deste trabalho.
-
Entre a proteção e a liberdade: O uso da Curatela e da Tomada de Decisão Apoiada no Sistema de Justiça do DF após a Lei de Inclusão Brasileira (LIB).
— Fernanda Medeiros Baldez
— Fernanda Medeiros Baldez
Este projeto tem como objetivo investigar as ações judiciais relacionadas à Curatela e à Tomada de Decisão Apoiada (TDA), com foco na análise dos pedidos e das fundamentações presentes nos processos. Busca-se compreender de que forma o regime jurídico da Curatela tem sido mantido e sob quais justificativas, bem como examinar a implementação da TDA no Distrito Federal. Com isso, busca-se evitar o uso indiscriminado da Curatela e promover a igualdade jurídica das pessoas com deficiência. O reconhecimento de que as pessoas com deficiência não devem mais ser consideradas absolutamente incapazes impulsionou a construção de novos instrumentos jurídicos, como a Tomada de Decisão Apoiada (TDA), e a redefinição da Curatela, agora compreendida como medida excepcional, proporcional e temporária.Tal diretriz internacional institui um novo modelo de compreensão da deficiência, pautado em uma abordagem funcional e social, que desloca o foco da limitação individual para as barreiras impostas pela sociedade e pelo próprio Estado. Nesse contexto, como apontam Pereira et al. (2019), a Convenção inaugura um novo modelo de capacidade que implica o envolvimento da família, da sociedade e do Estado na superação das barreiras que produzem a exclusão e reforçam a vulnerabilidade da pessoa com deficiência. Borges e Tomaz (2019, p. 171) reforçam que esse modelo reconhece o direito à igualdade de tratamento e à proteção dos direitos das pessoas com deficiência, considerando a importância de sua rede de apoio como parte do exercício da autonomia. Diante dessa mudança normativa e conceitual, torna-se urgente investigar como o Sistema de Justiça tem se adequado a esse novo paradigma, especialmente em relação à persistência da curatela como medida padrão. A análise dos processos judiciais no Distrito Federal permitirá verificar a permanência de práticas tradicionais de substituição de vontades. No campo da saúde mental, os estudos contemporâneos têm avançado na crítica aos modelos biomédicos e tuteladores, que historicamente justificaram a exclusão de pessoas com deficiência psicossocial ou intelectual com base em diagnósticos clínicos. A reforma psiquiátrica brasileira e os princípios da atenção psicossocial propõem o deslocamento do foco da doença para o sujeito em sua integralidade, com reconhecimento da cidadania, dos direitos civis e da importância das redes de apoio (AMARANTE, 2015). No contexto da avaliação da capacidade jurídica, isso significa compreender que a presença de um transtorno mental não implica, por si só, a incapacidade para tomar decisões, sendo de suma importância que se respeite o direito à autonomia e que se ofereça apoio e devolva o protagonismo da pessoa com deficiência em seu próprio processo de vida.
-
Eu não era vista como PCD
— Gustavo Gomes dos Anjos
— Gustavo Gomes dos Anjos
Esta pesquisa dedica-se a conhecer a experiência das trabalhadoras com deficiência lotadas em um hospital universitário. Ao contrário da maioria dos estudos de deficiência, aqui, inverteu-se o foco: em vez de estudar os cuidados que PcD recebem, optou-se por estudar como PcD oferecem cuidados e realizam seu trabalho na área da saúde. Para essa pesquisa de TCC, foram realizadas e analisadas 9 entrevistas com trabalhadoras ao longo do segundo semestre de 2025.Identificou-se uma ambiguidade central no cotidiano destas trabalhadoras. . Por um lado, da parte da instituição, a Lei de Cotas é adotada como mecanismo de ingresso validando a deficiência para fins estatísticos e de contratação , mas falha sistematicamente na política de permanência. Nota-se um paradoxo onde a trabalhadora é considerada "deficiente o bastante" para a cota, mas tem essa condição questionada, relativizada ou burocraticamente inviabilizada quando solicita direitos fundamentais, como a redução de carga horária e a acessibilidade arquitetônica. Frequentemente, a administração interpreta a deficiência sob uma ótica restritiva, exigindo provas constantes de que ela é, de fato, limitadora das atividades laborais e cotidianas, transformando o acesso ao direito em uma disputa administrativa exaustiva.
Por outro lado, da parte das trabalhadoras, , emerge o fenômeno da "passabilidade". Algumas buscam ocultar sinais da deficiência ou minimizar suas limitações para evitar o estigma do capacitismo e tentar se adequar a uma "normalidade" imposta pelo ambiente hospitalar. A passabilidade funciona como um escudo social, uma tentativa de ser vista pela competência e não pela falta. Contudo, essa estratégia de invisibilidade entra em rota de colisão com a realidade burocrática: para acessar os direitos que garantem sua saúde e permanência no cargo, a trabalhadora é obrigada a reivindicar publicamente e provar documentalmente a identidade estigmatizada que tenta evitar.
Aventa-se, portanto, que o hospital pratica uma inclusão que é eficaz na porta de entrada, mas excludente na rotina de trabalho. A servidora se vê presa em um "limbo": se assume a identidade PCD para ter direitos, sofre com o estigma e o julgamento institucional de sua capacidade; se tenta "passar" por pessoa sem deficiência, adoece pela falta de adaptações. A pesquisa sugere que a cidadania laboral dessas sujeitas exige uma luta constante para serem reconhecidas pela instituição que já as deveria ter acolhido.
-
Por um viver com dignidade: o indígena com deficiência nas políticas públicas de saúde
— Júlia Vilela Garcia
— Júlia Vilela Garcia
Em 2024, ancestralizou Mateus Santana, de 21 anos. Mateus Pataxó, como era conhecido, residia na Bahia e possuía mielomeningocele, necessitando de cadeira de rodas para se locomover. Cerca de um mês antes de seu falecimento, Mateus deu entrada no hospital para realizar hemodiálise. Segundo sua irmã, Ana, em reportagem ao G1 (2024), ele precisaria receber duas bolsas de sangue, porém o hospital teria aplicado mais, resultando em um AVC e levando-o à morte. De acordo com a família, Mateus foi vítima clara de negligência médica provocada não só pelo racismo, mas pelo capacitismo, pois, de acordo com Ana, Mateus, além de ser indígena, era portador de necessidades especiais, e proibiram minha mãe de acompanhá-lo (G1, 2024), ferindo diretamente o Estatuto da Pessoa com Deficiência que garante o direito a acompanhante em internações. Ele faleceu sozinho, sem a presença da família. Mateus era uma liderança importante no movimento de indígenas com deficiência, mas isso não o isentou do despreparo do sistema de saúde em lidar com suas particularidades. Sua morte pode ser interpretada como resultado não só da dupla vulnerabilidade etnia/deficiência, mas da falta de políticas de saúde específicas para essa população. Tomando como base o caso de Mateus, o objetivo deste trabalho é analisar o cenário das políticas de saúde brasileiras para indígenas com deficiência. Segundo o Censo de 2022, mais de 150 mil indígenas possuem deficiências, contudo, não há, nem na PNAISPD, tampouco na PNASPI, políticas voltadas para o segmento, fazendo com que muitos indígenas precisem sair de suas aldeias em busca de atendimento nos centros urbanos, ficando desassistidos pela atenção diferenciada, pilar da política de saúde indígena, até então voltada apenas para indígenas aldeados. O direito à saúde de indígenas com deficiência parece não ser abordado centralmente por nenhum dos dois movimentos, resultando em falhas no cuidado e políticas e decisões ainda bastante vagas. O atual relatório oficial sobre pessoas com deficiência sequer cita os povos indígenas, por exemplo (BRASIL, 2023), e o novo Viver Sem Limites não os menciona em nenhuma de suas ações ainda que o Ministério dos Povos Indígenas tenha participado de sua construção. No que tange à saúde indígena, somente em 2025 a Sesai lançou o módulo SIASI-PIcD, sistema criado para levantar dados e otimizar o acesso do indígena com deficiência aos serviços de saúde. Embora incipiente, a saúde do indígena com deficiência tem, enfim, tido espaço no Ministério da Saúde, com a possível criação de políticas que considerem suas especificidades. Se Mateus não pode ver os frutos das sementes que plantou, espera-se que milhares de indígenas com deficiência possam, daqui para frente, colher os resultados de uma luta que também foi sua.
-
Deficiência em disputa nos debates sobre aborto na ADPF 54 e 442 do STF brasileiro.
— Julian Simões
— Julian Simões
O aborto é um tema marcado por intensas controvérsias científicas, jurídicas, morais e religiosas, que geram defesas públicas tanto contra quanto a favor de sua realização e (des)criminalização. No Brasil, pelo menos desde o início dos anos 2000, o debate jurídico sobre o tema ganhou força. Exemplos emblemáticos são a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 54 (ADPF 54), que descriminalizou a interrupção da gestação em casos de fetos anencéflicos, e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 442 (ADPF 442), que propõe a descriminalização do aborto voluntário até a 12ª semana e que segue em julgamento. Em ambos os casos, destaca-se o uso ambivalente da categoria "deficiência": ora para justificar a criminalização do aborto, ora para defender sua descriminalização. Diante disso, esta comunicação analisa as economias morais emergentes desses debates públicos no Superior Tribunal Federal (STF), com o intuito de matizar as disputas, tensões e reconfigurações que a noção de deficiência sofre nesse contexto. O objetivo é explicitar como as narrativas dos textos que sustentam essas arguições articulam moralidades, direitos, sexualidades, corpos e deficiência, convertendo-se em sofisticadas técnicas de governo sobre corpos, vidas e direitos.
-
Racializar a deficiência e deficientizar a raça: perspectivas antropológicas do direito à cidade no contexto amazônico
— Kamilla Sastre da Costa
— Kamilla Sastre da Costa
O presente trabalho é um recorte da minha tese de doutorado cujo tema de pesquisa versa sobre o direito à cidade para pessoas com deficiência em Belém do Pará/Amazônia, utilizando como recurso metodológico a autoetnografia. Como autora PcD e amazônida, analiso o acesso à cidade considerando as especificidades de uma metrópole que possui dinâmicas de vivências urbanas e ribeirinhas e onde existe uma população composta majoritariamente por pessoas negras. A existência de uma identidade negra com deficiência, bem como a de uma identidade negra com deficiência amazônida, produz muitas reflexões em nós, estudiosos da área dos disability studies, ao provocar em que medida nossos trabalhos seguem linhas essencialistas de modelos brancos e capacitistas de estudos, seja por estarem mais conexos ao movimento dos negros ou de pessoas com deficiência, sem abstrair correlações. Valores tradicionais do movimento da deficiência – como autonomia, independência, escolhas e direitos – podem de fato ser especificamente valores ocidentais brancos (Bell, 2017) e, dessa forma, não corresponderem aos anseios de pessoas com deficiência não-brancas que necessitam de outros aportes teóricos conceituais que deem conta de problemáticas específicas do grupo. Inspirada em Annama e al (2013) que propõem a DisCrit – Dis/ Ability Critical Race Studies, categoria conceitual utilizada para buscar entender as experiências das pessoas negras com deficiência através da abordagem interseccional, busco ratificar a importância das articulações dessas categorias analíticas para fins de reflexões críticas acerca das estruturas de opressões que desumanizam e hierarquizam corpos negros e com deficiência. Tanto o racismo quanto o capacitismo são consubstanciais à experiência colonial reflexo de muitas violências e apagamentos. Nesse sentido, reforço a necessidade de que a antropologia dos estudos sobre deficiência e da raça construam novas formas de análise que considerem a multiplicidade de corpos que vivem na cidade, os mesmos que também são sujeitos de pesquisas de trabalhos que pautam sobre direitos humanos e políticas públicas sob o viés interseccional.
-
É uma questão política, né? Uma Análise Preliminar das Visões Populares Sobre o Autismo em Quatro Pequenas Comunidades Regionalmente Dispersas
— Micah Ellise Steinborn
— Micah Ellise Steinborn
Este trabalho examina as variações nas visões populares e na disponibilidade de recursos em torno das deficiências do neurodesenvolvimento, especificamente o Transtorno do Espectro Autista (TEA), em quatro pequenas comunidades geograficamente dispersas do Brasil. Cada uma das quatro comunidades (Ibirama, SC; Cunha, SP; Arembepe, BA; e Gurupá, PA) foi previamente estudada por uma série de antropólogos sobre temas diversas, desde a década de 1940, o que nos permite uma profundidade longitudinal para contraste e comparação.
Desde os anos 2000, o governo federal estabeleceu um padrão de atendimento para TEA. No entanto, como observamos em nossa pesquisa, há muita variação hoje em dia nas opiniões (tanto profissionais quanto populares), no atendimento e no tratamento de indivíduos autistas, bem como na capacidade de atender às necessidades em nível institucional. Essa variabilidade não se deve apenas às disparidades de riqueza e acesso à saúde, mas também à política regional e às visões populares sobre a etiologia.
Neste trabalho, fornecemos dados qualitativos coletados nas quatro comunidades que servirem como estudos de caso. Nosso foco é como as definições de TEA, suas causas, mudanças nas taxas de ocorrência e as capacidades institucionais variam entre esses locais. Delineamos padrões de percepção que são comuns e distintos entre as comunidades. Mostramos como esses padrões são influenciados por fatores como cultura regional, história socioeconômica e política interna, que moldam o engajamento de cada comunidade com os direitos e a cidadania das pessoas autistas e suas famílias. Nesse contexto, também levantamos a hipótese de que essas diferenças regionais podem ser indicadores relevantes de alocação de recursos, execução de políticas públicas e formação de movimentos sociais que apoiam grupos autistas e suas famílias em cada lugar. Embora o tamanho da amostra deste estudo seja pequeno e não aleatório, ele fornece algumas informações iniciais sobre a variedade de pontos de vista dentro e entre cada uma dessas localidades e merece uma análise mais aprofundada. As observações aqui feitas servirão de base para uma pesquisa de doutorado que investigará as variações nas visões populares e no acesso a recursos entre áreas urbanas e rurais, com foco no estado do Pará.
-
A influência dos modelos da deficiência no cotidiano das corporalidades não normativas
— Olga Maria Tavares de Souza
— Olga Maria Tavares de Souza
A pesquisa propõe investigar a influência dos modelos conceituais da deficiência no cotidiano das pessoas que a experimentam na primeira pessoa, e suas possíveis alterações em relação à sua percepção de corpo e corporalidade. As recentes transformações históricas na compreensão do que seja deficiência e seus entrelaçamentos com outros marcadores sociais são elementos fundamentais para investigar as representações dos corpos considerados não normativos, na dimensão da experiência vivida. Com efeito, a influência do modelo médico, bem como do modelo social estabelecem desafios para a construção de um corpo político, que luta para romper com a invisibilidade social. A autoetnografia associada à pesquisa com pessoas com deficiência foi a metodologia utilizada para a realização desta pesquisa. A deficiência, aqui investigada como uma categoria analítica e um marcador social da diferença, em aliança com o paradigma interseccional, revela a desigualdade social no acesso aos direitos e às políticas públicas, sendo este um dos maiores indicadores de exclusão social das pessoas com deficiência em nosso país e que afeta a forma de ser e estar no mundo das pessoas que experimentam a deficiência.
Palavras-Chave: Deficiência; Corporalidade; Acessibilidade; Direitos.
-
Por uma universidade acessível: Estudantes que tencionam o conhecer normativo
— Pedro Vieira de Souza Melo Pereira
— Pedro Vieira de Souza Melo Pereira
A pesquisa, que ainda está em andamento, consiste uma etnografia realizada na Universidade Federal Fluminense (UFF), mais especificamente na Secretaria de Acessibilidade e Inclusão (SAI). A etnografia tem como objetivo entender como os estudantes com deficiência da universidade vivenciam o conhecer. Tomo conhecer como ato contínuo de se relacionar com outros, humanos ou não, e nessa relação produzir e adquirir saberes que, nesse caso, seriam os classificados como acadêmicos. Penso na universidade como um espaço onde, a partir de uma malha de relações (INGOLD, 2012), conhecimentos são produzidos e reproduzidos por diversos atores. O ponto focal então é entender como os estudantes com deficiência estão ocupando esses espaços na malha do conhecer universitário composta por estudantes, ferramentas de acessibilidade, professores, assistentes sociais, intérpretes de libras e objetos presentes no dia a dia da vida universitária. A partir desse mapeamento é possível perceber por exemplo a relevância de questões como a falta da acessibilidade atitudinal no ambiente acadêmico, a fadiga do acesso (KONRAD, 2021) e a falta de políticas institucionais voltadas para os estudantes com deficiência.
-
"No meio da montanha, deslizantes corpos": Narrativas etnográficas de pessoas com deficiência e/ou cuidadores em espaços rurais.
— Yeison Andres Rojas Ramirez
— Yeison Andres Rojas Ramirez
A montanha de que se fala aqui é grande e empinada, coberta por uma pele verde de plantações de café, cana, banana e abacate. Por baixo, está a carne e os ossos que é a terra, às vezes úmida, às vezes empoeirada, mas sempre fértil. Esse corpo montanhoso guarda veias e artérias que são seus rios e caminhos sempre em movimento. No meio da montanha, corpos deslizantes de mulheres e homens camponeses causam estranheza na paisagem. Camponeses quebrados, camponeses mancando, gritando em silêncio, correndo pelos caminhos, falando com as pedras. Eles e elas estão acostumados a se deslizar ou rastejar pela montanha, a terra está em suas roupas, em suas mãos e cabelos. Naquela montanha não há escadas rolantes nem elevadores, não há rampas acessíveis nem intérpretes de Libras. Talvez alguns desses corpos nem sequer sejam dados estatísticos, nem tenham ouvido falar de um certificado de deficiência, no entanto, são corpos de pessoas com deficiência e/ou cuidadores que constroem cotidianamente narrativas de cuidado e vida rural. Essas famílias aprenderam a deslizar pela montanha, a construir casas, estradas, a plantar, a construir diálogos com a montanha, a ruralidade e a deficiência. Nos espaços rurais, com condições materiais empobrecidas, características territoriais e escassez de recursos, os camponeses com deficiência criam formas inventivas de gestão da deficiência. Quais são as narrativas, a organização e as práticas dos camponeses com deficiência e/ou cuidados em cenários do mundo rural?
As discussões e reflexões desta proposta ancora-se em relatos e registros de trabalhos de campo realizados em uma comunidade rural colombiana (Trujillo Valle) em três momentos: ano 2021, 2023, 2025. Por meio de narrativas etnográficas esta proposta tem como objetivo colocar em primeiro plano a voz de pessoas camponesas com deficiência e/ou cuidados que, a partir de cenários rurais, propõem novos modelos de compreensão e agência da deficiência. Com este fio condutor, apresentar as narrativas, a organização e as práticas de pessoas camponesas e territórios rurais onde existe um conhecimento denso sobre a deficiência que poderia ser explorado. Além disso, os camponeses com deficiência têm formas de “integração social” que não se apresentam na cidade. Talvez os “Disability Studies’’, sejam, na realidade, ‘‘urban disability studies’’.
Coordenação
Hippolyte Brice Sogbossi (UFS)
Alexandre Magno de Aquino (UFRGS)
Pessoa debatedora
César Iván Bondar (CONICET)
Alexandre Magno de Aquino (UFRGS)
As discussões sobre vida e morte continuam sendo das mais importantes e pertinentes na atualidade, inclusive em várias áreas de conhecimento, embora não abordadas devidamente. Evita-se, muitas vezes, discutir a questão que se torna marco de definição e afirmação de identidades. Na literatura antropológica, tendem a ser consagradas posturas hegemônicas consistentes em discutir, de uma forma ou outra, questões da finitude, do vir-a-ser, da existência, articulando corpo e alma: alucinações, dualismo cérebro-mente, morte física, experiências de quase morte e perspectiva escatológica. Esta proposta objetiva, primo, analisar, ampliar e questionar, na medida do possível, posturas de cunho antropológico; secundo, problematizar as abordagens da temática da morte em contextos específicos relatados como sendo clássicos; tertio, para esse fim, pretendemos acolher trabalhos consolidados ou em desenvolvimento, tanto no Brasil, na América Latina e Caribe, quanto no resto do mundo, sobre a temática da morte em suas múltiplas dimensões, isto é, filosóficas, médicas, forenses, teológicas, históricas, psicológicas, sociolinguísticas e antropológicas. Terão prioridade as discussões teórico-metodológicas sobre a questão.
Títulos e Resumos
-
Habitar o mundo após a morte: existências partilhadas entre vivos, mortos e coisas
— Caroline Pereira Dias
— Caroline Pereira Dias
Na concepção moderna e ocidental, onde reina a racionalidade cartesiana, os mortos são tidos como não-seres, vazios existenciais (Certeau, 1996). No entanto, ao nos aproximarmos da vida cotidiana dos sujeitos por meio das brechas que o trabalho antropológico nos abre, percebemos que este não é o único modo pelo qual os sujeitos relacionam-se com seus entes falecidos (Dias, 2024). Nesta proposta, busco refletir sobre a morte não enquanto o encerramento da vida ou como vácuo existencial, mas como um rito de passagem para um modo de existência outro (Soriau, 2020; Despret, 2023). Reconhecer esse outro modo de existência como possível, exige – do senso comum – um giro de perspectiva. Inserida no campo da Antropologia, esta reflexão atravessa a Antropologia da Morte, a Fenomenologia e a cultura material, partindo da premissa de que os mortos e os objetos dos mortos não são simples representações simbólicas em uma realidade objetiva, mas seres per se que coabitam e coexistem no mundo com os seres vivos – humanos ou não. Se o corpo é nossa forma de estar no mundo, as coisas que constituem essa corporalidade (Merleau-Ponty, 1980; Dias e Zanini, 2025) e permanecem asseguram uma continuidade existencial. Para fundamentar esta reflexão, proponho-me a mobilizar as proposições de: “diferentes modos de existência” de Étienne Souriau, pensando que a morte possui uma intensidade de ser que desafia dicotomias, como presença/ausência; a definição de “ser-no-mundo” de Heidegger (1979), entendendo que a existência transcende o corpo físico-biológico e o tempo presente; e a fenomenologia de Merleau-Ponty (1980) por meio da noção de “síntese do corpo próprio”, que permite borrar as fronteiras entre o corpo e coisas – ou sujeitos e objetos. Essa indivisibilidade do ser, revela que os pertences dos falecidos não apenas os “lembram” ou “representam”, mas sustentam suas continuidades materiais e sensíveis. Por fim, evoco Vinciane Despret (2023), para compreender melhor as histórias de como vivos e mortos acabam por estabelecer parcerias de existências por meio de compromissos que uns assumem com os outros. Por fim, trago dois exemplos empíricos de meu trabalho desenvolvido durante o mestrado, que versa sobre a permanência das coisas em contextos familiares e como os sujeitos dão continuidade às interações com seus falecidos. Assim, ressaltando como a cultura material atua como um modo de continuidade e como os mortos continuam em interação com os vivos. Concluo que reconhecer a morte como um modo de existência contribui para ampliar ainda mais o debate transdisciplinar acerca da morte, ao validar cosmologias e vivências onde a finitude não significa o esvaziamento do ser, mas uma transformação no modo como reconhecemos as formas de habitar o mundo.
-
A cidade de Belém (PA) e seus mortos: imaginário(s) urbano(s) e interagências mais-que-humanas no Cemitério Santa Izabel
— Elisa Gonçalves Rodrigues
— Elisa Gonçalves Rodrigues
Esta comunicação, que intui traduzir alguns recortes de uma tese de doutorado em andamento, investiga, mediante uma perspectiva etnográfica, as formas pelas quais os mortos e as alteridades mais-que-humanas atuam na vida social urbana da capital paraense e na configuração do imaginário da cidade, modulando-a como espaço de agenciamento simbólico e ritual através das sociabilidades tecidas. Fundamentada nos campos da Antropologia da Morte, Antropologia Urbana e dos estudos sobre o Imaginário, a pesquisa propõe uma análise das relações entre vivos, mortos e outros atores que constroem, coletivamente, paisagens sensíveis e circuitos agentivos da e na cidade de Belém. A pesquisa parte do pressuposto de que os mortos e os mais-que-humanos atuam e agem emaranhando formas de habitar e narrar a urbe num denso universo de interagências, e para tal, a metodologia combina etnografia, observação-participante, entrevistas abertas, deambulações pela cidade dos vivos e dos mortos, além da análise das narrativas e experiências vividas com estes personagens. Os resultados demonstram como as visagens e os santos populares do Cemitério Santa Izabel, por exemplo, participam do imaginário urbano amazônico e conformam, por toda a cidade, entrelugares que borram fronteiras e tornam-se pontos de inflexão entre o cotidiano e o extraordinário, entre o tangível e o intangível. Concluo, então, que o imaginário urbano de Belém é tecido por redes de co-agência entre humanos e mais-que-humanos, revelando uma ontologia plural que subverte dicotomias como natureza/cultura, vida/morte e sagrado/profano. A cidade como expressão do imaginário se constitui através de sujeitos e forças heterogêneas que ressignificam modos de ser-no-mundo enquanto parte de uma cosmologia viva, situada e implicada. Assim, a investigação, bem como a tese e os debates partilhados no Grupo de Estudos e Pesquisa em Antropologia da Morte (GEAM), contribuem para a ampliação dos estudos sobre morte, cidade e agência, propondo uma abordagem sensível às narrativas, materialidades e afetividades que se desenrolam no imaginário popular da Amazônia paraense urbana.
-
SUTURA: contribuições teórico-metodológicas sobre a morte e o morrer a partir da vida social dos mortos no Brasil.
— Flora Nina Silva Arrais
— Flora Nina Silva Arrais
Este trabalho propõe uma reflexão teórico-metodológica no campo da antropologia da morte e do morrer a partir dos mortos e de sua vida social no pós-morte. Desenvolvido a partir da minha dissertação de mestrado, Sutura: costuras antropológicas de uma etnografia sobre a vida social dos mortos, o trabalho discute diferentes contextos ligados à gestão de mortos com e sem identidade no Brasil. Ao longo da pesquisa, acompanhei práticas pelas quais corpos de pessoas mortas são abertos, classificados, suturados, documentados, arquivados e deslocados entre diferentes instituições, como laboratórios de anatomia humana e forense, museus, cemitérios públicos e outros dispositivos administrativos e periciais.
A noção de sutura atravessa todo o trabalho, operando tanto como prática técnica sobre o corpo morto quanto como operador metodológico da etnografia. Ela nomeia gestos de junção, recomposição e costura entre espaços, materiais, documentos, instituições e narrativas, buscando articular as informações acessadas e os dados construídos no contexto multissituado da pesquisa. Acompanhar as suturas, e as fissuras que delas surgem, é também acompanhar os modos pelos quais a morte e o morrer se prolongam em procedimentos, classificações e decisões institucionais sobre os mortos.
Esses percursos tornam visíveis o que chamo de hierarquias post mortem, bem como processos de suspensão, fragmentação, marginalização e apagamento sobre corpos, identidades e histórias. Ao tratar os mortos como agentes analíticos centrais, argumento que sua presença material, administrada e institucionalizada produz efeitos sociais e epistemológicos, que tensionam categorias como corpo, pessoa, identidade e finitude. Desse modo, os mortos não aparecem apenas como desfecho do evento mortuário ou de seus ritos, mas como entidades sociais duráveis e como objetos de gestão da memória e da história, para além da esfera estritamente técnico-administrativa.
-
Entre a Burocracia e o Ritual: A morte e o luto como campo político no entorno do IML de Santo Amaro (Recife/PE)
— Hellen Conceição da Silva
— Hellen Conceição da Silva
A presente comunicação propõe uma reflexão antropológica sobre a comercialização política do corpo morto no Brasil, com ênfase nos corpos femininos, pobres e socialmente marginalizados, tomando como base empírica observações realizadas no entorno do Instituto Médico Legal e funerárias em Santo Amaro, Recife (PE). Desta forma, mais do que uma etnografia descritiva, utilizo desse material como ponto de partida para discutir como a morte, longe de suspender as desigualdades sociais, as reatualiza e aprofunda por meio de práticas institucionais, econômicas e simbólicas. Portanto, o trabalho será dividido em três eixos analíticos: O primeiro eixo aborda a necropolítica e a hierarquização dos corpos, dialogando com Achille Mbembe em sua obra “Necropolítica” (2018), para demonstrar como certos corpos são socialmente autorizados a morrer e, posteriormente, a serem tratados com negligência, pressa ou violência simbólica; Em continuidade, o segundo eixo discute a
necroviolência de gênero, articulando contribuições do feminismo crítico, especialmente Judith Butler (2015), Rita Segato (2016) e Silvia Federici (2017), para analisar a persistência do controle moral, da objetificação e da violação simbólica e física do corpo feminino mesmo após a morte, através de uma materialização da ideia de que o corpo da mulher morta continua sendo disciplinado, corrigido e silenciado, revelando a continuidade da violência patriarcal para além da vida; Por fim, o terceiro eixo trata da comercialização política do corpo e dos rituais fúnebres, mobilizando autores como Marcel Mauss em seu livro “Ensaio sobre a Dádiva” (1924), Robert Hertz na obra “A Representação Coletiva da Morte” (1907) e Philippe Ariès em “História da Morte no Ocidente” (1977), para que se possa compreender como o ritual da morte, quando atravessado pela pobreza, é reduzido, acelerado ou impedido, convertendo o luto em prestação de serviço e o corpo em mercadoria regulada pelo mercado
funerário. Sustenta-se, assim, que a comercialização do corpo morto não é apenas econômica, mas profundamente política, revelando um regime de valor no qual nem todas as vidas, e nem todas as mortes, são igualmente reconhecidas como dignas de cuidado, ritual e memória. A morte, nesse sentido, torna-se um campo privilegiado para compreender as formas contemporâneas de desigualdade, dominação e gestão dos corpos no Brasil, nas quais gênero, classe e raça definem quem pode ser cuidado e lembrado, fazendo do luto uma arena de disputa política, econômica e institucional.
-
Afinidades teórico-metodológicas entre a antropologia de Gregory Shushan e a sociologia transpessoal nos estudos sobre experiências de quase morte (EQM)
— Marcos Augusto de Castro Peres, Caíne Nascimento Santos, Tiffany Matos de Jesus (Pendente)
— Marcos Augusto de Castro Peres, Caíne Nascimento Santos, Tiffany Matos de Jesus (Pendente)
Este estudo teve como objetivo examinar as possíveis convergências entre o método desenvolvido pela antropologia de Gregory Shushan e a abordagem teórica da sociologia transpessoal nas pesquisas sobre experiências de quase morte (EQM). Enquanto Shushan integra elementos da religião comparada e da etnologia histórica para investigar experiências místicas, espirituais e religiosas (EMER), como as EQMs, a sociologia transpessoal de Susan Greenwood propõe a articulação entre as dimensões objetiva e subjetiva na análise dos fenômenos transcendentais. Desse modo, buscou-se estabelecer um diálogo entre ambas as perspectivas, ampliando o debate teórico e fortalecendo um campo científico ainda incipiente no Brasil: o da sociologia transpessoal. De natureza teórica e bibliográfica, a pesquisa fundamentou-se na análise das obras de Shushan e Greenwood, com tradução direta do inglês. Por sua vez, Shushan aponta a existência de similaridades entre as experiências de quase-morte (EQMs) e as crenças na vida após a morte presentes em civilizações antigas – como Egito, Mesopotâmia, China, Índia e Mesoamérica –, bem como entre povos indígenas de tradição xamânica. Tais convergências revelam o caráter universal e transcultural das EQMs, que apesar das diferentes interpretações culturais, preservam um núcleo experiencial comum, sugerindo uma possível "unidade de consciência" ou "realidade transcendental unificada". Segundo Shushan, diversas religiões emergem da fenomenologia das EQMs, desafiando concepções reducionistas que as interpretam exclusivamente como produtos sociais, culturais e/ou psicológicos. Essa perspectiva reforça o comparativismo como uma importante ferramenta epistemológica e oferece subsídios metodológicos à sociologia transpessoal, ao integrar as dimensões extrínseca (objetiva) – presente nos registros históricos e etnológicos – e intrínseca (subjetiva), através da subjetividade própria das EQMs. Por fim, conclui-se que a articulação entre a sociologia transpessoal de Greenwood e a antropologia de Shushan possibilita uma compreensão interdisciplinar das EQMs, mais ampla, completa e profunda do que as abordagens convencionais.
Palavras-chave: Gregory Shushan; sociologia transpessoal; método comparativo; fenomenologia; experiências de quase morte (EQM).
Referências:
Greenwood, S. (2013). Emile Durkheim and C. G. Jung: Structuring a transpersonal sociology of religion. International Journal of Transpersonal Studies, 32(2), p. 42-52.
Shushan, G. (2009). Conceptions of the Afterlife in Early Civilizations: Universalism, Constructivism, and Near-Death Experience. London: Continuum.
-
Quando a festa convoca os mortos: ritual e sociabilidade na Festa das Almas em Ocara (CE)
— Maria Caroline Franco Valentim
— Maria Caroline Franco Valentim
Este trabalho analisa a Festa das Almas, realizada no município de Ocara, no interior do Ceará, como um ritual coletivo que articula devoção, sociabilidade e memória a partir da relação entre vivos e mortos. Longe de se configurar apenas como um evento religioso localizado no calendário festivo, a Festa das Almas constitui-se como um dispositivo ritual por meio do qual a comunidade atualiza vínculos com as almas, mobilizando promessas, gestos devocionais e formas específicas de ocupação do espaço e do tempo. A partir de pesquisa etnográfica em andamento, o artigo propõe compreender a festa como um processo ritual marcado pela repetição, pela performatividade e pela experiência compartilhada, no qual a presença das almas não se apresenta como ausência ou abstração, mas como elemento ativo na organização da sociabilidade local. A festa convoca os mortos ao mesmo tempo em que reúne os vivos, produzindo uma coletividade momentânea fundada na devoção, na circulação de pessoas e na intensificação dos laços comunitários. Dialogando com a antropologia dos rituais e das festas culturais, o trabalho investiga como a Festa das Almas estrutura uma temporalidade própria, distinta do cotidiano, na qual práticas reiteradas, como caminhadas, rezas, silêncios e encontros, operam como formas de mediação entre diferentes planos da experiência social. Nesse contexto, o ritual não apenas expressa crenças preexistentes, mas cria condições para a vivência coletiva da fé, da memória e do pertencimento. Ao situar etnograficamente a Festa das Almas em Ocara, o artigo contribui para os debates sobre festas culturais no Brasil ao evidenciar como rituais religiosos locais produzem sociabilidade e sentido, articulando experiência, repetição e relação com os mortos. Argumenta-se que, mais do que celebrar ou recordar, a festa age como prática social que organiza vínculos, atualiza memórias e sustenta formas compartilhadas de estar junto, revelando a centralidade dos rituais festivos na vida social de comunidades do interior nordestino.
-
Vidas matáveis e corpos inabitáveis: a estigmatização dos corpos em trajetória de rua.
— Nayra de Oliveira Martins
— Nayra de Oliveira Martins
"Na biopolítica moderna, o soberano é aquele que decide sobre o valor e o desvalor da vida como tal" (Agamben,2012). "Se tu queres ficar na rua, aqui em Balneário não!". Essa fala abre um dos vídeos publicados na rede social da prefeita, Juliana Pavan (PSD), que divulga o programa "Resgate a Vida BC" cujo propósito é "salvar vidas". A prática de "devolução" de pessoas em trajetórias de rua têm se replicado em diferentes cidades do Brasil. Assim como a internação compulsória, caso esse defendido por prefeitos como Eduardo Pimentel (PSD/CWB) e Eduardo Paes (PSD/RJ), evidenciam "processos de higienização" travestidos de projetos e práticas de reabilitação, desconsiderando a autonomia e a dignidade do sujeito em trajetória de rua.
De tal maneira, o contexto de trajetória de rua o torna um ser "abjeto" (Butler,1999), ou seja aquele que ainda não é "sujeito". Passa a ser identificado como "mendigo", "cracudo", "vagabundo", terminologias que estigmatizam e legitimam uma inferioridade, levando-o às zonas "inóspitas" e "inabitáveis" da vida social, refletindo em discriminações que reduzem suas chances de vida (Goffman,2012;Butler,1999). Tal configuração é necessária para estabelecer o domínio dos "normais" (Goffman,2012) dentro de uma dinâmica de poder no qual a desigualdade é estruturante não apenas socialmente, mas institucionalmente (Kant,2004). Busco discutir o corpo da pessoa em trajetória de rua, o compreendendo como inabitável, inconcebível de reprodução, não humano, em suma, um corpo estigmatizado .
Em 1977, o indígena Galdino da Etnia Pataxó- Hã-hã-hãe teve seu corpo incendiado por 5 estudantes enquanto dormia no ponto de ônibus em Brasília, os jovens justificaram o ato por acreditarem se tratar de um "mendigo". Em 2024, um homem em trajetória de rua pede comida em um restaurante e, após discutir com o segurança, Luiz Felipe tem sua vida interrompida enquanto guardas municipais, que presenciaram a cena, continuam a refeição sentados. "Sem chances de defesa: três pessoas em situação de rua são atacadas a tiros no Rio enquanto dormiam." Esse foi o título da matéria do O Globo em 18/10/2025 após um ataque realizado debaixo de um viaduto em Irajá. Casos como esses não são isolados e reforçam a forma do soberano em definir e controlar territórios através do extermínio de vidas, tidas como vidas "matáveis", moralizadas e inferiorizadas (Agamben,2012; Butler, 1999).
Este trabalho tem como proposta explorar uma reflexão inicial a respeito da degradação em vida e da desumanização em morte experimentadas por corpos em trajetória de rua. Pretendo para a análise o corpo que, em vida, ocupa em tempo integral o espaço público, é incômodo no convívio social e por isso é contido, reprimido, degradado e eliminado, seja pela exclusão territorial ou pela morte.
-
Cemitérios como espaço de pesquisa: reflexões e perspectivas na antropologia
— Rafael Machado Menezes
— Rafael Machado Menezes
A cidade dos mortos, assim como a cidade dos vivos, é formulada e atravessada por perspectivas sociais e antropológicas. Ao pensar na morte e nos mortos, temas como religião, mercado, saúde e sofrimento podem ser evocados, o mesmo ocorre nos espaços que os evocam. Diante de visitas aos cemitérios do Bonfim e da Paz, em Belo Horizonte, é possível observar, na prática, como esses temas estão presentes nesses espaços e nessa sociedade. A proposta pretende analisar as potencialidades de pesquisa nos cemitérios para a antropologia, a partir da iniciação de campo e experiência etnográfica em uma disciplina de laboratório, na finalidade de definir um recorte temático de pesquisa. A partir dessa vivência, grandes temas brilham aos olhos, sob a perspectiva da antropologia da morte, além de ser possível vislumbrar as dificuldades de se pesquisar sobre a morte, o morrer e os cemitérios.
-
Entre a Luta e o Cuidado: Uma revisão sobre a interdição da morte e o sofrimento de profissionais da saúde em contextos de pronto-socorro
— Ravi Passos Vianna
— Ravi Passos Vianna
O presente trabalho analisa a relação de profissionais da saúde com a morte e o morrer em contextos de pronto-socorro, fundamentando-se em uma revisão bibliográfica que articula a antropologia e a saúde. Partindo do modelo de "Morte Interdita" proposto por Philippe Ariès, considera-se que o hospital se tornou o palco central da morte institucionalizada na modernidade ocidental, caracterizada pelo ocultamento e pela terceirização do fim da vida. O estudo foca nos setores de urgência e emergência, ambientes de alta pressão em que a morte e o morrer, apesar de serem presenças cotidianas, permanecem como uma interdição entre as equipes. Assim, reflete-se sobre os elementos que modulam a intensidade do sofrimento dos profissionais e os fatores contextuais que contribuem para a manutenção dessa postura perante a morte de pacientes. Diante disso, apontam-se determinados pressupostos ontológicos da modernidade ocidental como fundamentais para esta dinâmica. Da observação de que a interdição é um meio pouco eficaz de lidar com o sofrimento do luto nestes contextos, surge um ponto central para a discussão: o contraste entre um discurso hegemônico sobre a saúde – fundamentado na idealização da figura de médicos como os que "lutam" contra a morte e pela vida – e uma lógica de cuidado – baseada no acolhimento do paciente e da família. Com esta apresentação, portanto, proponho que a transição do primeiro paradigma para o segundo pode gerar vivências coletivas do luto em prontos-socorros, traçando caminhos não só para o aprimoramento dos processos de atendimento em situações críticas, como para a atenuação do sofrimento das partes envolvidas.
Palavras-chave: Antropologia da morte e do morrer; Atitude frente a morte; Serviços médicos de emergência; Pessoal de saúde
Coordenação
Carlos Sautchuk (UNB), Fabio Mura (UFPB)
Pessoa debatedora
Fabiano Campelo Bechelany (Ministério da Igualdade Racial), Guilherme Moura Fagundes (USP)
A 7a edição deste GT, iniciado na RBA de 2014, busca dar continuidade à configuração e ao fortalecimento do campo da antropologia da técnica no Brasil. Nesse sentido, mantém o interesse central nas alternativas metodológicas oferecidas pela antropologia da técnica para perceber, descrever e analisar os processos de operação, manipulação, coordenação e correspondência implicadas nas variadas interações entre humanos e não-humanos (objetos, plantas, animais, minerais, máquinas e ambientes de modo geral), que configuram sistemas sociotécnicos e definem relações de poder. Portanto, terão prioridade abordagens etnográficas capazes de tratar de processos técnicos, considerados em escalas e temporalidades diversas. A este escopo, já consolidado nas edições anteriores do GT, são adicionadas duas outras perspectivas. Serão bem recebidas propostas que apontem mais explicitamente para a articulação com outros campos de pesquisa (em antropologia ou outras disciplinas), buscando sublinhar o potencial metodológico ou conceitual da antropologia da técnica em diálogos mais amplos. Também serão acolhidas propostas que promovam reflexões críticas e/ou debates conceituais sobre o campo da antropologia da técnica, com especial ênfase para a produção brasileira e latino-americana. Pretende-se assim prosseguir estimulando pesquisas etnográficas e, ao mesmo tempo, promover um balanço que viabilize o diálogo, a renovação e o estímulo para novas gerações de pesquisas antropológicas sobre a técnica.
Títulos e Resumos
-
O circuito do trabalho na pesca com botos
— Bruno Guth Oliveira
— Bruno Guth Oliveira
Partindo da experiência etnográfica levada a cabo pelo projeto de extensão "Saberes e práticas tradicionais associadas à pesca com auxílio de botos em Laguna (SC) e demais ocorrências no Sul do Brasil", este trabalho propõe uma revisão de determinadas categorias analíticas da antropologia pela filosofia de veia pragmatista para preencher alguns vácuos no que diz respeito ao tratamento do que entendemos por "trabalho" quando confrontado com tal paisagem. Sabemos, graças a experiência de Laguna, Tramandaí e demais localidades, que está estabelecida entre os botos e os pescadores uma forma peculiar de comunicação paralinguística e analógica, composta por uma estrutura comunicativa básica num nível de sinais cinestésicos, que é mediadora da colaboração bilateral dos agentes humanos e mais-que-humanos nesta forma de pesca, transbordando, assim, os limites daquilo que entendemos por "domesticação". Tendo em mente esta agência bilateral, uma "torção" da categoria de "trabalho" se faz necessária. Propomos uma análise dos pressupostos relacionados às fronteiras da agência humana e mais-que-humana no mundo, associando a noção de "técnica" à "práxis" conforme a elaboração giannottiana do conceito de "esquema operatório". Apoiando-se tanto na literatura marxiana quanto na ecologia batesoniana da mente, este trabalho pretende apresentar uma analítica da socialidade multiespécie como estudo de "sistema complexo".
-
Compor com o fogo: criação e memória contra um incêndio
— Caio de Oliveira Lima Alves
— Caio de Oliveira Lima Alves
A partir de uma situação etnográfica de combate emergencial a um incêndio no Cerrado mineiro (Itumirim-MG), este trabalho analisa como criação e memória se articulam na realização de um contrafogo, uma modalidade tática e arriscada de manipulação que visa propiciar um certo comportamento do fogo para conter um incêndio, queimando previamente o material combustível e fazendo com que as linhas de fogo se cruzem, apagando-se mutuamente. A ação foi conduzida por José, caseiro e habitante da região dotado de grande conhecimento do fogo e da paisagem. Partindo da constatação do caráter eminentemente contingente e instável do contrafogo, o trabalho tensiona a imagem de controle que é pressuposto fundamental do modelo hilemórfico de criação. A pergunta norteadora – “quem de fato cria quando se queima?” – é desenvolvida em dois movimentos associados. Primeiro, em diálogo com a filosofia da instauração de Étienne Souriau e sua releitura antropológica por Bruno Latour, propõe-se tomar o fogo como elemento de composição e criação, entendendo que seu manejo está imbricado num contexto de ações e reações compostas. Não se trata de criar ex nihilo, mas de compor com forças e fluxos imanentes. Assim, o contrafogo implica um trajeto criador do qual improviso, contingência e risco são condições constitutivas, desafiando a ideia de projeto enquanto transposição de um modelo prefigurado e demandando atenção constante frente à possibilidade permanente de sua transformação em um fogo indesejado. As ações de José explicitam uma autonomização do fogo em relação ao gesto humano de ignição, colocando em questão a noção hilemórfica de um agente que impõe forma a uma matéria inerte e sugerindo um regime de faz-fazer em que ação humana e ação do fogo se constituem reciprocamente. Segundo, a memória é abordada como força criadora acionada no próprio movimento do combate: ao mapear o terreno, selecionar pontos de ignição e escolher ramos para o abafamento, José recruta ocorrências passadas como orientação técnica voltada para o futuro, modulando sua ação em função de impressões e referências incorporadas. Essa dinâmica é interpretada à luz da noção de “memória ecológica”, proposta por Renan Pereira. Conclui-se que, no contrafogo, criação e memória não são atributos internos de um sujeito humano, mas efeitos distribuídos de uma composição mais-que-humana que envolve pessoas, vento, combustíveis, relevos e ritmos. O fogo, em suas distintas formas de expressão, é uma realidade que emerge a cada vez, com potenciais ecológicos que variam em função dos agenciamentos heterogêneos em que está inserido.
-
Entre o Gesto e a Correspondência: Práticas Transdutivas no Museo Parque de las Esculturas
— Fabio Luiz Silva de Oliveira
— Fabio Luiz Silva de Oliveira
O presente trabalho decorre de uma investigação etnográfica realizada entre 2025 e 2026 no Museo Parque de las Esculturas, no Chile. O objetivo central é analisar os modos de fazer e os processos criativos que transcendem a autoria humana isolada, englobando a ação contínua de agentes atmosféricos, biológicos e institucionais. Argumenta-se que as esculturas não são objetos estáticos ou produtos encerrados no instante da criação, mas formas vivas e composições abertas, continuamente "reescritas" por fungos, intempéries e pela presença de seres humanos e não humanos que habitam aquele ecossistema urbano.
A fundamentação teórica ancora-se na interlocução entre Tim Ingold, André Leroi-Gourhan e Anna Tsing, que constituem o fio condutor desta análise. Rompe-se com o esquema hilemórfico tradicional ao adotar a perspectiva de Ingold sobre a “correspondência”, na qual o fazer é compreendido como o ato de acompanhar a gênese das coisas em meio a fluxos de materiais. Essa dinâmica é aprofundada pela obra de Leroi-Gourhan, ao compreender o gesto técnico como uma externalização da memória corporal e do ritmo, funcionando como um processo de “transdução” (Simondon) que media a relação entre corpo, técnica e mundo. Crucialmente, a noção de “contaminações produtivas” de Anna Tsing é mobilizada para descrever o parque como uma assembleia de colaborações precárias. Sob esta ótica, a oxidação e o desgaste não são vistos como degradação, mas como condições de existência e vitalidade da obra em um mundo marcado por emaranhamentos e pela possibilidade de vida em paisagens perturbadas, onde a arte sobrevive nas ruínas da intenção autoral estrita.
A metodologia envolveu a observação de longa duração baseada no retorno e na espera, diálogos técnicos com escultor e a prática do “autorretrato como acontecimento etnográfico”. Este último surge como um índice da impossibilidade de neutralidade do pesquisador, cuja sombra se inscreve na malha material do parque, fundindo-se às bases das obras e aos dispositivos de mediação institucional. Tal abordagem permitiu captar a percepção cinestésica de obras vazadas, onde o corpo atravessa o espaço escultórico e é por ele afetado.
O trabalho dialoga com a Antropologia da Técnica ao enfocar a inteligibilidade dos gestos e a vida social das superfícies. Ao tratar a técnica como uma forma de habitar o mundo, propõe-se que a “cadeia operatória” incorpora agências minerais e orgânicas. Simultaneamente, contribui para as Coleções e Museus ao propor uma reconexão entre pessoas e coisas mediada pelo corpo em movimento. Conclui-se que fazer, conhecer e viver são dimensões indissociáveis de um mesmo movimento de estar vivo junto ao mundo, onde o museu se torna um terreno de encontros e fricções permanentes.
-
Itinerários da antropogenia: contribuições da antropologia da técnica para pensar as (agro)florestas amazônicas.
— Israel Martins Araujo
— Israel Martins Araujo
Tornou-se comum afirmar que as florestas amazônicas são antropogênicas – ou que são frutos da forma que os povos nativos da região teceram e tecem suas relações na Amazônia. Diferentes autores, em diferentes campos das ciências humanas e sociais, têm atestado como os seres humanos contribuíram de maneira significativa para selecionar, disseminar e incentivar a existência e o desenvolvimento de certas espécies vegetais. O que, consequentemente, influenciou a incidência da fauna amazônica. Atualmente, este aparente “paradigma emergente” ganha prolongamentos e desdobramentos sob novos signos como, por exemplo, o estudo da construção, manutenção e utilização de agroflorestas na região. Este trabalho pretende explorar este debate em sua dimensão sincrônica: como esta relação de criação, produção e transformação se atualiza? A partir de quais itinerários técnicos e de quais mediações a constituição da floresta enquanto espaço está se colocando no mundo rural amazônico? A partir de dois casos etnográficos: 1) a produção de agroflorestas ribeirinhas em Ananindeua, Pará, e 1) o florescimento de diversos arranjos agroflorestais em contextos de avanços monocultores em Tomé-Açu, Pará, este trabalho pretende ensaiar essas possibilidades de compreensão e etnografia desses espaços-objetos. De que forma essa antropogenia dos espaços florestais pode ser etnograficamente percebida e apreendida em gestos, objetos, fluxos e movimentos? A antropologia da técnica oferece perspectivas, caminhos e trajetórias metodológicas que podem ajudar a iluminar as inter-relações materiais e simbólicas que se manifestam nas relações tecidas com o espaço amazônico, sobretudo o florestal. Diversos aspectos emergem, como: objetos, lógicas de ação, gestos, noções sobre inovação e outros ângulos etnograficamente rentáveis para pensar a mútua constituição das agroflorestas e dos humanos. Dessa forma, procuro esboçar possibilidades metodológicas e etnográficas que se desenham em um horizonte antropológico atento a diferentes formas de mediação dentro de uma pesquisa concluída e outra em andamento. Por fim, procuro refletir neste trabalho sobre as possibilidades que se desenham ao pensar a agrofloresta simultaneamente como espaço, meio e objeto técnico nas trajetórias amazônicas.
-
A costura do capim dourado: design, aprendizagem e criação
— Jéssica Cardoso Carvalho
— Jéssica Cardoso Carvalho
Esta apresentação traz materiais etnográficos de uma pesquisa em andamento sobre "a costura do capim dourado", tendo como horizonte uma análise transdutiva desta técnica de trançado vegetal. O capim dourado (Syngonanthus Nitens) é uma planta da família das sempre-vivas, encontrada em regiões do cerrado brasileiro. Há duas décadas, seu extrativismo tem sido potencializado no Estado do Tocantins com vistas à confecção de artesanatos e biojóias. A apresentação se baseará em dados etnográficos registrados em 2020 com artesãos e artesãs de capim dourado associados à Associação dos Artesãos de Porto Nacional, localizada na cidade de Porto Nacional (TO), além de lançar perguntas mais recentes que motivam uma pesquisa de mestrado em andamento a ser realizada em algumas associações de artesãos no estado do Tocantins. Nesta nova pesquisa, nos inspiramos numa abordagem transdutiva (Simondon, (1924-1989) para analisar os processos técnicos associados aos artesanatos e biojóias do capim dourado. O enquadramento etnográfico da apresentação se concentrará na criação de diferentes peças artesanais e nas tensões da costura, a fim de contribuir com os estudos do campo da Antropologia da Técnica.
-
Ao Longo e Através: sobre cercas e suas propriedades técnicas no meio rural cearense
— Jorge Luan Rodrigues Teixeira
— Jorge Luan Rodrigues Teixeira
Neste trabalho, reflito sobre os usos, os significados e o papel desempenhado pelas cercas no meio rural cearense. Na vasta e diversificada literatura sobre os campesinatos, as cercas e os cercamentos surgem como dispositivos técnicos e processos político-territoriais que interditam o acesso de camponeses a fontes de águas, florestas, pastagens etc. antes de uso comum. Em muitas formulações acadêmicas, artísticas, políticas etc., as cercas (mas também o arame farpado) simbolizam a expropriação do campesinato e, como símbolos, parecem condensar as opressões históricas sofridas que dificultam ou impedem a reprodução social e cultural de povos camponeses e tradicionais. Partindo de breve revisão inicial sobre o tema dos cercamentos na literatura sobre os campesinatos no Brasil, reflito em seguida sobre algumas propriedades técnicas das cercas sertanejas, o que enseja a descrição dos seus processos de produção, manutenção e uso cotidiano. Fazendo-o, apresento outra perspectiva, etnograficamente informada, para pensar sobre esses dispositivos técnicos e arquitetônicos – sem com isso ignorar ou negar a relevância histórica, política e econômica daqueles processos de expropriação ou a justeza da crítica a eles. Assim, embora as cercas impeçam, neguem e interditem, busco, a partir das formulações sertanejas, apontar o que elas fazem e o que possibilitam aos interlocutores fazer. Trata-se, pois, de pensá-las como dispositivos técnicos que fazem algo e que são indispensáveis para constituir um mundo de determinada maneira e para conhecê-lo. Portanto, refletir com os sertanejos sobre as cercas permite compreender mais do que os aspectos imediata e diretamente relacionados a tais dispositivos técnicos e a sua feitura, complexificando inclusive as críticas aos cercamentos. Como observei em trabalho anterior, as cercas podem ser pensadas e descritas, analiticamente falando, como “coisas cósmicas”, no sentido que John Tresch dá a essa expressão: uma agregação artefactual de entidades díspares mobilizadas e relacionados pelos seus artífices. “Cósmica” porque as cercas concentram e condensam os modos de relacionamento entre os seres humanos e deles com o seu mundo; e “cósmica”, outra vez, porque a transformação que a sua construção e existência produzem não é apenas da matéria e da paisagem a partir da ação humana sobre ambas, mas dos próprios agentes e também das relações que diferentes seres estabelecem uns com os outros, com o seu mundo e com essa nova construção que o corta. O trabalho tem por base pesquisa etnográfica realizada em diferentes períodos desde 2013 com trabalhadores e proprietários rurais dos municípios de Catarina e Saboeiro, no Sertão dos Inhamuns, Ceará.
-
Pirarucu selvagem de manejo: aspectos da domesticação de peixes em lagos de várzea amazônica
— José Cândido Lopes Ferreira
— José Cândido Lopes Ferreira
Nos campos das ciências biológicas, arqueologia e antropologia há certo consenso sobre a inexistência, ou falha, de processos de domesticação animal na Amazônia. Uma exceção seria o pato almiscarado (Cairina moschata). Já no universo vegetal se passa o contrário. As teses mais fortes atualmente apontam para intensos e extensos processos de domesticação, de tal ordem que a composição de significativa parte da floresta amazônica seria resultante da ação humana no decorrer dos últimos 12 mil anos. Em termos conceituais, o entendimento predominante em diferentes campos científicos é que domesticação corresponde ao controle da reprodução de espécies animais, vegetais ou fúngicas. Os estudos orientados pela antropologia da técnica, entretanto, têm evidenciado uma diversidade de regimes de domesticação, que vão além do controle reprodutivo. As pesquisas dedicadas a essa temática têm dado ênfase a etnografias sobre diversos modos de interação e, por meio da análise de processos particulares, têm focado em dimensões práticas e materiais que constituem essas relações. Nesta apresentação, proponho um diálogo com os estudos de processos de domesticação animal, no registro da antropologia da técnica e de outras abordagens, como arqueologia e biologia. Abordo esse debate a partir de um estudo sobre o manejo de pirarucu (Arapaima gigas) na região central do estado do Amazonas, realizado por pescadores ribeirinhos e indígenas, organizações de apoio técnico e governamentais. O modelo do manejo de pirarucu é uma política de conservação da biodiversidade baseada na proteção de lagos naturais e no controle da captura de peixes, que levou à transformação das formas de interação entre pescadores e peixes. Nesse novo cenário, a dedicação dos pescadores à proteção dos lagos é a atitude mais característica, que lave a mudanças tanto em seu comportamento como dos pirarucus. Segundo os pescadores, esse esforço é percebido pelos pirarucus, que se amansam e escolhem viver nos lagos protegidos. Mudanças na dinâmica da pesca e na construção de infraestruturas para a lida com os pirarucus também ganham espaço. Argumento que a adoção do manejo de pirarucu proporcionou a emergência de novas formas de relação entre pescadores, pirarucus e os lagos de várzea, que podem ser entendidas como processos de domesticação. O objetivo da apresentação é, portanto, colaborar com o debate sobre processos de domesticação, explorando aspectos a partir das práticas do manejo de pirarucu.
-
Técnicas e dinâmicas das ocupações indígenas nos sítios arqueológicos da Cidade de Pedra (Mato Grosso)
— Juliana de Resende Machado
— Juliana de Resende Machado
A antropologia da técnica tem oferecido importantes ferramentas conceituais e metodológicas para o diálogo com outros campos de pesquisa, possibilitando a análise articulada entre práticas técnicas, materialidades e relações sociais. Na arqueologia, essa influência ampliou a interpretação dos vestígios materiais e dos processos técnicos do passado, sobretudo por meio do uso do conceito de cadeia operatória. A arqueologia, por sua vez, conheceu um desenvolvimento próprio na abordagem das técnicas, muito ligado à ciência dos materiais e às habilidades motoras humanas. Dessa forma, ela também contribui ao campo das técnicas ao mobilizar essas ferramentas em contextos não acessíveis pela observação direta e o registro etnográfico. A proposta desta comunicação é apresentar os resultados da análise tecnológica das cadeias operatórias de produção lítica e cerâmica de vestígios arqueológicos da Cidade de Pedra (Mato Grosso) datados do Holoceno recente. Inseridos em uma área de grande diversidade cultural, esses sítios apresentaram conjuntos cerâmicos variados e uma produção lítica diversificada. Nosso objetivo é recompor a história das ocupações indígenas na região, desde a aparição da cerâmica nos abrigos, em 1.900 ± 40 BP, até aproximadamente 205 ± 40 BP, quando cerâmicas policrômicas se manifestam nas camadas mais superficiais. A análise das cadeias operatórias permitiu evidenciar particularidades tecno-culturais dos diferentes grupos que se sucederam, bem como as relações socioculturais que eventualmente estabeleceram entre si ou com grupos vizinhos. Dois grandes intervalos de ocupação foram identificados nos abrigos. O mais antigo é marcado por uma cerâmica cujas paredes foram façonadas por roletes; por instrumentos líticos variados sobre lascas de arenito, obtidas por métodos distintos; por duas cadeias operatórias de lâminas de machado polido; pela obtenção de pigmento vermelho; e pela produção de adornos a partir de plaquetas de siltito ferruginoso. No intervalo mais recente, por volta de 1.060 ± 40 BP, outro grupo se estabelece nos abrigos, portando uma cerâmica cujas paredes são façonadas por uma técnica mista, combinando modelagem sobre massa de argila e roletes. A produção de lâminas de machado e o uso de plaquetas persistem, enquanto o lascamento do arenito diminui drasticamente e os poucos adornos presetes sao diferentes. A retomada de objetos constitui uma prática recorrente, assim como transformações no uso do espaço dos abrigos. Por fim, a circulação de objetos torna-se mais evidente, com a presença de adornos líticos possivelmente provenientes de outras regiões. A persistência de cerâmicas mais antigas em alguns sítios sugere o compartilhamento do território durante determinado período.
-
Processos técnicos, corpo e ambiente na produção da louça entre mulheres Kariri-Xocó
— Karina Rachel Guerra Braga
— Karina Rachel Guerra Braga
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de doutorado em antropologia social que investiga os processos técnicos envolvidos na produção da louça entre mulheres louceiras Kariri-Xocó, tomando a técnica como prática relacional que articula humanos e não-humanos em sistemas sociotécnicos situados. O problema central da pesquisa consiste em compreender de que modo a descrição etnográfica da cadeia operatória da louça permite analisar as relações de coordenação, correspondência e ajuste entre corpo, materialidade e ambiente, sem reduzir a técnica a um conjunto de procedimentos instrumentais. A questão que orienta o estudo é como esses processos técnicos produzem efeitos simultaneamente materiais, corporais e sociais, configurando modos específicos de relação com a terra, o fogo, a água e o ar. A pesquisa dialoga com a antropologia da técnica, particularmente com abordagens que enfatizam processos, gestos e temporalidades do fazer. Embora estudos sobre cerâmica sejam numerosos, ainda são escassas análises que tratem a cadeia operatória como um campo de relações ativo, no qual materiais e elementos ambientais participam como agentes que condicionam decisões, ritmos e formas de aprendizado. Metodologicamente, a pesquisa baseia-se em etnografia de longa duração, com observação participante dos diferentes momentos da produção da louça da extração do barro à queima, registros sistemáticos dos gestos técnicos, acompanhamento de processos de aprendizagem e atenção às dificuldades de verbalização do saber-fazer. O foco recai sobre a descrição dos modos de operação, manipulação e coordenação implicados no trabalho cotidiano das louceiras, considerando as escalas temporais curtas do gesto e as temporalidades longas da formação corporal. Os resultados parciais sugerem que o contato contínuo com o barro, concebido pelas louceiras como um ser vivo, participa da constituição de relações técnicas fundadas na atenção, na espera e na capacidade de resposta aos comportamentos da matéria. Esse envolvimento gera efeitos duráveis nos corpos das mulheres, marcados pela força, pela dor e pela destreza, ao mesmo tempo em que estrutura formas específicas de transmissão do conhecimento técnico. A queima, por sua vez, configura-se como um momento crítico e ritualizado, no qual a articulação entre fogo, ar, água e terra evidencia a impossibilidade de controle total do processo e a necessidade de negociação constante com os elementos. Ao contribuir para o debate da antropologia da técnica, o trabalho aponta para o potencial metodológico da etnografia de processos técnicos como via privilegiada para analisar sistemas sociotécnicos e relações de poder, bem como para refletir sobre os desafios analíticos de traduzir saberes incorporados e práticas pouco verbalizadas.
-
Antropologia da Técnica e Antropologia das Mudanças Climáticas: um diálogo possível
— Larissa Brito Ribeiro
— Larissa Brito Ribeiro
O objetivo deste trabalho será refletir sobre o diálogo que venho empreendendo entre a antropologia da técnica e a antropologia das mudanças climáticas. Partirei do trabalho de campo realizado entre 2022 e 2023 sobre técnicas de restauração de recifes de corais, desenvolvidas e implementadas no Parque Nacional Arrecifes de Puerto Morelos, no Caribe mexicano.
A antropologia das mudanças climáticas é um campo relativamente recente. Diversos trabalhos creditam suas origens à antropologia ambiental, especialmente os Leslie White, Julien Steward e Roy Rappaport (Baer; Singer, 2014; Eriksen, 2021). Os primeiros movimentos em direção à sua constituição como campo de estudos foram dados na década de 1970, com Gregory Bateson (1972) e Margareth Mead (1975) e diversos trabalhos foram realizados na década de 1990, indicando a relevância científica e política do conhecimento local sobre o clima, mas o tema ganhou verdadeiro fôlego no final da primeira década dos anos 2000. A partir de então, o número de pesquisas se expandiu, a antropologia ambiental tem sido renovada e reformulada pela atenção dada ao clima, e outros campos de pesquisa têm se voltado para o tema, a exemplo da antropologia da ciência (Eriksem, op.cit.; Latour, 2018). Estes trabalhos têm apontado a relevância da antropologia no estudo das mudanças climáticas por seu reconhecimento das múltiplas interrelações entre fenômenos de larga escala e os contextos locais em uma perspectiva multi-escalar (Rayner, 2016; Eriksen, 2021).
Quatro perspectivas teóricas têm caracterizado este campo: a ecologia cultural, uma perspectiva interpretativa, uma perspectiva crítica - que conjuga as teorias do sistema mundial, da ecologia política e histórica e, mais recentemente, um deslocamento para as abordagens que questionam a centralidade no conhecimento humano e nos sistemas de valoração, expandindo a abordagem para o tratamento das relações entre humanos e não humanos (Baer e Singer, 2014; OREILLEY et al, 2020, Ericksen, 2021).
Entretanto, uma questão se abre ao percorrer estes trabalhos: como estabelecer as interrelações entre os fenômenos de larga escala e os contextos locais? Em outros termos, a pesquisa sobre as técnicas de restauração de recifes de corais tem colocado o desafio de compreender qual é o sentido da totalidade que guia a pesquisa e de que modo a orientação a este conceito clássico na antropologia possa abarcar os conflitos e relações de poder nas interrelações entre o local e o global. Neste sentido, pretendo refletir como meus dados de campo, organizados metodologicamente pela noção de "cadeia operatória" (Leroi-Gourhan, 2002; Coupaye, 2017), tem me levado a questões sobre aquela noção pelo diálogo entre a antropologia da técnica e a antropologia das mudanças climáticas.
-
Plantar de bolso: técnica de plantio de araucária e de construção de território nos campos de Campos de Altitude do Planalto das Araucárias.
— Larissa Mattos da Fonseca
— Larissa Mattos da Fonseca
Os métodos em uso pela antropologia da técnica têm como uma de suas principais características o potencial de reconfiguração conforme os diferentes espaços, temporalidades e escalas apresentadas por cada contexto etnográfico. Perceber, descrever e analisar interações entre humanos e vegetais implica aprender, por vezes, temporalidades dispares; o tempo e o ritmo biográfico de indivíduos humanos e vegetais podem ocorrer em escalas diferentes. A coleta de pinhão, nos Campos de Altitude do Planalto das Araucárias, é realizada em coníferas plantadas de bolso por pais, tios, avós e bisavós dos coletores há décadas. Plantar de bolso é deixar nos bolsos das calças de trabalho sementes em broto e, durante a lida com o gado ou agrícola, ir largando os brotos em diferentes cantos das fazendas ou sítios. Plantio que anos adiante não só irá propiciar que filhos, sobrinhos e netos coletem pinhão, como irá demarcar o direito de coleta, ainda que às vezes em controvérsia, naquele espaço. A vida centenária das araucárias parece estar desalinhada com a temporalidade biográfica, relativamente curta, dos humanos. Nesse sentido, a realização de uma etnografia junto a coletores de pinhão exige que um dos agentes da interação humano e vegetal seja aprendido de forma distinta, a interação passa a ser percebida, então, não entre um indivíduo humano (um coletor) e um vegetal, mas entre grupos parentais transgeracionais e a araucária. O que resulta na problemática de como acompanhar, etnograficamente, uma sequência de ações técnicas integradas por lapsos temporais de décadas. Reconfigurações e recriações de método frente ao tempo vegetal já foram propostas, todavia, a temporalidade das araucárias, em específico, exige um alargamento ainda maior dos lapsos a serem analisados, lapsos estes que devem ser considerados também enquanto ferramentas da ação técnica humana na coleta de pinhão, uma vez que se considere o plantio antepassado como ação constituinte do sistema da coleta. A reconfiguração de métodos, compondo sobreposições e recriações, entre alternativas metodológicas oferecidas pela antropologia da técnica e propostas metodológicas advindas da antropologia histórica e dos estudos de parentesco, torna-se um imperativo.
-
Máquinas cibernéticas, guerra e fantasia: pensando ecologias de crise com Bateson e Marx
— Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino
— Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino
Esta apresentação explora um viés pouco trabalhado na obra de Gregory Bateson, relativo ao seu argumento sobre o papel da tecnologia moderna em ecologias de crise. Esse argumento foi exposto com mais nitidez em textos do final dos anos 1960 como “Patologias da epistemologia” e, principalmente, em sua fala de abertura do icônico congresso Dialectics of Liberation, “Propósito consciente versus natureza”. Costurando estas com outras considerações espalhadas por sua obra, é possível recompor um argumento batesoniano pelo protagonismo de máquinas cibernéticas na desorganização permanente dos atuais sistemas sócio-técnicos globais. A aparente simplicidade (se não obviedade) do argumento é enganadora: a introdução contraditória de mediadores maquínicos nos sistemas humanos coloca implicações para a própria forma como a ecologia da mente compreende as continuidades entre o sapiens e outras ecologias animais. Em especial, nos aponta caminhos para (re)pensar a fantasia e a guerra (e a relação entre elas) como manifestações humanas de predicados mamíferos. Proponho estender esses caminhos através de um diálogo com as reflexões de Karl Marx sobre o lugar das máquinas no capitalismo, em especial o que ele chamou de “autômatos” no excerto dos Grundrisse conhecido como “Fragmento das máquinas”. Esse diálogo por vir entre Bateson e Marx nos permite lançar nova luz sobre a linguagem gótica com que este frequentemente se referia ao capital e seus efeitos sobre as sociedades humanas: fetiches, vampiros, espectros, lobisomens. O diálogo com a ecologia da mente nos ajuda, por um lado, a remeter o caráter estranho-familiar (Unheimlich) pressentido por Marx no que ele chamou de “o capital” à sua base material e técnica em máquinas cibernéticas autônomas. Por outro, lança luz sobre o papel dessas “máquinas-inimigas” na confluência entre guerra e fantasia tão característica de problemas associados ao digital como radicalização, conspiracionismo e ameaças à democracia.
-
Dados, "evidências" e formas de visibilizar na gestão pública e na antropologia: uma reflexão entre painéis de visualização de dados e cadeias operatórias
— Maria Fernanda Valeriano Benevides Viana
— Maria Fernanda Valeriano Benevides Viana
Nas últimas décadas, discursos sobre decisões "orientadas por dados" e "baseadas em evidências" passaram a marcar com mais intensidade variadas esferas da gestão pública. Nesse contexto, representações gráficas oriundas da elaboração de "visualizações de dados" têm sido mobilizadas como recursos para tornar problemas visíveis, estabilizar interpretações e justificar intervenções. Tais imagens constituem o estágio final de uma longa cascata de inscrições e transformações, a qual tende a se tornar invisível em decorrência de seu êxito. Foi justamente esse processo técnico, anterior à entrega das "informações" e das "evidências", que busquei etnografar no âmbito de minha pesquisa de mestrado em antropologia.
Acompanhando uma equipe de programadores e analistas de dados durante um trabalho de campo em uma grande central de dados públicos em Recife, Pernambuco, descrevo uma série heterogênea de práticas e mediações, articuladas entre humanos e não-humanos, por meio das quais os "dados" se tornam importantes objetos de conhecimento para a gestão pública municipal. Para isso, recorro às "cadeias operatórias" (no sentido reelaborado por Coupaye, 2017, 2022) como ferramenta etnográfica para "visibilizar" as relações e deslocamentos entre os atores e artefatos envolvidos.
Naquele momento, explicitei como as transformações dos dados - inseridas em um enredamento ao mesmo tempo técnico, estético e político - culminam nos chamados "painéis dos gestores", onde as "informações" são visualmente organizadas e assumem a forma de "evidência" quando a confiança nos significados das imagens se estabiliza por meio de negociações de veridicção realizadas entre programadores e gestores.
Para a apresentação no GT, proponho retornar a essas descrições e às cadeias operatórias produzidas no âmbito da pesquisa, de modo a tecer uma reflexão crítico-metodológica ainda em caráter experimental. O objetivo, além de expor a "criação" etnográfica do processo técnico estudado, é aproximar comparativamente minhas metodologias das dos meus interlocutores, colocando-as sob o mesmo escrutínio crítico. A aproximação parte da constatação inicial de que ambos estamos produzindo imagens para "visibilizar" nossos dados - eles por meio de códigos e softwares de elaboração de dashboards e eu por meio de um método clássico da antropologia das técnicas (as cadeias operatórias). Considerando os distintos propósitos e relações de poder em cena, questiono ainda como esse relacionamento pode abrir espaço para refletir sobre a produção de "evidências" tanto através das técnicas computacionais de tratamento de dados quanto das próprias técnicas da antropologia (Hastrup, 2004).
-
A malhadeira, o peixe e a farinha: pescadores quilombolas de Arapucu - PA
— Matheus Pereira de Andrade
— Matheus Pereira de Andrade
Na Comunidade Quilombola de Arapucu, o peixe e a farinha são a base da alimentação.A pesca para consumo, chamada de "boia", é praticada no rio Amazonas e no Lago Arapucu, utilizando-se a malhadeira.Esta rede de pesca possui diversas características que a diferenciam, como a espessura e o material do fio, o local de utilização, a forma como é montada (entralhe) e as dimensões das malhas. Para algumas espécies de peixes, existem malhadeiras específicas, como é o caso do mapará, com a maparazeira; do surubim, com a surubinzeira; além da curimatazeira, jaraquizeira, douradeira, entre outras. Embora os pescadores relatem transformações técnicas nas malhadeiras — como a diminuição da espessura dos fios —, eles também observam que "o peixe evolui com a ciência". Essa expressão traduz a percepção de que os peixes aprendem com o tempo. Assim como as malhadeiras se transformaram, os peixes também se tornaram mais sorrateiros: eles chegam a bater a cauda na rede, mas não entram nela.
Um dano que as malhadeiras podem sofrer são os rombos causados por atritos em contatos com pedaços de madeiras, e outros objetos perfurantes, mas a principal causa na localidade são os botos-cor-de-rosa. Os pescadores dizem que os botos tiram os peixes da malha, eles escutam à distância o ronco do motor, e já vão atrás do pescador sabendo que vai jogar malhadeira. Assim, a atividade que o pescador mais se dedica é remendar as malhadeiras. Elas, sobretudo, são tecidas com novos “panos” a cada nova pescaria.
Tanto a malhadeira, como o remo são usados para além da pesca, são elementos essenciais no barracão de farinha dos Ferreiras. A rede malhadeira quando “esturrica”, quando perde a capacidade de prender os peixes, fica frouxa, passa a ser utilizada como cerca no barracão, impedindo a entrada de alguns seres mais que humanos que confluem no local. Já o remo adere à tarefa de mexer a farinha no forno, uma espécie de tacho de metal.
-
Por uma antropologia de possibilidades: Materiais, corpos, e técnicas nos processos de ontogênese empreendedora
— Pedro Branco
— Pedro Branco
Em meio à ampla gama de sistemas sociotécnicos aos quais vem se dedicando a antropologia brasileira nas últimas décadas, uma família de atividades claramente se destaca — não apenas pela notável ausência de abordagens mais “programáticas”, como pelo potencial transformador que derivaria de seu estudo pelas vias (1) etnográfica, (2) comparativa, e (3) interventiva. No contexto dos Entrepreneurship Studies (ES) e dos Management and Organisation Studies (M&O), os processos de ontogênese empreendedora (i.e. “new venture formation”) constituem um objeto claro de investigação, onde uma atenção cada vez maior tem sido dedicada à diversidade dos materiais, das corporeidades, e das técnicas envolvidas na navegação das fronteiras entre o (in)certo e o (im)possível. À emergência de uma “teoria artefatual do empreendedorismo” — recentemente sistematizada por Berglund & Dimov — segue-se uma proliferação das vias de diálogo entre os ES/M&O e a antropologia, assim como entre estas disciplinas e métodos criativos como o design e a epistemologia formal. A presente contribuição articula notas preliminares de um estudo em andamento na VU Amsterdam (NL) e em sua aceleradora de startups, o Demonstrator Lab. Estruturada em três partes, a apresentação começa por reunir os campos da antropologia e dos ES/M&O sob uma caracterização da (im)possibilidade e da (in)certeza como categorias empíricas — portanto, tão pertinentes à etnografia, quanto à metafísica. Por meio de aproximações teóricas e metodológicas, lógicas modais constituem uma avenida fértil para entender como comprometimentos ontológicos específicos — i.e. certas configurações do real como (des)necessárias e/ou (im)possíveis — são (re)produzidos materialmente, inscritos em corpos e comportamentos, e tornados duráveis (ou não) sob a forma de técnicas onde a adequação de performances a objetivos está atrelada a parâmetros emergentes que conectam contextos, sujeitos, e objetos. Em seguida, busco esboçar o potencial analítico que advém de abordagens comparativas centradas na metafísica da técnica através de interfaces com a filosofia de Yuk Hui e com a Virada Ontológica em antropologia. No que concerne à viabilidade socioeconômica (e política) dos empreendimentos, a distribuição diferencial das (im)possibilidades e (in)certezas constitui um objeto não apenas de pesquisa, como também de criação. Portanto, esta apresentação se encerra explorando as adjacências entre algumas ciências do possível, dentre as quais a antropologia, e algumas possibilidades da ciência — tais como o Design Ontológico de Escobar e a Semântica de Mundos Possíveis. O objetivo é fomentar “programas de pesquisa” onde o desenvolvimento de tecnologias ocupe um lugar central em projetos empreendedores de resistência às (in)credulidades do Antropoceno.
-
Tecendo Conexões: Uma Perspectiva Waiwai na Antropologia da Energia Amazônica
— Sandro Maia Freire Junior
— Sandro Maia Freire Junior
Este trabalho investiga a Antropologia da Energia, articulando um levantamento bibliográfico das principais obras e autores do campo com um trabalho etnográfico realizado em um projeto de iniciação científica em comunidades indígenas da Amazônia. A análise bibliográfica abrange autores pioneiros, desde Leslie White (1943) e Adams (1978), passando por coletâneas recentes (Strauss, Rupp & Love, 2013; Smith & High, 2017) e contribuições contemporâneas sobre energopolítica e cosmotécnica, como Boyer (2014, 2015) e Hui (2020). A pesquisa etnográfica foi realizada em comunidades Waiwai nas TI Wai Wai e Trombetas-Mapuera, combinando observação participante, entrevistas e levantamento sobre o uso de energia elétrica, incluindo geradores, painéis solares e redes on-grid. Os resultados evidenciam que a energia não é apenas uma forma de infraestrutura dada, mas também um fenômeno sociotécnico e cosmológico, mediando relações sociais, políticas e territoriais. Diferenças entre comunidades demonstram modos distintos de racionalização, relações econômica e articulação cosmológica. Este trabalho reforça a relevância da Antropologia da Energia como campo capaz de integrar técnica, política e cosmologia, oferecendo ferramentas para compreender regimes energéticos locais e globais.
Coordenação
Mylene Mizrahi (PUC-RIO)
Maximiliano Rúa (Facultad de Filosofia y Letras Universidad de Buenos Aires)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Mylene Mizrahi (PUC-RIO)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Chantal Medaets (Unicamp)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Eduardo Di Deus (UNB)
A antropologia tem proposto contribuições originais para um campo majoritariamente explorado pela psicologia e pela educação. Com este GT, visamos reunir pesquisas etnográficas sobre processos de aprendizagem que envolvem a transformação de pessoas, coisas e ambientes, bem como a dinâmica relacional estabelecida entre eles. Desejamos contribuir para uma abordagem antropológica das aprendizagens, destacando o lugar que a prática ocupa nas estéticas e nas poéticas do aprender, trazendo para o centro de nossos interesses o engajamento do corpo, a ordem do sensível e a consideração da vida material. Focalizamos processos criativos que produzem mudanças que impactam nossa cognição, nosso corpo e nossa atenção, ao mesmo tempo que produz efeitos nos seres e coisas que compõem nossa rede de relações. Como captar essas mudanças? Quais as especificidades de uma etnografia interessada nas transformações da aprendizagem? Que práticas possibilitam esses processos de transformação? Acolheremos investigações que tomem a aprendizagem como problema de pesquisa ou revisitem pesquisas para repensar a aprendizagem das práticas e da etnografia. Temas de interesse incluem práticas artísticas, desportivas, de aquisição de ofícios e em ambientes escolarizados, explorando aspectos como artefatualidade, técnica, trabalho, artesania, escola e educação intercultural e indígena, considerando as coisas – plantas, sons, cabelos, vestuário, rios, mares – e o ambiente: natural, rural, urbano, arquitetônico.
Títulos e Resumos
-
Produção artesanal de canoas em miniatura. Um estudo etnográfico sobre a Oficina Escola Naval Mestre Harildo, Arraial do Cabo, RJ.
— Daniel Bitter
— Daniel Bitter
Harildo Francisco dos Santos, mais conhecido como mestre Harildo, é pescador aposentado e carpinteiro naval ativo, trabalhando continuamente no reparo e restauro das canoas de boçarda utilizadas na tradicional pesca de Arraial do Cabo, RJ. Trata-se de um tipo particular de embarcação artesanal, escavada de um único tronco de árvore, símbolo da cultura pesqueira costeira da região. Seu paiol localiza-se em uma Unidade de Conservação Federal, a Reserva Extrativista da Marinha – ResexMar Arraial do Cabo, na área destinada e estabelecida exclusivamente à atividade da pesca artesanal. Harildo fundou em 2020, no paiol dos pescadores da Prainha, a Oficina Escola Naval Mestre Harildo, com o intuito de preservar e transmitir seus saberes. Seus destinatários são principalmente os descendentes dos pescadores artesanais da região, crianças e jovens que hoje olham para o futuro emaranhado de incertezas diante das permanentes ameaças aos seus modos de vida, seja pela pesca predatória, pelo turismo desordenado e ainda pelo próprio desequilíbrio dos ecossistemas marinhos e terrestres desencadeados pelo fenômeno do aquecimento global. A Oficina Escola Mestre Harildo é reconhecida e titulada pelo Instituto Brasileiro de Museus - IBRAM, como Ponto de Memória, e experienciada por seus frequentadores como um verdadeiro museu vivo de cultura popular. O que tem atraído a atenção dos descendentes dos velhos pescadores, assim como dos visitantes, é, especialmente, o trabalho criativo e educativo que mestre Harildo tem realizado em torno da produção de esculturas de miniaturas das canoas da região. A base de toda produção das canoinhas é feita com a madeira do algodoeiro-da-praia, árvore abundante na região, e lá conhecida como algodão da praia, que a Oficina recebe como doação a partir de podas urbanas. Mestre Harildo é um artesão habilidoso e preciso, mesmo não tendo mais o sentido da visão, perdida há mais de 20 anos, por ocasião de um glaucoma adquirido nos longos anos de exposição ao sol, à areia e ao mar. A Oficina Escola Naval é um espaço de vivências e experimentações, onde fluem conversas e emergem diversas histórias e memórias. Nesta comunicação busco refletir sobre os processos de ensino-aprendizagem envolvendo a feitura das miniaturas e o desenvolvimento de sensibilidades e habilidades singulares. Me proponho a pensar, ainda, o processo de reaprendizado de seu Harildo ao privilegiar o sentido do tato em decorrência da perda da visão e a própria ideia de miniaturização a partir do campo de debates em cultura material.
-
Transformação da masculinidade no tatame: aprendizagens e práticas sociais em uma academia de Jiu-Jitsu
— Gian Claude de Lima Araújo, Elcimar Dantas Peretra, Matheus Moisés Araújo da Silva
— Gian Claude de Lima Araújo, Elcimar Dantas Peretra, Matheus Moisés Araújo da Silva
O jiu-jitsu é uma arte marcial baseada em técnicas de imobilização e quedas, tendo a disciplina como um de seus pilares centrais, transmitida de forma geracional. Embora existam escritos normativos sobre a conduta no tatame, observou-se que o ensino dessa disciplina ocorre predominantemente por meio da oralidade, da repetição e da prática cotidiana. Este artigo analisou como a pedagogia do jiu-jitsu contribui para a construção da masculinidade entre os alunos da turma infantil da academia SAS TEAM Abolição IV, Mossoró RN, considerando o contexto situado — bairro, região e gênero — no qual a prática está inserida. A pesquisa baseou-se em uma etnografia realizada ao longo de 30 dias de incursões em campo, orientada pela descrição densa proposta por Clifford Geertz. Os resultados evidenciam que o aprendizado do jiu-jitsu opera como um processo social de incorporação corporal, no qual gestos, posturas, resistências físicas e modos de agir são ensinados e naturalizados, conforme as técnicas do corpo discutidas por Marcel Mauss. Observou-se que a pedagogia aplicada no tatame envolve exigências sistemáticas de disciplina, resistência física e controle emocional, direcionadas de forma mais rigorosa aos meninos, reforçando expectativas de força, autocontrole e comportamento disciplinado como por exemplo em uma situação que foi relatado na pesquisa, a forma com que o mestre/professor tende a cobrar mais e dar menos intervalos de descanso para os meninos em meio ao treino e principalmente cobrando muito mais eles em relação as meninas, além do mestre não deixar os meninos terem contato direto com mãe quando choram ou demonstram fragilidade em todas as vezes que isso aconteceu o professor sempre se aproximou dos meninos conversando de forma bem séria e não permitia que a mãe se aproximasse. A análise demonstrou ainda que a autoridade do professor/mestre, compreendida como uma forma de poder simbólico nos termos de Pierre Bourdieu, desempenha papel central na legitimação desses modelos de masculinidade, sendo constantemente reproduzida por meio da imitação e da relação pedagógica cotidiana. Em diálogo com o conceito de masculinidade hegemônica (Connell; Messerschmidt) e com Paulo Freire, o ensino revelou-se não apenas técnico, mas profundamente formativo, articulando disciplina, afetividade e valores morais. Dessa forma, o estudo evidencia o tatame como um espaço educativo que ultrapassa o esporte, funcionando como uma “segunda casa” e como um ambiente privilegiado de socialização, incorporação corporal e ressignificação das masculinidades juvenis.
-
Olhamos a mesma coisa e vemos coisas diferentes: os muitos significados de uma árvore no Centro Acadêmico do Agreste.
— Joaquim Izidro do Nascimento Junior
— Joaquim Izidro do Nascimento Junior
O trabalho pretende aprofundar os dilemas surgidos a partir de um acontecimento aparentemente trivial. Os estudantes do Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da Universidade Federal de Pernambuco, fazem seus rituais em torno de uma árvore de Angico, antes do começo das aulas. Em uma determinada manhã, no início do semestre 2024.2, varias peças de andaimes foram escoradas e amarradas à árvore, pelos trabalhadores terceirizados da universidade. O acontecimento desencadeou incômodos e revoltas por parte dos indígenas. Por outro lado, os trabalhadores se desculparam e justificaram suas ações pelo desconhecimento dos motivos espirituais alegados. O evento acabou tendo os seus desdobramentos em uma atividade dentro da disciplina "Dimensões da Religiosidade Indígena", em que os estudantes indígenas ampliaram as discussões a partir do tema: olhamos a mesma coisa e vemos coisas diferentes. Os resultados, apresentados através de seminários, apontaram uma profunda reflexão de como os indígenas se percebem na universidade e como são suas relações com esses seres não-humanos: seja na compreensão das características de cada planta, seja na conexão entre os acontecimentos e seus significados, seja no diálogo com os seres encantados, seja na percepção da fauna e da flora e o comportamento de seres como formigas e pássaros. Em todas essas situações, o olhar dos indígenas demarca uma grande diferença em relação aos nossos entendimentos nos ambientes urbanos, nas relações sociais que estabelecemos e no cotidiano acadêmico. Toda essa riqueza de visões e intuições, reveladas pelos indígenas, pode ser interpretada como processos de aprendizagem que, por sua vez, podem tem o potencial de impactar os docentes do curso em suas práticas acadêmicas; bem como podem oferecer possibilidades de transformação de pessoas, coisas e ambientes, a partir de uma dimensão sensível, captada pelas lentes da antropologia, como propõe o Grupo de Trabalho.
-
"A Jurema é uma ciência fina": pensando novas abordagens epistemológicas a partir de velhos saberes e práticas
— Lucas Gomes de Medeiros
— Lucas Gomes de Medeiros
A noção de ciência, tal como a conhecemos hoje, diz respeito a uma rede sistematizada de conhecimentos sobre a realidade social que se estabelece mediante pesquisas, técnicas, métodos, metodologias, parâmetros compartilhados de verificação, comunidade de pares, etc. Trata-se de um modo de produção de sentido que se tornou hegemônico a partir do século XIX no contexto dos desdobramentos modernos do racionalismo ocidental. O termo ciência também é amplamente evocado na Jurema Sagrada – religião de origem indígena do Nordeste brasileiro, marcada por processos de hibridismo com o catolicismo, os cultos de origem africana e as magias provindas da Península Ibérica no período colonial (Vandezande, 1975; Salles, 2010; Simas, 2021; Leite, 2025). Pretendemos apresentar e discutir as semelhanças e diferenças da ciência clássica ocidental com a ciência encantada da Jurema, a fim de refletir sobre como os conhecimentos são processados e concebidos nos terreiros; bem como se processam rasuras em dicotomias convencionais como: material/transcendental, objetivo/subjetivo, saber técnico/saber empírico. As provocações aqui presentes resultam de entrevistas e observações participantes nos espaços religiosos afro-ameríndios do município de Mossoró-RN.
-
Um salão de possibilidades: Cabelos de Angel Braids
— Maria Eduarda f de Oliveira
— Maria Eduarda f de Oliveira
Pesquisar em um salão familiar, de início parecia uma fácil missão. Até ser confrontada por questões que escapavam de minha percepção enquanto cliente (Velho, 1978). Retornar como cliente e pesquisadora permitiu uma aproximação com Luiza, trancista e proprietária do salão e sua equipe, além de atentar meu olhar para a cultura material do salão e dos cabelos. Cabelos esses que chegam, que saem e que permanecem nesses espaços. Alguns são sintéticos, e ficam guardados esperando o momento da cliente chegar para que possam ser trançados; outros chegam desembaraçados e trançados em um coque; outros apenas presos e cobertos por uma touca de cetim ou capuz. Apesar desses contrastes, eles têm algo em comum: estão ali para serem modificados e manuseados. De início, não tinha como objetivo pesquisar o cabelo e suas agências. Tendo verificado a presença intermitente das crianças nesse espaço, frustrando assim minha motivação inicial, me voltei para outros aspectos, como os cabelos.
Para execução da presente pesquisa, realizo, observação participante no salão Angel Braids, localizado na favela da Rocinha, Zona Sul do Rio de Janeiro. Já frequentava o salão com uma certa assiduidade, por isso era familiarizada com sua estrutura física, instalado em uma uma kitnet, um tipo de casa ou apartamento compacto com sala, cozinha e quarto no mesmo ambiente, tendo apenas a divisão do banheiro, muito presente em comunidades populares. Luiza alugou com o intuito de fazer ali salão de beleza, em um pequeno prédio situado na parte baixa da favela da Rocinha. Ao entrar, nos deparamos com uma pequena cozinha, que tem sua entrada restrita por uma cortina. Ao virar à direita, chegamos na sala de atendimentos, que possui três espelhos e três cadeiras, e por fim um banheiro. O salão, apesar de pequeno, sempre foi muito aconchegante. O espaço conta com ar condicionado e está sempre limpo. Antes, possuía as cores azul e rosa como destaque. Atualmente, Luiza trouxe as cores preto e cinza para evidenciar suas referências: o lambe-lambe decoram as paredes em torno dos espelhos, com imagens de diversas pessoas negras, executando diferentes funções:um jogador de basquete; uma mulher apenas de toalha na cabeça e roupão com unhas grandes e douradas segurando uma taça; uma mulher trançando a outra; e diversas outras imagens demonstrando a afetividade, cuidado, ostentação e cultura negra. A partir desse espaço e grande universo de possibilidades acompanho Luiza buscando articular aprendizagem&cultura, como explorada por Lave (2015), além de perceber que a manuseabilidade dos cabelos permite um contato entre trancista e cliente que alcançam a autoestima, postura e opiniões.
-
El quehacer científico en Antártida: relaciones intergeneracionales y heterogéneas valoraciones en torno a los diversos saberes y a la "experiencia antártica"
— María Laura Fabrizio
— María Laura Fabrizio
En esta ponencia buscamos compartir avances de nuestra investigación en torno a los procesos de producción de conocimiento ocurridos en Antártida. Indagamos en las prácticas desarrolladas por personal científico y técnico que participa de las Campañas Antárticas de Verano y algunas de las preguntas que surgen son qué saberes técnicos y académicos se articulan en el desarrollo de los proyectos de investigación, cómo son valorados los saberes que se ponen en juego en la toma de muestras de acuerdo a la cantidad de campañas de los distintos sujetos, cómo es significada la experiencia antártica, qué lugar ocupan las relaciones intergeneracionales en los modos en que se conoce en el continente blanco, entre otros interrogantes.
El trabajo de campo etnográfico que desarrollamos para nuestra investigación incluyó la participación en la Campaña Antártica de Verano 2023/24 durante un mes y medio en la Base Carlini. Durante nuestra estadía realizamos entrevistas en profundidad con personal científico y técnico y observaciones participantes de diversas prácticas de campo. Según observamos durante nuestra permanencia en el campo, las actividades que llevan adelante los sujetos con los que trabajamos incluyen la circulación de saberes, rutinas y la utilización de artefactos que en muchas ocasiones incluyen aprendizajes in situ. Estas ocurren en un entramado de relaciones que, en este trabajo, son analizadas teniendo en cuenta dimensiones intergeneracionales, procesos de valoración de variables como la cantidad de campañas, la experiencia antártica, las condiciones medioambientales, las diversas formaciones y trayectorias de aquellos que formaron parte de la campaña y los distintos roles que ocuparon en la misma; etcétera.
Sostenemos que la "experiencia antártica" y la cantidad de campañas realizadas son valoradas como aspectos fundamentales a la hora de considerar tanto el conocimiento como a quien lo instruye. Haber viajado previamente a Antártida, conocer los métodos y haberlos aplicado en campañas anteriores funcionan como aspectos que otorgan legitimidad a las prácticas, validando decisiones como el modo de toma de muestras, el momento adecuado para hacerlo o las estimaciones sobre las condiciones climáticas.
A su vez, en torno a estas experiencias se configuran procesos de identificación que incluyen definiciones locales sobre qué significa "ser antártico". En estos procesos se otorga centralidad a las relaciones muchas veces intergeneracionales entre quienes ya han viajado y por lo tanto son portadores de conocimientos y experiencia y quienes se inician en el camino. De este modo, sostenemos que saberes no necesariamente vinculados al ámbito académico cobran gran relevancia en las trayectorias formativas de quienes participan en las campañas.
-
Aprendiendo a comunar en la pista de longboard
— Maximiliano Rúa
— Maximiliano Rúa
Analizamos cómo niños y niñas de 6 a 8 años de una escuela de longboard en Pinamar (Buenos Aires, Argentina) aprenden a deslizarse en la pista común. Entendemos el aprendizaje como una experiencia situada de construcción de conocimiento. En esta presentación nos enfocamos en las actividades que involucran a más de dos niñas/os interactuando con las tablas y la pista de longboard. A través del análisis de estas actividades, examinamos cómo, si bien están orientadas al aprendizaje de un dominio específico de prácticas asociadas al longboard, emergen un entramado amplio de prácticas vinculado a la producción de lo común.
Nuestro análisis de las actividades vinculadas al longboard nos permite sostener que las/os niñas/os aprenden a partir de prácticas en curso que, en el devenir de su acontecer, conforman una comunidad en y con el entorno. Una experiencia en la práctica, de prácticas, que se moviliza a partir de aprender a deslizarse con la tabla, pero dentro de la cual va tomando forma la necesidad de producir maneras de hacer (De Certeau, 2000) en las que se aprende lo común para deslizarse por la pista compartida.
Aprender a deslizarse por la pista común conlleva una experiencia de aprendizaje individual en cada niña/o que se desliza, a la par de un aprender a comunar (Ingold, 2022), sostenido en la práctica compartida que necesariamente implica la materialidad de la pista. Las/os niñas/os aprenden, primero, a partir de un hacer individual, los conocimientos explícitamente asociados a los procesos técnicos relacionados con el longboard: "subirse", "patear", "frenar" y/o "carvear". Pero, como toda práctica, siempre involucra al entorno; simultáneamente, aprenden a interactuar con otras/os en la pista; "turnarse", "escalonar", "rotar", "fraccionar" y/o "señalarse". Este aprender haciendo permite acceder al dominio específico de los conocimientos a partir de una interacción práctica con otras/os en un entorno social común. Lo que implicaría construir una comunidad de práctica (Wenger, 2001), o, para ser más preciso, desplegar prácticas que construyen comunidad.
En ese proceso, las/os niñas/os construyan a partir de, y desde, el hacer un repertorio de aprendizajes que configura una nueva producción de lo común. Un "hacer común", que se produce a partir del entramado de prácticas que las/os niñas/os vivencian en el devenir de la actividad, pero que a su vez contiene universos posibles de lo común que exceden, a la par que trascienden, las prácticas desplegadas por las/os niñas/os en las clases de longboard.
-
FestPraRua: políticas culturais, aporofobia e vulnerabilidades no centro de São Paulo
— Nayara Alvim Machado
— Nayara Alvim Machado
A cidade de São Paulo enfrenta, nas últimas décadas, um crescimento expressivo da população em situação de rua, fenômeno intensificado pelas transformações do capitalismo urbano e pela fragilização das políticas públicas. De acordo com dados do CadÚnico, sistematizados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua em novembro de 2025, mais de 99 mil pessoas vivem hoje nas ruas da capital paulista. Tal cenário não apenas expressa o aprofundamento das desigualdades, como também expõe o caráter seletivo da produção e da gestão do espaço público. Dispositivos como arquitetura hostil, cercamentos e políticas de limpeza urbana operam como formas materiais de uma aporofobia institucionalizada, isto é, a rejeição aos empobrecidos, traduzindo uma pedagogia urbana que ensina quem pode ou não permanecer na cidade. Entretanto, em meio às lógicas de exclusão, também emergem práticas culturais que tensionam esse quadro. Uma dessas experiências é o FestPraRua, evento realizado desde 2023 na região central de São Paulo, que oferece apresentações artísticas e musicais gratuitas voltadas à população em situação de rua. Organizado pelo Instituto Human, em parceria com empresas e órgãos públicos, o festival mobiliza uma estética de acolhimento e inclusão, recolocando os corpos marginalizados no centro da vida urbana por meio da cultura. Ao devolver momentaneamente visibilidade e voz a esses sujeitos, o festival tensiona os regimes de exclusão que estruturam a cidade contemporânea. Este trabalho, de natureza etnográfica, com base em observação participante e registros de campo realizados junto a participantes, organizadores e pessoas em situação de rua durante a segunda edição do festival em 2024. O trabalho mobiliza conceitos como cuidado, direito à cidade, pedagogia urbana e aporofobia para compreender os múltiplos sentidos do FestPraRua enquanto política cultural de base territorial. Interessa-me analisar, por um lado, os efeitos emancipatórios do festival no que diz respeito à valorização das subjetividades vulnerabilizadas e à democratização do acesso à cultura por meio da música, arte, oficinas e serviços sociais. Por outro, investigam-se suas contradições estruturais, considerando que a iniciativa se insere numa lógica de parcerias público-privadas que, ao mesmo tempo em que promovem o acolhimento, operam também sob a racionalidade da gestão da pobreza, transformando vulnerabilidades em objetos de intervenção regulada. O caso do FestPraRua evidencia como o festival pode funcionar, simultaneamente, como espaço de resistência e como estratégia governamental, revelando as ambivalências envolvidas em iniciativas que articulam inclusão social, filantropia e parceria com o Estado.
-
Educação Ambiental em Espaços Não Formais: uma etnografia das práticas educativas no Aquário Amazônico da UFPA
— Pedro Henrique Coelho da Cruz
— Pedro Henrique Coelho da Cruz
Este trabalho analisa as práticas de educação ambiental desenvolvidas no Aquário Amazônico da Universidade Federal do Pará (UFPA), compreendendo-o como um espaço de educação não formal e de formação interdisciplinar. A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem qualitativa de caráter etnográfico, realizada a partir da inserção prolongada do pesquisador enquanto extensionista no projeto, entre junho de 2024 e junho de 2025. A etnografia permitiu acompanhar o cotidiano do aquário, incluindo atividades de mediação com o público, oficinas educativas em escolas públicas, ações de manutenção dos sistemas aquáticos e coletas de campo, evidenciando as interações entre ciência, sociedade e natureza. Os resultados indicam que o Aquário Amazônico atua como um espaço potente de educação ambiental crítica, promovendo a sensibilização socioambiental, a valorização da biodiversidade amazônica e o diálogo entre saberes científicos e conhecimentos empíricos. Destaca-se ainda o papel da extensão universitária na formação interdisciplinar de discentes e na democratização do conhecimento científico. Conclui-se que a educação ambiental, quando desenvolvida em espaços não formais e a partir de práticas dialógicas e sensíveis, contribui significativamente para a construção de sujeitos críticos e comprometidos com a conservação ambiental e a justiça socioambiental.
-
O Corpo com Deficiência como Pedagogia: Interseccionalidade e Transversalidade no Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com baixa visão (MBMC)
— Priscilla Isabel Menezes Dantas
— Priscilla Isabel Menezes Dantas
Este artigo analisa a práxis política do Movimento Brasileiro de Mulheres Cegas e com Baixa Visão (MBMC). A inserção em movimentos sociais é apresentada como uma estratégia fundamental de reivindicação de direitos diante de dificuldades que extrapolam a esfera individual e atingem sujeitos fora dos padrões de normalidade.
A pesquisa destaca sobre como as mulheres deste coletivo desenvolvem suas corporalidades a partir de um viés interseccional, impulsionado pela entrada de mulheres com múltiplos marcadores sociais. Propõe-se o conceito de que a presença do corpo com deficiência é, por si só, pedagógica. Longe de reforçar o capacitismo da "superação", essa pedagogia do corpo ensina a existência de outras formas de se mover, comunicar e sentir o mundo.
Conclui-se que a deficiência, ao interagir com o racismo e outras discriminações, exige uma atuação que transforme a dor e a exclusão em potência coletiva e transformação social. Assim, na vivência do coletivo, as integrantes do MBMC se reconhece enquanto um corpo político, essencial para romper barreiras capacitistas.
Mulher com deficiência, corpo, interseccionalidade, transversalidade
-
É NÓIS NA PESQUISA: Possibilidades de (trans)formação por meio da inserção no audiovisual
— Rodrigo Pereira de Camargo Junior, Otavio Silva de oliveira
— Rodrigo Pereira de Camargo Junior, Otavio Silva de oliveira
O seguinte trabalho se propõe a analisar o impacto de um projeto social de democratização da produção no setor audiovisual. Procurou-se entender a relação de capital cultural e social desenvolvidos no projeto com as oportunidades de carreira nesse setor. Para isso, analisamos o perfil socioeconômico e as experiências de vida dos ex -alunos do É NÓIS NA FITA projeto introdutório ao audiovisual através da execução de um curta-metragem cinematográfico, localizado na cidade de São Paulo por meio de questionários e entrevistas não estruturadas. Entretanto, defrontado por outra perspectiva, este artigo também buscou iluminar que o projeto social aqui apresentado, também se prova como uma matriz formativa de redes de relações que, por meio disso, possibilitou o engajamento de seus ex alunos em projetos de apoio à comunidade, enxergando a arte enquanto forma de transformação social. A partir disso, pudemos entender as complexidades e desafios enfrentados pelos que desejam seguir o ramo, atentando a crescente valorização do cinema nacional e as oportunidades de carreira como possibilidade de ascensão vocacional.
-
Quilombo do Grotão e suas formas de aprendizagem através do Samba
— Rosa Maria Dias de Oliveira
— Rosa Maria Dias de Oliveira
Este trabalho investiga formas de educação e aprendizagem presentes no Quilombo do Grotão, comunidade quilombola que está localizada na cidade de Niterói (RJ), em especial as rodas de samba que lá acontecem. O presente texto se insere no campo de estudos sobre processos de aprendizagem não institucionalizada, cuja análise é proposta neste GT. A comunidade Quilombo do Grotão é reconhecida como remanescente de quilombo desde 2016, conta atualmente com 15 famílias em seu território e reúne, aos fins de semana pessoas de toda a região em sambas com diferentes temas, como é o caso do Samba de Fé, Samba das Mulheres e Samba da Comunidade, bem como outros. A proposta deste trabalho é revisitar os estudos sobre formas de educação ao pensar em desconstruir noções relacionadas à educação e sua universalidade pelos resquícios de colonialidade, o que faz com que seja vista no senso comum como escolarização, ascensão social pelo ensino e boas maneiras. Busca-se assim, compreender como a aprendizagem situada se articula com as dinâmicas culturais e sociais locais, bem como a atuação desta nos projetos educacionais na própria comunidade, propondo uma abordagem crítica da produção de conhecimento. Dessa forma, é possível compreender através dos estudos sobre aprendizagem e seus componentes a relação desta com o reconhecimento identitário da comunidade em forma de Empoderamento e Empretecimento, trazendo também um contraste com os estudos sobre turismo comunitário. Compreendemos o Quilombo do Grotão como um espaço de resistência e criação cultural, onde práticas educativas de ensino não institucionalizado contribuem para a construção de identidades e para a luta por direitos, promovendo novos horizontes para a educação e reafirmação da identidade afro-brasileira.
-
Educação viva e transatrevimentos pedagógicos: aprendizados, gênero e escuta na escola
— Sicarú Mar Pereira da Silva
— Sicarú Mar Pereira da Silva
Este trabalho apresenta um relato de experiência pedagógica desenvolvido no contexto do estágio em Ciências Sociais, articulando antropologia, educação e estudos de gênero a partir da noção de educação como prática da liberdade. Ancorado nas contribuições de bell hooks, Luiz Rufino e Maria Clara Passos, o texto analisa processos de aprendizagem que emergem quando o espaço escolar é compreendido como território de escuta, afeto e transformação subjetiva. Introduz-se o conceito de transatrevimentos pedagógicos para nomear práticas educativas que, ao atravessarem normas de gênero, corpo e linguagem, produzem deslocamentos éticos, afetivos e epistemológicos no cotidiano escolar. A experiência analisada consistiu em uma intervenção pedagógica sobre gênero e audiovisual realizada na educação básica, utilizando um trecho da série O Segredo do Rio, que aborda a existência das muxes como expressão de dissidência de gênero. A atividade buscou promover reflexões críticas sobre a construção social do gênero, o preconceito e a normatividade, valorizando as narrativas e compreensões prévias dos/as estudantes. A análise etnográfica da prática evidencia que os processos de aprendizagem se constroem em encruzilhadas de saberes, corpos e afetos, revelando a potência de uma pedagogia viva, implicada e situada. Argumenta-se que a aprendizagem, mais do que mediação de conteúdos, constitui-se como experiência relacional, atravessada por desejos, escutas e disputas simbólicas, apontando para práticas pedagógicas capazes de tensionar modelos normativos e fortalecer formas educativas transformadoras.
-
"Eu disse coisas que doem mais que um soco": experiências de dois grupos reflexivos com homens que descumpriram medida protetiva
— Victor Siqueira Serra
— Victor Siqueira Serra
Em Ribeirão Preto, interior de São Paulo, um núcleo de justiça restaurativa construiu um arranjo institucional bastante particular envolvendo Defensoria Pública, Ministério Público, Judiciário e a Delegacia de Defesa da Mulher, no qual realiza atendimento às vítimas e aos autores de violência. Neste trabalho, analiso uma experiência de inspiração etnográfica em que acompanhei todos os oito encontros de dois grupos reflexivos de homens que descumpriram medidas protetivas, buscando compreender as percepções e os efeitos deste trabalho nos homens acusados de violência e nos atores e atrizes do sistema de justiça criminal. A metodologia restaurativa, as articulações de rede realizadas a partir de demandas surgidas nos encontros e a perspectiva crítica de gênero ao reelaborar as masculinidades compartilhadas nos círculos tornam essa experiência importante para (re)pensar as políticas em rede de enfrentamento à violência doméstica, inaugurando novos caminhos para a institucionalização da justiça restaurativa e para a administração estatal de conflitos.
Coordenação
Guilherme José da Silva e Sá (UNB)
Daniel Alves de Jesus Figueiredo (UFMG)
Pessoa debatedora
Flora Rodrigues Gonçalves (Fiocruz)
Rafael Antunes Almeida (UNILAB)
Nos últimos 25 anos, o campo da antropologia da ciência no Brasil se destacou pela realização de etnografias em contextos de laboratórios e outros ambientes onde as práticas científicas se constituíam. Na esteira desses trabalhos, desenvolveram-se estudos sobre controvérsias sociotécnicas, conduzidos a partir da descrição das redes que as constituem, os estudos multiespécie, as abordagens críticas da relação entre gênero e ciência, as análises sobre o Antropoceno e, mais recentemente, as etnografias do negacionismo. A Antropologia, por sua vez, desde a virada do século XX para o XXI, tem assistido ao progressivo “derretimento” de grandes objetivações estanques que tradicionalmente estruturaram a disciplina, como a “religião”, a “política”, o “corpo”, o “rural” e o “urbano” e, por que não dizer, a “Ciência”. Na antropologia da ciência, esse processo se faz sentir no aumento da diversidade das abordagens e na emergência de novas tentativas de problematizar as relações entre os conhecimentos indígenas, quilombolas e a produção de saberes científicos. Este Grupo de Trabalho reafirma o interesse por etnografias, estudos de caso e análises teóricas sobre os temas mais comumente visitados pelo campo, mas amplia seu escopo para propostas comprometidas com a pluridiversidade e que nos ajudem a responder à seguinte questão: o que pode uma antropologia das ciências antirracista e diversa frente a um campo marcado por exclusões e assimetrias de raça, gênero e região?
Títulos e Resumos
-
Mudanças climáticas e saberes tradicionais indígenas: uma leitura crítica sobre o tema.
— Andressa Pereira Mouro
— Andressa Pereira Mouro
O objetivo deste trabalho é compreender o debate sobre as mudanças climáticas a partir das relações dissonantes e, por vezes, conflitantes entre a cosmologia científica ocidental e as cosmologias indígenas, analisando como esses diferentes regimes de conhecimento produzem interpretações, tensões e possibilidades de diálogo sobre a crise climática. Para esta análise, revisamos trabalhos acadêmicos que abordam o tema, selecionados na plataforma Scopus, utilizando os filtros “mudanças climáticas” E “conhecimento indígena” E “IPCC”; e “mudanças climáticas” E “conhecimento indígena” E “UNFCCC”. Concluída esta etapa inicial, buscamos compreender, por meio de uma revisão atualizada do tema, como o termo “mudança climática” está sendo construído como objeto de interesse científico e como essa construção científica do termo se relaciona com o processo de formação das principais instituições internacionais focadas na discussão climática. Com esta revisão da literatura sobre a dinâmica complexa da presença e persistente marginalização do conhecimento dos povos indígenas nas principais arenas internacionais de governança climática e ciência, concluímos que, dentro deste contexto histórico, existe uma preocupação legítima de que a atual “virada indígena” seja mais uma forma de exploração cujo objetivo é compartilhar injustamente o ônus da responsabilidade pelo desastre ecológico com os povos indígenas. A partir dos resultados encontrados, a principal contribuição desta pesquisa reside em deslocar a análise da marginalização do conhecimento indígena no debate climático de uma questão puramente ética ou epistêmica para um conflito de ordem fundamentalmente ontológica. Como argumento central, indicamos que a dificuldade em integrar o conhecimento indígena nos debates sobre mudanças climáticas situados em arenas como o IPCC e a UNFCCC não se deve apenas ao simbolismo ou aos vieses da exploração colonial, mas sim à irredutibilidade ontológica das cosmologias indígenas diante das premissas fundamentais da ciência climática ocidental.
-
De quem observa quem no Brasil quando "eu sou uma das suas nativas": pesquisando pesquisadores em situação de alteridade mínima para cima
— Cleyton Gerhardt
— Cleyton Gerhardt
Desde os anos 1990, cada vez mais curiosidade e atenção etnográficas recaem sobre o público que percorre os corredores acadêmicos. Juntando-me a este esforço, por quatro anos mantive contato com 33 especialistas que, transitando entre os campos da ciência e da ação política, participam da controversa discussão sobre áreas naturais protegidas e populações atingidas pela sua criação. Ao converter este debate em vínculo que me aproxima de meus interlocutores, demarcando-o como assunto para que histórias fossem contadas, reflito sobre as condições de produção do trabalho etnográfico quando em situação de alteridade mínima “para cima”.
-
Distinções regulatórias e a produção sociotécnica da Cannabis como uma tecnologia de saúde no Brasil
— Hellen Monique dos Santos Caetano
— Hellen Monique dos Santos Caetano
O uso de Cannabis em tratamentos de saúde ganhou destaque a partir de 2014, por meio de uma denúncia pública feita por pacientes e seus familiares. Esse cenário foi construído a partir de tensões e estigmas associados à maconha como uma substância fluída. Por conta disso, instituições como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Congresso Nacional passaram a ser peças-chave no debate sobre o status regulatório da Cannabis e de seus derivados, construindo um processo de coprodução. Desse modo, o objetivo deste trabalho foi investigar os processos regulatórios em torno da Cannabis como uma tecnologia de saúde. Por meio de uma abordagem qualitativa, foram analisados documentos processuais produzidos pelas instituições, incluindo notas técnicas, projetos de lei e resoluções, além de artefatos da documentação, como audiências públicas e plenárias, com foco na discussão sobre o uso terapêutico de Cannabis e de seus derivados. A análise dos materiais foi feita em um programa de análise qualitativa, Atlas.ti, por meio de codagem de dados. Os resultados mostram como os argumentos levantados em documentos e artefatos vão além de uma discussão técnica e científica objetiva ao construir distinções regulatórias que surgem em espaços de negociação e disputa, considerando processos mais amplos que envolvem estigmas, moralidades e mecanismos de controle. As distinções entre drogas, produtos, medicamentos e usuários não são nomenclaturas neutras, mas categorias cocriadas, que promovem implicações práticas no acesso às substâncias derivadas da Cannabis. Os dados evidenciam como a saúde pública e a segurança são construídas como campos de disputa, onde percepções de risco são gerenciadas, revelando uma coprodução entre ciência, política e a feitura de tecnologias. Nesse processo de coprodução, o que se destaca é como as decisões institucionais, baseadas na Ciência e em seus produtos, impactam vidas cotidianas de pacientes.
-
De Imhotep aos Pretos Velhos: A Medicina Egípcia chegou aos Terreiros de Umbanda
— Maria Sampaio do Nascimento
— Maria Sampaio do Nascimento
Por muito tempo as tecnologias africanas ficaram nos subterrâneos da história. A partir do momento que intelectuais negros do ocidente despertaram e seguiram os passos do polímata senegalês Sheikh Anta Diop, a ciência despertou para que pesquisadores e acadêmicos iniciassem uma forma de mostrar as tecnologias africanas a partir de vozes, memórias e escritas negras. Um dos colaboradores para o despertar ocidental foi o filósofo estadunidense Molefi Kete Asante, pioneiro na criação da Afrocentricidade, metodologia que dá visibilidade aos africanos, afrodescendentes e afrodiaspóricos. Tal metodologia valoriza a cultura e conhecimentos fazendo um enfrentamento às epistemologias hegemônicas que até então estavam em situação confortável. Esse trabalho tem por objetivo explicitar que a medicina nasceu no Egito Faraônico (África) e chegou aos terreiros de Umbanda no Brasil. Essa afirmação se dá a partir das pesquisas de Diop. Em seus escritos ele não só afirmou, mas também provou que a medicina surgiu no ano de 2.650 a. C. pelas mãos de Imhotep, primeiro médico nascido no Egito. Imhotep e sua equipe cuidavam da saúde dos egípcios não somente do corpo físico, mas do corpo espiritual. Egiptólogos encontraram registros nos Papiros Erbers, Berlim e Edwin Smith, citando que as doenças eram provenientes de espíritos malévolos e os médicos da época cuidavam de seus pacientes por meio de cânticos, de rezas, de água, de vegetais e de mel. Como no Egito, os Pretos Velhos, espíritos oriundos de Angola (África) se manifestam nos terreiros de Umbanda utilizando desses mesmos elementos para realizar as curas física e espiritual dos seus consulentes. Os consulentes os quais entrevistei afirmaram que a partir das orientações dos Pretos Velhos tiveram como resultados a cura de seus males como dores nos joelhos, nos pulsos, e a realização de uma gravidez, até então descartada por médicos da medicina oficial. A partir de uma etnografia e da observação participante em um terreiro de Umbanda, dialoguei com Três Pretos Velhos que trouxeram de África conhecimentos despertando o poder da medicina ancestral africana. Diante de relatos constatei que provavelmente, os espíritos Pretos, antes em vida em África participaram de eventos medicinais que hoje ainda são ignorados pelo poder exercido da medicina ocidental.
Palavras-chave: Sheikh Anta Diop; Molefi Kete Asante; Medicina; Imhotep; Pretos Velhos.
-
A filósofa da ciência, a bruxa (neo)pagã e as "linhas de fuga" de uma co-autoria improvável
— Milena dos Reis Rabelo
— Milena dos Reis Rabelo
Este trabalho propõe uma reflexão teórica sobre como a filósofa Isabelle Stengers vem se inspirando nas proposições mágico-políticas da bruxa (neo)pagã Starhawk para pensar o campo científico contemporâneo. A partir de textos como "Experimenting with Refrains" e "Reativar o animismo" (Stengers, 2008, 2012), e livros como "Rêver l’obscur: Femmes, magie et politique", "A Dança Cósmica das Feiticeiras" (Starhawk, 1993, 1997), e "La sorcellerie capitaliste - Pratiques de désenvoûtement" (Pignarre; Stengers, 2007) realizarei um levantamento das “linhas de fuga” que Stengers percorre a partir das “artes da atenção imanente” produzidas pela bruxa californiana.
Nesse movimento, Starhawk corporifica uma entrada tempestiva nas ciências: como acontecimento que não chega cedo nem tarde demais, irrompe precisamente quando as promessas modernas da racionalidade se mostram insustentáveis - quando a própria Ciência com C maiúsculo se desfaz sob seus efeitos. Como proteção contra a captura pelo “sistema feiticeiro sem feiticeiros”, “reativar” - uma das muitas traduções para reclaiming - emerge enquanto uma pragmática de retorno aos territórios da magia para pensarmos com as consequências dos cercamentos modernos. Essa coincidência entre crise e retorno produz uma perturbação no campo: a bruxa não retorna como metáfora da natureza ou da religião, mas como aliada na aventura coletiva de “desenfeitiçamento” das assembleias modernas - a mesma que produziu a fronteira entre o “elas acreditam” e o “nós sabemos”.
Situada num projeto de tese que desenvolve uma etnografia do Antropoceno junto a comunidades de bruxarias (neo)pagãs, investigando como elaboram práticas mágico-políticas em meio às crises contemporâneas - climáticas, políticas e temporais -, esta comunicação parte dessas experiências para aterrar o diálogo entre a filósofa e a bruxa no campo da antropologia das ciências no Brasil - exercício que não deve ser tomado como um simples exemplo ilustrativo, mas como uma ação radicalmente pragmática.
Proponho, portanto, traçar esse encontro de inspiração recíproca - uma espécie de coautoria improvável - como um acontecimento teórico-empírico dirigido a esse campo de estudos no país que, atento aos efeitos dos seus próprios cercamentos, busca reconhecer a pluridiversidade de modos de conhecimento e de produção de saberes científicos. Diante desse cenário, talvez nos reste perguntar: o que pode uma antropologia das ciências quando se deixa afetar pelas artes da atenção imanente das bruxarias (neo)pagãs? - quando o retorno aos territórios da magia pode se tornar uma metodologia especulativa para experimentar novas formas de conhecimento e consequência?
-
Reflexões etnográficas sobre práticas de co-produção de conhecimento entre pesquisadores em ciências da conservação da sociobiodiversidade e comunidades pesqueiras e marisqueiras
— Nina Garcia de Almeida Prado
— Nina Garcia de Almeida Prado
A co-produção de conhecimento entre atores acadêmicos e não-acadêmicos, particularmente comunidades locais, tem sido cada vez mais recomendada no âmbito das ciências da conservação da sociobiodiversidade como uma metodologia prioritária para superar os desafios da atualidade. Entretanto, pouca atenção foi dada às práticas em si que configuram a co-produção enquanto fenômeno sociotécnico, em campo, nos contextos em que ela já ocorre. Como parte de minha pesquisa de mestrado, realizo uma investigação etnográfica da co-produção de conhecimento no contexto de três comunidades pesqueiras e marisqueiras do litoral baiano: Siribinha e Poças, ambas localizadas no município de Conde, no norte do estado, e Conceição de Salinas, no município de Salinas da Margarida, na Baía-de-Todos-os-Santos. Essas três comunidades sediam um processo crescente de co-produção em colaboração com pesquisadores universitários, como parte de uma iniciativa de pesquisa sobre educação intercultural e conservação da biodiversidade coordenada pelo INCT IN-TREE. O Projeto, como é conhecido por seus participantes, originou-se no Instituto de Biologia da UFBA há quase dez anos, e conta com parcerias entre diferentes universidades, destacando-se a USP e a Universidade de Wageningen, na Holanda, bem como pesquisadores provenientes de diferentes áreas das ciências biológicas e sociais. A partir de arcabouços da antropologia da ciência e da técnica, busco descrever as práticas que constituem a co-produção nesse contexto, com especial atenção para o potencial que apresentam de deslocar os sentidos e fazeres da ciência moderna, ao se propor uma produção de saber conjunta entre coletivos que concebem e fabricam conhecimento de maneiras distintas. Apresento aqui algumas das reflexões que têm emergido a partir de minhas vivências de campo, ponderando como o encontro entre pesquisadoras e membros da comunidade está emaranhado em questões de poder institucional, temporalidades, gênero, raça e afetos, e como essas linhas podem ajudar a esboçar os contornos, limites e extravasamentos das ciências e saberes sendo produzidos no Projeto.
-
Modos de fazer Aparição: processo de criação e tecnologia ancestral
— Rnld Nogueira
— Rnld Nogueira
O trabalho aborda as Aparições de Lhola Amira que compuseram a 33ª Bienal de Arte de São Paulo, investigação que demandou abordagem antropológica, já que as relações sociais perpassam o modo de fazer obras de arte, propiciando ou não sua eficácia agência (Gell, 2001; 2005, 2009; 2020). Alinhado à Antropologia da Técnica, visa acionar ideias de "técnica" e "poder" como diretrizes para a discussão das relações sociais com as "habilidades" (Mura; Sautchuk, 2019) e os modos de fazer como processos. Busca, assim, um arsenal teórico para compreender "espiritualidade" e "ancestralidade" como dispositivos tecnológicos que distinguem as Aparições e ensejam análises próprias. Amira reinvindica prática decolonial que não se pode chamar de "performance" (Ogunji, 2018, p. 5), pois busca identificar as feridas coloniais para lhes negociar a cura (Amira, 2019). Seu fazer está intrínseco à sua vida, aos grupos sociais que compõe e aos atravessamentos pela colonialidade (Cesaire, 2020). Numa leitura comparada entre Aparição e "Performance Art" (Glusberg, 2013) percebemos que a primeira evoca "ancestralidade" e "espiritualidade" como ferramentas necessárias às Aparições. Enquanto a "Performance Art" tem preocupações como o discurso sobre o corpo e o interesse de fundar uma categoria baseada na ruptura com práticas anteriores. Pesquisas nas Artes tendem a reforçar um diálogo com teóricos da "Performance" (Goldberg, 2006; Cohen, 2011; Fabião 2010; 2011; 2012; 2016) sugerindo sua abertura a outras linguagens artísticas (Glusberg, 2013). Consideramos isso insuficiente para compreender a categoria Aparição, pois vemos que Amira assume uma "corpo-geopolítica do conhecimento" (Bernardino-Costa, 2018) que demanda a compreensão contextual das "técnicas" e "habilidades" para que as questões e epistemologias acionadas não se anulem pela pretensa compreensão universal de fazer Arte. Investigamos esse processo criativo (Salles, 2008) valendo-nos teórica e metodologicamente da Antropologia da Técnica para abordar as Aparições como prática capaz de construir conhecimento por seus caracteres cosmológicos próprios (Oyěwùmí, 2021). Retomamos Agência e Eficácia de Gell junto aos trabalhos de Boas (2014) e Geertz (1998), basilares para a abordagem da produção artística de povos não ocidentais, seus próprios contextos e sistemas de significados. Dialogando ainda com o trabalho de Lagrou (2013) vemos produções indígenas que, sendo obras de arte, produzem e transmitem conhecimento por caracteres conceituais, figurativos e concretos em sua composição estética e uso social. Assim, compreendemos "ancestralidade" e "espiritualidade" como dispositivos tecnológicos no modo de fazer Aparição assumindo que há um "pensar através do fazer" (Ingold, 2013) na prática de Amira.
-
O destino da coisa: processos de reconfiguração do lixo tecnológico
— Vitória Sousa
— Vitória Sousa
Esta pesquisa, desenvolvida no âmbito do projeto "Energia Limpa, Vida Sustentável", realiza uma etnografia junto ao povo indígena Arukwayene, na região do rio Urukauá (Oiapoque-AP), com o objetivo de analisar as práticas de manejo dos lixos tecnológicos e as reconfigurações materiais decorrentes de sua incorporação no cotidiano comunitário. O estudo investiga como a articulação entre saberes tradicionais e a criação de novas relações com objetos tecnológicos possibilita transformações nos sistemas locais de manejo, uso e circulação de materiais. Busca-se descrever e analisar as formas pelas quais o lixo tecnológico é ressignificado, bem como os conflitos, adaptações e negociações que emergem dessa interação. A pesquisa orienta-se pela seguinte questão: quais usos e significados sociais emergem a partir da incorporação dos resíduos tecnológicos no cotidiano do povo Arukwayene? Por fim, o trabalho propõe estabelecer um diálogo entre a teoria antropológica e as discussões sobre consumo em terras indígenas, evidenciando como essas práticas tensionam modelos hegemônicos de descarte e uso de tecnologias.
Coordenação
Maria Claudia Pereira Coelho (UERJ)
Raphael Bispo dos Santos (UFJF)
Sessão 1 - Moralidades, educação e cuidados
Pessoa debatedora
Túlio Maia Franco (UFSJ)
Sessão 2 - Saúde, instituições e sofrimentos
Pessoa debatedora
Claudia Barcellos Rezende (UERJ)
Sessão 3 - Discursos emocionais, lazer e sociabilidades
Pessoa debatedora
Rodolfo Ferreira da Silva (UERJ)
As pesquisas em Antropologia das Emoções se consolidaram no Brasil nas últimas duas décadas problematizando oposições centrais no pensamento antropológico, tais como indivíduo versus sociedade, natureza versus cultura, micro versus macro, mente versus corpo, privado versus público, entre outras. Este grupo de trabalho se propõe a reunir pesquisas que tenham como foco a compreensão da maneira como as dimensões emocionais integram a vida social e dão sentido às experiências dos sujeitos. Espera-se enriquecer a discussão em duas direções. A primeira, de base empírica, busca refletir sobre a vinculação entre emoção e produção de subjetividades e interações, perguntando-se sobre o papel da emocionalidade na construção de identificações, diferenças, alteridade e relações de sociabilidade. A segunda, de caráter metodológico, propõe-se a discutir o papel das emoções do etnógrafo na investigação, partindo do princípio de que a implicação emocional, além das múltiplas relações que compõem o campo, é também um ingrediente substantivo do processo de compreensão de um grupo social. O debate aqui proposto sobre emoções tem dois focos principais: a) sua capacidade micropolítica e b) a dimensão moral da vida emocional. As principais temáticas a serem contempladas são: a) emoções, gênero e sexualidade; b) emoções e religiosidades; c) emoções, instituições e política; e) emoções e coletivos sociais; f) emoção, violência e controle social; g) emoções, sofrimentos e adoecimentos.
Títulos e Resumos
-
A Onda Coreana e seus desdobramentos em um mercado globalizado das emoções
— Agatha Elias Andrade dos Santos
— Agatha Elias Andrade dos Santos
Este trabalho tem como objetivo analisar a construção de subjetividades e expectativas românticas de mulheres brasileiras voltadas à Coreia do Sul, expectativas essas mediadas pela indústria do entretenimento. Uma consequência da expansão da Onda Coreana (Hallyu) no mundo e no Brasil. Sendo a Hallyu a saída massiva de produtos midiáticos do país asiático para o mundo.
Numa continuação de discussões anteriores sobre a ressignificação do lugar e as sociabilidades dos fãs, que viajam para a Coreia do Sul e têm uma relação emocional com os lugares, analisaremos então o romance transnacional, que tem sido muito discutido devido ao reality show “Meu Namorado Coreano” (Netflix, 2026). Sendo assim, o objetivo é compreender como os K-dramas acabam por educar o desejo dos fãs e orientar deslocamentos tanto geográficos quanto afetivos, capazes de transformar o “homem coreano” em um produto estético e emocional, ou seja, um objeto de consumo.
Essa pesquisa começou em 2018, tendo como destaque a etnografia multissituada realizada em Seul (2019). Durante a pesquisa de campo, observou-se que a busca por um “homem perfeito”, baseada nos doramas (carinhosos, atenciosos, sensíveis), não seria uma alienação das fãs, mas uma agência que é consciente. Se olharmos pela perspectiva de Eva Illouz através do termo “Capitalismo Emocional”, argumenta-se que as fãs escolhem voluntariamente deixar a descrença de lado, ou seja, mesmo reconhecendo que o “Oppa” é uma construção ficcional, escolhem olhar para o tipo ideal como uma forma de refúgio, ou mesmo de crítica às masculinidades locais.
O debate acabará por se ancorar em uma dimensão moral da vida emocional, visto que há um choque da masculinidade sensível da tela com a realidade do homem sul-coreano. O Hallyu vende uma expectativa utópica romântica, enquanto no país se vê a ascensão de grupos de extremistas e mesmo do Movimento 4B, em que mulheres coreanas renunciam a se relacionar com homens locais. Um contraste que revela ainda um neo-orientalismo afetivo, onde o homem asiático se torna um objeto exótico de consumo emocional, em que se ignora a sua complexidade social e política.
Essa pesquisa vem sendo desenvolvida há anos, o que permite adentrar em análises densas sobre as transformações nesse fenômeno. Sendo possível, mobilizar um diálogo entre a trajetória de algumas interlocutoras e a produção de sentido sobre o desejo em um contexto em que há um acalorado debate nas mídias sobre o tema. Concluindo que o viver o K-dream ou um K-drama é uma espécie de performance negociada, onde há uma escolha consciente de diálogo com o vendido pelo Hallyu, que dá às fãs uma agência dos seus ideais românticos em um mercado globalizado de emoções.
Palavras-chave: Hallyu, Antropologia das Emoções, Capitalismo Emocional.
-
Histórias na prostituição: emoções, moralidades e produção de subjetividades
— Ana Carolina Braga Azevedo
— Ana Carolina Braga Azevedo
Esta proposta parte de uma pesquisa de doutorado, de abordagem etnográfica, ainda em andamento, realizada com mulheres que atuam na prostituição no território da Luz, em São Paulo. A pesquisa se debruça sobre as elaborações que essas mulheres (co)produzem sobre essa prática, acompanhando as histórias que elas contam sobre si mesmas e considerando as perspectivas que atravessam e organizam essas narrativas, bem como os sentidos morais que nelas se produzem. De modo recorrente, essas histórias se apresentam em torno de três temporalidades: o passado, marcado pelas narrativas de ingresso e vivências na prostituição; o presente; e o futuro, fabulado a partir dos desejos de abandonar ou permanecer nessa prática. Inspirada em Abu-Lughod (2020), tomo essas narrativas como situadas, uma vez que toda história supõe uma relação específica entre quem narra e quem ouve. Nesse sentido, me interessa refletir sobre como diferentes audiências (ou relações) produzem condições de possibilidade para que sentidos distintos de uma mesma história encontrem vazão - inclusive considerando que, ao longo desses últimos cinco anos, não somente minha posição foi se transformando para elas, mas também a posição delas foi se alterando para mim. Assim, não é possível olhar para essas histórias sem considerar o papel do tempo. Afinal, é no "(tempo) presente" que mundos, histórias, decisões e incertezas se refazem (Das, 2020). Além disso, é importante mencionar que essas histórias não apresentam apenas acontecimentos, mas também revelam motivações, posicionamentos e sentidos morais sobre a prostituição. No decorrer desses processos narrativos, emoções como "vergonha" e "orgulho" são acionadas recorrentemente por elas. Em geral, as narrativas sobre o ingresso na prostituição envolvem uma combinação de emoções como a "vergonha", o "sofrimento" e o "medo". Em outras ocasiões, o ingresso também é marcado por "orgulho" e "coragem", sobretudo quando associado ao retorno para casa com dinheiro, à capacidade de "criar filhos", assegurar o sustento, reproduzir a vida familiar e superar dificuldades. Ao analisar essas histórias, fica evidente que a capacidade de sustentar a vida no passado e no presente é, em grande parte, o que orienta a forma como muitas delas rememoram seus ingressos, vivências e fabulações sobre o futuro. Ademais, a percepção que elas têm sobre o próprio envelhecimento também tem um impacto significativo no conjunto de emoções que elas irão agenciar nessas histórias. Levando em conta essas pontuações, esta proposta tem como objetivo refletir sobre o papel dessas emoções tanto na produção de subjetividades quanto nas "economias morais" (Fassin, 2012; 2019) que atravessam e são (co)produzidas nesse contexto particular.
-
Itinerâncias afetivas e a experiência emocional de crianças com câncer
— Ayra Hannah Heleno Cabral da Silva
— Ayra Hannah Heleno Cabral da Silva
Este trabalho apresenta reflexões preliminares sobre emoções, crianças com câncer e cuidado, a partir de uma pesquisa em desenvolvimento na Casa da Criança com Câncer, em João Pessoa, Paraíba. Em continuidade a investigações anteriores no campo da Antropologia das Emoções e do Câncer Infantil, a pesquisa desloca o olhar das práticas profissionais para pensar as emoções como práticas sociais e morais que organizam a experiência do câncer na infância. Dialogando com perspectivas que tensionam dicotomias como corpo/mente, indivíduo/sociedade e natureza/cultura, e partindo da noção de “doença comprida” (Fleisher; Franch, 2015), proponho o conceito de “itinerâncias afetivas” para pensar os movimentos emocionais que acompanham o adoecimento e o cuidado. Em diálogo com os itinerários terapêuticos, o conceito propõe deslocar o foco dos trajetos da doença para os percursos do sentir, compreendendo como crianças com câncer e seus cuidadores aprendem, regulam e expressam emoções em um espaço institucional atravessado por marcadores de gênero, raça, território e religiosidade. Situo, assim, o adoecimento infantil como experiência atravessada por relações de poder e desigualdades estruturais que configuram infâncias plurais e situadas. Neste estágio pré-campo, a reflexão se debruça sobre os desafios metodológicos e éticos da pesquisa com crianças em contexto de saúde, propondo um olhar às formas não verbais de expressão – como desenhos, gestos e silêncios – e à construção compartilhada de narrativas emocionais. Assim, busco problematizar: como as crianças elaboram e expressam emocionalmente o adoecimento? De que modo a religiosidade e as redes de cuidado atuam como dispositivos de regulação e ressignificação do sofrimento? Tais indagações possibilitam refletir sobre a dimensão micropolítica das emoções e os sentidos políticos e relacionais da vida emocional em contextos de adoecimento crônico na infância.
-
Em nome da honra, e do amor: relações de violência de gênero no norte do Tocantins
— Danler Garcia Silva
— Danler Garcia Silva
O objetivo deste trabalho é delinear reflexões acerca das relações de violência de gênero, e das dinâmicas emocionais que as atravessam, num pequeno município no norte do estado do Tocantins. Nesse município, onde as relações sociais são sobremaneira pessoalizadas, as experiências de violência sofridas pelas mulheres ultrapassam o domínio privado, difundem-se na vida social, tornam-se conhecimento público e, assim, originam dramas emocionais às mulheres, como a humilhação, a vergonha e o sofrimento em ser socialmente reputada como uma "mulher agredida". As mulheres sofrem não só pela violência, como pelas irradiações da violência na vida social e pelos reflexos dessa exposição. Sentindo-se desmoralizadas, as mulheres, para além de sofrerem pelas violências, sofrem pelas humilhações e vergonhas sentidas, tornando-se o sofrimento um "sofrimento social", ancorado em nuanças morais. A violência, por sua vez, aparenta situar-se na ordem do "inominável", do silêncio e do segredo, que não deve vir à luz - revelando um "custo" emocional e social que se faz pior do que a violência experienciada, e como a humilhação e a vergonha públicas podem ser mais vorazes do que a violência vivida. Alinhavado a esse drama, um outro sentimento se desvela destrutivo, o "amor". Nesse município, as mulheres expressam desejar o "amor" de um homem e ser "amadas" por ele. Elas norteiam suas vidas ao "amor", de maneira que é no "amor" que se escamoteia o mais árduo ardil da violência. Nesse universo estruturado por relações de honra, as mulheres são moralmente constrangidas a sustentar suas relações afetivas em nome da harmonia conjugal-familiar, permanecendo na relação não obstante seus conflitos - sendo moralmente mais apropriado possuir um homem "ruim" do que não possuir homem algum. Assim, o "amor", para além de uma emoção, revela-se uma artimanha, que oportuniza o eclipsar de violências em afetos, tornando as relações de violência, relações de "amor", e vice-versa. "Em nome da honra", as mulheres norteiam suas vidas para o "amor" de um homem e, "em nome do amor", elas resvalam para relações violentas, suportando-as em nome da honra, e do amor. Assim, alumiando as relações entre violência, emoções e moralidades, assim como alumiando as dinâmicas emocionais que estruturam a vida social dessa socialidade e a vida subjetiva dessas mulheres, as violências contra mulheres não são somente casos político-jurídicos. Contemplando a dimensão moral das emoções, e como as emocionalidades engendram experiências e subjetividades, essas violências se revelam casos sociais, morais e emocionais, situando-se no núcleo de uma esfera onde outros eventos orbitam em seu entorno, como relações de gênero, moralidades, emoções, sofrimentos, humilhação, amor, assim como honras e reputações destruídas.
-
A socialização do medo na cultura militar: processos e efeitos na construção do sujeito militar
— Daví Mariano Maia
— Daví Mariano Maia
Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso intitulado " A socialização do medo na cultura militar: processos e efeitos na construção do sujeito militar", submetido ao curso de Bacharelado em Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Este estudo investiga como o medo é instrumentalizado, performado e regulado como tecnologia afetiva de controle e disciplina na Força Aérea Brasileira (FAB), com ênfase na Base Aérea de Florianópolis (BAFL). Adotando as perspectivas da Antropologia das Emoções e Antropologia Política, o medo deixa de ser tratado como afeto individual para ser compreendido como dispositivo social que sustenta hierarquias, obediência e a construção do sujeito militar, dialogando com autores como Michel Foucault, Victor Turner, Pierre Bourdieu, Maria Claudia Rezende, Claudia Barcellos, Catherine Lutz e Marcel Maus. O objetivo geral é analisar os processos de socialização do medo em contextos institucionais militares; os especificos incluem mapear rituais de iniciação e treinamentos, identificar mecanismo de regulação afetiva e avaliar impactos na identidade dos oficiais e praças. A metodologia combina autoetnografia, aproveitando a posição hibrida do pesquisador como militar e antropólogo, com observação participante, entrevistas semiestruturadas, análise de documentos internos e diários de campo durante 12 meses na BAFL. Esperam-se resultados que revelem o medo como emoção performativa que reforça o poder, contribuindo para debates sobre militarismo, subjetivação e afetos em instituições totalizantes.
-
Quando ver dói: uma etnografia da gramática emocional e moral do viver com ceratocone no Brasil
— Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego, Vinicius Costa de Oliveira
— Francisco Cleiton Vieira Silva do Rego, Vinicius Costa de Oliveira
Este trabalho analisa a gramática emocional que organiza as experiências de pessoas com ceratocone. Considerada “epidemia silenciosa” no Brasil, a ceratocone é uma doença degenerativa crônica da córnea que deforma a estrutura transparente frontal do olho, alterando-o de redondo para cônico e afinando a sua espessura. Isso causa visão embaçada, fotofobia, visão dupla e dificuldade de visão especialmente à noite. Estudos recentes sugerem que a doença atinge até 1% da população brasileira (cerca de 1 a cada 250 pessoas), taxa maior que a incidência mundial que se refere a cerca de 1 a cada 375 pessoas. Objetiva-se compreender as regras de sentir e expressar emoções, principalmente medo e esperança em torno do seu adoecimento, causa e superação, e como isso impacta o tratamento, produzindo subjetividades, vínculos e desigualdades no processo de busca pela cura.
A pesquisa consiste em etnografia digital, parte de uma Iniciação Científica iniciada em 2025 e vinculada a um projeto maior sobre economias morais de adoecimentos crônicos no contexto potiguar. O trabalho baseia-se em observação participante em redes sociais (Instagram, Facebook) e WhatsApp, em grupos e perfis de pessoas com ceratocone, além de entrevistas semiestruturadas. O fato de um dos pesquisadores (Oliveira) viver com a doença desde 2023 orientou parte da pesquisa de campo, constituindo elemento etnográfico relevante e compondo parte dos dados analisados sobre a doença e a metodologia da pesquisa.
O medo da progressão, do transplante e a lembrança do diagnóstico como ruptura biográfica orientaram a análise, evidenciando como emoções atravessam interlocutores e a etnografia. As narrativas mostram o diagnóstico como evento emocionalmente violento; no caso de Íris, a comunicação fatalista (“você ficará cega”) gerou ruptura com serviços de saúde. Já para Fernando, Clara e Vanessa, o atraso diagnóstico, a banalização dos sintomas e a exigência de produtividade laboral geraram frustração, medo, sofrimento moral e deslegitimação. O medo da dor, da rejeição do transplante e da progressão articulam-se a dimensões políticas e de saúde, diante das dificuldades de acesso a benefícios e direitos. Os coletivos digitais facilitam a reunião de pessoas com a doença diante do cotidiano conturbado e da dificuldade crescente da perda progressiva da visão, e portanto, são fundamentais para compartilhar narrativas e afetos. Esses espaços digitais são cenários que possibilitam laços de pertencimento, exemplificado na expressão “irmãs de córnea”, que torna o transplante um vínculo moral. Tais espaços configuram regras de sentir e uma micropolítica do cuidado onde o sofrimento é legitimado e transformado em ação coletiva, produzindo esperança diante do medo da perda da visão.
-
Percepção dos limiares subjetivos em fenômenos socioculturais de uma feira na Amazônia: evidenciando as ambiências na Feira do Açaí, Belém-PA
— Leticia Martel Kuwahara, Aimê Rocha da Silva Leite, Luiz de Jesus Dias da Silva, Juliane Oliveira Santa Brígida
— Leticia Martel Kuwahara, Aimê Rocha da Silva Leite, Luiz de Jesus Dias da Silva, Juliane Oliveira Santa Brígida
A Feira do Açaí é um lugar de relevância regional para a Amazônia, caracterizada por cumprir a função de feira e porto. Além disso, está inserida no Complexo Ver-o-Peso, ponto emblemático da cidade de Belém-PA, é amplamente reconhecido como símbolo da cultura paraense e diariamente revela diversas características dos costumes e hábitos populares.
A feira enquanto local de sociabilidade explicita percepções subjetivas, que, a partir de seu espectro emocional, oportuniza ao observador maior legibilidade aos fenômenos, os quais, de acordo com Magnani (2002) são os arranjos dos grupos sociais que os fazem pertencer. Nesse sentido, criam análises que partem da experiência do corpo no lugar, e de acordo com Duarte et al (2023, p. 72), “(...) construindo os sentidos urbanos”.
Nesse contexto, grupos sociais provocam na referida Feira um complexo sistema de dinâmicas, uma vez que o espaço é ocupado por diversas atividades para além da função principal. Diante disso, nota-se a existência de espacialidades a partir de territórios mais demarcados, as quais estão profundamente ligadas às nuances emocionais do espaço (Lima, 2019).
Durante incursões etnográficas, percebeu-se essa territorialidade aguçada através de dinâmicas, gestos e objetos que apresentam-se apenas sob olhares antropológicos que permitem “(...) compreender melhor os limites precisos de unidades de atmosfera, ou territórios – no sentido de zonas onde determinadas expressividades dominam” Lima (2019, p. 66). Tornou-se evidente nas imersões em dias de ocorrência de eventos culturais que já fazem parte da programação cultural da cidade de Belém, como rodas de samba e carimbó, ambos de ocorrência em dias específicos, mas em concomitância com a própria feira.
Sob essa ótica, essa pesquisa tem o objetivo investigar e discorrer sobre as limiriadidades subjetivas presentes na feira enquanto criadoras de micropolíticas, tornando explícitas configurações sociais intrinsecamente ligadas ao seu corpo social. Para isso, a metodologia do artigo parte do conceito de ambiências, que, conforme Thibaud (2023) é um conjunto de sensações dada a experiência corpo e espaço e a subjetividade dos lugares. Assim, elas exploram não apenas os sentidos de um local, mas diversas redes de intersubjetividades que conectam aqueles que são pertencentes ao lugar, construindo memórias, sensibilidades e percepções intrínsecas a ele.
O fenômeno expresso a partir do termo “limiaridade” define fronteiras imaginárias ou provisórias em um espaço como um lugar indicativo de demarcações percebidas nas ações dos corpos e seus objetos de atuação, cuja percepção é criada a partir da dimensão sensível, e reforçada através de nuances que perpassam as dimensões sociais e psicológicas do usuário, e por fim, invadem o espaço físico.
-
Religião, humor e emoções: reflexões sobre a atuação de comediantes evangélicos nas redes sociodigitais
— Lucas Ribeiro Rocha
— Lucas Ribeiro Rocha
As relações sociais mediadas pelas redes sociodigitais é algo constitutivo da nossa sociedade desde a popularização da internet através do uso massificado de uma série de artefatos sociotécnicos como computadores, smartphones, etc no nosso cotidiano. Os usos e formas de atuação possíveis são diversos. Dentre eles, o foco desse trabalho é tecer algumas reflexões sobre o uso feito por atores religiosos que atuam nas plataformas digitais como comediantes de identidade abertamente evangélica, buscando observar como se dá a contínua relação entre religião e mídia, pois como nos lembra Machado (2014), as mídias são um dos principais meios pelo qual os atores religiosos colocam a sua presença na esfera pública, em uma construção de um processo que se altera continuamente na produção e reinvenção dos próprios conteúdos religiosos. Os dados dessa pesquisa são oriundos de uma abordagem qualitativa de inspiração etnográfica que, ao observar continuamente a atuação de comediantes “famosos” nos meios digitais voltados especialmente ao nicho evangélico, com foco nas plataformas YouTube e Instagram, visa articular como humor, religião e emoções se relacionam no “fazer cotidiano” desses atores em três níveis relacionáveis. O riso, que é algo que todo comediante pretende provocar em suas performances, como um estado afetivo que indica um “pensamento incorporado” na medida em que é um pensamento “sentido” pelos interlocutores (Rosaldo, 2019). O contexto de produção do conteúdo humorístico no interior de um grupo religioso que vem ocupando cada vez mais espaço na sociedade brasileira, pensando nas moralidades imbuídas nesses conteúdos, assim como nas gramáticas emocionais seja em testemunhos publicados nessas redes, como por exemplo o da motivação de atuar como comediantes e “influenciadores digitais”, seja na colocação dos “limites do humor” em suas produções. E também na própria arquitetura das redes sociais digitais que fazem com que evocar emoções constantes nos usuários seja um valor na medida que os mantêm imersos nas plataformas. Ao refletir nesses três níveis, tanto na atuação performática em si dos comediantes quanto no contexto da produção de conteúdos em um sentido moral-religioso e infraestrutural dentro do digital, espero contribuir, com base em casos empíricos, para as reflexões sobre a sociedade digital (Lupton, 2015) levando a sério o papel das emoções na constituição dessa sociedade.
-
Entre sentir e ser: experiências universitárias de mulheres negras para além do racismo
— Luiza Costa de Souza
— Luiza Costa de Souza
Neste trabalho exploro a conexão entre emoções, identidade e espaço, sob uma perspectiva interseccional (COLLINS, 2019), com enfoque nas vivências de mulheres negras, analisando a relação mútua entre essas esferas. Esta reflexão parte da pesquisa desenvolvida no meu atual curso de mestrado em antropologia, ressalto que esta investigação teve seu início em 2024 através da iniciação científica realizada durante a graduação no curso de ciências sociais. A pesquisa tem como objetivo compreender como se constituem as experiências emocionais de mulheres negras graduandas no campus universitário da Praia Vermelha da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Trata-se de uma análise construída a partir de uma metodologia qualitativa, que articula a bibliografia e as experiências compartilhadas pelas interlocutoras durante as entrevistas, juntamente com as minhas próprias vivências enquanto mulher negra que já experienciou esse espaço como estudante e, agora, como pesquisadora. A vista disso, construo o estudo a partir da compreensão do corpo (BONET, 2008) e o contexto sócio-cultural como elemento essencial para pensar as emoções (AHMED, 2015), na sua interface com os estudos da interseccionalidade, a partir da Epistemologia Feminista Negra (COLLINS, 2019). Nesse sentido, busco apresentar os resultados preliminares que apontam a complexidade das emoções sentidas, considerando que elas são agenciadas por "quem somos" e pelo ambiente e, ao mesmo tempo, alteram nossas identidades (HALL, 2006), afetando, consequentemente, as experiências vividas nesse espaço.Este trabalho reúne histórias doloridas e subversivas, que se formam na relação sensível entre emoções negativas, racismo, agência e resistência.
-
Emoções e saúde cardiovascular: análises preliminares sobre a ação da raiva e do perdão em pessoas hipertensas segundo pesquisas cardiológicas
— María Florencia Chapini
— María Florencia Chapini
As emoções na hipertensão têm um lugar muito importante para o público leigo, como constatado pelas pesquisas de Canesqui (2015) e Fleischer (2018). Mesmo assim, a biomedicina não tem levado a sério esse aspecto, mas nos últimos anos isso parece estar mudando. Uma parcela de cardiologistas da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) que participam do Departamento de Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (DEMCA) tem introduzido o tema da espiritualidade e, com ela, as emoções. Esse trabalho tem por objetivo apresentar dados produzidos por esses cardiologistas sobre a ação da raiva e do perdão em pessoas hipertensas. Ambos, a raiva e o perdão, são abordados como "traços de personalidade" e avaliados em pesquisas, concluindo que a pessoas que apresentam raiva possuem pressão arterial mais alta, enquanto quem sabe perdoar ou aprende registra menores valores. Dessa forma, o trabalho procura discutir como a raiva e o perdão são mobilizados, produzidos e vinculados com a pressão arterial por parte da cardiologia para pensar de que forma eles vinculam espiritualidade, emoções e o coração produzindo diagnósticos e moralidades.
-
Cantando com Emoção: a música coral entrelaçando gerações
— Patrícia Cristina Perote do Nascimento
— Patrícia Cristina Perote do Nascimento
O presente trabalho apresenta os esforços iniciais de minha pesquisa de dissertação de mestrado em andamento, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pelotas (PPGAnt-UFPel). Pretendo questionar de que forma as emoções (individuais e coletivas) são geradas a partir da prática de canto em grupo e dos relacionamentos interpessoais entre os integrantes de um coral musical e como elas afetam os indivíduos nas dimensões social e emocional e, ainda, como influenciam e interferem na construção de relações intergeracionais presentes no grupo. Tomarei como base estudos antropológicos e etnomusicológicos que envolvam a prática musical coletiva como agente de reprodução de aspectos sociais, realizando assim uma Antropologia Musical. O campo principal desta pesquisa é o coral da Sociedade Pelotense Música Pela Música (SPMM), uma associação civil privada, sem fins lucrativos, fundada em 1990 e Patrimônio Imaterial da cidade de Pelotas. A partir da vivência inicial em campo, pude perceber a grande presença de pessoas idosas, muitas que participam do grupo desde sua fundação, mas também alguns(as) filhos(as) e netos(as) destes(as) integrantes; consegui entender também a importância que atribuem à continuidade do projeto e à transferência de conhecimento para novas gerações, como uma forma de perpetuação de um legado cultural. Desta forma, buscam incentivar a presença de jovens, algumas vezes seus filhos(as) e netos(as), mas também relações que não são familiares no sentido sanguíneo, mas que apresentam características de parentesco emocional entre professor(a) e aluno(a), fenômeno comum no contexto do ensino musical. Esta pesquisa se constitui em uma etnografia, com abordagem qualitativa e método de observação participante, que se materializará em uma descrição densa em diário de campo produzido ao longo da vivência. Uma das abordagens antropológicas centrais que estou utilizando envolve as emoções e sentimentos manifestados pelos indivíduos e seus significados contextuais, através de uma análise embasada pela Antropologia das Emoções. Pretendo também trabalhar com conceito de malha, assim como utilizar pressupostos da Antropologia dos Sentidos como método de fazer etnográfico, considerando a propriocepção musical do cantar, bem como demais sentidos e corporalidades envolvidas no fazer musical que possam contribuir para a produção de dados epistemológicos em campo.
-
Quando escrevo deixo marcas e quando deixo de escrever deixo-as também: emoções, escrita confessional e subjetividades
— Rafaela Machado Pacheco Pereira
— Rafaela Machado Pacheco Pereira
Este trabalho parte da compreensão de que as emoções participam da organização da experiência e da subjetividade dos sujeitos, considerando a primeira como algo variável, ou seja, capaz de mudar conforme os significados atribuídos. Portanto, o trabalho toma como objeto a escrita de caráter subjetiva e confessional, como diários íntimos e poemas. Sendo a própria emoção uma linguagem, interessa analisar como esse tipo de escrita mencionada é capaz de organizar sentimentos e afetos, como a dor, a angústia e o medo, buscando visualizar que o próprio indivíduo é capaz de exprimir emoções em texto conforme a própria trajetória.
Argumenta-se aqui que a escrita íntima e poética participa ativamente na produção de subjetividade, entendendo que esta última não precede a escrita, sendo no próprio ato de escrever que o sujeito se constitui, organiza o que sente, se reconhece e produz sentido para a própria existência.
Tendo como base que as emoções são apreendidas e atravessadas por regimes, dispositivos e técnicas que regulam como, o que, onde e quando sentir, a escrita íntima, sendo majoritariamente um processo individual, suspende algumas das características intrínsecas das emoções para permitir uma expressão subjetiva, ainda que permeada por valores, significados. Seria nos diários e nas poesias que as emoções se tornam visíveis, dizíveis e passíveis de reconhecimento para diferentes sujeitos, em particular aqueles marcados pela abjeção e silenciamento. Nesses textos, o escritor exprime as emoções por meio da dimensão moral, que vai para além dos próprios termos que fazem menção aos sentimentos. Essa dimensão aparece no que o sujeito escolhe dizer, na maneira como nomeia e qualifica emoções e afetos, e naquilo que se deseja silenciar/ocultar.
Consequentemente, a subjetividade está sendo construída ao mesmo tempo que a construção do texto, pois ao nomear sofrimentos e emoções, sendo esta uma forma de organizar o que se sente através da escrita. Isso também evidencia a legitimação de um sofrimento, o reconhecimento da dor e até mesmo a possibilidade do compartilhamento.
A pesquisa oferece a possibilidade de pensar a produção de subjetividades, emoções e a escrita íntima como um espaço capaz de articular diversas categorias presentes na existência humana, especialmente no que diz respeito à capacidade das identificações que os leitores possam ter e até mesmo os distanciamentos produzidos. Ampliando o debate antropológico no campo das emoções e subjetividade, pensando a escrita não somente como individual mas uma prática social capaz de traduzir e produzir.
-
"Quando o espírito toma a casa": emoções e moralidades no fenômeno do marido espiritual
— Rhuann Fernandes
— Rhuann Fernandes
Este trabalho apresenta resultados de uma etnografia sobre o fenômeno do “marido espiritual” no sul de Moçambique, entendido como um espírito masculino que, sobretudo à noite (sonhos e episódios de paralisia do sono), mantém relações sexuais não consentidas com determinadas mulheres, como se fosse um cônjuge invisível. Tal vínculo, atribuído a feitiços, pactos e dívidas espirituais firmados por gerações anteriores, inscreve-se no corpo e na biografia das interlocutoras como desordem conjugal, sofrimento moral e incerteza cotidiana: bloqueios a projetos de casamento, acusações de “desvio” sexual, conflitos com parceiros “terrenos”, suspeitas familiares e reinterpretações retrospectivas do próprio destino.
Com base em trabalho de campo prolongado no Bairro da Liberdade (Matola), periferia da Área Metropolitana de Maputo — articulando observação direta, conversas informais e entrevistas em profundidade com mulheres e homens afetados e suas redes de parentesco e vizinhança — argumento que o marido espiritual funciona como operador relacional e moral: uma categoria que não apenas nomeia uma presença invisível, mas reorganiza posições, distribui responsabilidades e produz regimes de silêncio, rumor e acusação. O foco analítico recai sobre as emoções como formas situadas de conhecimento e julgamento social.
Mostro que medo, ambição, raiva e vergonha compõem uma gramática emocional do fenômeno, isto é, um arranjo de afetos que torna o ocorrido inteligível e governável. O medo é inaugural e transversal: emerge nas mulheres diante da intrusão noturna e do risco de “não ter vida conjugal”, e reaparece entre familiares implicados, temerosos da confissão e de suas consequências. A ambição opera como chave moral de causalidade, mas de modo ambíguo: pode ser narrada como busca de sobrevivência e proteção coletiva ou como ganância e ostentação; essa oscilação reclassifica pessoas, intenções e dívidas. A raiva irrompe quando o segredo se desfaz, traduzindo a experiência de traição intergeracional (“fizeram sem meu consentimento”) e acionando confrontos, rupturas e demandas por responsabilização. A vergonha, por sua vez, regula a cena pública: disciplina falas, sustenta o não-dito, produz retraimento e isola mulheres e maridos, ao mesmo tempo em que estrutura estratégias de gestão da reputação.
Sustento, assim, que as emoções não são efeitos psicológicos secundários, mas dimensões constitutivas da micropolítica do marido espiritual: por meio delas se negociam gênero, parentesco e moralidades, e se decide, na vida prática, quem “paga” o preço das promessas feitas em nome da família.
-
Redução de Danos e Emoções: teias de vínculo e acolhimento aos usuários problemáticos de drogas
— Rodolfo Ferreira da Silva
— Rodolfo Ferreira da Silva
Após produzir uma pesquisa sobre o grupo de doze passos conhecido como Narcóticos Anônimos, e uma etnografia numa cena de uso de crack no centro da cidade do Rio de Janeiro, a pesquisa avança no estudo das emoções e das subjetividades de usuários de substâncias psicoativas, a partir do atendimento realizado na rede pública de saúde, observando o trabalho desenvolvido em um CAPS III, localizado na favela da Rocinha, e em um CAPS ad, situado no bairro de Botafogo, ambos analisados sob a perspectiva da Redução de Danos (RD).
Ao abordar o uso problemático de drogas a partir de uma perspectiva ampla e transdisciplinar, o programa de Redução de Danos implementado nos CAPS contribui para a construção de um senso de pertencimento e de outras formas de estar no mundo, que influenciam decisivamente a percepção de si, alterando a maneira como os indivíduos se compreendem e se posicionam socialmente. Nesse processo, as categorias de vínculo e acolhimento assumem centralidade analítica, auxiliando na delimitação do escopo da investigação.
Como hipótese central, trabalho com a ideia de que a RD atua na (re)construção de subjetividades, sociabilidades e da autoestima de usuários que sofrem com o uso problemático de drogas.
Ademais, busco refletir sobre como as emoções influenciam e são influenciadas por políticas públicas de Redução de Danos, incluindo os debates em torno da permissividade e proibicionismo. Nesse sentido, tenciono apresentar os resultados do trabalho de campo a ser realizado entre janeiro e maio de 2026.
-
O "denunciante": uma análise etnográfica do estilo paranóico
— Túlio Maia Franco
— Túlio Maia Franco
Neste trabalho, analiso etnograficamente o que nomeei de "economia afetiva da desconfiança" na minha pesquisa de doutorado com pessoas em situação de internação psiquiátrica. Nela, "medo", "paranoia" e, eventualmente, "humilhação" formam um circuito afetivo que delineia hierarquias e reversões hierárquicas entre médicos, psicólogos e pacientes da enfermaria estudada. Como antropólogo, vez ou outra, também fui incluído no interior dessa economia, a partir da reversão entre observador e observado e do uso de categorias acusatórias para qualificar minha presença no campo. Esse fenômeno convoca à reflexão antropológica sobre os limites éticos e epistêmicos de se pesquisar emoções em contextos de crise subjetiva. Argumento que um olhar atento aos aspectos afetivos das consultas psiquiátricas pode iluminar os modos pelos quais cuidado e controle se entretecem na figura da "crise psiquiátrica", além de oferecer outros modos de pensar a agência de pacientes psiquiátricos em situação de encarceramento.
-
A Política dos Sentimentos: as emoções no cotidiano da Assistência Social a pessoas em situação de rua
— Yan Tavares Carvalho
— Yan Tavares Carvalho
A pesquisa que proponho apresentar tem por tema as emoções presentes no cotidiano das políticas de Assistência Social voltadas a pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro. Nela, almejo compreender de que maneira discursos emocionais (LUTZ e ABU-LUGHOD, 1990) estão implicados na produção dos estigmas sobre essa população, e quais são os impactos desse regime emocional na interação entre assistentes e assistidos. Trabalho com a hipótese de que a ambígua atuação do Estado – que tanto controla, agride e expulsa quanto acolhe, assiste e inclui – é produtora, mas também produto, de um, não menos paradoxal, imbricamento entre os discursos emocionais aporofóbicos, estigmatizantes, e os discursos emocionais includentes das instituições que compõem o Sistema Único de Assistência Social (SUAS). A investigação, que ainda se encontra em estágios iniciais de seu desenvolvimento, tem por base uma etnografia com as equipes de Abordagem Social, no Centro de Referência Especializado em Assistência Social (CREAS) e no CentroPOP, localizados no Centro da capital fluminense. Por fim, mais do que especificar quais emoções são manifestadas nas interações, pretendo entender o que elas informam a uma reflexão crítica acerca das subjetividades e dos circuitos afetivos (SAFATLE, 2015) típicos do contexto capitalista urbano carioca.
Palavras chave: “pessoas em situação de rua”; “Assistência Social”; “emoções”; “circuitos afetivos”; “discursos emocionais”.
Referências Bibliográficas:
LUTZ, Catherine e ABU-LUGHOD, Lila. 1990. “Introduction: emotion, discourse, and the politics of everyday life”. IN. Language and politics of emotion. New York: Cambridge University Press.
SAFATLE, Vladimir. 2016. Circuito dos Afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. Editora Autêntica. 2ª edição revista.
Coordenação
Ana Paula Perrota (UFRRJ)
Felipe Ferreira Vander Velden (UFSCAR)
Humanos e animais são companheiros a pelo menos cem mil anos – ou seja, desde que humanos aparecem na Terra como humanos (modernos). Portanto não é novidade, que nos ambientes urbanos ou rurais, em todos os continentes, humanos e animais conformem múltiplos arranjos sociais. A Antropologia, desde o seu início, não ignorou essa convivialidade, a exemplo do trabalho de L. H. Morgan sobre os feitos do castor norte-americano. Contudo, a reflexão sobre animais na Antropologia usualmente relacionou-se aos esforços de definição da diferença entre humanos e animais, ou entre natureza e cultura, e ao desafio de compreender os aspectos simbólicos das relações humano-animais. Estes debates nunca se encerraram, mas, nas últimas décadas, os animais adquiriram um interesse renovado na disciplina, conforme passou-se a questionar a exclusividade dos humanos como constituintes dos mundos sociais. A problemática relação entre humanos e animais (e entre natureza e cultura) é colocada para pensar agora como esses domínios se constituem a partir de aproximações e semelhanças. Esse campo analítico e investigativo cresce de forma consistente nos últimos anos e, dentro desse renovado escopo, animais aparecem em pesquisas que tratam de questões epistemológicas e metodológicas diversas, além de oferecer novas aberturas temáticas e chaves analíticas que abarcam uma multiplicidade de campos empíricos e de espécies animais. Esta variedade que não para de se expandir propomos trazer para este GT.
Títulos e Resumos
-
A figuração de roedores em um laboratório experimental de Psicologia: pistas sobre uma animalidade da ciência.
— Cassiel Nikolaou Renó Machado
— Cassiel Nikolaou Renó Machado
Este trabalho propõe uma reflexão etnográfica sobre as relações entre humanos e roedores em laboratórios experimentais de Psicologia. A partir da noção do “triângulo ontológico”, um esquema estrutural de análise das influências co-constituintes entre humanos e outros-que-humanos — resgatada de Lévi-Strauss e readequada por Viveiros de Castro ao diálogo com a Virada Ontológica —; investigamos como a vivência laboratorial produz concepções de animalidade que reconfiguram as disposições arquetípicas da triangulação moderna entre humanos-animais-divindades. Com efeito, nesse contexto, roedores não aparecem apenas como “objetos naturais”, mas como outros-que-humanos cuja presença contraefetua identidades humanas específicas, complexificando dualidades modernas que concebem como radicalmente distintos(as) o objeto e o sujeito e a Natureza e a Cultura.
Para tanto, o trabalho mobiliza um duplo movimento analítico. Em primeiro lugar, tece uma aproximação analógica entre a prática laboratorial e os dispositivos sacrificiais, retomando, em diálogo com críticas mais recentes, a teoria clássica de Hubert e Mauss. Essa comparação busca mostrar como o proceder temporalmente linear dos ritos, nesse caso, tensiona as posições estruturais do triângulo moderno, gerando aproximações, distanciamentos e zonas de indeterminação entre os agentes que emergem em cada um dos vértices dessa transformada “ontologia laboratorial”— eminentemente os ratos e camundongos, os pesquisadores e uma ciência aproximadamente sacralizada. Em seguida, alinhado ao contemporâneo interesse antropológico pelas imagens, em especial àquilo identificado nos trabalhos mais recentes de Descola, o texto examina como a experiência figurativa nesse laboratório, de prolíficos produtores/contempladores de imagens de roedores, relaciona-se com a lógica sacrificial estabelecida e possivelmente marca e opera as transições ontológicas às quais estão submetidos os animais. Dado o estilo frequentemente infantil e antropomorfizante dessas representações visuais, sugerimos serem elas responsáveis, também, pela mediação simbólica diante dos tabus e do sofrimento implicado na morte dos animais, etapa muitas vezes inevitável do trabalho em laboratório.
É dessa maneira que, por fim, conjugadas a analogia sacrificial e a análise figurativa, tem-se uma Figura do Sacrifício, responsável por traduzir a forma como, nesses lugares de produção científica, capilariza-se no espaço, na prática e nos discursos uma concepção de animalidade muito mais complexa do que aquela encontrada nos artigos científicos, em que os roedores são comumente descritos como meros instrumentos de pesquisa. Com isso, pretende-se ampliar o debate antropológico sobre a constituição relacional dos mundos sociais para além da exclusividade humana.
-
Entre a presa e a planta: agência compartilhada e a diplomacia das afecções entre os Xikrin (Mebêngôkre)
— Duvan Escobar
— Duvan Escobar
A partir de dados etnográficos produzidos em 2023 entre os Xikrin (Mebêngôkre) da TI Trincheira Bacajá, esta comunicação analisa a relação sistêmica entre animais de caça e complexos vegetais sob a ótica das agências compartilhadas. Tomando como caso paradigmático a figura da anta (kukrut) e sua correlação ontológica com o kukrut kane ("remédio de anta"), demonstra-se uma lógica estendida a múltiplas espécies cinegéticas, revelando imbricações que desestabilizam as dicotomias clássicas entre animal e vegetal. Argumenta-se que a agência animal não se encerra no ato do abate, mas se prolonga através de um sistema de afecções que liga a saúde do grupo à ética do consumo. A doença, advinda da quebra de preceitos, é aqui interpretada como um modo de captura da agência humana pela animal. Em contrapartida, as plantas correlatas atuam não apenas como recurso terapêutico, mas como agentes de contra-efetuação capazes de curar o corpo humano dessas afecções. Ao explorar essa tríade, o trabalho contribui para o debate sobre o mais-que-humano, demonstrando como o reino vegetal participa ativamente da regulação, configurando o que pode ser definido como uma diplomacia multiespécie das afecções.
-
O fim da missão: morte e luto nas relações entre bombeiros, policiais e seus cães de trabalho
— Edi Alves de Oliveira Neto
— Edi Alves de Oliveira Neto
Neste trabalho analiso os processos de morte e luto envolvidos na relação entre humanos e cães policiais (K9), a partir de pesquisa empírica realizada em canis de corporações policiais e de bombeiros do Distrito Federal. Dialogo com estudos sobre o luto na relação tutor-pet para compreender como a condição específica do cão policial simultaneamente animal de trabalho, patrimônio institucional e companheiro conforma formas particulares de reconhecimento, silenciamento e ritualização da morte.
Compreendo o luto como um fenômeno socialmente construído, que envolve respostas individuais e coletivas diante de perdas significativas (VIEIRA, 2019), articulando essa definição às transformações modernas na relação com a morte descritas por Elias (1994). No contexto institucional dos canis, a morte não integra o ciclo legítimo da relação de trabalho, sendo a inaptidão e a aposentadoria as formas socialmente reconhecidas de saída dos cães. Argumento que essa organização desloca a experiência do luto do espaço profissional para a esfera privada dos cachorreiros, operando uma racionalidade institucional voltada à continuidade do trabalho e individualizando os custos afetivos e materiais da perda.
A análise do episódio da morte de Cigano, cão policial aposentado e adotado por seu condutor, evidencia a persistência de relações intersubjetivas que se expressam em narrativas, rituais funerários e homenagens públicas, atribuindo ao animal estatuto de sujeito dotado de história e individualidade. Essas práticas contrastam com o descarte historicamente destinado aos animais de trabalho (THOMAS, 2010).
As manifestações públicas de luto produzem reconhecimento coletivo e legitimam a expressão da perda, em oposição ao luto frequentemente interditado na morte de animais de estimação (GAEDTKE, 2019; VIEIRA, 2019), mobilizando a lógica do sacrifício, central às identidades policiais e bombeiras (GAEDTKE, 2017). Sustento, por fim, que o luto pelos cães policiais torna visível a condição transitória desses animais entre objeto e sujeito, trabalho e afeto, natureza e cultura.
Referências bibliográficas
ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
GAEDTKE, Kênia. Humanos e seus animais de estimação. Porto Alegre: UFRGS, 2017.
GAEDTKE, Kênia. Entre afetos, consumo e sacrifício: relações humano-animal. Porto Alegre: UFRGS, 2019.
THOMAS, Keith. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
VIEIRA, Priscila. O luto pela perda de animais de estimação. Porto Alegre: UFRGS, 2019.
-
“VOCÊ NÃO PESCA ESSE PEIXE”: artes de notar nas relações pescador-peixe-rio no São Francisco, em Januária-MG
— Gleydson Vicente Mota
— Gleydson Vicente Mota
Nas margens do Médio Rio São Francisco, em Januária-MG, a pesca artesanal se desenrola como uma prática de convivência interespecífica, onde pescadores e peixes partilham o território e produzem, juntos, aquilo que reconhecemos como cotidiano. Esta pesquisa acompanha as cosmovisões inerentes ao modo de viver o rio e sua paisagem viva e relacional. Nessa paisagem, os peixes também têm seus modos de coabitar: dormem e transitam menos durante o dia e, à noite, percorrem a extensão das águas para se alimentar. São as agências e intencionalidades dos peixes que orientam a pesca, determinando a hora, o lugar e o modo de pescar.
Entre os seres do rio, destaca-se o tinoso, um peixe surubim, figura nativa que condensa astúcia, desafio na pesca e aprendizagem. O tinoso não aparece apenas como desejo de captura, mas como agente que afronta a rede, impõe limites e exige atenção. Para pescá-lo, não é somente a técnica que define uma pesca frutífera: é necessário compreender sinais, estabelecer diálogos, respeitar as águas e as decisões dos seres que nelas habitam. No período que antecede o tempo das águas, os peixes adentram seu ciclo reprodutivo e os pescadores nomeiam a ribada do surubim — a agitação e as andanças do peixe quando está desejando se reproduzir — e, ao fazê-lo, afirmam um regime de conhecimento em que desejo não é exclusividade humana.
Este trabalho propõe pensar as relações pescador–peixe–rio como formas de coabitar o mundo, onde o peixe não é recurso, é dádiva, e o rio é tudo. A pesquisa toma forma a partir do trabalho de campo, por meio de pescarias em companhia, afetações do pesquisador, escuta de narrativas orais e diálogos com imagens, buscando compreender como os pescadores aprendem com os seres do São Francisco e como, por meio dessas alianças, seguem produzindo mundo nas margens do rio.
-
Novas lidas do agronegócio e a simplificação da vida multiespécie no Pampa
— Jonathan Madeira, Jean Segata
— Jonathan Madeira, Jean Segata
Este trabalho analisa as transformações contemporâneas das relações multiespécies no Pampa brasileiro a partir da reconfiguração das lidas campeiras promovida pelo avanço do agronegócio. Com base em etnografia multissituada realizada em estâncias, instituições de pesquisa e feiras agropecuárias no Rio Grande do Sul, o artigo examina como a hiperespecialização do trabalho rural, articulada à digitalização da produção, altera as formas de convivência entre humanos, animais, plantas, máquinas e paisagens. Historicamente, a lida campeira estruturou um modo de vida ancorado na convivência prolongada entre trabalhadores, animais e ambientes, envolvendo saberes incorporados, atenção sensível ao comportamento animal e leitura situada das paisagens. A pesquisa demonstra que a introdução de novas infraestruturas tecnocientíficas, como sistemas de gestão, protocolos sanitários, indicadores de desempenho e dispositivos digitais de monitoramento, reconfigura esse arranjo relacional. O manejo dos animais e as formas de relação com eles, passam a ser mediados por índices, relatórios e plataformas, deslocando a centralidade da observação cotidiana e da experiência acumulada para regimes orientados pela previsibilidade e pela eficiência. Nesse sentido, a reorganização do trabalho produz efeitos multiespécie profundos, articulando a crescente especialização do trabalho à simplificação ecológica da vida no Pampa. Animais que não se ajustam aos parâmetros produtivos, práticas de cuidado não mensuráveis e saberes vinculados à longa duração da convivência tendem a ser marginalizados ou descartados. Do mesmo modo, plantas, solos e campos passam a ser reconfigurados como suportes funcionais de sistemas produtivos altamente controlados, reduzindo a diversidade ecológica e relacional historicamente constitutiva da paisagem pastoril. Ao colocar as novas lidas do agro no centro da análise, propomos compreender o agronegócio não apenas como um processo econômico ou tecnológico, mas como um rearranjo das relações humano-animais e dos mundos multiespécies que sustentam modos de vida no Pampa.
-
Do campo à pista: relações humano-animais na produção do sucesso em feiras agropecuárias do setor leiteiro
— Leandra Holz
— Leandra Holz
Vacas enormes, úberes que saltam aos olhos, corredores cheios de gente, animais e expectativas. Nas feiras agropecuárias do setor leiteiro, corpos bovinos cuidadosamente preparados circulam entre pavilhões e pistas de julgamento, onde serão avaliados publicamente por jurados, e também por visitantes. À primeira vista, a feira se apresenta como um espaço de exibição e consagração, no qual determinadas vacas e criadores se destacam como exemplares de sucesso. Este trabalho parte dessa cena para analisar o conjunto de práticas, relações e investimentos que tornam possível esse sucesso.
A partir de uma etnografia realizada com famílias criadoras de vacas leiteiras na região sul do estado do Rio Grande do Sul, acompanhei, junto a uma família, o processo de seleção e preparo de animais destinados à participação em concursos de feiras agropecuárias. A análise percorre o trabalho cotidiano desenvolvido nas propriedades, que envolve decisões genéticas, acompanhamento individualizado das bezerras escolhidas, regimes alimentares específicos, cuidados corporais e investimentos contínuos voltados ao controle e ao bem-estar dos corpos animais. Por outro lado, criar uma vaca de sucesso, não se limita ao manejo técnico e a intervenção humana, embora ocupem lugar central. Para além das práticas mais diretamente associadas à produção, as vacas precisam aprender a desenvolver uma “postura de feira” junto dos criadores, sobretudo nos concursos de pista, nos quais desfilam juntos e se tornam publicamente avaliáveis. Esse aprendizado envolve treinamentos prévios de como andar, parar e se expor diante dos jurados (em sua maioria veterinários), e depende não apenas da condução humana, mas da colaboração do próprio animal. Como me disse um dos criadores: é preciso “amansar para a pista”: um processo no qual vacas e humanos ajustam gestos, tempos e movimentos para corresponder às expectativas do julgamento. Soma-se a isso uma estética produzida intensamente no próprio ambiente da feira, com limpeza corporal, tosagem precisa, e a preparação minuciosa do animal para que seu corpo se mantenha cheio, uniforme e limpo para o momento da apresentação.
Ao acompanhar esse percurso, do cotidiano produtivo à cena pública da feira, pergunto como se constrói aquilo que ali é reconhecido como sucesso, para além das qualidades isoladas da vaca ou do produtor. Nesse sentido, as feiras agropecuárias surgem como espaços privilegiados de condensação e visibilidade, nos quais vacas e criadores passam a ser avaliados conjuntamente, tornando visíveis as relações humano-animais que dão forma a esse reconhecimento.
-
Jacarés vira-latas, tilápias mutantes e sucuris fantasmas: alianças improváveis no Igarapé do Gigante em Manaus (AM)
— Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares, Amanda Arruda Araújo
— Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares, Amanda Arruda Araújo
O presente trabalho tem como foco a memória ambiental em áreas da Bacia Hidrográfica do Igarapé do Gigante. Trata-se de territórios da Zona Oeste de Manaus compostos por diversos padrões de ocupação, perturbações e modos de relação com o referido curso dágua. O igarapé nasce em área preservada, atravessando ocupações irregulares, conjuntos de palafitas, áreas de proteção permanente, e regiões de intensa especulação imobiliária e expansão urbana, além de condomínios de luxo, antes de desaguar no Lago Tarumã, em contato com o Rio Negro. Ainda que poluído, o igarapé abriga fauna com espécies de jacarés, ofídios e peixes locais e exóticos, que se adaptam ao ambiente e convivem com humanos nas paisagens coexistenciais interespecíficas entre a água, o verde e o concreto. Assim, este trabalho busca refletir sobre como as relações humano-animal no Igarapé do Gigante ajudam a pensar a memória do bairro, as trajetórias de seus moradores e suas mobilizações políticas em torno do direito à cidade. Os dados etnográficos são construídos na relação entre pesquisa e extensão. Conversamos com antigos moradores identificados dentro de uma rede de movimentos ambientais em Manaus. Parte das observações em campo também foi construída durante ações como a Expedição ao Igarapé do Gigante, na qual participaram discentes da UFAM e moradores dos bairros, quando percorremos diversos pontos da bacia hidrográfica discutindo as contradições entre desenvolvimento urbano e meio-ambiente. Partimos da premissa de que a cidade faz os animais, intervindo sobre sua existência e gerando composições naturalculturais imprevisíveis. Porém animais também podem fazer cidade, enquadrando a memória, produzindo rupturas na monotonia da paisagem urbana, participando de sociabilidades interespecíficas e atuando como espécies companheiras nas resistências contra a precarização das vidas humanas e não-humanas em uma metrópole amazônica.
-
O corpo que desobedece à espécie: existência therian e as fronteiras do humano
— Rafael Lins Corrêa
— Rafael Lins Corrêa
A pesquisa analisa a comunidade therian como um fenômeno ontológico contemporâneo atravessado por estigma e incompreensão pública. O objetivo é investigar de que modo experiências de ser, modos de existência e formas de habitar o corpo são produzidas, narradas e frequentemente distorcidas no ambiente digital. O estudo dialoga com debates das Ciências Sociais sobre ontologia, alteridade e fronteiras do humano, articulando contribuições de Erving Goffman, Eduardo Viveiros de Castro, Andrea Zamorano e autores vinculados à chamada virada ontológica na antropologia, como Martin Holbraad e Matei Candea, para compreender tanto os mecanismos sociais de legitimação e deslegitimação quanto o caráter histórico e político das categorias que definem o que conta como “humano”, “animal” e “pessoa”.
Parte-se da hipótese de que a experiência therian não pode ser adequadamente compreendida apenas como construção identitária ou representação simbólica, mas como proposição prática e experiencial sobre o ser. Assim, enunciações como “sou um lobo” ou “não me reconheço plenamente como humano” são tratadas analiticamente não como erro, metáfora ou fantasia, mas como desafios diretos às ontologias modernas que naturalizam a separação entre humano e animal. Nessa perspectiva, a pesquisa assume que o problema analítico não reside em explicar por que sujeitos “acreditam” em algo supostamente falso, mas em interrogar os limites dos próprios conceitos analíticos utilizados para definir o que pode existir legitimamente
A pesquisa adota abordagem qualitativa, combinando revisão bibliográfica e análise descritiva de conteúdos produzidos por therians que são criadores de conteúdo no TikTok, priorizando autorrepresentações e enunciações da própria comunidade como ponto de partida teórico-analítico. Os resultados indicam que práticas como “quadrobics” e “mimetismo” operam não apenas como performance expressiva, mas como formas de corporificação ontológica e experimentação prática de modos de existência que escapam às categorias modernas de sujeito, corpo e espécie. Ao mesmo tempo, a visibilidade nas redes intensifica processos de ridicularização, patologização e policiamento do que seria as fronteiras do real, revelando que a violência dirigida aos therians não é apenas moral ou simbólica, mas ontológica: incide sobre a legitimidade de sua própria forma de existir.
A experiência therian tensiona diretamente a ontologia moderna baseada no ''modelo ideal de humanidade'' e na separação rígida entre natureza e cultura, humano e animal, evidenciando que tais fronteiras não são naturais, mas historicamente produzidas, politicamente sustentadas e continuamente policiadas.
-
A construção da abelha africanizada como sujeito governável: um estudo do boletim Zum-zum (1967-1978)
— Rebeca Hennemann Vergara de Souza
— Rebeca Hennemann Vergara de Souza
O trabalho propõe analisar como a mídia associativa atuou na construção da abelha africanizada como sujeito técnico governável no período entre 1968 e 1978, período de reorganização da apicultura após a africanização da abelha Apis mellifera. Para tanto, foi realizada uma etnografia documental do boletim Zum-zum da Associação Catarinense de Apicultores, publicado desde 1965, focando-se nas notícias, informes técnicos e orientações de manejo pertinentes às abelhas africanizadas. Parte-se do pressuposto de que o boletim atua como um dispositivo de mediação entre ciência, técnica e prática apícola que, por meio de alertas, orientações de manejo e pedagogias do risco e da prevenção, contribui para a conversão do animal perigoso em aliado produtivo, passível de controle, previsão e exploração comercial.
Ao tratar o boletim como um arquivo das relações humano-animal, o trabalho propõe uma etnografia das relações mediadas por documentos. Neste enquadramento, a relação entre humanos e animais não aparece como uma experiência imediata, mas como prática aprendida, normatizada e continuamente reensinada, o que pode permitir explorar como formas específicas de coexistência são produzidas, autorizadas e tornadas socialmente legítimas. Neste processo, a convivência humano-animal é produzida como relação prática e como aprendizagem técnica, definindo-se condutas legítimas, limites aceitáveis de risco e formas adequadas de atuação do apicultor. Ainda que a controvérsia sobre a africanização esteja presente no boletim, no período analisado, observa-se o esforço em estabilizá-la por meio de prescrições que deslocam o conflito do campo da incerteza para o domínio da forma correta e segura de se relacionar com o animal e de seus potenciais econômicos, responsabilizando-se o apicultor individual pela adaptação. A mídia associativa se torna não apenas uma instância de divulgação técnico-científica, mas um agente de coprodução de saberes, subjetividades e regimes de autoridade no campo da apicultura. Argumenta-se que a abelha africana emerge, neste arquivo, menos como entidade biológica estável e mais como efeito de processos comunicacionais e técnico-científicos que negociam risco, técnica e economia.
-
Fazer mundo numa ética do florescimento: um estudo sobre visitas turísticas num arquipélago onde há reprodução de aves marinhas
— Rejane Valvano Corrêa da Silva, Patricia Luciano Mancini, Tatiane Pereira Xavier Nascimento
— Rejane Valvano Corrêa da Silva, Patricia Luciano Mancini, Tatiane Pereira Xavier Nascimento
Pretendemos analisar as relações entre humanos e mais-que-humanos e alguns de seus impactos durante visitas turísticas no Arquipélago de Sant’nana, localizado a 10 km da costa de Macaé, Norte do Estado do Rio de Janeiro, conhecida como “Capital Nacional do Petróleo e da Energia”. No céu, diversas espécies de aves marinhas como fragatas, atobás-marrom, gaivotas e trinta-réis, trinta-reis-de-bico-vermelho e trinta-reis-de-bando e urubus. O objetivo dos passeios é navegar até o arquipélago e curtir uma praia das três ilhas (Francês, Santana e Ilhote Sul). Através de observação participativa e conversas informais em passeios vendidos por empresas de turismo local, percebemos que há o valor de “curtir a natureza” nessas relações interespécies, uma vez que o passeio visa promover o contato com a natureza – mar, areia, vento, paisagem, animais. A aventura oferece a possibilidade de experimentar trocas de sons, cheiros, visuais, sabores e toques entre diferentes espécies (uma paisagem multiespécie). Cada barco com uns 50 passageiros, atraca à beira da praia, oferecendo escorregas, boias e... o odor peculiar e intenso do diesel. Os agentes de turismo apresentam a seus clientes um mundo desconhecido por estes, sendo atores centrais para se examinar o que entendem por um bom passeio a ser oferecido. Aqui analisaremos essas relações interespécies a partir da alimentação e reprodução das aves marinhas. Nas praias de Cabo Frio e Búzios/ RJ, há placas avisando que é proibido alimentar as aves (crime previsto em lei), no entanto, nas Ilhas não há nada, e algumas aves aproveitam os alimentos oferecidos ou deixados pelos turistas, cabendo aos guias turísticos ignorar ou se envolverem. Além disso, numa região das Ilhas, cerca de 500 fragatas e atobás escolheram para se reproduzir. Enquanto “locais de refúgio” (Tsing), podem ter sua dinâmica alterada quando barcos de turismo os incluem no roteiro. Diante desses dois pontos, busca-se analisar: a) como os guias, que têm interesse de continuar a oferecer esse tipo de passeio por ser sua fonte de renda, percebem e lidam com os possíveis impactos sobre as aves (Ingold); b) O que (não) se leva para essa praia; c) o que as aves estão achando das aproximações humanas, com suas comidas e seus barulhos (Despret). O nosso olhar busca compreender que mundo está sendo feito e quais novos arranjos as pessoas estão dispostas a realizar. De um ponto de vista ético, interessa analisar como essas relações fazem florescer ou perecer (Haraway), e a quem; posto que esse “estar com” é temporário (de cinco a onze horas), com aspectos predatórios, porém em construção e com uma parte do público que se preocupa com o bem estar de outras espécies.
-
Vírus e transdução: notas para uma antropologia transdutiva da Influenza Aviária
— Sthevson Lourran de Melo Santos
— Sthevson Lourran de Melo Santos
Neste trabalho busco apresentar uma análise do vírus da Influenza Aviária (H5N1) a partir de uma perspectiva transdutiva inspirada em Gilbert Simondon (2020), compreendendo-o não como uma entidade biológica fixa, mas como um fenômeno que se constitui nas relações que estabelece com diferentes formas de vida, práticas, técnicas, infraestruturas e ambientes. O trabalho se apoia em uma análise bibliográfica de produções antropológicas sobre o H5N1, evidenciando como o vírus é produzido e mobilizado de modos distintos conforme os contextos, práticas institucionais e regimes de saber nos quais é acionado, especialmente em cenários de vigilância sanitária e preparação para eventos pandêmicos. Nesse sentido, dialoga-se com Frédéric Keck (2020) e Celia Lowe (2010), cujos trabalhos permitem pensar o vírus a partir de dispositivos de vigilância, antecipação e biossegurança, destacando articulações entre políticas sanitárias, saberes científicos, tecnologias de controle e formas de governança do risco. Complementarmente, a noção de assembleia proposta por Anna Tsing (2022) é mobilizada para compreender o H5N1 como parte de arranjos heterogêneos e historicamente situados, nos quais humanos, animais, microrganismos, infraestruturas e ambientes se emaranham de maneira contingente e instável. A partir desse enquadramento, o H5N1 é tomado como operador analítico que permite problematizar interdependências multiespécies, evidenciar articulações entre ecologias e práticas institucionais, e tensionar os limites de abordagens sanitárias orientadas por modelos lineares de controle, antecipação e previsibilidade.
-
Psitacídeos em diáspora: ecologias (neo)coloniais em movimento
— Taynã Tagliati
— Taynã Tagliati
O que acontece quando papagaios tropicais passam a sobreviver e a prosperar nos invernos alemães, enquanto desaparecem em seus lugares de origem? Este trabalho pergunta como os deslocamentos contemporâneos de psitacídeos entre a Alemanha e países como o Brasil reatualizam relações coloniais entre humanos, animais e territórios, produzindo novas configurações ecológicas, sanitárias e políticas.
Inserido na antropologia dos deslocamentos de espécies, o estudo investiga, por um lado, as dinâmicas de circulação, habitação e feralização de psitacídeos tropicais que hoje vivem livres em cidades alemãs, como no vale do Reno. Por outro, analisa o caminho inverso: psitacídeos criados em cativeiro na Alemanha que retornam a seus lugares de origem em projetos de reintrodução, às vezes levando consigo patógenos não previamente existentes no continente americano, como circovírus detectado em ararinhas-azuis reintroduzidas na Caatinga.
A partir de pesquisa etnográfica, bibliográfica e histórica, argumenta-se que a circulação dessas aves na Europa está imbricada em noções de “exótico” e “extraordinário” que foram centrais na formação do imaginário colonial sobre o “Novo Mundo”, materializadas em coleções plumárias de museus etnográficos e em espécimes preservados em museus de história natural. Entre especialistas, categorias como “espécie introduzida” e “espécie invasora” se tornam chaves para classificar a presença atual desses animais, ao mesmo tempo em que o tráfico de psitacídeos, intensificado com a colonização das Américas, segue produzindo escapes de cativeiro e populações ferais desde a década de 1960.
Enquanto alguns psitacídeos se adaptam ao clima, exploram nichos urbanos e se coconstituem com aves e plantas locais nas paisagens alemãs, muitas populações em seus habitats de origem encontram-se ameaçadas de extinção, pressionadas por desmatamento, urbanização e captura. Em criadouros, encontros entre aves de diferentes continentes geram trocas de substâncias, fluidos e patógenos, produzindo riscos sanitários que vêm à tona em projetos emblemáticos, como a repatriação da ararinha-azul.
Essas histórias de voo, cativeiro, fuga e retorno revelam contradições, tragédias e processos de adaptação e coevolução, evidenciando como a circulação global de psitacídeos torna visíveis as persistências coloniais que continuam a organizar quem pode viver, onde e com quais consequências. Ao articular etnografia multiespécie, história colonial e controvérsias sanitárias em torno de projetos de reintrodução, este estudo propõe uma abordagem inédita para pensar deslocamentos de espécies como um problema ao mesmo tempo ecológico e político, oferecendo ferramentas conceituais e empíricas para debates contemporâneos sobre conservação, biosegurança e colonialidade na antropologia.
Coordenação
Lorena Mochel (UFRRJ)
Maria Elisa Maximo (UDESC)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Stephanie Lima (Internetlab)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino (UFSC)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Bruno Mafra Ney Reinhardt (UFSC)
Este GT tem como objetivo reunir pessoas pesquisadoras interessadas na investigação de fenômenos, dinâmicas, práticas, mediações e interações produzidas em face da expansão e presença pervasiva das tecnologias digitais. Buscamos provocar debates sobre a agenda teórica e metodológica da Antropologia a partir de pesquisas que, em comum, considerem o potencial da etnografia de posicionar os múltiplos eventos compreendidos no âmbito da cultura digital, a partir de lugares onde eles são produzidos e significados cotidianamente. Nossa ênfase nas políticas etnográficas busca ampliar os limites do campo da Antropologia Digital, acolhendo pesquisas sobre interações e processos sociais atravessados e/ou reconfigurados por elementos e mediações técnicas. Consideramos bem-vindas apostas em experimentações etnográficas, debates sobre ética e posicionalidade, além de análises atentas às relações raciais, de gênero, religião, classe e outras diferenças que moldam usos tecnológicos. Nesta chave, pretende-se dar lugar às abordagens sociotécnicas que considerem a digitalização da produção, circulação e consumo de bens culturais, bem como o surgimento de movimentos, práticas e de novos sujeitos públicos na cena contemporânea. Pretende-se, assim, estimular olhares que reconheçam os múltiplos elementos e agências que conformam os fenômenos na era digital, sejam eles artísticos, políticos, interacionais ou com outros enfoques.
Títulos e Resumos
-
Usos e (contra)usos do WhatsApp em relações atravessadas pela prisão.
— Alana Barros
— Alana Barros
O objetivo deste artigo é refletir sobre os usos e contrausos do WhatsApp em relações atravessadas pelas clivagens carcerárias, entre familiares de pessoas privadas de liberdade e agentes do sistema penitenciário. A pesquisa etnográfica foi desenvolvida de forma articulada entre o campo físico e o digital, a partir da troca de mensagens em grupos de WhatsApp e de encontros presenciais dentro e fora da Penitenciária Feminina Santa Luzia, no estado de Alagoas. Argumenta-se que os usos das tecnologias digitais possibilitaram novas formas de organização e de solidariedade entre as famílias e suas parentes encarceradas, ao mesmo tempo em que foram apropriadas pela administração penitenciária como dispositivos atualizados de controle, gestão e vigilância. A partir de uma pesquisa de campo “multissituada”, desenvolvida desde 2021 e inicialmente marcada pelo “evento crítico” da pandemia de Covid-19 — que reconfigurou uma série de relações sociotécnicas —, o artigo interroga o campo dos estudos carcerários a partir dos imbricamentos entre a vida prisional e as interfaces tecnológicas, com ênfase nos usos e nos (contra)usos do WhatsApp. Foi no contexto de aprofundamento das privações e dos sofrimentos, tanto no interior quanto no entorno da Penitenciária Feminina, que os grupos de WhatsApp formados por familiares passaram a adquirir maior relevância e adesão. No entanto, esses grupos não se limitaram a esse momento específico, mas se consolidaram como uma rede fundamental de apoio e comunicação, articulando dimensões afetivas, materiais e informacionais. Neste artigo, reflete-se sobre como as plataformas digitais se inserem nesse contexto como uma das formas de transbordamento das fronteiras carcerárias, buscando compreender, especialmente, de que maneira essas tecnologias produzem continuidades nas formas de “vigiar e gerir” as famílias que circulam em seu entorno.
-
A vida em cena: narrativas sobre Família, performance e produção de conteúdo LGBTIA+ no Instagram
— Ana Carolina Vieira da Silva Pereira
— Ana Carolina Vieira da Silva Pereira
Na minha pesquisa de doutorado, iniciada em 2025, busco olhar para como a noção de Família estaria sendo narrada, reivindicada e disputada por pessoas LGBTIA+ que produzem conteúdo para o Instagram, expondo suas vidas particulares e cotidianos domésticos. Como primeira etapa, busquei construir o campo de pesquisa no qual estou me inserindo, buscando trabalhos recentes que tratassem do digital e, em especial, das dinâmicas de usos e sociabilidades do Instagram, nas áreas da Comunicação e Ciências Sociais. Com isso, compreendi um campo diverso, com uma predominância na perspectiva arquivística sobre as redes sociais, com trabalhos voltados para a análise de conteúdos produzidos, compreendidos em conjunto, como um arquivo. Também notei uma maioria de pesquisas com abordagens analíticas sobre discurso e imagem, partindo de diferentes diálogos para tal. Outro vetor seria com pesquisas majoritariamente centradas na experiência do usuário, por vezes relacionando com aspectos de sua vida offline. Concomitante a esse trabalho, cursei uma disciplina externa, na qual tive conhecimento de um pequeno campo de pesquisa dos Estudos de Performance, voltados para o Teatro, em abordagens que privilegiam perspectivas decoloniais e emocionais. Nesses termos, proponho um alinhamento do campo da pesquisa digital no Brasil, com os trabalhos de Kirsten Hastrup (2004) e Diana Taylor (2013), à fim de pensar num quadro de análise mais complexo, em que a narrativa possa ser vista em um contexto de produção de conteúdo digital que mobiliza diversos aparatos e aspectos técnicos e simbólicos. Com isso, quero pensar para além do texto, do estático e do arquivo, com reflexões acerca de performance, ação, memória e representação, de modo a compreender possíveis métodos de leitura de ações sociais. Nesse entendimento, penso uma analogia entre o teatro e a produção de conteúdo digital, em que as vivências cautelosamente planejadas do palco/tela, e as naturalizações da vida cotidiana, seriam atravessadas por uma noção abrangente de vida real, que não seria oposta ao palco/tela, mas sim como vetores em correlação. Dessa maneira, proponho olhar para a produção de conteúdo digital como um prisma da vida social, por onde normas, regras, estruturas e signos seriam mobilizados na produção de narrativas, imagens, discursos e sentidos. Em 2026, iniciei meu trabalho de campo, observando a produção cotidiana de publicações em feed e stories de dois perfis (Bruna, uma mulher cis lésbica, casada; e Fábio, um homem cis gay, casado e com uma filha), com os quais estou aplicando e desenvolvendo essas ponderações teóricas, à fim de entender as possibilidades e limitações desta proposta analítica, e cujos resultados parciais quero apresentar para o Grupo de Trabalho.
-
"Se está com tanta pressa assim, que compre uma pizza de micro-ondas!": gerações, afetos e fricções na sociabilidade digital do Grindr em contextos interioranos
— Daniel da Silva Stack
— Daniel da Silva Stack
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma etnografia digital em andamento que investiga como marcadores de geração, gênero e sexualidade se articulam a dinâmicas urbanas e mediações sociotécnicas na produção de sociabilidades afetivo-sexuais. A pesquisa se desenvolve no Grindr - aplicativo amplamente utilizado por homens gays e bissexuais - a partir de interlocuções com usuários residentes em uma cidade de médio porte do interior de Santa Catarina, reconhecida como polo regional. Ao considerar o aplicativo como um artefato sociotécnico que opera a partir da geolocalização, argumenta-se que o Grindr não apenas media encontros, mas também produz espaços digitais que se entrelaçam às espacialidades urbanas locais, reorganizando fluxos, mobilidades e regimes de visibilidade e anonimato, configurando-se como um espaço de experimentação da sexualidade interligado às dinâmicas off-line da cidade. Os interlocutores, com idades entre 20 e 60 anos, pertencem a diferentes gerações e mobilizam o aplicativo como espaço de socialização, negociação de desejos e manejo de pertencimentos em um contexto urbano marcado por forte vigilância social. A análise das biografias e interações evidencia que a idade atua como marcador central na produção dos usos dessa tecnologia, gerando expectativas e fricções entre sujeitos que tiveram suas primeiras experiências afetivo-sexuais em ambientes digitais anteriores aos aplicativos móveis, como salas de bate-papo, e aqueles socializados já sob a lógica dos aplicativos. Para os primeiros, a efemeridade dos encontros, a intensificação da visualidade e a lógica de consumo rápido de perfis são percebidas como tensionamentos em relação a formas anteriores de sociabilidade digital, que operavam como espaços de experimentação da homossexualidade em contextos urbanos marcados pela heteronormatividade. Já a geração que experienciou o início da sexualidade em concomitância à ascensão dos aplicativos de relacionamento exibe cansaço frente às interações nesses espaços, as quais (re)produzem um habitus afetivo mesmo diante do desejo por novos modos de sociabilidade. Ao articular etnografia digital e estudos urbanos, o trabalho propõe compreender como normas de gênero, sexualidade e idade são coproduzidas por tecnologias digitais e dinâmicas citadinas, atravessando os domínios online e offline. Dessa forma, contribui para os debates da Antropologia Digital e da Antropologia Urbana ao evidenciar como territorialidades, mobilidades e pertencimentos são reconfigurados na interseção entre cidade, tecnologias digitais e marcadores sociais da diferença.
-
Mulheres Conexão entre as “terras” e as telas: O fazer político e epistemológico da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão (AMIM) sob o olhar da produção digital no Instagram.
— Edilene Batista Mastub
— Edilene Batista Mastub
O trabalho em questão fez uma breve análise da atuação política e social da Associação das Mulheres Indígenas em Mutirão, que representa as mulheres indígenas da região de Oiapoque (AP), através da sua produção de conteúdo na rede social Instagram. A AMIM é uma associação sem fins lucrativos que representa as mulheres das etnias Galibi-Marworno, Galibi Kali’nã, Karipuna e Palikur, criada em 2006, com o objetivo de garantir a qualidade de vida para essas mulheres e seus respectivos povos.
O objetivo central do artigo é investigar de que forma a Associação está fazendo uso das redes sociais enquanto ferramenta para a visibilização da luta das mulheres e povos indígenas do Oiapoque, em prol da defesa de seus territórios e modos de vida, assim como quais avanços e limitações pode-se ter a partir do uso das redes sociais como ferramenta de mobilização (MACHADO, 2007); (SERRA JUNIOR; ROCHA, 2013); (GALLO; SILVEIRA; PEQUENO, 2025). Nesse sentido, é de suma importância entender como a AMIM transmite, pelo conteúdo produzido para o Instagram, as identidades das mulheres e povos que representa para compreender a sua forma de fazer política e de que modo criam, recriam e articulam suas epistemologias nessa construção.
Desse modo, categorias como “povos tradicionais” e “território” (LITTLE, 2018); (ECHEVERRI, 2004) e “saberes ancestrais”, que são usadas pela Associação em suas postagens, são valiosas para a discussão acerca da constituição identitária desses sujeitos e como o fortalecimento desta identidade pode ser estratégico para pautar suas lutas e fortalecer sua busca pela conquista e respeito de seus direitos (ALMEIDA, 2004); (ALBERT, 1995; 2014).
Para alcançar o objetivo proposto, foram analisados os conteúdos – fotos, vídeos e respectivas legendas – postados pelo perfil da AMIM na rede social, “@amim.oiapoque”, no período de janeiro de 2024 a julho de 2025. Foi dada ênfase às postagens referentes às atividades promovidas pela Associação relacionadas ao tema “território” e “saberes tradicionais/ancestrais”, através das quais será debatida a forma com que trabalham com essas categorias em suas postagens.
A partir da investigação, constatou-se que o Instagram, apesar de suas limitações enquanto ferramenta de propagação do conteúdo criado por organizações sociais, pode ser um importante espaço virtual para a luta da AMIM, uma vez que através de seu perfil na rede, ao divulgar as atividades que promove e os modos de vida dos povos que representa, apropriando-se de termos como povos tradicionais, territórios e saberes ancestrais, estão construindo sua própria narrativa e fonte documental sobre suas lutas, formas de fazer política e epistemologia com o transbordamento de seus corpos-territórios (CORREA, 2018) no digital e para além dele.
-
Espíritos do digital: interseccionalidades e agência divina no WhatsApp
— Lorena Mochel
— Lorena Mochel
Análises antropológicas sobre religião no digital têm enfatizado múltiplos aspectos sobre as relações entre humanos e espíritos. Dimensões sensoriais das tecnologias, imaginários de confiança, produção de verdade, institucionalidade e autoridade religiosa e, mais recentemente, impactos de modelos econômicos plataformizados, são alguns dos caminhos amplamente utilizados para compreender processos de transformação religiosa em curso. Plataformas de mensagens de comunicação instantânea, por sua vez, têm atualizado maneiras como a religião modifica o espaço público. Em minhas pesquisas mais recentes, venho analisando modos como usos de grupos de oração no WhatsApp constituem novas institucionalidades entre grupos evangélicos, na medida em que fortalecem experiências devocionais e ressignificam práticas cotidianas como orar, jejuar, pregar e profetizar, sobretudo em denominações pentecostais. Posiciono o WhatsApp, nesse sentido, como espaço religioso por excelência, cujas possibilidades de subverter limitações ocasionadas por variadas hierarquias são vivenciadas de forma interseccional por mulheres, pessoas negras e outros grupos minoritários que majoritariamente integram o pentecostalismo brasileiro. Trago como enfoque dessa apresentação as práticas de compartilhamento de mensagens de voz com orações, testemunhos e revelações nos grupos, cuja capacidade de reposicionar diferenças impacta relações de poder de sujeitos entre si e com as igrejas. Através da análise etnográfica da escuta dos "áudios" como intensificadora de processos de agência divina no digital, venho buscando refletir criticamente à secularização de conceitos antropológicos, somando este trabalho a contribuições sobre as políticas dos espíritos em contextos plataformizados.
-
Política do bem-viver: a atuação do grupo novas narrativas evangélicas na internet
— Louise Tavares
— Louise Tavares
Este trabalho busca uma compreensão cuidadosa das propostas desenvolvidas pela plataforma online e grupo evangélico Novas Narrativas, tendo em vista que as formulações apresentadas por eles se encaminham para uma transformação no que pode ser considerado "ser evangélico". Logo, é importante a esta pesquisa pensar como as redes socio técnicas se configuram como uma alternativa para grupos que não fazem parte de um mainstream "gospel". Noções elaboradas pelo grupo passam por ideias progressitas como o conceito de bem-viver e o posicionamento antifascista, por exemplo. Portanto, o que se busca aqui é o desenvolver de uma pesquisa etnográfica, por meio de contribuições de pesquisas online, como a netnografia. Assim, materiais disponíveis na internet como podcasts, vídeos no YouTube e o Instagram do grupo será parte do que se busca analisar. Por fim, está pesquisa busca pensar a relação entre religião e política, por meio da mediação on line.
-
Os "produtos" registrados no "sistema câmara": a regulação dos fluxos de trabalho e do direito à saúde a partir de um software
— Lucas de Magalhães Freire
— Lucas de Magalhães Freire
Esta comunicação retoma dados etnográficos de minha pesquisa de doutorado a partir de um ângulo não privilegiado anteriormente: a profunda - senão indissociável - relação entre os funcionários da Câmara de Resolução de Litígios de Saúde (CRLS) e o software utilizado em suas atividades laborais rotineiras, o "sistema câmara de saúde". Inaugurada em 2013, a CRLS é um órgão público responsável por tentar solucionar administrativamente os processos judiciais na área de saúde. Ao longo de treze meses - entre dezembro de 2016 e dezembro de 2017 - acompanhei o cotidiano dos agentes da instituição em suas diferentes maneiras de administrar e regular o acesso aos serviços, bens e tecnologias de saúde diante de uma conjuntura classificada como de "crise da saúde pública". No entanto, ao dedicar boa parte das minhas análises às práticas regulares desses profissionais, o próprio mecanismo a partir do qual a gestão do direito à saúde era realizada recebeu pouca atenção e não foi suficientemente problematizado. É no "Sistema Câmara de Saúde" que é feito o gerenciamento de todas as fases do atendimento dos usuários da Câmara, composta por quatro etapas que correspondem aos quatro setores que compõem a CRLS: triagem, atendimento, análise técnica e retorno da análise. Essa plataforma também alimenta o banco de dados utilizado para as avaliações periódicas do funcionamento da instituição, bem como armazena todos os documentos necessários para a condução burocrática dos casos, isto é tanto aqueles papéis que são trazidos pelos sujeitos e digitalizados no setor de atendimento quanto os documentos digitais gerados pelos próprios funcionários da CRLS, como por exemplo, os pareceres técnicos dos casos. As necessidades de inserir corretamente o "produto" no "sistema" ou de se ater somente ao que foi "registrado no sistema" eram elementos recorrentes nas falas dos meus interlocutores. Além disso, tal como em outros tantos serviços burocráticos, o "sistema" foi apontado como um limitador do próprio campo de ação dos funcionários em inúmeras ocasiões. Assim, ao retornar aos meus diários de campo com fôlego e olhar renovados, pretendo discutir como o "Sistema Câmara de Saúde" não pode ser visto e descrito como uma mera ferramenta - objeto manejado por sujeitos/agentes - mas como um elemento em uma rede sociotécnica que possui uma forma de atuação própria ao definir o que pode ser visto, encaminhado e editado pelos funcionários da CRLS.
-
Desejo, Homoerotismo e Subjetividades em Ambientes Virtuais: Uma Análise Antropológica
— Lucas Mateus do Nascimento Patuci
— Lucas Mateus do Nascimento Patuci
Este trabalho apresenta reflexões iniciais de uma pesquisa em desenvolvimento no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGANT/UFPI), cujo objetivo é analisar as dinâmicas homoeróticas em ambientes virtuais. Em um contexto marcado pela centralidade das tecnologias digitais na produção de subjetividades e nas formas de interação social, plataformas online de sexo virtual emergem como espaços privilegiados de experimentação do desejo, do anonimato e da performatividade. O campo empírico da pesquisa é o site Flingster (flingster.com), plataforma de chat por vídeo entre desconhecidos, compreendida como um território sociotécnico no qual se produzem interações mediadas digitalmente. Considerando o caráter inicial da investigação, o artigo busca situar teoricamente e metodologicamente os desafios colocados à Antropologia diante das dinâmicas sociais no meio virtual.
A pesquisa adota uma abordagem multimetodológica, articulando dados qualitativos e quantitativos, com inspiração antropológica. Os procedimentos metodológicos envolvem participação como um nativo, observação participante em ambiente virtual, análise de conteúdo das interações e a ciberetnografia como técnica central de coleta de dados. Essa articulação possibilita apreender tanto padrões recorrentes de uso da plataforma quanto as experiências subjetivas dos usuários, respeitando princípios éticos fundamentais da pesquisa em ambientes digitais, como anonimato, consentimento e manejo responsável de informações sensíveis.
O desenvolvimento analítico organiza-se em torno de três categorias centrais: homoerotismo, desejo e subjetividade. O homoerotismo é mobilizado a partir das contribuições de Jurandir Freire Costa, compreendido como uma experiência relacional e historicamente situada. O desejo é pensado com base em Gilles Deleuze e Félix Guattari, entendido como força produtiva e imanente aos agenciamentos sociotécnicos. A subjetividade é abordada em diálogo com Judith Butler, considerando os processos performativos que atravessam corpos e identidades nos contextos digitais. A partir dessas categorias, o trabalho problematiza as implicações teóricas, metodológicas e éticas do fazer etnográfico em ambientes digitais.
Por tratar-se de uma pesquisa em andamento, as considerações aqui apresentadas possuem caráter exploratório e provisório. Ainda assim, o artigo busca contribuir para o debate no campo da Antropologia Digital, evidenciando os modos contemporâneos de produção do desejo e da subjetividade em ambientes mediados por tecnologias digitais, bem como refletindo sobre os desafios teóricos, metodológicos e éticos do fazer antropológico em contextos virtuais.
Palavras-chave: Subjetividade; Desejo; Homoerotismo; Ciberetnografia; Ética na pesquisa.
-
Onde o tradicional e moderno se encontram: uma análise das narrativas míticas amazônicas no podcast Pavulagem
— Natacha Rodrigues Portal
— Natacha Rodrigues Portal
Este trabalho parte da escuta atenta dos relatos apresentados no podcast Pavulagem, disponível na plataforma Spotify, no qual narrativas míticas amazônicas são contadas por moradores de comunidades ribeirinhas da Amazônia Legal, revelando a íntima relação dessas populações com os Encantados, e levando a prática da contação de histórias para ouvintes outros, longe da floresta. Situado na interface entre processos sociotécnicos e culturais, este trabalho tem como hipótese central a confluência entre o tradicional e moderno, considerando a natureza dialética do folclore frente às transformações sociais no contexto da globalização e mídias digitais, em que mitologia, memória histórica e identidade ganham projeção global ao se apropriar de instrumentos sociotécnicos para dar visibilidade a subjetividades marginalizadas.
-
Influenciadores religiosos nas redes sociais: agência dos usuários e poder das plataformas digitais
— Olívia Bandeira de Melo Carvalho
— Olívia Bandeira de Melo Carvalho
Como quase todas as esferas da vida, a fé também tem se tonado cada vez mais plataformizada, com a vivência religiosa em grande parte mediada pelas redes sociais e aplicativos de vídeo e de mensageria das grandes plataformas digitais, modelo que se tornou predominante na internet ao longo das últimas duas décadas. As tecnologias digitais, assim, fazem parte das estruturas materiais que contribuem, nos dias de hoje, para mudanças nas formas de vivência religiosa, na institucionalidade e na autoridade religiosas e no significado mesmo do que entendemos por sagrado, por religiosidade, por religião. Considerando que as tecnologias não são neutras e que fazem parte das dinâmicas de poder que atravessam a sociedade, este trabalho tem o objetivo de discutir se e como a agência dos usuários das plataformas digitais, tanto aqueles que produzem quanto os que predominantemente consomem conteúdo, é influenciada pelo modelo de negócios das plataformas digitais, centrado na coleta e tratamento de dados pessoais e na entrega de conteúdo por meio de sistemas de recomendação que utilizam algoritmos pouco transparentes. Este trabalho é parte de uma pesquisa em andamento que se desenvolve a partir de uma etnografia multissituada do consumo e dos usos de mídias por mulheres evangélicas e suas famílias, em uma perspectiva comparada entre Brasil e Argentina. A discussão aqui proposta tem como base os dados da primeira fase da pesquisa, que consiste no mapeamento e na sistematização de perfis nas redes sociais de religiosos cristãos, sobretudo evangélicos (pastores, artistas, políticos, comunicadores, influencers), com alcance significativo nas plataformas digitais, além do acompanhamento dos principais temas presentes em suas atividades digitais no segundo semestre de 2025, considerando ainda que essas atividades on-line não são separadas, mas se relacionam com suas atividades off-line. Entre as conclusões parciais, este trabalho pretende discutir como a ritualização da fé ganha contornos cotidianos por meio das mídias; como fé, política e entretenimento se misturam na vivência religiosa cotidiana a partir do consumo das mídias; e como características das plataformas digitais, como alcance, velocidade, visibilidade e estratégias de engajamento interferem no conteúdo que está sendo produzido pelos influenciadores digitais cristãos.
-
Interseccionalidades na exposição do adoecimento: análise socioantropológica das narrativas de mulheres em assistência paliativa no Instagram
— Paula Tavares Vigilato, Rachel Aisengart
— Paula Tavares Vigilato, Rachel Aisengart
Este trabalho apresenta uma análise socioantropológica das narrativas paliATIVAS produzidas por mulheres jovens em assistência paliativa no Instagram, a partir de uma pesquisa de mestrado situada no campo da antropologia da saúde e da antropologia digital. Considerando o Instagram como ambiente sociotécnico, a investigação examina como a experiência do adoecimento e dos cuidados em final de vida é narrada e tornada pública por sujeitos que convivem com a possibilidade da morte, em contextos de terminalidade. Inspirado no ativismo digital da jornalista Ana Michele (@paliativas), o conceito de narrativas paliATIVAS permite compreender essas produções como práticas sociotécnicas situadas, nas quais gênero, raça, classe e acesso à internet se articulam à corporalidade e às mediações tecnológicas na construção de modos específicos de aparecer, narrar-se e ser reconhecida. As narrativas não são tratadas apenas como representações do adoecimento, mas como ações que mobilizam afetos, imagens, temporalidades e interações algorítmicas, produzindo sujeitos públicos em condições de vulnerabilidade corporal em busca de agência e reconhecimento. A pesquisa se baseia em etnografia em ambiente digital, com acompanhamento sistemático de perfis, análise de posts, reels, stories e entrevistas, reconhecendo a continuidade entre as experiências online e offline. O campo empírico inclui os perfis de Bianca Andrade, Francine Peres (in memoriam), Monize Carla e Isabel Veloso. A análise evidencia que a exposição do adoecimento no Instagram é atravessada por desigualdades estruturais de gênero, raça, classe, acesso à internet e à assistência paliativa configurando diferentes possibilidades de visibilidade, engajamento e legitimidade pública. Ao acompanhar essas narrativas como eventos etnográficos, o trabalho interroga os modos pelos quais plataformas digitais participam da produção de diferenças, regulando quem pode aparecer, narrar o adoecimento e ser reconhecida em contextos de terminalidade.
-
Mentoria com Exu: umbanda digital e o discurso da prosperidade em Exu do Ouro
— Tainá Silva Dias
— Tainá Silva Dias
O presente trabalho investiga transformações recentes das religiões afro-brasileiras a partir de suas inserções no espaço digital e resulta de pesquisa desenvolvida no âmbito do projeto de iniciação científica Mundo virtual, produção de conhecimento e intolerância: múltiplas controvérsias no campo das religiões afro-brasileiras, financiado pela FAPERJ, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Joana Bahia. Parte-se do entendimento de que plataformas digitais constituem espaços sociais nos quais se produzem novas formas de mediação, circulação e autoridade religiosa, reconfigurando modos de presença pública do sagrado. Ancorado na antropologia da religião e em diálogo com a antropologia digital, o estudo analisa a emergência da entidade Exu do Ouro na Umbanda, atentando para os processos de produção e difusão de discursos de prosperidade mediados por tecnologias digitais, bem como para as afinidades entre os ensinamentos atribuídos à entidade e a linguagem mobilizada em práticas contemporâneas de coaching. A pesquisa focaliza o modo como tais discursos se articulam a formatos pedagógicos, audiovisuais e interacionais próprios das plataformas, produzindo rearranjos entre espiritualidade e mercado religioso. Do ponto de vista metodológico, o trabalho se baseia em etnografia digital e estudo de caso, a partir da análise de dados públicos disponíveis em sites, vídeos, cursos e redes sociais vinculados à plataforma Umbanda EAD. O recorte empírico concentra-se no curso virtual Treinamento Exu do Ouro, bem como nos materiais de divulgação associados à atuação do sacerdote e empresário responsável por sua circulação. Esses materiais se apresentam como guias de transformação pessoal, nos quais a entidade opera como canal simbólico para a obtenção de ganhos materiais, enquanto o sacerdote assume a função de mediador entre ensinamentos espirituais e promessas de prosperidade. O acompanhamento desses conteúdos permite observar as formas pelas quais os públicos são interpelados simultaneamente como seguidores, alunos, filhos de santo e consumidores, bem como os modos pelos quais se constituem regimes específicos de autoridade religiosa. Observa-se que a manifestação de Exu do Ouro não é consensual entre praticantes da Umbanda, permanecendo majoritariamente associada a circuitos institucionais específicos vinculados à Umbanda EAD, o que evidencia disputas internas em torno da legitimidade da entidade e de suas formas de culto. Argumenta-se, por fim, que a circulação digital de Exu do Ouro oferece um campo privilegiado para compreender como processos de digitalização reconfiguram práticas religiosas, modos de mediação e regimes de valor no campo afro-brasileiro contemporâneo, contribuindo para os debates antropológicos sobre religião, tecnologia e produção social do sagrado.
Coordenação
Carolina Parreiras (USP)
Patricia Pereira Pavesi (UFES)
Sessão 1
Pessoa debatedora
David Nemer (University of Virginia)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Laura Graziela Gomes (UFF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Carolina Parreiras (USP)
O objetivo deste GT é trazer discussões pertinentes à área da Antropologia Digital a partir de debates teóricos, metodológicos e éticos. Assim, o interesse está em trabalhos que, de algum modo, lidem com o digital - seja como campo, como contexto ou como ferramenta de pesquisa. Nos últimos anos, temos visto um crescente interesse por temáticas que envolvem a internet e as tecnologias digitais, que coincide tanto com a popularização de dispositivos como os smartphones, o crescimentos da conectividade no Brasil como a popularização de discussões como plataformização e inteligência artificial. Por este motivo, é necessário não deixar de lado o viés crítico e político presente no desenvolvimento e no uso destas tecnologias, marcadas por sua não neutralidade e pela opacidade. Neste sentido, convidamos trabalhos que discutam questão tais como (mas não apenas): plataformas digitais, etnografia digital e outras técnicas metodológicas, inteligência artificial, influencers, economia da atenção, big techs, ética para o digital, trabalho plataformizado, desinformação, violência digital, extrema-direita, redes sociais, histórias da internet, criptografia, segurança e privacidade; controle e vigilância, dentre outros.
Títulos e Resumos
-
Redes, plataformas e associações: a construção da regulação do mercado adulto a partir do ECA Digital
— Analice Paron de Silva
— Analice Paron de Silva
O Brasil não dispõe de uma regulamentação específica para o mercado de entretenimento adulto, lacuna que se torna ainda mais evidente no caso das plataformas digitais voltadas a esse segmento. A partir de março de 2026, contudo, esse cenário tende a se transformar com a implementação do chamado ECA Digital, um conjunto de normas e dispositivos legais voltados à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. Nesse contexto, a presente comunicação oral apresenta discussões iniciais sobre os processos de regulamentação das plataformas digitais do universo adulto no Brasil. Argumento que tais processos não se restringem a adequações técnicas ou jurídicas, mas integram um movimento mais amplo que envolve a criação de uma associação representativa e a articulação de uma rede de agentes, práticas e discursos orientados à regulação do setor. Em especial, pretendo colocar foco na construção de narrativas em torno de ética, responsabilidade e boas práticas no ambiente digital. Os dados apresentados fazem parte de uma pesquisa de doutorado em andamento em Sociologia, que busca compreender como se constituem formas de autorregulação e governança no campo das plataformas digitais de entretenimento adulto, bem como suas implicações para os debates contemporâneos sobre moralidades, regulação e plataformas digitais.
-
"Seja um homem na sua melhor versão": plataformas digitais, algoritmos e a produção sociotécnica de masculinidades em comunidades red pill brasileiras
— Carolina Bianchini Bonini
— Carolina Bianchini Bonini
Este trabalho analisa a produção de masculinidades em comunidades masculinistas red pill no Brasil a partir de uma abordagem da antropologia digital. Parte-se da compreensão dessas comunidades como redes sociotécnicas nas quais discursos normativos, performances reiteradas e arquiteturas de plataforma articulam-se na fabricação de subjetividades de gênero. Em contraste com leituras que tratam a red pill como fenômeno estritamente ideológico, o estudo a investiga como uma pedagogia digital estruturada, sustentada por dispositivos técnicos e dinâmicas algorítmicas específicas.
A pesquisa baseia-se em observação etnográfica não participativa realizada no subreddit r/RedPillBrasil entre 11 e 14 de dezembro de 2024, com a coleta de dez posts classificados pela própria plataforma como “em ascensão”. Esse recorte permitiu observar narrativas em processo de legitimação comunitária, evidenciando como sistemas de visibilidade, votação e reputação participam da estabilização de enquadramentos morais. Utilizaram-se exclusivamente dados públicos, reconhecendo-se como limitações o recorte temporal restrito e a ausência de análise sistemática das árvores de comentários.
Os resultados indicam que a produção de masculinidades red pill ocorre por meio de uma pedagogia sociotécnica organizada em torno de categorias nativas como Frame, Valor Sexual de Mercado e Red Pill Rage. O Frame emerge como princípio central de ordenamento das interações, definindo a masculinidade legítima como capacidade de impor uma interpretação da realidade marcada pelo autocontrole emocional, pela hierarquização relacional e pela desvalorização sistemática das mulheres. O Valor Sexual de Mercado reconfigura as relações afetivas em termos mercantis, posicionando homens e mulheres em um suposto mercado competitivo no qual atributos corporais, status e desempenho emocional funcionam como capitais. Explicações biologizantes sobre hipergamia e instabilidade feminina são mobilizadas para naturalizar desigualdades de gênero e legitimar práticas de vigilância e desinvestimento afetivo.
A Red Pill Rage ocupa lugar estratégico nessas trajetórias, sendo apresentada como etapa do amadurecimento masculino quando a transformação individual não resulta na submissão esperada das parceiras. Nesses contextos, raiva, infidelidade e abandono são reconfigurados como exercícios legítimos de autonomia masculina, incorporados por meio de scripts comportamentais reiterados. Ao evidenciar como arquiteturas de plataforma e dinâmicas algorítmicas participam da produção e legitimação dessas pedagogias, o trabalho sustenta que comunidades red pill materializam formas contemporâneas da “informática da dominação” (Haraway, 2009), contribuindo para os debates da antropologia digital sobre tecnologia, poder e desigualdades.
-
A efemeridade como forma relacional: os status do WhatsApp e a lógica da plataformização
— Carolina Parreiras
— Carolina Parreiras
O objetivo desta apresentação é discutir um dos recursos da plataforma WhatsApp: os status. Desde 2017, os status possuem uma conformação parecida com atual, mas vêm se modificando de forma bastante visível e que está ligada ao processo de plataformização do até então comunicador instantâneo. Uma das principais modificações é permitir o compartilhamento da mesma postagem em todas as plataformas do grupo Meta (Facebook e Instagram) ao mesmo tempo. Assim, a partir de dados etnográficos de minha pesquisa de campo entre pessoas moradoras de um conjunto de favelas do Rio de Janeiro. Ainda que se trate de um contexto de precariedade e que em termos de conectividade significativa haja uma série de lacunas, estamos falando de pessoas que estão conectadas, especialmente com o uso de smartphones e redes móveis. Proponho discutir o uso dos status do WhatsApp para postagens constantes e sequenciais da vida cotidiana, bem como para o estabelecimento de uma série de relações, tais como, compra e venda de produtos, alerta para operações policiais, correntes de oração e postagens de ganhos (nunca perdas) em bets e jogos do tigrinho. Além disso, algo notável é a circulação deste status no Instagram e no Facebook, o que aponta para a plataformização, mas também mostra o quanto há uma seleção do tipo de conteúdo cabível em cada plataforma. Ainda que marcado pela efemeridade (Bainotti et al, 2021), os status (e os stories) aparecem como produtores de relações e como reveladores dos arranjos sociotécnicos das pessoas em um contexto no qual o WhatsApp é não apenas mundano (Dourish et al, 2010; Nemer, 2022; Parreiras, 2024), mas também organizador central da vida cotidiana.
-
Plataformas, conspiração e violência política: um estudo comparativo entre Brasil e Estados Unidos
— Edson Mendes Nunes Junior
— Edson Mendes Nunes Junior
Os ataques ao Capitólio dos Estados Unidos em 6 de janeiro de 2021 e à Praça dos Três Poderes no Brasil em 8 de janeiro de 2023 evidenciam fragilidades democráticas agravadas pela plataformização da vida pública, na qual desinformação e narrativas conspiratórias transformam circulação digital em violência coletiva. Este estudo investiga comparativamente padrões de disseminação de desinformação que antecederam ambos os eventos, buscando identificar repertórios discursivos, símbolos identitários e enquadramentos morais que revelam falhas institucionais subjacentes. A pergunta que orienta a análise é: quais padrões emergem na circulação de desinformação em plataformas digitais antes desses ataques e como eles se comparam entre os contextos brasileiro e norte-americano?
Ancorado na noção, formulada por Sophia Rosenfeld, de que a democracia opera sob um regime de verdade precário, tensionado entre expertise e senso comum, o trabalho dialoga com abordagens como a de Letícia Cesarino, que compreendem as plataformas digitais como mediações sociotécnicas capazes de intensificar afetos, polarização e formas antagonistas de reconhecimento político. O trabalho também mobiliza a distinção entre fake news, informações deliberadamente falsas e disfarçadas de jornalismo legítimo segundo Gelfert, e teorias conspiratórias, lógicas ocultas que desafiam evidências e se fortalecem inclusive por meio da refutação, estimulando dinâmicas de radicalização e violência em ecossistemas digitais, conforme argumentam Sunstein e Vermeule.
A metodologia combina análise qualitativa comparativa de 121 conteúdos classificados como fake news por agências de fact-checking nos dois meses anteriores aos atos, sendo 53 no Brasil, a partir da Agência Aos Fatos, e 68 nos Estados Unidos, com base na PolitiFact. O corpus inclui materiais disseminados em plataformas como WhatsApp, Facebook, Twitter/X, YouTube e Telegram, analisados a partir de seus repertórios narrativos, recursos simbólicos e formatos midiáticos.
Os resultados indicam diferenças entre os contextos analisados. Nos Estados Unidos, a desinformação articula alegações de fraude eleitoral a conspirações globais envolvendo vacinas e o chamado “deep state”, circulando sobretudo em redes abertas. No Brasil, as narrativas personalizam inimigos institucionais, mobilizam apelos à intervenção militar e reforçam identidades nacionalistas, com predominância de vídeos em redes fechadas. Em ambos os casos, a desconfiança institucional opera como eixo de mobilização política. O trabalho contribui para a antropologia digital ao tratar a desinformação não apenas como falsidade informacional, mas como prática social que expressa crises de mediação democrática, com implicações éticas e políticas para o debate sobre plataformas e governança digital.
-
Violências digitais plataformizadas: Considerações sobre imagens e dinâmicas criminais na Baixada Fluminense
— João Calebe Vidal Sampaio
— João Calebe Vidal Sampaio
O presente trabalho busca explorar o entrelaçamento entre grupos armados, terror, mercados e internet, objetivando analisar a propagação de registros imagéticos nas plataformas digitais de pessoas sendo violentadas por integrantes de grupos armados atuantes na Baixada Fluminense, situada no Rio de Janeiro.
O avanço das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs) e seu desenvolvimento na nova etapa da sociedade neoliberal, proporcionou uma oferta abundante de diferentes dispositivos portáteis (smartphones e tablets), internet de alta velocidade e um sem-número de aplicativos, alterando e tornando todos os âmbitos da vida humana em mercadoria. A chamada plataformização da vida refere-se a este fenômeno em que grandes empresas financeirizadas do mundo digital (plataformas) intermediam e controlam por meio de algoritmos os relacionamentos humanos nos mais diversos espaços e situações, como trabalho, relacionamentos afetivos, relações familiares, comércio etc. Desse modo, não chega a surpreender o fato de que a forma com que os grupos armados fazem a gestão dos territórios e das populações também venha sendo transformada neste amplo processo.
Para explorar essas relações, fomos a dois bancos de dados, a nosso ver complementares. O primeiro, a plataforma digital X, utilizando o método proposto pela Hine de etnografia para a internet, cujo papel dos cientistas sociais é investigar as interações sociais e as produções de sentidos nos ambientes online. Escolhemos o X por haver atualmente na plataforma uma grande circulação de imagens com violência extrema.
Como segundo vetor de pesquisa empírica, realizamos a análise dos usos das plataformas digitais num processo criminal na íntegra e de um trecho do inquérito de um segundo processo envolvendo milícias atuantes na Baixada Fluminense (RJ). A análise revelou um grande volume de dados que apontaram para um amplo panorama dos usos dos dispositivos e aplicativos que viabilizam a gestão criminal e o exercício do terror pela obtenção de capital político e econômico.
Por fim, a hipótese central deste trabalho é que, a partir de relações de aquiescência entre criminosos, administradores de páginas que publicam conteúdos de ações violentas por eles realizadas, pessoas que consomem e engajam essas postagens, bem como as próprias empresas de plataformas digitais que deixam de regular tais conteúdos, constitui-se uma engrenagem funcional ao repertório do terror. Esse repertório possibilita aos grupos armados o exercício de suas governanças criminais e, simultaneamente, beneficia as big techs, que lucram com o engajamento produzido pelas violências digitais plataformizadas.
-
Do gabinete ao ChatGPT: uma análise sobre o uso de novas tecnologias na pesquisa etnográfica com documentos
— Juliana Coelho de Almeida
— Juliana Coelho de Almeida
A análise de documentos está presente desde início da antropologia como um campo de conhecimento acadêmico. Alguns dos autores evolucionistas, muitas vezes chamados de “fundadores” da disciplina, tinham como material de pesquisa as cartas e relatados de missionários, viajantes, comerciantes, entre outros (Castro, 2005). Com a consolidação do trabalho de campo, a escolha metodológica de basear suas obras apenas na análise desses documentos foi duramente criticada e esses pesquisadores passaram a ser chamados de “antropólogos de gabinete”, de forma pejorativa (Castro, 2005, p. 17). O receio de pesquisar documentos permaneceu por muitas décadas como uma marca das críticas pós evolucionismo. Contudo, a partir da década de 90, os documentos voltaram a ganhar importância nas análises antropológicas, não mais em uma busca pela linha evolutiva da “sociedade”, mas, como “campos de indagação” e “artefatos etnográficos” (Ferreira, 2022). Essa retomada está fortemente ligada aos “documentos burocráticos” e a consolidação das pesquisas com instituições estatais. Minha pesquisa de doutorado está justamente voltada para a análise de documentos produzidos por algumas dessas instituições: processos (sobretudo sentenças) criminais de tortura em que os acusados são agentes do Estado. Ao longo da minha pesquisa, percebi que não se trata apenas de uma etnografia com documentos, há também uma forte influência da antropologia digital. A maior parte do contato com os documentos se dá no meio digital. Desde a procura pelos processos nos sites dos tribunais de justiça para a criação de uma base de dados, ao uso de plataformas como Atlas.ti, Notion, Gemini e ChatGPT como auxiliares de pesquisa. O presente trabalho é uma tentativa de fomentar o debate metodológico sobre a etnografia com documentos no momento de grande transformação tecnológica atual, com o a consolidação da Inteligência Artificial Generativa.
CASTRO, Celso (Org.). Evolucionismo cultural: textos de Morgan, Tylor e Frazer. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. (Coleção Antropologia Social).
FERREIRA, Leticia. Encontros etnográficos com documentos burocráticos: estratégias analíticas da pesquisa antropológica com papéis oficiais. Etnografías Contemporáneas, San Martín, v. 8, n. 15, p. 142-168, 2022.
-
“We do not support or condone this person’s action”: notas etnográficas sobre os sentidos atribuídos à violência por comunidades de celibatários involuntários (incels)
— Kayah Nicholas de Souza
— Kayah Nicholas de Souza
Esta comunicação aborda uma lacuna nos estudos sobre celibatários involuntários (incels): as significações situadas da violência. Para além das análises sobre a fricção entre o sujeito incel e seu(s) “outro(s)” (Brzuszkiewicz, 2020), de suas estratégias de adaptação de comunidades aos regimes de controle da plataformas (Gillet & Suzor, 2022), pergunta-se: o que é denominado e significado enquanto violência para essas pessoas? Partindo de uma etnografia digital em andamento, baseada no extinto fórum r/Braincels (Reddit, 2017-2019) e na IncelsWiki, enciclopédia colaborativa feita por e para incels, argumento sobre o modo como a blackpill – corpus discursivo baseado em uma crença fatalista na determinação biológica da hierarquia sexual – instaura uma ontologia marcada por um processo de dessubjetivação. E desta ontologia deriva um regime de conhecimento no qual a violência se torna o signo paradigmático para uma interpretação da ordem social e o lugar do sujeito nela. Embora desautorizada em enunciados públicos, a violência é simultaneamente compreendida no registro interno das comunidades analisadas como um produtivo gesto de agência em um mundo deterministicamente fechado: um ato que confere inteligibilidade à experiência de rejeição e constrói um "mundo possível" através de narrativas conspiratórias e hipóteses científicas levadas ao extremo. Por outro lado, a violência é percebida como uma improdutiva confirmação terminal da impotência do sujeito, mero sintoma de uma ordem biológica imutável que o anula. Nesse contexto, a violência parece emergir como um recurso para mediar essa contradição: um gesto último de agência (produtivo) e uma confirmação terminal da impotência (improdutivo). Esta dupla valência do signo constitui uma possível lente para compreendermos os sentidos atribuídos aos gestos violentos de incels por si e seus pares e, de modo mais abrangente, a sua própria experiência do mundo. O trabalho visa, assim, contribuir para os debates em Antropologia Digital e Ciência, Tecnologia e Sociedade (CTS) ao explorar como ontologias marginais fundamentam a constituição epistemológica da violência em ambientes digitais marcados por discursos extremos.
-
Aplicativos de monitoramento do cliclo menstrual, o robô e eu - um ensaio feminista sobre metodologia de pesquisa com uso de IA
— Larissa Pelúcio
— Larissa Pelúcio
Este trabalho apresenta uma reflexão metodológica sobre o uso da inteligência artificial em pesquisas etnográficas feministas no campo da Antropologia Digital. A partir de uma investigação em curso sobre aplicativos de monitoramento do ciclo menstrual, com foco na plataforma Flo, analiso como sistemas algorítmicos e modelos de IA atuam na produção de saberes sobre corpo, saúde e subjetividade, configurando-se como actantes em redes sociotécnicas atravessadas por relações de poder. A pesquisa articula etnografia digital, análise da arquitetura da plataforma e uma experimentação metodológica que incorpora o uso sistemático do ChatGPT como interlocutor crítico de pesquisa. Ao colocar em diálogo duas inteligências artificiais com lógicas distintas, o chatbot fechado e normativo da Flo e um modelo generativo de linguagem, examino como diferentes regimes de conhecimento algorítmico produzem classificações, previsões e normatividades sobre o ciclo menstrual, redefinindo fronteiras entre normalidade, risco e cuidado. Inspirada por contribuições dos feminismos do Sul Global, do data feminism e da antropologia das ciências e das técnicas, a proposta trata a inteligência artificial não como instrumento neutro, mas como infraestrutura sociopolítica marcada por opacidade, interesses econômicos e assimetrias de gênero. Argumento que a incorporação crítica da IA como parte do próprio dispositivo metodológico permite explicitar as condições de produção do conhecimento antropológico em contextos de plataformização da vida e de dataficação dos corpos. Ao tensionar as promessas de autonomia e cuidado oferecidas pelas plataformas digitais com processos de vigilância, medicalização e biocapitalismo, a análise contribui para os debates da Antropologia Digital ao propor a IA simultaneamente como campo empírico, desafio metodológico e problema político para a pesquisa antropológica contemporânea.
-
Os usos da IA e a plataformização da vida privada e doméstica: "folhetins digitais" e a retomada da "ética romântica"
— Laura Graziela Gomes
— Laura Graziela Gomes
A comunicação apresenta resultados iniciais de pesquisa sobre narrativas digitais produzidas com Inteligência Artificial e veiculadas em canais do YouTube. A partir da análise de 200 podcasts, realizou-se uma classificação preliminar dos temas recorrentes nesses "folhetins digitais". Observou-se forte presença de uma "ética romântica" carregada de emoções e sentimentos.
Ao retomar Weber, Campbell (1987) propôs que a ética protestante na Europa ao mudar as práticas de leitura, provocou a ascensão do romance, enquanto este gênero narrativo transformava a própria vida privada no Ocidente. Nossa proposta pretende argumentar que o capitalismo de plataforma contemporâneo reatualiza disposições morais e afetivas, hoje identificadas como conservadoras, especialmente quanto a escolhas sexuais, casamento e vida familiar. O material empírico confirma essa tendência e revela "estratégias narrativas românticas" direcionadas a jovens e adultos que, mais dependentes das plataformas digitais para desenvolver seus projetos de vida, buscam equilibrar trabalho, carreira e mobilidade social com relações afetivas marcadas por intensas expectativas românticas. Assim, afetos, sentimentos e sexualidade são experimentados sob condições intensificadas de mediação algorítmica, revelando como a plataformização opera na reconfiguração da esfera íntima, privada e doméstica.
Palavras-chave: folhetins digitais; inteligência artificial; ética romântica; plataformização; capitalismo de plataforma
-
O "ser criativo" na era da inteligência artificial: contribuições da antropologia para a agenda de pesquisa em "cibercriatividade"
— Liliane Moreira Ramos
— Liliane Moreira Ramos
A conceituação de criatividade vem sendo objeto de interesse de diferentes campos disciplinares desde a primeira metade do século XX e, em linhas gerais, cumpriu um percurso teórico que avançou de visões centradas no indivíduo, em suas competências e motivações pessoais, para uma abordagem chamada de sócio-cultural, que considera que a criatividade é resultado da interação entre as pessoas e o mundo, enfatizando as influências do meio em todas as dimensões do processo criativo (Glăveanu, 2020; Zamana, 2021). Nos últimos anos, a popularização e a intensificação do uso das inteligências artificiais (IA) generativas tem provocado novo tensionamento neste campo. Trato aqui a IA como o sistema sociotécnico que permite criar soluções, conteúdos e informações novas a partir de dados armazenados em grandes bases, com a utilização de Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs), entre os quais os populares ChatGPT, Gemini e MidJourney (Hessel, 2023). Em 2025, um grupo de 30 pesquisadores do campo da criatividade, de diferentes origens disciplinares, reuniram-se para propor um decálogo de desafios de pesquisa em torno do conceito de cibercriatividade - que definem, de forma ampla, como as formas de colaboração humanoIA - a partir do que identificaram como um desafio urgente e dramático para a humanidade: como podemos maximizar os benefícios da IA minimizando, ao mesmo tempo, os riscos associados? (Corazza et al., 2025). Os domínios mais presentes nesta discussão incluem a psicologia (área de origem dos esforços teóricos), a educação, as artes e as áreas de gestão, sendo a antropologia ainda estranha aos debates. Neste trabalho, examino os pontos elencados na agenda de pesquisa liderada por Corazza à luz da teoria antropológica, particularmente dos estudos relacionados à tecnologia e à economia, a partir de abordagens que contemplam a compreensão de contextos marcados por novidade, instabilidade e incerteza. O objetivo, exploratório, é contribuir com o exercício de três dos aspectos levantados: i.os enquadramentos teóricos, que tomam os artefatos tecnológicos como portadores, mas não produtores de cultura, o que implica em frameworks centrados no humano e adaptados à realidade atravessada pela IA; ii. o processo criativo, ainda descrito com etapas bem definidas, desempenhadas hora por humanos hora por máquinas, em um esforço de cristalização artificial de uma relação que já se apresenta de forma fluida e contínua (Floridi, 2015); e iii. as discussões éticas, que, se demonstram preocupação com a extensão da rede de associações (Latour, 2012) de que a IA faz parte em aspectos como a autoria, em outros, como sustentabilidade, ainda não se debruçam sobre as implicações que uma análise de rede mais extensa e profunda poderia oferecer.
-
Consumo gamer: estética, construção de si e troca de "valores" em um grupo de Facebook.
— Lucas Paulino Marinho
— Lucas Paulino Marinho
Comprar, vender e trocar componentes eletrônicos (majoritariamente peças de computador) revelam dinâmicas sobre a relação entre indivíduo e objetos, que transcendem a dimensão puramente monetária. A compra, a montagem e a utilização de tais bens perpassam construções complexas de sentido que demarcam a solidez ou fragilidade do que é ser gamer nestes contextos, alteram as noções sobre o valor desses componentes, e, ainda, sugerem uma relação de autoconstrução entre o gamer e o seu "setup". Observo que este espaço digital sugere um tipo específico de sociabilidade, que se dá no compartilhamento dessas experiências, entre indivíduos e objetos. Este artigo surge como extensão de minha pesquisa de mestrado já concluída, e objetiva analisar tais dinâmicas no "Grupo para pessoas pobres com computadores ruins 5.0" do Facebook, especificamente por meio de capturas de tela de publicações e comentários - nos quais os membros do grupo apresentam seus setups e componentes comprados - trocando percepções, leituras e avaliações uns dos outros. Devido ao tom jocoso encontrado nas publicações e ao nome sugestivo do grupo, comumente o termo setup de pobre é utilizado para descrever os hardwares ali apresentados, mas nem sempre de maneira óbvia. Há a manipulação de uma "estética gamer", assimilada nas trocas entre os indivíduos no campo de estudo, que influencia diretamente o "valor" (subjetivo e pecuniário) dos objetos expostos. Um setup de alto valor pecuniário, ao gerenciar mal tais noções estéticas, pode ser avaliado como "feio" ou "de pobre". E contrariamente, um setup de baixo custo médio, mas que utiliza bem os valores estéticos desta comunidade, pode ser visto como "bonito", e não são raras as ocasiões em que os membros utilizam tais noções estéticas para imputar um valor monetário mais alto do que o condizente a um hardware que se pretende vender. Em ambos os casos, a avaliação do setup também constrói quem aquele indivíduo é no contexto pesquisado. Um aspecto central da dinâmica do grupo reside na "evolução do setup": no qual os membros publicam fotografias que remontam à trajetória temporal de seus hardwares, dividindo-a em um momento inicial, em que o setup ainda é pouco estruturado, "feio"; um momento intermediário, no qual o indivíduo consegue fazer aprimoramentos consideráveis, mas ainda longe da satisfação; e um terceiro momento, mais atual, em que o setup atinge a maioria dos critérios estabelecidos pelo indivíduo, mas ainda não todos, indicando novos anseios. Ao remontar assim uma trajetória e construção de si, com sonhos e projetos de vida que se encontram ou não com o que é ser "gamer".
-
Consentimento na palma da mão: relato sobre procedimentos éticos no registro de consentimento livre esclarecido em uma etnografia digital
— Matheus Madson Lima Avelino, Maria Angela Fernandes Ferreira
— Matheus Madson Lima Avelino, Maria Angela Fernandes Ferreira
A internet, enquanto campo de pesquisa, amplia as fronteiras metodológicas para a produção de dados no e sobre o digital, borrando os limites entre o online e o offline e possibilitando compreensões mais complexas sobre modos de vida que se constituem nos cotidianos do virtual e fora dele. As múltiplas possibilidades metodológicas da pesquisa no digital implicam, igualmente, cuidados éticos específicos em relação aos dados produzidos e aos interlocutores. Este trabalho apresenta estratégias metodológicas adotadas em uma etnografia do trabalho sexual em plataformas digitais, desempenhado por homens, refletindo sobre ética, método e produção de dados na antropologia digital e em sua interface com a saúde coletiva. A pesquisa busca compreender como esse tipo de trabalho influencia os processos de produção de saúde-doença e de cuidado, a partir das trajetórias de homens engajados no que se nomeia, como termo êmico, produção de conteúdo adulto. Uma questão central refere-se ao registro do consentimento dos interlocutores. Embora as recomendações éticas brasileiras tradicionalmente indiquem o uso de termos de consentimento assinados presencialmente, a pesquisa no digital demanda formas alternativas de registro, desde que assegurados o esclarecimento sobre riscos, benefícios e direitos dos sujeitos da pesquisa. Considerando a ausência de encontros presenciais e a necessidade de transparência e registro do consentimento, foi elaborado um formulário eletrônico para preenchimento online, após explicação prévia realizada pelo pesquisador em um contato por chamada de vídeo. O formulário foi construído na plataforma Typeforms, escolhida por seu layout responsivo e adequado ao uso em smartphones. Organizado em etapas condicionais, com a apresentação de uma pergunta por vez, o formato favorece maior atenção e engajamento, em contraste com formulários extensos. As etapas incluem a apresentação dos objetivos da pesquisa, dos procedimentos metodológicos, o preenchimento do registro de consentimento, a indicação dos tipos de dados autorizados, a descrição de riscos e benefícios, as informações do comitê de ética e a declaração do pesquisador. Ao final, uma cópia do formulário é enviada automaticamente ao e-mail do participante, garantindo o acesso contínuo às informações do consentimento. Conclui-se que o uso de dispositivos digitais de consentimento configura uma prática ética situada e viável em pesquisas realizadas em campo digital. A articulação entre o formulário eletrônico de preenchimento assíncrono e o momento síncrono de esclarecimento ampliou as possibilidades de consentimento informado na pesquisa, preservando a centralidade da relação pesquisadorinterlocutor e reafirmando o caráter relacional e processual da ética na pesquisa.
-
Campo em 3 atos - feed, casa e rua: "como fazer" experimentações em Antropologia Computacional para rastrear agenciamentos das novas direitas
— Patricia Pereira Pavesi, Julio Cesar de Oliveira Valentim, Caren Alexssa Machado Ferreira
— Patricia Pereira Pavesi, Julio Cesar de Oliveira Valentim, Caren Alexssa Machado Ferreira
Esta comunicação apresenta, em chave metodológica, como conduzimos uma pesquisa de antropologia computacional orientada por uma xenoantropologia: seguir, de modo situado, agenciamentos mais-que-humanos (plataformas, métricas, algoritmos e infraestruturas) que coproduzem a cena política. O caso toma como campo a organização e a circulação de sentidos em torno do Partido Liberal Mulher/ES, articulando observação participante, entrevistas e análise computacional de dados digitais e públicos.
O protocolo foi estruturado em três etapas integradas. (1) Observação “lurker” no WhatsApp: acompanhamento prolongado de grupos e listas, com registro de episódios, sequências de interação, variações ao longo do tempo e padrões de circulação (links, imagens, chamadas à ação), produzindo diários de campo e rastros digitais. (2) Etnografia presencial: participação em encontros do Partido Liberal Mulher e em manifestações de rua, combinada a entrevistas em profundidade com eleitoras de direita, para reconstituir trajetórias, repertórios e controvérsias. (3) Etnografia digital no Instagram, em dupla chave: artesanal (seguimento manual de perfis, hashtags e narrativas visuais) e automatizada (coleta estruturada de posts, metadados e interações), permitindo comparar mudanças de performance, engajamento e circulação entre contextos.
As três etapas foram trianguladas com dados públicos do TSE (candidaturas, resultados e atributos eleitorais) para contextualizar atores e eventos e para construir “pontes” entre campo presencial, chats e plataforma. A combinação desses materiais sustenta, simultaneamente, a composição de relatos etnográficos por episódios e a realização de análises computacionais (exploração, classificação e modelagem de textos/imagens e redes), explicitando decisões de amostragem, tratamento de ruídos e validação interpretativa.
Como dispositivo de interpretação coletiva e devolutiva, realizamos uma Escola de Inverno de Antropologia Computacional, reunindo pessoas pesquisadoras seniores e pós-graduandas para trabalhar sobre os dados consolidados, propor leituras possíveis, testar hipóteses e refinar o protocolo de integração entre etnografia e métodos digitais.
-
"Não falo nada, só observo": ponderações ético-teórico-metodológicas sobre o lurking em pesquisas digitais
— Steyce Dayane Lopes, Giovanna Gabriela Moreira de Oliveira
— Steyce Dayane Lopes, Giovanna Gabriela Moreira de Oliveira
Este trabalho mobiliza o lurking como método de pesquisa empírica em ambientes digitais, compreendido como uma modalidade de observação não intrusiva, sem a intervenção direta do pesquisador no campo. Com essas características, o método permite a inserção em contextos digitais marcados por polarização discursiva, nos quais a interação poderia produzir barreiras de acesso, exclusões ou alterações no comportamento dos atores em função da presença do pesquisador. Em contextos marcados por vulnerabilidades, vigilâncias ou assimetrias de poder, a observação silenciosa também se configura como um caminho metodológico relevante.
Contudo, essa postura metodológica evidencia dilemas éticos e epistemológicos relacionados à posição do pesquisador, à gestão da visibilidade e às fronteiras entre o público e o privado nas plataformas digitais, exigindo uma reflexão ética situada. Diante disso, o objetivo geral deste estudo é refletir criticamente sobre as potencialidades, limitações e desafios do lurking enquanto procedimento deliberado da investigação socioantropológica em mídias digitais, deslocando-o da condição de prática espontânea dos usuários para analisá-lo como técnica metodológica planejada e submetida a critérios éticos rigorosos.
O trabalho interroga questões centrais à pesquisa em ambientes digitais, tais como: em que medida a observação “à espreita” pode ser compreendida como uma forma legítima de imersão etnográfica, especialmente em contextos nos quais a exposição do pesquisador implica riscos? Como sustentar uma postura ética diante de sujeitos que desconhecem sua condição de participantes da pesquisa? E de que modo a invisibilidade do pesquisador pode produzir assimetrias de poder ou vulnerabilidades adicionais aos atores observados?
Empiricamente, o artigo mobiliza 3 experiências de pesquisa que ilustram diferentes contextos de aplicação da postura lurker: (i) um estudo sobre usos da internet por mulheres de classes populares no Brasil, precedido por observação silenciosa no site Bolsa de Mulher; (ii) uma investigação do BookTok LGBTQIAPN+, o qual é voltado à circulação de conteúdos literários e afetivos em contextos de vigilância familiar; (iii) a análise de discursos e práticas da extrema direita brasileira sobre o (anti)aborto, permitindo problematizar desafios como a segurança do pesquisador, a exposição de dados sensíveis e os limites da anonimização em plataformas altamente indexáveis.
O trabalho argumenta que a observação silenciosa exige um compromisso ético reforçado devido à invisibilidade do pesquisador no campo. Sem pretender estabelecer um manual de condutas, oferece pistas para o uso do lurking em pesquisas em redes digitais, contribuindo aos debates teóricos, metodológicos, éticos e políticos da Antropologia Digital.
-
Entre a TV e o Digital: Transformações das Transmissões Esportivas na Plataforma YouTube
— Thais Farias Lassali
— Thais Farias Lassali
Em outubro de 2022, a FIFA firmou parceria com a empresa brasileira LiveMode para transmissão digital da Copa do Mundo, permitindo que 22 jogos fossem exibidos gratuitamente no canal CazéTV no YouTube. Criado em uma parceria entre a LiveMode e o streamer Casimiro Miguel, a CazéTV é atualmente o maior canal de esportes brasileiro do YouTube, contando com 24 milhões de inscritos, sendo apenas um exemplo, dentre outros, de como a transmissão de eventos esportivos (e o próprio jornalismo esportivo, de modo geral) têm, cada vez mais, ganhado espaço em plataformas de vídeo, especialmente no YouTube. A título de exemplo, recentemente, a Globo, maior empresa de comunicação do Brasil, abriu seu próprio canal de YouTube focado em transmissões esportivas. Até então a exibição desse tipo de evento estava concentrada em canais televisivos, conformados pelas constrições específicas da radiodifusão e do fluxo contínuo de exibição das redes televisivas (Williams, 1974).
No decorrer das últimas décadas, com a contínua plataformização da internet (Van Dijck et al, 2018), o YouTube foi se tornando cada vez mais cotidiano na vida dos usuários. tendo sido responsável por 16% do tráfego global de internet em 2024, segundo dados da Forbes (2025). De maneira concomitante, a plataforma passou a monetizar a exibição de vídeos, repassando parte da arrecadação dos anúncios para os criadores de conteúdo. Ao mesmo tempo, o conteúdo disponibilizado na plataforma foi se profissionalizando, com cada vez mais produtoras investindo tempo e dinheiro para produzir vídeos e lives, a ponto do modo de consumo mais comum da plataforma ter se tornado a televisão. Segundo o próprio YouTube, “mais de 80 milhões de pessoas no Brasil [assistem] ao YouTube na TV”, o que justifica a intenção da plataforma de ser “o palco para os maiores momentos culturais, seja no esporte, na música ou no entretenimento”.
Tendo em vista tudo que fora explicitado, a presente comunicação oral tem como objetivo debater as especificidades, as modulações e as transformações pelas quais transmissões esportivas e do jornalismo esportivo enfrentam ao serem veiculadas especificamente no YouTube. É possível perceber uma dupla influência na criação desse tipo de conteúdo: grandes empresas de mídia e de comunicação, ao ocuparem o espaço digital, adaptam sua forma de comunicação à linguagem mais corrente no YouTube, ao mesmo tempo que tentam mimetizar formas comunicacionais mais tradicionais, como aquelas comumente veiculadas na televisão. Essa mistura de linguagens aponta para o encontro cada vez mais imbricado entre jornalismo e entretenimento e revela como tais empresas têm lidado com os avanços e a mediação das tecnologias de comunicação, em um contexto de reconfiguração das produções culturais (Poell et al, 2021).
Coordenação
Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (USP)
Regina Lúcia Teixeira Mendes (INEAC/ UnB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Regina Lúcia Teixeira Mendes (INEAC/ UnB)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer (USP)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Theophilos Rifiotis (UFSC)
Este GT privilegiará trabalhos, preferencialmente etnográficos, voltados para a descrição densa de práticas e concepções de atores sociais engajados em dinâmicas que envolvam: 1) a produção de provas judiciais, 2) narrativas de fatos e seu registro em peças judiciais, 3) a formação da convicção de juízes(as) e/ou jurados(as), 4) disputas argumentativas em que sentidos e juízos morais compõem decisões judiciais, 5) práticas judiciais e extrajudiciais operantes em diferentes instâncias do sistema de justiça. O GT também pretende acolher pesquisas em que haja discussões teórico-metodológicas voltadas para concepções de igualdade jurídica e de tratamento no sistema brasileiro de administração de conflitos, com destaque para o sistema judicial. A utilização do método comparativo em análises de diferentes sistemas nacionais e/ou internacionais será bem-vinda. Por fim, serão acolhidas pesquisas que identifiquem, principalmente em tribunais, a utilização de distintos critérios na condução de procedimentos semelhantes e instabilidades semânticas relativas a aspectos processuais centrais, ou seja, trabalhos que analisem confrontos entre diferentes concepções de igualdade e constatem arbitrariedades nos desfechos das causas, de modo que o sistema de justiça seja questionado ao apresentar e impor seus resultados.
Títulos e Resumos
-
A Violação do Território Sagrado e a Formação da Convicção Judicial: Um Estudo de Caso sobre Intolerância Religiosa e Direitos Culturais
— Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, Yuri Tomaz dos Santos, Iuri Rodrigues da Silva Xavier
— Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, Yuri Tomaz dos Santos, Iuri Rodrigues da Silva Xavier
Em 13 de março de 2024, o Ilé Àse Ojú Oòrùn — comunidade tradicional de matriz africana radicada no município de Caetité, no Território de Identidade Sertão Produtivo, na região sudoeste do Estado da Bahia — foi alvo de um grave ataque ao seu território sagrado. No contexto de processos de especulação imobiliária, empresários promoveram intervenção mecanizada em uma área de mata nativa historicamente preservada pela comunidade, reconhecida como espaço ritual e morada simbólica do Èsù Igbó e do Egúngún Bàbá Ikúláiná. Tal ação configurou não apenas uma agressão ambiental, mas sobretudo uma violação ao patrimônio cultural, religioso e territorial de uma comunidade tradicional, evidenciando a persistência de práticas de intolerância religiosa, racismo estrutural e negação dos direitos territoriais assegurados às religiões de matriz africana no ordenamento jurídico brasileiro. O objetivo geral deste trabalho é analisar a ação violenta perpetrada contra o referido território sagrado e seus desdobramentos jurídicos, de modo a examinar os caminhos institucionais percorridos para a produção de provas, a formação da convicção fática e o registro desses elementos nas peças processuais. Busca-se, ainda, evidenciar as disputas simbólicas, territoriais e econômicas estabelecidas entre, de um lado, uma comunidade tradicional majoritariamente negra e periférica, que reconhece a terra como espaço sagrado e fundamento de sua existência religiosa e cultural, e, de outro, setores da elite econômica interessados no valor mercantil do mesmo território, conflito que revela um hiato estrutural capaz de influenciar, direta ou indiretamente, a formação da convicção (in)parcial do Poder Judiciário. A metodologia adotada consistirá em abordagem qualitativa, de natureza jurídico-documental e empírico-interpretativa. Inicialmente, será realizada a escuta sistematizada dos membros da comunidade tradicional atingida, com o propósito de reconstruir os fatos e compreender os impactos simbólicos, religiosos e territoriais decorrentes da invasão ao espaço sagrado. Em seguida, proceder-se-á à análise integral dos autos do processo judicial, com especial atenção às provas produzidas, às narrativas das partes e à dinâmica da instrução probatória, buscando examinar como o contexto sociocultural e a atmosfera processual influenciam a formação da convicção judicial e a consequente prolação das decisões em primeira instância. Em síntese, ao analisar a produção da prova e a formação da convicção judicial em contextos atravessados por desigualdades raciais, simbólicas e econômicas, esta pesquisa deverá contribuir para o fortalecimento de uma justiça comprometida com a imparcialidade, a proteção e o reconhecimento dos terreiros como expressão legítima do patrimônio cultural brasileiro.
-
Quem tem direito à herança? Pluralismo jurídico e conflitos sucessórios entre os Pepel de Biombo (Guiné-Bissau)
— Balakov Miranda Indi
— Balakov Miranda Indi
Quem tem direito à herança quando normas estatais e ordens costumeiras entram em conflito? A partir da análise etnográfica de um conflito sucessório envolvendo dois primos do grupo Pepel, na região de Biombo, Guiné-Bissau, este trabalho examina como diferentes regimes normativos são mobilizados na disputa pela legitimidade do direito à herança. O conflito emerge no contexto de um pluralismo jurídico marcado pela coexistência, sobreposição e tensão entre o direito estatal, herdeiro da administração colonial, e o direito costumeiro, fundamentado em princípios locais de parentesco, autoridade e ancestralidade.
Tomando o caso como estudo de situação, o artigo analisa as narrativas produzidas pelos atores envolvidos, os argumentos acionados em diferentes arenas decisórias e as formas de prova consideradas legítimas em cada regime normativo. A disputa revela não apenas concepções divergentes sobre herança e filiação, mas também distintos modos de produzir justiça, estabelecer hierarquias morais e definir quem pode decidir. Ao acompanhar a circulação do conflito entre instâncias familiares, autoridades locais e instituições estatais, o trabalho evidencia como o direito é continuamente negociado, interpretado e performado na prática social.
Argumenta-se que os conflitos sucessórios constituem um espaço privilegiado para observar a política do direito em contextos africanos pós-coloniais, onde a igualdade jurídica formal convive com formas diferenciadas de tratamento e reconhecimento. Nesse sentido, o estudo contribui para a antropologia do direito ao demonstrar como processos decisórios e narrativas judiciais são atravessados por relações de poder, história colonial e disputas por legitimidade, colocando em questão noções universais de legalidade e justiça.
Palavras-chave: pluralismo jurídico; herança; antropologia do direito; Guiné-Bissau; Pepel.
-
SAVIGNY NÃO CONHECE O IFÁ: conflitos sucessórios e fundiários nos candomblés do território da Terra Vermelha - Cachoeira/BA
— Cláudio Fonseca de Oliveira
— Cláudio Fonseca de Oliveira
Este trabalho analisa os conflitos fundiários e sucessórios judicializados em comunidades tradicionais de terreiro localizadas no território da Terra Vermelha, zona rural do município de Cachoeira, no Recôncavo Baiano. Trata-se de um território marcado pela presença histórica de terreiros centenários de candomblé, cujas formas de organização interna, sucessão e relação com a terra são orientadas por cosmopercepções africanas e por sistemas normativos próprios, frequentemente designados como "Lei do Orixá".
A pesquisa toma como eixo empírico dois casos emblemáticos: o conflito sucessório envolvendo o Terreiro Erán Opé Oluwá (Viva Deus) e o conflito fundiário entre o Terreiro Ilê Axé Icimimó Aganju Didê e uma empresa do setor industrial. Em ambos, observa-se a intensificação da intervenção estatal por meio de ações judiciais, procedimentos de tombamento e disputas registrais, deslocando para o campo do direito estatal conflitos que historicamente eram resolvidos segundo hierarquias rituais, senioridade, oralidade e pactos comunitários.
Argumenta-se que a judicialização opera como uma arena de disputa entre regimes normativos distintos, na qual a racionalidade jurídica moderna - fundada na propriedade formal, no registro cartorial e na prova técnico-pericial - entra em tensão com territorialidades produzidas por racionalidades não proprietárias, baseadas na ancestralidade, no axé e na ocupação ritual do espaço.
Metodologicamente, o trabalho articula etnografia, cartografia étnica, análise de processos judiciais e fotografia documental, entendida como procedimento de pesquisa e forma de inscrição visual do território vivido. A análise evidencia que, embora a judicialização possa oferecer mecanismos institucionais de proteção aos terreiros, ela também produz efeitos de reterritorialização simbólica, ao submeter esses espaços sagrados a uma gramática jurídica que tende a culturalizar e enfraquecer suas normatividades próprias.
Ao dialogar com a antropologia do direito, da religião e do território, o estudo contribui para o debate sobre pluralismo normativo e reconhecimento das comunidades tradicionais de terreiro, evidenciando os limites do Estado de Direito diante de territorialidades afro-diaspóricas.
Referências
ANJOS, Rafael Sanzio Araújo dos. Territórios invisíveis do Brasil africano. Brasília: IPHAN, 2020.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2003.
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização. Rio de Janeiro: Record, 2001.
UGEDA, Luiz. Geodireito. Belo Horizonte: Fórum, 2014.
-
A letalidade policial no Estado de Goiás: uma análise da chacina do Solar Bougainville
— Ingrind de Andrade Pinheiro
— Ingrind de Andrade Pinheiro
O objetivo desse artigo é discutir a letalidade policial consubstanciada nos chamados "autos de resistência" e chacinas por abordagem policial. Para tanto tomaremos como referência os dados publicados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública, além de outras fontes disponíveis. Parte-se do pressuposto de que a letalidade policial tem como objeto fortalecer discursivamente a ideia de que as instituições policiais estão atuantes e que são intolerantes contra o crime. Com isso temos a construção de uma política focada na morte rotineira de pessoas como forma de manter um determinado modelo de política de segurança ancorada na necropolítica.
-
Dilemas dos profissionais psicólogos na assistência à vítimas de violência de gênero doméstica: etnografia no juizado de violência doméstica no interior do RS/BR
— Iris Fátima Alves Campos
— Iris Fátima Alves Campos
Resumo: Este trabalho reverbera pesquisa etnográfica produzida principalmente desde a observação com participação de longa duração (mais de 10 anos) em Juizado de Violência Doméstica e Familiar de comarca jurídica do interior do RS/BR. Aqui nos debruçamos na presença e intervenção dos profissionais psicólogos que atuam na assistência psico-jurídico-social às situações de conflitos de gênero no ambiente doméstico. Desde a concepção exposta no capítulo V da lei Maria da Penha, os profissionais psi em atuação multidisciplinar devem fazer intervenção técnica fornecendo subsídios aos operadores do direito, por meio de laudos e/ou posicionamento verbal. No conjunto dos casos densamente descritos de assistência às mulheres vítimas de violência de gênero doméstica identificamos várias modalidades de intervenção psi, desde o acompanhamento terapêutico até o monitoramento de riscos ao feminicídio. Constatou-se que estes profissionais se veem em dilema diante do imperativo de proteger a vida das vítimas e respeitar a sua agência (guiada por preceitos morais distintos daqueles que atravessam os profissionais da saúde mental); sendo que a atuação com a população vítima exige dos profissionais uma filiação teórico-ética capaz de dar suporte a saúde mental deles próprios.
Palavras-chave: Assistência psico-jurídico-social. Antropologia do Direito. Violência de Gênero Doméstica. Saúde mental.
-
O TRATAMENTO DISPENSADO AOS POVOS INDÍGENAS NO JUDICIÁRIO: cidadania, reconhecimento e a luta por direitos
— Larissa Carvalho Furtado Braga Silva
— Larissa Carvalho Furtado Braga Silva
A presente pesquisa tem como objeto a autocomposição realizada no âmbito da Ação Declaratória de Constitucionalidade n. 87, instaurada no Supremo Tribunal Federal, que discute a constitucionalidade de dispositivos da Lei n. 14.701/2023. Referida lei restabeleceu, no plano legislativo, a tese do marco temporal para o reconhecimento da tradicionalidade, para fins de demarcação dos territórios indígenas, anteriormente declarada inconstitucional pelo próprio STF no julgamento do Tema 1.031. Após a promulgação da Lei n. 14.701/2023, partidos políticos e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) propuseram ações de controle concentrado de constitucionalidade perante a Corte. Ao receber as ações, o ministro-relator Gilmar Mendes instaurou uma Comissão Especial de Autocomposição, sob o fundamento de que a controvérsia, profunda em suas origens e sistêmica em suas consequências, não seria adequadamente resolvida apenas por meio de uma decisão judicial. Entre agosto de 2024 e junho de 2025, foram realizadas 23 audiências no âmbito da Comissão, com a participação de inúmeros interessados, entre representantes do Estado, do setor produtivo, de entidades da sociedade civil e de organizações indígenas. Todavia, ainda durante a segunda audiência, a APIB retirou-se formalmente da Comissão, denunciando que os povos indígenas vinham sendo submetidos a condições consideradas inaceitáveis e humilhantes, o que pode apontar para a existência de fragilidades e fissuras relevantes no desenho institucional do processo proposto pelo Supremo Tribunal Federal. Diante desse contexto, a pesquisa se propõe a examinar a condução da autocomposição no âmbito da ADC 87 e de suas ações correlatas, com especial atenção ao tratamento dispensado aos povos indígenas. Busca-se compreender se, e de que forma, conceitos como equidade, cidadania e reconhecimento foram mobilizados ou negligenciados ao longo do procedimento, bem como analisar de que modo essa dinâmica repercutiu na construção de um eventual consenso, seja para a efetiva garantia da pacificação social pretendida, seja para o acirramento do conflito em torno dos direitos territoriais indígenas.
-
Interpretar e julgar: Ensaio sobre a produção da decisão judicial na administração de conflitos em perspectiva comparada
— Pedro Heitor Barros Geraldo
— Pedro Heitor Barros Geraldo
Esta proposta consiste num ensaio sobre a produção da decisão judicial na administração de conflitos a partir da comparação de etnografias das práticas de decisão no Poder Judiciário brasileiro; da pesquisa de campo realizada na França entre 2006 e 2011; e das etnografias do Judiciário nos EUA (Cardoso de Oliveira, 2011; Kant de Lima, 2009). O ensaio explora as diferentes categorias para descrever densamente as práticas decisórias: tomar uma decisão no Brasil; prendre une décision na França; e to make a decision nos Estados Unidos.
Interpretar o direito e julgar tem diferentes significados como uma atividade profissional dos operadores do direito. No contexto norte-americano, interpretar o direito significa conhecer os detalhes dos fatos dos conflitos ocorridos para, em seguida, identificar a regra orientada pela doutrina do stare decisis, um brocardo do direito Romano para preservar a decisão já existente para o caso. No modelo do júri, a decisão é feita (to make) a partir dos elementos conhecidos por meio das evidences. As decisões dos juízes norte-americanos são fontes primários de direito. A lei é o resultado tanto do processo legislativo como das decisões nas Courts.
A interpretação do direito no contexto francês é identificar a regra escrita explicitamente na lei mais adequada para os conflitos trazidos aos tribunaux (Geraldo, 2011, 2015, 2023). A decisão é o resultado da escolha de uma regra para regular o conflito. No serviço público da justiça, os juízes devem escolher uma regra previamente estabelecida num leque de opções possíveis ensejado pelo conflito para que o juiz possa prendre et rendre une décision, isto é, pegar e entregar uma decisão aos justiciáveis.
No contexto brasileiro, a interpretação do direito está fundada numa concepção legalista das regras jurídicas que permitem um poder ilimitado de transformação do (1) significado contextual dos fatos ocorridos; (2) das regras de procedimentos organizacionais dos rituais de justiça; e (3) das próprias regras de justiça. Todas estas operações de interpretações ensejam um entendimento próprio e supostamente autônomo dos operadores a quem cabe interpretar e aplicar o direito a partir de uma opinião particular da autoridade que a interpreta. Estas interpretações não estão nunca delimitadas pela literalidade da regra, nem por consensos profissionais amplos sobre seus significados. Todas estas três operações cognitivas ensejam um grande poder sobre a identificação das regras de justiça; das regras de procedimento e da identificação dos fatos estão organizados. Pretendo contribuir para uma teorização das práticas judicias de produção da decisão situando adequadamente as categorias utilizadas pelos operadores do direito e suas consequências em termos de exercício do poder.
-
"Desculpabilização" e Inquisitorialidade: uma etnografia dos procedimentos investigatórios da Polícia Militar do Rio de Janeiro
— Rian Ramalho Diniz
— Rian Ramalho Diniz
Neste trabalho apresento, a partir de uma pesquisa etnográfica nas Promotorias de Justiça Militar do Rio de Janeiro, bem como em perspectiva etnográfica documental, os contrastes observados em procedimentos de investigação militar paralelamente ao inquérito policial executado pela polícia civil. Meu objetivo é analisar de que maneira a inquisitorialidade se manifesta nas investigações da Polícia Militar (PM), com a intenção de compreender como valores, identidades e informalidades remodelam a clássica Tradição Inquisitorial Brasileira, caracterizando um particular fazer inquisitorial que ocorre especificamente no desenrolar do procedimento de investigação. Neste sentido, o fazer inquisitorial diverge da clássica “tradição inquisitorial brasileira”, influenciando a construção de narrativas de culpa, “desculpa” e inocência policial. Procuro demonstrar que a fé pública fundamenta a presunção de veracidade dos depoimentos policiais militares, reordenando critérios inquisitoriais quando as posições de investigador e indiciado são ocupadas por pares, caracterizando o que chamo de "desculpabilização". Enquanto é observado no Inquérito Policial Civil que as ações dos policiais são dotadas de uma ética implícita, permeada por um código de honra ao qual os policiais são instigados a adotar quando colocados diante de criminosos, me esforço aqui para demonstrar que a “ética profissional” se manifesta, de polícia para polícia, a favor deles mesmos. Se de um lado temos uma polícia que incrimina e "pré-supõe" a culpa, de outros temos uma PM que “desculpa” e busca possibilidades que melhor se adequarão a uma defesa implícita, ou mesmo explícita, do PM submetido ao procedimento investigatório. É pontualmente esta defesa que chamo de "desculpabilização", porque não é uma mera intercessão de um PM para com outro, mas uma performance de desconstrução de culpa que, em primeiro momento, existe, e ao longo do procedimento vai sendo desmontada fundamentada em narrativas justificadoras que “expiam” o policial de seus “pecados”. O que pude observar, na maior parte dos casos, é a persistência de uma investigação pré-pautada na versão dos policiais militares, somada a um distanciamento da “vontade de punir”, mas uma punição contra o seu par. A inquisitorialidade não se ausenta nos procedimentos da PM, mas busca outros sujeitos para atribuir alguma responsabilidade.
-
Guerra de Espadas: o conflito de direitos e a resolução de casos complexos envolvendo manifestação da cultura popular.
— Rodrigo Gomes Wanderley
— Rodrigo Gomes Wanderley
A Guerra de Espadas é uma manifestação cultural presente em vários estados situados no nordeste do Brasil, pertencentes ao ciclo junino, estão relacionadas a tríade de santos católicos homenageados neste festejos. No estado da Bahia, especificamente em Senhor do Bonfim, a Guerra de Espadas vem passando por processos de Criminalização e disputas por reconhecimento. A manifestação da cultura popular, sabidamente tem contornos performáticos de violência com encontro de grupos nas ruas nas noites de São João, dia 23 de junho, produzindo queimados. Contudo a partir de 2017, por meio de uma decisão interlocutória do juiz de piso da comarca da cidade, a manifestação passa a ser criminalizada. Com fundamento no art. 16 do Estatuto do desamamento. O magistrado fazendo uma analogia in mala partem definia o artefato pirotécnico como Arma de Fogo. Estava colocado o conflito entre o direito a cultura e outros direitos constitucionais como a propriedade privada e o ir e vir. Mesmo com a proibição ano após ano os Guerreiros saíram as ruas seja manifestando contra a proibição seja para exercitar sua "cultura". Em alguns destes ocorreram confronto entre as forças policiais e o Guerreiros do fogo. Por outro lado, o Estado da Bahia foi condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos pelo caso da explosão da Fábrica de Fogos de artifício em Santo Antônio de Jesus, pela omissão na fiscalização, trabalho insalubre e trabalho infantil. No Ano de 2026 a Associação Cultural dos Espadeiros Bonfinenses e a Prefeitura Municipal de Senhor do Bonfim assinaram Termo de Ajustamento de Conduta, com mediação do Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) visando adequação do artefato e da manifestação cultural junina. Este trabalho visa discorrer sobre a argumentação jurídica que tornou a manifestação cultural crime, mesmo havendo dezenas de outros locais do Estado da Bahia em que a manifestação cultural ocorre, considerando a interpretação extensiva realizada pelo magistrado em matéria penal, e as formas que a sociedade civil, os brincantes e guerreiros, buscaram por meio de mediação institucional, nunca antes buscada pelo poder público, a solução de um caso de difícil solução, já que permeada de tradição, essencialismos e sociotécnicas com fiscalização de órgãos públicos estatais diversos. Sem objetivo de esgotar o debate sobre a questão lançar luz sobre o processo que vem acontecendo nesse exato momento etnográfico.
Coordenação
Leonardo Turchi Pacheco (UNIFAL-MG)
Wagner Xavier de Camargo (UFSCAR)
Este grupo de trabalho (GT) tem como objetivo reunir antropólogas(os, es) e demais cientistas sociais que realizam pesquisas no campo do estudo de esportes, em específico com o desenvolvimento de etnografias, mas não necessariamente. Além disso, visa ampliar espaços de debate e diálogo sobre a “antropologia dos esportes”, subárea do conhecimento que vem se consolidando nos últimos anos, em distintos contextos regionais no Brasil e mesmo na América Latina. Dada a proximidade das Copas do Mundo de Futebol, de homens em 2026 e de mulheres em 2027, este GT privilegiará estudos críticos sobre futebol em suas dimensões hegemônica e plural – os diversos “futebóis”. Neste sentido, serão aceitas pesquisas que abordem as origens da antropologia do futebol, a relação entre futebol hegemônico e “futebóis” plurais, e destas expressões com os marcadores sociais da diferença (gênero, raça, etnia, idade, classe social), a produção de afetos e emoções, as sociabilidades do torcer, a questão dos megaeventos esportivos, as relações políticas e as resistências/coexistências nos diversos espaços deste campo esportivo. Desta forma, este GT tem como propósito contribuir com as reflexões estabelecidas em reuniões pregressas da RBA e RAM, acolhendo trabalhos que abordem os estudos clássicos e contemporâneos da antropologia do esporte/do futebol, em suas múltiplas dimensões temáticas, inter-relacionadas às vivências em torno da modalidade.
Títulos e Resumos
-
A hora delas: gênero e pertencimento em uma torcida chopp carioca
— Ana Caroline Lessa de Oliveira
— Ana Caroline Lessa de Oliveira
O presente trabalho apresenta parte dos resultados obtidos em pesquisa etnográfica desenvolvida no âmbito do mestrado em Antropologia Social da autora, realizada junto ao Grêmio Recreativo Cultural Torcida Fogoró, uma torcida organizada do tipo chopp que apoia o Botafogo de Futebol e Regatas. Ao dialogar com a antropologia dos esportes e com os estudos sobre torcidas organizadas, o trabalho destaca a relevância analítica das torcidas chopp, frequentemente marginalizadas frente à centralidade atribuída às torcidas “de pista” e aos confrontos físicos - além destas categorias, as “barras” também são mobilizadas enquanto agremiações, discutindo aproximações e afastamentos entre as três. No caso da Fogoró, chama atenção sua intensa presença nos estádios - sintetizada no slogan “a torcida que viaja”, como vem se destacando na arquibancada alvinegra, marcando presença em todos os jogos do futebol profissional masculino do clube e também acompanhando outras modalidades esportivas, como as categorias de base, o futebol feminino e esportes olímpicos - e, sobretudo, pela expressiva participação e atuação feminina em sua organização cotidiana e em seus espaços de socialidade e deliberação.
Nesta comunicação concentro-me especificamente na participação das mulheres na Fogoró, a partir do alambique feminino e das trajetórias de algumas interlocutoras de pesquisa - entre elas, Hericão, primeira mulher a ocupar a presidência de uma torcida organizada do Botafogo. Analiso como essas torcedoras constroem legitimidade, exercem liderança e negociam autoridade em um ambiente historicamente (e ainda tão) masculinizado, marcado por códigos de honra, disposições corporais e hierarquias de gênero. Abordo ainda categorias como cuidado, afeto e compromisso emergindo enquanto valores centrais na organização da torcida, tensionando modelos hegemônicos associados à virilidade e à violência física.
Por fim, reflito sobre minha própria posição no campo enquanto mulher, torcedora e pesquisadora, mobilizando a noção de pesquisadora-nativa para pensar desafios metodológicos, éticos e analíticos implicados na produção de conhecimento em um universo marcado pela familiaridade e pelo meu envolvimento afetivo. Argumento que a experiência feminina na Fogoró ilumina outras formas do torcer organizado, contribuindo para ampliar o debate antropológico sobre esporte, gênero, pertencimento e socialidade torcedora.
-
O torcer na Universidade de Brasília: um levantamento analítico do campus Darcy Ribeiro
— Bárbara Ribeiro Perotto, Débora da Cruz Almeida, Yohannes de Mesquita Soares, Maria Fernanda Alves Eduardo, Lucas Cardoso dos Santos
— Bárbara Ribeiro Perotto, Débora da Cruz Almeida, Yohannes de Mesquita Soares, Maria Fernanda Alves Eduardo, Lucas Cardoso dos Santos
O presente estudo busca contribuir com as discussões do GT 023 - Antropologia dos Esportes: questões clássicas e contemporâneas, ao se inserir no debate sobre o esporte como fenômeno social, cultural e político, privilegiando a análise das práticas de torcer e das formas de engajamento esportivo no contexto contemporâneo. Ao investigar o perfil sociodemográfico e as modalidades de envolvimento dos torcedores em um espaço universitário, o trabalho mobiliza marcadores sociais da diferença e evidencia como afetos, identidades e sociabilidades são produzidos e negociados em torno do esporte. Além disso, ao considerar tanto modalidades esportivas hegemônicas quanto expressões e campeonatos esportivos locais e menos visibilizados, a pesquisa dialoga com a proposta do GT de refletir sobre a coexistência entre o esporte dominante e as práticas plurais, contribuindo para a compreensão dos futebóis e dos esportes em suas múltiplas configurações. Busca-se, assim, identificar quais modalidades são mais engajadas entre os estudantes de um campus da UnB e qual a forma mais comum de engajamento entre todos os torcedores; tal categoria estabelecida de acordo com a definição feita pelo Art. 178 da Lei nº 14.597 (Brasil, 2023). Dessa forma, ao articular dados quantitativos com categorias analíticas consolidadas nos estudos do torcer, o estudo aproxima abordagens metodológicas distintas e contribui para o debate antropológico sobre as transformações contemporâneas das práticas esportivas e do torcer.
Para fins analíticos, os perfis dos torcedores serão interpretados a partir do trabalho do sociólogo Richard Giulianotti (2012) com as categorias de identidades contemporâneas de torcedores (para além dos clubes de futebol): Fanático, Fã, Seguidor e Flâneur estas que se alinham baseadas nas oposições binárias quente/frio e tradicional/consumidor. Tal abordagem permite compreender como diferentes formas de pertencimento, consumo e afetividade se manifestam nas práticas de torcer. Além disso, espera-se que a análise contribua para a compreensão do esporte como espaço de produção de sociabilidades, afetos e identidades, oferecendo subsídios para reflexões antropológicas sobre o torcer em suas configurações contemporâneas, ao mesmo tempo em que pode subsidiar a direção do campus e instâncias institucionais na formulação de políticas públicas voltadas ao fomento, à valorização e à ampliação das práticas esportivas no ambiente universitário.
-
Mulheres no apito: relações de poder e trajetórias de árbitras de futebol no Pará
— Carolline Oliveira Palheta
— Carolline Oliveira Palheta
Esta pesquisa tem como tema central as trajetórias de mulheres na arbitragem de futebol no estado do Pará, analisando os processos de inserção, permanência e atuação dessas profissionais em um espaço historicamente marcado por normas patriarcais, masculinidades hegemônicas e desigualdades regionais. Partindo de referenciais da antropologia, dos estudos de gênero e de perspectivas decoloniais, o trabalho investiga como as árbitras paraenses vivenciam e interpretam sua experiência no futebol, bem como os desafios institucionais, simbólicos e sociais que atravessam suas trajetórias.
O objetivo do estudo é compreender de que maneira essas mulheres constroem legitimidade e autoridade no campo esportivo, identificando os obstáculos relacionados às relações de gênero, raça, classe, sexualidade e território, além de analisar como suas práticas podem ser entendidas como performances de gênero e formas de resistência cotidiana. A pesquisa também busca evidenciar como a atuação dessas árbitras tensiona as estruturas de poder do futebol brasileiro e desestabiliza concepções naturalizadas que associam autoridade e competência ao masculino.
A metodologia adotada é qualitativa, ancorada na pesquisa etnográfica, articulando revisão bibliográfica sobre futebol, gênero e arbitragem feminina, levantamento de dados institucionais junto à Confederação Brasileira de Futebol e à Federação Paraense de Futebol, observação participante em cursos e atividades de formação de árbitras, além de entrevistas com dirigentes e árbitras em diferentes estágios da carreira. O trabalho privilegia as narrativas das interlocutoras como fonte legítima de conhecimento, alinhando-se a uma perspectiva crítica que problematiza epistemologias coloniais e valoriza saberes situados.
Ao analisar a arbitragem feminina no contexto amazônico, a pesquisa contribui para ampliar o debate sobre gênero e esporte no Brasil, evidenciando como as trajetórias das árbitras paraenses revelam tanto a persistência das desigualdades quanto as fissuras abertas nas estruturas patriarcais e regionais que organizam o futebol.
-
"Cazá!" Entre o campo e o simbolismo: reflexões metodológicas a partir de uma etnografia das arquibancadas do Sport Club do Recife.
— Ezequiel Fernandes Rosa de Santana, Eliane Anselmo da Silva, Matheus Moisés Araújo da Silva
— Ezequiel Fernandes Rosa de Santana, Eliane Anselmo da Silva, Matheus Moisés Araújo da Silva
O presente estudo propõe uma análise metodológica e narrativa das arquibancadas da torcida do Sport Club do Recife, buscando compreender os fenômenos simbólicos das expressões torcedoras a partir de uma abordagem etnográfica, articulada a reflexões epistemológicas sobre o fazer antropológico em contextos esportivos. A pesquisa parte da compreensão da arquibancada como um espaço marcado por intensidade afetiva, efemeridade das interações e performances coletivas, elementos que impõem desafios específicos ao trabalho de campo e à produção de conhecimento antropológico. A metodologia adotada é qualitativa, fundamentada na etnografia desenvolvida nas arquibancadas e no entorno do Estádio Adelmar da Costa Carvalho, conhecido como Ilha do Retiro, casa do Sport Club do Recife. O trabalho de campo contempla momentos distintos da experiência torcedora, como o pré-jogo, o decorrer das partidas e o pós-jogo, atentando para cânticos, conversas paralelas, gestos, silêncios e formas de interação entre torcedores. Como técnica complementar, mobilizaram-se conversas orientadas, possibilitando aprofundar a compreensão das categorias nativas e das interpretações atribuídas pelos próprios sujeitos às práticas de torcer. Esta etnografia constitui uma continuidade direta do trabalho apresentado na XV Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), em Salvador (BA), no qual predominou a análise iconológica das arquibancadas. Neste novo momento, observa-se um deslocamento metodológico da leitura de imagens para a experiência vivida em campo, enfatizando a presença do pesquisador e seu envolvimento nas dinâmicas observadas. Tal deslocamento implica refletir sobre o lugar do pesquisador, seus afetos, limites e possibilidades de observação, bem como sobre os regimes de verdade mobilizados na escrita etnográfica. O estudo dialoga com autores como Clifford Geertz, Pierre Bourdieu e outros referenciais da antropologia, permitindo uma abordagem interpretativa e crítica das estruturas simbólicas que atravessam o ato de torcer. Ao enfatizar os desafios e escolhas metodológicas da pesquisa em ambientes esportivos, o trabalho contribui para a antropologia do esporte ao fortalecer debates epistemológicos sobre etnografia, performance, simbolismo e produção de conhecimento em contextos de práticas esportivas.
Palavras Chaves: Etnografia, Antropologia do Esporte, Futebol, Simbolismo.
-
Santa Cruz FC sob a perspectiva da Antropologia do Esporte: tradição, raça, identidade e resistência do movimento cultural futebolístico de Pernambuco
— Jullia Alves de Almeida, João Victor Souza de Azevêdo
— Jullia Alves de Almeida, João Victor Souza de Azevêdo
Partindo de uma etnografia baseada na participação observante (Spradley, 1980), este trabalho analisa a torcida do Santa Cruz Futebol Clube nos anos de 2024 e 2025 como continuidade histórica de um projeto coletivo de pertencimento, marcado por tradição, afetos e resistência. A escolha pela participação observante decorre do fato de que a presença em campo antecede a pesquisa: já participávamos dos jogos, da torcida e da vida do estádio enquanto torcedores do Santa Cruz FC, e é a partir dessa experiência prévia que o olhar antropológico se constitui. A pesquisa emerge, portanto, do deslocamento reflexivo de uma participação já existente para uma prática etnográfica sistematizada, na qual o pertencimento não é produzido pela investigação, mas reconhecido, explicitado e analisado. O Santa Cruz é abordado aqui não apenas como instituição esportiva, mas como um movimento cultural pernambucano, cuja singularidade está profundamente ligada à sua relação histórica com as populações negras e pobres do Recife. Reconhecido como o primeiro clube de Pernambuco a ser fundado por pessoas negras, e aceitá-las em seus quadros, construindo assim uma torcida massivamente popular, o Santa Cruz consolidou-se como espaço simbólico de enfrentamento às hierarquias raciais e de classe no futebol. A história do Santa Cruz FC distingue-se no cenário pernambucano por sua postura pioneira na inclusão racial, em um contexto histórico no qual clubes esportivos reproduziam práticas explícitas de exclusão de pessoas negras. Desde suas origens, o Santa Cruz se constituiu como espaço de acolhimento das camadas populares e negras da cidade, convertendo-se em símbolo de democratização do futebol local. A partir da análise documental e do trabalho de campo é notório que a identidade de ‘Ser Santa Cruz’ implica permanecer, resistir e afirmar pertencimento em fases adversas, configurando o clube como prática cultural que extrapola o campo esportivo. Nesse sentido, o Santa Cruz pode ser compreendido como um movimento cultural para além do futebol, articulando raça, classe, território e memória coletiva. O estádio torna-se espaço de produção simbólica onde o corpo negro, a emoção e a voz da torcida constroem uma etnografia viva da cidade. Como antropólogos tricolores, observamos essa continuidade de uma tradição que, apesar dos altos e baixos do desempenho futebolístico, segue sendo transmitida de geração para geração, em um processo de construção de identidade. Filhos/as e netos/as seguem o exemplo dos pais e avós, não apenas por amor ao time, mas porque estão imersos em uma narrativa de resistência e luta que se reforça no cotidiano. O Estádio José do Rego Maciel não é apenas um local de competição, mas um espaço de encontro, de troca de experiências e, acima de tudo, de resistência.
-
"O Brasil hoje é o centro do mundo": Copa do Mundo de 2014 e os discursos de parlamentares do Partido dos Trabalhadores
— Leonardo Turchi Pacheco, Gleyton Trindade, Thiago Rodrigues Silame
— Leonardo Turchi Pacheco, Gleyton Trindade, Thiago Rodrigues Silame
Este trabalho aborda pela perspectiva antropologica em diálogo com a dimensão politica, os discursos dos parlamentares do Partido do Trabalhadores (PT) sobre a Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014. Foram coletados 74 discursos sobre a realização da Copa do Mundo proferidos pelos parlamentares do PT entre 07/02/2013 e 05/08/2014 na fase de comunicação denominada Pequeno Expediente pelo Regimento da Câmara dos Deputados. Destes 74 foram selecionados 52 discursos de parlamentares os quais os Estados sediariam jogos da Copa de 2014. As analises destes discursos foi realizada pelo método interpretativo fundamentado em Clifford Geertz e pelas orientações de Jocelyn Létourneau e Sylvie Pelletier sobre a intepretação de fontes documentais. Desta forma, os achados provenientes dos discursos dos parlamentares do PT apontam para similaridades com a ideologia nacionalista utilizada por generais e pela classe dominante brasileira no período da ditatura militar. Assim, o tema da identidade nacional identidade nacional atravessado por ufanismos econômicos e nacionalistas se tornam centrais, sendo vez ou outra, acrescidas de temas pontuais como o racismo, turismo (sexual) e trabalho infantil.
-
Da Antropologia do Futebol à Antropologia das Práticas Esportivas: tensionamentos na institucionalização de um campo
— Wagner Xavier de Camargo
— Wagner Xavier de Camargo
Este trabalho traça a trajetória do campo de conhecimento relativo à antropologia do esporte no Brasil, com foco na transição de uma “antropologia do futebol” para uma mais ampla e eclética “antropologia das práticas esportivas”. A análise parte dos fundamentos do campo, na década de 1970, passando pela centralidade do futebol como objeto e pelas críticas ao paradigma unívoco de Roberto DaMatta. Destaca-se o processo de legitimação e proliferação temática a partir dos anos 2000, com a diversificação de abordagens e a emergência de novos atores e perspectivas. O estudo ainda enfatiza as disputas narrativas na institucionalização do campo em anos mais recentes, período em que categorias tradicionais são tensionadas pela incorporação de marcadores sociais da diferença, como gênero, raça, sexualidade e deficiência. A noção de “múltiplos futebóis” simboliza essa ampliação, abrangendo práticas de mulheres, grupos LGBTQIA+, pessoas com deficiência e outros grupos, revelando o esporte como um fenômeno complexo e um poderoso índice de transformações sociais e políticas. Conclui-se que essa expansão temática e teórica redefine o campo, promovendo diálogos interseccionais e desafiando leituras canônicas sobre futebol e esporte.
-
"Negro tem que ter nome e sobrenome...": relações jocosas e a tecnologia do riso na racialização do futebol brasileiro- caso Nega Brechó.
— Yordanna Lara Rego
— Yordanna Lara Rego
“Negro tem que ter nome e sobrenome, senão os brancos arranjam um apelido... ao gosto deles” (GONZALEZ, 2018). A advertência de Lélia Gonzalez é uma chave etnográfica para compreender como o futebol brasileiro opera como um dispositivo de racialização em toda sua dimensão, disfarçado sob a aparência do riso. Este trabalho busca desestabilizar entendimentos folclorizantes do futebol como arena democrática, propondo uma análise das relações jocosas entre torcedores e do racismo recreativo como tecnologia simbólica de subalternização das pessoas negras, sustentada pela linguagem do humor e do apelido — que transforma sujeitos em estigmas.
Ancorados nos estudos de Guedes (2010) e Gastaldo (2012), reconhecemos o futebol como fenômeno cultural, mas tensionamos suas abordagens a partir da teoria feminista negra brasileira. Mobilizando os conceitos de dispositivo da racialidade (CARNEIRO, 2023) e interseccionalidade insurgente (AKOTIRENE, 2019), proponho uma reconfiguração crítica do campo antropológico, marcado por epistemologias brancas que neutralizam a dimensão racial.
O futebol é compreendido como um campo racializado, onde o corpo negro, glorificado como ídolo esportivo e/ou torcedor/a símbolo, permanece submetido à caricatura e desumanização. As mulheres negras enfrentam invisibilização e hiperssexualização, evidenciando o entrelaçamento de opressões que a interseccionalidade revela (AKOTIRENE, 2019).
Concluo que pensar o futebol sob a teoria feminista negra é reposicionar perguntas fundamentais: quem tem o direito de nomear? quem tem o direito de rir? e quem continua sendo o alvo do riso? Retomar o “nome e sobrenome” de Lélia Gonzalez é um gesto de insurgência contra a colonialidade que ainda estrutura a cultura brasileira.
Coordenação
Luceni Hellebrandt (UFS)
Márcio De Paula Filgueiras (IFES)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Voyner Ravena Cañete (UFPA)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Marco Antonio da Silva Mello (UFF & UFRJ)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Jose Colaco Dias Neto (UFF)
Diversos grupos sociais que vivem do extrativismo e da agricultura, entre outras atividades – tais como pescadores artesanais e ribeirinhos em geral – foram ou são habitantes de regiões costeiras e historicamente têm sido impactados por diversos fenômenos. A expansão metropolitana, os desastres ambientais de grandes proporções, o turismo em pequena e larga escala, as formas de controle oficial em áreas de interesse ecológico, são alguns processos que vem reconfigurando o uso e a ocupação de territórios costeiros e ribeirinhos no Brasil. Este Grupo de Trabalho tem reunido, de modo bem sucedido, nos últimos anos, pesquisas empíricas e de caráter etnográfico de pesquisadores profissionais e estudantes em diferentes níveis de suas formações que colocam em evidência tensões, disputas e conflitos entre os povos e comunidades tradicionais e os vários modelos de uso e ocupação de territórios ribeirinhos e costeiros. Neste sentido, são aspectos de interesse para discussão as relações sociais, ambientais e estruturas econômicas das populações tradicionais costeiras, e temáticas como invisibilidade e papéis das mulheres nas comunidades, experiências no manejo de ecossistemas, formas de organização política, estratégias de resistência e organizações coletivas para o enfrentamento aos modelos hegemônicos de exploração ambiental, conflitos suscitados por diferentes processos e agentes sociais – sobretudo agências estatais, políticas costeiras, organizações não governamentais e empresas.
Títulos e Resumos
-
Entre a memória e o esquecimento: gestão das águas e tessituras solidárias no enfrentamento da escassez hídrica
— Amanda Brenda Santos Macedo
— Amanda Brenda Santos Macedo
Esse trabalho tem como objetivo apresentar o processo em curso de dissertação em comunidades costeiras localizadas em São Cristóvão, Sergipe, a partir da experiência de campo iniciada em 2023 no contexto da elaboração de um dossiê popular sobre saneamento básico e acesso à água na comunidade Arame 1, no mesmo município. A pesquisa evidencia a desassistência histórica do poder público, bem como a disputa entre forças verticalizadas — como a exploração de petróleo e gás, a privatização do saneamento e a carcinicultura — e dinâmicas horizontais internas à comunidade, que envolvem solidariedades, conflitos e estratégias locais de gestão da água. Diante da precariedade de infraestrutura urbana no território, os moradores são cristovenses dependem de fontes comunitárias e poços artesianos para acesso a água potável, mantidos coletivamente. Recentemente, têm vindo a tona conflitos que revelam fragmentações políticas internas e tensões em torno da gestão da água. Nesse sentido, o estudo mobiliza a categoria de territórios hidrossociais e patriarcado hídrico para compreender a centralidade da água como um território de memória, trabalho e alimento, especialmente para as marisqueiras, majoritariamente mulheres negras e de baixa renda, e enquanto mercadoria para aqueles que promovem disputas socioambientalmente injustas, homens, majoritariamente brancos, em posição de poder. A pesquisa é realizada, sobretudo, a partir de uma abordagem etnográfica que articula assessoria técnica popular, observação participante e diálogo com lideranças comunitárias, destacando o protagonismo das mulheres na gestão cotidiana da água e nas lutas por direitos.
-
Da Lagoa Feia à Lagoa Fea: 25 anos depois do início do trabalho de campo, o retorno de antigas questões
— Carlos Abraão Moura Valpassos, Jose Colaco Dias Neto
— Carlos Abraão Moura Valpassos, Jose Colaco Dias Neto
No ano de 2002 iniciamos nossa pesquisa de iniciação científica com os pescadores de Ponta Grossa dos Fidalgos, um arraial situado nas margens setentrionais da Lagoa Feia, no Estado do Rio de Janeiro. Estudamos as técnicas de pesca, os conflitos ambientais e todo o processo de implementação de políticas sanitaristas na Lagoa Feia ao longo do século XX. Observamos que, a partir das intervenções sanitaristas, a Lagoa sofreu uma aguda redução de sua área, ao passo que as terras das fazendas limítrofes tiveram suas dimensões ampliadas – à custa da Lagoa. Mais de 20 anos depois do início da pesquisa - depois de dissertações, artigos e livros – fomos contatados pela Defensoria Pública para assessorar em uma disputa pelo acesso à Lagoa, mas agora na comunidade de Quilombo da “Lagoa Fea”, nas margens meridionais. No caso, a elevação de um portão por novos proprietários de fazendas no local inviabilizava o acesso à Lagoa, impedindo práticas de sociabilidade e lazer. Neste trabalho, portanto, apresentamos o histórico de redução da Lagoa Feia ao longo do século XX e discutimos os desdobramentos disso na atualidade, a partir da disputa por acesso às águas da Lagoa, ao mesmo tempo que discutimos as possibilidades e limitações de uma “Antropologia Aplicada”.
-
Entre Redes e Memórias: um estudo com pescadores tradicionais de Arraial do Cabo/RJ e suas percepções das mudanças climáticas
— Gabriel de Leles Batista Chaves, Marisa Barbosa araujo
— Gabriel de Leles Batista Chaves, Marisa Barbosa araujo
Este trabalho é fruto de uma pesquisa com pescadores tradicionais de Arraial do Cabo (RJ), cujo objetivo é investigar as percepções desses sujeitos sobre os impactos das mudanças climáticas em suas atividades pesqueiras, articulando saberes tradicionais, memória coletiva e conflitos socioambientais em territórios costeiros. Parte-se da compreensão de que as transformações climáticas não incidem sobre espaços neutros, mas sobre territórios historicamente disputados, atravessados por políticas ambientais, expansão do turismo, pesca industrial, dispositivos de controle estatal e reconfigurações institucionais associadas à Reserva Extrativista Marinha de Arraial do Cabo. A partir de entrevistas em profundidade e observação participante junto a lideranças comunitárias e pescadores reconhecidos como guardiões da memória local, verificou-se que os saberes tradicionais operam como sistemas complexos de leitura dos ciclos naturais, permitindo aos pescadores identificar alterações na sazonalidade das espécies, nos regimes de ventos, nas marés e na previsibilidade das pescarias. Essas percepções, contudo, não se expressam apenas como diagnósticos ambientais, mas como narrativas situadas em disputas mais amplas sobre o uso e a ocupação do território costeiro, envolvendo órgãos ambientais, políticas de conservação, interesses turísticos e formas de gestão tecno-burocrática da Resex. A memória coletiva emerge, nesse contexto, não apenas como registro do passado, mas como dispositivo político de resistência e legitimação territorial, por meio do qual os pescadores reivindicam reconhecimento, autonomia e participação nos processos decisórios que afetam seus modos de vida. Assim, o trabalho aqui proposto evidencia como as mudanças climáticas são interpretadas localmente a partir de experiências de conflito, marginalização e negociação com o Estado.
-
Muruadas são boas para pensar: um circuito aberto de modos relacionais guiado por agenciamentos entre humanos e não humanos.
— Jerônimo Amaral de Carvalho, Eliana Santos Junqueira Creado
— Jerônimo Amaral de Carvalho, Eliana Santos Junqueira Creado
Este trabalho analisa o sistema de pesca de muruada, uma prática tradicional que utiliza a força das marés para capturar camarões na costa amazônica, a partir das interações entre humanos e não humanos na Reserva Extrativista Marinha de Cururupu (MA). Partimos da noção de que a muruada funciona como um nó de agenciamentos entre humanos e não humanos, evidenciando assim um tipo de circuito aberto dos modos relacionais que constituem essa prática. Desse modo, argumentamos que a muruada não é apenas uma técnica de captura, mas inserido em um sistema animista dinâmico, onde pescadores, "povos da maré" se inserem em relações contínuas, descontínuas e negociadas com a maré, os camarões, os apetrechos e o ambiente. Nesse circuito, os modos relacionais de troca, predação, produção e proteção não são estáticos ou excludentes, operando de forma aberta, simultânea e reversível, conforme os contextos de interação. A maré, então se apresenta como uma força e agente que intermedia, ativa e modula essas relações, estabelecendo acordos tácitos que transcendem o domínio puramente humano. Assim, evidenciando tal circuito relacional aberto e simétrico, o estudo busca aliar a análise da técnica deste sistema de pesca a uma análise ritualística e cosmológica da prática. Assim, tal perspectiva nos oferece um aporte fundamental para repensar políticas e acordos de pesca locais, sugerindo a inclusão dos não humanos, como o ciclo das marés, estações do ano, fases da lua, peixes, camarões, produção de sal para salga, ranchos e artefatos de muruadas como partícipes ativos na governança e na gestão dos territórios costeiros.
-
Onde está o Morro do Careca? Relato de experiência da comunidade da Vila de Ponta Negra frente à especulação imobiliária
— Lia Pereira de Araújo e Silva
— Lia Pereira de Araújo e Silva
Este artigo é um relato de experiência desenvolvido na comunidade tradicional da Vila de Ponta Negra, localizada em Natal, Rio Grande do Norte, por meio da atuação do Conselho Comunitário do bairro. Esta experiência é uma etnografia realizada através do método de observação participante, construído através de conversas com rendeiras de bilro, a pescas com quilombolas, juventude negra e LGBT+, como também em assembléias comunitárias, com o objetivo de analisar a percepção das pessoas de como o turismo exploratórios e como suas ancestralidades atuam para resistir ao capitalismo-colonial. A observação e as entrevistas semiestruturadas indicam que a autogestão e a consulta livre, prévia e informada (OIT 169) desenvolvem a solidariedade, democracia participativa e autonomia da comunidade. A análise demonstra como a especulação imobiliária é uma ameaça aos modos de vida, problematizando noções de racismo ambiental, cultura popular e a pesca artesanal e o extrativismo. Conclui-se que as alternativas estão também apresentadas no território, contribuindo para os debates antropológicos sobre amefricanidade (GONZALEZ, 1982) e decolonialidade (QUIJANO). O relato de experiência evidencia que a escrevivência é um caminho para uma antropologia engajada na reparação das comunidades tradicionais.
-
Marisqueiras, rainhas do mangue e guerreiras: contribuições sobre o que é ser marisqueira, a partir de vivências junto a mulheres marisqueiras do Litoral Sul de Sergipe no âmbito do PEAC
— Luceni Hellebrandt, Karoline Coelho Ferreira, Amanda Santos Moura, Brenda dos Santos Jesus, Elienaide Cardoso das Flores
— Luceni Hellebrandt, Karoline Coelho Ferreira, Amanda Santos Moura, Brenda dos Santos Jesus, Elienaide Cardoso das Flores
Este trabalho avança nas discussões que este grupo vem realizando junto com as mulheres marisqueiras de Sergipe, acerca do conceito de marisqueira. A mariscagem é uma das diversas atividades executadas no universo da pesca artesanal e é majoritariamente desenvolvida por mulheres. Discutir as várias possibilidades de “o que é ser marisqueira?” é uma de nossas reflexões enquanto projeto de organização e fortalecimento sociopolítico das marisqueiras do litoral de Sergipe, desenvolvido no âmbito do Programa de Educação Ambiental em Comunidades Costeiras (PEAC), condicionante da exploração de petróleo e gás na bacia de Sergipe/Alagoas como exigência para o licenciamento ambiental federal conduzido pelo IBAMA. Os resultados que trazemos para a discussão neste GT advém de observação participante em atividades realizadas pelo projeto com coordenadoras do Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS), tais como oficinas de mapeamento produtivo em comunidades do litoral Sul de Sergipe, e entrevistas em profundidade com marisqueiras desta região. Neste sentido, destacamos que ser marisqueira compreende uma identidade que invoca o mangue como espaço de existência, um cheiro que fica marcado no corpo e que é referenciado com orgulho da profissão, mas que também reflete a divisão sexual do trabalho no universo pesqueiro. A discussão em torno de um conceito que reconheça as dimensões do que é ser marisqueira fortalece politicamente mulheres marisqueiras na defesa de seus territórios tradicionais.
-
Educação escolar e luta pelo território na comunidade quilombola do Cumbe
— Ozaias da Silva Rodrigues
— Ozaias da Silva Rodrigues
A proposta desta apresentação oral é pensar a relação entre educação básica e gestão territorial na comunidade quilombola do Cumbe, localizada em Aracati, litoral leste do Ceará, pensando os impactos que os conflitos internos e externos têm sobre o desenvolvimento dessa comunidade tradicional pesqueira. Descrevo, com base em pesquisa de campo etnográfica, como os conflitos na comunidade se expressam no cotidiano escolar e fora dele, por meio do olhar de estudantes, educadores, gestores e pessoas da comunidade. O que acontece na escola no caso das tensões entre uma gestão anti-quilombola e alunos quilombolas é um reflexo das disputas pela garantia do uso coletivo da terra, das águas e recursos do ecossistema local. A escola é tomada como ponto de partida para analisar esses conflitos, sendo que a mesma é um espaço estratégico de transmissão de saberes, valores coletivos e processos estatais de reconhecimento territorial. Com base na pesquisa de campo feita entre 2022, 2023 e 2025, os resultados indicam conflitos no ambiente escolar, mas há ações de resistência de crianças e adolescentes quilombolas, bem como de professores/as específicos/as que apoiam a causa quilombola. A escola em questão é a Escola de Ensino Fundamental e Tempo Integral Raimundo Silvério Filho, que mesmo estando em território quilombola não oferta uma educação que valorize essa identidade local, não executando, portanto, o que prega a lei 10.639/2003 de forma a respeitar a identidade étnica dos quilombolas.
-
Da "Zona De Sacrifício" ao Território Governado: Resex Marinhas, Co-Produção e Resistência da Pesca Artesanal no Parque Nacional do Cabo Orange (AP)
— Uriens Maximiliano Ravena Cañete, Voyner Ravena Cañete
— Uriens Maximiliano Ravena Cañete, Voyner Ravena Cañete
Este trabalho analisa RESEX marinhas e manejo pesqueiro como tecnologias sociopolíticas de resistência frente a processos de espoliação e a projetos de desenvolvimento que produzem “zonas de sacrifício” para populações tradicionais. Compreende-se que a criação e a defesa de RESEX não são apenas uma resposta institucional a conflitos ambientais, mas uma estratégia de (re)existência que disputa legitimidades, redefine o que conta como sustentabilidade e fortalece capacidades locais de governança.
A análise parte do histórico cenário de conflito no Parque Nacional do Cabo Orange (AP), marcado pela imposição histórica de unidades de proteção integral, pela pressão de frotas externas e por assimetrias decisórias que empurram práticas locais para zonas de “ilegalidade” ou “tolerância”. A proposição de RESEX e a negociação de acordos de pesca são acompanhadas como arenas onde se constroem provas, alianças e critérios de reconhecimento. Em reunião na Colônia de Pescadores, mapas improvisados sobre a mesa, relatos sobre marés e pesqueiros e a leitura coletiva de trechos do SNUC se entrelaçam: discute-se não só “onde pescar”, mas como falar do território para que ele seja compreendido por outros agentes, tal como do Estado sem perder seus sentidos locais. Em outra oportunidade presenciada em campo, tal como interlocuções entre os agentes envolvidos, ICMBio e Colônia de Pescadores, demanda de dados, informações, cumprimentos de diários de bordo, do outro lado, a reivindicação de que o “direito de pescar” é seu direito de modo de vida.
Este trabalho busca evidenciar que a qualificação dos atores endógenos proporciona instrumentos de enfrentamento e resistência. Para compreender este cenário este trabalho se alicerça no conceito de co-produção e, sobretudo, de co-teorização, pois, mais do que participar da coleta de informações, trata-se de construir conjuntamente diagnósticos e categorias analíticas que fundamentam a defesa territorial. Em oficinas e treinamentos, a sistematização de cadernos de bordo e a organização de bases próprias tornam-se linguagem de enfrentamento, negociação e evidência política, reposicionando a Colônia de “objeto” de política pública a sujeito capaz de argumentar com dados e com teoria situada.
Conclui-se que RESEX e acordos associados podem operar como mecanismos de garantia territorial e afirmação sociocultural, mas sua efetividade depende da densidade organizativa local, de redes de cooperação e de arranjos institucionais que reconheçam a legitimidade de saberes e práticas. Ao final, pergunta-se: em que condições a co-produção/co-teorização fortalece justiça epistêmica e governança bottom-up? Quais obstáculos políticos e econômicos bloqueiam propostas territorializadas?
-
Movências interculturais e transnacionalização de saberes na fronteira Brasil-Guiana Francesa
— Vanda Aparecida da Silva, José Guilherme dos Santos Fernandes
— Vanda Aparecida da Silva, José Guilherme dos Santos Fernandes
A partir de experiências empíricas, junto a pescadores artesanais oriundos de localidades dos Estados do Pará (PA) e do Amapá (AP), na Guiana Francesa, que vivem em condições laborais regulares e irregulares, em períodos distintos (Silva, 2023) observou-se a necessidade de conhecer mais aprofundadamente, tanto do lado francês como do lado brasileiro, as condições de vida de pessoas que vivem em territórios costeiros que são levadas a processos migratórios no âmbito da pesca. A pesquisa em andamento, de abordagem etnográfica e qualitativa, com base na observação participante e pesquisa de arquivo, visa captar as histórias de pescadores que exercem ou exerceram sua profissão na pesca (artesanal ou industrial), em situação de clandestinidade, em áreas de fronteira do Brasil com a Guiana Francesa. Nesta comunicação traremos algumas notas etnográficas, bem como, conteúdos de depoimentos dos sujeitos da pesquisa para nos concentrarmos na discussão acerca dos conceitos de movências interculturais e transnacionalização de comunidades autóctones pesqueiras, notadamente da microrregião do Salgado, no Estado do Pará. Tais reflexões têm a intenção de abordar aspectos destas migrações de trabalho que são confrontadas com as formas de controle oficial (do lado do território Ultramarino francês), especialmente devido à preocupação com a viabilidade da pesca e a gestão e conservação dos recursos pesqueiros e da diversidade biológica marinha, do lado francês. Portanto, se por um lado, observa-se que as atividades das pessoas que circulam por distintos espaços promovem transformações, profundas ou não, e colocam em risco os funcionamentos dos ecossistemas tanto terrestres quanto aquáticos; de outro lado, a preocupação com tais transformações ou ameaças diz respeito à pesca predatória e ao modo como as populações locais de pescadores se relacionam com a biodiversidade. Não obstante, é importante destacar que a circulação dos pescadores brasileiros difunde os seus saberes nos ambientes pesqueiros transnacionais. Podendo favorecer o diálogo através da troca de saberes e fazeres na prática pesqueira, mesmo quando são passíveis de questionamentos (ou desconfianças) diante de outro modelo de uso e gestão do território marítimo, neste caso, o francês. Trata-se de formas de apreensão e construção de realidades em perspectivas distintas e, por isso, têm diferentes situações de aplicabilidade, (...) mesmo que em certos momentos entrem em tensionamento (Fernandes e Fernandes, 2015; Fernandes, 2016). Por isso, mobilizamos o conceito de etnossaberes de forma a agregar os saberes dos pescadores oriundos de comunidades pesqueiras do Estado do Pará, na movência fronteiriça Brasil-Guiana Francesa.
Coordenação
Camilo Braz (UFG)
Taniele Cristina Rui (UNICAMP)
Pessoa debatedora
Carolina Branco de Castro Ferreira (UNICAMP)
Este GT visa reunir pesquisas antropológicas sobre experiências classificadas como "vícios", "adicções", "compulsões" ou "dependências", com foco em socialidades, práticas, agenciamentos, controvérsias, conflitos, fluxos e disputas de sentido. Nos interessam etnografias do particular sobre tais comportamentos em distintos contextos, que revelem como são significados por meio de repertórios simbólicos, conhecimentos, saberes e moralidades, e que problematizem interseccionalidades entre variados marcadores sociais da diferença. Queremos reunir pesquisas críticas de práticas e saberes locais ou tradicionais, e de perspectivas científicas e/ou de profissionais de saúde a respeito dos chamados "vícios", baseadas muitas vezes em nosografias e itinerários terapêuticos que reforçam a patologização e medicalização de comportamentos, alinhando-se a ideais como “força de vontade” e estilo de “vida saudável”. Nos interessa debater categorias classificatórias que dão sentido a tais experiências, tais como “fissura”, “abstinência”, “fundo do poço”, “doença” etc.. E reunir perspectivas que desnaturalizem essas dimensões e as relacionem a contextos de práticas, socialidades, reivindicação de direitos, políticas públicas de cuidado e saberes diversos, incluindo grupos de ajuda mútua, mobilizações sociais, redes de apoio, usos heterogêneos e terapias relacionadas seja a comportamentos classificados como "vícios", seja ao consumo de distintas substâncias em suas mais variadas classificações.
Títulos e Resumos
-
Entre o jogo e o cuidado: apostas online, moralidade e gestão do risco em Campo Grande (MS)
— Aline Correia Antonini
— Aline Correia Antonini
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma etnografia em andamento sobre apostas online entre famílias das classes populares urbanas em Campo Grande (MS), interessada em compreender como sentidos sobre jogo, risco, controle e “vício” são produzidos, negociados e disputados no próprio campo etnográfico. A pesquisa busca acompanhar os modos pelos quais interlocutoras e interlocutores elaboram, nomeiam e enquadram suas próprias experiências com as apostas digitais, em contextos marcados por precariedade econômica, intensa mediação tecnológica e disputas morais em torno do cuidado e da responsabilidade. No campo, categorias como “controle”, “exagero”, “ajuda”, “responsabilidade” e “esperança” emergem como formas nativas de avaliação do risco, frequentemente em tensão com discursos biomédicos, jurídicos e com políticas públicas que enquadram o jogo como problema moral ou clínico. As apostas aparecem menos como vício individual e mais como prática relacional, atravessada por expectativas de cuidado, redistribuição de recursos e pertencimento. A pesquisa evidencia como essas classificações são produzidas situacionalmente, variando conforme gênero, geração e posição familiar, e como disputam legitimidade com narrativas institucionais que mobilizam noções de compulsão, descontrole e patologia. Cenas etnográficas envolvendo o compartilhamento de contas e documentos pessoais, a gestão familiar do dinheiro e as disputas em torno do acesso às plataformas revelam como o risco é socialmente distribuído e coletivamente negociado. Essas práticas se organizam segundo uma lógica próxima à da dádiva, na qual dar, receber e retribuir estruturam alianças frágeis, marcadas tanto por cuidado quanto por tensão. O jogo, nesse sentido, ultrapassa a dimensão econômica e opera como forma de interdependência, sustentando vínculos apesar da possibilidade de perda. O trabalho dialoga criticamente com a noção de biopolítica ao analisar intervenções estatais seletivas, como as restrições ao acesso às apostas por beneficiários de políticas de renda, que buscam administrar riscos e moralizar comportamentos. Essas medidas, contudo, encontram limites nas práticas cotidianas e nas economias morais locais, que frequentemente escapam ou reconfiguram os dispositivos de controle. O trabalho insere-se no debate antropológico sobre experiências classificadas como “vícios”, propondo deslocá-las de uma leitura patologizante para uma análise situada das relações, moralidades e regimes de cuidado que as sustentam. Assim, as apostas online são compreendidas não apenas como problema de saúde ou desvio, mas como prática social complexa, atravessada por desigualdades, afetos e disputas em torno do direito de arriscar, esperar e imaginar futuros possíveis.
-
Manaus nas margens: repressão e cuidado aos usuários de oxi nas ruas do Centro
— Bruno Tadeu Magalhães Moraes
— Bruno Tadeu Magalhães Moraes
O fenômeno da reunião de pessoas para o consumo de substâncias como o crack, formando agrupamentos que vêm sendo chamados de cracolândias, tornou-se particularmente visível nas cidades brasileiras a partir da virada do século XX. Esses espaços passaram a figurar como territórios emblemáticos da relação entre drogas, ações estatais e disputas morais que se adensam na vida das grandes cidades. O texto analisa como pessoas em situação de rua e usuárias de psicoativos ocupam e produzem territorialidades no centro de Manaus, em meio à repressão, intervenções urbanas e moralidades estatais. Três eventos de 2025 estruturam o cenário: a reação ao episódio da “fila da droga” na "Boca da Onça", área conhecida por reunir usuários; a reforma da Praça dos Remédios, com retirada de seus ocupantes – intensificada pelo festival 'Sou Manaus'; e a inauguração, ali próximo, do novo Centro POP, na Avenida Joaquim Nabuco. As ações do poder público resultam em vigilância permanente, deslocamentos forçados e regras informais que restringem a permanência dessas pessoas. A resposta estatal permanece fragmentada e dependente de comunidades terapêuticas, sem políticas consistentes para lidar com a complexidade do consumo e da vida nas ruas.
-
Modelos de assistência em disputa: a produção de cuidado nos CAPS Ad e nas Comunidades terapêuticas a partir dos relatos de usuários de substâncias psicoativas
— Camila Pimentel, Elis Cavalcanti de Almeida Monteiro, Keila Silene de Brito e Silva
— Camila Pimentel, Elis Cavalcanti de Almeida Monteiro, Keila Silene de Brito e Silva
O presente texto analisa as experiências de pessoas que vivenciaram dois modelos de cuidado voltados para pessoas com uso prejudicial de álcool e outras drogas: os Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD) e as Comunidades Terapêuticas (CTs). A pesquisa, de abordagem qualitativa, foi realizada na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) do Recife, por meio de entrevistas com dez participantes que vivenciaram ambas as modalidades de cuidado. A análise temática revelou contrastes marcantes entre os modelos.
Os CAPS AD foram associados pelos usuários a práticas de cuidado pautadas na integralidade, no respeito às singularidades e na construção compartilhada do Projeto Terapêutico Singular. Destacam-se vínculos mais horizontalizados, oferta diversificada de atividades, atuação multiprofissional e valorização da autonomia e do protagonismo dos/das usuários/as. As experiências relatadas evidenciam que o cuidado territorial e a redução de danos possibilitam aos usuários reorganizar a vida cotidiana, acessar direitos e desenvolver estratégias mais seguras e permanentes em relação ao uso de drogas, seja buscando abstinência ou modulação do consumo.
Já as CTs foram descritas como espaços de isolamento, padronização de condutas e imposição de disciplina, trabalho e espiritualidade como pilares terapêuticos. Os relatos apontam práticas coercitivas, punições, restrição de liberdade, imposição religiosa, ausência de equipes qualificadas e desconsideração das necessidades singulares. Participantes relataram vivências de violência física, psicológica, religiosa e institucional, além da percepção de que tais instituições priorizam a moralização e o lucro em detrimento de cuidados embasados em evidências.
A comparação entre os modelos revela a coexistência de dispositivos antagônicos no campo das políticas sobre drogas no Brasil, marcada por disputas políticas, ideológicas, religiosas e econômicas. Enquanto os CAPS AD promovem cuidado em liberdade, as CTs reforçam práticas asilares e violadoras de direitos. Os achados apontam para a necessidade de fortalecimento da RAPS, ampliação da oferta de cuidado territorial e fiscalização rigorosa das CTs. As experiências dos participantes reforçam que políticas pautadas no respeito, na participação social e nos princípios da Reforma Psiquiátrica produzem melhores trajetórias de cuidado e ampliam possibilidades de vida para pessoas que fazem uso de drogas.
-
Memórias da rua: registros etnográficos de feitiço e cura
— Camilla Gomes Nascimento
— Camilla Gomes Nascimento
O presente trabalho apresenta a elaboração dos registros etnográficos audiovisuais e fotográficos entre antropóloga e interlocutora que desde 2018 se encontram pelas esquinas da cidade de Anápolis-GO. Entre distanciamentos e aproximações temporais e geográficas acontece um processo de cura de si mesma ante as violências das rua, o estigma do vício, e o preconceito dirigido à mulher trans.
Interlocutora e antropóloga são companheiras nesse trajeto em uma relação que transcende a pesquisa e se transforma em rede de apoio uma para a outra, mulheres e moradoras da cidade que de modos diferentes enfrentam diversidades e fazem seus próprios caminhos de cura e força, assim a etnografia se revela também um elo comunitário e de autoconhecimento.
Sendo assim, aqui são descritos momentos da produção de um curta memorial da autoria da interlocutora com a parceria de produção desta antropóloga como parte do trabalho de pesquisa de campo de sua tese de doutoramento, tendo em vista mais que um registro formal, mas também um momento reflexivo e memorial dos trajetos de uma mulher outrora em situação de rua e consumidora do crack.
-
Nervos Arriados: a micro-temporalidade do decreto de morte na gestão da vida de uma família periférica teresinense
— Cleiane Pereira Souza dos Santos, Ana Isabela Sousa Oliveira
— Cleiane Pereira Souza dos Santos, Ana Isabela Sousa Oliveira
O texto busca traduzir a experiência de uma mãe que convive com o decreto de morte do filho, ordenado por uma organização criminosa atuante em seu bairro. Aproximadamente desde 2022, em um bairro periférico de Teresina, chegou ao conhecimento de Pituba, por meio de vizinhos, que seu filho Cristiano - que vive com esquizofrenia e é usuário de crack - teve um alvo de morte colocado sobre si pelo regime local de poder, que opera de forma instável e violenta na comunidade. Em um momento de reflexão diante do colapso de seu mundo, Pituba se autorreferiu como uma mulher de “nervos arriados”.
A produção de sentido revelada por esse termo envolve o peso da expressão emocional e a constatação de um estado de adoecimento que não é apenas físico e mental. Trata-se de um esgotamento do corpo decorrente dos esforços contínuos para manter o filho vivo, fruto das dinâmicas socioculturais e da produção de subjetividades desses sujeitos. “Nervos arriados” é o grito de sofrimento, incerteza e medo de uma mãe e de um filho adoecidos, cujos tempos e vidas estão em constante disputa.
Nesse circuito em que a existência é gerida sob ameaça iminente, Pituba empreende uma luta política pelo direito à vida do filho. Para tentar impedir a consumação da morte, ela articula o "empilhamento de escudos burocráticos": laudos psiquiátricos, guias de internação em hospitais públicos e comunidades terapêuticas, receituários médicos e, recentemente, a curatela expedida judicialmente. Tais estratégias de resistências somam-se a peregrinações religiosas e ao enfrentamento de uma vizinhança hostil, da governança armada punitivista e da insensibilidade de familiares que tentam desumanizar Cristiano.
Dialogando com os engajamentos teóricos de Veena Das (2020), os “nervos arriados” condensam um modo de existir que não é apenas um estado emocional, mas uma condição epistêmica que revela a verdade do sistema social: a “violência aniquiladora do mundo” (DAS, 2020), que torna o presente incerto e o passado perturbador. A partir do campo da Antropologia das Emoções, esta proposta busca aproximar-se do trabalho micropolítico dos afetos, atentando para as dimensões morais, religiosas, políticas, econômicas e corporais que estruturam os fenômenos da vida pública (DUARTE, 1988; VICTORIA; COELHO, 2019; KLEINMAN, 1997; SARTI, 2001). Desta forma, arriscamo-nos a investigar as constantes interações de Pituba e Cristiano com o Estado, a família, a vizinhança e o poder local (facção), desvelando a elaboração simbólica que aquinhoa mãe e filho pela posse do tempo presente, ainda que ambos, com seus corpos e nervos arriados, agora busquem viver com o que lhes é dado ser.
-
Relato autoetnográfico de um discente adicto em perspectiva interseccional
— Felipe Carlos Damasceno e Silva
— Felipe Carlos Damasceno e Silva
A adicção é uma doença crônica e progressiva, caracterizada por comportamentos egocêntricos, obsessivos e compulsivos. Apesar do contexto grave de adoecimento mental em nível mundial gerado pelo pós-pandemia do COVID-19, nota-se uma lacuna nas produções antropológicas de abordagens sobre sujeitos acometidos pela adicção em comparação com outras comorbidades mentais, o que reforça a invisilibilização de corpos acometidos por uma doença tão marcada por estigmas sociais. Como adicto, ao longo de uma trajetória de mais de 16 anos de Academia, venho reconhecendo muitos outros sujeitos semelhantes a mim no meio Acadêmico, sejam nas esferas administrativa, discente ou docente. Longe de intentar constranger qualquer sujeito pertencente a um dos grupos citados, neste relato em primeira pessoa, em diálogo com alguns estudos sobre saúde coletiva, masculinidades e sexualidades, pretendo ‘’ colocar para fora’’ trechos de vivências situadas no meio acadêmico e de como a Academia vêm lidando com as minhas especificidades de saúde.
-
A maternidade no acolhimento de mulheres em comunidades terapêuticas religiosas
— Janine Targino da Silva
— Janine Targino da Silva
Este trabalho analisa como a maternidade é mobilizada por Comunidades Terapêuticas (CTs) religiosas no atendimento de mulheres que fazem uso problemático de substâncias e que realizam o acolhimento acompanhadas de seus filhos. O objetivo é compreender como a maternidade é acionada como recurso terapêutico e moral ao longo do período de permanência nessas instituições. A pesquisa fundamenta-se em dados derivados de etnografia, incluindo entrevistas semiestruturadas e observação de campo conduzidas entre 2020 e 2023 em duas CTs, uma de orientação católica e outra evangélica.
A análise foca nos agenciamentos, moralidades e disputas de sentido em torno das experiências classificadas como dependência, investigando como as CTs operam a partir de repertórios simbólicos que vinculam a interrupção do uso à performance de uma maternidade idealizada. Essa construção fundamenta-se em moralidades conservadoras (religiosas e não-religiosas), nas quais a maternidade é acionada não apenas como um marcador social de diferença, mas como um dispositivo capaz de cessar o uso de substâncias por meio da imposição de novos estilos de vida e condutas morais.
O estudo revela que o acolhimento conjunto de mães e filhos nas CTs funciona como um espaço de produção de subjetividades, onde a "força de vontade" para a abstinência é mediada pelo dever materno. Conclui-se que as CTs atuam como instâncias de gestão da vulnerabilidade onde o processo terapêutico é indissociável da conformidade a normas de gênero e família.
-
O campo das Bets em disputa: mapeamento de abordagens e o lugar da Antropologia Digital
— João Ribeiro Kaufmanner
— João Ribeiro Kaufmanner
O presente trabalho analisa a emergência e a capilarização das plataformas de apostas online no Brasil, fundamentando-se em um levantamento bibliográfico que busca elucidar as áreas de pesquisa dominantes e apontar a relativa escassez de abordagens nas Ciências Sociais. Parte-se da premissa de que é necessário escrutinar como a academia tem construído esse objeto de estudo. Observa-se que o tema é majoritariamente abordado sob as lentes da publicidade, da saúde pública, da psicologia comportamental e da criminologia. Nota-se uma tendência de centralizar a análise na patologia do indivíduo (vício), na regulação estatal e na Experiência do Usuário (UX). Contudo, o levantamento aponta que estas áreas de conhecimento, ainda que de forma dispersa, já empregam metodologias oriundas das ciências sociais , como a netnografia e a análise de design de interfaces, para investigar o engajamento dos usuários com as plataformas e as redes de influenciadores. A existência desses trabalhos evidencia a importância e o potencial latente da Antropologia nos estudos do tema, oferecendo ferramentas para analisar dinâmicas que escapam aos vieses clínico e criminal. O trabalho argumenta, portanto, que essa área de estudos seria substancialmente beneficiada por pesquisas atentas às agências tecnológicas e às redes sociotécnicas que compõem esse fenômeno, destacando a Teoria Ator-Rede (ANT) como uma abordagem qualificada para este campo. Conclui-se que é necessário fomentar uma agenda de pesquisa que se contraponha às perspectivas centradas unicamente na patologização dos indivíduos, deslocando o foco para as interações complexas entre os sujeitos e a arquitetura digital e financeira com a qual interagem.
Palavras-chave: antropologia digital; apostas online; Teoria Ator-Rede; redes sociotécnicas; Plataformização
-
"Pé-inchado" e as entrelinhas de uma cidade amazônica no encontro com a diferença
— Luciana Corrêa de Sena Cajado
— Luciana Corrêa de Sena Cajado
Resultado de uma etnografia desenvolvida em Santarém, no estado do Pará, entre 2020-2022, o que apresento a seguir é um recorte da tese de doutorado que buscou compreender as dinâmicas de pessoas em situação de rua, nessa região, e suas relações com instituições e agentes da assistência social e saúde, durante a pandemia da Covid-19. Durante o estudo, observei que havia uma maneira de se referir a pessoa que estava em situação de rua, a qual era produzida a partir das interações locais: “pé-inchado”. Talvez, não exclusiva de Santarém, mas em seu uso popular ali, a expressão vinha da associação entre vida na rua, uso intenso de álcool e seus efeitos corporais. Raciocínio de natureza biomédica que nomeava os corpos que ali estariam na contracorrente da modernização de uma cidade “em desenvolvimento”. Chamava-me atenção que o termo era empregado a despeito do uso da substância. Em campo, cheguei a ouvi-lo não de agentes institucionais, os quais costumavam usar os termos da “Política Nacional para a População em Situação de Rua”, mas entre outras pessoas da cidade - não raro, com uma carga pejorativa quando mencionado. Ou seja, localmente, mais do que uma categoria êmica, ele representava a construção de um estereótipo desse público, no modo como era visto, em sociedade, naquele contexto. Esse dado etnográfico revela alguns dos elementos estruturantes do que foi (e ainda é), historicamente, a relação da sociedade e das respostas do Estado relativas às pessoas em situação de rua, em diferentes locais. Pensar sobre o uso do termo “pé-inchado” aciona literaturas que problematizam outros termos, como “drogado” e “doente mental”. Uso que assume uma dimensão política e, ao mesmo tempo, de acusação moral e médica. Através deles, o aspecto da doença já é dado e, o fato dos acusados serem categorizados como moralmente nocivos, no discurso oficial, em face de seus "vícios” e "desvios”, transforma-os em ameaça. Ademais, reproduzem uma semântica ainda, frequentemente, associada à vida nas ruas e transformada em objeto de generalizações. A despeito dos atributos morais ligados a tais processos de estigmatização, a relação entre sofrimento psíquico, uso problemático de substâncias e a trajetória de rua é uma tríade bastante discutida na literatura acadêmica tanto sob a perspectiva de sua relação com outros processos de adoecimento e morte, em contextos desfavoráveis à vida; como no que há de produção de vida nessa interação. A presença dessa relação ali, porém, destacou-se por aparecer como recurso discursivo na tentativa de, além de nomear, explicar um fenômeno. Simultaneamente, reproduziam generalizações, criavam categorias totalizantes, redirecionavam práticas de cuidado, entre outros desdobramentos de interesse aos debates da antropologia e outras disciplinas.
-
Cognição 4E, vícios e modos de produzir sujeitos
— Marlene Souza dos Santos
— Marlene Souza dos Santos
Neste trabalho, ainda em construção, busco refletir sobre sofrimento psíquico, enquadramento moral e capacidade de agência a partir da observação e das falas de três pessoas entrevistadas em um CAPS AD no interior do Rio de Janeiro. Ao me aproximar das vidas administradas pelas políticas sobre drogas - primeiro no mestrado e agora, já no doutorado - passo a identificar como a produção política de tecnologias de controle dos corpos participa da construção dos sujeitos, interferindo na dimensão pública das subjetividades e nos modos pelos quais certas experiências passam a ser classificadas como "vícios", "dependências" ou "compulsões". Ao longo da pesquisa, o ponto de interrogação "consciência" atravessa as falas de forma insistente, tanto entre profissionais quanto entre usuários da instituição. Essa recorrência revela não apenas disputas morais e terapêuticas, mas também diferentes modos de compreender o que significa "estar consciente", "perder a consciência" ou "recuperá-la" no contexto do uso de substâncias e dos itinerários de cuidado. Daí a necessidade de pensar "consciência" dentro do trabalho, mas de forma alternativa às concepções cognitivistas que a tratam como um processo mental isolado.
Para isso, tomo como norte o paradigma da Cognição 4E - corporificada, situada, enativa e estendida - que permite compreender a consciência como algo que se produz na relação entre corpos, ambientes, substâncias, tecnologias e moralidades. Em vez de localizar o "vício" ou a "falta de consciência" no interior do indivíduo, a abordagem 4E evidencia como tais experiências emergem de engajamentos sensório-motores, de práticas cotidianas, de políticas públicas, de objetos que orientam ações e de redes de cuidado e controle que moldam percepções e possibilidades de agência. Assim, proponho que as experiências classificadas como "vícios" sejam analisadas como processos distribuídos e coproduzidos, nos quais a consciência - longe de ser um estado interno - se constitui na prática, nas relações e nas ecologias morais que atravessam instituições e vidas desses sujeitos. A Cognição 4E, nesse sentido, oferece um arcabouço fértil para compreender como sofrimento, agência e enquadramentos morais se articulam na produção de sujeitos e na negociação cotidiana do que significa "estar consciente" no contexto das políticas sobre drogas.
Palavras-chave: Cognição 4E; vícios; consciência; políticas de drogas; subjetividade; CAPS AD.
-
“É drogado salvando drogado”: o cuidado com a dependência química em uma Comunidade Terapêutica
— Roberta Custodio Cavedini
— Roberta Custodio Cavedini
As Comunidades Terapêuticas (CTs) constituem-se como um modelo de cuidado para sujeitos que fazem uso problemático de substâncias psicoativas, podendo ser diagnosticadas enquanto dependentes químicos. Fundamentadas pelo tripé disciplina-trabalho-espiritualidade são entidades de apoio e acolhimento, sendo residências temporárias. Neste modelo de cuidado, compreendemos que o acolhimento, conjuntamente com a espiritualidade são centrais. A partir da realização de uma etnografia na Comunidade Católica Imaculada Conceição, uma CT localizada na Zona Norte do município do Rio de Janeiro, RJ., que tem como missão: “Nossa missão é evangelizar e restaurar vidas para Deus! (...), levando o amor misericordioso do Pai para resgatar os que estão nas trevas do pecado, fazendo com que todos reconheçam sua dignidade de filho amado de Deus, (...)” (Site CT, 2025). Segundo seu fundador, a Imaculada Conceição é a casa que recebe pessoas que “(...) muitas vezes a família não quer, aqui é a casa de vocês”, sendo, portanto, uma casa onde os acolhidos podem escolher uma “melhor opção” para a condução de suas vidas, isto é, sem o uso de drogas. O modelo de cuidado que é proposto pela Imaculada Conceição incorpora uma parte “técnica”, composta por laborterapia, rodas de conversa com acolhidos, atividades de música, como aula de violão, atendimento com psicólogos e assistentes sociais; e a outra parte, que é a “espiritual”, contempla orações antes das refeições, grupos de orações, palestrar com o Padre da CT e a participação de eventos religiosos, como missas e retiros. Uma das atividades religiosas que pude acompanhar foi a Missa realizada em homenagem à Madre Teresa de Calcutá. A partir da descrição da Missa para Madre Teresa de Calcutá pretende refletir a maneira com que a espiritualidade está inserida nas dinâmicas de cuidado para álcool e drogas por parte da Comunidade Católica Imaculada Conceição, sendo, neste contexto, um fator essencial para o tratamento da dependência química, isto atrelado ao acolhimento. Para além da dimensão da espiritualidade no cuidado com álcool e drogas em Comunidades Terapêuticas, este trabalho busca discutir a maneira com que a figura do dependente químico é descrito pelos dirigentes e Padre neste contexto.
Coordenação
Breno Trindade da Silva (IEPHA-MG)
Mônica Nogueira (UNB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Claudia Luz de Oliveira (UNIMONTES)
O termo Gerais, usado desde o período colonial, refere-se às amplas paisagens campestres que se estendem de norte a sul do país, coincidindo com áreas do Cerrado e Caatinga. Polissêmico, assume sentidos ambientais, históricos, políticos e existenciais. Construído como espaço “sem gente” e de natureza rústica, o Gerais foi interpretado como território a ser convertido aos padrões do mundo dito civilizado, marginalizando epistemologias locais e modos específicos de manejo dos ecossistemas, historicamente submetidos ao colonialismo. Essas percepções ainda estruturam teorias e políticas sobre a região. O deflorestamento para exploração de madeira, agricultura industrial, silvicultura, mineração e energias renováveis intensifica a degradação, levando pesquisadores a alertarem para o risco de extinção do bioma. Convertido em área estratégica de projetos neoextrativistas, o território testemunha a insurgência de grupos nativos que formulam epistemologias próprias e projetam futuros alternativos diante de um modelo civilizatório em crise. A proposta de criar um espaço permanente de diálogo sobre experiências acadêmicas, nativas e existenciais nos Gerais surge em 2024 no VII Colóquio Internacional de Povos Tradicionais e se consolida como Grupo de Trabalho na 34ª RBA. O GT busca articular distintas vertentes epistêmicas presentes no sertão, explorando confluências, tensões e possibilidades de transformação do fazer acadêmico em interação com os sujeitos dos/nos Gerais.
Títulos e Resumos
-
Povos vacarianos em Minas Gerais: identificação, mobilização e conflitos ambientais
— Breno Trindade da Silva
— Breno Trindade da Silva
O presente trabalho analisa a experiência de identificação, mobilização política e assessoria antropológica junto às comunidades vacarianas localizadas na divisa entre o Norte de Minas Gerais e o Vale do Jequitinhonha, em um contexto marcado por conflitos socioambientais e disputas territoriais. Historicamente pouco visibilizadas nos marcos institucionais do Estado, as comunidades vacarianas passam a se engajar politicamente a partir do diálogo estabelecido com comunidades geraizeiras, com as quais compartilham territórios tradicionalmente ocupados, práticas ecológicas e vínculos de parentesco, bem como em decorrência do avanço de grandes empreendimentos minerários na região.
O processo de licenciamento ambiental do Projeto Bloco 8, da SulAmericana de Metais, emerge como elemento catalisador de profundas fissuras na dinâmica sociocultural local, produzindo efeitos não planejados que reconfiguram alianças, conflitos internos e formas de atuação política. Inspirados na noção de “efeitos não intencionais” discutida por Anna Tsing, destacam-se fenômenos localmente nomeados como a atuação dos “piratas do minério”, agentes que intensificam a apropriação predatória dos territórios com a exploração das extensas áreas de cangas antes mesmo da implantação formal do empreendimento.
A partir da atuação da Articulação Rosalino Gomes de Povos Tradicionais, o trabalho examina as estratégias de mobilização coletiva voltadas à identificação territorial, ao mapeamento social e à inserção de lideranças vacarianas em redes sociopolíticas ampliadas. Tais estratégias envolvem oficinas de direitos territoriais, uso de ferramentas como o TICCA e o “Tô no Mapa”, além do fortalecimento de alianças intercomunitárias como forma de ampliar a capacidade de incidência política frente a um cenário de crescente conflito ambiental.
Ao articular assessoria técnica, produção de conhecimento antropológico e engajamento político, o estudo contribui para o debate sobre os processos de emergência identitária, a construção de territorialidades tradicionais e os desafios ético-políticos da antropologia em contextos de conflito e licenciamento ambiental nos gerais do Norte mineiro.
-
O SISTEMA AGROPASTORILEXTRATIVISTA GERAIZEIRO: comunidades tradicionais na Serra do Espinhaço Setentrional, Brasil.
— Carlos Alberto Dayrell, Rômulo Soares Barbosa, João Batista de Almeida Costa
— Carlos Alberto Dayrell, Rômulo Soares Barbosa, João Batista de Almeida Costa
No espaço onde se localiza a Sociedade de Curral do Norte de Minas existem três biomas que em suas bordas transitam entre si, o Cerrado com maior amplitude, a Caatinga e a Mata Atlântica. O manejo que os habitantes dos lugares configuraram seus sistemas agrícolas tradicionais, tendo o gado como princípio organizador, propiciou diferenciações culturais em decorrência dos tipos de vegetação e solos: os Geraizeiros, que descreveremos nesta apresentação, os Veredeiros, os Caatingueiros. os Vazanteiros, os Vacarianos e, finalmente, os Apanhadores de Flores.
No Sistema Agrícola Tradicional Geraizeiro da Tapera os terrenos apresentam diferenciação topográfica e pedológica com etnoagroambientes diversos, que condicionam a distribuição das atividades produtivas. Na porção delimitada pelo córrego Tamanduá concentram baixadas úmidas e tabuleiros, onde se situam as roças, cultivadas no período das águas e alguns piquetes de pastagem. Próximos à casa estão o pomar, o curral, o chiqueiro e a área destinada às galinhas soltas. A montante, ocupando a maior parte da parcela, estendem-se mosaicos de cerrado e caatinga, alternados com antigas mangas de pastagens cultivadas, articulados a extensas áreas de solta em áreas de tabuleiro, chapadas, agrestes e espigões, fundamentais para a criação do gado curraleiro-nelorado, localmente chamado de chapadeiro.
O Sistema Agropastorilextrativista Geraizeiro articula quatro processos ecológicos centrais, uma organização que permite elevada resiliência, eficiência produtiva e continuidade histórica do modo de vida geraizeiro, inserindo os Lotes do Assentamento em uma lógica de uso tradicional adaptado às pressões climáticas contemporâneas no semiárido.
Além disso, o SAT Geraizeiro analisado apresenta estoques elevados de carbono acumulado historicamente e fluxos positivos de sequestro, especialmente no solo, o compartimento mais estável do sistema terrestre. Ao manter grandes extensões de Cerrado sob manejo tradicional, integrar agricultura diversificada, o SAT Geraizeiro que tem na pecuária e extrativismo um de seus eixos estruturantes
O SAT Geraizeiro expressa um sistema de elevada complexidade e sofisticação, com uma enorme capacidade de atualização frente aos contextos socioeconômicos e ambientais em rápidas transformações. Deve ser reconhecido como infraestrutura socioecológica de armazenamento de carbono, de proteção dos ambientes e do patrimônio genético, da produção de alimentos, como práticas estratégicas fundamentais para as políticas de enfrentamento aos efeitos das mudanças climáticas no Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.
-
Múltiplas identidades que se configuram sobre um território de uso em comum
— Clebson Souza de Almeida, Aderval Costa Filho
— Clebson Souza de Almeida, Aderval Costa Filho
A microrregião denominada como alto Vale do Jequitinhonha, embora seja reconhecida politicamente como uma só, sobretudo para fins das ações do estado, possui um notável recorte geográfico entre a porção mais alta do rio - compreendida atualmente como serra, com altitudes acima de mil metros e uma marcante presença das cordilheiras - e o seu segundo degrau, cuja referência topográfica mais nítida é a vasta presença de longas planícies entrecortadas por vales profundos. No que que se refere à sua ocupação histórica colonial, essa região foi foco do processo de mineração do ouro e diamante desde o início do século XVIII, desta maneira, o espaço agrário foi se configurando numa disputa entre negros afrodescendentes, brancos descendentes de europeus e os indígenas locais. Essa configuração histórica fez com que diversas comunidades quilombolas fossem sendo conformadas, mas também, outras identidades cujos modos de vida foram se adaptando às condições do meio geográfico, como as Artesãs de barro e argila em Turmalina e as Groteiras-Chapadeiras em Veredinha. Os modos de vida, a etnicidade e a territorialidade destes grupos vizinhos e aparentados, conformaram identidades distintas e complementares, se referenciando no território de uso familiar e de uso comum, com destaque para a chapada das Veredas. Tais comunidades, cujo marcador étnico racial não é bem definido pela presunção da ancestralidade negra, ocupam e utilizam territórios ancestrais há dezenas de anos. São comunidades tradicionais que vivem entre duas balizas territoriais bem definidas, as grotas e as chapadas da região do Vale do Jequitinhonha, numa área de transição do Cerrado para a Mata Atlântica. Elas se reproduzem social e culturalmente em áreas familiares nos fundos de vales, vãos de córregos e encostas de vertentes. Nessas grotas, os critérios mais valorados por seus moradores são a presença das fontes de água e a disponibilidade de terras férteis para a produção de alimentos. De forma complementar e intrínseca, utilizam para a coleta de frutos, flores, lenha, plantas medicinais, pesca e solta do gado pé duro, as áreas de uso comum localizadas nos planaltos, as chapadas, compostas por grandes extensões de terras planas a onduladas, entrecortadas pelas fontes de águas superficiais das veredas. As comunidades dessa região estão em pleno processo de etnogênese, inspirados nas lutas sociais para a reconquista dos territórios ancestrais expropriados desde os anos 1970. Ao final de 2025 quatro comunidades Groteiras-Chapadeiras conquistaram a certidão de autodefinição junto ao estado de Minas Gerais. As artesãs seguem este mesmo rumo e isso tende a desaguar, ou a irrigar, novas pautas de reconquista dos modos de vida tradicionais, conciliados à restauração e uso sustentável do Cerrado.
-
A construção discursiva dos "vazios" territoriais durante a Marcha para o Oeste varguista: investigação documental no arquivo da Fundação Brasil Central.
— Leandro Barbosa de Lima
— Leandro Barbosa de Lima
A pesquisa de iniciação científica propõe investigar a construção discursiva da categoria de vazio territorial durante a Marcha para o Oeste do período varguista. O objetivo principal é analisar como a retórica política desenvolvimentista se entrelaça com as classificações técnico-científicas produzidas pela Fundação Brasil Central (FBC). Através de etnografia do/no arquivo (Cunha, 2005), os documentos relativos à Colônia Agrícola Nacional de Goiás (CANG) serão analisados e é esperado compreender como as categorias discursivas presentes no imaginário da Marcha para o Oeste se inscrevem nos documentos, paralelamente às classificações técnico-científicas, especificamente aqueles que produzem a categoria de vazio imposta ao Mato Grosso de Goiás durante a instalação da CANG.
-
"Matronas " "cerradeiras": como as raizeiras do Cerrado constroem "relacionalidade"
— Mayra Nascimento Fonseca
— Mayra Nascimento Fonseca
O ensaio apresenta um breve relato etnográfico de visita à casa da raizeira Dona Nenzinha (Maria Madalena Leite), em comunidade rural nos arredores da cidade norte-mineira de Montes Claros, no dia do falecimento do seu parente e vizinho, o mestre Braulino Caetano dos Santos. A partir da observação de uma manhã em que Dona Nenzinha cuida (Puig de la Bellacasa, 2017; Oliveira, 2022) de sua comunidade em luto, o objetivo do texto é articular a ideia de "matronas" (De Melo, 2015) para pensar como as raizeiras do Cerrado constroem "relacionalidade" (Carsten, 2000) em seus territórios.
Coordenação
Rodrigo Oliveira Braga Reis (UFAM)
José Maurício Paiva Andion Arruti (UNICAMP)
Pessoa debatedora
Ricardo Ventura Santos (Fiocruz)
O grupo de trabalho busca explorar as interseções entre antropologia e demografia, destacando como abordagens qualitativas e quantitativas podem ser mutuamente enriquecedoras na análise de populações humanas, com foco especial sobre indígenas, quilombolas e outros PCTs. Esperamos com este GT discutir os múltiplos papéis das categorias censitárias. De um lado, construídas tanto como dispositivos de governamentalidade biopolítica, quanto por demandas dos próprios movimentos sociais, na luta por reconhecimento. De outro, constituintes tanto das políticas de Estado quanto, em via de mão-dupla, alterando e conformando as identidades e movimentos sociais. Estimulamos a inscrição de trabalhos: (a) que examinem fenômenos como fecundidade, mobilidade, mortalidade e composição etária em contextos etnográficos e diante dos desafios específicos de mensuração de territórios indígenas, quilombolas e PCTs; (b) que reflitam criticamente as estatísticas oficiais, suas categorias e metodologias; (c) que apresentem experiências de metodologias mistas para iluminar desigualdades, migrações e transformações populacionais e territoriais; (d) que reflitam sobre experiências de recenseamentos colaborativos ou realizados por organizações ou comunidades, auto-censos. O GT pretende articular pesquisas empíricas e reflexões conceituais, fomentando uma agenda interdisciplinar, atenta à multiescalaridade e às estratégias de pesquisa multimétodos.
Títulos e Resumos
-
Mobilidades Climáticas entre Populações Tradicionais na Amazônia Ocidental Brasileira: Uma Abordagem de Métodos Mistos
— Alisson Flavio Barbieri, Rodrigo Oliveira Braga Reis, Pedro Henrique Dias Marques
— Alisson Flavio Barbieri, Rodrigo Oliveira Braga Reis, Pedro Henrique Dias Marques
O artigo investiga os efeitos das mudanças ambientais e climáticas sobre a mobilidade, as estratégias de subsistência e a saúde de comunidades ribeirinhas e indígenas na Amazônia Ocidental brasileira. Como recorte espacial, é utilizada a região do Alto Solimões e o Vale do Javari. O artigo traz evidências de uma revisão sistemática da literatura utilizando o protocolo PRISMA e explora resultados de entrevistas semiestruturadas com 71 informantes-chave de comunidades indígenas e ribeirinhas, realizadas entre os anos de 2023 e 2024. Os resultados mostram que episódios intensos e recorrentes de secas e inundações nos últimos anos impactaram drasticamente as práticas agrícolas, a renda familiar e as condições de saúde. Nesse contexto, a mobilidade emerge como uma das estratégias de adaptação, remodelando as práticas de sobrevivência e, em algumas situações, amplificando vulnerabilidades preexistentes. Por fim, o artigo discute como as evidências orientaram o planejamento e a coleta de dados primários na região, bem como a integração de dados secundários (censos e registros administrativos) para desvendar o nexo clima-subsistência-mobilidade.
-
Análise do impacto das políticas educacionais e do acesso à formação de nível médio e superior na renda das famílias de comunidades quilombolas do Nordeste do Pará.
— Carlos Sérgio de Brito Moreira Júnior, Vinícius Silva de Oliveira
— Carlos Sérgio de Brito Moreira Júnior, Vinícius Silva de Oliveira
As comunidades rurais do Pará, como um todo, enfrentam desigualdades históricas, em comparação às populações urbanas, no acesso à educação de nível médio, superior e capacitadora. Isto se reflete profundamente nas dificuldades em encontrar empregos dignos e possibilidades de geração de renda, afetando, consequentemente, a qualidade de vida e o sustento das famílias. Quando se trata de comunidades quilombolas, também chamadas de comunidades negras rurais, estas barreiras são ainda mais evidentes. As políticas pensadas para atenuar esta realidade desigual, como o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA) e o Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME), embora representem conquistas históricas, ainda enfrentam grandes dificuldades orçamentárias e de adequação ao contexto social, cultural e histórico dos grupos atendidos. Assim, este artigo tem por objetivo realizar um estudo do impacto direto da educação de nível superior e médio na renda mensal e diária das famílias quilombolas do Nordeste do Pará. Para tal, será realizada análise estatística para constatar se a existência de membros das famílias quilombolas com ensino médio ou superior, alcançados a partir de diferentes políticas educacionais, melhora significativamente a renda mensal e diária destas famílias e da comunidade como um todo, em comparação a grupos familiares cujos membros tiveram acesso apenas ao ensino fundamental ou não chegaram a estudar. Os dados demográficos utilizados para a análise são levantados a partir dos Relatórios Técnicos de identificação e Delimitação (RTID) realizados pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), que são publicizados no Diário Oficial da União como parte de seu processo de regularização fundiária e titulação. Assim, o universo de análise concentra-se em territórios quilombolas que tiveram seu RTID publicado entre os anos de 2003 e 2026 pela Superintendência Regional do INCRA em Belém, cuja jurisdição abarca o Nordeste do estado do Pará. Deste modo, espera-se demonstrar estatisticamente a importância do acesso à educação em comunidades quilombolas e rurais para a garantia de seu sustento e qualidade de vida. Espera-se, também, construir argumentos embasados em defesa do aumento de investimentos em programas educacionais para populações rurais, a exemplo do PRONERA, como políticas públicas que possuem impactos diretos na mitigação da histórica desigualdade de renda no campo.
-
Entre números e pertenças: a autoidentificação Indígena nas estatísticas oficiais
— João Batista Alves Neto
— João Batista Alves Neto
Este trabalho analisa as problemáticas relacionadas à autoidentificação indígena em contextos urbanos a partir das práticas de quantificação populacional realizadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Parte-se da compreensão de que a mensuração de identidades envolve relações de poder e disputas classificatórias (Pacheco de Oliveira, 2016). A análise se fundamenta em dados censitários de 1991 — ano de incorporação da categoria “indígena” no quesito cor ou raça — até 2022, bem como em pesquisa qualitativa e na experiência do autor como recenseador no último Censo. Consideram-se, ainda, os fatores subjetivos associados à memória e ao sentimento de pertença. Os resultados indicam a presença expressiva de povos indígenas em contextos urbanos, ao mesmo tempo em que evidenciam déficits persistentes nos processos de identificação étnico-racial, marcados por dificuldades de autoidentificação. Argumenta-se que tais limites revelam os efeitos da construção social das categorias raciais no Brasil e os dificuldades de representar identidades indígenas por meio de classificações estatísticas fixas.
-
Do censo ao senso de comunidade: trajetórias indígenas, registros admistrativos e transformações sociais em São Gabriel da Cachoeira (Amazonas, Brasil)
— Rafael Moreira Serra da Silva
— Rafael Moreira Serra da Silva
A exposição analisa trajetórias indígenas no município de São Gabriel da Cachoeira, situado na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela, contribuindo para a compreensão de transformações contemporâneas nas formas de mobilidade indígena e no acesso a políticas públicas na Amazônia. O objetivo é investigar, de modo comparativo, as experiências de uma liderança Hupd’äh e de uma liderança Tukano, buscando compreender como a circulação entre cidade e floresta se articula às dinâmicas sociais, políticas e cosmológicas do sistema regional do rio Negro. A metodologia combina pesquisa etnográfica realizada em São Gabriel da Cachoeira e no Alto Rio Negro com o uso de fontes históricas e etnográficas, além de registros administrativos, como o censo demográfico nacional e pesquisas demográficas locais conduzidas por organizações não governamentais em parceria com o movimento indígena. Os resultados indicam que esses deslocamentos não se explicam apenas por expectativas de acesso a direitos, mas também por relações hierárquicas e princípios de organização social associados à ordem de nascimento dos povos e às posições de “irmãos maiores” e “menores”, conforme narrativas de criação do mundo. Conclui-se que essas trajetórias evidenciam continuidades e transformações nos modos indígenas de habitar a cidade e a floresta, ressaltando a mobilidade e o parentesco como princípios centrais para compreender a relação desses povos com o movimento indígena e as instituições locais, que administram o acesso às políticas públicas na região.
-
Como trabalhar raça/cor em questionários e entrevistas de Ciências Sociais?
— Samuel Vicente Dias de Freitas
— Samuel Vicente Dias de Freitas
Trabalhar raça dentro das Ciências Sociais sempre foi um desafio, principalmente quando se trata de pesquisas censitárias. Várias foram as categorias raciais utilizadas ao longo das pesquisas populacionais de Estado, e todas elas foram utilizadas para entender, dimensionar e controlar esses corpos racializados. Três modos de classificação racial são os principais e mais vigentes do Brasil hoje, e são eles: 1) do Movimento Negro, que é uma classificação mais binaria e oposicional, e se concentra nas categorias “negro” – que compreende pretos e pardos juntos, indo do mais retinto ao mais claro dentro do espectro negroide; 2) censitária, que é a categorização de raça/cor que o Censo utiliza para dimensionar o crescimento populacional e o cruzamento com demais indicadores sociais – o censo, desde o recenseamento de 1991, o IBGE utiliza 5 categorias de raça/cor, e são elas: preto, pardo, branco, amarelo e indígena ; 3) classificação popular, esta é um modo de se classificar do dia a dia, em que compreende as categorias censitárias, do Movimento Negro e outras – muito atravessadas pela geografia, cultura e regionalização – tais como: moreno, mulato, cor de jambo, claro, moreno claro etc. – é infindável a lista e as possibilidades de categorização no sentido popular. A questão que esse trabalho pretende abordar é a de como trabalhar questões sobre raça/cor em questionários e entrevistas, de tal modo que, se bem adequado e trabalhado, esses métodos possam vir a ser úteis para a construção das nossas etnografias. Ademais, pretende-se discutir quais seriam as mais adequadas classificações de serem utilizas em determinados ambientes, pensando em meios e maneiras de construir esses dados em campo. E também pensar como técnicas estatísticas e demográficas podem vir a ser uteis na hora de trabalhar raça/cor em surveys e entrevistas – seja ela estruturada ou semi-estruturada. Tem-se como hipótese de que a construção de perguntas bem definidas sobre raça/cor facilita na comparação com outras bases de dados estatísticos e pode enriquecer a pesquisa antropológica, e outro ponto é que o pesquisador quando está munido dos possíveis sentidos e usos das categorias raciais tem uma entrada menos brusca em campo e consegue traduzir melhor a racialização cotidiana.
-
Puru'a, membyha ary, kunha nhenhongatu, mboery ha jari rembiapo Sassoró pegua: rituais e práticas das parteiras kaiowá de Sassoró
— Waneide Garay Duarte, Edilaine Castelão Duarte, Rosa Sebastiana Colman
— Waneide Garay Duarte, Edilaine Castelão Duarte, Rosa Sebastiana Colman
Este trabalho de pesquisa registra alguns cuidados, rituais e práticas das parteiras kaiowá da reserva de Sassoró, no município de Tacuru, Mato Grosso do Sul. Com autoetnografia, a partir da experiência de uma das autoras, a metodologia desta pesquisa é de observação participante, conversas com as parteiras e registros em fotografias. Compreendemos que as parteiras têm saberes e conhecimentos que passam de geração a geração. Investigou-se entre minha parentela os principais saberes e conhecimentos tradicionais das parteiras kaiowá. Os saberes e conhecimentos são milenares, as parteiras mantêm a rotina tradicional kaiowá, e os alimentos são preferencialmente de pesca, roça e caça, o que as mantêm saudáveis. A gestação e o nascimento de uma criança são sempre muito importantes para o povo indígena, pois a criança é a continuação de um povo, da ancestralidade. O parto kaiowá envolve rezas, plantas medicinais, práticas e rituais durante a gestação, parto e pós-parto. Com a chegada da SESAI e a entrada de igrejas, o trabalho das parteiras foi enfraquecendo. Assim, a pesquisa mostrou a importância das parteiras para a valorização e manutenção dos saberes, práticas e rituais no partejar. Antes as parturientes kaiowá seguiam rituais desde o começo da gestação. Entre os saberes e conhecimentos tradicionais das parteiras estão as rezas, crenças, rituais e plantas medicinais; chás, ervas, cascas, raízes e banhas de animais. Os interlocutores têm ciência de que esta foi um trabalho de pesquisa, e acharam importante contribuir com os seus saberes e conhecimentos simbólicos para a comunidade e as futuras gerações.
Palavras-chave: Parteiras kaiowá. Medicina tradicional. Saberes ancestrais.
Coordenação
Daniela Fernandes Alarcon (UFRJ)
Jurema Machado de Andrade Souza (UFRB)
O objetivo deste grupo de trabalho é discutir a atualidade da prática indigenista a partir da atuação de indígenas e não indígenas, sobretudo antropólogos, no Estado e além. Em nossa definição de indigenismo, recuperamos sua acepção como um conjunto de ideologias, práticas administrativas e tecnologias de poder por meio das quais o Estado brasileiro representa, regula e controla os povos indígenas (Souza Lima, 1995, 2002; Pacheco de Oliveira, 2016; Ramos, 1998), mas também como formas de atuação engendradas por indígenas e não indígenas no enfrentamento de um poder colonial continuado e que se reinventa em diferentes contextos (e.g. Souza, 2019; Alarcon, 2019; Amado, 2020). A intenção é reunir trabalhos de pesquisa que revisitem o indigenismo, considerando distintos modos de pensar e fazer história e política indigenista, com atenção às transformações na virada para o século 21. Destacamos como alguns focos de interesse: eventos mobilizadores das políticas indigenistas nas últimas décadas; os papéis de indígenas e não indígenas no Estado e em organizações não governamentais que acessam recursos governamentais ou da cooperação internacional; a atuação indígena em âmbitos de controle e participação social; o histórico de atuação de mulheres no indigenismo; a emergência da advocacia indígena; iniciativas no campo da gestão de territórios e da segurança, a exemplo da constituição de grupos de guardiões indígenas; e as articulações entre atuação institucional e ação direta.
Títulos e Resumos
-
"Estamos sendo atingidos duas vezes": Gerú Tucunã e os impactos do rompimento da barragem de Mariana
— Antonio Augusto Oliveira Gonçalves
— Antonio Augusto Oliveira Gonçalves
Os Pataxó de Gerú Tucunã retomaram uma área no Parque Estadual do Rio Corrente, Açucena (MG), em julho de 2010. Inicialmente, levantaram uma grande tenda de lona próxima a uma lagoa sazonal, onde as famílias se abrigaram por seis meses. Com o tempo, conseguiram construir seus kijemes (casas) de pau a pique e plantar seus roçados nas proximidades do ribeirão São Félix. O São Félix e o rio Corrente são os dois cursos de água que atravessam Gerú Tucunã e desaguam no rio Doce. O Parque Estadual do Rio Corrente foi decretado em 1998, mas, quando os txihi (autodenominação dos Pataxó) lá chegaram, parte dos trechos de Mata Atlântica já haviam sido reduzidos à pasto. Latifundiários e posseiros da região se aproveitaram da não regularização fundiária do Parque, estabelecido apenas no papel, para extrair madeira e soltar seus rebanhos de bois nelores e búfalos. Com a mudança dos Pataxó, eles atacaram por diversas vezes a aldeia, incendiaram as matas, atiraram contra os indígenas e contaminaram de forma proposital as fontes de água do território, adoecendo as crianças. Mesmo assim, os txihi mantiveram a duras penas sua luta, reflorestaram áreas do Parque, construíram a kijetxawê (escola), o polo de saúde e uma Cabana Grande no centro da comunidade. Em novembro de 2015, ocorreu o rompimento da barragem do Fundão em Mariana (MG), os rejeitos de minério desceram pela bacia do rio Doce e dizimaram os pescados no ribeirão São Félix e no rio Corrente. A quantidade de piaus (Leporinus obtusidens), até então principal fonte de proteína dos habitantes de Tucunã, foi reduzida drasticamente. Em 2018, enquanto medida reparatória do rompimento, houve a construção de uma adutora de captação no rio Corrente, este empreendimento deve diminuir a vazão de água e secar as nascentes da aldeia nos próximos anos. Nessa comunicação, em específico, pretende-se mostrar como esses acontecimentos na caminhada dos txihi se desdobram na construção de um fab'bwá upù pinapõ'txe (documento de consulta) para garantir a proteção da comunidade. Nas conversas e reuniões das lideranças, os Pataxó demandaram a escrita do fab'bwá e foram, pouco a pouco, percebendo as conquistas ao longo de quinze anos de retomada, como por exemplo, o decreto do estado de Minas Gerais, em 2018, que reconheceu a dupla afetação do Parque, isto é, enquanto unidade de conservação e território indígena. Ao mesmo tempo, os txihi puderam deixar registrado as suas preocupações em relação aos empreendimentos circundantes, sobretudo com a inauguração da adutora em 2023, posicionando-se como duplamente atingidos pelo crime ambiental de Mariana, tanto por conta do rompimento, quanto pelo seu processo de reparação. Assim, denota-se a ação política dos Pataxó em transformar a escrita em arma de defesa do território.
-
Políticas indigenistas contemporâneas e cenários de conflito agudo: reflexões iniciais sobre o mapeamento efetuado pelo Gabinete de Crise Guarani Kaiowa, do Ministério dos Povos Indígenas
— Daniela Fernandes Alarcon, Marlise Rosa
— Daniela Fernandes Alarcon, Marlise Rosa
Respectivamente, entre março de 2023 e dezembro de 2024, e dali até janeiro de 2026, estivemos à frente da Coordenação-Geral de Formação no Departamento de Mediação e Conciliação de Conflitos Fundiários Indígenas do Gabinete do Ministério dos Povos Indígenas (Demed/GM/MPI). Tratava-se de um ministério recém-criado, no marco de uma nova institucionalidade para as políticas indigenistas oficiais, com modalidades muito mais amplas e diretas de participação indígena. Se, de um lado, atuar em um ministério novo implicava lidar com diversas carências, de outro, representou uma oportunidade ímpar, dotando-nos de uma visão de conjunto que raramente se obtém em órgãos com atribuições e divisões de tarefas já bem demarcadas. Em face de graves conflitos fundiários envolvendo coletividades indígenas, cotidianamente assumíamos o papel de primeiros respondentes, deslocando-nos a campo, qualificando informações e articulando ações emergenciais junto a lideranças indígenas e outros órgãos competentes. Com uma equipe muito reduzida, apenas nos dois anos iniciais, tramitamos no Demed cerca de 2,5 mil processos administrativos referentes a situações conflitivas em todos os estados da federação. Esse arcabouço de processos constitui uma fonte ímpar para o desenvolvimento de pesquisas quantitativas e qualitativas sobre disputas territoriais e atuação política de coletividades indígenas, com fins acadêmicos e administrativos. Avançando nessa direção, pretendemos nos aproximar aqui de uma situação em específico. Dada a intensidade das violações de direitos humanos contra os Guarani e Kaiowa e a alta incidência de conflitos fundiários no sul de Mato Grosso do Sul, o contexto rapidamente se tornou prioritário. Ainda em 2023, o ministério constituiu um gabinete de crise, coordenado pelo Demed, para diagnosticar violações e propor medidas concretas para a garantia dos direitos desse povo. Nesse âmbito, empreendemos trabalhos de campo em todas as áreas retomadas pelos Guarani e Kaiowa em que se reportavam tensões, conflitos ou violações. Em três etapas de pesquisa, visitamos 51 tekoha, em 20 municípios, mantendo conversações e aplicando questionários semiestruturados. Nesse processo, nos aproximamos de lideranças da Aty Guasu, a principal organização representativa dos Guarani e Kaiowa, assim como de outros sujeitos implicados no contexto. Nesta comunicação, nos debruçaremos reflexivamente sobre essa experiência, com foco no mapeamento de conflitos efetuado pelo gabinete de crise, sentando as bases para elaborações mais robustas sobre os alcances e limites das políticas indigenistas atuais diante de processos de mobilização indígena em cenários de conflito agudo.
-
Territorialização e Acesso à Justiça: caminhos de autonomia da Aldeia Katurãma após o rompimento da barragem da Vale S.A em Brumadinho
— Isadora Ribeiro Lopes
— Isadora Ribeiro Lopes
Os povos Pataxó e Pataxó Hã-Hã-Hãe viviam na Aldeia Naô Xohã desde 2017, às margens do Rio Paraopeba, em São Joaquim de Bicas (MG), quando foram atingidos pelo rompimento da barragem da Vale S.A., em Brumadinho, em 2019. A contaminação do rio impôs severas restrições às condições de vida da comunidade, contexto no qual emergiram conflitos internos quanto ao enfrentamento da crise socioambiental, culminando no deslocamento de parte de seus integrantes para áreas urbanas. A dispersão territorial dificultou o reconhecimento dos indígenas não aldeados como atingidos pela empresa, enquanto a ruptura do vínculo com a natureza comprometeu a reprodução de seus modos de fazer, criar e viver. Diante desse cenário, o grupo organizou a ocupação da Mata do Japonês, em São Joaquim de Bicas, onde foi fundada a Aldeia Katurãma, sob o cacicado de Célia Angohó. O local consistia em uma Área de Preservação Permanente da Associação Mineira de Cultura Nipo-Brasileira, com a qual as lideranças indígenas negociaram a permanência condicionada à conservação ambiental da área, então degradada pela ação de grileiros. Após a conquista territorial, a comunidade passou a ocupar uma nova posição na interlocução com a Vale S.A. e com o Estado, afirmando o direito à autodeterminação e à reparação integral. Nesse contexto, a identificação dos indígenas como "protetores do meio ambiente" é compreendida como uma estratégia política acionada nas arenas institucionais disponíveis, por meio da qual o grupo disputa sentidos de território, conservação e reparação em contextos marcados por assimetrias de poder. Este trabalho analisa o processo emergente de territorialização da Aldeia Katurãma como forma de organização autônoma de resistência indígena diante de conflitos socioambientais e das limitações dos dispositivos institucionais de reconhecimento. Destacam-se, nessa trajetória, a criação da Associação Indígena do Povo Katurãma, a elaboração de seu Protocolo de Consulta Livre, Prévia e Informada, a reivindicação de modos próprios de gestão da natureza e a participação nas ações do Acordo Judicial de Reparação, analisados como dimensões articuladas de uma estratégia indígena que tensiona práticas tutelares e reconfigura as relações entre a comunidade e o Estado. A pesquisa adota abordagem qualitativa, com base em análise bibliográfica e documental, bem como em observação participante da autora enquanto servidora pública envolvida na condução da Consulta Popular aos Povos e Comunidades Tradicionais no âmbito do Acordo. O caso contribui para o debate no campo do indigenismo ao evidenciar como, a partir de um evento crítico, povos indígenas produzem estratégias próprias de reconhecimento, territorialização e acesso à justiça, operando nas margens das racionalidades do Estado e do mercado.
-
Etnicidade, mediação e indigenismo: Um olhar sobre os Potiguara Ibirapi de Aningas (RN)
— João Lucas Medeiros Dantas
— João Lucas Medeiros Dantas
O trabalho propõe uma análise inicial do processo de emergência étnica dos Potiguara Ibirapi de Ceará Mirim (RN), com enfoque na comunidade de Aningas. No início dos anos 2000, o Rio Grande do Norte foi marcado pela ascensão e consolidação do Movimento Indígena do estado com a atuação direta de mediadores e indigenistas, como os indígenas Potiguara da Paraíba e servidores públicos não indígenas, questionando a historiografia local e a visibilidade política dos indígenas, estes considerados extintos no estado antes da virada do século (Cavignac, 2003; Silva; Valle, 2015). Recentemente, a situação das novas reivindicações étnicas, como a de Aningas, parece seguir um outro caminho com indígenas universitários, artistas e professores da própria comunidade assumindo o papel de mediadores outrora feito por indigenistas. Fruto de minha investigação de mestrado, ainda em seu estágio preliminar, pretendo realizar uma pesquisa imersiva e reflexiva, ancorada em uma antropologia dialógica e engajada (Oliveira, 2025), que problematize como os indígenas de Aningas constroem a sua etnicidade. Concomitantemente o trabalho se debruça nas especificidades do caso dos Potiguara Ibirapi, como o papel mediação autóctone e da reapropriação e reinterpretação indígena da historiografia municipal no processo de emergência étnica.
-
Narrativas indígenas e indigenismo em disputa: memória, ação direta e luta territorial dos Pataxó Hãhãhãi no sul da Bahia
— Jurema Machado de Andrade Souza
— Jurema Machado de Andrade Souza
Esta comunicação propõe discutir o indigenismo como um campo histórico e político em disputa a partir do caso dos Pataxó Hãhãhãi, no sul da Bahia, tomando como base pesquisa etnográfica de longa duração e análise documental sobre a atuação do Estado brasileiro ao longo do século XX e início do XXI. Parte-se da compreensão do indigenismo tanto como um conjunto de práticas administrativas e tecnologias de poder responsáveis pela representação, regulação e controle dos povos indígenas quanto como um espaço permanentemente tensionado pela ação indígena e por alianças com agentes não indígenas.
O trabalho analisa, inicialmente, a atuação do Serviço de Proteção aos Índios (SPI), que, ao reunir diferentes famílias étnicas (Kariri-Sapuyá, Kamakã, Tupinambá, Gueren, Baenã e Hãhãhãi) na Reserva Caramuru-Paraguaçu, produziu uma política indigenista marcada pela tutela, pela exploração da mão de obra indígena e, sobretudo, pelo esbulho territorial decorrente dos arrendamentos promovidos pelo próprio órgão estatal. Posteriormente, evidencia-se como o Estado da Bahia, ao emitir ilegalmente centenas de títulos de propriedade sobre terras indígenas entre o final da década de 1970 e início dos anos 1980, atualizou práticas indigenistas coloniais, aprofundando o conflito fundiário que culminaria na Ação Cível Originária nº 312, julgada pelo Supremo Tribunal Federal em 2012.
Em contraponto a essas formas de indigenismo estatal, a comunicação enfatiza as narrativas indígenas de memória, parentesco e luta, entendidas como práticas políticas que disputam sentidos sobre história, memória e território. As retomadas de terras, realizadas ao longo de mais de trinta anos, são analisadas como ações diretas que reconfiguram o próprio campo do indigenismo, deslocando os indígenas da posição de tutelados para a de protagonistas na produção de políticas territoriais e na interlocução com o Estado, o sistema de justiça e organizações indigenistas.
Ao articular memória, narrativas de luta e ação política, a comunicação pretende discutir como o indigenismo contemporâneo é constituído por conflitos, negociações e disputas entre diferentes projetos de Estado e modos indígenas de fazer política, especialmente na virada para o século XXI.
-
Energia, desigualdade e cotidiano indígena: uma etnografia histórica da eletrificação entre os Arukwayene no rio Urukauá
— Leonardo Pedroso Vallin Rodrigues, Artionka Capiberibe, Vitória Sousa
— Leonardo Pedroso Vallin Rodrigues, Artionka Capiberibe, Vitória Sousa
Este trabalho analisa a implantação e o funcionamento da energia elétrica na região do rio Urukauá como uma prática indigenista contemporânea, compreendida enquanto parte do conjunto de ideologias, dispositivos administrativos e tecnologias de poder por meio das quais o Estado brasileiro historicamente regula, intervém e produz formas diferenciadas de cidadania indígena. A partir de pesquisa etnográfica e histórica realizada junto aos indígenas Arukwayene das aldeias Kumene e Mawihgi, o estudo reconstrói a trajetória local da eletrificação e examina seus efeitos sociais, políticos e simbólicos no cotidiano indígena.
Com base em entrevistas, observação de campo e análise documental, argumenta-se que a eletrificação não pode ser entendida apenas como política técnica de infraestrutura, mas como um modo específico de atuação indigenista que se reinscreve em continuidades coloniais, ainda que sob novas formas institucionais. A irregularidade no fornecimento de energia elétrica afeta diretamente práticas cotidianas como o armazenamento de alimentos, a comunicação, o lazer e a organização do tempo doméstico e coletivo, revelando assimetrias persistentes no acesso a direitos considerados básicos em outros contextos nacionais.
O trabalho evidencia também como essas descontinuidades são interpretadas criticamente pelos Arukwayene, que mobilizam expectativas, reivindicações e estratégias de negociação diante de entraves governamentais, logísticos e infraestruturais. Nesse processo, a eletrificação torna-se um campo de disputas no qual se articulam atuação estatal, mediações institucionais e agência indígena, desafiando leituras que concebem os povos indígenas apenas como objetos das políticas públicas.
Ao articular a história local da eletrificação com uma análise antropológica das relações entre Estado, tecnologia e indigenismo, a pesquisa contribui para revisitar os modos de pensar e fazer política indigenista na virada do século XXI. O estudo dialoga com debates clássicos e contemporâneos sobre indigenismo ao evidenciar como políticas públicas aparentemente neutras podem reproduzir desigualdades estruturais e racializadas, ao mesmo tempo em que abrem espaços de atuação indígena no enfrentamento de um poder colonial continuado. Assim, propõe-se uma reflexão sobre o lugar das infraestruturas nas lutas por reconhecimento, reparação e bem viver no contexto da pluridiversidade indígena no Brasil.
-
Corpo-território e indigenismo em disputa: a atuação política das mulheres indígenas no Brasil contemporâneo
— Luana Pereira Falcão
— Luana Pereira Falcão
Este trabalho analisa o movimento de luta das mulheres indígenas no Brasil a partir de uma perspectiva crítica sobre o indigenismo contemporâneo, compreendido como um campo histórico de práticas, saberes e dispositivos por meio dos quais o Estado brasileiro regulou e controlou os povos indígenas, mas que vem sendo tensionado e reconfigurado pela ação política indígena nas últimas décadas. A análise se baseia na pesquisa de mestrado que investigou a emergência, a consolidação e a ampliação da organização política das mulheres indígenas em escala nacional, articulando etnografia, análise documental e dados demográficos.
Tomando o conceito de corpo-território como eixo analítico central, o trabalho examina como as mulheres indígenas mobilizam essa categoria nas lutas por direitos territoriais, reconhecimento político e participação institucional, produzindo deslocamentos relevantes no campo do indigenismo. A pesquisa analisa eventos mobilizadores como as Plenárias das Mulheres Indígenas no Acampamento Terra Livre, as Marchas Nacionais das Mulheres Indígenas e a criação de articulações organizativas próprias, como a ANMIGA, evidenciando a construção de repertórios políticos que articulam território, corpo, espiritualidade e ação coletiva.
O estudo também dialoga com dados demográficos do Censo 2010 e 2022 e com mapeamentos nacionais de organizações de mulheres indígenas realizados em 2020 e 2024, demonstrando o crescimento populacional, a expansão organizativa e a presença política dessas mulheres nos territórios e nas arenas institucionais. Esses dados são analisados a partir de uma abordagem cosmopolítica, que reconhece a apropriação e a ressignificação dos instrumentos estatais pelas próprias mulheres indígenas como estratégias de incidência política e autogestão.
Ao evidenciar a passagem das mulheres indígenas de posições historicamente subalternizadas no campo da política indigenista para a condição de sujeitos políticos que disputam e redefinem seus sentidos, o trabalho contribui para o debate sobre os modos contemporâneos de fazer indigenismo no século XXI, ressaltando suas continuidades coloniais, tensões internas e possibilidades de reinvenção a partir da ação indígena protagonizada por mulheres.
-
O grande cerco do capital: Direito, direitos e os povos Tikmũ'ũn
— Rodrigo Arthuso Arantes Faria
— Rodrigo Arthuso Arantes Faria
Com base nos dados etnográficos da minha pesquisa doutoral (em curso), analiso a política indigenista brasileira, no plano teórico, a partir do debate sobre a derivação do Estado (Holloway e Picciotto, 1978), e no plano empírico, a partir de como o “Direito” e os “direitos” se apresentam aos, e são experienciados pelos, povos Tikmũ'ũn, atuais habitantes de quatro pequenas porções de terras no vale do rio Mucuri, em Minas Gerais. Para tanto, primeiro, traço um breve panorama histórico sobre as leis nacionais e provinciais que de algum modo impactaram os povos Tikmũ'ũn a partir do século XVI; após, apresento algumas das expressões culturais e relações sociais empreendidas pelos Tikmũ'ũn das aldeias do Pradinho e Água Boa; por fim, concluo argumentando que as políticas e programas atualmente oferecidos aos Tikmũ'ũn enquanto “direitos” tem como função estrutural a garantia da reprodução das relações sociais existentes no modo de produção capitalista. Em outros tempos, os Tikmũ'ũn eram reduzidos à força de trabalho escrava nos aldeamentos coloniais. Num passado mais próximo, SPI e Funai encarregaram-se de tentar convertê-los a agricultores comerciais, monetarizando sua relação com o estado e com suas roças. Atualmente, a devastação ambiental (que lhes usurpa os recursos do território) e o fato de não possuírem empregos formais no mercado local (que lhes priva de recursos financeiros) contribui para que a reprodução física e cultural dos Tikmũ'ũn dependa do acesso a dinheiro acessado via direitos (seja como beneficiários de programas de transferência de renda ou de benefícios previdenciários, seja como mão-de-obra empregada nas agências estatais, como unidades básicas de saúde e escolas). A política indigenista, assim, garante a perpetuação, atualizando a tentativa, do sempre inacabado processo de expropriação dos Tikmũ'ũn - e tantos outros povos nativos - de seus territórios e de seus modos de vida.
-
A DESPEITO DA PNGATI, POR QUE AINDA NÃO EXISTE UMA POLÍTICA INDIGENISTA NOS ÓRGÃOS AMBIENTAIS (MMA, Ibama e ICMBio)? Entre aprendizados e descontinuidades notas para uma avaliação institucional
— Rodrigo Augusto Lima de Medeiros
— Rodrigo Augusto Lima de Medeiros
Desde uma perspectiva antropológica (Cardoso de Oliveira, 1998; Barth, 2000) sobre a atuação de agentes públicos federais que operam no processo de elaboração e execução de políticas públicas no âmbito do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), este ensaio pretende inciar análise sobre a relação entre políticas públicas ambientais e Povos Indígenas ao longo das últimas duas décadas (2005 a 2025). O objetivo é analisar a reprodução (Bourdieu, 1996) de valores sociais na burocracia (Herzfeld, 1992) responsável por ações administrativas para os territórios indígenas que, em uma perspectiva crítica, reproduzem o poder tutelar (Souza Lima, 1995). Em um contexto etnográfico multilocal (Marcus, 1995) que remete à formulação de potencial agenda (Cobb e Elder, 1971) indigenista (ou agenda-setting, Birkland, 2005) no órgão central e nos órgãos executores do Sistema Nacional do Meio Ambiente (SISNAMA), para realizar a análise pretendida, é necessário, primeiro, apresentar minha condição de observador-participante. Assim como outras experiências registradas de estudos antropológicos em contextos institucionais (Souza Lima, 2015; Teixeira, 2020) em que reflexões etnográficas são pautadas por antropólogos que são partes da instituição pesquisada (Silva, 2015; Kock, 2025), este ensaio parte de minhas experiências profissionais cotidianas nos órgãos ambientais do Governo Federal em um exercício autoetnográfico (Strathern, 2013) que lida com relações de poder, elaborações conceituais, parâmetros de elegibilidade, remanejamentos de recursos de distintas origens (nacionais e internacionais) e produção de entendimentos burocráticos sobre o papel dos órgãos ambientais em terras indígenas e com povos indígenas. É nesse sentido que este ensaio pretende dialogar com as questões propostas nos GT 003 e GT 028 da 35ª RBA (2026), na medida em que procura contribuir com os esforços refletivos de criação de novas categorias analíticas sobre o fazer antropológicos em contextos de instituições estatais e não-estatais com base em observações etnográficas, dialogando com critérios éticos e epistemológicos da disciplina antropologia. Portanto, pretendo, neste comunicado, destacar a especificidade da relação entre ações de políticas ambientais e a débil formulação de uma política indigenista ambiental nos órgãos ambientais do governo federal.
-
O filme Xingu como ponto de partida para a análise de um capítulo da história do indigenismo brasileiro
— Victor Ferri Mauro
— Victor Ferri Mauro
Este trabalho avalia o potencial do filme Xingu, do diretor Cao Hamburguer, como subsídio para uma análise histórica e antropológica da política indigenista brasileira em aulas da educação básica, em conformidade com a legislação e as diretrizes educacionais. O longa-metragem brasileiro, lançado em 2012, narra em forma de epopeia a trajetória indigenista dos irmãos Orlando, Cláudio e Leonardo Villas Bôas entre as décadas de 1940 e 1970 na região do Alto e Médio Xingu, contatando grupos étnicos, prestando-lhes assistência e mediando junto ao Estado medidas de proteção em seu favor, sobretudo no tocante a direitos territoriais. Trata-se de um drama ficcional, baseado em histórias reais, mas com adaptações no roteiro. Experiências mostram que a linguagem do cinema, com seus recursos técnicos e dinamismo característico, atrai mais facilmente a atenção dos estudantes e os sensibiliza, rendendo bem quando combinada com o uso de informações extraídas de fontes mais convencionais. A projeção da película alcança um melhor resultado pedagógico se acompanhada pela explanação contextualizada do professor acerca das conjunturas políticas que o país atravessou e sobre as orientações que predominaram no indigenismo oficial dentro do recorte temporal que o filme abarca. A atividade didática deve fomentar um debate no qual os alunos possam expressar questionamentos e manifestar suas impressões, aprimorando o senso crítico. O aprendizado é maximizado quando os discentes são estimulados a aprofundar a pesquisa em fontes variadas (livros, artigos, reportagens, documentários etc.) sobre as nações xinguanas no que concerne a aspectos sociais, linguísticos, artísticos, econômicos, cosmológicos e rituais das diversas culturas. A audiência do filme suscita a reflexão a respeito da relação que o Estado mantém com os povos originários e a forma como gerencia a tutela deles. A trama evidencia que o avanço desenfreado da colonização da Amazônia e do Cerrado produziu impactos que comprometeram a reprodução física e cultural dos povos locais, e que os Villas Bôas ajudaram os nativos a elaborar estratégias de resistência e adaptação que mitigaram danos. Nas aulas é possível fazer um comparativo da época passada com contextos mais recentes, marcados pela emergência do movimento indígena e pelo protagonismo de membros desses povos nas organizações civis, nas instituições do Estado e em outras instancias de poder. Os expectadores da obra devem ser levados a indagar quanto ao tipo de representações sobre os indígenas que a população brasileira geralmente idealiza e até que ponto estas correspondem à realidade. A própria narrativa do filme, a centralidade da figura dos irmãos sertanistas, a maneira como eles são retratados e outros aspectos do roteiro também são passíveis de reflexão.
Coordenação
Claudina Azevedo Maximiano (IFAM)
Vânia Rocha Fialho de Paiva e Souza (PPGCSPA/UEMA)
Pessoa debatedora
Thereza Cristina Cardoso Menezes (UFRRJ)
Maria Helena Ortolan (UFAM)
Este GT propõe discutir as interfaces entre antropologia e tecnologias sociais, refletindo os seus desdobramentos em temas relacionasos à educação, saúde, economia e sustentabilidade dos povos e comunidades tradicionais. Interessa-nos etnografias e trabalhos que abordem a atuação dos antropólogos em diferentes campos, para além da pesquisa, como na efetivação de políticas públicas e outras intervenções sociais. Com isto, pretendemos trazer o debate sobre as demandas contemporâneas do trabalho antropológico e o lugar das tecnologias no conjunto das ciências humanas (Haudricourt,1987). Estes esforços partem de uma reflexão mais ampla sobre os desafios da formação profissional, a partir da proposição do Mestrado profissional em Antropologia Rural e Tecnologias Sociais aprovado pelo Instituto Federal do Amazonas.
Títulos e Resumos
-
Cuidado em Saúde Mental entre os Boe Bororo
— Ana Paula Arosi
— Ana Paula Arosi
O trabalho proposto insere-se na temática do GT ao trazer à tona um debate sobre tecnologias sociais e saúde mental de populações tradicionais. Trata-se de um artigo produzido a partir de um projeto aprovado pelo edital Pró-Amazônia do CNPq, voltado à temática da saúde entre mulheres indígenas e quilombolas, tematizando a saúde psíquica dessas mulheres e suas tecnologias sociais nativas para tratar e sanar o sofrimento. Entende-se por tecnologias sociais nativas aquilo que Mauss (2003) definiu como técnica, ou seja, o ato tradicional e eficaz, repassado de geração em geração. Busca-se, também, compreender como as mulheres lidam com o sofrimento e como ele é sanado coletivamente nas sociedades tradicionais. O projeto pretende criar uma metodologia que subsidie políticas públicas destinadas à saúde mental entre as populações estudadas. Parte-se da ideia de que uma pesquisa sobre a noção de pessoa e sobre a gestão das emoções que, entre os povos indígenas, se dá principalmente de forma social e ritual, pode subsidiar estratégias de saúde mental voltadas a essas populações. Um dos povos que integram o universo de pesquisa desta empreitada é o povo Boe Bororo, da aldeia Perigara, no Mato Grosso. Em parceria entre o Departamento de Antropologia da UFMT e Departamento de Psicologia da mesma universidade, que possui um núcleo que desenvolve atividades psicológicas em aldeias no Mato Grosso, objetiva-se realizar rodas de conversa nas aldeias acerca dos temas da violência e do sofrimento. Entende-se que se trata, sob certo aspecto, de uma tecnologia ocidental; no entanto, a forma como os indígenas se apropriam e se envolvem com essa tecnologia será analisada sob o olhar etnográfico, de modo a contribuir para a construção da metodologia pretendida. Portanto, a partir dessas práticas, pretende-se analisar como se dá a interação entre esse saber marcadamente ocidental, que possui uma noção específica e bastante individualizante de sujeito, e as concepções nativas Boe Bororo, nas quais é difícil distinguir entre ação individual e ação social. Trata-se de um projeto em fase inicial, cujos resultados prováveis apontam para uma concepção de pessoa que se constitui no social e no ritual, e que precisa ser pensada coletivamente para dialogar com as práticas de saúde ocidentais.
-
A pesquisa-ação aproximando o fazer antropológico da realidade de uma comunidade tradicional de pesca: construção de saberes e métodos a partir do encontro com os interlocutores
— Janine Azevedo do Nascimento
— Janine Azevedo do Nascimento
Este trabalho apresenta o momento inicial de uma pesquisa antropológica que toma o processo de pesquisa-ação como ponto de partida e de encontro com os interlocutores de pesquisa na praia de Acaú, uma comunidade tradicional da pesca no município de Pitimbu-PB, uma das seis comunidades da RESEX Acaú-Goiana. Com a intenção de abordar a relação entre trabalho, ambiente e saúde, a partir da perspectiva do cuidado, considerando a complexidade e diversidade de aspectos envolvidos, encontrei na pesquisa-ação o caminho para uma aproximação ativa, com estabelecimento de relações de parceria e colaboração, a partir de uma postura comprometida com as questões vivenciadas e reconhecidas pela comunidade. No decorrer da pesquisa-ação, através da problematização dialógica e construção compartilhada de conhecimentos e ações, tem ocorrido o desdobramento de algumas ações envolvendo tecnologias sociais e ampliação de redes de apoio e parcerias. Entre os movimentos mais relevantes, destacamos a realização do Curso Livre de Agentes Populares de Saúde dos Povos das Águas, o Curso de Aperfeiçoamento em Saúde dos Povos das Águas para Profissionais de Saúde, as oficinas de articulação e construção do protocolo de consulta livre e informada para o uso do território das comunidades da RESEX Acaú-Goiana e a articulação com o projeto Caminhos do Trabalho, que busca dar visibilidade ao adoecimento relacionado ao trabalho. Essas ações tiveram a pesquisa-ação como ponto de partida e foram ou estão sendo realizadas em rede de colaboração com grupos, entidades e instituições. Nesse processo, tem sido possível vislumbrar a complexidade do tema em estudo, sobretudo no que se refere ao cuidado enquanto ética, ação prática e política no contexto da luta pela vida e pela continuidade do modo de vida dessas comunidades frente as ameaças do “habitar colonial” (Malcolm Ferdinand). Isso é favorecido pela perspectiva da pesquisa-ação, que envolve as tecnologias sociais e tem nos colocado em relação de proximidade e parceria com a comunidade, expressando um caráter político emancipador que busca as transformações construídas a partir do trabalho conjunto entre os agentes da universidade e o grupo local. O envolvimento de entidades do Estado, do mercado e do terceiro setor, bem como de movimentos sociais na problemática ambiental e dos povos tradicionais denota a importância da atuação do antropólogo nesse campo, numa perspectiva de construção de relações menos hierárquicas e de compromisso ético e epistemológico com os interesses da comunidade, enfatizando a construção compartilhada de saberes e a ação transformadora, valorizando o conhecimento de todos os envolvidos.
-
Tecendo Matapi e Memórias: Uma Prática familiar no Rio Campompema
— Matheus Silva Azevedo, Bárbara Faciola Pessoa Baleixe da Costa
— Matheus Silva Azevedo, Bárbara Faciola Pessoa Baleixe da Costa
Este artigo se origina de uma pesquisa etnográfica familiar sobre a prática da tecelagem do Matapi às margens do rio Campompema, no Pará. O matapi é uma espécie de gaiola feita artesanalmente para a captura do camarão, que articula o saber-fazer local às atividades de subsistência e renda. Trata-se de uma prática que por gerações uniu famílias inteiras em seu processo de fabricação, e que se entrelaça às histórias e memórias dos que fizeram parte desse processo que emerge na construção de uma “noção de unidade, de solidariedade, de força e de vida do ser coletivo” (Sabourin, 2011, p. 38). Pereira (2019) destaca que o artesanato, em muitos casos, além de ser fonte de renda para diversas famílias e comunidades, também faz parte do folclore, e se materializa enquanto um saber que caracteriza cada região, o que orienta a compreensão do matapi, hoje, ser considerada um símbolo da cultura local comunitária.
Buscou-se aqui, compreender a relevância do artesanato na história da comunidade, os processos de mudança e adaptação nos materiais, o valor simbólico e cultural, assim como captar, através das memórias, os aspectos sentimentais e subjetivos que envolviam os mutirões familiares de produção.
Utilizou-se como base metodológica a observação direta e participante com base na etnografia, que segundo Mattos e Castro (2011), visa elucidar o significado das ações diárias, documentando as práticas sociais para encontrar o significado profundo das interações locais, sendo, por esse viés, uma forma adaptável e palpável de compreender as peculiaridades desta prática artesanal a partir de uma perspectiva “de perto e de dentro” (Magnani, 2002), abstraindo-se da visão pragmática que os modelos hegemônicos de produção estimulam sobre os processos de fabricação e venda. Também foram realizadas conversas e entrevistas com comunitários, oriundos de famílias que viveram por anos com parte da renda familiar advinda da venda do matapi, sendo hoje memórias vivas do domínio das técnicas necessárias para a produção do artesanato.
Os resultados se apontam como uma forma de registro sociocultural da comunidade, e refletem um movimento importante pelo reconhecimento e valorização dos diversos fazeres que permeiam os saberes ali praticados há décadas, até séculos, e que por tantas mudanças socioeconômicas e influências externas vêm se perdendo. A pesquisa elucida ainda o quanto a prática conjunta da tecelagem e a transgressão do conhecimento pela oralidade que ocorre nessas comunidades fortalece os vínculos afetivos e de pertencimento e está diretamente correlacionado à construção de valores éticos e morais, que refletem uma forma de viver, ensinar e aprender muito característico de comunidades da amazônia e que por gerações mantém ali o senso de fraternidade e identidade.
-
Centro de Ciências e Saberes, dissonâncias e inflexões
— Patricia Portela
— Patricia Portela
Em janeiro de 2024 as atividades de pesquisa e curadoria relativas à organização de coleções de artefatos organizadas por membros de unidades sociais autodesignadas indígenas, quilombolas e/ou comunidades tradicionais completou dez anos de existência. A referência ao decênio nada tem de registro laudatório ou de criação de uma efeméride. Atrela-se, contudo, a uma duração relativa à execução de dois projetos de pesquisa obtidos por chamada pública e que contaram com o fomento de agencias de produção de conhecimento científico. Tais iniciativas de curadoria efetuadas por membros dessas unidades sociais ocorrem de modo articulado com pesquisadores acadêmicos e organizam coleções de artefatos que são encontradas nos chamados Centro de Ciências e Saberes localizados em diferentes unidades sociais da Amazônia Brasileira. Constituem-se em modalidades de museus cujas iniciativas e modos de exposição em nada se aproximam da espetacularização ou do modelo de excelência com temas e problemas específicos que tão bem caracterizou, segundo Castro Faria (1993), exposições, eventos e acontecimentos levados a cabo por cientistas e autoridades vinculados a museus convencionais, criados no período colonial.
A presente comunicação busca colocar em discussão as iniciativas de criação desses Centros de Ciências e Saberes, localizados em comunidades autodesignadas tradicionais, indígenas e quilombolas, ressaltando dissonâncias e contrates com iniciativas de organização de coleções que acionam critérios de seleção que fazem dos museus instituições de criação de poder do mundo colonizado capazez de moldar a maneira como o Estado colonial imaginou seu domínio (Anderson, 2008). Por essa via, os museus convencionais instituem, legitimam e consagram representações que passam a ser considerados como típicos, genuínos, autênticos seja de um povo, uma região ou uma nação.
-
Mulheres, saberes tradicionais e tecnologias sociais de cuidado no cerrado norte-mineiro
— Virgínia Marinely Almeida e Pessoa
— Virgínia Marinely Almeida e Pessoa
O trabalho busca analisar o uso de plantas medicinais e saberes tradicionais no Norte de Minas Gerais por mulheres, como tecnologias sociais de cuidado, articuladas à valorização, proteção do cerrado e à sustentação de territórios tradicionais, em contextos marcados por desigualdades socioambientais, precarização das políticas públicas de saúde, pela expansão do agronegócio, monoculturas e conflitos fundiários, tais saberes e práticas emergem como formas de resistência cultural, cuidado com a vida, sustentabilidade e autonomia, protagonizado especialmente por mulheres agricultoras, cuidadoras e guardiãs de saberes mobilizam práticas terapêuticas, espirituais.
Tem como metodologia a etnografia e a escuta de raizeiras e terapeutas populares, analisando a articulação entre saberes tradicionais sobre plantas do Cerrado, práticas de cuidado comunitário e familiar, e tecnologias sociais desenvolvidas a partir da realidade local.
A partir da etnografia junto a mulheres que atuam no cuidado comunitário — com destaque para experiências em Montes Claros e região —, o estudo evidencia como o cuidado se constitui por meio do manejo do cerrado, do cultivo e preparo de plantas medicinais, da transmissão oral de conhecimentos, das rezas e da construção de redes solidárias. Essas práticas articulam corpo, território e espiritualidade, configurando modos de existência que desafiam a separação moderna entre natureza e cultura, técnica e tradição.
Dialogando com a antropologia do cuidado e das técnicas (Tronto, 1993; Ingold, 2011), com os estudos do cotidiano (Certeau, 1998) e com a antropologia da saúde (Alves; Souza, 1999), argumenta-se que tais práticas não devem ser compreendidas somente como alternativas marginais ou respostas à ausência do Estado, mas como tecnologias sociais, baseadas em conhecimentos situados, relações de interdependência e ética do cuidado. As mulheres emergem como protagonistas na produção e circulação desses saberes, desempenhando papel central na proteção do cerrado e na sustentabilidade dos territórios, ao articular práticas de cuidado humano e ambiental.
Ao promover o diálogo de saberes e a visibilização dessas tecnologias sociais, contribui para a construção de políticas sensíveis à diversidade cultural e ecológica, reconhecendo os povos do Cerrado como guardiões do bioma e protagonistas de alternativas para o bem viver, reconhecendo o conhecimento produzido através da transmissão intergeracional dos saberes, contribuindo para ampliação de políticas públicas que incorporem as práticas de cuidado, o serviço das terapeutas populares, o manejo sustentável para autonomia e preservação dos territórios tradicionais.
Coordenação
Alexandre Herbetta (PPGAS UFG)
Vilmar Martins Moura Guarany (FUNAI)
Este Grupo de Trabalho propõe discutir o atual contexto de ingresso, permanência e produção de conhecimento de estudantes indígenas nos Programas de Pós-Graduação em Antropologia no Brasil. A presença crescente de pesquisadoras e pesquisadores indígenas têm provocado deslocamentos importantes nos modos de pesquisa, na escrita acadêmica e nas relações entre universidade, território e comunidade. A experiência do PPGAS/UFG, que desde 2015 recebe estudantes indígenas — muitos vinculados, direta ou indiretamente, ao Curso de Educação Intercultural da instituição — impulsionou a criação da primeira política de ações afirmativas na pós-graduação em uma universidade federal, inaugurando um marco nacional e intensificando a presença de estudantes indígenas no mestrado e doutorado. A partir dessa experiência, o GT busca refletir sobre políticas de acesso, desafios institucionais, metodologias próprias, a relação entre oralidade e escrita, vínculos comunitários, limites institucionais e os desejos que levam estudantes indígenas à antropologia. Inspirado na proposição de egressos indígenas do PPGAS/UFG, que inauguraram um podcast dedicado ao tema, o GT convida reflexões que evidenciem tensões, inovações e os modos pelos quais a antropologia tem sido transformada pelas pesquisas indígenas, reafirmando o campo como espaço de diálogo, disputa e criação epistêmica.
Títulos e Resumos
-
Metodologias de Pesquisa Indígenas e Quilombolas Apresentação de um projeto de pesquisa em desenvolvimento
— Camila Mainardi, Antonio Carlos Benites/Ava Vera Rendy Ju, Kiga Boe, Paula Guajajara, Rosenilda Trindade da Costa
— Camila Mainardi, Antonio Carlos Benites/Ava Vera Rendy Ju, Kiga Boe, Paula Guajajara, Rosenilda Trindade da Costa
Esta proposta visa apresentar parte do projeto de pesquisa coletivo, em desenvolvimento no PPGAS-UFG, intitulado Metodologias de Pesquisa Indígenas e Quilombolas: Diálogos entre Antropologia e Educação para a efetivação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 no Estado de Goiás. O projeto tem como objetivo refletir sobre as práticas de pesquisa indígenas e quilombolas e seus efeitos em espaços e práticas educacionais, com interesse especial na implementação das leis que tornam obrigatória, no currículo oficial da educação básica, a abordagem da História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Neste ensaio, mais especificamente, a partir da pesquisa realizada pelas/os integrantes do projeto em diferentes contextos, buscamos compartilhar as estratégias metodológicas que cada pesquisador e pesquisadora tem desenvolvido para tornar a pesquisa possível. Partimos do pressuposto de que as práticas de pesquisa indígenas e quilombolas estão ancoradas em modos de vida e regimes de conhecimento próprios, que se diferenciam de modelos hegemônicos de pesquisa não indígena e não quilombola, contribuindo para revisões teórico-metodológicas na antropologia. Tratamos, portanto, de processos de experimentação e criação, de novas agendas de pesquisa, novas formas narrativas e compromissos políticos-epistemológicos. Por fim, ressaltamos que o projeto mencionado é resultado de quase uma década de políticas de ação afirmativa voltadas às populações indígena e quilombola no PPGAS-UFG, beneficiando-se, assim, de teses e dissertações já produzidas e que orientam as discussões tecidas no âmbito do projeto. Além disso, reconhecemos a importância do Programa UFG Inclui e do curso de Educação Intercultural para docentes indígenas da UFG que, no nível de graduação, tem possibilitado o ingresso de estudantes indígenas e quilombolas na universidade.
-
Encreehr: Política, Estética, Linguagem E Epistemologia
— José Cohxyj Krikati
— José Cohxyj Krikati
Aqui venho, eu, José Cohxyj Krikati, expressar meus agradecimentos por ter sido chamado a cursar a Universidade Federal de Goiás, através do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS), que me proporcionou espaço e reconhecimento na área de Antropologia Social.
Minha trajetória não foi fácil: enfrentei barreiras linguísticas e conceitos desconhecidos, mas cada desafio fortaleceu meu aprendizado e compreensão sobre nossa cultura, epistemologia e práticas sociais.
Mam me cyctehreereh ne me ehcohcatyj’tehreereh me amjõhnquen pexteh tô ehncoh’hii né Me ehcreepexteh tô ehncoh’hii. Pom qui ehncrat rôhmpi ne ehntep cut qui ca me amjohmy amjõhnquen no to catoo né ca me ehncrat rôhmpi ehncree cym ehncryh cut ca johm amjohcapaa pyht cu né ehncree tô moo né Me cãhyj catiji cohneh já tô cyyh wyr cutca tee awcapytcuu hampej qui ca rymy ehncree noo tô xaa qui ca rymy me cãhyj catiji awrehn cyyh my. Qui tô cym mor pyhreento qui me Hõcree Hõteehn né ca me to ehncrat jarcwa cahytpa né ca me to hyycrohn ny cohxuu Ne Me to hãarenpaa né Me to cohmy a’tyw né cut pahn né ca me to ehntep jarcwa cym ehncryh cu’ca me caahyj catiji ehntyj ehcreh to ehcreh cym mymy qui ca amcroo ehntepto moo. Hõne mejpii crẽhcatehre te amjõhn to ehjhimpejtee hajỹhr, cym hãn wa me amjõhnquen to jaapuj to hãne’ha pom qui: Hõne ehncree ehntaa ji my me ejcree catiji my ehmpoo cohneh cut haanren,me
ehjmy mam mejte amjohto ehhimpej xyy cut haanren Ne ehncree ehntaa my me jyhmcwyr’xy’ny me ehjcappuu pom qui:
-
Wýhtý: considerações sobre modos de conhecer e pesquisar indígena
— José Cuxy Krahô
— José Cuxy Krahô
O Whyty Mehi (Wýhtý) constitui um dos rituais centrais do povo Krahô, sendo fundamental para seu modo próprio de conhecer, aprender e produzir sentido sobre o mundo. Mais do que uma prática ritual, o Wýhtý é um espaço de formação do corpo, da memória e da coletividade, no qual o conhecimento é transmitido por meio da participação, da experiência e da convivência intergeracional.
O ritual envolve o corte de cabelos, a pintura corporal, o corte de toras grandes e pequenas e a corrida ritual, organizada entre dois partidos complementares e em disputa: o Kyjcatêjê, do lado nascente, e o Harãhcatêjê, do lado poente. Todos e todas participam das atividades, o que reforça a dimensão coletiva do conhecimento e a responsabilidade compartilhada na manutenção da cultura viva na comunidade.
Para pensar uma pesquisa indígena, o Whyty Mehi ensina que conhecer não é separar corpo, espírito e território, mas aprender fazendo, escutando e respeitando os tempos do ritual e dos mais velhos. Diante do afastamento de alguns jovens e adolescentes de suas práticas culturais, pressionados por outras referências que não pertencem à sua crença, o Wýhtý reafirma-se como espaço de resistência, fortalecimento identitário e continuidade dos saberes Krahô.
-
Educação Indígena. Um diálogo interepistêmico entre os Saberes dos Povos Originários e o Conhecimento Formal das Políticas Públicas do Estado.
— Mariana Cunha Pereira, Teddy Keyari Njaya
— Mariana Cunha Pereira, Teddy Keyari Njaya
Nesse artigo desejamos refletir sobre o movimento simultâneo que vem ocorrendo no Brasil, desde o início dos anos de 1970, quando os movimentos indígenas e indigenistas começaram a exigir um diálogo direto com os Estados-nação sobre os seus direitos políticos, sociais e culturais, destacando a importância de uma educação que seja culturalmente diferenciada. A promulgação da Constituição Federal de 1988 resultou em programas de educação indígena, bilíngue e bicultural e consequentemente, o surgimento de cursos de formação superior nas universidades para os povos originários. Nesse caso, surge outras epistemologias e projetos político-pedagógicos que constroem novas formas de aprendizagem, ou seja, um diálogo Inter epistêmico e intercultural no ensino superior. De um lado, surgem as políticas de ação afirmativas que direcionam políticas educacionais para a entrada e permanência de alunos indígenas na universidade e por outro as tomadas de decisões individuais ou coletivas de indígenas que buscam dar continuidade em seus processos de formação. O objetivo deste artigo é aprofundar um dialogo inter-epistêmico entre os saberes dos povos originários e o conhecimento formal das políticas públicas do Estado, e realizar a discussão com base na hipótese de que a confluência desse movimento em busca de formação continuada se dá com base nos movimentos sociais e em uma larga produção acadêmica que insere uma epistemologia indígena produzida por intelectuais indígenas brasileiros (as) cujas reflexões tensionam desde o processo histórico colonial, em um diálogo interdisciplinar que redimensionam as políticas de acesso à educação escolar, os desafios e limites institucionais na permanência, repensam e problematizam as metodologias de ensino, a relação entre oralidade e escrita, até as redefinições dos vínculos comunitários. A metodologia que impulsionou essa escrita é qualitativa com abordagem histórico-critica na legislação educacional, em nossas pesquisas de campo e consubstanciada na epistemologia indígena do Brasil.
Palavras Chave. Educação Indígena, Políticas de Ação Afirmativa, Epistemologia Indígena, Povos Originários.
-
A presença indígena na pós-graduação em Educação: desafios e potências de uma política de ação afirmativa
— Mariana Paladino
— Mariana Paladino
Título: A presença indígena na pós-graduação em Educação: desafios e potências de uma política de ação afirmativa
Autoras:
Maria Martinha Mendonça (PPGEDu-UFF)
Ana Paula Morel (PPDEDu-UFF)
Mariana Paladino (Faculdade de Educação UFF)
A presente proposta surge da experiência de duas das autoras, antropólogas e professoras da Universidade Federal Fluminense, integrantes da Comissão Permanente de Ação Afirmativa (CPAA) do Programa de Pós-Graduação em Educação desse universidade e de uma doutoranda indígena desse programa, professora e gestora de uma escola guarani do município de Maricá, e militante do movimento da educação escolar indígena em nível nacional. O trabalho tem como objetivo documentar e refletir sobre a experiência da implementação do acesso diferenciado para indígenas no programa de pós-graduação anteriormente mencionado, bem como analisar os desafios, as limitações e as potencialidades da efetivação desta política, que está em curso desde 2019. Apesar do pequeno número de indígenas que têm ingressado na pós-graduação até hoje, identificamos reverberações significativas dessa presença, em termos de abertura a novas temáticas e problemas, aproximações epistemológicas e nas metodologias de pesquisa, baseadas no diálogo e na construção coletiva do conhecimento. É especialmente significativo abordar e reconhecer de que modo a presença de pesquisadores indígenas mobiliza estreitos vínculos com os territórios, possibilitando uma articulação crítica entre educação popular, pesquisa e extensão. Nesse processo, se evidencia que a presença de intelectuais indígenas na pós-graduação emerge como um acontecimento político e epistemológico que reconfigura os modos de fazer ciência e universidade.
Coordenação
Alinne de Lima Bonetti (UFSC)
Elisete Schwade (UFRN)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Susana Rostagnol (udelar)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Miriam Steffen Vieira (UFRGS)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Elisete Schwade (UFRN)
Desde meados dos anos 2000, temos buscado mobilizar reflexões sobre o fazer antropológico feminista no Brasil bem como reunir pesquisadoras que compartilhem deste modo de fazer engajado que se materializou, em 2006, na Rede Brasileira de Antropologia Feminista. Na rede nos conectamos e debatemos sobre o então incipiente campo antropológico feminista brasileiro em uma lista de discussão virtual, que se desdobrou em comunidade numa rede social. Desde então, nos reunimos na 26ª Reunião Brasileira de Antropologia, no Fazendo Gênero 10, no Fazendo Gênero 13 e na XV Reunião de Antropologia do Mercosul. De lá para cá a antropologia feminista brasileira se ampliou, se multiplicou, se disseminou e se fortaleceu no diálogo com redes internacionais. No marco da 35ª. RBA, aos vinte anos daquele momento inicial, gostaríamos de celebrar e dar continuidade aos encontros. Nossa proposta é a de reunir trabalhos que abordem o fazer antropológico feminista, suas diferentes possibilidades e formas de concepção, desafios e inovações metodológicas e éticas diante de cenários etnográficos contemporâneos, formas de resistência ao avanço do neoliberalismo e ao retrocesso na agenda de gênero entre outras temáticas de interesse antropológico feminista. Nossa proposta é a de recobrirmos de maneira ampla as diferentes possibilidades e questões que podem emergir do diálogo entre a antropologia e os feminismos contemporâneos como formas criativas e imaginativas de produção de conhecimento.
Títulos e Resumos
-
Autoetnpgrafia feminista
— Aline Mandelli
— Aline Mandelli
Nas práticas científicas feministas das ultimas décadas destacam-se o desafios epistemológicos que impõem a neutralidade positivista e a objetividade na pesquisa. As pesquisadoras têm destacado a experiência como central e geradora de conhecimento além da ênfase que colocam em elementos como raça, classe e posição social da pesquisadora. Neste sentido, a adoção da autoetnografia nas investigações tem sido considerada uma das mais adequadas técnicas de campo uma vez que reconhece a pesquisadora como sujeita da investigação, destacando a importância de sua experiência e subjetividade buscando compreender o eu em intersecção com o contexto social e cultural, indo além da simples narrativa pessoal.
Ao criticar a noção de objetividade na pesquisa, a autoetnografia reconhece a importância da reflexividade nos processos de investigação, o que implica considerar que a etnógrafa está interligada aos fenômenos documentados pois além de operar dentro de uma comunidade interpretativa, incorpora elementos multiculturais superando a ideia de observação isolada. A ênfase na reflexividade e autoconhecimento é vital, pois reconhece a importância de uma análise crítica das posições de poder e privilégio das pesquisadoras.
Neste sentido, a abordagem emerge como uma ferramenta poderosa para o feminismo acadêmico por oferecer uma perspectiva única sobre as experiências das mulheres. Desse modo, ao dar voz às experiências pessoais à luz das dinâmicas de poder, a autoetnografia fornece insights cruciais sobre como as hierarquias de gênero operam no cotidiano, contribuindo para o entendimento das estruturas sociais que perpetuam as desigualdades de gênero
Neste trabalho, discutiremos como a autoetnografia pode fortalecer as teorias feministas, oferecendo uma visão única das experiências vividas das mulheres, desafiando normas e contribuindo para o desenvolvimento de teorias mais sensíveis e socialmente relevantes.
-
Tecituras de Insubmissão: Agências Femininas, Redes de Cuidado e a Produção do Viver no Assentamento Denis Gonçalves (MG).
— Andréa Gesteira
— Andréa Gesteira
Este trabalho investiga as agências que emanam dos espaços íntimos e coletivos de mulheres do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Assentamento Denis Gonçalves - Zona da Mata Mineira. A partir da pesquisa de mestrado, fundamentada no "sentir-fazer-pensar", exploro como essas mulheres utilizam agências cotidianas para romper cercamentos físicos e subjetivos impostos pela lógica colonial-patriarcal-capitalista. No território da antiga Fazenda Fortaleza de SantAnna, marcado historicamente pela espoliação de corpos, as assentadas emergem como terras andantes remodelando a cartografia espaço-corporal-cognitiva da região.
O estudo utiliza o corpo-território feminino como lente analítica central para compreender as (re)existências que emergem por meio da reinvenção cotidiana da vida. A pesquisa parte da recusa a uma razão agrária instrumental que reduz o território a um polígono cartográfico para apostar em uma gramática tecida por corpos feminizados que cozinham, cuidam, plantam, educam e reorganizam o mundo de dentro para fora.
Caminhar com essas mulheres permite compreender o corpo-território como categoria viva: a primeira trincheira da colonização e o solo inaugural da reterritorialização. Parto da premissa de que é no corpo que se inscrevem as violências do patriarcado, do colonialismo e do capital, assim como é nele que germinam as práticas de insubmissão que sustentam o território como espaço de vida.
A metodologia que utilizo é fincada na presença, escuta sensível e agência política, práticas que privilegiam o saber situado e a oralidade como ferramentas inventivas, dando visibilidade a histórias que desafiam as narrativas oficiais e as categorias universalizantes do campesinato.
Nesse cenário, destaco três projetos coordenados pelas assentadas: a Escola Carlos Henrique Ribeiro dos Santos, a COOPAC (Cooperativa de Produção Agroecológica) e o Plantio Solidário.
Essas experiências revelam como aquilo que foi historicamente desqualificado como ajuda ou trabalho invisível constitui, na prática, uma sofisticada tecnologia política. A partir delas, casas, cozinhas, quintais e roçados tornam-se centros de decisão e coletivização de cuidados, (re)habitando espaços e identidades.
Por meio de uma ética colaborativa, esta proposta reafirma o papel da antropologia feminista na construção de outros paradigmas sociais, onde teoria e prática se fundem para semear horizontes de justiça substantiva de gênero ao afirmar que não há luta pela terra sem luta pelos corpos; não há território sem cuidado; não há justiça sem justiça substantiva de gênero. Ao transformar o Assentamento Denis Gonçalves em um monumento vivo de criação coletiva, essas mulheres nos ensinam que outro mundo está sendo cultivado. Dia após dia, no chão da vida compartilhada.
-
Redes, feminismos e tecnociência: um panorama da experiência de consolidação da Rede Latinoamericana de Antropologia Feminista das Ciências e da Tecnologias (RAFeCT)
— Clarissa Reche Nunes da Costa
— Clarissa Reche Nunes da Costa
Este trabalho propõe apresentar e discutir um panorama da consolidação da Rede Latino-Americana de Antropologia Feminista da Ciência e da Tecnologia (RAFeCT) como um espaço coletivo de produção de conhecimento, articulação política e experimentação metodológica. Gestada em 2023, a partir de encontros realizados no 14º Encontro de Antropologia do Mercosul (RAM) e no 9º Encontro de Antropologia da Ciência e Tecnologia (ReACT), a RAFeCT surge como resposta às condições historicamente masculinas, hostis e heterocisnormativas que marcam o campo dos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia na América Latina, apesar da centralidade das contribuições feministas em seus fundamentos. A rede se constitui como um espaço de acolhimento, troca de conhecimentos e articulação entre academia, movimentos sociais e outros campos de saber, orientado por perspectivas feministas, interseccionais, parciais e situadas, comprometidas com uma ética da responsabilidade, do cuidado e da justiça social.
A proposta dialoga com a trajetória da antropologia feminista no Brasil, destacando as especificidades da antropologia da ciência e da tecnologia, cujas bases epistemológicas estão profundamente ancoradas na crítica feminista. Ao lidar com laboratórios, infraestruturas tecnocientíficas, práticas experimentais, dados, protocolos e materialidades emergentes, a antropologia feminista da ciência enfrenta desafios particulares como, por exemplo, as disputas por autoridade epistêmica e os efeitos políticos da tecnociência contemporânea.
O trabalho apresentará um panorama da consolidação da RAFeCT a partir das próprias pesquisadoras que compõem a rede e das atividades desenvolvidas até o momento, mapeando áreas temáticas de pesquisa, recortes empíricos, filiações institucionais e a distribuição geográfica das integrantes. Esse balanço constitui uma estratégia política de visibilização da rede, permitindo refletir sobre dinâmicas de consolidação do campo, assimetrias regionais, formas de articulação transnacional e os desafios da construção coletiva do trabalho em rede. Ao propor este GT no marco da 35ª RBA, buscamos contribuir para o fortalecimento da antropologia feminista brasileira, ampliando redes, visibilizando pesquisas e refletindo coletivamente sobre os desafios impostos pelo avanço do tecnofascismo, pela tecnociência hegemônica e pelos retrocessos nas agendas de gênero no Brasil e na América Latina, afirmando a antropologia feminista da ciência e da tecnologia como um campo inventivo, crítico e politicamente implicado.
-
Entre linhas e agulhas: uma etnografia sobre mulheres com câncer de mama.
— Cláudia Cristine Moro
— Cláudia Cristine Moro
O câncer de mama é uma realidade que impacta inúmeras vidas globalmente, tornando a discussão sobre sua prevenção, tratamento e representação cultural de extrema relevância(FEMAMA, 2025). No Brasil é o câncer mais incidente em mulheres de todas as regiões, com taxas mais altas nas regiões Sul e Sudeste. Para cada ano do triênio 2023-2025 foram estimados 73.610 casos novos, o que representa uma taxa ajustada de incidência de 41,89 casos por 100.000 mulheres (INCA, 2022). A presente pesquisa analisa as dificuldades vivenciadas pelas mulheres acometidas pela doença e que fazem da AMUCC (Associação Amor e União contra o Câncer), de Florianópolis (SC). A pesquisa foi fundamentada nos princípios da Antropologia Feminista, assim estabeleceu-se uma relação de parceria e colaboração entre pesquisadora e interlocutoras, resultando em mais de três anos(2022-2025) de convivência profícua. Estou inserida nesse campo de pesquisa, onde a observação etnográfica e o registro nos diários de campo se misturam a minha participação na prática dos trabalhos manuais e demais atividades da associação. Participo do curso de artesanato, das aulas de crochê, das rodas de conversa, das comemorações de aniversário e das festas do grupo. "Estou lá" (Clifford, 1998) pesquisando, exercendo múltiplos papéis, estabelecendo vínculos de afetividade e cumplicidade. Essa imersão conecta-me diretamente à noção de conhecimento situado e corporificado de Donna Haraway (2021). O método etnográfico neste trabalho assemelhou-se a um "portal" que me exigiu desprendimento e habilidades que vão além do domínio técnico- cientifico, requerendo uma relação de proximidade genuína entre as mulheres envolvidas na pesquisa. Assim, compreendo que possuo um requisito que considerei importante para elaboração deste estudo: o fato de ser plenamente "afetada" pelo tema ( Favret-Saada, 2012), uma vez que também sou paciente oncológica há 15 anos. Mais do que afetada, sinto-me atravessada pelo tema, o que me posiciona em um lugar de profunda simetria e proximidade com as mulheres que participaram deste estudo. Para além das incumbências inerentes a produção acadêmica a pesquisa proporcionou a vivência do método etnográfico o que passou a ser um divisor de águas, para mim que venho das Ciências Biológicas, apresentando novas formas de pesquisar e produzir conhecimento engajado.
Palavras chaves: câncer de mama – etnografia – antropologia engajada
-
Fazer campo nos puteiros autobiográficos: as grafias de vida em diálogo com a Antropologia Feminista
— Diadorim Maria de Oliveira Chagas
— Diadorim Maria de Oliveira Chagas
Este trabalho propõe uma reflexão sobre o uso de autobiografias como grafias da vida (Kofes, 1994, 2015) na construção de uma Antropologia Feminista engajada com as epistemologias das trabalhadoras sexuais. Tomando como referência as escritas de si de Gabriela Leite (1992, 2009) e Lourdes Barreto (2023), busco explorar como essas narrativas podem tensionar e reconfigurar categorias analíticas a partir de uma perspectiva putafeminista (Prada, 2018).
O putafeminismo, ao reivindicar a autonomia e a agência política das profissionais do sexo, oferece um horizonte teórico e político que, somado às contribuições de Suely Kofes, permite ler esses escritos não como meros documentos, mas como práticas de produção de conhecimento situado. A proposta se insere no debate contemporâneo da Antropologia Feminista brasileira (Bonetti, 2009, 2011) e internacional (Haraway, 2009; Rostagnol, 2018) que, ao tomar os interstícios entre gênero, relações de poder e sistemas de desigualdade — bem como as especificidades locais — como categorias fundamentais, busca dialogar a partir dessa “awkward relationship” com a disciplina (Strathern, 1987).
O trabalho sexual é o ponto comum entre trabalhadoras/es sexuais e o feminismo, possibilitando uma aproximação rentável para ambos, ao mesmo tempo que tal atividade não pode ser reduzida em seu caráter laboral. Abordado aqui, a partir das autobiografias mencionadas, como polissêmico e holístico, o trabalho sexual co-constitui-se em uma complexa articulação entre gênero, sexualidade, raça, classe, identidade e moralidades, inclusive sexuais. As putagrafias (Ribeiro, 2022) deste corpus serão abordadas sob o prisma de três dimensões: (1) fontes de informação, ao registrarem experiências que transcendem o sujeito narrador; como (2) evocações que expressam sua dimensão subjetiva e interpretativa; e como (3) reflexões que elaboram analiticamente a experiência vivida (Kofes, 1994).
Desse modo, busca-se contribuir para os debates sobre invenções metodológicas na Antropologia Feminista, propondo as grafias da vida putafeministas como instrumentos analíticos para a produção de uma pesquisa etnográfica que seja, simultaneamente, ética, reflexiva e praxiológica. Trata-se não de uma cisão entre Antropologia e feminismo, mas de uma retroalimentação teórico-política. Situo-me, portanto, em uma encruzilhada epistemológica e “incômoda”: a tensão existente entre a Antropologia mainstream e a Antropologia Feminista postas transversalmente com o putafeminismo que, por sua vez, é tensionado pelo feminismo neoabolicionista. É nessa liminaridade, entre a disciplina antropológica e a prática feminista, que se inserem as grafias de vida putafeministas.
-
Direito à dignidade de pessoas trans no pós-morte: a violência do poder absoluto da família nas decisões funerais
— Duda Téo
— Duda Téo
Este trabalho investiga as violências simbólicas praticadas contra pessoas trans no pós-morte, com foco no poder absoluto conferido às famílias nas decisões funerais e suas implicações sobre o direito à dignidade, à memória e ao legado. Parte-se da compreensão da família como primeira instituição de controle social e principal estrutura de manutenção da cisheteronormatividade (Medrado, 2025), capaz de operar punições e violências contra dissidências de gênero não apenas em vida, mas também após a morte.
A pesquisa dialoga com o contexto brasileiro de transfobia estrutural, evidenciado pelos altos índices de assassinatos de pessoas trans e pela precarização sistemática de suas existências (ANTRA, 2025). Inserida em um cenário marcado pela ascensão de discursos ultraconservadores e fundamentalistas, a família passa a desempenhar papel central na reprodução de violências simbólicas, frequentemente motivadas pelo medo do rechaço social, da “mancha” moral e por crenças religiosas. Nesse contexto, têm se tornado recorrentes casos de destransição no pós-morte, nos quais pessoas trans são veladas, enterradas e registradas com seus nomes mortos e com marcas de gênero impostas no nascimento.
A metodologia articula pesquisa documental, a partir da análise de notícias veiculadas em ambiente online, e pesquisa de campo baseada em entrevistas com pessoas que perderam entes trans vítimas de transfobia funeral. A análise dos relatos evidencia como o poder absoluto da família (Foucault, 2014) e, em alguns casos, de agentes funerários, opera o apagamento da identidade de gênero da pessoa falecida, violando direitos fundamentais e promovendo a negação de sua existência histórica.
A transfobia no pós-morte configura-se, assim, como uma extensão das violências vividas em vida, produzindo efeitos não apenas sobre a pessoa que morreu, mas também sobre as pessoas trans que permanecem, gerando medo, insegurança e aprofundando o apagamento histórico dessas existências. Ao discutir iniciativas legislativas que buscam garantir o uso do nome social em documentos e lápides, o trabalho aponta para a urgência de questionar criticamente o poder absoluto da família e de ampliar os dispositivos jurídicos e políticos de proteção à memória de pessoas trans. Defender o direito à memória é, portanto, um gesto fundamental de enfrentamento à transfobia e de afirmação da dignidade humana em uma sociedade marcada por profundas desigualdades e violências estruturais.
-
Por uma antropologia de enfrentamento ao feminicídio: rodas de conversa e ação comunitária
— Flávia Valéria Cassimiro Braga Melo, Mayra Caiado Paranhos, Fernanda da Costa Gomes de Souza, Isabela Costa Cândido dos Reis
— Flávia Valéria Cassimiro Braga Melo, Mayra Caiado Paranhos, Fernanda da Costa Gomes de Souza, Isabela Costa Cândido dos Reis
Este trabalho analisa a roda de conversa como um recurso da antropologia
feminista para o enfrentamento do feminicídio. A reflexão é baseada na experiência de
uma ação extensionista chamada "Diálogos Feministas" (UEG, 2022-2025), realizada
com comunidades na periferia de Aparecida de Goiânia (GO). Argumentamos que a roda
opera simultaneamente como prática etnográfica e dispositivo de intervenção. Como
etnografia, fundamenta-se na escuta ativa e na ética do cuidado para produzir
conhecimento sobre as dimensões interseccionais da violência. Como intervenção,
promove análise coletiva, letramento de direitos e construção de redes comunitárias de
proteção. A antropologia feminista, ao se situar no centro da violência que estuda,
converte a tensão da pesquisa em ação política. O trabalho demonstra a relevância desta
metodologia para articular pesquisa e extensão, gerando, a partir do diálogo,
infraestruturas comunitárias de enfrentamento à letalidade contra as mulheres.
Palavras-chave: Antropologia feminista; Rodas de conversa; Feminicídio.
-
Etnografando as negociações entre duas organizações feministas, no Brasil e em Cabo Verde, em torno de uma agenda de combate à violência de gênero
— Janaína Perez Reis, Miriam Steffen Vieira
— Janaína Perez Reis, Miriam Steffen Vieira
Este trabalho visa apresentar alguns aspectos da etnografia realizada junto à Associação Cabo-Verdiana de Luta contra a Violência Baseada no Gênero, localizada no arquipélago de Cabo Verde, no período entre outubro de 2022 a outubro de 2023. Num primeiro momento, apresentaremos a construção da pesquisa, de forma colaborativa com esta Associação e com a organização feminista brasileira Themis Gênero, Justiça e Direitos Humanos, a partir de um projeto em comum entre as organizações, o Fla SIM pa Mudjer [Falar SIM para a Mulher]. Num segundo momento, destacaremos as dimensões das interseccionalidades de gênero e raça na agenda de combate à violência de gênero, a partir das negociações estabelecidas entre as organizações. Exploramos estes processos de significação em contraste e como ganham sentido em contextos específicos. O objetivo é compartilharmos esta experiência de desenvolvimento de uma pesquisa colaborativa com duas organizações feministas do Sul Global.
-
Fazer antropológico, fazer desabafo: por uma escuta etnográfica com mulheres negras cuidadoras
— Laura Marques Lopes
— Laura Marques Lopes
Este resumo nasce de trabalhos de campo realizados em Patos, João Pessoa e Campina Grande, na Paraíba, entre 2023 e 2025, junto a três mulheres negras — duas irmãs e uma tia materna — que assumiram o cuidado de crianças e adolescentes após a morte abrupta de suas mães pela Covid-19. A pesquisa acompanha três famílias vinculadas a uma política pública estadual para orfandade pela Covid-19 — o Programa Paraíba que Acolhe —, mas se desloca, aqui, para um outro plano: o da escuta, da presença e da afetação no encontro etnográfico, tomando a morte materna como um evento crítico (Das, 1995) que reorganiza vidas, tempos e responsabilidades. No início, as entrevistas aconteciam sob tensão. O tempo da pesquisa disputava espaço com o tempo do trabalho doméstico e de cuidado, evidenciando a crise do cuidado inerente ao capitalismo, apontada por Nancy Fraser (2016), e suas expressões desiguais complexificadas no Brasil pandêmico, conforme Nadya Guimarães (2024). As falas eram rápidas, atravessadas por silêncios que diziam “não tenho muito o que falar”. Com o retorno consentido às casas e a repetição dos encontros, algo se transformou: as conversas se alongaram, as perguntas deram lugar a narrativas, e o que antes parecia “tempo tomado” passou a ser nomeado pelas próprias interlocutoras como “momento de desabafar”. Nas tardes em Campina Grande, conversávamos em meio aos pedidos de colo das crianças. Em João Pessoa, o sofá virou lugar de confidência sobre um corpo cansado e sono interrompido. Em Patos, falar tornou-se uma forma de externalizar a imaginação do amanhã. Nessas casas, a entrevista deixou de ser apenas método e se tornou relação, revelando, como sugere Flávia Pires (2020), uma denúncia da privatização e feminização do cuidado e um chamado à reconstrução de um compromisso partilhado entre Estado, comunidade e sociedade. Ser uma antropóloga negra jovem produziu efeitos nesse campo. Meu corpo, minha fala e minha escuta abriram possibilidades específicas de aproximação, situando o conhecimento produzido (Haraway, 1995) e deslocando o fazer antropológico para uma zona ética delicada, onde escutar e falar, ainda que não terapêuticos, produzem alívio, elaboração e confiança. Em contextos marcados pela sobrecarga feminina do cuidado e pela insuficiência das políticas públicas — expressão de um déficit democrático e de cuidado (Tronto, 2024) —, a escuta sensível e atenta torna-se também um gesto político. Proponho pensar o “desabafo” não como efeito colateral do campo, mas como parte constitutiva de um fazer antropológico feminista situado, engajado e relacional. Mais do que oferecer respostas, reflito sobre limites, responsabilidades e potências de uma Antropologia que, ao escutar, deixa-se atravessar — e que, nesse atravessamento, transforma e é transformada.
-
Sentir para resistir: a escrevivência das emoções femininas como forma de transcendência e liberdade
— Natasha Hevelyn, Célia Soares, Maria Elizandra Santos de Oliveira
— Natasha Hevelyn, Célia Soares, Maria Elizandra Santos de Oliveira
Situado na intersecção dos estudos de gênero, da filosofia existencialista feminista e da antropologia das emoções, este trabalho objetiva analisar como a escrevivência, a partir das emoções e subjetividades, conjectura modos de liberdade, tensionando as categorias de imanência e transcendência frente ao patriarcado. Sartre (2006) afirma que o homem está condenado a ser livre, pois, não havendo uma essência dada, cabe a cada sujeito inventar-se a partir das próprias escolhas. No entanto, Simone de Beauvoir (2019) tensiona essa universalidade ao afirmar que, para a mulher, a liberdade não é uma experiência imediata, mas algo constantemente adiado, sequestrado e mediado pelas estruturas patriarcais. Essa condição fixaria as mulheres na imanência, como seres determinados biologicamente, enquanto os homens se realizam na transcendência. Essa tensão entre a liberdade como ontologia (inerente ao ser e à sua capacidade de transcendência) e como condição (atravessada por relações sociais e restrita à imanência) permite ler com mais profundidade os textos literários de mulheres que escrevem a partir de si - a escrevivência -, como um gesto político e poético de reapropriação de si mesmas. O corpus inclui obras como A menor mulher do mundo, de Clarice Lispector (1979), que revela a forma como a emoção do outro é interpretada por uma lente eurocêntrica; Mulher ao espelho, de Cecília Meireles (1973), o conflito da objetificação do corpo feminino e Vozes-mulheres, de Conceição Evaristo (2017), em que a experiência das emoções é narrada a partir de uma posição social racializada e generificada. A análise também abrange os autorretratos emocionais produzidos pelas mulheres participantes da oficina de escrita realizada durante o Cirkula UFPE (2025), bem como pelas ministrantes, evidenciando a participação implicada na pesquisa. As emoções são compreendidas, neste estudo, como produto da cultura - não como dados fixos, mas constituídas na experiência vivida (Le Breton, 2026). Ademais, tratam-se de fenômenos estruturais, atravessados por assimetrias sociais e relações de poder (Lutz, 2012). Essa abordagem permite compreender as emoções, tanto nos textos literários quanto nas narrativas da oficina, como indicadores de subjetividade, agência e resistência ao patriarcado. Tais expressões configuram-se, portanto, como estratégias micropolíticas de resistência e produção de sentido na experiência feminina. Sentir é um ato cultural, mas sentir e expressar suas emoções podem construir caminhos para alcançar a transcendência, exercer a liberdade e resistir frente às estruturas patriarcais.
Palavras-chave: Escrevivência; feminismo; antropologia das emoções; liberdade; transcendência.
-
Arquivo lésbico e suas grafias: relato de uma curadoria artística-antropológica
— Ralyanara Moreira Freire
— Ralyanara Moreira Freire
Quais são as narrativas-estéticas que compõem os acervos de pessoas diversas? Quais são as escolhas que pessoas diversas fazem quando acionadas a depositar sobre uma superfície artística as representações de/sobre si? Que repertórios são ativados para compor um arquivo coletivo e lésbico? A exposição Arquivo Lésbico e suas Grafias foi movimentada a partir dessas indagações e surgiu como uma obra curatorial-artística-antropológica. O Arquivo buscou revisitar acervos pessoais de pessoas lésbicas, trazendo à tona escritas de si. Enquanto antropóloga e artista visual, eu abri uma chamada nas redes sociais e aplicativos de mensagens convidando pessoas lésbicas a enviarem fotografias de si para compor o escopo principal da curadoria. Sugerindo uma abordagem estética-intimista e amparada pela ética do cuidado, a exposição se propôs a refletir sobre a materialidade das experiências ordinárias e corriqueiras, provocando uma reflexão sobre o que é digno de ser arquivado ou exposto em museus tradicionais. Essas grafias de si, carregadas de significados, memórias e identidades foram entendidas como uma oportunidade para questionar e desafiar o status quo das coleções museológicas que, frequentemente, ignoram a pluralidade e os saberes localizados. Além disso, “Arquivo Lésbico e suas Grafias” traz luz às sexualidades dissidentes de pessoas lésbicas e demais denominações em diferentes contextos. Ao tornar visível o que há de mais intrínseco e privado, a exposição preserva e celebra essas histórias, criando um espaço onde as diversidades sexuais e de gênero são reconhecidas e respeitadas. A obra nasce de maneira colaborativa, contando, também, com trabalhos de jovens artistas que buscam lugares para expor e discutir suas produções. O “Arquivo Lésbico” provoca no público o voltar-se para si, pensando no próprio corpo, na própria vida como uma “bandeira”, como objeto museológico-artístico, como grafias. Assim, a exposição se estabelece como gesto-estético-coletivo e colaborativo. Ocupando as fronteiras entre antropologia e arte, eu elaboro um relato de experiência centrado na realização da exposição – ocorrida em agosto de 2025 no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás – de maneira a costurar os saberes artísticos, antropológicos, lésbicos e feministas.
-
Feminismo, docência e pesquisa: uma experiência de etnografia colaborativa com estudantes mães na Educação do Campo
— Suzana Cavalheiro de Jesus
— Suzana Cavalheiro de Jesus
Este texto apresenta registros etnográficos realizados no período de agosto de 2021 a maio de 2022, com o intuito de conhecer narrativas de mães universitárias, na relação com seus filhos, durante a pandemia de Covid-19, em territórios indígenas e quilombolas. As vivências dessas mulheres abordam percepções sobre o cuidado, em âmbito individual e coletivo, lançando luz à temas clássicos dos estudos feministas e convidando ao diálogo com estudos sobre a infância, sobretudo sobre o cotidiano de crianças indígenas e quilombolas. Apresento suas experiências, aqui, enquanto parte das análises de uma pesquisa de pós-doutorado, que desenvolvi no Programa de Investigação Pós-Doutoral em Ciências Sociais, Infâncias e Juventudes CLACSO/RedInju, junto à Universidade de Manizales, Colômbia – pesquisa que
tem como objetivo analisar o impacto da pandemia de Covid-19 no cotidiano de mães universitárias, indígenas e quilombolas, haja vista as denúncias sistemáticas de movimentos sociais sobre o descaso governamental em seus territórios, neste período. Por fim, problematizo a dimensão do trabalho de cuidados na instituição e as consequências atuais que a ausência de uma política de cuidado impõe à permanência das mães da Educação do Campo, mas especialmente das mães indígenas e quilombolas, no campo das ciências.
-
Prazer, gênero e leitura: uma abordagem feminista sobre mulheres leitoras de literatura erótica
— Thainara Pereira de Souza
— Thainara Pereira de Souza
O presente trabalho resulta de reflexões iniciais de uma pesquisa de mestrado que analisa o universo do consumo da literatura erótica por mulheres, com foco nos aspectos morais e feministas acionados por essas leituras. A pesquisa busca compreender através da antropologia de que maneira os chamados “livros hot” contribuem para processos de empoderamento feminino e para a constituição de formas específicas de sociabilidade entre mulheres leitoras, articulando prazer, gênero, sexualidade e consumo cultural.
A partir do consumo da literatura erótica, investiga-se um universo marcado pela diversidade de trajetórias, idades e contextos sociais das leitoras. Apesar dessa heterogeneidade, esse consumo frequentemente ocorre de forma velada, uma vez que a literatura erótica ainda é atravessada por julgamentos morais, sendo comumente associada a desvios de uma suposta “ordem natural” e sendo muitas vezes classificada como uma suposta pornografia escrita. Essa estigmatização evidencia dispositivos de vigilância e contenção da sexualidade das mulheres, como argumenta Carole Vance (1984), ao situar a experiência sexual feminina entre o perigo e a possibilidade do prazer.
O trabalho se insere em uma abordagem que considera o avanço de discursos conservadores e o fortalecimento de estigmas ligados às religiões neopentecostais no contexto brasileiro recente, analisando como esses processos impactam nichos culturais antes invisibilizados ou consumidos de maneira discreta. A popularização da literatura erótica entre mulheres, intensificada a partir do sucesso da franquia Cinquenta Tons de Cinza (2015), trouxe visibilidade a esse consumo. Nesse sentido, analiso episódios ocorridos durante a Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2025, nos quais influenciadoras evangélicas publicaram vídeos criticando a presença e a visibilidade da literatura erótica, além de críticas à presença de dizeres feministas no evento como frases de Simone de Beauvoir mostrando como dentro deste universo essas leitoras podem ser ridicularizadas também por outras mulheres.
A partir de uma perspectiva da antropologia feminista, o trabalho propõe refletir sobre como a literatura erótica, ao mesmo tempo em que é alvo de censuras e disputas morais, constitui-se como um espaço de agência, prazer, resistência e produção de sociabilidades femininas no Brasil contemporâneo.
-
Entre a dor e o cuidado: emoções, acolhimento e resistência de mulheres periféricas em uma etnografia sobre violência de gênero em São Gonçalo
— Vanessa Teixeira de Moraes
— Vanessa Teixeira de Moraes
Este trabalho apresenta uma etnografia realizada na Roda Refletiva para mulheres vítimas de violência de gênero, promovida pelo Movimento de Mulheres de São Gonçalo (MMSG), organização da sociedade civil localizada na região metropolitana do Rio de Janeiro. A pesquisa busca articular as perspectivas e os papéis de mulheres protagonistas de lutas e demandas por direitos com os processos sociais que as posicionam como vítimas de certas violências. Nesse sentido, analisa-se a atuação dessas mulheres e suas interações com projetos e movimentos sociais, considerando não apenas a violência de gênero, mas também atravessamentos do racismo institucional e estrutural.
A violência contra mulher no Brasil tem se consolidado como um problema público. Apesar da existência de marcos legais como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), os índices de violência permanecem elevados. Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP, 2023), os feminicídios e homicídios femininos cresceram 2,6% em relação ao ano anterior, enquanto os casos de estupro aumentaram cerca de 14,09%, o que equivale a um registro a cada oito minutos, totalizando mais de 34 mil ocorrências.
Partindo do entendimento que dependendo do local de onde essa mulher vive e fala, a violência é experienciada de formas diferentes, a presente pesquisa buscou entender a partir da etnografia realizada em uma organização não governamental no município de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, como mulheres vítimas de violência verbalizam, interpretam e lidam com esse fenômeno.
Assim, as dimensões emocionais são compreendidas como constitutivas da vida social dessas mulheres, produzindo subjetividades, vínculos e práticas coletivas de enfrentamento à violência. A Partir da observação participante nos encontros quinzenais da Roda Reflexiva, da elaboração do diário de campo e da realização de entrevistas, examina-se como experiências de sofrimento moral como medo, vergonha, tristeza, humilhação e culpa frequentemente vividas no espaço doméstico e naturalizadas ao longo da vida, passam a ser nomeadas, compartilhadas e ressignificadas em um espaço coletivo de escuta, acolhimento e resistência.
-
Tarot, Trabalho e Mulher: uma etnografia em circuitos esotéricos na cidade do Recife (PE)
— Vinícius Yeshua Lira de Lima, Jucy Monteiro de Melo
— Vinícius Yeshua Lira de Lima, Jucy Monteiro de Melo
O tarot ou tarô é um sistema composto por 78 cartas, divididas entre 22 arcanos maiores e 56 arcanos menores, amplamente utilizado como método oracular. Sua origem histórica é incerta, variando entre hipóteses que o situam no antigo Egito e interpretações que o associam ao contexto europeu, especialmente à Itália renascentista, onde há evidência do primeiro baralho que se tem registro (Pollack, 2023). No Brasil, as primeiras menções documentadas ao tarot datam de meados do século XIX, frequentemente vinculadas a anúncios de sibilas e cartomantes em periódicos da época (J. Oliveira, 2024). Desde sua inserção no imaginário social brasileiro, o tarot passou a ser socialmente associado às mulheres. Esse vínculo é consonante às construções culturais que vinculam o feminino ao misticismo e ao sobrenatural, conforme Silvia Federici (2017). Em diálogo com a antropologia feminista, especialmente os estudos de Brah (2006) e Moore (1988) e em conexão com as feministas materialistas como Christine Delphy, Carole Pateman e Silvia Federici, esta pesquisa tem como objetivo analisar o papel do tarot na construção da independência da mulher, sobretudo de ordem financeira. A presente comunicação parte de uma observação participante (Shah, 2020) realizada em eventos e encontros esotéricos na cidade do Recife, analisando, em especial, a relação entre mulher, trabalho e tarot. Argumenta-se que, ao se apropriarem de um instrumento estigmatizado como atividade feminina e não convencional, mulheres subvertem lógicas de preconceito e medo, transformando o misticismo atribuído ao feminino em recurso econômico e estratégia de autonomia. Assim, o tarot configura-se como uma estratégia possível de inserção no mundo do trabalho (Hirata, 2017), permitindo às mulheres negociarem marcadores sociais, e construírem trajetórias de independência em contextos historicamente e culturalmente marcados por desigualdades.
Coordenação
Anaxsuell Fernando da Silva (UNILA)
Lilian Leite Chaves (UFRR)
Pessoa debatedora
Fellipe Coelho Lima (UFRN)
Jainara Oliveira (UFGD)
Carolina Cadima Fernandes Nazareth (UNILA)
Nossa proposta de GT parte do pressuposto de que a Antropologia, de longa data, tem contribuído significativamente para a compreensão dos fenômenos associados aos processos de saúde e adoecimento. Parte ainda da constatação de que os fenômenos da loucura, doença mental, sofrimento psíquico fazem parte das reflexões que fundam e consolidam a Antropologia Brasileira desde o final do século XIX. Nosso entendimento é de que as mudanças ocorridas nas últimas décadas na ordem social, política, econômica e tecnológica têm impactado diferentes âmbitos da vida. Nesse escopo, desejamos constituir um espaço de diálogo com diferentes áreas disciplinares interessadas na compreensão e desnaturalização dos mecanismos de opressão contemporâneos produtores de sofrimento psíquico, cujas causas e efeitos estão longe se esgotarem em um debate biologizante e/ou medicalizante. A premissa aqui adotada é de que a saúde mental é um campo pluridisciplinar e de caráter psicossocial, e, portanto, não circunscrita apenas aos campos psis (psicologia, psiquiatria e/ou psicanálise) e/ou biomédico. Deste modo, serão bem-vindas investigações etnográficas e reflexões teórico-analíticas que estejam interessadas nas contribuições da Antropologia para o campo da saúde mental e no diálogo entre as Teorias Antropológicas contemporâneas e o campo Psi que estejam comprometidas com uma concepção de saúde mental e sofrimento psíquico como um fenômeno complexo, multifatorial e histórica e culturalmente situados.
Títulos e Resumos
-
Entre a antropologia e a psicanálise: sofrimento psíquico, indivíduo moderno e diferença na clínica contemporânea
— César Augusto de Assis Silva
— César Augusto de Assis Silva
A psicanálise nasceu no interior de uma tentativa médica de tratar o sofrimento psíquico das classes abastadas europeias e, ao longo de grande parte de sua história, permaneceu majoritariamente circunscrita a sujeitos pertencentes às classes altas e escolarizadas. Contudo, as transformações sociais das últimas décadas — marcadas pelo aumento da renda de grupos historicamente marginalizados, assim como a partir das iniciativas de clínicas sociais de baixo custo — têm contribuído para sua progressiva popularização em novos extratos da sociedade.
Valores como neutralidade e respeito às diferenças parecem favorecer essa expansão da psicanálise em direção a novas alteridades. Entretanto, seu comprometimento com a produção prática de um certo modelo de sujeito — autossuficiente, dessimbiotizado, senhor de seu desejo, propositivo e, no limite, produtivo, isto é, o indivíduo moderno — pode engendrar ruídos, embates e novas formas de resistência na concretude do setting clínico.
A partir de minha dupla posição de ofício, como antropólogo e psicanalista, este trabalho propõe um diálogo situado na fronteira entre esses saberes, colocando em questão o sofrimento psíquico contemporâneo, as relações de alteridade na clínica e o modelo normativo de sujeito implícito na tradição psicanalítica.
-
Gênero e geração: compreendendo a relação entre adultez e medicalização da vida feminina.
— Daiany Cris Silva
— Daiany Cris Silva
No cenário contemporâneo, a medicalização tem alcançado as mulheres em diversas instâncias. Por um lado, a automedicação surge como uma forma de gerenciamento do estresse cotidiano (Whyte, 2002), por outro, as recomendações médicas buscam estabelecer o controle da performance social (Arizaga, 2007). Em ambos os casos, o dispositivo da medicalização se mostra mais presente durante a fase adulta das mulheres (Bru, 2022; Senicato, Azevedo e Barros, 2018; Whyte, 2002), o que se evidencia pela maior presença delas nos atendimentos em centros de assistência psicossocial, demonstrando o impacto das questões de gênero nas políticas públicas de saúde mental (Andrade e Maluf, 2017). Diante dessa perspectiva, compreender os condicionantes que incentivam o aumento do sofrimento feminino durante a adultez é um movimento analítico essencial para dimensionar a realidade vivenciada por mulheres nas sociedades contemporâneas. O recorte geracional torna-se, portanto, imprescindível, especialmente diante da escassez de estudos sobre a adultez e o processo de envelhescência feminino. Nesse sentido, esta comunicação propõe refletir sobre a adultez e os processos de medicalização da vida feminina, articulando o debate acerca das políticas públicas de saúde mental. Busca-se, assim, analisar os moldes sociais atuais da experiência geracional das mulheres na adultez, considerando os tensionamentos vivenciados na intersecção entre as categorias de gênero e geração.
-
Inteligência Artificial na saúde mental: Promessas tecnossolucionistas, desafios éticos e a crítica antropológica.
— Icaro Ferraz Vidal Junior
— Icaro Ferraz Vidal Junior
Propomos um estudo em perspectiva sociotécnica sobre as promessas de uso e as implementações efetivas de tecnologias de Inteligência Artificial (IA) no campo da saúde mental. O estudo busca problematizar o tecnosolucionismo que permeia discursos e práticas que sustentam a inserção da IA em processos cruciais como diagnóstico, triagem e matriciamento nos serviços de saúde mental e atenção psicossocial. O foco reside na análise de documentos oficiais e estudos críticos que evidenciam a tensão entre as promessas de eficiência da IA e os desafios éticos, clínicos e políticos de sua aplicação.
Centramos nossa análise em três eixos. O primeiro consiste na análise das notas técnicas publicadas em resposta à promessa de implementação do aplicativo e-Saúde Mental no Sistema Único de Saúde (SUS). Estas notas revelam as disputas de sentido e as cautelas institucionais e profissionais em face de uma solução digital apresentada como panaceia. O segundo eixo retoma as discussões consignadas no Relatório Tudo por conta própria: aplicativos de autocuidado psicológico e emocional (2020), do Medialab.UFRJ, que expõe a proliferação de aplicativos que oferecem auxílios terapêuticos e as assimetrias de poder e vigilância impostas pela coleta massiva de dados subjetivos. O terceiro prevê uma genealogia dos modos de diagnosticar no campo da saúde mental. Em um contexto de empobrecimento epistemológico da psiquiatria, que se desvincula progressivamente de uma compreensão complexa da experiência humana para se focar em indicadores biológicos e comportamentais estandardizáveis, a saúde mental se transforma em uma zona privilegiada de investimento já não apenas das indústrias farmacêuticas, mas agora também das empresas de tecnologia. O diagnóstico algorítmico, rápido e supostamente objetivo, encontra eco em um campo que já vinha operando com categorias cada vez mais simplificadas e quantificáveis.
A contribuição da perspectiva antropológica é crucial, oferecendo ferramentas conceituais para olhar para esse cenário de forma situada e relacional. A etnografia da ciência e da tecnologia nos permite ir além da retórica da inovação, investigando: (a) como os modelos de IA reificam e exacerbam vieses sociais, raciais e normativos preexistentes; (b) como a mediação algorítmica redefine a relação terapêutica e a própria noção de cuidado; e (c) como a promessa de universalidade da IA ignora a singularidade de cada sujeito e a incidência de marcadores de gênero, raça, idade, território etc. no sofrimento psíquico. A pesquisa reitera a urgência de uma análise antropológica que articule a crítica ao tecnosolucionismo com a proposição de modelos de cuidado que priorizem a complexidade do humano em seus múltiplos agenciamentos sobre uma suposta eficiência algorítmica.
-
Neoliberalismo e sofrimento psíquico: responsabilização individual e privatização do cuidado
— Jainara Gomes de Oliveira
— Jainara Gomes de Oliveira
Neste trabalho, parto do pressuposto analítico de que a forma de vida neoliberal produz efeitos específicos nos modos de determinação, produção e gestão do sofrimento sofrimento psíquico. Tal forma de vida pressupõe uma gramática particular de reconhecimento social do sofrimento, bem como uma política específica em relação a ele. Trata-se de uma forma de vida em que o modelo da empresa se tornou o modo privilegiado de individualização. Nesse tipo de individualização, os sujeitos devem avaliar e dirigir suas vidas como se fossem uma empresa, o que enfatiza modos de subjetivação cujo modelo de sujeito presume um indivíduo livre, independente e autônomo, responsabilizado individualmente pela gestão do próprio sofrimento e do próprio cuidado. No interior dessa forma de vida, a privatização do cuidado torna-se, cada vez mais, a lógica que sustenta a reprodução social nas sociedades capitalistas avançadas. Os laços e vínculos sociais, essenciais tanto para a produção econômica quanto para a vida social, passam a ser tratados como inesgotáveis. Nesse sentido, as capacidades individuais de cuidar de si mesmo em relação à saúde mental também são concebidas como recursos infinitos. Como resultado, verifica-se um sistemático deslocamento, no campo da saúde mental, da responsabilidade pelo cuidado para os sujeitos-cidadãos individuais.
-
"Todo mundo precisa de psicólogo": intersecções entre subjetividades neoliberais e perspectivas de saúde mental entre jovens
— Jamile Guimarães, Laura Galassi de Moraes, Raissa Netto, Geovanna Garibalde da Silva Serpa
— Jamile Guimarães, Laura Galassi de Moraes, Raissa Netto, Geovanna Garibalde da Silva Serpa
Nas últimas décadas, a saúde mental se consolidou como conceito, campo discursivo e de atuação prática. A partir da reforma psiquiátrica, a adoção do modelo de atendimento ambulatorial em serviços públicos incidiu na emergência de culturas psicológicas e psiquiátricas mais generalizadas, com o espraiamento de uma linguagem médica-psicologizada para nomear e definir as diversas formas de mal-estar e de bem-estar. Este trabalho analisa perspectivas sobre saúde mental e sofrimento entre jovens moradores de comunidades periféricas das cidades de São Paulo, Santos e Sorocaba. A pesquisa etnográfica foi realizada em 2023 com observação em 6 Unidades Básicas de Saúde, ONGs voltadas aos direitos sociais da infância e juventude (educação para valores, assistência social, saúde integral) e escolas de ensino médio dos territórios adstritos e 34 entrevistas com jovens usuários dos serviços públicos locais, entre 16 e 24 anos. As narrativas sobre saúde mental e sofrimento dos/as jovens são entrelaçadas aos valores e ideais das sociedades neoliberais. A fragilização de redes de suporte social (familiar e escolar) conduz a percursos mais solitários de produção de modos de existência. Há um anseio por apoio para lidar com relações pessoais e desafios enfrentados no curso da juventude. Apontado como principal necessidade em saúde de jovens, o atendimento psicológico constitui uma estratégia de aprimoramento de si, reforçando a lógica da individualização. Neste cenário, o "psicólogo" e a "terapia" passam a representar/atuar, respectivamente, como agente e instrumento impulsores de uma práxis para a re-interpretação e re-criação de sentidos e significados da experiência pessoal e, portanto, do self. A disseminação de culturas e de saberes psis entre esses/as jovens ocorre de modo idealizado, já que poucos haviam experienciado algum atendimento ou acompanhamento em saúde mental. Em seu universo simbólico, o sentido da atenção psicossocial é ser uma prática formatada a serviço da resolução de processos da vida cotidiana. A significação do psicólogo desvela tanto o sentimento de inadequação facultado pelas corriqueiras hesitações e incertezas, mas que chocam com a dimensão subjetiva neoliberal da forma-empresa, quanto à retração da escuta acolhedora nos espaços em que vivem/atuam, também como consequência da precarização da vida.
-
ARQUITETURA DA ANSIEDADE? Estudo de percepções e impactos do prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPA em discentes com transtorno de ansiedade.
— Juliane Oliveira Santa Brígida, Luiz de Jesus Dias da Silva
— Juliane Oliveira Santa Brígida, Luiz de Jesus Dias da Silva
Condições como o Transtorno de Ansiedade (social ou generalizada) performam grande impacto no modo como os discentes vivenciam e percebem o ambiente universitário (ANDIFES, FONAPRACE, 2019). A partir de dados visualizados no mesmo relatório, percebe-se que pessoas com transtorno de ansiedade já somavam 53,3% da população universitária da Universidade Federal do Pará (UFPA) em 2018. Em 2020, a Pró-Reitoria de Assistência e Acessibilidade Estudantil compartilhou uma cartilha sobre saúde mental para auxiliar no enfrentamento das demandas psicológicas dos estudantes. Neste contexto, apesar da Universidade atualmente oferecer uma gama de projetos, serviços e ações que apoiam discente com deficiência, incluindo o InfrAcessível, não há dados em domínio público que demonstrem quais dessas iniciativas atendem especificamente às pessoas com TA (transtorno de ansiedade), nem estratégias físicas para mitigar ou melhorar a experiência destes usuários dentro do campus.
Se os fenômenos são percebidos a partir de uma visão do mundo (Silva, 2021), entende-se que os espaços construídos também seguem esta correnteza. É necessária, deste modo, a compreensão dos espaços não de ordem estática, mas como objetos que podem ser modificados para melhor atender quem os utiliza. A experiência do lugar, portanto, compreende a subjetividade, memória e carga psíquica do sujeito (Duarte et al, 2023); entende-se, em meio a esta definição, que condições físicas e psicológicas também compõem o fenômeno da experiência. Através do espaço construído, neste trabalho traduzido no prédio da FAU/UFPA, o indivíduo pode aperfeiçoar a sensação e a percepção humana (Tuan, 1983), ao passo que também pode ter impactos negativos na experiência dos objetos. É neste cenário que surge a seguinte questão de pesquisa: como o transtorno de ansiedade influencia na percepção e experiência do espaço dos graduandos de Arquitetura e Urbanismo?
Assim, o objetivo é investigar a percepção dos discentes com transtorno de ansiedade em relação aos espaços construídos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Pará. Como objetivos específicos: analisar quais aspectos arquitetônicos têm mais impacto na experiência da população escolhida para a pesquisa; averiguar de que modo uma arquitetura inclusiva pode ser visualizada dentro do local de pesquisa. O percurso metodológico adotado durante o estudo consiste, primeiramente, de uma revisão bibliográfica. A seguir, a pesquisa alcança cunhos etnográficos, com observação participante e aplicação de questionários e entrevistas com os estudantes da faculdade. Por fim, entende-se que o artigo encontra sua pertinência não só por explorar uma lacuna sensível dentro da vivência discente, mas se propor a explorar estas experiências no âmbito da Faculdade.
-
Dilemas da saúde mental entre os Maxakali, depressão, suicídio e alcoolismo
— Leonardo Leocádio da Silva
— Leonardo Leocádio da Silva
A proposta do artigo é entender como o desejo e o trauma operam no contexto Maxakali pode gerar adoecimento e ao mesmo tempo auxiliar na reprodução cultural e resiliência diante da pressão branca hegemônica. Trata-se de compreender como uma sociedade marcada por mecanismos de socialização intensos, mas regida por uma moral em que considera o outro sempre como potencial inimigo, caracterizada como uma Sociedade Contra o Estado, é capaz de produzir angústia culminando como algo próximo a depressão e do suícido. Em termos teóricos o trabalho se inspira no diálogo simbólico inicial realizado por Levi-Strauss e Lacan, naquilo que tende a observar a relação entre Mito (coletivo) e mito (individualização da narrativa) para uma comunidade indígena cujo simbólico tem uma dimensão prática moldando corpos e construindo subjetividades. Além disso, problematiza aspectos do desejo em sociedades marcadas por uma materialidade precária, mas imersa em um intenso fluxo de objeto e pessoas. Por fim, problematiza aspectos da cura, tanto na sua dimensão xâmanica quanto na utilização do subsistema de saúde indígena.
-
Vivendo com a Autismo: um olhar antropológico sobre as experiências de familiares na cidade de Boa Vista - Roraima
— Mykaelle das Dores de Souza Costa, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
— Mykaelle das Dores de Souza Costa, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
Resumo: Este resumo apresenta resultados parciais de uma pesquisa de mestrado, em andamento, que tem como objetivo compreender os sentidos e significados do autismo a partir das narrativas de mães e pais de crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA). O campo empírico localiza-se na cidade de Boa Vista, Roraima, no extremo norte do país. A metodologia da pesquisa articulam-se à trajetória acadêmica e profissional de uma das pesquisadoras no campo do autismo, construída a partir de pesquisas anteriores e da atuação em uma clínica multiprofissional que atende crianças diagnosticadas com TEA e suas famílias. Adotamos uma abordagem etnográfica que considera as dimensões sociais, culturais e afetivas envolvidas na experiência do autismo enquanto deficiência. As experiências analisadas evidenciaram a complexidade das vivências familiares associadas a um diagnóstico reconhecido no Brasil como deficiência e como as famílias se veem diante da necessidade de reorganizar suas rotinas, incorporando uma série de atividades intensivas, como consultas médicas, terapias e acompanhamentos contínuos com diferentes profissionais. Ou seja, as trajetórias familiares de (re)adaptação no contexto pós diagnóstico. Buscaremos, igualmente, discutir nesse GT como essas experiências se articulam às políticas públicas locais voltadas ao autismo, considerando as relações estabelecidas entre família, deficiência e estado.
Palavras-chave: Autismo; Família; Cuidado; Deficiência; Políticas Públicas.
-
Construção da Subjetividade e identidade: Uma Etnografia Digital da Linguagem e do Conceito de Pessoa em sites Pró-Ana e Pró-Mia
— Sofia Acácia Santos Keller
— Sofia Acácia Santos Keller
Esta pesquisa propõe uma etnografia digital sobre a construção de subjetividades e identidades em blogs pró-Ana e pró-Mia, comunidades virtuais onde indivíduos compartilham experiências relacionadas aos transtornos alimentares de anorexia e bulimia. Neste trabalho a abordagem se faz através da Antropologia da Linguagem, afim de explorar a personificação e performance das figuras de Ana e Mia, e como suas interações afetam subjetividades e corporalidades das frequentadoras desses espaços digitais. Entre os objetivos específicos estão: identificar recursos linguísticos de personificação; analisar processos de voicing e autoridade; compreender articulações entre práticas discursivas e narrativas corporais; investigar construção de identidades e pertencimentos; e analisar interações como espaços de negociação coletiva de significados.
A pesquisa conta com três eixos principais: linguagem como prática performativa - criação de comunidade, construção de crenças e disseminação de práticas; voice, voicing e personificação - atribuição de agência à uma "entidade (transtorno alimentar)" e personificação da entidade (falar como a Ana/Mia, cartas de Ana/Mia); e embodiment - o indvíduo/usuário(a) acata o que foi dito pela "entidade" e atribui isso para si, transformando em prática corporal. Para referencial teórico foram selecionadas obras de Austin (1962) e Butler (1997) para linguagem, Latour (2005) e Bakhtin (1981) para voicing e performação, Csordas (1990) e Mauss (2003) para noções de embodiment. O projeto incorpora material autoetnográfico da pesquisadora, que frequentou esses espaços na adolescência, dialogando com os conceitos de "ser afetado" (Favret-Saada) e reflexividade crítica (Cunha,2009).
A metodologia utiliza etnografia digital (Cesarino, 2016) com imersão prolongada em cinco blogs específicos, selecionados por volume de postagens e interações. A análise foca em marcadores linguísticos de personificação, processos de animação de vozes, vocabulário específico da comunidade, narrativas corporais e interações nos comentários.
Palavras-chave: Antropologia da linguagem. Etnografia digital. Transtornos alimentares. Voicing. Embodiment
Coordenação
Rita de Cássia Melo Santos (UFPB)
Pablo Antunha Barbosa (ufsb)
Nas últimas décadas temos assistido a um renovado interesse da Antropologia pelos arquivos. Muito embora esses artefatos sejam um recurso de trabalho antigo para as humanidades em geral, nelas incluso a Antropologia, podemos dizer que eles tem sido cada vez mais revistados a partir de novas interrogações, sendo compreendidos como importantes artefatos de construção de memórias e de produção de reconhecimento de direitos. Esse interesse e novos usos vem sendo acompanhado de um crescimento cada vez maior da participação no interior da própria disciplina de pessoas pertencentes a grupos historicamente silenciados das narrativas oficiais, tais como indígenas e negros, agora entendidos não mais como meros “objetos de pesquisa”, mas, como reconhecidos produtores de conhecimento. Esse movimento, longe de ser restrito à Antropologia, tem dialogado com diferentes áreas do conhecimento, como as artes, os estudos históricos, a ciência da informação, a arquitetura, as letras, entre outros. Nesse sentido, interessa-nos refletir sobre como os arquivos em suas diferentes naturezas (privados, públicos, familiares, populares, compostos por documentos, objetos, imateriais etc.) tem sido utilizado por pesquisas de cunho etnográfico em diálogo com novas conceituações teórico-metodológicas, a exemplo das fabulações críticas (Saidiya Hartman), produzindo efeitos de memória e de reconhecimento fundamentais à construção de outros futuros passados.
Títulos e Resumos
-
Memórias de si, dos outros e das coisas: percursos de Edna Luísa de Melo Taveira por seu arquivo pessoal
— Ana Cristina de Menezes Santoro
— Ana Cristina de Menezes Santoro
Arquivos pessoais de antropólogos oferecem acesso privilegiado a distintos contextos de produção intelectual nas ciências sociais, permitindo reconstruir trajetórias acadêmicas, identificar redes de sociabilidade e compreender a diversidade de experiências e temas de pesquisa. Nesse contexto, insere-se o arquivo pessoal da antropóloga Edna Luísa de Melo Taveira, cujos documentos guardam vestígios de seus percursos de pesquisa e atuação profissional.
O arquivo de Edna Taveira apresenta múltiplas possibilidades de estudo, desde a história da Antropologia à institucionalização da disciplina em Goiás. Permite reconhecer seus interesses, referenciais teóricos e modos de condução da pesquisa, marcados pela intersecção entre Antropologia e Museologia, campo ao qual se dedicou a partir de sua atuação no Museu Antropológico da Universidade Federal de Goiás. Além disso, reúne parcelas da memória das sociedades indígenas com as quais trabalhou, agregando entrevistas, fotografias, filmes, correspondências e registros relacionados à cultura material.
Reunido ao longo de quase cinquenta anos, o arquivo de Edna Taveira é composto por textos, documentos, fotografias, desenhos e áudios que permitem compreender suas contribuições para a Antropologia, a Museologia e a Educação. O objetivo deste trabalho é refletir sobre os percursos e trajetórias de Edna no campo da Antropologia a partir da abordagem etnográfica de seu arquivo pessoal. Tal perspectiva possibilita o conhecimento de sua trajetória profissional e a análise da metodologia de pesquisa construída em sua prática etnográfica, especialmente nos trabalhos desenvolvidos junto ao povo Karajá.
Metodologicamente, partimos da compreensão de que lidamos com duas trajetórias interligadas: a de vida e a do próprio arquivo. A etnografia do arquivo, iniciada a partir de seu tratamento técnico, permite perceber a interferência de Edna na constituição e organização desse conjunto documental, entendido também como uma construção de memória destinada ao Museu Antropológico. A partir dessa etnografia da constituição do arquivo, focalizamos sua prática de pesquisa, sobretudo no campo da cultura material indígena. Nesse sentido, a leitura etnográfica do arquivo possibilita a percepção de métodos, técnicas e instrumentos empregados em seus trabalhos de campo, bem como das interlocuções estabelecidas com instituições, pesquisadores e lideranças indígenas.
Retomamos, por fim, a importância dos arquivos pessoais de antropólogos, dialogando com a proposição de Ellen Cristine Monteiro Vogas, que os compreende como vestígios de si e dos outros. No caso do arquivo de Edna Taveira, trata-se de vestígios de si, dos outros e das coisas, dada a grande presença de registros relacionados à cultura material indígena.
-
Imaginando a Amazônia: fabulações críticas na conformação da identidade beradêra em Porto Velho-RO
— Betânia Maria Zarzuela Alves de Avelar
— Betânia Maria Zarzuela Alves de Avelar
O presente trabalho analisa a construção do imaginário da identidade beradêra na cidade de Porto Velho (RO), tomando a imaginação como categoria analítica, política e metodológica, em diálogo com debates contemporâneos da antropologia dos arquivos e das fabulações críticas. Parte-se do entendimento de que imaginar não constitui uma faculdade abstrata ou exclusivamente individual, mas um exercício situado que produz realidades sociais, subjetividades e regimes de verdade. Nesse sentido, para compreender o processo de conformação da identidade beradêra, a pesquisa toma os arquivos pessoais como eixo central da investigação antropológica. Entendidos não como acervos privados isolados, mas como conjuntos heterogêneos de memórias, narrativas, fotografias, objetos, músicas e experiências vividas, esses arquivos são mobilizados como dispositivos de elaboração da imaginação social e política que sustenta formas de pertencimento e territorialidades afroameríndias no contexto amazônico urbano. Em diálogo com os debates contemporâneos sobre antropologia dos arquivos e fabulação crítica, argumenta-se que os arquivos pessoais permitem acessar não apenas o que foi registrado, mas também silêncios, lacunas e afetos historicamente excluídos dos arquivos institucionais. Narrativas familiares, lembranças corporificadas e práticas artístico-culturais operam como arquivos imateriais que tensionam fabulações coloniais responsáveis pela chamada "invenção da Amazônia", marcada pela produção de imagens do território ora como paraíso edênico, ora como fronteira vazia, atrasada ou ameaçadora, espaço vazio, atrasado ou disponível à exploração. Esses regimes narrativos contribuíram para o apagamento de temporalidades locais e para a deslegitimação de saberes indígenas, ribeirinhos e afro-diaspóricos, convertendo a imaginação em tecnologia de dominação e controle. Em contraposição a esses regimes narrativos, a identidade beradêra emerge como uma forma de imaginação política situada, elaborada a partir das margens do rio Madeira e ressignificada no espaço urbano de Porto Velho. Por meio de práticas socioculturais, especialmente no campo da música e das culturas periféricas, o termo beradêro é deslocado de uma posição historicamente estigmatizada para constituir-se como marcador simbólico de pertencimento, ancestralidade e crítica social. Tal processo pode ser compreendido como uma fabulação crítica que reinscreve memórias silenciadas, produz efeitos de reconhecimento e contribui para a construção de outros futuros passados.
-
O Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade e as minorias étnicas de Goiás: Uma análise antropológica dos limites da memória, verdade e reparação
— Carlos Eduardo da Silva Colins
— Carlos Eduardo da Silva Colins
O trabalho propõe uma análise antropológica do Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) no Brasil, com foco especial nas minorias étnicas de Goiás, em particular os povos indígenas. A CNV é interpretada como instrumento estatal de justiça de transição, responsável por apurar violações de direitos humanos durante períodos autoritários, mas que impôs limites jurídicos e temporais (1946-1988) à memória e à ancestralidade indígena. Tal delimitação é vista como uma violência epistemológica, pois restringe a expressão dos saberes e práticas de vida desses povos, condicionando a reparação e o reconhecimento de direitos a critérios definidos pelo Estado. A análise teórica fundamenta-se em autores como Foucault, Turner e Geertz, abordando conceitos como aleturgia, ritualidade do poder e drama social. O trabalho destaca que a produção da “verdade” pela CNV se dá por meio de rituais institucionais que, ao mesmo tempo em que dão visibilidade às vítimas, submetem suas narrativas a padrões jurídicos e científicos dominantes, promovendo formas de assujeitamento e liminaridade. O relatório final da CNV é lido como performance institucional que promete reintegração, mas que, para os povos indígenas, resulta em reconhecimento parcial e incompleto, perpetuando exclusões e traumas históricos. A ideia é discutir a cultura política do “equilíbrio de antagônicos”, presente na ideologia da reconciliação nacional, que busca ocultar conflitos e diferenças étnicas em nome da unidade e da governabilidade. A exclusão de eventos históricos, como as violências do Estado Novo de Vargas, e a marginalização de grupos como indígenas, quilombolas e LGBTQI+ no relatório final, evidenciam os limites da justiça de transição e a persistência de pactos de silenciamento. Por fim, o trabalho defende que a efetiva reparação e justiça para as minorias exige o reconhecimento da pluralidade das memórias coletivas, superando marcos temporais e institucionais, e valorizando as epistemologias indígenas. Só assim será possível construir políticas verdadeiramente democráticas, plurais e reparadoras, capazes de enfrentar as continuidades do autoritarismo e promover o direito à memória e à verdade para todos.
-
Frentes, versos, fabulações e remontagens: Algumas interrogações sobre o acervo Lux Vidal de desenhos Xikrin
— Flávio Bellomi-Menezes
— Flávio Bellomi-Menezes
Trabalhando junto aos desenhos feitos pelos indígenas Xikrin da T.I. do Cateté, presentes no acervo doado por Lux Vidal ao Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (LISA/USP), reparo que certos desenhos possuem “frente” e “verso”, isto é, podem ser compreendidos se olharmos para ambas as faces do papel utilizado. Realizando um levantamento dessas folhas com ambos os versos desenhados, foi possível constatar que, em sua esmagadora maioria, os desenhos realmente tratavam de um mesmo assunto, tendo seu “verso” como complementaridade ou como negação. É a partir dessa observação que busco aqui elaborar uma hipótese de apresentação desses desenhos, através de um processo de aceitar o jogo proposto por essas imagens e, dos resultados – no plural –, conceber o tempo da pesquisa, desfazendo o esteticismo das imagens e quebrando a hierarquia dos suportes. Inspirado pela própria dinâmica estética Xikrin, vastamente documentada desde Lux Vidal e por seus discípulos. A proposta aqui é de entender que aspectos tão pujantes presentes nos desenhos do acervo, como o didático, o transformacional e o mnemônico, manifestam-se constantemente, num jogo de deslocamento, combinação e recombinação, criando sempre imagens-outras – não piores, nem melhores, outras –, possibilitando assim (re)imaginarmos os eventos, até mesmo os míticos, contrastar, compor e perspectivar, tal como nos ensinam cotidianamente os Xikrin e tantos outros povos indígenas.
O trabalho está estruturado em três movimentos. No primeiro é apresentado o acervo de desenhos Xikrin e os desenhos que serão discutidos, à luz de comentários prévios já formulados em outras oportunidades, o foco estará na forma de análise – que envolve a antropologia da memória de Carlo Severi e a antropologia da figuração de Philippe Descola – e como essa análise guia as investigações até o presente momento; No segundo movimento, serão discutidos os rearranjos possíveis a partir do que a etnografia junto aos Xikrin já nos apresentou e como seria possível fabular através de um processo de arqueologia das imagens – especialmente pensando junto com Didi Huberman e Aby Warburg –; Por fim, no último movimento serão apresentadas propostas de remontagem dessas imagens de uma forma que demonstrem seu caráter pensante, ativo, de construção de um pensamento outro que leve em consideração as imagens enquanto argumento, não apenas ilustração, e que leve o ato de desenhar dos Xikrin como comunicação (mítica e didática), não apenas repetição de uma forma não-indígena.
-
Presença guarani em São Vicente/SP no século XX: perspectivas a partir de memórias e documentos
— Hugo Salustiano Santos
— Hugo Salustiano Santos
Esta comunicação partirá de histórias de (re)ocupações guarani mbya e tupi guarani em São Vicente/SP em dois momentos no tempo: no Morro dos Barbosas, onde famílias tupi guarani viviam até serem expulsas em meados do século XX; e na Praia de Paranapuã, próxima ao Morro dos Barbosas, onde famílias tupi guarani e guarani mbya levantaram uma nova aldeia (tekoa) no século XXI. Formada em 2004, a tekoa Paranapuã, com processo de demarcação em curso, é sobreposta por uma unidade de conservação, conflito que desdobrou-se em um processo judicial movido pelo estado de São Paulo pedindo a remoção da comunidade. Para defender Paranapuã nesse e em outros processos administrativos enquanto terra tradicionalmente ocupada, anciãs e anciões guarani têm contado suas memórias de vivências em São Vicente ao longo do século XX, na região do Morro dos Barbosas e em outros bairros. Essas memórias encontram eco em documentos pouco explorados do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), de órgãos públicos municipais e veículos de imprensa do litoral sul paulista. A hipótese a ser testada é a de que, embora esses documentos do século XX pressuponham certa efemeridade na presença guarani em São Vicente, seria possível afirmar – a partir do seu confronto com os relatos atuais dos Guarani – que esses próprios documentos atestam, inadvertidamente, a importância da presença nesse município, que dessa forma se constituía como mais um dos nós da rede formada pelas “aldeias livres” guarani, existentes a despeito dos esforços estatais de concentrá-los nas “aldeias oficiais” junto aos postos indígenas do SPI. O que essas narrativas e documentos permitem dizer sobre o que foi, o que poderia ter sido e o que poderia vir a ser a vivência e a territorialidade guarani em São Vicente em meados do século XX? Quais as relações possíveis, as ressonâncias e dissonâncias entre esses materiais produzidos em diferentes tempos e regimes de conhecimento? Como a articulação entre memórias e documentos antigos pode contribuir na projeção um outro futuro possível para os Guarani na região?
-
Imperialismo Epistemico e o Instituto de Cinema Científico Alemão: Intervenções decoloniais no Arquivo e cinema found-footage
— Igor Karim
— Igor Karim
Neste artigo eu examino as polarizações epistêmicas incorporadas nos arquivos do Instituto de cinema científico da Alemanha (Institut für den Wissenschaftlichen Film - IWF), sucessor do Reichstelle für den Unterrichtsfilm (RfdU) do governo nazista, a partir da produção etnográfica de Harald Schultz (1909-1966) para o Museu Paulista. Ao tratar o arquivo do IWF como um espaço de "trabalho de campo arquivístico", exploro a tensão entre as rigorosas diretrizes de produção cinematográfica do instituto (com pressupostos sobre o método científico e virtudes epistemicas), e a supressão de conceitos indígenas e reflexões antropológicas emergentes do campo. Meu argumento é que a busca pela "observação mecânica" e pela objetividade científica serviu como instrumento de imperialismo epistêmico, reificando a divisão entre a modernidade e as comunidades estudadas.
Meu foco central recai sobre os relatórios de produção e a análise fílmica das expedições de Schultz com os Krahô para o Museu Paulista, confrontando-os com a lógica de produção herdada do período nazista e mantida no pós-guerra. Por meio da análise dos atributos formais desta forma particular de configuração fílmica, como enquadramento, duração dos planos e ritmo de montagem, emergem os pressupostos ontológicos e coloniais dos filmes etnográficos da IWF. Desta forma, vistos hoje em dia, estes filmes etnograficos servem mais como uma etnografia da fazer cientifico e seu meio acadêmico na Alemanha pós-guerra, em vez de uma reflexão antropológica produzida em diálogo com as comunidades retratadas. Por fim, eu proponho uma metodologia decolonial de intervenção no arquivo, fundamentada no cinema de arquivo (found-footage), visando transformar o local de imperialismo epistêmico em um espaço de potencial cosmopolítica.
-
O parentesco entre imagens: acervos fotográficos Xetá como álbuns de famílias
— Izabel Yanca Vieira da Silva
— Izabel Yanca Vieira da Silva
O contato oficial com o povo indígena Xetá, originário do Noroeste do Paraná, iniciado em meados da década de 1950, foi documentado intensamente de diferentes maneiras e por diversas pessoas. Os materiais resultantes compõem arquivos e acervos, públicos e privados, que são amplamente utilizados em trabalhos antropológicos e são de grande importância para as lutas atuais dos Xetá. O presente texto apresenta um exercício de reflexão, que compõem um projeto de pesquisa em andamento, sobre outras apropriações das fotografias produzidas dos Xetá e suas possíveis reverberações. Os registros fotográficos, apesar de continuarem sendo realizados, até então foram pouco explorados e valorizados nos estudos sobre esse grupo. Nesse cenário, o objetivo foi aprofundar o entendimento dos acervos fotográficos Xetá tomando-os como álbuns de famílias – percepção estendida dos trabalhos dos artistas indígenas Gustavo Caboco e Denilson Baniwa – e verificar seu desdobramento para pensar memória, identidade e território. A intenção de montar álbuns expôs a possibilidade de estabelecer conexões entre fotografias produzidas em momentos distintos e em acervos diversos, constatando que não apenas as imagens em si retratam laços familiares como as próprias fotos formam uma certa “rede de parentesco”. Essa perspectiva tensiona a visão colonial e ocidental que muitas vezes torna os acervos estáticos e fechados em si mesmos, revelando que os seus limites (espaciais e temporais) podem ser extrapolados. A ideia de álbuns de famílias Xetá exemplifica como a fotografia é uma fonte indispensável de conhecimento e de poder, bem como afeta a produção antropológica e as compreensões sobre a história. Essa reativação das imagens também pode ter repercussões em novas apropriações pelos próprios indígenas. Em síntese, olhar para fotos antigas de um povo indígena pode significar visualizar o passado, entender o presente e imaginar um futuro possível.
-
Gênero e migrações no médio-São Francisco: os arquivos das mulheres na terra de baianos
— Jordhanna Neris Sampaio Cavalcante
— Jordhanna Neris Sampaio Cavalcante
Este trabalho compõe um estudo etnográfico mais amplo sobre as histórias e trajetórias de vida de mulheres baianas que migraram para Pirapora (MG), entre as décadas de 1960 e 1980, em razão dos grandes empreendimentos na região do médio-São Francisco. Tendo as cachoeiras de Pirapora como ponto de partida, o médio-São Francisco compõe o maior trecho navegável desse rio. A cidade norte-mineira foi erguida – enquanto município – como um entroncamento hidro ferroviário, pela navegação e comércio inter-regional dos vapores e pela instalação do ramal da Estrada de Ferro Central do Brasil. Devido à sua posição geográfica, Pirapora foi não somente central, mas ponto de passagem regular das migrações internas no Brasil, em seu sentido “norte-sul”, dos fins do século XIX até o período demarcado nesta pesquisa, e um “meio do caminho” entre os estados do nordeste e do sudeste brasileiro. A literatura dedicada à essa região, embora informe a presença das mulheres nesses processos, consagrou aos homens seu interesse de pesquisa, ao circunscrever as experiências da modernização do Vale do São Francisco nas figuras dos remeiros, vapozeiros e dos empreendedores que investiram na região. As mulheres, por seu turno, tiveram seus lugares sociais esvaziados ou, de maneira escassa, apareceram como figuras coadjuvantes, inscritas na figura da “mãe preta” ou da “mulata”, pendulando em sentidos que não consideram seus agenciamentos enquanto sujeitos políticos desse processo. A partir do trabalho de campo na cidade de Pirapora e das narrativas das interlocutoras desta pesquisa, mulheres baianas que migraram para Pirapora no período mencionado, tem sido possível visualizar os processos da navegação, bem como sua viabilidade, pela perspectiva das mulheres. Nesse percurso, o arquivo familiar aparece como uma prática de manutenção da memória, transmitida para as gerações seguintes. São objetos, documentos e um sem-número de memórias palpáveis que representam, além do gesto de manutenção da própria memória familiar, o resguardo de uma memória dos territórios. Temos explorado, nesse sentido, as motivações na construção do arquivo, suas formas de organização e preservação, as relações desses arquivos com as famílias estendidas e a vizinhança, o que escolhem guardar e como costuram as narrativas sobre histórias e trajetórias de vida àquilo que é guardado. Nesse sentido, a intenção deste trabalho é apresentar ao campo de discussões formas de composição de arquivo, a partir desse contexto e dessas mulheres que, embora secundarizadas na literatura antropológica, resguardam as memórias de processos fundamentais e caros à própria antropologia.
-
Digitalização de documentos como ferramenta de Fabulação: Materialidade arquivísticas e sua translação para o digital.
— Kaléo de Oliveira Tomaz
— Kaléo de Oliveira Tomaz
Os fundos arquivísticos digitalizados são réplicas de seus pares físicos? Quais são as implicações dessa translação para a materialidade e para os sentidos documentais? Que outras histórias e fabulações podem emergir desses novos tipos de documentos? O presente trabalho busca apresentar de que maneiras os processos de digitalização de arquivos possibilitam a constituição de novos sentidos aos documentos de fundos da história da antropologia. Sustenta-se que a translação para o digital não é um processo neutro ou passivo; ao contrário, ela abre espaços para fabulações que reimaginam o passado e constroem novos horizontes imaginativos. Tal discussão parte das propostas metodológicas de autoras como Saidiya Hartman, Arlette Farge e Ann Laura Stoler especialmente no que concerne à constituição de uma etnografia dos documentos arquivísticos. Ademais, dialoga-se com contribuições de Aby Warburg acerca de outras formas de se pensar o passado por meio de novas montagens documentais. O texto organiza-se em dois eixos principais: o primeiro consiste no compartilhamento dos resultados de uma pesquisa de mestrado sobre as fotografias digitalizadas do Fundo Roberto Cardoso de Oliveira, hoje pertencente ao Arquivo Edgard Leuenroth; o segundo decorre de apontamentos de uma pesquisa de doutorado voltada à análise de como as materialidades digitais capacitam novas metodologias para pensar e disputar os sentidos da história da antropologia.
-
"Arquivo vivo", Memória e Identidade Negra na Capela de Nossa Senhora Aparecida em Fortaleza - CE: Um Entrelaçamento de Biografias.
— Karina de Lima Lopes
— Karina de Lima Lopes
Este trabalho propõe uma reflexão sobre a construção da identidade negra e a preservação de memórias na "Comunidade dos Milagres" (Fortaleza-CE), compreendendo a Capela de Nossa Senhora Aparecida como um "arquivo vivo" de resistência e representatividade. Através da escrevivência, da etnografia e das biografias, a pesquisa posiciona a antropóloga e seus interlocutores como produtores de conhecimento, rompendo com a lógica do "objeto de pesquisa" ao focar em um fazer antropológico compartilhado que prioriza as narrativas locais. O estudo busca compreender o arquivo da capela, preservado pela tradição oral e pelas histórias de vida da própria comunidade. Ao articular os vestígios da escravização e as marcas do racismo nas trajetórias de Dona Lourdes, Augusto e Padre Miguel, observa-se como o silêncio e a memória refletem e moldam as identidades no presente. Com isso, a figura da "mãe negra" (Nossa Senhora Aparecida) reverbera como um símbolo agregador de reconhecimento, permitindo a reconstrução de sentidos de pertencimento fundamentados na dignidade e na ancestralidade. A partir das contribuições teóricas e metodológicas de autores como Michael Pollak (1992), Benedict Anderson (2013), Maurice Halbwachs (1990), Achille Mbembe (2014), Conceição Evaristo (2017), Frantz Fanon (1968) Hembapé Bá (2010), estabelece-se o diálogo entre memória, arquivo e identidade negra que fundamenta esta pesquisa.
​Palavras-chave: Identidade Negra; Memória; Representatividade; Capela de Nossa Senhora Aparecida; Arquivo Vivo;.
-
Futuros passados dos Xetá no Centro de Documentação da História de Umuarama (PR)
— Leticia Zaniol Kayamori
— Leticia Zaniol Kayamori
O passado e a memória estão sempre em disputa. Nesse sentido, artefatos, peças, arquivos e documentos, em especial os de origem colonial, são sujeitos a exercícios imaginativos baseados em inscrições. Toda história é, assim, um exercício imaginativo, produzido em contextos específicos e atravessado por disputas de sentido. A pesquisa em documentos, portanto, envolve interpretar e atribuir sentido aos registros disponíveis. A partir dessa compreensão, em minha pesquisa em andamento, investigo documentos sobre o povo indígena Xetá no Centro de Documentação da História de Umuarama, município construído sobre seu território ou em suas imediações, no noroeste paranaense. Os Xetá foram o último povo do Sul do Brasil a ser contatado pela sociedade envolvente, em meados da década de 1940. A partir desse contato, sofreram um processo brutal de genocídio. Hoje, recompõem-se e lutam pela demarcação de uma terra própria. Diante do arquivo de Umuarama, encaro principalmente a violência colonial da Marcha para o Oeste e a violência de uma cidade que celebra o pioneirismo. Nesse mesmo sentido, o site oficial do município constrói uma narrativa que se esforça por produzir silenciamentos sobre as temáticas indígenas, reforçando a ideia de que a história de Umuarama se inicia na Inglaterra e ignorando que a constituição da cidade está atravessada pelo genocídio indígena. No entanto, essa narrativa e as celebrações do pionerismo se mostram contraditórias quando observamos a presença, nas ruas da cidade, de uma estátua em homenagem aos Xetá. O arquivo, por sua vez, também faz emergir essa ambiguidade e ameaça o silenciamento ao mobilizar outras memórias coletivas que mencionam os Xetá. Nos termos de Saidiya Hartman, o arquivo parece alojar a testemunha de uma morte pouco notada, ao registrar relatos sobre os Xetá, enquanto a própria prefeitura os nega como originários - ao mesmo tempo em que os homenageia como se extintos fossem - num contraditório jogo de luz e sombra.
-
A borduna do Imperador: coleções Iny-Karajá, Amazônia e as fronteiras da nação no século XIX.
— Rafael Santana Gonçalves de Andrade
— Rafael Santana Gonçalves de Andrade
Partindo das coleções etnográficas e considerando o campo da antropologia, reuni neste trabalho alguns resultados de um estudo conduzido nos arquivos e reserva técnica do Setor de Etnologia e Etnografia (SEE) do Museu Nacional até o incêndio de setembro de 2018 e do Museu de Etnologia de Berlim entre 2022 e 2023, tendo como principal recorte a coleção etnográfica do povo Iny-Karajá.
O povo Iny-Karajá ocupa historicamente uma zona de transição entre o cerrado e a floresta amazônica, na altura média do rio Araguaia, com aldeias instaladas nas fronteiras entre os estados de Goiás, Mato Grosso, Tocantins e Pará no Brasil. Uma região de fronteira de expansão econômica e de ocupação não indígena da Amazônia brasileira ao menos desde o século XVIII e alvo de significativos investimentos do império no século XIX.
Ao observar a importância da perspectiva histórica e social no estudo das coleções procurei aprofundar na vida social de uma Borduna Iny-Karajá que conheci no acervo do Museu de Etnologia de Berlim em 2022. A borduna pertenceu a coleção de D. Pedro II e hoje se encontra no acervo da instituição alemã ainda com a etiqueta da exposição antropológica que ocorreu no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 1882.
Navegando entre o Museu Nacional e o rio Araguaia na Amazônia brasileira no século XIX o trabalho propõe uma reflexão a partir da vida social das coisas (Appadurai, 2008), partindo da trajetória da borduna como ensejo para o estudo das práticas de colecionamento e dos aspectos políticos da formação das coleções Iny-Karajá. Ao recuperar e analisar os arquivos associados à borduna, procuro demonstrar a relação das coleções Iny-Karajá com o Museu Nacional e seu impacto na consolidação da instituição como um espaço de produção científica.
A proposta é trazer para o debate a relação que se deu no passado entre museus e os povos representados em seus acervos, que produziu acordos e construiu representações sobre a vida de povos indígenas como os Iny-Karajá ao mesmo tempo que o fez descontextualizando as coleções formadas ao longo do tempo. A análise, nesse sentido, acompanha a extensa e competente crítica feita aos museus (Stocking Jr., 1985; Clifford, 1997; Pacheco de Oliveira & Santos, 2019; Pereira & Lima Filho, 2023), lançando um olhar qualificado para o Araguaia e o Museu Nacional com a intenção de esboçar um quadro detalhado da situação história em que se deu a formação de coleções Iny-Karajá no século XIX.
-
Eu vi meu quilombo cair: parentesco e pertencimento entre famílias negras
— Rayssa Marrayne César de Sousa
— Rayssa Marrayne César de Sousa
O presente trabalho propõe uma reflexão sobre a construção do pertencimento e da memória em famílias negras, tomando como ponto de partida a trajetória da minha própria família em Congonhas do Norte, Minas Gerais, e a minha busca pelo "Quilombo do Brás", território ancestral da minha família. Diante da angústia do não pertencimento gerada por lacunas e silêncios de histórias que nos foram contadas, a pesquisa investiga que tipo de identidade e pertencimento se constrói a partir daquilo que não é lembrado ou registrado formalmente. A partir daí procuro posicionar os sujeitos historicamente silenciados como produtores de conhecimento, utilizando o arquivo (entrevistas e imagens) não apenas como fonte, mas como um artefato de disputa política e reconhecimento.
A investigação revela que o arquivo da escravidão funciona muitas vezes como uma "sentença de morte" ou um inventário de propriedade, falhando em narrar a vida cativa e deixando para os descendentes uma "ancestralidade desarticulada". Para enfrentar essa despossessão, utilizo o método de fabulação crítica, proposto por Saidiya Hartman, que permite não apenas imaginar radicalmente", mas também reconstruir simbolicamente trajetórias mutiladas pelo racismo.
Nesse sentido, busco pensar no parentesco não só como uma rede de afinidades, mas voltar o olhar para a sua fragilidade e incompletude, digamos assim. Incompletude essa marcada pela dificuldade de acessar histórias e nomes de antepassados, por exemplo. O que não é uma questão individual para famílias negras. A articulação com o afrofuturismo permite ler essa busca como uma ferramenta de agência. Ao reivindicar o passado por meio da oralidade e da criatividade, não apenas preenchemos o vazio histórico, mas projetamos um futuro de dignidade e autorreconhecimento.
-
Memória travesti e fabulação crítica: Xica Manicongo entre arquivos coloniais, arte e políticas da memória
— Sol Alves de Lima
— Sol Alves de Lima
Este artigo discute a construção da memória travesti a partir de uma perspectiva descolonial e transfeminista, tomando como eixo analítico a figura histórica de Xica Manicongo, considerada a primeira travesti de que se tem registro no Brasil colonial. Partindo das epistemologias travestis, compreendidas como saberes produzidos a partir das experiências, vivências e corporalidades travestis, o texto analisa como os regimes coloniais de poder estruturaram práticas de apagamento, violência e silenciamento nos arquivos históricos e nas políticas da memória. Dialogando com autoras e autores como Saidiya Hartman (2020), Veena Das (2011), Andreas Huyssen (2014), Maria Lugones (2014), Aleida Assmann (2023), Frantz Fanon (1989), Grada Kilomba (2019), Pietra Azevedo (2020), Dediane Souza (2023) e Michael Pollak (1989), o artigo mobiliza conceitos como fabulação crítica, memórias subterrâneas, colonialidade do gênero e políticas da memória para refletir sobre os limites dos arquivos coloniais e as possibilidades de reinscrição de vidas historicamente desumanizadas. A memória de Xica Manicongo é acionada como um dispositivo didático e político que permite tensionar narrativas travestifóbicas e eurocêntricas, evidenciando como a história das travestis foi frequentemente narrada apenas a partir da violência. Ao articular movimentos sociais, práticas artísticas contemporâneas e debates acadêmicos, o artigo sustenta que a memória travesti não se configura como uma busca por origens fixas, mas como um processo contínuo de reconstrução, disputa e criação de sentidos no presente. Nesse contexto, a memória emerge como prática política orientada não apenas à reparação do passado, mas à invenção de futuros possíveis, desafiando as estruturas coloniais que ainda moldam museus, arquivos e narrativas oficiais.
-
O acervo de Henri Ballot: Velhos arquivos, novos debates
— Veronique Ballot, Leandro Teixeira da Silva
— Veronique Ballot, Leandro Teixeira da Silva
Essa pesquisa é fruto de inquietações iniciais sobre o trabalho de Henri Ballot, figura que exerceu atividades junto a populações tradicionais durante o século XX no Brasil, e no ambiente urbano da grande São Paulo, mas do qual pouco a academia tem apropriado para discutir sobre seu trabalho. Nascido em Pelotas, Brasil, em 1921, Henri Ballot era filho de um engenheiro civil que veio trabalhar na construção da ponte entre o Brasil e o Uruguai, no Rio Grande do Sul. Aos dois anos de idade, sua família mudou-se para a região de Charente, na França, onde obteve sua licença de piloto aos 16 anos. Alistou-se como piloto voluntário em 1940 e serviu até a queda da França. Em seguida, foi para a Argélia com um grupo de aviadores desmobilizados, onde conheceu Antoine de Saint-Exupéry, que também havia sido desmobilizado e atuava como piloto de reconhecimento. Ballot foi preso com um grupo de homens e levado para uma prisão em Barcelona, de onde foi enviado para a Argélia, onde planejavam retomar a luta contra a invasão nazista. Após escaparem da prisão, encontraram-se em Brest com uma organização clandestina. Em seguida, foram levados para a Inglaterra para se juntarem à FFAF (Força Aérea Francesa Livre). De suas missões de bombardeio contra a Alemanha, a que mais o marcou foi em Dresden, onde seu avião foi atingido por artilharia antiaérea alemã. Gravemente ferido, conseguiu pousar em território americano e foi levado para um hospital em Denver, Colorado, onde entrou em coma. Após quatro meses em coma, sua vida mudou quando um inuit, que dividia o quarto com ele no hospital, o ensinou a arte da fotografia, que se tornaria sua profissão ao chegar ao Brasil. Após trabalhar como fotógrafo freelancer por algum tempo, foi contratado pela revista "O Cruzeiro" e começou a viajar pelo país, notadamente com as expedições dos irmãos Villas Boas no território dos povos indígenas do Xingu e muitas outras viagens pelo mundo.
Tendo em vista esse panorama, o que nos interessa é compreender quais questões o arquivo de Ballot nos coloca, tendo em vista a multiplicidade de temas que ele fotografou. As fotos de Henri Ballot podem ser fontes de pesquisa de variados temas ao longo dos anos de 1950 a 1960. Tal interesse pelo arquivo consiste em compreender como pensam essas imagens (Samain, 2012) a partir de novos debates. Esse arquivo conta histórias, de época, de um lugar com personagens e culturas que se encontram. Há múltiplas vozes em meio ao silêncio do arquivo, o que nos inquieta é justamente a necessidade de ouvi-las, pois a interlocução é possível se as condições de produção dessas vozes forem tomadas como objeto de análise isto é, o fato de os arquivos terem sido constituídos, alimentados e mantidos por pessoas, grupos sociais e instituições (Cunha, 2004).
Coordenação
Clark Mangabeira Macedo (UFMT)
Alvatir Carolino da Silva (IFAM)
Dando continuidade ao GT 044: Antropologia, Carnavais e F(r)estas Culturais, apresentado na XV Reunião de Antropologia do Mercosul (2025), este Grupo de Trabalho reúne pesquisas teóricas e etnográficas sobre festas, carnavais e celebrações, compreendidas como expressões de valor, corporalidade, temporalidade, política e de patrimônios materiais e imateriais. Interessa-nos discutir dinâmicas rituais e performativas que constituem esses eventos como espaços de produção de sentidos e negociações identitárias atravessadas por tensões de raça, gênero, classe, religiosidade e território. Em sintonia com o tema da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia — Antirracismo e Pluridiversidade —, o GT acolhe trabalhos comprometidos com um fazer antropológico atento às assimetrias históricas e epistêmicas que moldaram o conhecimento sobre festas no Brasil. Incentivamos pesquisas que descentrem o eixo sudestino, ampliando o repertório etnográfico nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sul, bem como entre povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais. O GT propõe refletir sobre etnografia em contextos festivos, reconhecendo corpo, escuta e convivência como dimensões do campo social amplo. Ao articular ritos, performances, efeitos pedagógicos e patrimônios culturais, buscamos compreender as festas como arenas de invenção estética e política, onde se afirmam modos plurais de existir e resistir, acionando práticas de reparação e bem viver.
Títulos e Resumos
-
Festa, devoção e conflitos: os mastros e a identidade da festividade de São Sebastião em Cachoeira do Arari, Marajó
— Cintia Nayara Ribeiro de Sousa
— Cintia Nayara Ribeiro de Sousa
A festividade de São Sebastião em Cachoeira do Arari, Marajó, assim como outras festas em homenagem aos santos, não é restrita ao cunho religioso católico. Ao contrário, há uma grande festa cultural e “profana” organizada em torno da veneração de São Sebastião, esta também possui características diversas que se entrelaçam, especialmente com as de matriz africana (Cardoso e Gama, 2025). O ponto alto deste festejo, percebido pela igreja como desafiador, são os três mastros de São Sebastião, dos homens, das mulheres e das crianças, pois diretamente concorrem em número de pessoas com as celebrações litúrgicas no atual Pró-Santuário da Imaculada Conceição. As procissões dos mastros envolvem devoção e alegria, regada à cerveja e ao leite de onça (bebida tradicional), além de água e maisena que são atiradas entre os presentes, ao som de marchinhas de carnaval. Isto sustenta a ideia de um “carnaval devoto” (Alves, 1980) e que os participantes podem pagar suas promessas de formas distintas, mesmo em momentos que a igreja considera profanos (Ponte, 2019). A festividade de São Sebastião em Cachoeira do Arari é a maior do território do Marajó, ela é registrada como patrimônio de natureza imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e guarda elementos da identidade, memória e religiosidade afroindígena marajoara.
-
Hoje, eu acordei de bem com a vida sonhei que estava na avenida de azul e rosa a desfilar: Escola de samba e mulheres da velha guarda
— Isabella Salles
— Isabella Salles
O carnaval como uma manifestação cultural de resistência, e a sua importância na
formação sociocultural brasileira, procura-se fazer um breve levantamento histórico sobre
manifestações culturais afro-brasileiras, em especial escola de samba,’isto é, menos como lócus
da narração da nação e mais como lugar de produção/expressão de formas de agência e
significação que permitirão aos sujeitos e grupos sublinhados pela categoria “negro”,
construírem formas de solidariedade política, ética, étnica e afetiva - formas de identidade -,
cruciais a produção de suas trajetórias de vidas e na luta contra o racismo. Tendo como
referências Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, bell hooks e Conceição Evaristo, os métodos
utilizados são escrevivência e pesquisa participante.
-
Memória em movimento: representações carnavalescas de Chica da Silva e Rosa Maria Egipcíaca no carnaval do Rio de Janeiro
— Julio D' Angelo Davies
— Julio D' Angelo Davies
Historicamente, as escolas de samba vêm traduzindo e relembrando vidas desfiguradas pela escravidão, muito em comum com o método literário-histórico de “fabulação crítica” de Saidiya Hartman. Nesta apresentação, analiso a representação carnavalesca de duas mulheres escravizadas e alforriadas: Chica da Silva em 1963 e Rosa Maria Egipcíaca em 2023. Considerando o que a literatura histórica nos diz sobre suas vidas, o artigo interpreta as diferentes maneiras pelas quais suas histórias se tornaram desfiles de carnaval com sessenta anos de diferença. Destaca-se as maneiras pelas quais as ideias predominantes sobre raça e gênero se refletem nas diferentes fabulações de suas biografias. O artigo conclui refletindo sobre as continuidades e descontinuidades da “fabulação crítica” como método. Quem, hoje, está em posição de traduzir as histórias de vidas desfiguradas pela escravidão? É possível reconfigurar as cenas de subjugação da escravidão sem projetar nossos próprios desejos – sejam eles desejos misóginos por mulheres objetificadas ou desejos políticos por heroínas rebeldes?
Traduzido com a versão gratuita do tradutor - DeepL.com
-
O Carnaval de rua frente a uma cidade em disputa: o caso do Recife
— Leonardo Leal Esteves
— Leonardo Leal Esteves
Neste trabalho, busco refletir sobre as consequências das alterações radicais em curso na área central do Recife no Carnaval da cidade, decorrentes da instalação de um megaprojeto urbanístico, imobiliário e turístico. Nos últimos anos, observam-se mudanças significativas na paisagem e na dinâmica da região. De forma simultânea a essas transformações, é possível notar alterações na dinâmica e na organização da festa de Momo recifense. Essas transformações parecem estar relacionadas, em parte, a um crescente processo de gentrificação no centro do Recife e à reprodução de enclaves fortificados, em meio a uma festividade que, durante muito tempo, era conhecida como uma das mais democráticas e populares do Brasil. O território central do Recife, nesse sentido, parece estar sendo disputado com a chegada de novos atores sociais. Esse trabalho busca, portanto, contribuir para a compreensão das transformações e das disputas em curso nesse território e o seu impacto para os atores sociais que fazem o Carnaval recifense.
-
A reinvenção de saberes através do Aiué
— Marcos Alan Costa Farias
— Marcos Alan Costa Farias
O Aiué passa a ser compreendido nesta análise como um processo de reinvenção de saberes. Trata-se de um ritual que ocorre na Comunidade Remanescente de Quilombo Jauari, Território Quilombola Erepecuru, Pará. O Aiué está totalmente interligado com as festas, pelas quais fazem parte do processo de constituição da comunidade Jauari.
Notoriamente, as Festas Culturais praticadas nos arredores e no Jauari possuem caráter dinâmico, obviamente condizente com a dinamicidade da cultura. É possível apresentar um panorama daquilo que era feito antes e aquilo que é feito atualmente. Evidentemente, não pretendo estabelecer uma linha do tempo ou mesmo uma historiografia da festa. Contudo, considero relevante delinear algumas situações que ajudam a compreender como as festas e o Aiué se estabeleceram ao longo do tempo, demonstrando que ambos possuem participação e interferência significativa no processo de estabelecimento no território, bem como de criação das unidades sociais designadas comunidades e da afirmação da identidade étnica.
A reinvenção desses saberes se insere na lógica da cultura quilombola como uma forma de afirmação da identidade étnica e de renovação da dinâmica cultural quilombola. A reinvenção do Aiué se coloca como uma forma de retomada. Nas narrativas dos quilombolas do Jauari o Aiué é apontado como um instrumento de resistência e de mobilização pela garantia do território. A sua retomada ao final da década de 1980 reelabora significados da prática, corrobora para processos identitários e de mobilização étnica pela luta do território.
-
O desfile dos filhos de Gandhy: fluxos da masculinidade hegemônica experimentando a fluidez dos gêneros e das sexualidades ao som afirmativo do candomblé baiano
— Marlon Marcos Vieira Passos
— Marlon Marcos Vieira Passos
A presente proposta resulta de várias imersões carnavalescas no desfile dos Filhos de Gandhy em Salvador da Bahia, um bloco formado só por homens, que saem às ruas da cidade, no Carnaval, ao som do candomblé ijexá, acionando discursivas de paz e promovendo uma firmação na festa contra o racismo religioso. Por outro, esta capacidade integrativa no âmbito religioso, se atrita socialmente em questões que envolvem os gêneros e as múltiplas expressões da sexualidade humana, quando o bloco busca reunir tão somente homens localizados na cisgeneridade e que exprimam, possivelmente, uma performance de heterossexualidade. O conflito aparece mais fortemente quando vários homens trans já desfilam entre os cis gerando mal-estar nos conservadores que lutam para garantir o que muitos chamam de " identidade masculina genuína" da agremiação. Também há um desconforto com os abertamente gays que compõem o desfile. E muitos se revoltam com a eventual presença feminina no interior das cordas. Pretendo, numa perspectiva etnográfica, com dados colhidos entre os anos 2022 e 2026, analisar relações de gênero no âmbito das masculinidades hegemônicas, buscando as fraturas ocasionadas pela ´presença masculina trans, pelos homens gays cis que ocupam a avenida trazendo outras afirmações sexuais e convocando a agremiação a repensar o seu lugar político no universo do Carnaval. Um estudo etnográfico dialogando com autoras como Simone de Beauvoir, Judith Butler, Audre Lorde, bell hooks, Patricia Hill Collins, Leandro Collins, Claudenilson Dias, Richard Miskolci. No cenário religioso do desfile, especialistas que debatem o candomblé como Vivaldo da Costa Lima, Mirian Rabelo, Luiz Nicolau Parés, e o estudo Carnaval Ijexá, de Antonio Risério, para entender a complexidade da instituição Filhos de Gandhy e alcançar seus horizontes transformativos, suas intervenções contra o racismo, revelando a poética de um candomblé de rua todo tocado na nação ijexá. E também compreender uma possível lógica conservadora e preconceituosa quando o bloco se encontra com a transgeneridade masculina e com o feminino que se faz ausente no desfile, entre os músicos, na administração, nos serviços prestados e até na liderança espiritual que só pode ser exercida por um homem, o babalorixá. O que há de tradicional nesta composição e o que há de intolerância contra o diferente que destoa daquilo que os conservadores ( diretores e muitos agremiados)chamam de "identidade do bloco"?
-
'Carnaval Experience': turistificação dos bastidores, dupla extração e agência negra na produção do espetáculo carnavalesco carioca
— Mauro Cordeiro de Oliveira Junior
— Mauro Cordeiro de Oliveira Junior
Este trabalho examina etnograficamente o programa "Carnaval Experience", atração turística implementada no barracão da Acadêmicos do Grande Rio, na Cidade do Samba, onde visitantes acompanham a produção de alegorias, interagem com trabalhadores, experimentam técnicas artesanais e vestem fantasias para fotografias.
Argumento que o programa representa configuração contemporânea do capitalismo racial (Robinson, 2023): um regime de dupla extração onde, além da exploração do trabalho artesanal negro mal remunerado na produção das alegorias, adiciona-se camada em que os próprios trabalhadores devem performar "autenticidade" e "tradição" para turistas, convertendo identidade racial, saberes e narrativas pessoais em trabalho emocional não compensado que valoriza mercadoria turística da qual estão excluídos dos lucros.
A pesquisa fundamenta-se em etnografia, incluindo observação participante durante meses de visitas regulares ao barracão para acompanhamento do programa turístico, entrevistas com trabalhadores, administradores, turistas e guias, além de análise documental. A observação capturou performances e scripts não-verbalizados: sorrisos que se desfazem quando turistas viram as costas, olhares trocados entre trabalhadores quando guias romantizam suas condições, ajustes corporais quando câmeras se aproximam.
A análise mobiliza o conceito de "vestígios" (Sharpe, 2023) para iluminar como dinâmicas contemporâneas atualizam estruturas do regime escravista: a espacialidade da Cidade do Samba — trabalhadores negros nos andares quentes sem climatização, administradores brancos nos escritórios refrigerados, turistas circulando com suas câmeras — materializa continuidades com arquiteturas coloniais. Contudo, a análise vai além da denúncia: demonstra como trabalhadores negros desenvolvem estratégias sofisticadas de negociação, instrumentalizando a presença turística para reivindicar reconhecimento, negociar melhorias e estabelecer redes de trabalho autônomo.
Este trabalho contribui para debates sobre mercantilização de práticas culturais negras e persistência de hierarquias raciais em setores criativos, dialogando com trabalhos sobre turismo cultural em contextos afrodiaspóricos. Avança estes debates ao demonstrar como a turistificação não apenas mercantiliza espaços ou práticas, mas o próprio trabalho vivo de produção cultural, criando economia onde corpos racializados e seus saberes tornam-se simultaneamente força produtiva e atração turística.
-
Os ritos tradicionais do Boi-bumbá Garantido de Parintins-AM: Alvorada, Santo Antônio, São João, São Pedro e a Matança do Boi
— Socorro de Souza Batalha, Alvatir Carolino da Silva
— Socorro de Souza Batalha, Alvatir Carolino da Silva
O turista que vai ao Festival Folclórico de Parintins e assiste à apresentação do Garantido no Bumbódromo não se dá conta de que há outros ritos centenários e tradicionais realizados antes e depois do grande festival. O Boi Garantido é uma promessa a São João feita por seu fundador, o negro poeta e pescador Lindolfo Monteverde. Assim, nas noites dedicadas a esse santo, há ladainhas na capela do Curral; após as rezas, os tambores tocam e o Boi sai às ruas e terreiros recebendo as saudações do povo. Quando Lindolfo se casou com Dona Antônia, outra promessa foi feita. Desde então, nas noites de Santo Antônio, repetem-se as ladainhas, soam os tambores e o Boi vai às ruas da cidade. No dia de São Pedro, a festa acontece no meio da tarde e se dá no rio Amazonas, com a procissão fluvial que sai do Porto do Quilombo da Baixa da Xanda, território onde nasceu o Boi Garantido. Essas festas de santos ocorrem todas no mês de junho. A Alvorada do Garantido é considerada o rito de início do ciclo de festas do Garantido. Ela começa na noite que antecede o dia primeiro de maio, Dia do Trabalhador, quando o Boi vai às ruas e o povo canta até o amanhecer, encerrando-se minutos antes do início da Missa do Trabalhador. Todos esses ritos se encerram na praça da catedral da cidade. Há ainda um rito de grande comoção, a Matança do Boi, que ocorre na terceira semana de julho, quando o Boi foge do Curral, é capturado por vaqueiros e levado de volta para morrer, marcando o encerramento do ciclo anual de festas do Boi Garantido.
-
Quem ganha visibilidade? São Benedito, festas e poder simbólico no Pará.
— Sônia Cristina de Albuquerque Vieira, Luiz Fernando de Assunção Corrêa
— Sônia Cristina de Albuquerque Vieira, Luiz Fernando de Assunção Corrêa
Este trabalho analisa as festas de São Benedito no nordeste paraense, a partir de pesquisa etnográfica realizada nos municípios de Bragança, Primavera e Santarém Novo, considerando a existência de diferentes Marujadas e manifestações de Carimbó associadas à devoção ao santo. O objetivo é refletir sobre os processos de legitimação institucional que produzem hierarquias simbólicas entre manifestações culturais que compartilham a mesma devoção religiosa. A análise problematiza o papel do Estado e dos órgãos de preservação cultural na construção de uma representação hegemônica da festa de São Benedito, que tende a invisibilizar outras celebrações locais igualmente significativas. Destaca-se, nesse contexto, a presença do Carimbó em Santarém Novo como expressão festiva integrada às celebrações de São Benedito, evidenciando arranjos rituais específicos que nem sempre são contemplados pelos discursos oficiais de patrimonialização. Os resultados parciais indicam que o reconhecimento singular de uma festa produz assimetrias no campo cultural, limitando a visibilidade da pluralidade de práticas, sentidos e formas de pertencimento que compõem o universo festivo dedicado a São Benedito no Pará.
-
Folguedos de Boi no Sul do Brasil: Memória, Identidade e Resistência
— Stefania Johnson Colombo
— Stefania Johnson Colombo
A construção da memória e da identidade cultural no Rio Grande do Sul foi historicamente atravessada por disputas simbólicas, silenciamentos e processos de exclusão. As matrizes negras e indígenas, fundamentais na formação social e cultural do estado, foram marginalizadas por políticas de branqueamento e por narrativas hegemônicas que consolidaram modelos restritos de identidade regional. Nesse contexto, manifestações culturais populares configuram-se como espaços potentes de resistência, manutenção da memória coletiva e afirmação de pertencimentos. Este trabalho apresenta uma pesquisa etnográfica em andamento sobre os folguedos de Boi no Rio Grande do Sul, fenômeno cultural amplamente associado às regiões Norte e Nordeste do Brasil, mas que também se consolidou, de forma diversa e historicamente significativa, no extremo sul do país. Embora pouco visibilizadas, essas práticas estiveram presentes em diferentes regiões do estado, articuladas a contextos carnavalescos, ciclos festivos religiosos e práticas comunitárias. A pesquisa investiga como os folguedos de Boi se configuram enquanto performances culturais, nas quais música, dança, encenação e ritualidade se entrelaçam e coexistem como dispositivos de transmissão de saberes, memória e ancestralidade. A figura do Boi, elemento central dessas manifestações, assim como os demais personagens do Auto do Boi, assumem múltiplas formas expressivas, revelando cruzamentos interculturais afro-indígenas, nordestinos e sulistas. A partir de uma perspectiva etnomusicológica em diálogo com a antropologia das festas e das performances, o estudo articula trabalho de campo prolongado, participação direta nos festejos, entrevistas e análise documental, evidenciando narrativas de Mestres, brincantes e moradores das regiões pesquisadas, compreendendo a oralidade e a experiência vivida como eixos fundamentais para a reconstrução da memória social dos folguedos de Boi no território gaúcho. Os dados analisados indicam que essas manifestações configuram práticas de resistência e reexistência cultural, tensionando modelos normativos e estereotipados da identidade cultural gaúcha. Ao evidenciar os folguedos de Boi como fenômenos festivos dinâmicos, atravessados por deslocamentos, transformações e simbologias, o trabalho contribui para ampliar o debate antropológico sobre festas culturais, performances e sociabilidades, ressaltando a relevância dessas práticas na construção de outras narrativas possíveis sobre a identidade sul-rio-grandense.
-
Energia no carnaval carioca: uma etnografia do manejo do sagrado na produção dos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro
— Sthefanye Silva Paz
— Sthefanye Silva Paz
Esta pesquisa analisa a categoria "energia" como chave interpretativa para compreender as articulações entre religiões afro-brasileiras e escolas de samba na produção carnavalesca contemporânea. A partir de pesquisa etnográfica desenvolvida no barracão da Estação Primeira de Mangueira e em outros espaços do carnaval carioca entre 2019 e 2025, examino como esta categoria opera na compreensão e explicação dos fenômenos que atravessam o fazer carnavalesco.
Expressões como "energia pesada", "energia boa", "energia caótica" e "energia de campeã" revelam como os atores do carnaval interpretam acontecimentos que vão desde conflitos cotidianos no barracão até sucessos e fracassos na avenida. A análise busca ainda demonstra como a categoria energia dialoga diretamente com o conceito de axé do candomblé, compreendido como força vital que precisa ser constantemente alimentada e equilibrada, evidenciando conexões entre as concepções religiosas afro-brasileiras e práticas carnavalescas.
O trabalho examina três dimensões da energia no carnaval: as transformações materiais e simbólicas da cidade durante o período carnavalesco, incluindo rituais como a lavagem da Sapucaí; o desfile da Acadêmicos do Grande Rio sobre Exu em 2022, primeiro enredo integralmente dedicado ao orixá na história do carnaval carioca, analisado através do conceito de formas sensoriais de Birgit Meyer; e a atuação de Mãe Luiza Maria, responsável pelos trabalhos religiosos daquele desfile, cujos relatos demonstram como lideranças religiosas compreendem e administram diferentes tipos de energia na produção carnavalesca.
A pesquisa contribui para debates sobre religião e cultura no Brasil contemporâneo ao demonstrar que a energia não constitui mera metáfora, mas um elemento concreta que precisa ser constantemente negociado e administrado no carnaval das escolas de samba carioca. Assim, a pesquisa busca apresentar que o manejo adequado das energias se demonstra como elemento fundamental não apenas para as percepções de sucesso e fracasso que são elaboradas a respeito dos desfiles, mas para a própria existência e continuidade das escolas de samba como instituições que articulam arte, religião e cultura popular.
-
Barracão de Carnaval: reflexão sobre os trabalhadores da folia.
— Yasmin Jardim Moreira
— Yasmin Jardim Moreira
Quem faz o carnaval? Quem são muitas mãos que constroem um desfile de escola de samba no Rio de Janeiro? A pesquisa analisa o trabalho na construção do maior espetáculo da terra a partir da vida cotidiana de um grupo de aderecistas na construção de fantasias para o desfile de uma escola de samba do carnaval do Rio de Janeiro, nos meses que precederam a festa em 2025. Ao pensar nos responsáveis pela construção de um desfile, a figura do carnavalesco é uma das mais destacadas como responsável pela construção da carnavalização de um tema tornado enredo. A centralidade pública desse mediador cultural coloca uma cortina na produção em cadeia de diversos trabalhadores, escultores, costureiras e aderecistas. A grande massa de pessoas que trabalham na preparação dos desfiles pode ser compreendida por meio da alegoria da "fábrica" de "ilusões", mas ela não é somente um espaço produtivo, mas parte central da vida cotidiana desse grupo. O objetivo da pesquisa é, assim, compreender o trabalho no barracão, seus sentidos para as próprias pessoas que lá exercem algum ofício, assim como os conflitos presentes nesse ambiente oculto do espetáculo. Ela é baseada em trabalho de campo etnográfico no barracão da Acadêmicos da Grande Rio, em entrevistas semiestruturadas com os aderecistas em seu próprio ambiente de trabalho.
Palavras-chave: Carnaval, trabalho
Coordenação
Guillermo Stefano Rosa Gómez (UFSM)
Luísa Maria Silva Dantas (UFPA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Jaime Santos Júnior (UFPR)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Aline Gama de Almeida (PPCIS)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Virgínia Squizani Rodrigues (UFSC)
O trabalho – em suas práticas, sentidos, organizações e regulamentações – constitui um tema clássico nas Ciências Sociais, com uma tradição singular na Antropologia. Este GT tem como objetivo congregar pesquisas antropológicas que abordem um conceito ampliado de "trabalho" em suas múltiplas facetas e expressões, a partir de quadros teórico-metodológicos diversos. A constituição de uma "antropologia do trabalho" reafirma a centralidade analítica da classe social, articulando-a de forma interseccional com outras matrizes de opressão, como racismo, sexismo, etarismo, xenofobia e capacitismo. Serão bem-vindas propostas de estudos etnográficos que dialoguem com os debates contemporâneos da disciplina. Entre eles, incluem-se o questionamento de dualidades clássicas (como natureza e cultura), os estudos sobre ontologia, as abordagens da globalização e dos circuitos transnacionais, os aportes da virada material e as análises sobre a crise climática. Tais perspectivas são fundamentais para compreender as transformações, os impactos e os antagonismos inerentes ao sistema capitalista. Por fim, este GT visa não apenas manter ativa a tradição de discutir antropologias do trabalho na Reunião Brasileira de Antropologia, como também se constitui como uma expressão da Rede Latino-Americana de Antropologia do Trabalho (RELAT). Desse modo, busca fomentar as relações entre a antropologia brasileira e as antropologias internacionais.
Títulos e Resumos
-
O mito de origem dos entregadores de aplicativos
— Aline Gama de Almeida, Larissa do Espírito Santo Alvim
— Aline Gama de Almeida, Larissa do Espírito Santo Alvim
No grupo de entregadores que acompanho desde 2023, surgiu o comentário recente de que uma das plataformas não estaria mais recebendo cadastro. Apesar da falta de direitos e deveres trabalhistas relativos à atividade presente em diversos centros urbanos, a adesão a esse tipo de trabalho entrou em um processo crescente desde o período pandêmico, bem como o interesse da produção acadêmica. Essa preocupa-se com a precariedade das condições de trabalho, a exploração de si e dos algoritmos associada a uma gramática neoliberal adaptada às novas tecnologias: gameficação, plataformização, mas também autonomia, liberdade e empreendedorismo que ressoam igualmente do esquecido individualismo moderno.
A leitura do senso comum e parte da literatura especializada fez surgir os "entregadores de aplicativo" como uma nova categoria profissional sem historicizar as transformações do ofício e tampouco tratar das diferenças de classe, raça e gênero presentes no ambiente de cada um dos grupos pesquisados. Nesse sentido, o texto pretende trazer uma breve perspectiva histórica do trabalho de entregas a partir de documentos de associações e imprensa, alguns estudos acadêmicos disponíveis online e anteriores a 2020 e da história de vida de entregadores que atravessaram as mudanças de tecnologia e foram interlocutores de etnografias realizadas em alguns bairros do Rio de Janeiro.
-
Fios de autonomia: o ofício do crochê como prática de resistência e construção de independência financeira entre jovens mulheres
— Anna Julia Reis de Brito
— Anna Julia Reis de Brito
Das diversas notícias na mídia à viralização de celebridades usando peças de crochê, observa-se um novo alcance dessa prática especialmente entre mulheres jovens. Situado tanto em espaços físicos quanto em ambientes digitais, o crochê produz novos sentidos sociais e simbólicos. Sua apropriação contemporânea pelas chamadas “jovens senhoras” permite observar transformações na forma como o trabalho artesanal é vivenciado e percebido. O crochê deixa de ser uma prática associada à velhice e ao universo doméstico para se constituir como campo diversificado, com novos usos e significados. Nesse contexto, torna-se meio de geração de renda e expressão estética, circulando em redes sociais, feiras alternativas e plataformas de comercialização. Essa revalorização do trabalho manual, contudo, convive com fortes tensões. Se, por um lado, o crochê pode ser exaltado como forma de liberdade e criatividade, por outro, permanece imerso em dinâmicas de precarização, seja pela instabilidade da economia informal, seja pela dependência das redes digitais ou pela persistente desvalorização do trabalho feminino. Compreender o crochê nesse cenário implica deslocar o foco do produto final para os processos de fazer, sentir e significar. É nesse ponto que o pensamento de Tim Ingold (2013), ao conceber o fazer artesanal como modo de conhecer e de corresponder ao mundo através da matéria, permite abordar o crochê como atividade relacional, que envolve corpo, tempo, materialidades e ambientes. As peças produzidas por jovens mulheres funcionam como extensões simbólicas de suas criadoras: ao circularem nas feiras, redes sociais e mercados virtuais, carregam intenções, memórias e identidades (Stallybrass, 2007), atuando como mediadoras entre sujeitos e contextos. Assim, o objeto artesanal em questão é, além de um produto, um agente social que dá visibilidade ao trabalho e à autoria feminina, tradicionalmente marginalizados no campo econômico e artístico. Ademais, a noção de resistência mobilizada aqui é cotidiana e micropolítica, no sentido proposto por James C. Scott (1985) para quem nem toda resistência é aberta ou revolucionária, podendo manifestar-se em gestos sutis, práticas de persistência e invenção no dia a dia. Em diálogo com a antropologia do trabalho (Leite Lopes, 1988; Palermo; Casas, 2023), compreende-se o crochê atual como resistência silenciosa, pois insistir no fazer, transformar lazer em renda, reinventar o tempo de trabalho e reposicionar a mulher no espaço público são formas de subverter lógicas produtivistas e patriarcais. Essa resistência se materializa no fio, no ritmo e na repetição, em uma “correspondência criativa” com o mundo, nos termos de Tim Ingold (2013), revelando o poder inscrito em ações aparentemente banais, mas profundamente transformadoras.
-
Trabalho acadêmico e cuidado: recorte documental sobre dispositivos de produtividade em universidades públicas
— Bianca Cristina Piassava Bonassi Barros
— Bianca Cristina Piassava Bonassi Barros
Este trabalho apresenta um recorte parcial de dados em curso sobre a organização do trabalho acadêmico e seus dispositivos de produtividade, tomando o cuidado como chave analítica para descrever pressupostos de disponibilidade e regularidade que atravessam a vida universitária. O material empírico consiste em um corpus documental ainda em ampliação, composto por normas internas, editais, formulários de avaliação, comunicados administrativos e instruções institucionais associados a desempenho, prazos e critérios de reconhecimento no trabalho (por exemplo: progressão, produtividade, registro de atividades e prestação de contas).A estratégia metodológica é documental-interpretativa. Em vez de tratar esses textos como "burocracia" lateral, analiso sua forma de operar: (i) quais condutas e tempos tornam legíveis e comparáveis; (ii) quais dimensões do cotidiano deslocam para a esfera privada; e (iii) quais problemas aparecem apenas como exceção. O achado preliminar, limitado ao corpus examinado até aqui, indica um padrão: o cuidado raramente figura como dimensão legítima da organização do trabalho; quando aparece, tende a ser enquadrado como justificativa individual, concessão pontual ou item residual, sem alterar o desenho ordinário de prazos, metas e expectativas de presença.A interpretação se ancora na antropologia do trabalho latino-americana, ao tratar regulação, avaliação e hierarquias como parte constitutiva do processo de trabalho (Palermo; Capogrossi 2020). Articula, ainda, formulações sobre regimes organizacionais de desigualdade (Acker, 2006) e divisão sexual do trabalho (Hirata; Kergoat, 2007), bem como a crítica feminista ao apagamento do trabalho reprodutivo (Federeci, 2019) e debates sobre tensões entre acumulação e reprodução social (Fraser, 2016). O objetivo, nesta apresentação, é descrever e interpretar esse achado documental sem prometer generalizações extensivas, contribuindo para o debate do GT sobre organizações, regulações e desigualdades no trabalho contemporâneo.
-
Autonomia, informalidade e ilegalidade: uma etnografia comparativa do trabalho por aplicativo entre Rio de Janeiro e Paris
— Carlos Eduardo Pereira Viana
— Carlos Eduardo Pereira Viana
Esta proposta discute os paradoxos entre autonomia e precarização no trabalho por aplicativo, com base em etnografia multi-situada realizada entre 2020 e 2023 no Rio de Janeiro e em Paris. O texto toma como eixo analítico a expressão nativa “cada um sabe o que é melhor pra si”, recorrente nas interações de campo com entregadores, mobilizando-a como chave para articular dimensões morais, territoriais e institucionais da plataformização do trabalho. No Rio de Janeiro, a recusa ao regime celetista (CLT) e a valorização da “liberdade” aparecem como elementos centrais de narrativas que legitimam escolhas individualizadas em trajetórias marcadas pela informalidade, pela instabilidade da renda e pela transferência de custos e riscos ao trabalhador. Em Paris, a análise concentra-se em migrantes sans papiers que acessam a atividade por meio do aluguel de contas em circuitos informais (marché noir), inserindo-se em um regime de ilegalidade que, embora amplifique a vulnerabilidade, é frequentemente interpretado como experiência de dignidade e reconhecimento, na medida em que “estar trabalhando” opera como marcador de respeitabilidade e pertencimento na cidade.
Ao aproximar esses dois contextos, a proposta sustenta que a periferia deve ser compreendida não apenas como referência espacial, mas como categoria crítica que permite situar a mercantilização da liberdade e a racionalidade individualizante acionada pelos interlocutores em condições desiguais de acesso a direitos, proteção social e reconhecimento. A comparação não busca homogeneizar experiências, mas explorar convergências e contrastes que evidenciam as metrópoles contemporâneas como espaços privilegiados de observação da precarização e da produção de sentidos sobre o trabalho. Em ambos os casos, a autonomia é enunciada como valor e horizonte de dignidade, ainda que mediada por dispositivos de controle e por arranjos sociais que reconfiguram as fronteiras entre formalidade, informalidade e ilegalidade.
Do ponto de vista metodológico, a pesquisa combina observação em pontos de espera e circulação, acompanhamento de redes sociais e conversas informais, buscando conferir atenção às interpretações dos trabalhadores na construção da análise. Nesses termos, a proposta pretende dialogar com os debates sobre o trabalho por aplicativo ao considerá-lo como um fenômeno que articula práticas, regulações, moralidades e formas de organização urbana, situando as discussões sobre autonomia, desigualdade e reconhecimento no campo da antropologia do trabalho.
-
Da desregulação estatal à regulação privatizada: um estudo de caso sobre a plataforma Bem Acompanhadas
— Cristiane Vilma de Melo
— Cristiane Vilma de Melo
A presente proposta objetiva apresentar um estudo de caso da plataforma Bem Acompanhadas (nome fictício), startup brasileira que promove a intermediação de serviços sexuais presenciais, com foco em seu modelo de governança privada (Termos de Uso e Políticas de Privacidade), para compreender a gestão plataformizada do trabalho sexual num contexto de desregulação estatal. No Brasil, vender ou comprar serviços sexuais não é considerado crime. A oferta de serviços sexuais de forma autônoma ou por meio de cooperativas e a existência de casas de prostituição, desde que não pratiquem exploração sexual, não são atividades ilegais. De acordo com Rodrigues (2009), no início dos anos 2000, a partir da discussão sobre a nova Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), ocorreu a incorporação das pautas de movimentos sociais que têm defendido ativamente os direitos das trabalhadoras sexuais desde a década de 1980. O envolvimento de várias associações e movimentos desempenhou um papel fundamental na formação do discurso em torno desse tópico e, por fim, levou à inclusão do trabalho sexual enquanto uma ocupação legítima, oficialmente aprovada em 2002. Embora o trabalho sexual não seja criminalizado e seja reconhecido como uma ocupação, não existem regulamentações que, de fato, o legislem. Essa conjuntura nos fornece uma visão valiosa sobre um aspecto importante a ser considerado ao examinar os modelos de gestão do trabalho que surgem do processo de plataformização em diferentes contextos. Por plataformização, nos referimos ao fenômeno originalmente definido por van Dijck et al (2018), no qual plataformas digitais são inseridas em estruturas políticas e sociais e pelo qual setores inteiros passam por substanciais transformações. A plataforma Bem Acompanhadas, por meio de seus "termos de uso e serviço" e "política de privacidade", promove um modelo de governança privada (Gillespie, 2017) que passa a monopolizar as definições, regras e parâmetros para a realização do trabalho sexual em um contexto social de desregulação. Esta proposta busca avançar nas pesquisas que se encontram no arcabouço dos estudos socioantropológicos sobre trabalho sexual, pornografia e mercados (Gregori, 2008; Leite Junior, 2012; Piscitelli, 2016), pornografia digital (Parreiras, 2015) e trabalho sexual plataformizados (Caminhas, 2023; Melo, 2025); em seus aspectos econômicos, interacionais, morais e subjetivos (van Doorn, 2017), bem como ao amplo arcabouço de estudos sobre trabalho em plataformas (Palermo; Marins; Capogrossi, 2025) que considerem as/os trabalhadores historicamente informais, como no caso das trabalhadoras sexuais.
-
Extrativistas e as mudanças climáticas no Alto Rio Atuá, Muaná, Ilha de Marajó - PA
— Euzalina da Silva Ferrão
— Euzalina da Silva Ferrão
O presente estudo se desdobra a respeito dos trabalhadores extrativistas do Alto Rio Atuá em Muaná, da Ilha de Marajó, Estado do Pará, que têm a maior concentração de sua produção na colheita do açaí (Euterpe oleácea) e devido as mudanças climáticas, eles vêm a economia baseada nesse produto diminuir devido a seca afeta os dois períodos de safra, estiagem e cheia, o que antes não acontecia. A consequência desse fenômeno tem colocado a sua segurança de reprodução social em situação precária. As mudanças climáticas têm provocado escassez em todos os sentidos, como falta de água potável para abastecimento das famílias, desaparecimento de animais que fazem parte da dieta alimentar como pescados e animais de caça. Os rios secam ou ficam com as águas impróprias para o consumo humanos, principalmente, porque o gado, bubalino, geralmente, circulam as margens dos rios para consumir a água que está em falta nas áreas mais centrais distantes do curso do rio e como hábitos desses animais, eles também usam os leitos dos rios para ficarem tomando banho. O estudo é resultado de uma assessoria aos trabalhadores do Rio Atuá durante a 30ª Conferência das Partes - COP30, em Belém do Pará, fruto do debate dos trabalhadores extrativistas dessa local junto a Secretaria de Meio Ambiente do Estado. Participei como assessora da elaboração da proposta do texto a candidatura do representante dos extrativista do rio Atuá na apresentação da proposta a secretaria e na organização do texto para apresentar no evento. O texto foi elaborado a partir do levantamento dos dados junto as comunidades sob minha orientação, dentro de um documento elaborado que preencheria dados referente as práticas, a quantidade de comunidade seja organização de moradores ou comunidade formada por segmentos religiosos com suas Igrejas na localidade. O levamento foi todo feito via celular, tanto o meu contato com o líder dos extrativistas, quanto o líder dos extrativistas cooperou para ligar e coletar informação junto as comunidades. O levantamento foi realizado dentro de dois meses, o qual teve informação com imagem sobre os lugares e as condições em que as safras de açaí apresentavam naquele momento. O estudo se resumiu em uma etnografia usando os meios digitais para coletar as informações necessárias a formulação do instrumento, no caso o texto. Participei da reunião da Secretaria com todos os trabalhadores representantes dos segmentos extrativistas do estado do Pará e desses segmentos o município de Muaná, comunidade do rio Atuá foi agraciado com o projeto de abastecimento de água potável as comunidades, enquanto a área tornara Território Extrativista.
-
Nas entranhas da precarização: a experiência de trabalhadoras e trabalhadores de limpeza doméstica sob o modelo uberizado na cidade de Pelotas (RS)
— Flor Wienke Tavares, Daniele Borges Bezerra
— Flor Wienke Tavares, Daniele Borges Bezerra
Na esteira de um reaquecimento do campo da Antropologia do Trabalho (LEITE LOPES, 2013), este estudo é produto da etapa inicial de minha pesquisa de Mestrado no PPGAnt/UFPel, que se propõe a investigar as experiências de trabalhadoras e trabalhadores de limpeza doméstica sob o modelo plataformizado ou uberizado na cidade de Pelotas, RS. Esse segmento é um dentre muitos inseridos no fenômeno global de uberização do trabalho, formato em que empresas-plataforma intermedeiam a relação entre trabalhadoras(es) e o público, através, em geral, de aplicativos de oferta de serviços por demanda. Embora neguem a existência de vínculo empregatício, tais empresas atuam como "chefes invisíveis", controlando a remuneração, as regras e as condições de trabalho, além de transferirem os riscos e custos do labor às(aos) prestadoras(es). A uberização do trabalho é pertencente ao processo histórico da indústria 4.0, caracterizado pelo uso da tecnologia a serviço da acumulação de capital e pelo retorno a condições de trabalho mais que pré-celetistas: protocapitalistas (ANTUNES, 2020). A dificuldade de colocação no mercado de trabalho formal, especialmente sob regime celetista, soma-se à psicopolítica neoliberal (HAN, 2018), aliciando a classe trabalhadora à ilusão da meritocracia e levando à naturalização e até à inevitabilidade do trabalho precarizado. Nesse contexto, importa observar de perto e de dentro (MAGNANI, 2002), através do trabalho de campo e da escrita etnográfica, as estratégias e percepções de trabalhadoras(es) da limpeza doméstica frente ao modelo uberizado, bem como os atravessamentos que compõem a subjetividade dessas experiências, observando recortes sociais como os de gênero, raça e classe. Inspirada em outras pesquisas etnográficas que abordam a uberização do trabalho (GÓMEZ, 2022; MARINS, 2024; PINHEIRO-MACHADO, 2025; TAVARES, 2022; SANTOS, 2025) argumento que a Antropologia tem o papel ímpar e indispensável de adentrar as entranhas dessa experiência vivida, construindo junto às(aos) interlocutoras(es) conhecimento sobre esse processo encarnado.
-
Memória, pertencimento e cultura organizacional em uma empresa familiar da Zona da Mata mineira: uma abordagem antropológica
— João Pedro Santos Pereira, Marisa Barbosa araujo
— João Pedro Santos Pereira, Marisa Barbosa araujo
Esta pesquisa investiga de que modo a cultura organizacional de uma empresa familiar de médio porte, situada na Zona da Mata mineira e atuante no setor da construção civil, impacta sobre as relações estabelecidas entre trabalhadores e empregadores. Ancorado em uma perspectiva antropológica, o estudo busca compreender como práticas simbólicas, valores compartilhados e memórias coletivas estruturam o cotidiano organizacional, produzindo sentidos de pertencimento, conflitos e processos de mudança. A empresa analisada, fundada em meados do século XX, possui sua gestão majoritariamente conduzida por integrantes da segunda e terceira gerações da família fundadora, o que conforma uma dinâmica marcada pela associação entre vínculos de parentesco e relações profissionais. A metodologia adotada é qualitativa, com inspiração etnográfica, valendo-se de observação participante, entrevistas semiestruturadas e análise de documentos institucionais. Ao privilegiar a história oral como fonte analítica, o estudo reconhece que as narrativas dos trabalhadores não apenas descrevem trajetórias, mas produzem sentidos sobre a organização e suas relações internas. Conforme Thompson (1988), a escuta qualificada transforma objetos de estudo em sujeitos de fala, ampliando a compreensão dos processos culturais. Assim, a pesquisa pretende-se contribuir para o debate antropológico sobre cultura organizacional e empresas familiares, bem como para reflexões sobre memória, trabalho e poder em contextos atravessados por tensões entre tradição e inovação.
-
Trabalho doméstico remunerado e as perspectivas patronais: uma aproximação ao universo patronal na cidade de São Paulo-SP
— Júlia Vargas Batista
— Júlia Vargas Batista
É notória e amplamente conhecida a relevância que o trabalho doméstico remunerado (TDR) e de cuidados ocupam historicamente no Brasil e na América Latina, bem como as profundas desigualdades sociais que os engendram. Nas últimas décadas, a dependência da região em relação a esse tipo de trabalho vem, por um lado, adquirindo novas configurações, sobretudo em função das atuais dinâmicas familiares e de gênero, conquistas legislativas, envelhecimento da população, conjunturas político-econômicas, etc (Lima; Prates, 2019; Posthuma, 2021). Por outro lado, permanecem uma série de desafios, como a alta informalidade e descumprimento de direitos, falta de reconhecimento legal e social, violações diversas e as persistentes disparidades de gênero, classe e raça/etnia que atravessam o setor. Considerando a Antropologia do Trabalho como subcampo potente para pensar as múltiplas dimensões das relações de trabalho na contemporaneidade, buscarei refletir sobre as desigualdades, a hibridez e as ambiguidades afetivas (Goldstein; 2009; Brites, 2007; Canevaro, 2020) persistentes no TDR brasileiro. O presente trabalho é derivado de minhas pesquisas de mestrado e doutorado (FAPESP n. 2021/03417-6 e n. 2024/00478-2, respectivamente) que se inserem no campo de estudos sobre TDR tomando o universo patronal como eixo principal de análise. O olhar direcionado à classe empregadora e aos sindicatos patronais que a representam consistem ainda em um esforço teórico e metodológico de reflexão sobre a branquitude, as classes médias e os atores sociais em posição privilegiada, considerando o entrecruzamento das relações raciais, de gênero, classe e outras, e como operam interseccionalmente no imaginário e nas práticas cotidianas do TDR. O objetivo principal desta comunicação será apresentar e refletir sobre os dados preliminares da pesquisa de doutorado em andamento, sobretudo no que concerne aos discursos e trajetórias de vida de empregadoras domésticas entrevistadas e incursões a campo realizadas na cidade de São Paulo-SP entre os anos de 2025 e 2026.
-
A viagem dos mineiros: mobilidade geográfica e trabalho mineiro no século XXI.
— Lautaro Clemenceau
— Lautaro Clemenceau
Nas últimas décadas, as empresas mineradoras incorporaram um sistema de trabalho denominado roster, o qual mobiliza os(as) trabalhadores(as) em direção aos locais de produção e os fixa temporariamente durante uma série consecutiva de dias, para depois desmobilizá-los de volta aos seus lares junto às suas famílias, localizados em outros pontos geográficos. Este modo de comutação mineira, importado no final do século XX da indústria petrolífera, veio substituir o modo histórico de dominação empresarial precedente da "vila operária". Este último fixava, de maneira relativamente permanente, os trabalhadores e suas famílias junto ao local de produção. Na atualidade, o sistema de roster organiza uma experiência coletiva para os(as) mineiros(as) de mobilidade geográfica programada entre o espaço laboral e o extralaboral.
Esta conferência analisa o fenômeno da mobilidade geográfica laboral a partir da perspectiva dos(as) trabalhadores(as) da indústria mineradora metalífera na Argentina. Em particular, analisa o caso dos(as) trabalhadores(as) da jazida Veladero, situada na cordilheira dos Andes, na província de San Juan. O estudo baseia-se em um trabalho de campo etnográfico realizado com trabalhadores(as) mineiros(as) desta jazida, utilizando a técnica da observação participante.
Duas interrogações guiam este trabalho: de que modo a empresa mineradora organiza a mobilidade geográfica entre o local de produção e os lares dos(as) trabalhadores(as)? E como os trabalhadores vivenciam essa mobilidade geográfica programada? Ao longo do texto, descreve-se e analisa-se essa experiência coletiva de mobilidade. Demonstra-se de que maneira a mobilidade geográfica dos(as) mineiros(as) programada pelo sistema de roster faz parte da experiência do trabalho mineiro atual, na medida em que constitui um momento liminar entre os âmbitos produtivos e reprodutivos dos(as) trabalhadores(as), no qual se articulam ações para conectá-los.
-
Tubarões, Golfinhos e Peixes-Dourados: A Experiência de um Trader entre Niterói e Londres
— Lucas Vieira
— Lucas Vieira
Este trabalho apresenta uma reflexão antropológica baseada em uma trajetória que transita entre a academia e o mercado das apostas esportivas, partindo da experiência do autor como trader em um escritório em Niterói (RJ) e, posteriormente, em Londres (Inglaterra). O objetivo é observar o fenômeno das apostas não apenas como uma prática de lazer, mas como um sistema que opera na fronteira entre a promessa de enriquecimento meritocrático e a produção de precariedade subjetiva e financeira.
A metodologia fundamenta-se na observação participante e na análise feita à posteriori, descrevendo o cotidiano laboral em um escritório de apostas, nomeado aqui pelo termo nativo "Antropobet", e as dinâmicas da arbitragem esportiva. A pesquisa descreve o uso de ferramentas de data science, inteligência artificial e planilhas de métricas que buscam conferir uma aura de infalibilidade a métodos de aposta, como o "Método 88", caracterizado por odds infladas e lucros ilusórios
A análise teórica mobiliza o conceito de "Empregabilidade/Empreendedorismo" de Luiz Antonio Machado da Silva (2002) para compreender a fragilidade dos contratos e a informalidade travestida de profissionalismo que marca essa gig economy. Dialoga-se também com a "vulnerabilidade" descrita por Lenin Pires (2011), aproximando a sujeição dos apostadores às limitações impostas pelas casas de apostas às licenças precárias dos vendedores ambulantes. Além disso, utiliza-se a noção de "máquinas de zoneamento" de Natasha Schüll (2012) para discutir como as plataformas digitais dissolvem a percepção de tempo e espaço, maximizando o vício.
A partir da vivência de campo, propõe-se a sistematização de categorias nativas que classificam os usuários no mercado: os "Golfinhos" (apostadores ocasionais), os "Tubarões" (profissionais bloqueados pelas plataformas por lucrarem demais) e os "Peixes-Dourados" (viciados que comprometem sua subsistência no jogo). Os resultados parciais apontam que a gestão desse mercado não repousa em escolhas individuais, mas em um sistema de manipulação de informações via redes sociais e grupos de Telegram, onde o "parecer ser" e o ostentado por influenciadores mascaram realidades de endividamento e transtornos mentais. Conclui-se que o estigma, conforme Goffman (1963), atua como fator de invisibilização do sofrimento ético e social gerado por essa prática no contemporâneo
-
O mal-estar na pós graduação: uma análise dos efeitos psicossociais em jovens adultos egressos dos cursos de Pós-Graduação em Sociologia da UFC e da UECE de 2020 a 2025
— Mário Fellipe
— Mário Fellipe
Nas últimas décadas, o mundo do trabalho tem passado por transformações significativas que produzem impactos profundos nas relações sociais e na subjetividade. O neoliberalismo constitui uma chave analítica central para a compreensão das inflexões do capitalismo contemporâneo, especialmente em sua configuração plataformizada. No campo do trabalho, esse modelo tem intensificado a precarização das condições laborais; no plano psíquico, tem engendrado formas específicas de sofrimento, como o cansaço generalizado e a depressão, decorrentes de um empuxo à autoresponsabilização individual associado ao esgarçamento do tecido social.Essas transformações afetam de maneira particular as juventudes no momento de ingresso no mercado de trabalho, frequentemente confrontadas com formas precárias de inserção que não correspondem aos investimentos realizados em sua formação acadêmica.Diante desse contexto, esta pesquisa tem como objetivo investigar a inserção profissional de egressos dos cursos de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE), no período de 2020 a 2025. Parte-se da hipótese de que esses sujeitos, apesar de altamente qualificados, enfrentam uma inserção laboral precarizada e descompassada em relação à sua formação, produzindo efeitos psíquicos e sociais relevantes. A pesquisa adotou uma abordagem qualitativa, baseada na análise das narrativas de trajetórias profissionais de dois egressos dos programas mencionados. Os relatos foram examinados a partir das percepções dos sujeitos sobre suas condições de trabalho e sobre as consequências psíquicas e sociais decorrentes dessa realidade. Os resultados indicam que a precarização do trabalho afeta não apenas as condições objetivas de inserção profissional, mas também a saúde mental, as relações sociais e a construção identitária dos egressos. A autoresponsabilização exacerbada e as dificuldades persistentes para alcançar uma inserção profissional condizente com a formação acadêmica intensificam o sofrimento psíquico e social, evidenciando os desafios enfrentados pelas novas gerações no mundo do trabalho contemporâneo.
-
Trabalhar a favela, trabalhar na favela: mediações, moralidades e negócios de impacto no trabalho periférico em São Paulo
— Silvio Rogério dos Santos
— Silvio Rogério dos Santos
Este trabalho analisa etnograficamente diferentes regimes do trabalho periférico a partir de pesquisas de campo realizadas na cidade de São Paulo, em eventos, instituições e territórios vinculados à Expo Favela Innovation Brasil, à CUFA Heliópolis e ao G10 Favelas, entre 2024 e 2025. Partindo de um conceito ampliado de trabalho, a pesquisa investiga práticas que extrapolam o emprego formal e incluem o trabalho cultural, comunicacional, moral, emocional e político mobilizado por sujeitos periféricos na produção de renda, reconhecimento e pertencimento.
A etnografia acompanha tanto contextos de alta visibilidade - como pitches, palcos institucionais e cerimônias oficiais - quanto espaços de bastidores e rotina, como pavilhões sociais, atendimentos comunitários e ações assistenciais. Esses diferentes cenários revelam como o trabalho periférico é performado, regulado e moralizado por meio de narrativas de superação, pedagogias da disciplina e processos de mediação entre favela, mercado, Estado e mídia.
Nesse contexto, os negócios de impacto social emergem como uma gramática central para a legitimação do trabalho nas periferias, articulando empreendedorismo, inovação e responsabilidade social. Argumenta-se que essa lógica, inscrita em dinâmicas neoliberais mais amplas, opera não apenas como estratégia econômica, mas como tecnologia de governo que captura subjetividades, orienta condutas e redefine expectativas sobre autonomia, risco e sucesso. O empreender-se torna-se, assim, um imperativo moral e político, no qual a favela é mobilizada como ativo simbólico e capital moral negociável.
Ao reafirmar a centralidade analítica da classe social, articulada interseccionalmente a território, raça, religião e gênero este último entendido como marcador relevante, ainda que não centralizador, sobretudo diante da recorrente focalização de mulheres como público-alvo das iniciativas analisadas o trabalho dialoga com debates contemporâneos da antropologia do trabalho, contribuindo para a compreensão das transformações, antagonismos e ambivalências que estruturam o trabalho periférico no capitalismo contemporâneo.
-
Quem trabalha nas startups? Classe, raça, gênero e os limites das políticas de Diversidade e Inclusão no setor tecnológico
— Virgínia Squizani Rodrigues
— Virgínia Squizani Rodrigues
Este estudo analisa o mundo do trabalho em startups brasileiras enfocando a articulação entre classe, raça, gênero e políticas de Diversidade e Inclusão (D&I). Com base em pesquisa etnográfica realizada no ecossistema de startups de Florianópolis entre 2020 e 2024, o trabalho examina como as políticas de D&I, embora ampliem a presença de grupos historicamente marginalizados no setor, tendem a operar de forma dissociada de transformações estruturais mais amplas. A análise da composição social da força de trabalho revela a persistente predominância de trabalhadores oriundos das classes médias e médias-altas, bem como a reprodução de hierarquias raciais e de gênero na divisão social do trabalho. Evidencia-se que pessoas negras, mulheres e trabalhadores de origem popular tendem a se concentrar em posições menos valorizadas, com maior exposição à precarização e menor acesso a redes de proteção material e simbólica, tensionando o discurso meritocrático amplamente difundido no setor. Apesar da existência de grupos de afinidade e solidariedade nas empresas de tecnologia, estes coletivos não tendem a confrontar a exploração vivenciada nos ambientes de trabalho. O estudo analisa ainda o enfraquecimento de formas coletivas de organização mais tradicionais, como o movimento sindical, e como esse conjunto de processos contribui para a fragmentação da experiência do trabalho em startups, revelando os limites das políticas de D&I quando desvinculadas de uma crítica mais ampla às formas de exploração no capitalismo contemporâneo.
-
Decolonizar o trabalho: uma teoria etnográfica de estudantes
— Wecisley Ribeiro do Espírito Santo
— Wecisley Ribeiro do Espírito Santo
Resumo: A comunicação busca produzir um desdobramento analítico de artigo anterior, que apresentou uma teoria etnográfica do magistério. Trata-se de novo fragmento descritivo da mesma pesquisa de campo, em escolas de educação básica. Desta feita, são pontos de vistas estudantis os evocados como recursos heurísticos para a interpretação do trabalho – um conceito por excelência. Se, conforme a formulação marxiana, o que caracteriza o trabalho humano é a concepção mental, o planejamento que precede a realização prática (sob risco de alienação), o referido conceito é então uma metonímia da realidade prática que visa descrever. Esta forma de abordar o tema implica na ampliação do conteúdo conceitual do termo trabalho, tanto na direção de atividades intelectuais não incluídas no cálculo do PIB, quanto na direção do trabalho de reprodução, na esfera doméstica – frequentemente não remunerado ou de baixos salários. Uma das implicações práticas possíveis destes pressupostos é a consideração das tarefas estudantis em termos laborais. A teorização do mundo do trabalho a partir das categorias e práticas êmicas de estudantes confere, nesse sentido, abrangência ao tema da decolonização do trabalho. De modo que estudantes da educação básica – tanto quanto trabalhadora(e)s doméstica(o)s, bem como os nexos orgânicos que vinculam ambos – sejam incluídos na análise das classes trabalhadoras. Das perspectivas de grande parte de interlocutores da pesquisa ora relatada, estudar corresponde a se submeter a um gênero de tortura de baixa intensidade e longa duração. Mesmo desconhecendo a etimologia da palavra trabalho – de origem latina, tripalium, três madeiras cruzadas e empregadas para uma modalidade de tortura similar à crucificação – as formulações nativas convergem de modo surpreendente com uma tal noção negativa. A hipótese interpretativa avançada no artigo recorre à categoria seminal da alienação. Concluía-se o texto precedente a este com o argumento de que o planejamento docente constitui trabalho alienado por excluir parte da(o)s trabalhadores envolvidos no processo – isto é, a(o)s estudantes –; razão pela qual o plano pedagógico não reúne amiúde condições de realização prática. Aqui aponta-se para um trabalho de mentalização estudantil mutilado, desprovido de possibilidades de aplicação empírica. Como se sabe, o grego scholḗ significa lazer. E, no entanto, sua derivação portuguesa, escola, parece ser sinônimo de trabalho alienado, desde um ponto de vista discente. Uma teoria etnográfica estudantil pode ser talvez resumida na fórmula: trabalho alienado = cultura – lazer. Acredita-se, ademais, que tais proposições se revestem de relevância sobre o pano de fundo dos debates econômicos acerca da demanda incontornável por remuneração universal de todo trabalho humano.
Coordenação
Sérgio Ivan Gil Braga (UFAM)
Alicia Norma González de Castells (UFSC)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Alicia Norma González de Castells (UFSC)
Convidamos estudiosos e pesquisadores, que estejam interessados em relatar e debater sobre diferentes contribuições antropológicas produzidas por “antropólogos” de outrora, de décadas passadas, que se encontravam distantes do meio acadêmico e de alguma maneira, contribuíram para a história da antropologia brasileira. Verificar o “ofício de antropólogo”, entre folcloristas, historiadores, escritores e “pesquisadores” oriundos de outras áreas de conhecimento, que praticaram antropologia, embora não se intitulassem “antropólogos”. Assim, sem pretensão de delimitar a proposta em temas específicos, reconhecemos que tais contribuições têm relevância para estudos de expressões locais, regionais e nacionais de patrimônios culturais, identidades étnicas e culturais, questões sobre dinâmicas de cidades e vidas urbanas, contextualizações históricas para grupos sociais, referências cronotópicas em produções textuais, aspectos teóricos e metodológicos no âmbito da antropologia brasileira etc. Trata-se de etnologias, etnografias que contribuíram de modo significativo para registros e testemunhos originais ou mesmo inéditos. Pode-se apresentar como material de pesquisa, consultas a produções bibliográficas, livros, artigos, catálogos, entre outras publicações. Levantamentos sobre trajetórias de vida pessoal e acadêmica, em arquivos pessoais, envolvendo correspondências, diários de viagem, fotografias, recortes de jornais e outras fontes.
Títulos e Resumos
-
Antonio Carlos Simoens da Silva, o cientista smart
— Cecilia de Oliveira Ewbank
— Cecilia de Oliveira Ewbank
Antonio Carlos Simoens da Silva (1871-1948) nasceu no Rio de Janeiro no seio de uma família de ascendência nobiliárquica. Formado em Direito, inicia sua participação no meio científico na virada para o século XX, filiando-se a diversas associações e participando de feiras, congressos e viagens no Brasil e no exterior. Filiado à Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro desde 1902, integraria o seu Conselho Diretor e a Comissão Permanente de Estudos Americanistas em um movimento indicativo do direcionamento dos seus interesses e estudos para as ciências antropológicas. Por meio da SGRJ, integraria o Comitê organizador do 20º Congresso Internacional de Americanistas, realizado no Rio de Janeiro, em 1922, tendo papel fundamental na organização dos comitês regionais nacionais. Colecionador e fundador do enciclopédico Museu Simoens da Silva, ambos reconhecidos como referências em assuntos etnográficos no Rio de Janeiro, recebia estudiosos para consultas etnográficas a ele e às suas coleções. Atento às discussões sobre o americanismo e o indigenismo que movimentavam o meio científico no Brasil e no exterior, desde 1909 encampou pautas caras à Antropologia nos diversos congressos em que participou, como o controle da saída de material científico do Brasil para o estrangeiro, a proteção dos indígenas e a criação nos institutos superiores de ensino de cadeiras de Etnografia, Antropologia e Arqueologia, sendo precursor de algumas destas discussões em âmbito nacional. Viajante contumaz, publicou diversos livros com impressões dos lugares e culturas visitados, realizando ainda conferências públicas com a exposição de exemplares adquiridos para a sua coleção. Sua habilidade em concatenar viagens, pesquisas e participações em congressos científicos, atentando para a sua divulgação e sem descuidar da sua atuação como advogado e fundador de um museu, refletem o dinamismo deste antropólogo autodidata e amador.
-
Um arquivo de Cultura Popular: O projeto Veredas Sociais (1978-2000) entre a Antropologia e a Literatura
— Maria Alice da Conceição Silva, Daianire Carneiro Rocha
— Maria Alice da Conceição Silva, Daianire Carneiro Rocha
Esta comunicação tem por objetivo apresentar os resultados parciais de uma pesquisa junto ao arquivo de um extinto Grupo de Pesquisa vinculado à Universidade Federal de Juiz de Fora. Trata-se do projeto Veredas Sociais (anteriormente Minas & Mineiros) que foi coordenado pela professora Núbia Gomes e pelo professor Edimilson de Almeida Pereira entre 1978 e 1994. Com a morte precoce de Núbia em 1994, Edmilson organizou e publicou outros materiais do projeto até o ano 2000. Especialista em temas relativos à culturas populares, e com abordagens antropológica, o projeto Veredas Sociais, marginalizado na historiografia da cultura popular brasileira, é responsável por algumas publicações de relevância para o tema, tais como Negras raízes mineiras: os Arturos (1988), Assim se benze em Minas Gerais (1989), Arturos: olhos do rosário (1990), Mundo encaixado: significação da cultura popular (1992), Do presépio à balança: representações sociais da vida religiosa (1995), entre outros. Edimilson de Almeida Pereira, um dos membros do projeto, é também um renomado poeta e romancista. Admitindo a interferência decisiva das pesquisas de cultura popular na sobre sua obra literária (Almeida Pereira, 2024), Edimilson abre caminhos para pensarmos as intercessões entre Antropologia e Literatura, bem como as conexões íntimas entre a produção etnográfica e criação ficcional. É precisamente esse o foco da comunicação aqui proposta, que se o que será explorado nessa proposta de comunicação. Se valendo da “etnografia de documentos”, tal como elaborada por Letícia Ferreira e Laura Lowenkron (2014), essa comunicação parte do pressuposto de que os documentos não devem ser tratados apenas como registros estáticos ou meros suportes de informação, mas como artefatos situados em práticas sociais que lhes conferem sentidos, valores e efeitos.
-
Folclore e folcloristas hoje: trajetórias de vida e antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Andrade
— Sérgio Ivan Gil Braga
— Sérgio Ivan Gil Braga
O estudo de trajetórias de vida e antropologia em Mário Ypiranga Monteiro e Moacir Couto de Andrade, não implicou necessariamente elaborar uma biografia sobre cada um deles. Tratou-se de entender a condição de “folcloristas” destes autores amazonenses, que não raro se autointitulavam “antropólogos”. Mário nasceu em Manaus, em 23 de janeiro de 1909. Foi professor em escola pública e na Universidade do Amazonas. Graduou-se em Direito nesta mesma Universidade. Assumiu a condição de pesquisador no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). Moacir também nasceu em Manaus, em 17 de março de 1927. Trabalhou com desenho técnico em escritório de engenharia e foi professor, assumindo destaque na Escola Técnica Federal do Amazonas. Formou-se em Administração de Empresas na Universidade do Amazonas. Desde os seis anos de idade já desenhava e passou a se interessar pela pintura artística de cenas da vida amazônica.
A pesquisa empreendida contou com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) e priorizou consultas as produções bibliográficas dos autores, bem como levantamento de fontes primárias envolvendo documentos, correspondências (no caso de Mário Ypiranga), desenhos e artes plásticas (no caso de Moacir Andrade), originais de livros, artigos publicados em jornais, objetos pessoais (cadernos e cadernetas de campo, de Mário Ypiranga) e fotografias.
O campo antropológico constituído por Mário e Moacir, representou uma antropologia que partiu do conhecimento da vida social experenciada pelos próprios folcloristas. Ao mesmo tempo, que procuraram conferir sentido de cientificidade a esse conhecimento, considerado inicialmente como Ciência do Folclore. Escolheram para estudos lendas e mitos, história social regional, expressões religiosas do catolicismo e de afrodescendentes, formas e relações de trabalho, embarcações regionais, cidades e aspectos de vida urbana amazônica, artefatos de cultura material, relações raciais com ênfase no mestiço caboclo, cultivos e produtos regionais, patrimônio histórico e cultural incluindo bens edificados e festas populares.
Na produção do conhecimento antropológico, trabalharam com conceitos como o de cultura, área cultural, aculturação, sincretismo cultural e religioso, necessidades culturais. Pode-se dizer, que chegaram a um conhecimento “prático”, conforme Pierre Bourdieu (2007), com base na reflexividade que empreenderam sobre as suas próprias experiências de vida e de pesquisa. No sentido de operarem sobre o conhecimento que elaboraram, enquanto “estruturas estruturantes”. O que tornou sugestivo serem vistos, como protagonistas ou guardiões da cultura local, de Manaus, e regional no âmbito do Estado do Amazonas.
Coordenação
Thaddeus Gregory Blanchette (PPGAS)
Adriana Graça Piscitelli (UNICAMP)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Tita - Letizia Patriarca (USP)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Tita - Letizia Patriarca (USP)
Esse GT pretende acolher pesquisas sobre as diversas formas em que os mercados do sexo e suas economias foram se transformando, ou não, através de práticas digitais. A pandemia de COVID-19 acelerou um processo já em curso desde o início do século: a migração para a internet dos territórios morais cuja marca característica é aquilo denominado pelo Gayle Rubin como Bad Sex (i.e sexo não heterossexual, não monogâmico,não reprodutivo). Antigas áreas de “pegação”, “cabarés” e “zonas de prostituição” tem sido re/de-estruturadas através da incorporação dos recursos digitais nas rotinas das pessoas que buscam vender, comprar, ou trocar sexo. Enquanto isto, a crescente democratização de tecnologias digitais tem aberto novas possibilidades para visibilidade, ganho de capital e celebridade para pessoas envolvidas nos mercados sexuais. Como resultado, os mercados sexuais e suas economias subjacentes estão passando por uma extrema re-organização. Esse GT privilegiará trabalhos que exploram como práticas digitais estão sendo incorporados nos mercados sexuais e, em particular, como essas têm transformado as geografias do desejo. Estamos interessados em tópicos como: influenciadories sexuais e celebridades virtuais do trabalho sexual, a venda de sexo virtual através de plataformas digitais, o impacto da “uberização” do sexo nas tradicionais zonas de prostituição, e práticas de segurança e/ou violência e criminalização decorrentes das tecnologias digitais, e temas semelhantes.
Títulos e Resumos
-
O desejo em exposição: performatividades eróticas em plataformas digitais e a reconfiguração da intimidade
— Ana Carolina Fiori
— Ana Carolina Fiori
Este trabalho investiga as formas contemporâneas de produção do desejo na plataforma OnlyFans, compreendida como uma infraestrutura sociotécnica que reorganiza experiências de corpo, sexualidade e intimidade no capitalismo digital. Em diálogo com Paul B. Preciado, especialmente com a noção de regime pornofarmacológico, a pesquisa parte da compreensão de que o erotismo digital integra uma economia política do prazer na qual excitação, atenção e imagens circulam de forma intensiva, moduladas por tecnologias, mercados e dispositivos de controle. Nesse contexto, o desejo não se estrutura prioritariamente em torno da satisfação sexual, mas como um processo continuamente estimulado, regulado e administrado pela lógica da plataforma.
A partir de uma etnografia virtual de perfis plurais selecionados intencionalmente, o estudo observa como o corpo é exibido de maneira estratégica, parcial e cuidadosamente curada, produzindo regimes específicos de visibilidade, fetichização e reconhecimento. Essas performances operam como tecnologias de si e do outro, nas quais a intimidade é constantemente sugerida, mas mantida sob controle, convertendo-se em elemento central da mercantilização do erotismo. Assim, o prazer deixa de ser apenas uma experiência relacional para tornar-se um recurso produtivo, inserido em circuitos de consumo, repetição e gestão dos afetos.
O trabalho dialoga com a antropologia da experiência, a antropologia visual e os estudos sobre sexualidade e trabalho sexual digital para compreender de que modo criadores e criadoras de conteúdo elaboram narrativas eróticas e estéticas que articulam corpo, desejo e subjetividade em ambientes digitais. Inspirada pelas reflexões de Preciado sobre a governamentalidade dos corpos e das excitações, a pesquisa problematiza como essas performances são atravessadas por dinâmicas algorítmicas que regulam a visibilidade, condicionam as interações e produzem formas específicas de normatividade erótica.
Ao analisar o erotismo como um campo atravessado por tecnologias de excitação e controle, a pesquisa contribui para a compreensão das transformações contemporâneas da intimidade e da sexualidade mediadas por plataformas digitais. Desse modo, o desejo emerge como uma força social e política, produzida na interseção entre corpo, imagem e tecnologia, reorganizando as formas de sentir, desejar e habitar o corpo no presente.
-
"Todo homem quer uma virgem que seja boa de cama": perspectivas masculinas acerca de plataformas para "relações sugar"
— Bruno Henrique Benichio Alves Barbosa
— Bruno Henrique Benichio Alves Barbosa
"A característica principal é a segurança e o anonimato desse tipo de relação [...] O cara quer se aproveitar e só quer a mulher para transar, jogar fora e ponto [...] Na plataforma, ele tem a sensação de que não está contratando uma prostituta, está contratando uma jovem [...] As plataformas são só para quem tem uma renda mais baixa mesmo e que está querendo trair a esposa [...] Diminui a culpa dele também por não estar contratando uma prostituta nos modos tradicionais [...] A maioria está procurando uma amante. Ou ter uma relação, como eu fiz, com mulheres jovens para se sentir empoderado.". Esses relatos, incluindo o mencionado no título desta apresentação, advêm de entrevistas de uma etnografia digital focada em homens brasileiros que buscam "relações sugar" - intercâmbios afetivo-sexuais mediados por dinheiro - em plataformas digitais voltadas para esse tipo de configuração.
Apesar de as falas masculinas explicitarem aspectos e intenções transacionais em plataformas para "relacionamento sugar", os homens entrevistados simultaneamente higienizam esses vínculos ao associá-los a contextos generificados da heterossexualidade e do casamento, como sinalizou um entrevistado: "qualquer marido é um sugar daddy em sua essência". De qualquer forma, embora as narrativas masculinas sejam contraditórias por transitarem entre associações com o mercado do sexo e supostas conexões com um "relacionamento convencional", os relatos dos homens deflagram alguns apontamentos para a busca masculina por uma "relação sugar".
As perspectivas que venho colhendo ao longo da minha pesquisa de doutorado evidenciam que esse mercado constitui uma alternativa favorável para os homens, tanto em termos econômicos quanto em termos morais, especialmente para casados que circulam no mercado do sexo. Isso porque: I) Viabiliza uma alternativa barata à prostituição "de luxo", uma vez que uma "relação sugar" não prevê pagamento por encontros, performance de autenticidade, companhia e exclusividade; II) Oferece a homens mais velhos e/ou casados - com baixo sex appeal no mercado da paquera sem fins lucrativos - a oportunidade de se relacionar com mulheres jovens que não lhes seriam acessíveis sem as supostas intermediações materiais; e III) Provê uma opção para aqueles que não desejam se expor no mundo da prostituição por questões morais, considerando a idealização de não se envolver com perfis sociais que imaginam existir na esfera prostitucional "convencional".
Sendo assim, esta comunicação visa se aprofundar nos usos masculinos de plataformas para "relações sugar", demonstrando de que modo os paradigmas que atravessam afetos, sexo e dinheiro se articulam com regimes morais relacionados à própria estrutura contemporânea da esfera íntima técnico-midiatizada.
-
Plataformização do trabalho sexual: a Fatal Model e a reorganização do mercado do sexo no Brasil
— Cinthya Bastos Ferreira
— Cinthya Bastos Ferreira
Neste estudo, discuto os processos de plataformização do trabalho sexual a partir do recorte específico da prostituição, entendida como atividade realizada em regime de co-presença física, ainda que crescentemente mediada por infraestruturas digitais. Tomo como ponto de partida o debate sobre o lugar da técnica e da tecnologia na acumulação capitalista e, atenta ao par dialético forma e conteúdo, indago os sentidos da plataformização no mercado do sexo um campo no qual as fronteiras entre o informal, o ilegal e o ilícito se mostram historicamente porosas. Ao fazê-lo, busco afastar-me tanto de leituras moralizantes quanto de interpretações tecnossolucionistas, voltando-me às continuidades, rupturas e reinvenções que atravessam esse universo heterogêneo e socialmente estratificado. O objeto empírico da pesquisa é a empresa Fatal Model, atualmente a maior plataforma de acompanhantes do país. Antes de um meio isento de conexão entre oferta e procura, observo a plataforma como agente que reorganiza práticas, expectativas e relações no interior do mercado sexual comercial. Argumento que, por meio de mecanismos algorítmicos de ranqueamento, gestão da visibilidade e ordenamento dos perfis, a Fatal Model produz hierarquias, desigualdades e dependências, ao mesmo tempo em que se apresenta como um artefato técnico desinteressado. Aponto que essa autodefinição convive com a mobilização recorrente de valores normativos por meio dos quais a empresa se projeta como protagonista de uma batalha moral pela dignificação do trabalho sexual. Tal engajamento revela-se, contudo, ambíguo, na medida em que a plataforma recusa sistematicamente responder pelas assimetrias que ela própria conforma, evidenciando desencontros persistentes entre discurso e prática efetiva. Metodologicamente, a pesquisa articula revisão bibliográfica e etnografia digital. O trabalho de campo envolve imersão sistemática no sítio eletrônico da Fatal Model, o mapeamento de suas interfaces, funcionalidades e conteúdos públicos, bem como a análise de seus Termos de Uso e Políticas de Privacidade. Os achados indicam que a Fatal Model opera por meio da transferência de custos, riscos e responsabilidades às trabalhadoras, intensificando o trabalho não remunerado ligado à autopromoção, à gestão da reputação e à produção de conteúdos dimensões fundamentais ao tráfego e à rentabilidade da empresa, mas que não necessariamente se convertem em ganhos concretos para as trabalhadoras. Concluo que a plataforma expressa, de modo paradigmático, como a plataformização reconfigura o mercado do sexo ao reinscrever lógicas pré-existentes de mediação e controle em dinâmicas algorítmicas, deslocando o debate público das condições materiais de subordinação para disputas morais em torno de legitimidade e reconhecimento.
-
Do olhar furtivo ao toque do pixel: tecnologia, corpo e espaço na pegação contemporânea
— João Elioberg da Silva Oliveira
— João Elioberg da Silva Oliveira
Este artigo analisa a reconfiguração da prática da pegação (ou cruising) entre homens na atualidade, a partir de sua mediação pela rede social X (antigo Twitter). Partindo da teoria do ciborgue de Donna Haraway (2009), compreendo a pegação digital como uma simbiose entre corpos desejantes e plataformas digitais, que juntos produzem encontros, mapeiam espaços e negociam anonimatos. Se valendo da expertise etnográfica, analisei o perfil de duas contas na rede social X, um comercial e um anônimo, que versam sobre pontos de pegação na cidade de Natal/RN. Nesse itinerário, investigo suas postagens, linguagens cifradas e dinâmicas de interação. A pesquisa revela uma potência paradoxal: por um lado, a plataforma potencializa a prática, tornando-a mais eficiente e comunitária, rompendo com dualismo físico/digital e criando códigos próprios de reconhecimento; por outro, submete-a a lógica de controle (moderação algorítmica) e a riscos sistêmicos como desinformação e discurso de ódio. Concluo que a pegação digital é um campo de batalha ciborgue: um espaço de resistência e reexistência sexual que, simultaneamente, é capturado e vulnerabilizado pela arquitetura das redes. O estudo contribui para os campos da antropologia digital e dos estudos de gênero e sexualidade, destacando a necessidade de análises que integrem a experiência dos sujeitos às críticas políticas das infraestruturas tecnológicas.
-
Algoritmo e mecanismos de busca: um estudo exploratório a partir da categoria "disabled" em uma plataforma de conteúdo adulto
— Mirian Borges da Silva
— Mirian Borges da Silva
O artigo apresenta um estudo exploratório e inicial acerca dos mecanismos de busca, circulação e classificação de conteúdos pornográficos na plataforma de conteúdo adulto XVideos, a partir da categoria “disabled”, como uma referência a produções pornográficas protagonizadas por pessoas com deficiência e/ou atravessadas pelo tema da deficiência. A partir de uma imersão etnográfica na plataforma e em diálogo com a antropologia digital, discute-se a lógica de funcionamento interno das plataformas, assim como seus ocultamentos em relação a quem detém o seu controle e a forma de monitoramento dos usuários. Também em diálogo com os estudos da deficiência, da sexualidade e, especialmente, da teoria queer-crip, o trabalho problematiza a tensão entre faltas e excessos nas representações pornográficas da deficiência, bem como os limites éticos, políticos e comerciais que atravessam essas produções dispostas em uma das maiores plataformas de pornografia digital.
-
Da conexão emocional ao afeto automatizado: camming, inteligência artificial e economias sexuais digitais no Brasil
— Núbia Sena dos Sants Ramalho
— Núbia Sena dos Sants Ramalho
A intensificação do uso de plataformas digitais nas últimas décadas tem reconfigurado profundamente os mercados sexuais, deslocando práticas historicamente associadas a territórios físicos, como zonas de prostituição, cabarés e espaços de pegação, para ambientes online marcados por novas formas de visibilidade, monetização e controle. Inserido nesse contexto, o camming constitui hoje um dos segmentos mais expressivos da chamada venda de sexo virtual, articulando erotismo, trabalho afetivo e performance em tempo real, mediado por plataformas digitais.
Este trabalho investiga como a incorporação recente de ferramentas de Inteligência Artificial (IA) pelas camgirls brasileiras vem transformando as economias do afeto e da intimidade no camming, aprofundando processos já em curso de plataformização do sexo e reorganização das geografias do desejo. A partir de etnografia digital, com observação participante em plataformas de camming, entrevistas com camgirls e análise de interações e conteúdos produzidos com apoio de IA (como imagens, roteiros de chat e legendas automatizadas), analiso como essas tecnologias passam a integrar as rotinas de trabalho sexual online. Argumento que a IA não substitui o trabalho afetivo, mas o reconfigura, introduzindo uma camada automatizada à performance da intimidade, que tensiona noções clássicas de presença, autenticidade e agência. No interior dos mercados sexuais digitais, a autenticidade torna-se um recurso estratégico, produzido a partir da articulação entre corpo, emoção e sistemas algorítmicos de visibilidade e ranqueamento. Essa dinâmica evidencia a emergência de um regime de intimidade mediada, no qual o afeto é simultaneamente mercadoria, técnica e performance.
O trabalho pretende pensar como práticas sexuais historicamente marginalizadas se reterritorializam no ambiente digital, agora atravessadas por tecnologias de vigilância, monetização e automação. Simultaneamente, ressalta como as desigualdades de gênero, raça e classe permanecem atuando nesses mercados, sendo frequentemente reprodutivas ou exacerbadas por algoritmos e recursos de IA. Ao centrar o camming como um espaço destacado para observar as mudanças atuais nos mercados sexuais, esta pesquisa ajuda a entender de que maneira as práticas digitais estão reconfigurando não só as economias do sexo, mas também as expressões de desejo, trabalho e intimidade na terceira década do século XXI.
Coordenação
Denise Pimenta (Unifesp)
Paulo Ricardo Müller (UFFS)
Pessoa debatedora
Melvina Afra Mendes de Araújo (UNIFESP)
Regimes políticos africanos parecem estar sempre na corda-bamba sob ameaça de guerras civis e conflitos internos. Um exemplo recente disso vem das eleições na Tanzânia, durante a qual se estima que cerca de quinhentos opositores do partido vencedor tenham sido assassinados. Entretanto, entre as reações públicas a tal situação, circula nas mídias digitais a acusação de bruxaria à presidenta eleita. Por outro lado, em sua tese de livre docência (USP, 2018), Laura Moutinho aponta para o caráter mágico atribuído às comissões de reparação pós-apartheid na África do Sul por conciliarem parte da minoria branca ultrarracista com tal política de Estado. Assim, a feitura da política em contextos africanos, seja no agenciamento da violência ou na resolução de conflitos, é frequentemente atravessada por rumores, como sugere Wilson Trajano Filho (UnB), que colocam em circulação e interação atores sociais humanos e não-humanos, tais como espíritos, bruxas(os), ancestrais, animais, algoritmos, etc. Este GT se propõe a discutir essas questões a partir de pesquisas e reflexões que articulem evidências etnográficas e conceituais sobre violência e conflitos em torno de processos eleitorais, dinâmicas entre Estado e sociedade civil, novos ativismos políticos, circulação de rumores e acusações nos meios digitais, controvérsias públicas envolvendo bruxaria/feitiçaria, prolongamentos políticos do colonialismo, entre outros.
Títulos e Resumos
-
Perseguição espiritual e refúgio: limites epistemológicos da proteção internacional no Brasil
— Carolina Becker Peçanha
— Carolina Becker Peçanha
Este ensaio examina os limites epistemológicos do sistema brasileiro de refúgio a partir da análise de solicitações motivadas por perseguição espiritual. Partindo da experiência da autora na elaboração de Estudos de País de Origem (EPO) no âmbito do ACNUR, o texto problematiza o papel desses documentos como artefatos etnográficos e tecnologias estatais de classificação que produzem regimes de inteligibilidade sobre quem pode ou não ser reconhecido como refugiado.
O trabalho apresenta uma etnografia documental sobre os documentos de análise dos países de origem dos solicitantes (EPO) emitidos por agências internacionais e departamentos de estados e utilizados pelos oficiais de elegibilidade no Brasil para cunhar as justificativas pelo indeferimento destas solicitações de refúgio nos pareceres finais. Dialogando com Peirano (2014) e Vianna (2014), argumenta-se que os EPO e os pareceres técnicos não apenas descrevem contextos nacionais, mas performam a realidade que informará as decisões do Conare, hierarquizando narrativas e avaliando vidas segundo critérios morais e epistemológicos situados. Em interlocução com Abu-Lughod (2018), mostra-se como perseguições espirituais tendem a ser tratadas como expressões culturais essencializadas ou irracionais, deslocadas de seus contextos históricos e políticos, tornando-se pouco inteligíveis no campo jurídico.
A partir de um estudo de caso, o ensaio evidencia como relatos de violência relacionada à bruxaria (DEHM; MILLBANK, 2021) são frequentemente deslegitimados por não se conformarem aos parâmetros empíricos do racionalismo ocidental. Mobilizando Avtar Brah (2006), interpreta-se essa exclusão como um processo de diferenciação que transforma diferenças epistemológicas em insuficiências jurídicas, produzindo desigualdades no acesso à proteção internacional. Ao articular a antropologia da magia, especialmente Evans-Pritchard e Mauss, o texto sustenta que a bruxaria constitui uma forma socialmente eficaz de ação e interpretação do mundo. Conclui-se defendendo a necessidade de um pluralismo epistemológico capaz de reduzir a violência epistêmica nos processos de reconhecimento do refúgio.
Palavras-chave: refúgio, bruxaria, Conare, direitos humanos, migração, proteção internacional dos refugiados.
-
Noite em que te Chamam Azetô: rito, acusação e perigo
— Christopher Souza da Rocha
— Christopher Souza da Rocha
Este artigo nasce de uma investigação em Cotonou, Ouidah, Abomey, Porto-Novo e Savalu sobre o culto às Minon-nan e as controvérsias em torno dos Azetôs. No cotidiano urbano e ritual, “Azetô” circula como nome-arma: uma forma pejorativa de se dirigir a alguém, frequentemente colada à ideia de “feitiçaria”, capaz de produzir isolamento, vigilância, medo, interditos e, em certos casos, escaladas de conflito. Em vez de tomar “bruxaria” como essência ou desvio, proponho tratá-la como regime de acusação e como disputa situada sobre moralidade, legitimidade e poder — disputa que é atravessada por histórias coloniais de tradução forçada, criminalização do Vodun e captura etnográfica do segredo.
A abordagem é contracolonial em dois sentidos. Primeiro, recusa a equivalência automática entre categorias locais e o léxico ocidental de “bruxaria”, acompanhando os usos sociais do termo e suas consequências práticas: quem pode falar, quem deve calar, quem é considerado perigoso, quem é chamado à responsabilidade e como se reconstroem reputações. Segundo, desloca o foco do exotismo para a política do nome: aquilo que se diz (e o que se evita dizer) organiza fronteiras entre proteção e ameaça, cuidado e suspeita, iniciação e exploração, segredo ritual e visibilidade pública — especialmente em contextos de circulação transnacional, mídias digitais e presença de pesquisadores e produtores audiovisuais.
A partir de cenas de campo, diálogos e negociações de acesso, mostro como rumor, silêncio e advertência não são “ruídos” do social, mas procedimentos de governança do invisível: regulam proximidades, testam alianças, impõem prudências e delimitam o que pode ser exposto sem romper pactos. Ao articular Minon-nan e Azetôs, o artigo sustenta que o conflito não emerge apenas de “crenças”, mas de economias morais e memórias coloniais que ainda disputam o direito de nomear, traduzir e julgar o Vodun no Benim contemporâneo.
-
Entre hienas e crocodilos: zoomorfismo e "feitiçaria" como linguagem e as controvérsias balantas na política da Guiné-Bissau
— Érico de Souza Brito
— Érico de Souza Brito
Partindo de uma perspectiva relacional (Spies, 2019), esta proposta pretende apresentar uma reflexão sobre como um aspecto próximo da "feitiçaria" – essa palavra tão mal traduzida porém amplamente utilizada na antropologia (Geschiere, 2006) – pode ser utilizado enquanto uma linguagem de interpretação do mundo (Geschiere, 2006;2013; West, 2009; Favret-Saada, 1980, Comaroff y Comaroff, 1999) a partir das narrativas de zoomorfismo trazidas pelos meus interlocutores balantas na Guiné-Bissau.
Tratando especificamente sobre os balantas kontoi que, segundo os meus interlocutores, podem transformar-se em determinados animais, analiso como o crocodilo e a hiena são vistos como arquétipos opostos entre si. O crocodilo devora alguém que admira e que ele gostaria que pertencesse ao seu círculo íntimo por qualquer motivo que lhe seja agradável. Trazendo-a em sua barriga, ele a deposita no ventre de sua esposa para que essa pessoa renasça na sua própria família, sendo o devorado necessariamente alguém de fora de sua aldeia. Já a hiena come aqueles que estão mais próximos de si, sejam vizinhos ou até membros de sua família, aproximando-se muito da prática do feiticeiro que usa da intimidade para obter suas vítimas (Geschiere, 2013).
Uma das possíveis interpretações dessas narrativas é que o zoomorfismo seria uma linguagem que permite a reflexão sobre a moralidade das pessoas daquele grupo. Enquanto a hiena é condenável por devorar aqueles que estão mais próximos, reduzindo o seu núcleo familiar, o crocodilo é admirado por ser aquele que promove a expansão de sua família, trazendo para dentro de seu círculo de convivência aqueles que são desejáveis, reconhecendo a sua própria incompletude (Nyamnjoh, 2015) ao procurar no outro características que ele admira. A ação do crocodilo seria um chamado ao outro para a convivência, a comensalidade, ampliando sua rede de relações ao invés de reduzi-la.
O soterramento do único parque urbano de Bissau (Parque Lagoa M’Batonha) em 2023 fez surgir uma polêmica: segundo meus interlocutores, ao eliminar um habitat natural de inúmeros crocodilos o então presidente Umaro Sissoco Embaló estaria atacando os balantas simbolicamente, visto que desde o início de seu mandato ele acumula declarações polêmicas sobre as Forças Armadas (compostas majoritariamente por balantas) desembocando em acusações mútuas entre anciãos balantas e o então mandatário.
No dia 26 de novembro de 2025 foi colocado em marcha um autogolpe de Estado encabeçado pelo ex-presidente, momento em que, em uma página de Facebook ligada a ele, se publicizou a acusação de que militares balantas haviam-no prendido. Diante do conflito público se destaca uma certa “política de devoração” entre agentes políticos, tendo como pano de fundo rumores e acusações étnicas e de feitiçaria.
-
Estudos de Gênero e Sexualidades em Educação Matemática na África do Sul: reflexões a partir da literatura e do trabalho de campo
— Glauber Carvalho da Silva
— Glauber Carvalho da Silva
A (Educação) Matemática não é neutra. Na defesa dessa argumentação, a presente reflexão tem como proposta discutir: afinal, quais corpos são recomendados à Matemática? Deseja-se, analisar as relações que es sujeites estabelecem com tal disciplina, com aporte da literatura acadêmica sul-africana. Nessa direção, é proposto um diálogo entre dois campos de estudos e pesquisa: Educação Matemática e Antropologia. A partir de uma monografia de final de curso, argumentamos que a ideia de neutralidade na Matemática é uma invenção, que contribui para processos de produção da desigualdade, de modo que não é ingênua a evitação de debates sobre questões sociais no escopo dessa disciplina. Na presente comunicação, apresentaremos inicialmente uma parte do contexto geopolítico da África do Sul, o tempo e as marcas do apartheid na democracia e o lugar do debate sobre gênero e sexualidade nas escolas. Nos apoiaremos em um levantamento bibliográfico realizado no Portal de Periódicos da CAPES e na Scielo, a partir do qual analisamos como a Educação Matemática da África do Sul dialoga com as questões de gênero e sexualidade e também na pesquisa de campo realizada com estudantes jovens LGBT da Universidade de Stellenbosch. A literatura evidencia que gênero, raça, língua, origem e classe aparecem como categorias relevantes para pensar no desempenho des alunes em Matemática. Todas as pesquisas consultadas adotaram uma abordagem quantitativas, de modo que as relações que es discentes estabelecem com a Matemática não foi uma preocupação de tais estudos. Sexualidade não apareceu como uma lente de análise. Algo mais, porém, pode ser dito a esse respeito. Nossa hipótese se assenta no entendimento de que a Matemática naquele contexto tem paralelo com outros achados. Como em Moutinho (2025), nossa hipótese é de que a estrutura do ensino da Matemática fez uma gestão do gênero e sexualidade através da raça na produção da desigualdade social. O relato sobre a experiência de campo na África do Sul será contrastado com esses resultados da literatura.
-
How can we educate our children without spanking them? Economias Morais, Parentalidade e Governança da Intimidade
— Laura Moutinho
— Laura Moutinho
Essa comunicação se inscreve em projeto mais amplo sobre governança racial e gestão da intimidade no sul da África, que vem sendo realizada com apoio FAPESP e CNPq. Em um sentido mais amplo, sigo uma agenda de pesquisa, que é coletiva, que vem explorando de modo crítico a ordem moral humanista, intrínseca à construção e à afirmação de regimes democráticos recentes. A Hendrik Verwoerd, nacionalista africânder (nomeado pela história como o “arquiteto do apartheid”), é atribuído que: “he wanted to implant the concept of apartheid so deeply into society that no future government would be able to undo what had been done”. Os que acreditaram na democracia, implantada em 1994, desafiavam justamente essa ordem moral, apostando na possibilidade de se conviver com as diferenças, de diminuir o fosso da desigualdade social e de se elaborar um sistema jurídico igualitário, no qual todos os cidadãos seriam iguais perante a lei. Em 2024, a África do Sul completou 30 anos da eleição de Nelson Mandela, que marca o fim do apartheid. Essa comunicação interpela esse percurso a partir de uma etnografia do processo eleitoral. A frase em inglês que compõe o título foi dita neste contexto: momento em que a interlocutora justificava porque havia votado no Mandela apenas uma vez. Ela atribui ao seu governo a proibição recorrer a disciplina física na criação dos filhos. Interessa, portanto a esta reflexão, explorar a multivocalidade do que se entende por democracia a partir o ponto de vista dos sujeitos. Mais especificamente, interroga-se, desde a experiência brasileira recente com a extrema-direita, a multiplicidade de sentidos e as formas distintas com que os sujeitos experimentam a ordem democrática. Especialmente, no ponto em que a ampliação de direitos interfere na esfera da intimidade familiar, produzindo economias morais especificas e legitimando ações e atitudes enquanto outras passam a ser criminalizadas ou moralmente desqualificadas.
-
Bênçãos e estigmas: discursos em circulação, tutela e moralizações sobre mulheres em "relacionamentos abençoados" na Ãfrica do Sul
— Thais Henriques Tiriba
— Thais Henriques Tiriba
Nesta apresentação, fruto de minha pesquisa de doutorado, analiso como escolhas afetivo-sexuais de jovens mulheres são percebidas, comentadas e moralizadas na esfera pública sul-africana na última década. Parto de uma leitura do romance sul-africano The Blessed Girl (Angela Makholwa, 2017), em que a personagem Bontle Tau condensa ansiedades sociais sobre “relacionamentos abençoados”, relações entre homens mais velhos e com mais recursos (sugar daddies, também chamados blessers no contexto sul-africano) e pessoas mais jovens, e termina em uma sequência de punições (HIV, deficiência, morte) que funciona como fábula moral. Em seguida, apresento um levantamento de textos de opinião publicados em dois jornais de grande circulação na África do Sul que mobilizam o léxico blesser para enquadrar jovens mulheres ora como vítimas de “homens sinistros”, ora como responsáveis por seu próprio sofrimento por desejarem uma vida de mais conforto material. Argumento que essa fala pública produz efeitos. Ao associar escolhas entendidas como não-normativas a decadência moral e risco, ela reforça a ideia de que certos corpos femininos são mais violáveis, isto é, mais expostos à tutela, à estigmatização e à violência. Dialogando com debates sobre estigma em torno de sexualidades chamadas “transacionais” e com leituras sobre a regulação estatal da intimidade na história sul-africana, busco mostrar como a sexualidade feminina jovem reaparece como alvo privilegiado de vigilância e intervenção. Ao final, sugiro que o enquadramento blesser atualiza uma gramática antiga. A vida íntima de mulheres negras volta a operar como superfície onde se projetam ansiedades coletivas, produzindo julgamentos que podem minar a busca por ajuda e a negociação de proteção.
Coordenação
Alicia Ferreira Gonçalves (UFPB)
Alcides Fernando Gussi (UFC)
Desde 2005, o Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Cultura, Sociedade e Ambiente (Gipcsa) tem se dedicado à reflexão crítica sobre as interfaces entre antropologia e políticas públicas, participando ativamente das reuniões da ABA e da RAM. Nosso foco tem sido o papel da antropologia no desenho, formulação e avaliação de políticas que, muitas vezes, são construídas a partir de bases generalistas, ignorando as alteridades enraizadas nos territórios. A Constituição de 1988, fruto da mobilização dos movimentos sociais, reconheceu direitos ambientais, indígenas e de comunidades tradicionais. Contudo, tais direitos têm sido sistematicamente distorcidos por mediadores não discursivos como o poder e o dinheiro — marcas profundas do capitaloceno. Nesta edição, propomos ampliar o debate incorporando os contextos do capitaloceno, em que a ação humana se configura como força motriz da crise socioambiental. Corporações capitalistas transnacionais têm causado danos irreversíveis ao planeta: aquecimento global, poluição hídrica, desmatamento, queimadas, entre outros. Diante desse cenário, convidamos pesquisadorxs a refletirem sobre o papel da etnografia e das políticas públicas e cosmopolíticas (Strenger, 1997) como formas de enfrentamento às crises contemporâneas. Interessa-nos especialmente abordagens que reconheçam a natureza como ser vivo, os sinais diacríticos dos territórios e as cosmovisões de comunidades indígenas, ribeirinhas, quilombolas, fundos de pasto, entre outras.
Títulos e Resumos
-
Idioma da percepção e bifurcação da natureza: fundamentos epistêmicos do negacionismo da ciência corporativa
— Ana Flávia Moreira Santos
— Ana Flávia Moreira Santos
A etnografia dos processos de licenciamento ambiental que autorizam o avanço da frente de expansão minerária no Médio Espinhaço (MG) sobre comunidades rurais e tradicionais tem revelado estratégias corporativas de manufatura da incerteza e prolongamento da dúvida, através de práticas discursivas cujo efeito mais evidente é a negação do dano (Benson, Kirsch, 2010), com a consequente violação do direito à reparação dos grupos afetados. Tenho tratado o conjunto dessas práticas por meio da expressão "idioma da percepção", sublinhando o uso de estudos ditos de percepção ambiental como o idioma apropriado para a expressão dos chamados "impactos" ao "meio socioeconômico". Em trabalho recente, pude reconstruir, etnograficamente, o vínculo pragmático desse idioma com o oxímoro corporativo (Kirsch, 2010) "impacto suposto" (Santos, Ferreira, Penna, 2017), indicando que há uma ativa administração da insegurança (Scott, 2013) na instrumentalização do léxico, das normativas e da economia de visibilidades do licenciamento (Oliveira, Zhouri, Motta, 2020). Insegurança que ancora os fóruns "participativos" e as negociações assimétricas que, em contextos coercivos e de crescente tutela, são apresentados como "boas práticas" da responsabilidade social corporativa e da "mineração sustentável" (Zucarelli, 2022; Lacerda, 2023). Neste trabalho, pretendo partir desse contexto etnográfico para focalizar a própria categoria percepção, buscando trazer aportes da literatura antropológica e da literatura sobre avaliação de impactos ambientais para analisar as relações entre o uso pragmático desse termo nos atuais licenciamentos e que o Stengers (2002) indica, a partir de Whitehead, como a bifurcação da natureza. A aposta é que o reforço à dicotomia entre dimensões supostas "objetivas" (naturais) e "subjetivas" (psicológicas e culturais) da realidade, constitui a via pela qual a corporação pretende monopolizar o conhecimento verdadeiro (mensurável) e produzir a deslegitimação das experiências do dano - por conseguinte, das reivindicações de direitos, presentes e futuras, das famílias e comunidades afetadas pela mineração.
-
Das coisas que não-acontecem no Estado
— Gê Figueiredo
— Gê Figueiredo
O intuito da exposição é refletir sobre os desafios para fazer o estado se movimentar. Dentro das políticas públicas, resumidamente, o planejamento exige corpo técnico, a avaliação perpassa negociações e longos caminhos em sistemas digitais, a execução demanda aporte de recursos. Além disso, tais movimentos obtêm resultado se houver continuidade no tratamento das demandas, entretanto uma das discussões mais frequentes no ambiente estatal é a garantia de que todas as pessoas são passageiras, consequentemente se fazem necessários registros e movimentos coletivos que certifiquem a concretização das ações.
Tal dificuldade é fundada no tratamento de povos marginalizados. Colocarei em discussão a política pública dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais no Estado do Paraná, cujas demandas tropeçam uma e outra vez no funcionamento burocrático, nos interesses políticos e na escassez de recursos institucionais. Há cerca de dois anos atuo enquanto cientista social em formação, como estagiária na Coordenação de Povos e Comunidades Tradicionais do Paraná. Minha função é fornecer suporte técnico dos conselhos vinculados à pasta: o Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais e o Conselho Estadual dos Povos Indígenas.
No geral, os encaminhamentos dos colegiados se dão por meio de ofícios. Uma demanda central tem sido o mapeamento sociodemográfico participativo de todos os segmentos. Afinal como planejar projetos de longo alcance para sanar demandas básicas quando não se sabe onde estão, quantas são e quais são as condições socio-econômicas da população?
Instaurou-se um ciclo quase que vicioso, em que se demandam projetos mais complexos aos órgãos e nos casos em que há uma devolutiva (re)afirmam a necessidade de dados para que se planeje, autorize e execute o que foi solicitado. Nesse tempo, os conselheiros da sociedade civil se reúnem ordinariamente a cada dois meses, suas idas e vindas os transformam enquanto lideranças cada vez mais dispostas a exigir uma e outra vez que o estado cumpra com o que, supostamente, é seu papel.
As demandas não atendidas são contornadas na medida do possível pelas comunidades por seus próprios meios. Também se acumulam seja de maneira silenciosa, ou de maneira estrondosa. Os acontecimentos que tem por consequência fatalidades, violências ou inconveniências aos interesses de classes dominantes são tratados como crises pontuais pelos órgãos, que instauram medidas paliativas e provisórias até o próximo rompimento. Tratarei das demandas mais frequentes e estruturais passadas pelo conselho enquanto não-acontecimentos, em especial aquelas co-dependentes ao mapeamento, e como as lideranças e comunidades se fazem presentes para reivindicar formas dignas de exercer seus modos de ser e viver.
-
A atuação do INCRA e os entraves na regularização fundiária dos territórios quilombolas no Brasil
— José Adélcio da Silva Júnior, Michelly Ferreira Monteiro Elias
— José Adélcio da Silva Júnior, Michelly Ferreira Monteiro Elias
A regularização fundiária dos territórios quilombolas constitui uma política pública para a efetivação dos direitos territoriais, étnicos e culturais assegurados pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (CRFB/1988). Por isso, diante do expressivo número de processos administrativos abertos no âmbito do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) e da morosidade estrutural que marca as etapas de identificação, reconhecimento e titulação desses territórios, realizou-se este estudo. O problema então busca compreender como o acúmulo de processos abertos e o descompasso entre as fases procedimentais impactam a efetividade da política de regularização quilombola no Brasil. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa de caráter documental e descritivo, baseada na análise dos dados oficiais disponibilizados pelo INCRA, especialmente aqueles relativos aos processos abertos, aos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação, às Portarias de Reconhecimento e aos títulos emitidos. O objetivo é analisar o quadro atual da política de regularização fundiária quilombola.
Os dados revelam a existência de 2.014 processos abertos em todas as Superintendências Regionais do Incra, à exceção de Roraima e Acre (INCRA-DQ,2025), demonstrando elevada demanda social reprimida. Embora haja avanço na elaboração e publicação de RTIDs e Portarias de reconhecimento, observa-se um distanciamento significativo entre essas etapas intermediárias e a titulação definitiva dos territórios. O número de títulos emitidos permanece proporcionalmente reduzido quando comparado à extensão territorial identificada e reconhecida, indicando gargalos administrativos, jurídicos e orçamentários. A titulação coletiva, com cláusulas de inalienabilidade, imprescritibilidade e impenhorabilidade, reafirma a lógica de proteção territorial diferenciada, mas sua efetivação segue condicionada à superação de entraves históricos, como conflitos fundiários, judicialização e insuficiência institucional do Estado.
Conclui-se que a política de regularização de territórios quilombolas apresenta avanços normativos e procedimentais, porém permanece marcada por assimetrias entre reconhecimento formal e garantia material do direito à terra. O elevado número de processos abertos sem conclusão evidencia a necessidade de fortalecimento institucional do INCRA, ampliação de recursos e adoção de estratégias que priorizem a titulação como instrumento de justiça social e reparação histórica. A efetividade dessa política é condição indispensável para a promoção da dignidade, da autonomia e da permanência das comunidades quilombolas em seus territórios tradicionais.
-
Notícia urgente, política ausente: quem chora pelas vidas indígenas LGBTQIA+?
— José Marcos Nascimento Pontes
— José Marcos Nascimento Pontes
As recorrentes notícias sobre assassinatos e violências contra indígenas LGBTQIA+ no Brasil atual evidenciam um cenário de vulnerabilidade extrema, marcado pelo cruzamento entre racismo, colonialismo e disputas territoriais. Apesar da visibilidade episódica dessas mortes nos meios de comunicação, tais violências raramente se convertem em ações efetivas do Estado, revelando um abismo entre a urgência das vidas perdidas e a ausência de políticas públicas específicas. Este trabalho propõe analisar criticamente esse descompasso, interrogando quem chora, quem conta e quem é responsabilizado pelas mortes de indígenas LGBTQIA+ no país. O objetivo é mapear a violência letal contra indígenas LGBTQIA+ no Brasil, problematizando os efeitos da ausência estatal na produção de mortes evitáveis em territórios indígenas. O debate dialoga com o campo das políticas públicas voltadas às populações indígenas e à população LGBTQIA+, destacando avanços normativos e institucionais observados sobretudo nas áreas de saúde e direitos humanos. No entanto, argumenta-se que tais avanços permanecem limitados quando não consideram as especificidades territoriais, culturais e cosmopolíticas dos povos indígenas, produzindo lacunas que aprofundam processos de invisibilização e violência. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa baseia-se na análise de dados secundários, a partir do levantamento e sistematização de estatísticas sobre mortes de indígenas, coletadas em relatórios de organizações da sociedade civil, notícias jornalísticas e bases públicas disponíveis. Portanto, defende-se a urgência de políticas públicas territorializadas, construídas a partir do diálogo com as cosmologias indígenas e com as experiências de resistência dos próprios sujeitos indígenas LGBTQIAPN+, reconhecendo que o direito à vida, ao território e à diferença são indissociáveis.
-
Cosmopolíticas contracoloniais na Caatinga: entre esquecimentos e retomadas da memória indígena no Cariri e Sertão Paraibano
— Luan Gomes dos Santos de Oliveira
— Luan Gomes dos Santos de Oliveira
Esta pesquisa tem como objetivo compreender e reconstituir ciências indígenas a partir da perspectiva de uma educação multiespécie, entendida como uma resposta epistemológica, pedagógica e ética aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. O estudo retoma histórias, memórias e cosmologias dos povos indígenas do Cariri e do Sertão paraibano, situando-as em relação com o bioma Caatinga e com o semiárido nordestino. Parte-se do reconhecimento de que o Brasil e a América Latina foram historicamente constituídos sobre processos de colonização que produziram epistemicídios, isto é, a negação e o apagamento sistemático dos saberes, modos de vida e sistemas de conhecimento dos povos originários. Como estratégia metodológica, a pesquisa mobiliza narrativas etnobiográficas e a arte ancestral de narrar histórias, compreendidas como práticas de produção de conhecimento e de educação da atenção. Tal escolha se justifica diante do avanço de tecnologias de informação e comunicação que, no contexto neoliberal, tendem a fragilizar os vínculos comunitários, a escuta sensível e a transmissão intergeracional de saberes. O estudo articula uma reflexão teórica sobre educação multiespécie, saberes da tradição e saberes científicos, Caatinga e Antropoceno, dialogando com a noção de história a contrapelo, de Walter Benjamin, e com o pensamento de intelectuais indígenas contemporâneos. Ao lançar luz sobre as narrativas e cosmologias indígenas da Caatinga, a pesquisa busca contribuir para a refundação da educação escolar indígena e para a transformação das formas de ensinar e narrar a história brasileira, historicamente marcada pela deslegitimação das vozes e experiências dos povos subalternizados pelo processo colonial.
-
O Balanço Ético Global 2025 e o descompasso entre evidências e compromissos na governança ambiental
— Luana Marques Figueira
— Luana Marques Figueira
O encerramento do primeiro quarto do século XXI explicita a gravidade das crises que definem a contemporaneidade. O agravamento da emergência climática, manifestado em eventos extremos, articula-se a uma escalada de conflitos globais e a crises humanitárias profundas. Nesse contexto, a Agenda 2030 da ONU se afirma como principal instrumento de governança global para a superação da pobreza, proteção ambiental e cultivo da paz, operando sob o lema “não deixar ninguém para trás”, guiado por 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – ODS, que se desdobram em 169 metas. No entanto, o hiato entre o discurso e a prática é alarmante: relatórios oficiais indicam que apenas 37% das metas globais e 17% das metas brasileiras avançam em ritmo adequado.
Sustenta-se que o principal limite para o cumprimento destas metas reside na própria genealogia epistemológica da Agenda, ancorada em um paradigma capitalista e produtivista. Tal contradição expressa-se de forma evidente na meta 2.3, que impõe a produtividade e a inserção mercantil como horizontes universais, inclusive para Povos e Comunidades Tradicionais (PCT). Embora esses grupos sejam reconhecidos como os principais guardiões dos biomas, suas formas de vida e resistências ontológicas são sistematicamente desconsideradas em prol do pragmatismo econômico. A Agenda, portanto, falha ao tentar integrar os PCT em uma lógica de mercado que é, na sua essência, a causa da desestruturação de seus territórios e da crise ambiental.
Esta circunstância é iluminada pelo surgimento do Balanço Ético Global (BEG), iniciativa da ministra Marina Silva para a COP 30 que questiona: “se já sabemos o que deve ser feito para enfrentar a crise climática, por que não o cumprimos?”. O BEG, incorporado como um dos 6 círculos temáticos da COP 30, expõe, a partir de uma simples pergunta, o caráter paradoxal do conceito de “desenvolvimento sustentável” sob a lógica da acumulação ilimitada, intentando acionar certo constrangimento moral aos detentores do poder.
A análise aqui empreendida fundamenta-se em dados etnográficos e documentais coletados principalmente durante o ano de 2025, como os relatórios do Balanço Ético Global da Comissão Nacional para os Objetivos do Desenvolvimentos Sustantável - BEG/CNODS, dos balanços em âmbito continental e do círculo temático do BEG da COP 30. Também inclui documentos formulados coletivamente, como a Carta do Cerrado, produzida no contexto do Seminário Agenda 2030 e os Povos do Cerrado, e a Carta Brasileira do Patrimônio Cultural e Mudanças Climáticas do IPHAN, entre outros, bem como percepções advindas da observação participante em eventos e solenidades públicas e privadas, reunindo um conjunto de respostas convergentes ao questionamento ético proposto pelo BEG.
-
Cactos como companheiros etnográficos: especulações sobre as relações multiespécies na Caatinga
— Maria Luiza Teixeira Salgado
— Maria Luiza Teixeira Salgado
Esse trabalho propõe um deslocamento ontológico, ancorado nos Estudos Multiespécie, para pensar a Caatinga não como um ambiente de carência, improdutividade e ausência — percepção amplamente reforçada ao longo do século XX —, mas como uma paisagem profundamente relacional. Defende-se que a Caatinga é constituída por uma densa rede de relações multiespécies que se reorganizam nos períodos de seca e da chuva, desafiando modelos lineares de abundância e escassez.
Partindo da proposta de descentralização do humano nas pesquisas antropológicas, a investigação realiza uma etnografia na companhia de seres emblemáticos da Caatinga: os cactos. Ao tomá-los como sujeitos etnográficos, busca-se ir além de análises centradas na representação ou materialidade, observando-os como indivíduos que atuam e moldam ativamente na paisagem.
O recorte empírico começa com o cacto cabeça-de-frade do Periperi, espécie endêmica da Serra do Periperi, em Vitória da Conquista (BA). A escolha por esse cacto é atravessada por uma experiência biográfica: no ano de 2007, aos 8 anos de idade, eu e minha turma da escola participamos de uma excursão que nos levou à Serra do Periperi, local onde se encontra uma reserva ecológica cujo objetivo inicial era preservar uma única espécie de cacto: o melocactos conoideus. Me lembro de alguém falar, talvez a professora ou os educadores/pesquisadores que nos acompanhavam, uma informação que ficaria para sempre gravada na minha memória: aquele cacto só existia ali, era quase impossível reproduzi-lo em outro lugar.
Ao meu ver, colocar o cacto como objeto de pesquisa permite evidenciar como múltiplas relações sociais se entrelaçam em um mesmo espaço, revelando que as paisagens não são estáticas, mas moldadas por uma complexa rede de interações – humanas e não humanas, diretas e indiretas. Isso evidencia a interdependência que sustenta o mundo e desafia visões fragmentadas da realidade. Ao mesmo tempo, o cacto se torna uma ferramenta crítica contra modos de vida individualistas, violentos e utilitaristas, fundados na colonização das Américas e constantemente atualizados por empreendimentos capitalistas que perpetuam violências, apagamentos étnico-raciais, hierarquizações do conhecimento, degradação ambiental e a exploração de corpos humanos e não-humanos.
Agora, na pesquisa de doutorado, proponho etnografar a Caatinga através das relações multiespécies estabelecidas pelos cactos cabeça-de-frade, buscando compreender como essas essas plantas atuam como mediadoras socioecológicas na constituição de vida no semiárido brasileiro, buscando a produção de uma narrativa alternativa da Caatinga à luz da Antropologia Multiespécie.
-
Cartografias para Adiar o Fim do Mundo: Os Desafios para Política Nacional de Gestão Ambiental em Terras Indígenas Potiguara
— Matheus Ramos Araújo de Sousa, Alicia Ferreira Gonçalves
— Matheus Ramos Araújo de Sousa, Alicia Ferreira Gonçalves
As Cartografias Sociais em Terras Indígenas é uma forte ferramenta para realizar os diagnósticos socioambientais, e a partir da cosmovisão auxiliar nas implementações das políticas públicas dentro dos territórios. A muito tempo, tanto as cartografias como as políticas públicas agiam de formas coloniais para populações, sempre organizada de forma verticalizada e determinantes, nunca estavam abertas a compreender como os que seriam beneficiários dessas políticas poderia auxiliar na sua concretização, Nego Bispo (2022) realiza uma crítica contundente ao Política de habitação Nacional Minha Casa Minha Vida por chegar dentro dos quilombos e não compreender os modos de vidas dos quilombos, e retirar o quintal, o principal lugar de sociabilidade, pois não levavam em consideração o modo de habitar desta populações. Dessa forma, Ailton Krenak (2021) afirma que é necessário reaprender com os mais velhos formas de habitar o mundo em uma forma de adiar o fim do mundo, que já foi decretado pelo capitaloceno. Com isso, realizamos como diz Alícia Gonçalves (2021) uma decolonização das cartografias sociais e das políticas públicas, porque partimos da horizontalidade, dos conhecimentos ancestrais, tornando os moradores agentes criadores das suas próprias políticas públicas. Utilizaremos como análise reflexiva a Política Nacional de Gestão Ambiental em Terras Indígenas (PNGATI), tendo como ferramenta de construção o Plano de Gestão Territorial e Ambiental (PGTA) que possibilita que os moradores identifique os problemas e como propor as soluções, isto faz com que os moradores sejam agentes ativos, e uma forma de diagnosticar esses problemas é partir dos desenhos cartográficos. Os mapas sociais torna-se chave importante para estes diagnóstico, primeiro por reafirmar cosmopolíticamente o conhecimento que as populações indígenas têm sobre seus territórios, segundo possibilita o mapeamento participativo da/com comunidade, sendo instrumento jurídico para assegurar direitos sociais. Cada desenho, cada traço em cima da cartolina branca, e os processos de colorir, possuem significados atribuídos pela comunidade, portanto realizamos uma cartografia com elementos etnográficos (Gonçalves, 2020). Por fim, a pesquisa é desenvolvida dentro do Território Indígena Potiguara que fica localizado no litoral norte da Paraíba, a 69 km de João Pessoa -PB, sendo divididos em três Terras Indígenas (TI): TI Jacaré de São Domingos, TI Monte-mor e TI Potiguara, todos atualmente demarcados, onde realizaremos a partir do mapas sociais construídos pela comunidade as comparações dos diagnósticos apresentados nos desenhos, que mostra-nos que apesar das particularidades de cada aldeia, o problema sempre é o mesmo, a expansão da monocultura de cana de açúcar.
-
Construir em comum, contrariar o fracasso: com mulheres Sem-Terra do Ceará
— Paula Godinho
— Paula Godinho
Em tempos de capitaloceno, indago os formatos de construção em comum, a partir de sonhos humildes (Contreras, 2021). Com remissão para um trabalho de campo que envolveu a recolha de histórias de vida de mulheres do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) do Ceará, realizado em 2017 e 2023 (Godinho, 2020; Godinho, 2021; Godinho, 2025), o meu argumento assenta no entendimento de que o momento oportuno, kairos, é raro, mas desempenha um papel essencial nas vidas das subalternas de todas as cores, géneros e identificações, no caminho para uma vida melhor, e que a terra é fulcral na imaginação e na edificação de modos de vida. Esse momento oportuno pressupõe um "comum" prévio, que se aprofunda com a dimensão do acontecimento, e que contraria o isolamento. Remetidas para uma subalternização múltipla, de classe, de género, de etnicidade, de cidadania, as mulheres entrevistadas trazem consigo uma linhagem que envolve as que usam línguas minoritárias, as que foram vistas como sacrílegas e ladras, que aproveitam a ocasião que surge e que confere viabilidade ao que parecia fora do campo das probabilidades, para acederem ao que lhes permita uma existência melhor, contrariando a prática do agro-negócio. A perceção de uma vida boa passa pelo acesso à terra. Nos trabalhos comunais, e na ação coletiva, à conquista de melhores condições de vida, deteta-se energia criativa e esperança, imprescindíveis para transformar em realizável o que é aparentemente inexequível. Cortar uma cerca, passar uma fronteira, ocupar uma terra, é conquistar a liberdade de entrar e sair de mundos que deixam de ser alheios, e são apropriados. No processo de reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST) enquadrou as populações rurais mais pobres e excluídas, política e economicamente, racializadas e de mulheres, que reivindicaram o direito a mobilizar-se e a organizar-se, pela terra e por um novo modo de vida, em defesa da reforma agrária, contra o Estado e o latifúndio. Frequentemente, tiveram de passar pelo inferno de acampamentos insalubres, em que os militantes viveram anos sob plástico preto, antes de lograrem terra para cultivar e uma casa. É um processo com sofrimento e com mortos, porque a autoridade do Estado e dos proprietários pode sobrepor-se. Interrogo a antropologia implicada, que se esforça por entender a necessidade de quem age, o lugar do porvir e a aceleração da história, entre experiência, expectativa e ação, equacionando as Grandes Razões e as razões pequenas (Godinho, 2020) rumo à mais radical das práticas possíveis, a ação coletiva (Godinho, 2017), porque o impossível demora mais (Godinho, 2025), mas é necessário (Godinho, Gonçalves e Vicente, 2020).
-
O mito da localidade do "frango britânico": sobre cadeias transnacionais e local-washing
— Raisa Ramos de Pina
— Raisa Ramos de Pina
Este trabalho apresenta resultados de uma antropologia das globalizações realizada a partir de etnografia no Reino Unido sobre a internacionalização de uma corporação frigorífica de origem brasileira. O trabalho compõe um dos capítulos da tese de doutorado a ser defendida no primeiro semestre de 2026. O objetivo inicial da pesquisa era entender como uma corporação que acumula crimes e violações no Brasil conseguiu entrar em um mercado protecionista como é o Reino Unido. Ao longo da investigação, os dados etnográficos trouzeram revelações interessantes para campos variados da antropologia, permitindo refletir sobre capitalismo, alimentação, Estado, elites, trabalho e relações entre humanos e animais. Para este artigo especificamente, o foco é detalhar a estratégia capitalista que criou o mito do "frango britânico". Na Inglaterra, o frango é patriota, vendido com a bandeira do Reino Unido e com o adjetivo “britânico” para diferenciação. O objetivo é valorizar o produto, como se “britânico” fosse melhor, mais confiável, mais sustentável. Entretanto, por trás do “frango britânico” existe uma corporação de origem brasileira. Há aqui dois fenômenos do século XXI, um em nível local, outro em nível transnacional. O primeiro é a mania da localidade no Reino Unido pós-Brexit; o segundo é a capitalização da localidade por corporações transnacionais. Essa instrumentalização para lucro disfarça as reais origens do produto, como se uma produção imersa em cadeias globais pudesse ser resumida e fixada a uma localidade única. Ao longo do trabalho, trago dados etnográficos que permitem questionar a localidade do "frango britânico", debatendo imperialismo, migrações, genética aviária e fornecimento da cadeia de suprimentos para responder: o que de fato é britânico no "frango britânico"? As conclusões apontam para uma estratégia corporativa de criação de mitos sobre si mesma e estabelecimento de uma manobra de local-washing para favorecer o consumo local e garantir a acumulação de elites transnacionais.
-
Antropologia das Mudanças Climáticas: Racismo Ambiental na Cidade do Natal - RN
— Wilen Ivinen Lopes Ferreira
— Wilen Ivinen Lopes Ferreira
A partir da perspectiva da Antropologia das Mudanças Climáticas, propõe analisar as relações entre mudanças climáticas, desigualdades socioambientais e racismo estrutural no município de Natal (RN). A crise climática se constitui como um processo socialmente produzido, historicamente situado e atravessado por relações de poder que estruturam de forma desigual os territórios urbanos. Partindo da ideia que estamos no antropoceno e ao dialogar com autores como Acselrad, Ortner, De La Cadena, Fanon e Haraway, evidencia-se que os impactos climáticos não são distribuídos de maneira homogênea, incidindo de forma mais intensa sobre populações negras e periféricas. A análise empírica dos impactos dos eventos climáticos em bairros como o loteamento José Sarney e Mãe Luiza, articulada a dados do IBGE, reportagens jornalísticas e produções acadêmicas locais, demonstra como a segregação socioespacial, a negligência estatal e a ausência de políticas públicas eficazes configuram o racismo ambiental em Natal. A descrição das estratégias dos moradores para evitar maiores danos, da solidariedade, das percepções dos desastres e da responsabilização das catástrofes mostra que não há uma conscientização do efeitos das mudanças climáticas na vida das pessoas e que os agentes públicos devem tratar o problema de forma sistêmica, implementando políticas urbanas e sociais.
Coordenação
André Dumans Guedes (UFF)
Ana Carneiro Cerqueira (UFESBA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Yara de Cássia Alves (UEMG)
Sessão 2
Pessoa debatedora
André Dumans Guedes (UFF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Laenia Silva (UFRJ)
Buscamos neste GT investigar os poderes e agências das casas, cozinhas e quintais situados em coletivos quilombolas, sertanejos, pescadores, camponeses, indígenas - em suma, entre diferentes povos da terra, da floresta e das águas. A partir da singularidade dos arranjos, modos e sistemas que os ativam como dispositivos ou técnicas, queremos pensar como tais entidades se articulam a territórios, e o que fazem: criando (filhos, bichos e plantas, misturas e mexidas, alianças e desafetos, corpos, novas possibilidades de vida); transformando (o cru e o cozido, substâncias, ingredientes e receitas, estórias e histórias, prosa e comida); ou reunindo (vizinhos na prosa cotidiana, conhecidos em torno do café, quem está junto na política ou numa mesma luta, os filhos quando de sua volta à terra natal). Interessa-nos examinar como tais poderes e agências atuam no “mundo”, e em relação às forças a ele associadas. Ao tomarmos “mundo” enquanto categoria nativa, queremos considerar como esses quintais, cozinhas e casas se constituem e operam sob uma perspectiva cosmopolítica, em relação com perigos, alteridades e potências de ordens diversas - por exemplo, aqueles relacionados à vizinhança de monoculturas, plantations, cativeiros e empreendimentos que encurralam povos e territórios; ou os que se vinculam às vicissitudes das famílias que têm seus membros esparramados mundo afora, ganhando a vida “no trecho” ou se aventurando em terras distantes e cidades grandes.
Títulos e Resumos
-
Território na mesa: identidade, cozinha e resistência no quilombo de São Lourenço - PE.
— Daniel Lucas Carneiro dos Santos, Sérgio Henrique Ferreira da Silva
— Daniel Lucas Carneiro dos Santos, Sérgio Henrique Ferreira da Silva
Este trabalho propõe investigar as intersecções entre alimentação, memória e luta territorial na comunidade quilombola de São Lourenço, em Goiana, Pernambuco. A partir de observação participante e de imersão no território, o estudo acompanha a cadeia que vai da mariscagem à cozinha, com ênfase no protagonismo feminino nas práticas de coleta, preparo e circulação dos alimentos. Partindo de um encontro inicial provocado pela visita do IPHAN relacionada à Portaria nº 135/2023, a pesquisa desloca o foco para as experiências sensoriais e as práticas cotidianas que revelam como saberes ancestrais se corporificam e se reinventam no presente.
A análise concentra-se em preparos emblemáticos da comunidade, como a moqueca de folha e a passa de caju, para mostrar como o alimento funciona como arquivo vivo de identidades e como técnica, cuidado e economia se articulam em estratégias concretas de resistência ao racismo ambiental e às pressões neocoloniais. Sustentado por referenciais sobre feminismo negro, memória e política cultural, o trabalho pretende demonstrar que a cozinha quilombola é simultaneamente território relacional, tecnologia de reprodução social e dispositivo político. Espera-se com isso contribuir para debates sobre patrimônio alimentar, justiça ambiental e políticas públicas que reconheçam e apoiem os regimes alimentares tradicionais como formas de preservação e afirmação identitária.
-
Uma UHE no quintal de casa: os equívocos do desenvolvimento e seus efeitos para os Juruna (Yudjá) da Volta Grande do Xingu, Altamira-PA
— Edimilson Rodrigues de Souza
— Edimilson Rodrigues de Souza
Os Juruna (Yudjá), povo Tupi, caçadores e canoeiros, habitantes da Volta Grande do Xingu, Altamira, Pará, vêm sofrendo toda a sorte de especulação dos seus conjuntos territoriais e aquáticos, no contexto do Médio-Xingu, principalmente desde a construção e início das operações da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, em 2016, administrada pela concessionária Norte Energia, que provocou alterações perversas nos modos de vida e experiência coletiva destes indígenas, além de outras etnias, ribeirinhos e beradeiros, co-habitantes do rio, impactando fluxos de relações entre humanos e outros-que-humanos, nas terras e ilhas que conjugam o território-água tradicionalmente ocupado pelos Juruna na Volta Grande e seus vizinhos indígenas, não-indígenas, com destaque para alterações e interrupções no calendário ecológico da piracema.
A proposta desta comunicação, ao apresentar resultados parciais de uma pesquisa em curso, é analisar alguns dos efeitos tardios da implantação de grandes projetos de especulação capitalista num contexto da Amazônia, a partir da experiência coletiva de artistas e ativistas Juruna (Yudjá) e seus enfrentamentos narrativos e políticos com gestores e técnicos da UHE de Belo Monte, em diálogo extensivo com peixes, tracajás, florestas de igapó e seres intangíveis, articulando técnicas indígenas de observação e monitoramento dos níveis de cheia e vazante da água, como veículo de denúncia pública contra os dados apresentados pela própria Norte Energia sobre a variações hidrográficas e geológicas da vida naquelas aldeias.
-
As cozinhas de dentro do Atalho: notas sobre uma socialidade Quilombola.
— Felipe de Melo Gomes Feitosa
— Felipe de Melo Gomes Feitosa
O divisor dentro e fora atravessa toda a socialidade da Comunidade Quilombola do Atalho Monte Carmelo/MG, desde a concepção dos parentes até as relações com as forças do Estado e dos empreendimentos capitalistas passando pela construção das casas e a formatação das roças. Este divisor atua como um operador que ora obvia, ora eclipsa as proximidades e distanciamentos entre aqueles que estão postos na relação, em um esquema de figura fundo. A cozinha é o principal lócus de formação dessa socialidade, nela se concentram as tarefas femininas, que se estendem aos mundos do trabalho e da cosmopolítica. O registro etnográfico que realizei junto aos membros da comunidade, entre os meses de janeiro, março, agosto, setembro e outubro de 2023, também foi atravessado pelas modulações conceituais de meus interlocutores. Isso levou, inclusive, a uma recolocação das relações de gênero na contra-Antropologia que meus eles produziram sobre mim. Sendo o trabalho doméstico e o ambiente da cozinha, quase exclusividades das mulheres da comunidade, a entrada de um pesquisador que adotou a cozinha (e suas tarefas) como o centro de seu trabalho, demandou das pessoas da comunidade uma série de esforços para enquadrar-me dentro de seus quadros conceituais. Ao final do texto, pretendo apresentar um esboço das formas de socialidade do Atalho e a forma como o confronto entre aquilo que está dentro e o que está fora são organizados pelo quadro conceitual daquelas pessoas.
-
Onde mangues são quintais: espaços de cura na pesca artesanal em contextos de catástrofes socioambientais no sul da Bahia
— Jaiana de Sousa Meneses
— Jaiana de Sousa Meneses
A comunidade pesqueira da Biela, localizada na foz do rio Jequitinhonha, no município de Belmonte (BA), constitui-se a partir de relações profundas entre rio, mangue e mar, compreendidos simultaneamente como espaços de trabalho, convivência, cuidado e cura. Nessas paisagens, mangues e estuários operam como verdadeiros quintais: locais de cultivo de plantas medicinais, preparo de alimentos, transmissão de saberes e produção cotidiana da saúde. Este trabalho analisa como casas, cozinhas e quintais se configuram como espaços ativos de cuidado e cura na pesca artesanal, a partir das práticas e experiências de mulheres pescadoras e marisqueiras, centrais à reprodução material e simbólica da vida comunitária.
Ancorada na antropologia da saúde, do corpo e do ambiente, a pesquisa dialoga com a perspectiva cosmopolítica stengeriana (STENGERS, 2015) para compreender como processos de adoecimento, cuidado e cura se produzem em contextos marcados pela sobreposição de crises ambientais e sanitárias. A construção da barragem e usina hidrelétrica e seus impactos ambientais no rio Jequitinhonha, o derramamento de petróleo de 2019 - considerado a maior tragédia ambiental do litoral brasileiro - e os impactos da pandemia de Covid-19 não são tratados como eventos excepcionais, mas como catástrofes que se acumulam e se incorporam ao cotidiano, reorganizando práticas de cuidado e modos de existência. Esses processos afetam de forma desigual corpos e territórios historicamente marginalizados, incidindo com maior intensidade sobre mulheres negras pescadoras e marisqueiras, frequentemente invisibilizadas pelas políticas públicas de saúde.
O trabalho não busca traduzir práticas tradicionais de cura para categorias biomédicas universalizantes, mas acompanhar os modos pelos quais humanos e não humanos são convocados a compor mundos de saúde e cuidado. A saúde das mulheres, nesse contexto, não pode ser pensada dissociada da saúde dos ecossistemas: o adoecimento dos rios, dos mangues e das águas se reflete no adoecimento dos corpos.
A pesquisa adota abordagem etnográfica, observação das práticas cotidianas de cuidado e entrevistas com pescadoras e marisqueiras da comunidade. Em diálogo com Veena Das (2023), os itinerários terapêuticos são compreendidos como práticas de negociação com o mundo, atravessadas por afetos, julgamentos morais, alianças e rupturas. Ao examinar como essas mulheres constroem sentidos e práticas de cuidado que dialogam, resistem ou complementam os dispositivos oficiais de saúde, o trabalho visa contribuir para o debate antropológico do cuidado e da cura frente às ameaças que incidem sobre povos e territórios tradicionais.
STENGERS, Isabelle.No tempo das catástrofes.São Paulo:Cosac Naify, 2015.
DAS, Veena.Aflição.São Paulo:Unifesp, 2023.
-
Pensar com as casas Xakriabá: construções como dispositivos de retomada
— Lucas Carvalho de Jesus
— Lucas Carvalho de Jesus
Este artigo investiga as casas entre os Xakriabá como objetos dotados de agência, capazes de criar, reunir e transformar pessoas, saberes, práticas e territórios. Desde a minha formação em Arquitetura e Urbanismo, venho me interessando por aquilo que escapa à materialidade final das arquiteturas: gestos, tempos, encontros e trocas de saberes que excedem os objetos arquitetônicos finalizados. No contato continuado com o povo indígena Xakriabá, esse deslocamento inicial, do objeto para os processos, revelou também os seus limites. Embora a pesquisa buscasse evidenciar o que excede o objeto arquitetônico, os próprios interlocutores reiteravam a importância das construções enquanto referência material, simbólica e política de seus modos de vida. Em um território marcado por intensas transformações recentes (expansão de infraestruturas, equipamentos públicos e tipologias construtivas, entre outras), as casas tradicionais de barro coexistem e se articulam com casas de alvenaria e com a proliferação de casas comunitárias: casas de farinha, de medicina, de cultura, de cerâmica, entre outras. Como apontam Santos (2010), Escobar (2012) e Vaz (2024), a categoria casa ocupa lugar central nos projetos de vida Xakriabá, sendo constantemente acionada em práticas, discursos e políticas culturais. Partindo desse contexto, o artigo propõe compreender as casas Xakriabá como dispositivos de retomada, isto é, como objetos-processos que condensam trajetórias, aprendizagens, relações sociais e reinvenções cotidianas em seus vastos agenciamentos e que estão diretamente ligadas aos projetos de vida e luta Xakriabá. A hipótese central é que o objeto construído não apenas resulta de um processo, mas também o sustenta e o prolonga, ativando modos de fazer, transmitir conhecimentos e produzir coletividade. Ao pensar com as casas, o trabalho busca contribuir para o campo da Arquitetura e Urbanismo, evidenciando que práticas compartilhadas de arquitetura não devem ser dissociadas dos modos de vida e das formas próprias de produção de conhecimento das comunidades envolvidas.
-
Onde a vida se cozinha: cozinhas que reúnem e quintais que criam, uma etnografia da interface de gênero na produção social no Quilombo Vão da Horta
— Luisa de Negreiros Pinto Gomes
— Luisa de Negreiros Pinto Gomes
Esta pesquisa analisa as relações produzidas a partir e por meio da cozinha na comunidade quilombola Vão da Horta (Cavalcante, GO), com ênfase nas interfaces de gênero. Investiga se como as mulheres sustentam e organizam as relações sociais cotidianas na cozinha e no quintal, quais práticas e significados mobilizam nessa produção relacional e de que modo essas relações se projetam sobre o sistema social mais amplo da comunidade. Busca-se compreender a organização física e simbólica dos espaços domésticos (cozinha, casa, quintal) e sua articulação com redes de parentesco, vizinhança, economia local e práticas políticas. A partir de uma abordagem etnográfica e interseccional, o estudo problematiza como esses espaços atuam como dispositivos de criação (vidas, alimentos, saberes), transformação (técnicas culinárias, memórias, narrativas) e reunião (coletivos, trocas, mobilizações), bem como suas relações com ameaças e potências externas - por exemplo, monoculturas, empreendimentos territoriais e migrações. Ao adotar uma perspectiva cosmopolítica, a pesquisa visa revelar as agências domésticas na reprodução social e nas estratégias de resistência e continuidade cultural. A metodologia é baseada na etnografia participante (observação na cozinha/quintal, entrevistas semiestruturadas com mulheres e outros membros), registro de rotinas, mapeamento espacial dos usos domésticos, análise de práticas materiais (utensílios, receitas, cultivo) e fontes históricas/documentais sobre comunidades quilombola.
-
Agenciamentos de cura em território de afetos: socialidades e composição de mundos por meio do manuseio de plantas por parte de uma benzedeira da comunidade quilombola Nicanor da Luz (RS)
— Rosane Aparecida Rubert
— Rosane Aparecida Rubert
O trabalho se propõe apresentar as relações entretecidas pela benzedeira e líder religiosa Santa Rosália Ulguim da Silva (Tia Santinha) com as plantas do quintal e redondezas de sua casa, localizada na comunidade quilombola Nicanor da Luz, município de Piratini (RS). Reconhecida pelas suas habilidades de cura não apenas na localidade em que reside, mas em vários municípios adjacentes, o que é reforçado pelo seu papel de cacica em um Centro de Umbanda, Tia Santa é portadora de um inesgotável repertório de conhecimentos sobre plantas e seus usos curativos e rituais. Este repertório é verbalizado, especialmente, durante caminhadas por estes espaços ou então, nas práticas de benzimento, quando a recomendação de uso desta ou aquela planta na forma de chás ou banhos se apresenta como pertinente. Enquanto integrante de uma comunidade quilombola que se constituiu no bojo de um processo migratório do meio rural para uma vila urbanizada, o encontro com essas plantas aciona memórias ancestrais e afetivas inscritas em um tempo espiralar (Martins, 2022), em que um legado pretérito, de experiências vividas no âmbito de uma densa rede familiar e religiosa, é transcriado no presente. Atualiza-se, desta forma, relações não apenas com outros humanos (alguns que já partiram para outro plano, assim como outros que neste persistem) que transmitiram conhecimentos fundamentais para a continuidade da vida, mas também com entes mais-que-humanos, uma vez que uma ou outra recomendação de uso de plantas é (ou foi outrora) revelada por deidades que compõe a cosmologia umbandista. A circulação do corpo de Tia Santa pelos espaços e caminhos do seu quintal e da vizinhança, assim como os gestos performados sobre os corpos das pessoas que a procuram para a cura, conecta entes situados em distintos níveis ontológicos, compondo territórios de afetos e refúgios (Bona, 2020) pautados em princípios de socialidade que confrontam os da sociedade capitalista-colonialista hegemônica.
-
Casa, terreiro de umbanda, sede do congado, quilombo: A comunidade dos Jerônimos (Passos-MG) e suas domesticidades
— Yara de Cássia Alves
— Yara de Cássia Alves
Esta apresentação é uma tentativa de ensaiar como diferentes domesticidades são vividas na comunidade quilombola dos Jerônimos, situada em Passos- MG. A comunidade teve sua certificação de autodefinição concluída recentemente pela Fundação Cultural Palmares, no dia 16 de maio de 2025 e vem se afirmando como primeira comunidade quilombola certificada no sudoeste de Minas Gerais. Atualmente, o território dos Jerônimos é reduzido a duas casas e dois quintais, nos quais residem cinco famílias nucleares. Há cerca de 40 anos, os Jerônimos tiveram parte de suas terras cercadas por pessoas que relataram ser donas do terreno, o que os encurralou em um espaço insuficiente para as práticas cotidianas e acabou por expulsar os filhos que casaram e constituíram suas famílias em outros espaços do município e da região. Descendentes de Jerônimo dos Santos, o grupo é identificado por serem os herdeiros espirituais deste ancestral, que nasceu em 24 de junho de 1925. O prestígio do Sr. Jerônimo faz com que a família seja conhecida por diferentes pessoas do município e mesmo após dezoito anos de sua morte, ele recebe homenagens com recorrência, como a confecção de um dos bonecos do principal bloco do carnaval de rua passense. Alguns de seus descendentes são entendidos como herdeiros de suas práticas de benzeção e no território da comunidade há dois terreiros de umbanda, geridos pelo filho e pela neta do Sr. Jerônimo. São considerados pela sociedade como uma família que preza pelas tradições religiosas do congado junto à Irmandade do Menino Jesus, terno de congo que existe há quase 60 anos e era dirigido pelo Sr. Jerônimo até sua morte, em 2007 e que tem como sede a casa principal do quilombo, onde o seu fundador residia. Junto aos Jerônimos, convivem não apenas amigos e os que se envolvem nas atividades religiosas praticadas no quilombo, mas também entidades, orixás e espíritos que pertencem ao território e o frequentam corriqueiramente, como membros da família. Dessa maneira, me interessa explorar essas domesticidades, produzidas por diferentes atores que convivem nos espaços dessas casas, principalmente na casa que o Sr. Jerônimo residiu e onde a maioria das atividades coletivas acontecem.
Coordenação
Priscila Tavares (UVA)
Urpi Montoya Uriarte (UFBA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Rolf Malungo de Souza (UFF)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Shirley Alves Torquato (UEMG)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Michelle Lima Domingues (UFF)
Este GT tem como propósito reunir pesquisas que investiguem as múltiplas escalas de habitar o espaço urbano: desde o nível mais geral da cidade, até o menor, da casa, passando pela escala intermediária do bairro. Trata-se de refletir sobre estas escalas e o movimento ou passagem contínua entre elas e sobre os fatores que tornam possível o habitar em cada uma delas. Priorizar-se-ão os trabalhos etnográficos que apresentem a perspectiva dos habitantes – sejam eles movimentos, coletivos, famílias ou indivíduos –, deixando evidentes os meios e estratégias e/ou táticas que estes desenvolvem no processo de habitar. Ao propormos escalas variadas, tencionamos alimentar a discussão sobre os fragmentos e passagens que permitem, impedem ou limitam a construção de imagens do conjunto da cidade.
Títulos e Resumos
-
Entre aterros e margens: percepções e modos de habitar no rio Poxim, Aracaju (SE)
— Ana Caroline da Paz Santos
— Ana Caroline da Paz Santos
Aracaju, capital de Sergipe, é uma cidade que surgiu sob o signo da modernidade. A escolha da cidade como sede do estado se deu por motivações naturais e econômicas; no entanto, seu projeto urbano se contrapôs às razões geográficas que influenciaram a sua fundação. Sob esse aspecto, os primeiros anos da capital (1855–1921) foram marcados pela luta do homem contra a natureza hostil de seu ambiente físico, caracterizado pela presença de mangues e rios. Com o tempo, a lógica dos aterros se sobrepôs à natureza anfíbia da cidade. O processo urbano gradual não conseguiu acompanhar o contingente populacional que migrou para Aracaju em busca de melhores condições de vida. A expansão urbana posterior resultou em um desenvolvimento que deixou para trás regiões com baixa qualidade de vida. Na atualidade, esse complexo habitacional produziu uma espécie de isolamento físicoantropológico, que imprime a algumas regiões um certo tipo de insularidade, ao manter a população em meio a enclaves habitacionais. Trata-se da malha fluvial que atravessa a capital e seu entorno. Assim, este trabalho busca apresentar, de forma panorâmica, a realidade dos moradores que se encontram em áreas recônditas, onde habitam segmentos que passam quase despercebidos pelas estatísticas, políticas públicas e pelos olhos daqueles que vivem no centro da capital. O recorte específico da pesquisa que resultou nestas reflexões corresponde ao trecho do rio Poxim, o qual perpassa uma região fortemente urbanizada de Aracaju. A pesquisa compreende o rio não apenas como recurso hídrico e geográfico, mas como um espaço de vida, memória e resistência, um agente relacional que participa da construção de territorialidades, entendidas como “pontos de partida que marcam e remarcam o tempo das/nas cidades” (GANDARA, 2017, p. 6). Durante as incursões a campo, foi possível construir uma compreensão do rio Poxim que somente a experiência vivida permite. Ele revelou uma teia de interações e significados, incorporando as particularidades de cada comunidade. Isso permitiu compreender a paisagem não como cenário, mas como campo de presença e troca, no qual os moradores, ao tocar a paisagem, também são tocados por ela.
Palavras chaves: Desigualdade urbana; Modos de habitar; Paisagem; Antropologia urbana; Rio Poxim.Palavras chaves: Desigualdade urbana; Modos de habitar; Paisagem; Antropologia urbana; Rio Poxim.
-
Quando a água sobe: ajuda, resposta emergencial e o mundo da política
— Ana Elisa de Figueiredo Bersani, Inácio de Carvalho Dias de Andrade
— Ana Elisa de Figueiredo Bersani, Inácio de Carvalho Dias de Andrade
A enchente histórica de 2025 na periferia da Zona Leste de São Paulo, ocorrida no rescaldo das disputadas eleições municipais, tornou visíveis desigualdades acumuladas de uma urbanização excludente e atualizou dinâmicas de poder inscritas na história local. A partir de etnografia realizada em um bairro situado às margens do Rio Tietê, este trabalho analisa como o evento climático conectou instituições públicas, atores políticos, organizações não governamentais e redes comunitárias, produzindo tensões entre práticas vicinais de autoajuda, movimentos organizados, grupos ligados a vereadores da região e a assistência estatal. Nesse contexto, rumores sobre o desvio de auxílios, doações e o suposto fechamento de comportas — narradas como estratégias para inundar o “fundão” da Zona Leste em benefício de áreas centrais da cidade — circularam intensamente, sobretudo pelas redes sociais. Tais rumores capilarizaram-se no cotidiano, operando como formas de interpretação moral da experiência e de reinscrição de discursos sobre invisibilidade periférica, precariedade estrutural e negligência sistêmica. Essas narrativas não permaneceram apenas no plano discursivo, mas ganharam materialidade nas interações conflituosas entre moradores e agentes da assistência social. Entretanto, foi ao nível da casa e das redes vicinais, muitas delas costuradas com apoio das igrejas evangélicas locais, que a comunidade negociou sentidos para suas perdas, reconstruindo pontes entre o território, o governo e a cidade.
-
Escalas do habitar: cartografias da mobilidade e imaginários urbanos de jovens periféricos de Salvador (Ladeira da Preguiça e Alto das Pombas)
— Anderson Carvalho dos Santos, Urpi Montoya Uriarte
— Anderson Carvalho dos Santos, Urpi Montoya Uriarte
A partir de um trabalho extensionista realizado entre grupos de jovens das comunidades da Preguiça (Centro Histórico) e do Alto das Pombas (Federação) nos anos de 2025 e 2026, propomos discutir nesta apresentação a relação que os chamados jovens periféricos mantêm com a cidade de Salvador. Apresentando o conjunto de cartografias sociais produzidas pelo referido trabalho, mostraremos a cidade efetivamente percorrida que lugares os jovens frequentam e mediante que meios de locomoção e a cidade imaginada as áreas que identificam nela e as denominações que lhes dão.
Nossa análise propõe entender a mobilidade urbana não apenas como deslocamento físico, mas, principalmente, como prática social atravessada por marcadores de classe, raça, território e geração. Propomos, também, entender a experiência urbana dos jovens periféricos em escalas distintas: o micro espaço do cotidiano (a casa, a rua e as cercanias), a escala intermediária do bairro e a escala ampliada da cidade. Por fim, trabalhamos conjuntamente os conceitos de cidade percorrida e cidade imaginada, demonstrando como a mobilidade cotidiana dos jovens é bastante limitada ou restrita e como seu imaginário urbano divide a cidade a partir de imagens de classe, violência e insegurança pública. Argumentamos que essa tensão entre escalas vividas e imaginadas produz formas específicas de relação com a cidade, nas quais Salvador aparece simultaneamente como território de restrição e de desejo, configurando modos singulares de habitar, narrar e projetar o urbano.
-
Quando a casa vira rua: moralidades e regimes de violência no mundo doméstico em Barbacena
— Eliane da Silva, Shirley Torquato
— Eliane da Silva, Shirley Torquato
Esta pesquisa, que se encontra em seu estado inicial, tem como objetivo analisar as interações que se estabelecem entre os domínios da casa e da rua, com foco nas situações de violência que ocorrem no espaço doméstico. A atenção recai especialmente sobre a violência dirigida contra mulheres e grupos em situação de vulnerabilidade — pessoas LGBT+, idosos, pessoas com deficiência, crianças e adolescentes residentes na cidade de Barbacena, Minas Gerais. Tomando como referência a dualidade “casa e rua”, categorias centrais na obra de Roberto DaMatta, observa-se que a inversão das moralidades associadas a esses dois domínios intensifica o impacto social da transgressão. A ruptura da fronteira entre o espaço privado e o espaço público converte conflitos familiares em um tipo específico de violência: a violência doméstica. Nesse sentido, torna-se fundamental distinguir, nos levantamentos estatísticos, os dados relativos à segurança pública em geral daqueles diretamente relacionados às agressões ocorridas no interior das residências. A família e o espaço doméstico constituem um paradoxo: simultaneamente concebidos como lugar de afeto e proteção, são também cenário privilegiado de violência física, simbólica e emocional. Contudo, ao ocorrer no âmbito privado, tende a permanecer oculta, sustentada pelo silêncio, vergonha e segredo que envolvem as relações familiares — fatores que dificultam a denúncia e a visibilidade pública desses episódios. Embora Barbacena apresente, segundo pesquisa realizada em 2024 pelas Secretarias Estaduais de Segurança Pública e Polícia Militar de Minas Gerais, as menores taxas de crimes e violência urbana entre cidades com mais de 510 mil habitantes, dados divulgados pela Sejusp indicam que, entre 2022 e 2024, os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher cresceram 18% no município. O contraste evidencia que, apesar da baixa incidência de violência nas ruas, o ambiente doméstico permanece como um espaço crítico de risco e vulnerabilidade, especialmente para mulheres. A partir dessa abordagem, busca-se compreender como as moralidades locais, as dinâmicas familiares e as estruturas institucionais influenciam a produção, a legitimação e o enfrentamento da violência no interior do lar.
-
Ilhas e Ilhadas: famílias e casas em dois bairros afetados pela Enchente de 2024 na Grande Porto Alegre
— Gabriel Mazur
— Gabriel Mazur
Entre abril e maio de 2024, as fortes chuvas e a elevação do nível dos rios afetaram direta e indiretamente a maior parte do território gaúcho. O presente trabalho parte de uma pesquisa de mestrado em andamento e constrói a comparação entre histórias de famílias de dois bairros alagados na região metropolitana de Porto Alegre. O primeiro deles, parte da região insular da capital gaúcha, compreende uma comunidade fortemente vinculada à pesca e longamente vulnerável às variações do Rio Jacuí. O segundo é um bairro popular na cidade de Canoas, situado em um relevo mais baixo e até então protegido das cheias do Rio dos Sinos por um dique. Através de entrevistas semiestruturadas e observação, a pesquisa etnográfica reconstitui os relatos do cotidiano, de sua interrupção, de saída, de permanência e de retorno dos/as interlocutores/as que carregam expectativas, ansiedades e técnicas de (re)construção de suas vidas diante da destruição. Por um lado, o volume inédito das águas e a ruptura da infraestrutura de contenção marcam a excepcionalidade das enchentes de 2024. Por outro, tais eventos são inscritos tanto em um histórico de cheias anteriores e diferentes estratégias de adaptação, quanto em trajetórias pessoais e familiares de perdas e emergências. Nesse sentido, essas experiências de moradia revelam formas de habitar, de fazer famílias, casas e vicinalidades, no Antropoceno.
-
A casa da Vó Maria como microlugar do habitar em Bela Vista de Goiás
— Lorrany dos Santos Ferreira, Ema Pires
— Lorrany dos Santos Ferreira, Ema Pires
Este estudo antropológico resulta de uma autoetnografia sobre o habitar em Bela Vista de Goiás, cidade do interior próxima à capital Goiânia. A casa da Vó Maria é tomada como microlugar central para compreender como o lugar se constitui a partir da experiência vivida, articulando o espaço, que antes era residência e hoje funciona como comércio da família, às dinâmicas da cidade. A opção pelo conceito de lugar parte da compreensão de Tuan (2013), para quem ele é o vivido que ganha sentido, tornando-se morada pela experiência, pela memória e pela emoção, tomado por vínculos e lembranças. Nesse microlugar, inscrevem-se memórias de um modo de vida interiorano, que permitem compreender a ruralidade vivida e suas transformações no contexto urbano. A conversão do antigo espaço doméstico expressa mudanças nos modos de viver e a reorganização das formas de vida e trabalho. Embora a casa da Vó Maria não exista mais como residência, o lugar permanece como referência simbólica e afetiva da família, preservando-se nas narrativas e no modo como o passado é reencenado no presente. Assim, a casa da Vó Maria é compreendida como um lugar que, diante da transformação física, continua sendo ponto de enraizamento, pertencimento e (des)continuidades.
-
Entre a rua e a mata: construção de territorialidades e a luta por moradia na comunidade São Geraldo, em João Pessoa/PB
— Marco Aurélio Paz Tella
— Marco Aurélio Paz Tella
A proposta pretende analisar as relações construídas por moradores/as da comunidade São Geraldo, com o seu entorno: o bairro do Varjão, região central da cidade de João Pessoa, e a Mata do Buraquinho (Jardim Botânico Benjamim Maranhão), a maior área remanescente de Mata Atlântica nativa densamente cercada por área urbana do Brasil. Todas as 246 casas da comunidade estão dentro de uma ação judicial de realocação, num processo ajuizado pelo Ministério Público Federal (MPF) contra a União, Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), Energisa (companhia de energia), município de João Pessoa e estado da Paraíba. O processo de realocação esteve em fase de cumprimento da sentença já transitada em julgada, no início de 2021. Conforme a sentença, os/as moradores/as da comunidade São Geraldo ocupam uma área da união que faz da Mata do Buraquinho. A partir do cotidiano e do cenário gerado pela decisão judicial, busco apresentar os processos de territorialização onde vivem e transitam (incluindo o próprio bairro onde a comunidade está inserida), os processos de recusa em sair daquele espaço e as táticas adotadas pelos/as moradores/as para evitar a execução da decisão judicial. A proposta deste resumo é apresentar parte de uma etnografia, realizada entre 2022 e 2023, a pedido da Defensoria Pública da União (DPU). A DPU adotou a estratégia de incluir o relatório do trabalho de campo no processo judicial, com a intenção de solicitar aos órgãos públicos, que os/as moradores/as não sejam realocados/as, mas inseridos/as no programa Reurb.
O meu trabalho de campo na comunidade São Geraldo foi apreender e analisar as relações cotidianas estabelecidas e construídas de seus moradores/as ao longo do tempo, dentro e no seu entorno, com o bairro onde estão inseridos. O objetivo foi buscar informações que contribuíssem para compreender a forma de ocupação do território na região e a relação com a Mata do Buraquinho.
Toda a informação contida no relatório enviado à DPU foi apreendida no trabalho de campo: visitas à rua São Geraldo; conversas e entrevistas com moradores/as; visitas e conversas com servidores/as de escolas, centros sociais, Unidades Básica de Saúde etc.
Pode parecer paradoxal, mas a ação judicial que determinou a reintegração de posse, pode ter provocado uma reflexão interessante dos/as moradores/as sobre o habitar a cidade, que envolve o reconhecimento e a valorização das relações solidárias e de cuidado mútuo existentes da comunidade e a responsabilidade que os/as moradores/as da comunidade São Geraldo construíram e estabeleceram historicamente com a Mata do Buraquinho. Todo esse processo pode ter potencializado um enfrentamento desses moradores/as aos estigmas e estereótipos impostos à comunidade.
-
A constituição de uma "casa de verdade": conexões entre o habitar, sujeites LGBTQIAPN+ e suas relacionalidades
— Mariana Paschoiotto Soares
— Mariana Paschoiotto Soares
Este trabalho busca compreender os múltiplos entrelaçamentos que permeiam as casas, es sujeites LGBTQIAPN+ e as relacionalidades construídas dentro e a partir delas. Nesta análise, as casas se tornam espaços de produção tanto da subjetividade como de socialidades mais amplas, além de revelarem contextos sociais e políticos nos quais elas estão situadas. As habitações apresentam a possibilidade de entender as conexões entre território, tempo, socialidade e trajetórias pessoais e também questões de caráter político, histórico e social. A investigação parte da ideia de que o espaço doméstico é construído pelas pessoas que o habita e, relacionalmente, a casa também constitui as pessoas que nela vivem. A sala, a cozinha, o quarto e outros ambientes que as compõem são espaços potentes para a observar as práticas do fazer família, em que o cuidado, o afeto, a reciprocidade, e também, a violência, os silêncios e as omissões se emaranham na constituição de relacionalidades. Neste sentido, o enfoque em traçar a relação de sujeites dissidentes de gênero e/ou sexualidade, as casas e as relacionalidades busca evidenciar que a fabricação e manutenção de uma casa de verdade, de um espaço seguro, por vezes não está encapsulado na memória, mas na sua potencialidade imaginativa, na possibilidade de saída da casa que se conhece. Por meio de etnografia e entrevistas com pessoas LGBTQIAPN+ que realizaram o movimento migratório para Belo Horizonte/MG, o trabalho tem como proposta investigar as reverberações do habitar que residem na memória des sujeites e na constituição de um novo lugar seguro, bem como as novas formas de fabricar relacionalidades dentro e a partir da nova morada.
-
Entre a vila e a rua: modos de habitar e conflitos urbanos na Lapa carioca.
— Ramon de Abreu Guimarães Silva
— Ramon de Abreu Guimarães Silva
Este trabalho analisa as formas de habitar e de se relacionar com a Rua Joaquim Silva, na Lapa (Rio de Janeiro), a partir de uma etnografia situada em uma vila residencial. Entre a efervescente Lapa, reduto da boêmia carioca, e a porta da casa, a pesquisa adota uma perspectiva microanalítica e acompanha interações cotidianas e trajetórias de moradores, buscando compreender como diferentes experiências produzem leituras contrastantes do mesmo espaço urbano. A investigação mobilizou o uso da observação participante e a reflexividade como recursos metodológicos, permitindo articular escalas locais e processos urbanos mais amplos sem perder de vista a agência dos sujeitos. Sustentando também, que o espaço urbano se constitui como uma malha de relações, práticas e performances sociais em constante negociação, revelando a rua não como mero espaço de passagem, mas como lugar vivido, disputado e continuamente reinterpretado, recuperando uma dimensão pouco abordada sobre a Lapa, pouco lembrada enquanto espaço de moradia, mas hiperativada enquanto espaço de consumo, turismo e lazer.
-
Tradição, espaço urbano e desigualdade: notas sobre a periferização da moradia social em Barbacena
— Shirley Torquato, Mary Cristina da Silva
— Shirley Torquato, Mary Cristina da Silva
Esta comunicação analisa as condições precarizadas e os processos de estigmatização territorial que incidem sobre empreendimentos do Programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) no município de Barbacena, Minas Gerais. A pesquisa tem como objeto central um conjunto habitacional específico, conhecido localmente como "Casinhas", escolhido a partir de um mapeamento preliminar, realizado pela equipe como sendo o único projeto do PMCMV/PAC na cidade composto exclusivamente por casas - diferentemente dos demais empreendimentos verticais presentes no município. Essa singularidade arquitetônica confere ao caso uma relevância analítica particular, pois permite examinar de que maneira diferentes configurações espaciais, como casas isoladas em contraste com blocos de apartamentos, moldam práticas de ocupação do espaço, relações de vizinhança, rotinas domésticas e formas de organização cotidiana. A abordagem adotada possibilita compreender de forma mais abrangente as dinâmicas sociais, políticas e urbanas que estruturam o cotidiano das famílias beneficiárias, evidenciando como os modelos de habitação social no Brasil se articulam a processos de desigualdade, hierarquização e diferenciação simbólica no território. Nesse sentido, o conjunto das Casinhas revela-se um caso privilegiado para analisar a interface entre política habitacional, produção do espaço urbano e experiências locais de estigmatização, contribuindo para o debate sobre os limites e potencialidades dos programas de habitação social no Brasil contemporâneo. O entendimento acerca das moradias periféricas na cidade ganha profundidade quando situada no horizonte interpretativo proposto por José Murilo de Carvalho (1966), que problematiza a formação histórica de Barbacna articulando as relações entre o poder político, as hierarquias sociais e a organização do espaço urbano desde o século XIX. Em seu estudo sobre a cidade, o autor argumenta que ela se constituiu a partir de uma lógica marcada pela concentração fundiária, pelo peso das elites agrárias e pela centralidade de práticas clientelistas na administração pública. Essa estrutura de poder, que definia quem tinha acesso à terra, aos recursos e ao centro urbano, moldou de maneira duradoura a configuração socioespacial do município. Não muito diferente do processo de divisão territorial das demais cidades brasileiras marcada pela ocupação desigual no que se refere a concentração de renda.
-
"Aqui é a calçada do oi": a calçada e a rua como elementos intrínsecos no habitar a Comunidade do Timbó (João Pessoa-PB)
— Williane Juvencio Pontes
— Williane Juvencio Pontes
Ao pensar a cidade de João Pessoa-PB, é possível considerar diversas formas de habitar, compreendidas para além do ato físico de residir em uma rua, bairro ou cidade e entendidas como produção de uma experiência simultaneamente espacial e social, que envolve apropriação do espaço, construção de sentidos e elaboração de pertencimentos. O habitar constitui-se como prática situada e relacional, atravessada por processos sócio-históricos e vivida em múltiplas escalas. É a partir de uma dessas escalas, a do bairro, que este trabalho propõe uma análise etnográfica: a Comunidade do Timbó, localizada na zona sul da capital paraibana, pesquisada entre 2018 e 2025, no âmbito do mestrado e do doutorado. Produzido historicamente por seus moradores, o Timbó passou de ocupação irregular a comunidade, tendo seu modo de habitar fundamentado em redes de parentesco, vizinhança e amizade, que estruturam formas de sociabilidade marcadas pela intensa pessoalidade (Prado, 1998), entendida como o conhecimento mútuo sobre as pessoas, suas trajetórias e acontecimentos cotidianos, delineando uma determinada relação dos moradores com o e no espaço. As ruas e, sobretudo, as calçadas despontam como espaços centrais desse habitar, não apenas para passagem, mas como locais de permanência e interação: onde cadeiras são dispostas, conversas se desenrolam, alianças e conflitos se explicitam, fofocas circulam, operam formas de controle social e se realizam trocas materiais e simbólicas. Tais práticas ordinárias constituem a experiência na comunidade e informam maneiras específicas de perceber, sentir e construir a cidade. Ao articular habitar, pertença e pessoalidade, o trabalho busca refletir sobre como sujeitos pobres e majoritariamente negros produzem o espaço e elaboram sentidos de lugar, enfatizando a perspectiva dos moradores, em especial das mulheres, e as estratégias cotidianas por meio das quais constroem sua inserção na comunidade e na cidade. Assim, a etnografia do Timbó permite discutir as passagens entre as escalas da rua, do bairro e da cidade, evidenciando como o habitar se constitui como experiência situada, relacional, relacionada com a ambivalência do gostar e do desgostar do espaço a partir de onde experienciam a capital paraibana, construindo sentidos no e sobre o urbano.
Palavras-chave: Calçada; Pessoalidade; Pertença; Habitar
Coordenação
Alexandre Barbosa Pereira (UNIFESP)
Giancarlo Marques Carraro Machado (UNIMONTES)
A proposta deste grupo de trabalho é discutir as múltiplas dimensões do urbano a partir da análise das maneiras astuciosas de se fazer cidades em distintos contextos. Nesse sentido, serão valorizadas pesquisas que apreendam as especificidades das múltiplas experiências do urbano em variadas escalas de cidade, a fim de diversificar o debate sobre as contradições da citadinidade. O objetivo é tentar compreender os modos distintos pelos quais citadinos, grupos e instituições são agentes ativos na construção das cidades contemporâneas, situando-se de forma controversa entre táticas e estratégias, legalidades e ilegalidades e acessibilidades e desigualdades. Este GT convida, portanto, à apresentação de trabalhos que abordem, entre outras questões, as múltiplas formas de habitar as cidades, por meio de seus usos e contra-usos dos espaços públicos. Dessa maneira, ressaltam-se as diversas relações e tensões entre mobilidades e imobilidades, as experiências de gestão urbana, os ativismos urbanos, as redes de sociabilidade etc. Trata-se, assim, de agregar o maior número de pesquisas com a perspectiva de constituir um panorama que transcenda a dicotomia “na” ou “da” cidade, visto que se trata de compreender que cada processo social, por mais micro que se apresente, diz respeito às maneiras de se fazer cidades ou produzir novas experiências urbanas. Da mesma forma, como os macroprocessos de gestão das cidades contribuem para o entendimento das ações táticas dos citadinos.
Títulos e Resumos
-
Do pico à pista: Memória e identidade na trajetória da Trinda Times
— Amanda de Oliveira Gabinio
— Amanda de Oliveira Gabinio
O presente trabalho é parte de uma pesquisa de mestrado em andamento sobre a trajetória da pista de skate Trinda Times, localizada no bairro Trindade em Florianópolis (SC), que – através de memórias, narrativas e arquivos pessoais de skatistas locais – visa analisar os sentidos dados a esse espaço pelas diferentes gerações de ocupantes ao longo de mais de duas décadas de existência. A análise fundamenta-se na distinção entre duas fases da Trinda: seu primeiro momento enquanto uma pequena pista mal projetada, mas transformada em um pico através da ocupação dos skatistas locais – inclusive ultrapassando delimitações espaciais e subvertendo usos de equipamentos, a exemplo da dominação da quadra poliesportiva; e, atualmente, como a maior pista de street skate de Santa Catarina, em moldes que permitem que seja, com frequência, sede de campeonatos profissionais. Assim, observa-se como a identidade dos skatistas locais foi forjada na autogestão daquele espaço e, posteriormente, abalada por sua demolição. Há, de um lado, a memória afetiva de um apelido, que guarda a essência de um movimento orgânico; de outro, a institucionalização realizada pela prefeitura, que oficializa o nome da nova pista como “Trinda Times” mas concebe aquele novo espaço como local de treinamento e competições, e o skate como uma ferramenta de cidadania – lida, nesse contexto, como sinônimo de civilidade (Machado, 2012). Este percurso evidencia a complexa relação entre as dimensões citadina e esportiva do skate e seus conflitos e articulações a depender da situação – o que, por vezes, revela também questões afetivas e políticas – tornando a Trinda Times um objeto privilegiado para compreender processos de produção social do espaço e de afirmação de identidades sociais, passando por questões como memória, localismo e patrimônio.
-
"Aqui o movimento é bom": uma etnografia sobre o comércio de rua no Centro Histórico de São Luís (MA)
— Ana Beatriz Silva Ferro Sousa
— Ana Beatriz Silva Ferro Sousa
Nesta pesquisa analiso as práticas cotidianas de trabalho de vendedores ambulantes e suas estratégias de permanência no espaço público da Rua Grande, no Centro Histórico de São Luís (MA). Por meio da etnografia, acompanhei o cotidiano de vendedores de rua que mantêm suas bancas há mais de dez anos nesse logradouro que é um dos principais centros comerciais da cidade. Enfatizo, especialmente, a trajetória de Dona Luzia, matriarca que criou suas três filhas com as vendas na banca. Neste caso exemplar, e de outros vendedores ao entorno de Dona Luzia, observei como se dão a conquista dos pontos de venda e os acordos, negociações e tolerâncias que envolvem a permanência nesses espaços, situados em uma zona ambígua entre o formal e o informal. Percebi formas de se relacionar que ultrapassam interesses econômicos e de trabalho, e suscitam lógicas próprias de afeto, solidariedade e reciprocidade, bem como constroem certas noções de família. Registrei que há diferentes motivações que levam as pessoas a adentrarem e permanecerem nesse tipo de trabalho, para além de uma falta de escolha ou baixa escolaridade. Aqui, busco evidenciar que o trabalho ambulante não se restringe à banca e ao momento da venda em si, mas envolve deslocamentos entre moradia, rua e banca, articulando diferentes espaços e tempos da vida cotidiana, como idas aos pontos de revenda, locais de armazenamento (em alguns casos, a própria casa), lugar de confecção de mercadorias artesanais. Esses movimentos refletem a porosidade dos limites entre as esferas da vida dos vendedores. Concluo que é uma forma de trabalho marcada por dificuldades, mas também uma possibilidade de fazer a vida e alcançar autonomia financeira em um contexto de adversidades socioeconômicas. Nesse sentido, um olhar analítico acerca da agência desses vendedores e os significados pelos quais pensam suas vidas faz-se fundamental para compreensão do contexto social do comércio de rua na cidade de São Luís, ao passo em que evita reduzir e homogeneizar esse grupo de trabalhadores a uma noção de precariedade. Ao apropriarem-se do espaço público e ressignificarem a paisagem urbana, os ambulantes criam um dinamismo sociocultural próprio, que contrasta com a racionalidade formal de ordenamento do espaço. A Rua Grande é, portanto, não apenas um espaço de circulação de pessoas e transações comerciais, mas um lugar de construção de identidades, afetos e modos de vida.
Palavras-chave: Comércio de rua; Vendedor ambulante; Trabalho informal; Rua Grande.
-
Do mosaico ao cromático: contraste de paradigmas na antropologia urbana
— André Rocha Rodrigues
— André Rocha Rodrigues
O objetivo deste texto é apresentar um contraste entre os conceitos de "cidade mosaico" e "cidade cromática". No início do século XX, Robert Park e Ernest Burgess afirmavam que os avanços no transporte e na comunicação transformaram radicalmente a organização social das metrópoles modernas. Os autores argumentam que a vida urbana substituiu as relações primárias e íntimas por interações secundárias e superficiais, enfraquecendo os laços comunitários tradicionais. Essa transição geraria um cenário de maior mobilidade individual, no qual as pessoas vivem próximas, mas permanecem desconhecidas entre si. Embora essa mudança, segundo os autores, contribua para o aumento da criminalidade e a desintegração moral, ela também transforma a cidade em um refúgio para a diversidade. Dessa forma, o ambiente urbano atua como um espaço onde personalidades excêntricas ou geniais encontram a liberdade necessária para florescer. Em última análise, a cidade grande é descrita como um mosaico de mundos sociais que oferece tanto perigos quanto estímulos únicos ao desenvolvimento humano. Na contemporaneidade, com base em um trabalho etnográfico com travestis que atuam no mercado do sexo, apresento o conceito de cidades cromáticas. O conceito é proposto para descrever a urbe não como divisões administrativas fixas, mas como um fluxo contínuo e subjetivo que se materializa nos próprios corpos em deslocamento. Argumento que essas vivências travestis funcionam como uma cartografia viva, integrando experiências de transformação corporal e resistência política ao tecido urbano contemporâneo. Espera-se com este trabalho não a refutação do clássico trabalho de Park e Burgess, mas contrastar os pensamentos, colocando em perspectiva uma análise do século passado com uma etnografia contemporânea, de modo a instigar novas reflexões na antropologia urbana e nos estudos da cidade.
-
Centralidades do Centro em perspectivas citadinas: uma análise bibliográfica
— Davi Silva Duarte
— Davi Silva Duarte
A proposta dessa pesquisa é compreender as diversas formas de fazer cidade que estão em curso no Centro de São Paulo. Para isso, a pesquisa reuniu bibliografias interdisciplinares, em grande parte da antropologia, geografia e urbanismo, questionando a centralidade do Centro de São Paulo a fim de: problematizar a ideia de “centralidade” como categoria que segue o percurso do capital; e introduzir outras maneiras de compreender o Centro de São Paulo e a sua centralidade. Assim, a perspectiva microssocial da antropologia da e na cidade focando nas táticas que os citadinos desenvolvem nesta região foram tomadas para analisar os trabalhos produzidos nas últimas duas décadas. Nesse sentido, tal perspectiva se delimitou em três enfoques: o Movimento LGBTQIA +, a Juventude e o Movimento Social. A partir disso, observou-se a pluralidade de “centralidades” que foram/estão sendo construídas por meio da constituição de territorialidades que transformam espaços historicamente estabelecidos, de diversas sociabilidades desenvolvidas dentro de cada movimento, assim como de suas disputas com os “outros”. Portanto, o trabalho oferece maneiras diferentes de habitar, percorrer, utilizar e inventar a cidade pela perspectiva do praticante da cidade como formas de compreensão mais macrossocial da experiência urbana.
-
"Muita aventura e vento na cara!": transformações geracionais e percepções conflitantes sobre uma periferia paulistana
— Inácio de Carvalho Dias de Andrade, Debora Caje Yamamoto
— Inácio de Carvalho Dias de Andrade, Debora Caje Yamamoto
Descrevendo a produção criativa do espaço urbano por crianças e adolescentes de uma periferia da Zona Leste de São Paulo, investiga-se como as percepções de pertencimento, autonomia e cuidado são transformadas geracionalmente. Em conversas com meninos e meninas entre 7 e 13 anos, a rua aparece como o espaço privilegiado do brincar, processo através do qual estabelecem vínculos com o território. Apesar da precária infraestrutura urbana e da falta de opções de lazer, as crianças buscam criar espaços lúdicos, seja pulando o muro da creche durante os fins de semana, seja andando de bicicleta em cima das calçadas. Por meio do encontro nas ruas, elas produzem uma extensa rede de sociabilidade e adquirem o conhecimento de um bairro atravessado por diferentes formas de violência e redes de cuidado. Esse domínio do espaço público gera um sentimento de pertencimento e liberdade, manifestado no desejo de permanecer no local.
Porém, a chegada da adolescência constitui um momento de ruptura no qual muitos jovens passam a sofrer pressões financeiras de familiares e são obrigados a assumir maiores responsabilidades. Além do mais, os espaços de socialização disponíveis passam a ser fortemente associados à violência, uso de drogas e comportamentos sexuais de risco, fazendo com que muitos sonhem em mudar de casa. Em meio a tudo isso, com um discurso permeado por questões de raça, gênero e segregação urbana, coletivos jovens e grupos culturais criam novas cenas e espaços de convivência.
-
Cartografias culturais e citadinidades: práticas culturais, projetos de vida e modos de fazer cidade no sul do Brasil
— José Luís Abalos Júnior, Schelen Scherer de Freitas
— José Luís Abalos Júnior, Schelen Scherer de Freitas
Este trabalho propõe uma reflexão antropológica sobre as citadinidades contemporâneas a partir da análise de práticas culturais, projetos de vida e formas situadas de fazer cidade no sul do Rio Grande do Sul. A pesquisa integra o projeto Cartografias culturais no Sul Gaúcho: etnografia, imagem e projetos de vida na cidade, coordenado pelo autor e financiada pela Universidade Federal do Rio Grande (ICHI/FURG) cujo objetivo é compreender como coletividades urbanas produzem sentidos, usos e disputas do espaço urbano por meio de práticas culturais, circuitos de sociabilidade e formas de engajamento na politica institucional através dos conselhos municipais de cultura.
Em diálogo direto com a proposta do GT, o trabalho parte da compreensão da cidade como um processo relacional e heterogêneo, produzido cotidianamente por citadinos (Machado, 2022), grupos culturais e instituições. A investigação enfatiza as tensões entre táticas e estratégias, legalidades e ilegalidades (Telles, 2010), bem como os usos e contra-usos dos espaços urbanos (Leite, 2002), observando como práticas culturais operam simultaneamente como formas de habitar, de reivindicar direitos e de produzir visibilidade no espaço público.
Metodologicamente, a pesquisa articula etnografia urbana, cartografia social e antropologia visual, acompanhando trajetórias, eventos, ocupações simbólicas do espaço e redes de sociabilidade que atravessam diferentes escalas da cidade. O trabalho analisa tanto ações situadas e microssociais - como performances culturais, encontros, festivais, práticas religiosas e artísticas - quanto suas relações com macroprocessos de gestão urbana e cultural, como políticas públicas, editais, conselhos e programas institucionais.
Ao evidenciar a interdependência entre ações táticas dos citadinos e estruturas formais de governança urbana, o trabalho busca superar a dicotomia entre abordagens centradas "na" ou "da" cidade. Argumenta-se que cada prática social observada, ainda que localizada, participa ativamente da produção do urbano e da constituição de experiências de citadinidade. Dessa forma, a pesquisa se propõe a compreender as múltiplas maneiras de fazer cidade, ressaltando as contradições, disputas e criatividade que atravessam o viver urbano contemporâneo.
LEITE, Rogerio Proença. Contra-usos e espaço público: notas sobre a construção social dos lugares na Manguetown. Revista brasileira de ciências sociais, v. 17, p. 115-134, 2002.
MACHADO, Giancarlo Marques Carraro. A cidade do skate: sobre os desafios da citadinidade. Hucitec Editora, 2022.
TELLES, Vera da Silva. A cidade nas fronteiras do legal e ilegal. Argvmentvm Ed.: Belo Horizonte, 2010.
-
Entre grades e manobras: citadinidade, skate de rua e disputas pelo espaço público no Vale do Anhangabaú
— José Vitor Carignato David, Giancarlo Marques Carraro Machado
— José Vitor Carignato David, Giancarlo Marques Carraro Machado
A apresentação analisa as disputas em torno do uso do Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, após sua recente reforma e concessão à iniciativa privada. A partir de uma abordagem etnográfica realizada entre 2020 e 2024, o foco recai sobre a presença e as práticas dos skatistas de rua, sujeitos históricos do espaço, que seguem mobilizando formas cotidianas de permanência, resistência e negociação frente às estratégias de vigilância, controle e mercantilização do espaço público. O novo modelo de gestão do Vale, marcado pela intensificação de eventos privados, cercamentos recorrentes, paisagismo hostil e padronização dos usos, promove exclusões simbólicas e materiais, tensionando os sentidos do que é público na cidade contemporânea. A apresentação demonstra como, mesmo diante dessas transformações, os skatistas produzem táticas que desafiam a homogeneização dos usos, reafirmando vínculos afetivos, memórias coletivas e modos singulares de habitar a cidade. A análise dialoga com referenciais da Antropologia Urbana e dos estudos críticos sobre o urbanismo neoliberal, mobilizando conceitos como citadinidade, tática, cidadania insurgente e paisagens de poder. Ao explorar as fricções entre planejamento e prática, disciplina e improviso, o trabalho evidencia que o espaço urbano não se reduz aos projetos institucionais que o regulam, sendo continuamente reinventado por seus usuários cotidianos. Ao tomar o skate de rua como chave analítica, a apresentação contribui para os debates sobre centralidades urbanas, direito à cidade e gestão privatizada dos espaços públicos, destacando como práticas ordinárias podem produzir brechas de contestação e resistência no interior da cidade neoliberal.
-
Contradições da citadinidade: gestão urbana, população em situação de rua e políticas de cuidado
— Luana Lima Godinho
— Luana Lima Godinho
Contradições da citadinidade: gestão urbana, população em situação de rua e políticas de cuidado
Este trabalho propõe analisar as controvérsias jurídicas e institucionais em torno da política de saúde mental no contexto urbano, tomando como eixo empírico e analítico as disputas em torno da gestão de populações consideradas indesejáveis na cidade. A partir dos princípios assegurados pela Lei nº 10.216/2001, marco da Reforma Psiquiátrica brasileira, examina-se como propostas normativas recentes, a exemplo do PL nº 47/2025, reatualizam tensões históricas entre cuidado em liberdade e práticas de contenção, reinscrevendo no espaço urbano dispositivos de controle que limitam a ampliação da cidadania. Como destacam Amarante e Torre (2018), o modelo manicomial fundou-se no isolamento e na retirada do louco da vida urbana, do trabalho, do convívio social e da cultura, produzindo efeitos duradouros na forma como a cidade lida com a diferença. O debate em torno da Política Municipal de Assistência Integral dirigida a pessoas com transtornos mentais e/ou que fazem uso de substâncias psicoativas na cidade de Niterói. A investigação concentra-se na atuação de agentes públicos da gestão municipal responsáveis pela implementação dessas ações no espaço público, especialmente junto à população em situação de rua. O estudo examina como os macroprocessos de gestão urbana incidem sobre experiências urbanas situadas, revelando disputas em torno da cidadania, do direito à cidade e da ocupação do espaço público. A população em situação de rua (PSR) configura-se como um grupo social cuja presença nos contextos urbanos contemporâneos evidencia, de maneira aguda, as contradições da citadinidade e os modos desiguais de produção das cidades. Longe de constituir apenas um efeito residual da exclusão social, essa população expressa formas específicas de habitar, circular e permanecer na cidade, situando-se em zonas de tensão entre acessos e interditos, legalidades e ilegalidades, visibilidades e invisibilidades. Seus modos de ocupação dos espaços públicos revelam tanto estratégias institucionais de ordenamento urbano quanto táticas cotidianas de sobrevivência, resistência e reinvenção do urbano. Nesse sentido, as desigualdades raciais manifestam-se de forma particularmente acentuada, tendo os corpos negros como seu principal expoente.
Palavras chaves:Gestão urbana, População em situação de rua, Políticas de cuidado.
-
Experiências de jovens mais jovens em relação à escola e à cidade: uma etnografia de projetos do contraturno escolar sob uma perspectiva interseccional
— Maria Eduarda de Moraes Torres
— Maria Eduarda de Moraes Torres
Essa pesquisa etnográfica objetiva apresentar reflexões iniciais sobre a relação entre a constituição de espaços de sociabilidade juvenil na escola e cidade e as experiências estudantis, considerando o curso da vida, as relações de gênero e a sua articulação com outros marcadores sociais como raça e classe. Em uma perspectiva interseccional, busca-se compreender essa mútua relação considerando a participação estudantil em projetos do contraturno escolar na rede municipal de ensino fundamental na periferia de São Paulo. Com isso, visa-se analisar como as meninas e meninos produzem apropriações diversas do contexto escolar e espaços hegemonicamente femininos, masculinos ou não. Ao mesmo tempo, busca-se discutir e descrever como esses espaços também constituem subjetividades juvenis e sociabilidades na comunidade escolar e nos territórios. Considerando o Ensino Fundamental, destaca-se o objetivo de evidenciar esse momento no curso da vida e o ponto de vista das e dos jovens mais novos sobre as suas experiências. A etnografia é realizada com um coletivo feminista que se organiza como um projeto do contraturno escolar situado em uma escola na zona leste paulistana, no Cidade Líder e em um coletivo feminista em uma escola na zona sul, no Grajaú. A princípio, discute-se a relação dos meninos e das meninas com espaços da escola e espaços públicos do bairro a partir de entrevistas com docentes e observação participante realizada em um dos coletivos.
-
Coletivos culturais, práticas de mobilização social e grupos armados na Zona Oeste do Rio de Janeiro
— Monique Batista Carvalho
— Monique Batista Carvalho
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa em andamento sobre formas de organização coletiva de base local em territórios atravessados por conflitos armados na cidade do Rio de Janeiro, com foco em bairros da Zona Oeste. Nas últimas duas décadas, o cenário da violência urbana tem passado por transformações significativas, especialmente em função da expansão territorial de grupos de milicianos, que disputam entre si e com as facções do tráfico, o controle armado de favelas e áreas periféricas da cidade. Essa situação resulta em uma realidade para os moradores que caracterizamos como "cerco" (Machado da Silva, 2008), onde o cotidiano é gravemente marcado por situações de insegurança e imprevisibilidade. Percebemos o cerco também nas diversas formas de organização dos moradores seja em áreas dominadas por facções do tráfico de drogas, seja em áreas dominadas por grupos pertencentes às milícias.
Apesar desse contexto, temos observado práticas culturais e ações coletivas organizadas por grupos que se autodeclaram como coletivos, os quais mobilizam a linguagem da cultura como ferramenta política e que têm apresentado novos repertórios de mobilização assim como novas formas de atuação no espaço público e na esfera política e institucional.
O campo da pesquisa se dá em bairros da Zona Oeste, região particularmente relevante por ser considerada o berço das milícias, concentrar a maior parte da população da cidade e os menores investimentos públicos. A partir de um mapeamento dos grupos contemplados pelos editais de fomento das secretarias estadual e municipal de cultura, com recursos das leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, destacamos alguns grupos para realização de entrevistas em profundidade e acompanhamento das atividades realizadas como intervenções artísticas, eventos culturais, rodas de conversa e ações formativas.
Nosso pressuposto é que a população do Rio de Janeiro tem seu cotidiano impactado pela atuação dos grupos armados em territórios periféricos, e que tal atuação tem se modificado substancialmente nas décadas mais recentes. Contudo, as ações e atividades relacionadas à cultura podem nos apresentar outras formas de organização e mobilização frente ao cenário de reconfiguração do crime e dos criminosos.
Buscamos compreender como grupos e coletivos locais produzem sentidos de pertencimento, fortalecem redes de solidariedade e criam estratégias de mobilização diante dos desafios sociais e urbanos. A partir de experiências diversas, pretende-se refletir sobre as relações entre cultura, arte e política como dimensões centrais das práticas de resistência e transformação social.
-
Ocupações e resistências moleculares: a conversão nos enunciados entre jovens e adultos em uma ocupação urbana no interior do Estado de São Paulo
— Thaisa da Silva Ferreira
— Thaisa da Silva Ferreira
Inicialmente a proposta desse estudo foi analisar os impactos do habitar na trajetória de vida dos/das jovens a partir de suas percepções e desse modo, identificar as maneiras encontradas para resoluções de problemas que esses/essas jovens seriam capazes de criar em um cenário entendido por ausências de políticas públicas no local de sua moradia.
Entretanto, os primeiros contatos em campo apresentaram outros cenários para a pesquisa. Dois importantes pontos se colocaram para a pesquisadora. A partir da etnografia e das entrevistas iniciadas em 2025 procurei trabalhar a perspectiva de como a luta por moradia poderia transformar as percepções sobre as gerações. Foi possível perceber que essa transformação ocorre de diversas maneiras, primeiro uma inversão de sentimentos geracionais. A vivência na ocupação faz com que interlocutoras/es jovens relatem sentir-se "velhas/os" em comparação aos moradores de mais idade, enquanto estes últimos afirmam sentir-se "jovens". Segundo foi o da identidade vinculada ao território: as construções do que significa "ser jovem" ou "ser adulto" são tecidas em relação direta com o local de moradia e com o cotidiano de resistência. A identidade geracional não é estática, mas moldada pelo "entre" as perspectivas de diferentes idades que compartilham o mesmo espaço de luta. Paralelamente o impacto das "ausências" do Estado: a percepção das trajetórias de vida é influenciada pela escassez de políticas públicas e pela dificuldade de acesso a serviços públicos, que foram sendo reduzidos ou extintos ao longo dos mais de 70 anos de existência da ocupação. Sendo assim, a luta por moradia forçou os jovens a criarem formas próprias de resolução de problemas diante de um cenário de vulnerabilidade, o que impacta diretamente como eles percebem o curso de suas próprias vidas e suas responsabilidades. Portanto, a luta pela terra urbana atua como um catalisador que reconfigura o curso da vida, onde o peso da responsabilidade e da resistência pode "envelhecer" precocemente os jovens, enquanto a continuidade da militância e da permanência no território pode conferir um vigor associado à juventude aos mais velhos.
Coordenação
João Francisco Kleba Lisboa (Instituto Egon Schaden)
Eriki Aleixo de Melo (CEFORR)
Interessa-nos pensar tanto as escolas indígenas quanto a “temática indígena nas [demais] escolas” – geralmente a cargo das disciplinas de humanidades e/ou artes – para além de episódios esparsos no currículo e imagens superficiais. Ainda que a legislação brasileira, como estabelece a Lei nº 11.645, de 2008, determine a obrigatoriedade do estudo da história e cultura indígena (e afro-brasileira) nos ensinos fundamental e médio, permanece a questão: o quanto os conhecimentos indígenas podem contribuir em matérias escolares como matemática, biologia, química, e ciências em geral? Se as tecnologias indígenas, cada vez mais, comprovam sua eficácia e capacidade de confrontar a crise sistêmica do capitalismo, seria ingênuo tentar universalizar ou transportar tais conhecimentos, desenraizando-os de suas dinâmicas locais, cosmologias e relações intra e interespécie. Este GT tem o propósito de reunir reflexões e experiências em torno das seguintes questões: Quais seriam os métodos mais apropriados para a transmissão de conhecimento tradicional no contexto escolar? A mera inclusão de alguns exemplos do saber indígena sob o prefixo “etno” é suficiente para sua validação enquanto ciência? Como as escolas indígenas lidam com as exigências curriculares, as demandas das comunidades e as pressões por avaliação e rankings nacionais? Propomos uma discussão geral a partir de experiências concretas em torno dessa pauta, o que inclui dinâmicas não escolares de aprendizado e formação tecnológica.
Títulos e Resumos
-
Entre Línguas, Territórios e Avaliações: desafios e possibilidades nos processos de alfabetização e letramentos em escolas indígenas de Roraima
— Eriki Aleixo de Melo
— Eriki Aleixo de Melo
Este artigo analisa os desafios da alfabetização e dos processos de letramento nas escolas indígenas do estado de Roraima, considerando a diversidade linguística, cultural e territorial que caracteriza as comunidades indígenas da região Norte do Brasil. Com base em dados do Censo Demográfico de 2022, evidencia-se o crescimento da população indígena no país, bem como a ampliação da diversidade étnica e linguística, marcada pela coexistência de línguas fortalecidas e outras em situação de vulnerabilidade. Embora a proporção percentual de indígenas falantes de línguas originárias tenha diminuído, o número absoluto de falantes aumentou, especialmente dentro das Terras Indígenas, o que reforça o papel central do território na preservação e transmissão das línguas. Em Roraima, esse cenário se expressa em múltiplas realidades: comunidades onde o português não é a primeira língua; povos indígenas migrantes oriundos da Venezuela, para os quais o português é terceira ou quarta língua; e comunidades em processo de perda linguística, nas quais o português se tornou predominante. Essas configurações impactam diretamente os tempos, ritmos e formas de alfabetização. O estudo problematiza o uso de avaliações externas padronizadas, como CAEd e SAEB, que não consideram os contextos multilíngues, socioculturais e territoriais das escolas indígenas. Tais instrumentos tendem a produzir diagnósticos de déficit, desconsiderando práticas pedagógicas baseadas na oralidade, nas narrativas comunitárias, na aprendizagem coletiva e nos modos próprios de ensinar e aprender dos povos indígenas. Além disso, ignoram o caráter constitucional e legal da educação escolar indígena como específica, diferenciada, bilíngue e intercultural. Diante desse cenário, o artigo discute os limites dessas avaliações e apresenta reflexões e experiências pedagógicas desenvolvidas nas escolas indígenas de Roraima, apontando caminhos para a construção de práticas de alfabetização e letramentos que respeitem as línguas, os territórios e os saberes tradicionais, fortalecendo o direito à educação indígena com qualidade social e pertinência cultural.
-
Para além do acesso: apoio acadêmico e desafios da permanência de estudantes indígenas no ensino superior
— Jamilie Santos de Souza, Carolina Monteiro Pereira, Ravena Soares Carvalho
— Jamilie Santos de Souza, Carolina Monteiro Pereira, Ravena Soares Carvalho
Este trabalho apresenta reflexões e aprendizados de um projeto de extensão desenvolvido no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Brasília, com duração de dois meses, voltado ao apoio acadêmico a estudantes indígenas do curso de Ciências Sociais. A iniciativa teve como objetivo contribuir para a permanência estudantil, oferecendo acompanhamento pedagógico e orientação institucional diante das desigualdades enfrentadas por tais estudantes no contexto universitário.
As atividades incluíram aulas de revisão de conteúdos disciplinares, apoio à leitura e interpretação de textos acadêmicos, orientação para a escrita segundo normas acadêmicas, auxílio na elaboração de trabalhos e currículos, além de informações sobre programas institucionais, como bolsas e projetos de extensão e apoio no uso de ferramentas digitais essenciais à vida universitária. O projeto também buscou mediar o acesso a recursos institucionais, em um contexto marcado por limitações estruturais, como a greve da biblioteca universitária.
A experiência permitiu identificar dificuldades recorrentes enfrentadas pelos estudantes indígenas, especialmente no que se refere ao domínio da língua portuguesa, com destaque para a escrita acadêmica e a interpretação de textos. Também se evidenciaram desafios relacionados à compreensão de conceitos centrais das Ciências Sociais, muitas vezes distantes de seus universos culturais, bem como limitações no uso de tecnologias digitais. Soma-se a isso o impacto subjetivo da migração para o espaço urbano e universitário, frequentemente associado ao isolamento social e ao sofrimento psíquico, além das dificuldades de diálogo com parte do corpo docente, nem sempre sensível às especificidades linguísticas e culturais desses estudantes.
Do ponto de vista formativo, o projeto proporcionou às monitoras um aprendizado significativo sobre educação intercultural, mediação de saberes e os limites das políticas de permanência quando não articuladas a práticas pedagógicas mais inclusivas. A atuação evidenciou que o apoio acadêmico, embora necessário, é insuficiente se não vier acompanhado de transformações institucionais mais amplas.
Entre as principais limitações da experiência destacam-se o curto período de duração do projeto e a sua implementação no final do semestre letivo, o que restringiu o aproveitamento das atividades e impossibilitou o acompanhamento de seus efeitos no médio e longo prazo. Ainda assim, o projeto oferece subsídios relevantes para a reflexões pedagógicas e antropológicas sobre universidade, desigualdade e interculturalidade, apontando para a necessidade de políticas de permanência que considerem não apenas o acesso, mas também as condições efetivas de produção do conhecimento em contextos marcados pela diversidade sociocultural.
Coordenação
Alessandro Campos (UFPA)
Edgar Teodoro da Cunha (UNESP)
Este Grupo de Trabalho propõe reunir pesquisadoras(es), estudantes e realizadoras(es) indígenas e não indígenas para discutir o cinema indígena no Brasil como um campo central da Antropologia Visual contemporânea. A produção audiovisual indígena tem se expandido nas últimas décadas, principalmente a partir do projeto Vídeo nas Aldeias, afirmando narrativas próprias e redefinindo modos de colaboração tensionando práticas etnográficas tradicionais. Esses processos envolvem formação de cineastas, políticas de circulação, novas estéticas, fortalecimento de coletivos, estratégias de memória e usos políticos da imagem, reafirmando o protagonismo indígena. O GT busca debater pesquisas recentes, experiências de coautoria, metodologias colaborativas, trajetórias de realizadores e realizadoras indígenas e os impactos da circulação audiovisual em aldeias, cidades, festivais e redes digitais. Também pretende refletir sobre desafios emergentes, como preservação, políticas públicas, acesso à novas tecnologias e perspectivas de futuro para este campo. Serão acolhidas comunicações que abordem linguagens e estéticas do cinema indígena; processos formativos; usos políticos do audiovisual; antropologia visual; acervos e memória; tecnologias emergentes e análises de obras ou experiências de produção. Nosso GT visa, sobretudo, fortalecer o diálogo entre Antropologia e Cinema Indígena, ampliando redes de pesquisa e valorizando epistemologias e modos de ver e narrar próprios dos povos indígenas.
Títulos e Resumos
-
Antropologia, Cinema e Educação: Investigando o Imaginário em filmes de temáticas indígenas na Amazônia brasileira (Roraima).
— Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
— Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
O homem (...) pela sua atividade para o dominar arrisca-se a alienar o mundo de si; deve, a cada instante; e é essa a função do artista, pelas obras da sua preguiça, voltar a reconciliá-lo consigo. Francis Ponge, Le murmure, Table ronde, 1952.
Este trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa de pós-doutorado que tem como objetivo compreender filmes de temática indígena produzidos na Amazônia brasileira. O estudo insere-se no esforço analítico desenvolvido na interseção entre Antropologia do Imaginário, Cinema e Educação. Para este GT, propõe-se a discussão de referenciais analíticos para o estudo do documentário de longa-metragem As Aventuras de Makunáima para crianças, dirigido por Chico Faganello.
O filme integra um projeto audiovisual, literário e teatral voltado à valorização da cultura indígena, reunindo narrativas de povos Makuussi, Taurepang, Guarani e Wapichan. Teve como público central crianças e adolescentes indígenas. Nesse contexto, Antropologia, Arte, Cinema e Educação aproximam-se de maneira singular e complexa. Além do contato direto com o diretor durante o período de filmagem, houve acompanhamento das três exibições do filme no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, ocorrido em outubro de 2025, sendo uma delas seguida de debate participativo com a plateia e o diretor. Foram realizadas, igualmente, entrevistas com indígenas que participaram da organização da produção, especialmente no que se refere aos contatos com as comunidades tradicionais e aos locais de locação.
A análise fundamenta-se na concepção de Pedagogia do Imaginário, formulada por Gilbert Durand, sobretudo na obra As Estruturas Antropológicas do Imaginário, que compreende a educação como um processo simbólico capaz de ativar e valorizar o imaginário humano. Nessa perspectiva, imagens, mitos e narrativas estruturam a formação humana; na qual a supervalorização do racional como escolha de alguns povos cria sujeitos simbolicamente mutilados. Os resultados indicam que o filme apresenta um equilíbrio entre os dois regimes de imagem propostos por Durand, assim como, a análise evidencia a distância existente entre o Macunaíma clássico ocidental, de Mário de Andrade, e o Makunáima ou Makunaimã ou Makunaimî, dos povos tradicionais, apontando para um movimento de resistência simbólica indígena por meio de uma pedagogia da criatividade, da liberdade e da não submissão aos valores da pedagogia ocidental. Enquanto Mario de Andrade propõe um herói nacional brasileiro ainda que transfronteiriço , tal operação simbólica rompe com as cosmologias indígenas ao nacionalizar um mito que não se inscreve nos limites do Estado-nação. Nesse sentido, o cinema também se constitui como ferramenta de visibilidade e de luta decolonial ao afirmar as narrativas imagéticas de povos oprimidos
-
"Cacique viu isso?!" Mekukradjà Abikàrà (cultura contaminada) e a Produção Midiática Mebêngôkre-Kayapó em Transição
— Richard Brown Pace
— Richard Brown Pace
Este trabalho analisa a proposta de uma estética cinematográfica Mebêngôkre-Kayapó, moldada pelas expectativas comunitárias dos conteúdos e métodos de filmagem, bem como por pressões sociais e políticas sobre cineastas para garantir a continuidade dela, que até agora se estendeu por um período de cinco décadas. O trabalho discute, então, os desafios recentes à adesão a essa estética, não apenas na produção cinematográfica, mas também no uso crescente das mídias sociais. O foco está nas fricções produtivas, ou tensões que se desenvolvem à medida que as perspectivas e práticas entre comunidades Indígenas, ativistas culturais e produtores de mídia se confrontam nos complexos processos de tornar a cultura visível. Inicialmente, essas fricções ocorreram com a formação de cineastas (incluindo experiências colaborativas com o Vídeo nas Aldeias, outras produções universitárias/ONGs e dentro de coletivos cinematográficos indígenas). Atualmente, surgem atritos com o início de filmes mais experimentais em paralelo à produção de conteúdo para mídias sociais, esta última consequência da introdução de tecnologias aprimoradas de produção de mídia via celular e serviços de internet de alta velocidade nas aldeias.
Por meio de pesquisa etnográfica ao longo de 14 anos, examinamos o engajamento com essas produções midiáticas na aldeia de A'Ukre, juntamente com produções dos coletivos Djamtire e Beture, e conteúdo postado no Instagram, Facebook, TikTok, Kwai e WhatsApp. Damos atenção às diversas preocupações em relação às representações da cultura Mebêngôkre-Kayapó (kukradjá) versus a mistura cultural (kukradjá abikàrà). Examinamos como as mudanças desafiam a autoridade e as formas de governança dentro da aldeia e especulamos sobre o futuro da produção midiática e da autorrepresentação Mebêngôkre-Kayapó no cinema e nas mídias sociais.
-
Aquilo que é sonhado muda a estrutura das coisas: sentir, pensar e agir para reencantar e perturbar o cinema com mulheres originárias
— Sophia Pinheiro
— Sophia Pinheiro
Esta pesquisa-vida-caminho deseja sonhar outras possibilidades de um mundo onde caibam muitos mundos: ver não apenas com os olhos, pensar não apenas com o cérebro e sentir não apenas com o coração. A tese é estruturada em três grandes conversas com minhas principais parceiras de trabalho. A primeira é a Nhemongueta com Patrícia Ferreira Pará Yxapy; a segunda, a Nhemongueta com Flor de María Alvarez Medrano; e a terceira, a Nhemongueta com Graciela Guarani. Essa organização se distribui a partir de revelações ligadas ao que cada uma delas me ensinou: com Patrícia, as relações — a nossa, com o mundo indígena e com os não humanos — e o entendimento cosmopolítico das alianças afetivas; com Flor, a cura e a urgência de reencantar o mundo a partir da cosmovisão Maya; com Graci, a luta e as pedagogias visuais, as agências das imagens e a elaboração de políticas e poéticas do cinema indígena, como ela mesma diz, uma forma de “cinema como processo educativo para mudar as estruturas”.
Como três grandes cestas, cujos temas se relacionam entre si e com as demais conversas-cestas, cada uma guarda e organiza os pensamentos desta tese. Levanto a hipótese de que as imagens e os filmes das mulheres indígenas perturbam e reencantam o cinema, alargando nossos modos de ver, pensar e fazer, em um sentipensar que convoca a ver com outros olhos — o olhar da manhã, a primeira abertura dos olhos após uma noite sonhando. Ver não apenas com os olhos, mas com todo o corpo e sentimento; ver com os olhos dos pássaros, da capivara, da onça; ver como veem fungos, plantas e divindades. Fazer imagens de outro modo, em colaboração com pessoas e outros agentes do mundo visível e invisível, encantando as imagens e o pensamento, criando teias de afeto e sonho, movimentando as imagens junto com a vida. Esses são os cernes do sentipensamento que as mulheres originárias nos inspiram.
As práticas desta pesquisa baseiam-se nas relações, encontros e conversas com as cineastas indígenas Graciela Guarani (Guarani Kaiowá), Michele Kaiowá (Guarani Kaiowá), Natuyu Yuwipo Txicão (Ikpeng), Patrícia Ferreira Pará Yxapy (Guarani Mbyá), Olinda Wanderley – Yawar Tupinambá (Tupinambá/Pataxó Hã-Hã-Hãe), Sueli Maxakali (Tikmũ’ũn/Maxakali), Vanuzia Bonfim Vieira Pataxó (Pataxó) e Flor de María Alvarez Medrano (Maya). Busco, assim, historicizar o cinema indígena feminino brasileiro, reunindo nesta tese-cesta um conjunto de filmes realizados por mulheres originárias desde os anos 2000 — marco da primeira direção feminina indígena de que se tem registro — até 2024.
Coordenação
Adriana Russi T. Mello (UFF)
Lucia Hussak van Velthem (Museu Paraense Emilio Goeldi)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Renata Curcio Valente (SEE/MN)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Renata Curcio Valente (SEE/MN)
As "coleções etnográficas", historicamente concebidas sob uma perspectiva eurocêntrica e associadas a contextos coloniais, estão sendo profundamente reavaliadas. Da formação original, marcada pela apropriação cultural, até as problemáticas de representação e restituição, emergem novos horizontes que impulsionam trabalhos colaborativos e transdisciplinares, reunindo antropólogos (as), museólogos (as), povos tradicionais e artistas. A decolonização dos museus é central nessa reorientação, e não se limita ao rearranjo de exposições, mas busca desmantelar narrativas hegemônicas, questionar a autoria do conhecimento e promover a partilha de poder. As coleções são compreendidas de forma multissensorial e holística, de dimensões espiritual, emocional, evocativa. A reconexão das pessoas às suas coisas é parte do processo de revitalização cultural e de conexão com o passado. Esse GT visa reunir trabalhos sobre saberes e fazeres nos museus que valorizem conhecimentos das populações tradicionais, ações de museologia colaborativa, reinvenção das práticas expositivas. Interessam relatos sobre a superação de resistências institucionais e a garantia da sustentabilidade dessas mudanças, bem como sobre as possibilidades do trabalho em rede entre instituições e comunidades, na tentativa de ampliar o alcance e a eficácia dessas iniciativas, evidenciando o potencial dos museus como espaços de (re) encontros, de diálogos e de construção de futuros mais inclusivos e justos.
Títulos e Resumos
-
Visitando museus e nos reconectando às nossas coisas: o Txama txama e os saberes e fazeres Katxuyana e Kahyana
— Adriana Russi, Neide Imaya Wara Kaxuyana, Namofo Léo Kaxuyana Tiriyo
— Adriana Russi, Neide Imaya Wara Kaxuyana, Namofo Léo Kaxuyana Tiriyo
Somos Katxuyana e Kahyana, somos Yana – gente. Nós nos consideramos povos indígenas misturados. Falamos a língua Werikiyana. Vivemos na região Norte do Brasil, em pequenas aldeias em Oriximiná/ PA e na Terra Indígena Parque do Tumucumaque (PA e AP). No passado nossos ancestrais Katxuyana e Kahyana sabiam fazer muitas coisas, muitos artesanatos. Hoje alguns velhos e velhas querem ensinar nossa tradição para no futuro ensinarmos aos nossos filhos (as). Pesquisadores não indígenas nos visitaram no passado e levaram nossas coisas para os museus. Hoje, nós jovens, junto com velhos, podemos nos reencontrar com nossas coisas nesses museus. Estamos preocupados com nossa cultura e por isso há certo tempo temos realizado projetos de valorização de nossa cultura (kwetokumu).
Entre muitas atividades decidimos visitar os museus onde estão guardadas nossas coisas. Estivemos no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), em Belém, e no Museu Britânico em Londres.
A visita ao Museu Goeldi foi um momento de reviver nosso passado não tão distante. A partir dela vamos ter a oportunidade de escrevermos nossa História que ficou silenciada nos artefatos como do adorno plumário Txama txama que é uma peça que faz parte da história e identidade do nosso povo.
Na outra visita que fizemos, ao Museu Britânico, também nos encontramos com o Txama Txama o que fez aflorar nosso sentimento de que nossa memória ancestral resiste ao tempo, às distâncias e à história.
Esse relato de experiência vivenciado pelos autores (as) se articula como um diálogo intergeracional e interétnico entre jovens pesquisadores indígenas e pesquisadores não indígenas, numa troca mútua de saberes e fazeres em torno de artefatos musealizados. Nesse contexto, os museus e suas coleções são mediadores que agenciam atores numa rede de relações.
-
Mapeamento das coleções Katxuyana-Kahyana no Brasil: Sistematização e acesso à informação como um meio para a preservação das tradições dos povos indígenas
— Ana Gaspar Motta, Adriana Russi
— Ana Gaspar Motta, Adriana Russi
O presente trabalho é parte do projeto Mapeamento das Coleções Etnográficas no Brasil, que tem por objetivo identificar e localizar coleções etnográficas em instituições museais por todo território nacional. As coleções identificadas são catalogadas para facilitar o acesso de povos/comunidades, herdeiros de seus bens culturais, permitindo que eles se reconectem com suas histórias e participem da decisão sobre o futuro de seus patrimônios musealizados. Este artigo analisa principalmente os dados referentes às coleções do povo Katxuyana-Kahyana e a importância do acesso à informação sobre esses itens para a preservação das tradições e da cultura desse povo. São detalhados os processos de criação e de trabalho com uma planilha onde constam todas as informações sobre os acervos do povo Katxuyana-Kahyana no Brasil.
-
Materialidades diaspóricas: construção de coleções palestinas no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR)
— Bárbara Caramuru Teles
— Bárbara Caramuru Teles
Neste artigo, buscarei elucidar questões emergentes no processo de formação de uma coleção da diáspora palestina no Brasil, a partir de curadoria compartilhada com a comunidade palestina. Entendo aqui a curadoria compartilhada em um sentido ampliado, no qual se incluem as relações com as pessoas e as etapas de desenvolvimento do projeto, que antecedem e que vão além da exposição. O projeto, atualmente em andamento, é realizado no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade Federal do Paraná (MAE-UFPR) dando enfoque a objetos de pertencimento que operam na criação de estratégias, negociação da palestinidade e formas de fazer lar em diáspora. As coleções do MAE abrangem objetos de diferentes grupos e comunidades tradicionais brasileiras, mas nenhuma delas representa a cultura material e imaterial de pessoas refugiadas, imigrantes e seus descendentes dentro do acervo hoje denominado de “Cultura Popular”. Essa proposta, para além dos debates centrais à museologia, visa repensar noções de brasilidades e identidades da cultura popular brasileira dentro do museu, tensionando as narrativas hegemônicas. Através de uma perspectiva antropológica, essa análise lança luz aos processos de musealização dos objetos considerando a constituição das materialidades e afetividades para palestinos refugiados e imigrantes, buscando pensar a construção de um “lar” palestino na diáspora através de objetos. Pensar materialidades diásporicas e sua relação com a terra de origem permite-nos problematizar as formas de criar espaços e noções de pertencimento na diáspora que são atravessadas por tradição, autenticidade, afetividades. Este trabalho é fruto do diálogo do projeto em andamento na MAE com dados da etnografia realizada entre os anos de 2018 e 2022, no Brasil e Palestina, visando demonstrar a relação entre as coisas, pessoas e mobilidades na construção de um lar na diáspora palestina. Metodologicamente, no projeto, realizaremos uma etapa de aproximação entre museu e pessoas da comunidade palestina, posteriormente entrevistas com registro audiovisual e, por fim, a formação da coleção com desdobramento em uma exposição, conforme demanda dos participantes.
-
Entrelaçando memórias e arqueologia Jê na região abrangida pelo médio e baixo rio Iguaçu, Paraná: ressignificando acervos musealizados, bens arqueológicos, aldeias e territorialidades
— Claudia Inês Parellada
— Claudia Inês Parellada
Em estudos, abrangendo o médio e baixo rio Iguaçu, no centro-sul e sudoeste do Paraná, sul do Brasil, foram realizadas análises multivariadas com dados de acervos textuais, imagéticos e tridimensionais de áreas indígenas Jê tradicionais, pensando em histórias de longa duração. Nessa região, as datações mais antigas de sítios arqueológicos Jê estão próximas a 4 mil anos antes do presente, havendo terras indígenas Kanhgág até a atualidade. Nessa pesquisa realizou-se a sistematização de documentação e dados referentes a acervos musealizados, como do Museu Paranaense, do CEPA UFPR, e do Arquivo Público do Paraná e do Instituto Água e Terra, além da análise cartográfica e imagética em diferentes temporalidades, de bens arqueológicos e aldeias com estruturas relacionadas à habitação, agricultura, funerárias, caminhos, entre outras. Discutem-se aspectos culturais, espaciais e ambientais na ocupação das paisagens, e de como as coleções podem ser analisadas através da museologia colaborativa, com abordagens decoloniais. Apresentam-se tendências, ao longo do tempo, na estética dos artefatos, na morfologia na disposição e orientação espacial das aldeias e habitações, na construção de alinhamentos e círculos, em rochas e/ ou aterros, em monólitos para observação astronômica, melhor controle dos períodos da agricultura e como marcação de espaços sagrados, além de estruturas semi-subterrâneas, para diferentes usos e ressignificações, entrelaçados com aspectos simbólicos destes povos. Houve uma concentração de aldeias Jê, no sudoeste paranaense, entre 1.000 e 300 anos atrás, com paisagens densamente ocupadas, tanto em áreas de topos de morros, como em terraços de meia encosta, planícies aluviais, onde paisagens foram transformadas. Os resultados caracterizam espaços rituais e do cotidiano entrelaçados com os saberes e as práticas tradicionais Jê e as memórias míticas, ainda presentes nas Terras Indígenas do sudoeste paranaense. As mudanças climáticas, potencializadas em épocas mais recentes, também ocorreram em outros períodos, com transformações nos mosaicos ambientais, e necessidade de manejar flora e fauna, além da seleção de estratégias para o manejo e gestão de áreas para habitação, agricultura e entrelaçadas com o sagrado. No centro-sul e no sudoeste paranaense, a ocorrência frequente de tempestades e tornados, que ocorrem até hoje, tornou muito importante, ao menos para parte da população Jê, a engenharia da construção de espaços semissubterrâneos, seja para morar, armazenar alimentos, e sepultar os mortos. Os saberes e práticas tradicionais dos indígenas podem ser entrelaçados a novas estratégias para gestão da biodiversidade e da mitigação dos impactos causados pelos eventos climáticos extremos.
-
A retomada das coisas ejiwajegi: o Museu dos Povos Indígenas como território kadiwéu
— Gabriela de Carvalho Freire
— Gabriela de Carvalho Freire
A apresentação refletirá acerca do encontro de representantes ejiwajegi/kadiwéu com suas coisas, que hoje fazem parte do acervo do Museu dos Povos Indigenas e, mais especificamente, sobre o vocabulário utilizado por essas pessoas durante uma oficina de qualificação dessa coleção, ocorrida em julho de 2023. Ao longo dos três dias de evento, não foram raras as relações entre sua presença no museu e a luta pela retomada de suas terras, que teve seu ápice nos anos 1980, mas segue mobilizando as lideranças ejiwajegi. Nesse sentido, pretendo analisar as conexões entre a relação dos Ejiwajegi com seu território - marcada por noções de movimento e propriedade particulares a esse povo - e com as coisas que compõem coleção museológicas, principalmente essa, constituída nos anos 1940 por Darcy e Berta Ribeiro. Além disso, discutirei também o processo de documentação dos nomes das cerâmicas que fazem parte da coleção na língua indígena, também ocorrido durante a oficina, que traz novas luzes para o estudo da denominada "arte kadiwéu" ao trazer uma nova tipologia dos chamados "potes". Ou seja, a comunicação trará novos elementos para pensar o reencontro de povos indígenas com suas coisas, tendo o museu como território (em disputa).
-
Entrelaçando imagens, objetos e memórias: uma experiência colaborativa com coleções etnográficas na Europa
— Igor Morais Mariano Rodrigues, Lesly Garcia Soto, Leandro Matthews Cascon, Jaime Xamen Wai Wai, Carla Jaimes Betancourt
— Igor Morais Mariano Rodrigues, Lesly Garcia Soto, Leandro Matthews Cascon, Jaime Xamen Wai Wai, Carla Jaimes Betancourt
Apresentamos nesta comunicação uma experiência colaborativa que aproximou quatro povos indígenas amazônicos (Tacana, Tsimane, Mosetén e Waiwai) de coleções etnográficas conservadas em museus europeus. Através da criação de catálogos e cartões de interação, os participantes indígenas voltaram a conectar-se com objetos produzidos pelos seus antepassados, que hoje permanecem fora dos seus territórios, e selecionaram os objetos que foram vistos pessoalmente nos museus. Observamos que, embora as imagens funcionem como gatilhos da memória, o contacto físico com os objetos é insubstituível para reativar conhecimentos e práticas. Os resultados do estudo destacam a agência dos objetos como sujeitos ativos na produção da memória, a importância das metodologias colaborativas e a necessidade de reforçar o papel dos curadores especializados em antropologia. Em geral, demonstramos que os museus podem ser espaços de diálogo intercultural, reconciliação histórica e revitalização cultural.
-
Memórias visuais fotográficas nas histórias da antropologia
— João Martinho Braga de Mendonça
— João Martinho Braga de Mendonça
Esta apresentação propõe analisar o lugar das imagens fotográficas nas histórias da antropologia, com o objetivo de desenvolver perspectivas de ensino e pesquisa baseadas em etnografias de arquivos e coleções antropológicas. Por meio do exame da formação e da trajetória dos arquivos dos antropólogos Curt Nimuendaju e Roberto Cardoso de Oliveira, entre os períodos analógico e digital, o trabalho demonstra como as imagens etnográficas são retomadas ou esquecidas ao longo do tempo. Abrem, assim, camiinhos para pensar no restabelecimento de conexões perdidas, seja em termos de "repatriação", "restituição", ou em outros termos, possíveis de serem debatidos. As derivas das imagens revelam ainda, nesse sentido, possibilidades de abertura a outras formas de conceber o ensino e a pesquisa em antropologia, compreendidos como processos de comunicação intercultural de duração indeterminada. A trajetória dos arquivos de Curt Nimuendaju na Universidade da California, Berkeley, constitui o foco principal das reflexões apresentadas, oriundas de Tese defendida em 2025 na Universidade Federal da Paraíba.
-
Memórias e presenças negras em um museu afro-digital
— Judit Gomes da Silva
— Judit Gomes da Silva
Este trabalho busca refletir antropologicamente sobre a criação do Museu de Territórios Afroparanaenses (MAFROPR) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Em desenvolvimento desde meados de 2025, esse museu busca dar visibilidade às memórias e às presenças negras, em suas múltiplas perspectivas. O objetivo aqui é problematizar a produção desse museu em uma região reconhecida como branca e cujo ideal e modelo de experiência de mundo é acionado a partir de referências da imigração europeia ocorrida, especialmente, a partir de meados do século XIX até meados do século XX. Desse modo, o museu emerge como um processo de insubmissão epistemológica no Sul do Brasil. A região, insistentemente autorretratada a partir do ideal de branquitude e da saga migratória europeia, opera uma violência simbólica que historicamente invisibiliza a presença negra e indígena do território. Essa hegemonia narrativa não é neutra; ela é um projeto político. Neste contexto, o museu busca visibilizar e reivindicar a centralidade das presenças e das memórias negras, desestabilizando o modelo de experiência de mundo eurocêntrico. Além disso, busca também transcender a lógica do "museu-depósito" para se tornar um território de existências insubmissas, um espaço ativo de produção e difusão de conhecimentos, pertencimentos e memórias, a partir da interlocução com a diversidade de grupos negros presentes, especialmente, no Samba, nos Blocos de Carnaval, nas Casas de Axé e nos Quilombos.
-
Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro: reflexões sobre formas de restituição dos fonogramas a seus detentores
— Juliana Lima Ribeiro
— Juliana Lima Ribeiro
Este trabalho propõe- se a refletir sobre formas de restituição dos fonogramas produzidos no âmbito da série fonográfica Documentário Sonoro do Folclore Brasileiro a seus detentores. O primeiro volume da série foi lançado em 1972 sob o título Vitalino e seu Zabumba, organizado pela então, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro (1948- 1979). A série possui 48 volumes, sua última edição foi lançada em 1998, sob o título: Drama e Fetiche: vodum, bumba-meu-boi e samba no Benim. A série marcou a atuação de diferentes gestões institucionais, orientadas por diferentes abordagens epistemológicas e foi constituída por fonogramas gravados em contextos de pesquisa de campo junto a grupos musicais brasileiros categorizados como “populares” ou “tradicionais”. Na análise da documentação institucional relacionada, podemos identificar que os grupos detentores das musicalidades registradas não atuaram de forma participativa ou colaborativa nos processos de seleção, gravação e edição das performances musicais, ainda que seja inegável o agenciamento dos grupos musicais nos contextos de gravações sonoras. Nos arquivos institucionais não foram localizadas documentação sobre tratativas para a realização das gravações, nem autorização do uso dos fonogramas na edição dos discos, além disso, a identificação sobre os artistas populares participantes é insuficiente, assim como não foi possível localizar pagamento sob direitos autorais e patrimoniais aos envolvidos. Nos últimos anos, as gravações sonoras têm sido procuradas por filhos e netos de músicos, cantadores e brincantes para acessar a memória de seus parentes e as musicalidades praticadas por eles. Por isso, proponho a reflexão de como uma instituição pública (atualmente os fonogramas estão sob custódia do CNFCP/ IPHAN) pode fomentar a circulação desses fonogramas entre os detentores das performances musicais, de modo a fortalecer memórias entre os descendentes dos mestres, cantadores, instrumentistas, foliões e dançarinos. Ademais, busca- se pensar em como incentivar entre os grupos envolvidos nas gravações sonoras, uma fonte de recursos financeiros, já que os fonogramas são requisitados, ainda hoje, por produtores musicais e pesquisadores para reedições e releituras fonográficas. Como também, pretende- se rever processos de identificação de autoria, letras e melodias das músicas dos fonogramas no acervo sonoro institucional.
-
Coleções etnográficas: indagações ao conceito de semióforo
— Lígia Maria Silva Macêdo, Adriana Russi
— Lígia Maria Silva Macêdo, Adriana Russi
Este trabalho delineia-se a partir da pesquisa maior que constitui a trajetória de uma das autoras na pós-graduação no campo da memória social. Na dissertação (Macedo, 2024) foi possível analisar o pano da costa enquanto roupa de tradição das religiões afrobrasileiras agenciada por memórias afrodiaspóricas a partir de autores como Gell (2020), Benjamin (1940) e Parés (2018). A proposta para este GT é desenvolver uma reflexão em fase inicial acerca da museália, objetos que compõem coleções museológicas, conceituados semióforos (Pomian, 1984) no campo da museologia. Trata-se de um conceito referencial para o referido campo que, por outro lado, não abarca a perspectiva agentiva dos objetos, mais especificamente aqueles que compõem coleções etnográficas ligadas às religiões de matriz africana. Tais objetos atuam nas redes de relações que conformam os grupos sociais que vivem e praticam estas religiosidades como verdadeiras entidades, tal qual o são as pessoas e outras materialidades. Estes objetos desempenham papeis fundamentais que tornam possível tais experiências coletivas. A partir de algumas experiências como o caso da Coleção Nosso Sagrado no Museu da República, RJ (Chagas, Versiani, Azeredo, 2025), surge o seguinte questionamento: os objetos ao serem musealizados são destituídos de suas funções utilitárias, como demonstra Pomian, mas podem ser destituídos de suas agências? Ou seja, o aspecto "mágico" que confere a estes objetos sua essência, sua peculiaridade, seu sentido singular, deixa de pertencer a estes objetos? Novas compreensões sobre estas coleções e objetos que a compõem implicam em diversas mudanças epistemológicas e técnicas, correntes no campo há algumas décadas, sobre o tratamento, pesquisa e exposição desses artefatos e sobre o próprio papel social dos museus diante de um cenário contemporâneo questionador e de profundas transformações. O alargamento da ideia de agência dos objetos rompe uma relação de interdependência e subordinação das coisas às pessoas, de certa forma, e nos lança às reflexões críticas sobre dicotomias fundantes do pensamento moderno como natureza e cultura, materialidade e imaterialidade que correspondem as coisas naturais ou artificiais (Philippe Descola, 2025) e que dão contorno aos objetos etnográficos. É na linha destas indagações que a presente proposta se situa.
-
A Decolonialidade no sistema das artes visuais contemporâneas pela perspectiva de gênero e corpos dissidentes: Complexidades e contradições entre Brasil, Colômbia e Peru
— Maria Cristina Simões Viviani
— Maria Cristina Simões Viviani
O conceito de Decolonialidade tem sido agenciado com frequência pelo sistema das artes visuais contemporâneas. O termo proposto pelo Grupo Modernidade/Colonialidade é utilizado principalmente para apontar curadorias com a presença de artistas dissidentes - indígenas, negros, queer e periféricos. Contudo, a pesquisa realizada entre Brasil, Colômbia e Peru indicou que a Decolonialidade foi apropriada pelo campo das artes, tornando-se um termo nativo das instituições do circuito artístico. A capitalização do conceito pelo mercado das artes resultou em uma abordagem exclusivamente a partir das identidades que apenas se refere à presença de produções de artistas não hegemônicos, sem as devidas transformações que uma perspectiva Decolonial deveria acarretar a nível estrutural. Sendo assim, agentes das artes acusam de terem suas identidades, antes marginalizadas, agora instrumentalizadas pelo sistema das artes.
Essa dinâmica instalou um fenômeno de comercialização das produções de artistas dissidentes, em que suas identidades se tornaram o principal foco de sua difusão. Esse processo despontou em diversas complexidades e contradições dentro do sistema. Artistas de corpos dissidentes e localidades periféricas, que têm entrado no sistema das artes institucionais, apresentam um conjunto de questionamentos e reclamações quanto ao tratamento dado às suas identidades e produções, reunidos em três tópicos básicos: 1. sentir sua identidade sendo utilizada de maneira comercial; 2. perceber uma obrigação de sua produção ser diretamente relacionada com sua identidade; 3. ter que ceder às pressões de material e formato de seus trabalhos para que sejam mais vendáveis.
Diante de tal problemática, a pesquisa investigou o circuito das artes dos três países a partir de entrevistas com artistas, curadoras e galeristas mulheres (cis e transgênero), não bináries e homens transgênero. Considerando o sistema das artes uma estrutura porosa, formado por uma rede de relações de poder entre agentes, instituições e obras de arte, buscou-se evidenciar as dinâmicas do sistema das artes visuais em relação com o conceito de Decolonialidade pela perspectiva de gênero e corpos dissidentes.
As limitações sobre as produções dos artistas demarcadas pela alteridade a partir da perspectiva hegemônica expõem a necessidade de novas estratégias para, de fato, decolonizar o sistema artístico. A essencialização das identidades e a leitura reducionista como suas obras são absorvidas pelo sistema das artes indicam que há uma percepção simplista sobre vivências complexas. Assim, as produções desses agentes determinam por uma descentralização da rigidez imposta sobre as identidades dissidentes, permitindo um esgarçamento do imaginário sobre seus corpos e experiências.
-
Coleção Arthur Ramos: trânsitos e desafios contemporâneos
— Mariana Ramos de Morais
— Mariana Ramos de Morais
No começo do século XX, entre as décadas de 1920 e 1940, Arthur Ramos constituiu uma coleção de objetos que em sua maioria referiam-se a práticas religiosas africanas e afro-brasileiras. Tal coleção, considerada por ele uma reunião de “arte negra no Brasil”, estava vinculada a suas pesquisas sobre a população afrodescendente. Ramos recorria a esses objetos, por exemplo, para expor sua teoria sobre as “sobrevivências africanas” no Brasil, tema caro aos estudos afro-brasileiros, especialmente entre as últimas décadas do século XIX e meados do século XX. Ramos manteve essa coleção em seu apartamento, ou seja, tratava-se de uma coleção privada. Na década de 1950, após o seu falecimento, essa coleção foi adquirida pela Biblioteca Nacional e, posteriormente, transferida para a Universidade Federal do Ceará. Essa última instituição é responsável por sua guarda desde então, conferindo, assim, um caráter público à coleção. A transferência para a universidade cearense ocorreu em um momento de institucionalização da antropologia nesse estado brasileiro. Nomeada “Coleção Arthur Ramos”, ela tem sido exposta desde os anos 1960 em Fortaleza, estando atualmente no Museu Arthur Ramos, um dos equipamentos da Casa José de Alencar, localizada em um bairro afastado do centro da capital cearense. Essa coleção é composta por cerca de 250 objetos que, ao longo de sua trajetória, têm passado por diferentes catalogações, demonstrando como os paradigmas teóricos incidem nas formas de classificação. Na atualidade, temos observado como diferentes grupos lutam por seu direito à memória, à patrimonialização e à musealização de práticas e saberes como uma forma de acesso à cidadania. E, junto a esse movimento, têm questionado o colonialismo que marcou a constituição das “coleções etnográficas”, como ocorreu com outras duas coleções compostas por objetos afrorreligiosos no Brasil: o Acervo Nosso Sagrado e a Coleção Perseverança, ambas reconhecidas como patrimônio nacional. Dessa forma, nesta comunicação busco recompor a vida social da Coleção Arthur Ramos e refletir sobre como ela se situa diante dos desafios contemporâneos do mundo dos museus.
-
"Abanos do clima": os kòri Iny (Karajá) circulando entre aldeias, museus e a COP30
— Marilia Caetano Rodrigues Morais, Tuinaki Koixaru França Karajá
— Marilia Caetano Rodrigues Morais, Tuinaki Koixaru França Karajá
Em 2025, artesãos e artesãs do povo Iny (Karajá) participaram da ação Abanos do Clima, promovida pela FUNAI, no contexto da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém (PA). A iniciativa distribuiu mais de 5.000 abanos durante o evento, representando diferentes povos indígenas do Brasil, com o objetivo de destacar a importância da demarcação e proteção dos territórios tradicionais, do enfrentamento das mudanças climáticas, da conservação da biodiversidade e da geração de renda para comunidades indígenas (FUNAI, 2025). Entre esses artefatos, estiveram quase 500 kòri, abanos tradicionais Iny confeccionados a partir do olho da palmeira babaçu (horeni), que chegaram ao evento a partir da coordenação da pesquisadora e artesã Tuinaki Koixaru. Durante esse processo, a antropóloga Marilia Morais, que colaborou na escrita e execução do projeto, recordou-se de ter visto um grande kóri na coleção Fritz Krause, quando realizou trabalho de campo no GRASSI Museum (Leipzig, Alemanha) e compartilhou informações museológicas e as fotografias disponíveis do artefato com Tuinaki, que já trabalha em colaboração com o GRASSI Museum desde 2021. A partir daí, teve início o diálogo que embasa a apresentação deste trabalho. Inspirado na noção de vida social das coisas (Appadurai, 2008), vamos seguir a trajetória dos kòri como eixo analítico para compreender a articulação entre agência indígena, políticas públicas, pesquisa antropológica e campo museológico. Do cotidiano das aldeias ao evento internacional, passando pelo reencontro com a coleção de Krause, o trabalho vai descrever modos de produção dos kòri, motivações Iny para participar da ação e efeitos dessa circulação em termos de visibilidade, transmissão de saberes, geração de renda e defesa dos territórios indígenas. Pretendemos relatar as diferentes etapas da participação na ação, desde a elaboração do projeto submetido ao edital da FUNAI, até a produção e entrega dos kòri e na COP30. E, por fim, refletir sobre o reencontro entre os artesãos e artesãs Iny (Karajá) que produzem os kòri atualmente, com o kòri presente na coleção Fritz Krause, formada em 1908, a partir de fotografias, informações museológicas e contextualização histórica. A proposta contribui para este GT chamando atenção, por um lado, para as perspectivas indígenas em torno da experiência com os kòri na ação Abanos do Clima, e, por outro, para a forma como esse contexto específico possibilitou, de maneira que não estava inicialmente prevista, uma ação de restituição imaterial e disseminação digital (Hamburger, 2022), ao reconectar um artefato da coleção localizado em um museu estrangeiro à representantes de sua comunidade de origem.
-
Encontrando Mestre Vitalino - artefatos etnográficos, saberes tradicionais e arte na reconstrução do Museu Nacional
— Renata de Castro Menezes
— Renata de Castro Menezes
A partir da identificação de quatro fragmentos de cinco peças de Mestre Vitalino e de sua família dentre o material resgatado do incêndio que em 2018 atingiu violentamente o Museu Nacional, esta comunicação pretende refletir criticamente sobre os diferentes "encontros" suscitados pelas peças. Primeiramente, no passado, pelo esforços de pesquisadores que trouxeram os objetos para o Museu entre os anos 1950-1960 como "objetos etnográficos" para compor a Coleção Regional da instituição. No pós-incêndio, o resgate das peças só foi possível graças à colaboração de arqueólogos e técnicos, e sua identificação demandou o esforço conjunto de pesquisadores de diversas instituições junto a um dos familiares de Mestre Vitalino, Vitalino Neto, que detém o conhecimento das técnicas do artista. Ao serem reclassificados como "objetos resgatados identificados", os fragmentos geraram diálogos entre pessoas e instituições, quanto à presença e relevância das obras de Vitalino em acervos, galerias, livros de antropologia, filmes etnográficos, catálogos de exposição e oficinas de mestres e mestras pernambucanos (pois a produção continua sendo feita). E a doação, por Vitalino Neto, de uma peça de sua autoria para o acervo do Museu Nacional, renovou intergeracionalmente os encontros entre os ceramistas de Caruaru e um museu da nação. Assim, trata-se de tomar um evento de identificação como estímulo à reflexão sobre museus, coleções, temporaliddes, formas de classificação, compartilhamento de saberes e modalidades de relação.
-
Projeto Presença Karajá: estado da arte e perspectivas
— Renata de Sousa e Dias, Bárbara Freire Ribeiro Rocha, Tuinaki Koixaru França Karajá, Vitória Oliveira de Faria Souza, Marilia Caetano Rodrigues Morais, Manuelina Maria Duarte Cândido
— Renata de Sousa e Dias, Bárbara Freire Ribeiro Rocha, Tuinaki Koixaru França Karajá, Vitória Oliveira de Faria Souza, Marilia Caetano Rodrigues Morais, Manuelina Maria Duarte Cândido
Nossa comunicação tem por objetivo apresentar uma atualização sobre os avanços do Projeto Presença Karajá: cultura material, tramas e trânsitos coloniais (PPK), e suas perspectivas futuras. Este projeto já mapeou 81 instituições museais no Brasil e no exterior que possuem em suas coleções as ritxoko, bonecas confeccionadas pelas mulheres do Povo Iny Karajá em barro cru, cozido ou cera, que foram alçadas ao patamar de patrimônio cultural imaterial do Brasil em 2012, quando o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) aprovou sua inscrição nos Livros dos Saberes e das Formas de Expressão: 1) Saberes e práticas associados aos modos de fazer bonecas Karajá e 2) Ritxoko: expressão artística e cosmológica do povo Karajá. Desde o início do projeto, para além da ampliação do mapeamento, foram realizados trabalhos mais aprofundados com algumas coleções, que consistiram na coleta de informações, documentação museológica, registros fotográficos e outros registros sobre as peças constituintes de cada conjunto. Quando possível, foi preenchido um Instrumento Comum para a Coleta dos Dados da Pesquisa (IC), elaborado pelo projeto, e que será fundamental para permitir a disponibilização dos resultados da pesquisa e de um conjunto de informações digitais sobre os acervos identificados na plataforma Tainacan. Neste momento, consideramos a planilha e seu manual de preenchimento consolidados, e estamos procedendo a uma revisão minuciosa das planilhas que já foram preenchidas, priorizando aquelas correspondentes às instituições que assinaram com o PPK os termos de cessão de uso de imagens: Grassi Museum für Völkerkund (Leipzig), Museu Antropológico (UFG), Museu Goiano Professor Zoroastro Artiaga, Centro Cultural Jesco Puttkamer e Museu das Culturas Brasileiras.
-
Museus indígenas, memória e autorrepresentação: o acervo do Museu Eyêê Kafuba e a construção de uma agenda de pesquisa Karão Jaguaribaras do Ceará
— Rhuan Carlos dos Santos Lopes, Gleidison Karão Jaguaribaras (Francisco Gleidison Cordeiro Lima), Merremii Karão Jaguaribaras
— Rhuan Carlos dos Santos Lopes, Gleidison Karão Jaguaribaras (Francisco Gleidison Cordeiro Lima), Merremii Karão Jaguaribaras
Este trabalho analisa a constituição histórica e política do Museu Eyêê Kafuba, organizado pelo povo Karão Jaguaribaras, localizado nas divisas dos municípios de Aratuba e Canindé, no estado do Ceará, com foco na caracterização de seu acervo etnográfico e arqueológico. Argumenta-se que a formação desse acervo não responde apenas a critérios técnicos ou classificatórios externos, mas incorpora narrativas próprias sobre processos históricos, territorialidades e experiências de resistência indígena, tensionando debates consolidados no campo da Arqueologia, da Antropologia e da Museologia. Inserido no contexto das mobilizações indígenas pelo reconhecimento de direitos culturais e territoriais e pelo fortalecimento da identidade coletiva, o museu configura-se como um espaço de memória ativa, resistência e autorrepresentação, no qual objetos, vestígios arqueológicos e registros etnográficos articulam diferentes temporalidades. A partir da descrição das atividades institucionais do museu e das narrativas produzidas pelo próprio povo sobre esse espaço, o trabalho discute o papel dos museus indígenas na construção de agendas de pesquisa próprias, protagonizadas por pesquisadores e intelectuais indígenas. Nesse sentido, o Museu Eyêê Kafuba é compreendido como equipamento que redefine as condições de produção do conhecimento, questiona modelos hegemônicos de formação de coleções etnográficas e arqueológicas e amplia as possibilidades de diálogo intercultural no âmbito acadêmico.
-
Austríacos no Brasil, objetos brasileiros na Áustria: um estudo sobre seis vestes mascaradas brasileiras e descolonização em museus etnográficos
— Samuel Abner Fernandes Pinheiro
— Samuel Abner Fernandes Pinheiro
Este trabalho investiga os desafios que a falta de informações sobre coleções etnográficas pode representar para museus contemporâneos que buscam adotar práticas decoloniais. O enfoque será dado a um estudo de caso de seis objetos que compõem a coleção brasileira do Weltmuseum Wien, um museu etnográfico em Viena, Áustria. Essa coleção de objetos originários de comunidades indígenas brasileiras passou a ser constituída principalmente em 1817, a partir de uma expedição organizada pelo império austríaco em meio ao casamento de Maria Leopoldina, então princesa da Áustria, com Dom Pedro I, príncipe herdeiro do trono português. Desde essa expedição, artefatos etnográficos brasileiros foram transferidos à Viena em diferentes momentos, resultando em uma coleção de mais de 5.000 objetos alocados no Weltmuseum Wien. A instituição, inaugurada oficialmente em 2017, busca adotar práticas decoloniais comuns a museus etnográficos que desejam discutir criticamente o passado colonial. Ações colaborativas com grupos indígenas, exposições projetadas para discutir a relação entre museus etnográficos e colonialismo e projetos com lideranças indígenas são alguns exemplos de práticas desenvolvidas no Weltmuseum Wien. A pesquisa parte desse contexto atual do museu vienense para discutir sobre como a falta de dados acerca da formação da coleção brasileira afeta ações decoloniais no Weltmuseum Wien. A análise se apoia no pressuposto de que a ausência de informações sobre a coleção dificulta a identificação de se violência colonial esteve associada ao colecionismo dos objetos. Sendo assim, a hipótese é que sem dados precisos, a adoção de medidas reparatórias, restituições e a comunicação crítica do passado colonial atrelado a coleções etnográficas poderiam ser impactadas. A pesquisa foi realizada no próprio Weltmuseum Wien, com uma metodologia que mesclou investigação dos arquivos históricos localizados na instituição, estudo da composição material das seis vestes mascaradas centrais para a pesquisa e entrevistas com Claudia Augustat, curadora do museu responsável pela coleção brasileira. A conclusão do estudo foi que a falta de dados históricos pode representar dificuldades para a adoção de medidas decoloniais em relação a objetos etnográficos. Preocupação semelhante foi identificada para questões culturais dos artefatos, já que a inexistência de detalhes dos sentidos dos objetos para as comunidades originárias representa igualmente um desafio em manejar coleções etnográficas em contextos de descolonização. A conclusão da pesquisa advoga pela necessidade de incorporar comunidades indígenas em museus, aumentando seu protagonismo a fim de construir práticas museológicas verdadeiramente decoloniais.
-
Potes, bilhas e panelas: um reencontro com as cerâmicas das bisavós Yepá Mahsã
— Tatiane Vesch
— Tatiane Vesch
Este trabalho acompanha uma senhora do povo Yepá Mahsã (Tukano), do Alto Rio Negro, em visitas a acervos cerâmicos de museus no Sudeste brasileiro. A pesquisa ganha corpo a partir do desejo manifesto da artesã - "Quero ver as cerâmicas da minha bisavó", enunciado que desloca as peças musealizadas da condição de artefatos inanimados para a de referências vivas de saber-fazer, memória e ancestralidade.
O encontro com potes, bilhas e panelas não se configura como uma observação de "objetos sem vida", mas como uma correspondência entre gerações. O gesto das antepassadas, impresso no barro, convoca memórias e afetos que tensionam os regimes de visibilidade impostos pelas vitrines e reservas técnicas. As cerâmicas, historicamente tratadas como objetos de coleção, são acionadas como presenças que mantêm vínculos com práticas transmitidas ao longo do tempo.
Ao priorizar a narrativa da artesã e sua relação com as peças, o trabalho propõe uma reflexão situada sobre as coleções etnográficas e seus silenciamentos. Nesse processo, o reencontro não busca a fixação do passado, mas a retomada de uma "correspondência" (Ingold, 2017), na qual as cerâmicas permanecem em devir, expandindo seus sentidos para além dos limites institucionais.
Coordenação
Ana Cristina Rodrigues Guimarães (Advocacia Geral da União)
Camila Sissa Antunes (UNIPAMPA)
Este grupo de trabalho se constitui como um espaço de diálogo interdisciplinar e aprofundamento teórico-metodológico sobre as múltiplas relações entre grupos sociais, seus territórios, práticas patrimoniais e os desafios socioambientais atuais. Reconhece-se que comunidades tradicionais e coletivos urbanos, em diferentes escalas e contextos, apresentam processos comuns de construção de identidade, luta por reconhecimento, estratégias de resistência, além de modos próprios de apropriação, uso e atribuição de significado ao território e ao patrimônio. A antropologia contemporânea tem se interessado em pensar articulações e relações entre sujeitos, coletivos e o espaço, especialmente no contexto urbano e dos territórios em disputa. Desta forma, considera-se que conceitos como território, paisagem e patrimônio cultural são centrais para compreender dinâmicas de pertencimento, resistência, transformação e produção de sentidos em sociedades marcadas por desigualdades, mobilidades e múltiplas formas de engajamento político e cultural. Propomos pensar essas conexões de maneira a construir um olhar que contemple perspectivas plurais de perceber e experienciar os territórios. A proposta é a interlocução entre pesquisas que abordem dinâmicas de patrimonialização, conflitos e negociações territoriais, gestão compartilhada de bens comuns, experiências de resistência, práticas de sustentabilidade, movimentos sociais, bem como disputas por direitos socioambientais, culturais e territoriais.
Títulos e Resumos
-
Comunidades tradicionais de origem açoriana em Santa Catarina: estratégias de resistência e luta por reconhecimento
— Ana Cristina Rodrigues Guimarães
— Ana Cristina Rodrigues Guimarães
A partir do estudo comparativo das comunidades tradicionais açorianas do Sertão do Ribeirão, em Florianópolis (SC), e de Areais da Ribanceira, em Imbituba (SC), busca-se refletir sobre território, patrimônio cultural e pertencimento, destacando a centralidade da identidade, da memória e da mobilização política na afirmação dessas populações como sujeitos de direitos. A partir de uma perspectiva antropológica, examina a centralidade da mandioca e dos engenhos de farinha como eixos estruturantes dos modos de vida, das redes de sociabilidade e da transmissão intergeracional de saberes e fazeres. A farinhada, as trocas de ramas, as práticas agrícolas, pesqueiras e extrativistas e as redes de reciprocidade configuram um sistema cultural articulado ao manejo ambiental, revelando uma relação entre humanos, território e natureza. O artigo analisa as continuidades e transformações dos modos de vida dessas comunidades frente a processos de desterritorialização, conflitos fundiários e socioambientais, bem como à incidência de políticas públicas de conservação ambiental e de interesses econômicos, como a expansão urbana, a especulação imobiliária e a indústria portuária. Destaca-se a diferença de impacto das unidades de conservação sobre cada comunidade, ora como fator de exclusão e insegurança jurídica, ora como estratégia de proteção territorial. Por fim, o texto examina as estratégias coletivas de organização social, como a criação de associações comunitárias, a autodeclaração como comunidades tradicionais e a mobilização em arenas jurídicas e políticas, evidenciando a luta por reconhecimento, direitos territoriais e permanência no território. O artigo sustenta que essas comunidades não representam resquícios do passado, mas expressões contemporâneas de modos de vida diversos, cuja reprodução social, cultural e simbólica se ancora na articulação entre patrimônio, meio ambiente e pertencimento territorial.
-
Progresso para quem? Uma Análise Etnográfica sobre a Avenida Liberdade e a Comunidade Maria Petronília, Belém/PA.
— Calina Ramos de Brito Souto, Tatiana de Lima Pedrosa Santos
— Calina Ramos de Brito Souto, Tatiana de Lima Pedrosa Santos
Medo de um dia não ter açaí para bater. Essa foi a frase que ouvi de uma das moradoras da comunidade Maria Petronília, localizada no Porto da Ceasa, em Belém (PA), durante as visitas realizadas pelo projeto de extensão Viva Petronilia, vinculado ao LASSAM/PPGAU/UFPA. A fala refere-se aos impactos da construção da Avenida Liberdade, um projeto de via expressa bidirecional do Governo do Estado do Pará. O projeto propõe uma alternativa para desafogar o tráfego na Região Metropolitana de Belém, ofertando uma via de fluxo contínuo. No entanto, a obra atravessa áreas de floresta e comunidades ribeirinhas onde as famílias subsistem do extrativismo e da pesca.
A comunidade foi nomeada em homenagem a Maria Petronilia dos Reis Santos, que faleceu aos 92 anos. Vinda da Vila Caraparu, em Santa Izabel do Pará, ela fixou moradia em uma área adjacente ao Porto da Ceasa (Central de Abastecimento S/A), na década de 1940 após conseguir autorização de uso do solo junto à Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), por ser uma área de domínio da empresa estatal. Atualmente, a área é ocupada por seus descendentes, filhos e netos, que de acordo com o crescimento do núcleo familiar foram construindo outras habitações no mesmo local, formando assim a comunidade.
Obras como essa trazem o discurso de progresso e modernidade, mas para quem? Durante as entrevistas, os moradores sinalizaram alguns impactos negativos da implementação da avenida, dentre eles, a derrubada de uma grande área de açaizal, o que influenciou diretamente na quantidade de latas de açaí extraídas por eles e, consequentemente, diminuiu drasticamente a renda desses moradores. Além disso, a obra interfere na relação cultural do ribeirinho, pois a mudança da dimensão cultural, do dia a dia, já é sentida pelos moradores. A problemática trazido é sobre uma cidade moderna que é baseada na ideia que é preciso dominar ou explorar todo espaço natural existente, destruindo tudo visto como barreira.
Portanto, a partir de um olhar etnográfico, o objetivo é dissertar sobre como a produção da cidade moderna, baseada no discurso de progresso, afeta as regionalidades amazônicas, tendo como estudo de caso a relação entre a comunidade ribeirinha Maria Petronilia e a construção da Avenida Liberdade. O trabalho, além do método etnográfico, basear-se-á em autores como Ailton Krenak, Bruno Latour e Zygmunt Bauman, dentre outros que contribuirão para a discussão sobre a relação entre cidade, cultura e natureza.
Palavras chave: Amazônia, Maria Petronília, Cidade Moderna, Cultura, Ribeirinho.
-
O projeto da compra assistida na Ilha da Pintada, no Bairro Arquipélago de Porto Alegre: O desabitar de populações tradicionais das suas casas e as mudanças no relacionamento com o território
— Cristian Camilo Polania Quijano
— Cristian Camilo Polania Quijano
O programa do governo Minha casa, minha vida que financia moradia popular e foi criado para assistir às populações principalmente do bairro arquipélago (que compreende os territórios da Ilha da Pintada, Ilha Mauá, Ilha Grande dos Marinheiros, Ilha das Flores e Ilha do Pavão) em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, que perderam suas casas na enchente de maio de 2024, permite a possibilidade de adquirir um imóvel de até R$ 200 mil deixando a estrutura da casa habitada em não poucas situações por várias gerações na sua sorte e para ser demolida, se afastando ao mesmo tempo de um território caraterizado pela presencia dos Rios Yacuí e Guaiba (com os constantes alagamentos que são parte do cotidiano em certas épocas), assim como de uma atividade pesqueira tradicional e um conglomerado de saberes, sentires e memorias que dão sentido ao habitar o arquipélago. O proposito da pesquisa é analisar o fenômeno da compra assistida e as transformações no relacionamento com o território e as moradias das famílias que fazem parte deste projeto pôs-enchente, considerando as questões sobre o que significa desabitar um território para comunidades tradicionalmente relacionadas com o mesmo.
-
Patrimônio, território e performance: o Marabaixo do Amapá entre políticas públicas, pertencimento e resistência negra
— Daniel Oliveira Terto
— Daniel Oliveira Terto
Este trabalho apresenta uma análise antropológica do processo de patrimonialização do Marabaixo no estado do Amapá, reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil em 2018, com foco nas relações entre território, práticas culturais e políticas públicas de salvaguarda. A partir de uma etnografia desenvolvida entre 2019 e 2023, que articula pesquisa acadêmica e atuação institucional no âmbito do IPHAN, examino como as marabaixeiras mobilizam a categoria patrimônio cultural como estratégia de pertencimento, resistência e negociação com o Estado. O Marabaixo configura-se como uma prática ritual que articula música, dança, devoção religiosa e ocupação simbólica do território, especialmente nos bairros do Laguinho e da Favela, em Macapá, bem como em comunidades tradicionais rurais do município, entre elas Curiaú e Campina Grande. Os barracões, os cortejos, o corte do mastro e o ciclo festivo constituem paisagens culturais vivas, nas quais se atualizam memórias de ancestralidade negra, experiências de exclusão histórica e formas próprias de relação com os espaços urbano e rural. Dialogando com debates contemporâneos da antropologia do patrimônio, o trabalho analisa os efeitos da patrimonialização como processo relacional e político, evidenciando tanto suas potencialidades quanto seus tensionamentos. Destaca-se o papel central das mulheres marabaixeiras, compreendidas aqui a partir da noção de performance (Smith, 2006), como agentes fundamentais na produção, transmissão e negociação do patrimônio, articulando práticas rituais, gestão comunitária e interlocução institucional. Ao situar o Marabaixo no cruzamento entre patrimônio cultural, território e direitos culturais, a comunicação contribui para o debate proposto pelo GT ao refletir sobre experiências de patrimonialização em contextos marcados por desigualdades socioespaciais, disputas simbólicas e desafios de gestão compartilhada.
-
Mapas e territórios ativos: uma leitura do território a partir de Capivari (MG)
— Gustavo Fiorini Marques
— Gustavo Fiorini Marques
Em 1998, foi estabelecida a Área de Proteção Ambiental (APA) Estadual Águas Vertentes sob a comunidade quilombola de Capivari, no município de Serro, no Alto Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Naquele ano, estes quilombolas viram seu território fortemente remodelado.
A partir de então, uma série de readequações foram necessárias, sem o devido apoio do Estado para que a população de Capivari pudesse conviver com a nova configuração territorial. Ao passo que poderíamos pensar que neste lugar essa nova territorialidade desconfiguraria o território quilombola, na verdade foi apresentada a realidade de multiterritorialidades (Haesbaert, 2004). Esta nova configuração não somente readequou sentidos na relação com a terra, como também prescreveu regras e ordenamentos não necessariamente em diálogo com aqueles que exercem cotidiana e historicamente a vivência, produção e ordenamento deste espaço. Como resultado, estes mesmos moradores foram reduzindo suas movimentações no território.
Existem perspectivas distintas acerca do território, em que grandes empreendimentos o veem como um espaço oco. No entanto, em caminhadas realizadas com os moradores, viu-se que, na verdade, este território é extremamente ativo. Como metodologia, além das caminhadas, pensa-se os aspectos do registro: o mapeamento. O registro dessas caminhadas aliado aos discursos dos moradores nos demonstra o inverso, ou seja, um território ainda ativo e ainda persistente no processo histórico que o produz. Este trabalho pretende, assim, demonstrar como o mapeamento pode ser uma ferramenta potente de construção e registro do que existe e faz parte do território, excluindo o olhar a ele como um tabuleiro, mas como território tradicional gerido pela população e o Estado.
-
Memória e ressignificação de território: de complexo da FEBEM a Parque Estadual do Belém
— Iara Silva Miranda de Oliveira
— Iara Silva Miranda de Oliveira
O presente trabalho pretende apresentar uma observação participante realizada em 2023, no Parque Estadual do Belém Manual Pitta, cujo objetivo foi compreender o parque como um lugar de memória (NORA, 1993) para os frequentadores, moradores ou não da região. Uma memória que pode ser coletiva ou individual, evoluindo constantemente pela dinâmica entre lembrança e esquecimento, sendo inconsciente de suas deformações sucessivas, vulnerável a todos os usos e manipulações, suscetível de longas latências e de repentinas revitalizações (Nora, 1993, p.9). Em paralelo, buscamos explorar a relação entre o visível e o invisível na memória dos eventos do Complexo do Tatuapé. Buscamos compreender como a memória, enquanto um fenômeno que envolve a lembrança e o esquecimento, se manifesta entre os frequentadores do parque, levando-nos a compreender se há um enfraquecimento ou uma preservação dessa memória.
O parque foi inaugurado em 2012 após a requalificação do espaço que por mais de 100 anos foi ocupado por instituições de cumprimento de medida socioeducativa. Até meados de 2007, abrigava o Complexo do Tatuapé, com 18 unidades de internação da Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (FEBEM), posteriormente renomeada para Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Fundação CASA). Essa mudança reconfigurou a estrutura organizacional, após várias denúncias de violência, conflitos e rebeliões.
O mesmo processo de requalificação aconteceu no Complexo Imigrantes da FEBEM, atual Parque Estadual Fontes do Ipiranga, e na antiga Casa de Detenção do Carandiru, que foi demolida e transformada no Parque da Juventude (Carvalho, 2022).
Em 2025, retomamos ao espaço para realizar um roteiro de memória, na Jornada do Patrimônio, na cidade de São Paulo. Durante a atividade foi possível complementar o trabalho realizado a partir da troca com os participantes do roteiro, tendo em vista que a proposta era uma troca de experiências e memórias daquele espaço.
Portanto, refletir acerca da reconfiguração de espaços anteriormente responsáveis por medidas de privação de liberdade é fundamental para compreender os diferentes modos de relação histórico-social com os espaços urbanos. Não se trata apenas de compreender a morfologia urbana, mas de decifrar os múltiplos significados, narrativas e relações simbólicas que permeiam esses locais, considerando as complexidades das interações humanas que o habitam e o transformam constantemente. Nesse sentido, se faz relevante a memória, especialmente a memória coletiva, isto é, o elo que une os indivíduos a uma comunidade e que organiza as referências comuns do grupo.
-
Patrimonialização e o reinado em Minas Gerais: um estudo de caso do Quilombo Nossa Senhora do Rosário frente às políticas do IEPHA/MG
— Karina Landa da Silva, Steffane Pereira Santos, Gabriel Henrique Gomes da Silva, Rayssa Marrayne César de Sousa
— Karina Landa da Silva, Steffane Pereira Santos, Gabriel Henrique Gomes da Silva, Rayssa Marrayne César de Sousa
O presente trabalho apresenta um estudo de caso sobre o Quilombo Nossa Senhora do Rosário (Ribeirão das Neves/MG) frente às políticas do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG), especialmente quanto aos processos de patrimonialização e as dinâmicas de reconhecimento institucional. A investigação parte da premissa de que o patrimônio, longe de ser uma categoria estática, constitui-se como um campo de forças onde se cruzam agências estatais, memórias coletivas e lutas por direitos territoriais. No contexto mineiro, a atuação do IEPHA tem se destacado pela tentativa de inventariar expressões culturais de matriz africana, buscando romper com uma tradição de preservação historicamente voltada para a herança colonial e arquitetônica das elites. Contudo, essa transição para o reconhecimento e a gestão compartilhada do patrimônio imaterial e material das territorialidades quilombolas impõe desafios metodológicos e políticos significativos.
Ao articular patrimônio, território e memória, o trabalho demonstra como a relação mútua entre os órgãos e detentores produzem formas alternativas nos campos de pertencimento e da gestão da memória, deslocando o patrimônio como campo exclusivo da institucionalidade para o domínio de práticas vivas destacando a autonomia da comunidade. Tais processos não apenas contestam modelos hegemônicos de patrimonialização, mas também ampliam noções e/ou possibilidades de pensar o território, a paisagem e o patrimônio a partir da perspectiva da comunidade detentora, questionando em que medida as normativas do Estado conseguem abarcar a complexidade da vida comunitária sem as reduzir e/ou ignorar os conflitos e dinâmicas subjacentes.
A tradição do reinado vem passando por um processo de reconhecimento institucional desde os anos 2000, com avanços significativos em Minas Gerais. Esse percurso resultou em iniciativas de reconhecimento em escala estadual em 2024 e no registro nacional pelo IPHAN em 2025. Todavia, o Quilombo localizado em Ribeirão das Neves ainda têm enfrentado desafios diante de uma política de salvaguarda inoperante no município, de modo que a atuação do IEPHA toma proporções fundamentais no contexto local. Nesse caso, a política estadual de patrimônio torna-se responsável por representar uma forma de recorrer ao poder público contra as violações de direitos, às dificuldades no acesso às verbas públicas e pela salvaguarda das expressões culturais da comunidade.
Palavras-chave: Patrimonialização; Território; Memória; IEPHA/MG.
-
Quando o asfalto sobe a serra: infraestruturas, conflitos e governo do território em Praia Grande (SC)
— Luana Paulino Luiz
— Luana Paulino Luiz
Este trabalho analisa os conflitos socioambientais produzidos pela pavimentação da rodovia SC-290 (Serra do Faxinal), em Praia Grande (SC), compreendendo a infraestrutura viária como uma tecnologia de governo do território que articula políticas de conservação ambiental, patrimonialização da paisagem e projetos de desenvolvimento. Situada ao sopé da Serra Geral, a região encontra-se na área de influência dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral e do Geoparque Mundial da UNESCO Caminhos dos Cânions do Sul, configurando um território marcado por sucessivas sobreposições institucionais e regimes de gestão.
Historicamente habitada por agricultores familiares, moradores da serra, comunidades tradicionais — entre elas a Comunidade Remanescente Quilombola de São Roque — e outros grupos que construíram modos de vida associados à circulação, ao trabalho e ao uso compartilhado do território, a área passou, nas últimas décadas, por intensos processos de reconfiguração. A criação das Unidades de Conservação, a expansão do turismo e, mais recentemente, a concessão da gestão dos parques à iniciativa privada produziram novas disputas envolvendo comunidades locais, empreendimentos turísticos, órgãos ambientais do Estado e empresas concessionárias.
A partir de uma etnografia situada, desenvolvida em meu próprio território, neste trabalho, examino como a pavimentação da SC-290 influi nos modos locais de habitar, circular e se relacionar com a paisagem. Argumenta-se que a estrada opera como dispositivo político que reorganiza regimes de visibilidade, acesso e controle do território, redefinindo pertencimentos e produzindo assimetrias de poder. Ao acompanhar controvérsias associadas à gestão ambiental, à conservação da natureza e à exploração turística, o estudo evidencia como discursos de progresso, integração regional e sustentabilidade são mobilizados para legitimar intervenções infraestruturais que frequentemente entram em tensão com saberes, práticas e territorialidades historicamente constituídas.
Nesse processo, a estrada emerge simultaneamente como promessa de desenvolvimento e como linha de fratura socioambiental, intensificando conflitos entre a gestão ambiental e as comunidades que vivem e produzem a paisagem, ao passo que se torna espaço de negociação, resistência e reinterpretação do território, no qual diferentes coletivos humanos e mais-que-humanos participam da produção contínua da paisagem. Dialogando com debates da antropologia das infraestruturas e da paisagem, o trabalho contribui para as discussões do GT ao demonstrar como políticas ambientais e obras de infraestrutura atuam como mecanismos de governo do território, produzindo conflitos, redefinindo o patrimônio e reconfigurando as relações entre ambiente, paisagem e pertencimento.
-
Assentando o Axé desse Chão": carnaval, identidade e sociabilidade numa escola de samba do sul do Brasil
— Maria Caetana Ribeiro Da Silva, Camila Sissa Antunes
— Maria Caetana Ribeiro Da Silva, Camila Sissa Antunes
Este trabalho procura analisar as interfaces entre a Escola de Samba S.E.R.E.S Unidos Da Ilha do Marduque e o bairro Mascarenhas de Moraes, localizado na cidade de Uruguaiana (RS), na perspectiva de compreender a importância histórica e simbólica da relação entre a escola, os moradores e o território. O Carnaval de Uruguaiana é reconhecido como o maior carnaval fora de época do sul do Brasil, reconhecido por seus desfiles com elaboradas alegorias, fantasias e enredos, atraindo milhares de turistas e movimentando a economia local, destacando-se pela cultura e integração na fronteira gaúcha. Considera-se uma importante manifestação cultural, marcada pela ancestralidade, tradição, pluralidade e expressão corporal. Suas origens remontam às décadas de 1940 e 1950, quando a cidade celebrava o carnaval principalmente por meio dos tradicionais blocos e bailes populares que ocupavam as principais ruas e clubes sociais,tornando-se fora de época nos anos 2000 e atualmente é composto por nove escolas de samba consolidadas (seis no grupo especial e três no grupo de acesso), que configuram-se como espaços de sociabilidade, convivência e produção artística e cultural da cidade. Neste estudo, de caráter etnográfico, o recorte concentra-se na Escola de Samba Unidos Da Ilha do Marduque, situada em um bairro historicamente marcado por processos de marginalização social. Esta escola constitui-se como um espaço relevante de sociabilidade, integração e ressignificação da identidade da comunidade local. Assim, é um dos objetivos desta pesquisa compreender como a atuação contínua da Ilha do Marduque elevou o nome do bairro para além do cenário carnavalesco de Uruguaiana, consolidando-o como um ambiente reconhecido pela formação de artistas e pela constituição de uma das maiores e mais expressivas escolas de samba do município Esta pesquisa procura evidenciar em que medida o Carnaval fora de época de Uruguaiana ultrapassa a dimensão de um evento festivo, sendo compreendido como um espaço contínuo de produção cultural, pertencimento e construção identitária, configurando-se como um significativo patrimônio cultural local. A participação ativa em diferentes funções, associada ao envolvimento prolongado de seus integrantes, reforça a tradição e a hereditariedade no ambiente carnavalesco. Portanto, este trabalho analisa o carnaval como um espaço plural, vivo e de elevada relevância cultural, na esteira dos estudos antropológicos brasileiros sobre o carnaval que evidenciam sua complexidade enquanto fenômeno ritualístico, artístico e político, capaz de revelar, tensionar e reinventar as múltiplas dimensões da identidade.
-
Quando as plantas brotam na arena patrimonial: saberes das/os raizeiras/os do Cerrado
— Marilia Amaral
— Marilia Amaral
Raizeiras/os do Cerrado são conhecedores das funções medicinais das plantas do bioma, utilizadas na produção de remédios caseiros como garrafadas, xaropes, tinturas e pomadas. Essa prática foi historicamente construída a partir da experiência cotidiana na vegetação nativa, em contextos de vida rurais marcados pela limitação de acesso aos serviços públicos de saúde. Desde a infância, esses sujeitos acumulam saberes botânicos e terapêuticos aprendidos na interação entre pessoas, plantas e coisas, de modo que tal conhecimento decorre tanto da vivência quanto da necessidade. Atualmente, organizam-se em diferentes iniciativas coletivas, com destaque para a entidade representativa Articulando Pacari, que encaminhou, em 2006, ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o pedido de reconhecimento da atividade como patrimônio cultural, hoje em fase de produção de inventário. A motivação foi a busca de legitimidade para o exercício da profissão, avanços do agronegócio e determinadas exigências regulatórias das agências estatais da saúde. Este trabalho analisa os efeitos dessa prática cultural situada entre patrimônio cultural e natural, saúde e meio ambiente, bem como os impactos das políticas de patrimonialização sobre os saberes relativos às plantas e as formas de organização desses sujeitos, examinando como as plantas brotam no patrimônio cultural e, reciprocamente, como o patrimônio germina nesse campo.
-
Onde os rios se encontram: vidas e saberes dos pescadores da Barra do Longá (PI)
— Mylena Karine dos Santos Malheiros
— Mylena Karine dos Santos Malheiros
Este resumo apresenta a narrativa dos pescadores do povoado Barra do Longá, em Buriti dos Lopes (PI), que atuam em um fenômeno natural singular: a confluência dos rios Parnaíba e Longá, na divisa entre Piauí e Maranhão, cujas águas seguem para o Delta do Parnaíba. Alinhado à proposta do GT, o objetivo é mapear a resistência desses pescadores diante das adversidades: a seca e a crescente escassez de pescado, bem como as dificuldades sociais inerentes à sua atividade. A pesquisa se apoia na oralidade como método, permitindo que as próprias vozes dos pescadores conduzam suas histórias e revelem como a vivência com os rios influencia seu senso de pertencimento ao território. Observa-se que, com o tempo e o avanço da modernidade, o ofício da pesca tem perdido espaço na comunidade, tornando a figura do pescador menos central do que antes. Por fim, pretende-se refletir sobre o papel desses atores na formação e desenvolvimento do município, reconhecendo-os como patrimônio vivo ligado ao encontro dos rios, e analisar suas estratégias de adaptação frente às mudanças climáticas e sociais cada vez mais presentes em suas vidas.
-
Proposta de Chancela da Paisagem Cultural do rio Uruguai
— Silvana Terezinha Winckler, Arlene Renk, Guilherme Augusto De Toni, Reginaldo Pereira
— Silvana Terezinha Winckler, Arlene Renk, Guilherme Augusto De Toni, Reginaldo Pereira
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), respaldado em medidas da Unesco, por meio das Portarias 127/2009 e 104/2017, estabeleceu princípios e diretrizes para a Chancela de Paisagem Cultural. A autarquia reconhece que a Chancela da Paisagem Cultural brasileira é relativamente recente e que o instrumento proposto, a portaria 104/2017, não substitui medidas anteriores, mas as complementa. O IPHAN agrega nova possibilidade de reconhecimento de bens culturais, diversificando o quadro brasileiro. O objetivo da comunicação é estudar a possibilidade de patrimonialização, por meio da Chancela da Paisagem Cultural, do trecho nacional do rio Uruguai ainda livre de hidrelétricas. Trata-se do único trecho vivo do rio em território brasileiro, face à implantação de dez hidrelétricas de grande porte da nascente até a proximidade da UHE planejada. Nesse trecho está planejada há mais de quarenta anos a instalação da UHE Itapiranga, com potência de 725 MW, que abrangeria os municípios de Itapiranga, Mondaí, São João do Oeste (em Santa Catarina) e Pinheirinho do Vale, Caiçara, Vicente Dutra e Vista Alegre (no Rio Grande do Sul). O longo planejamento de 40 anos tem encontrado forte resistência regional por parte da população rural e urbana, apoiada por movimentos sociais como MAB, MST e MMC, mobilizada em defesa da paisagem. Estudar a proposta de Chancela de Paisagem Cultural implica em analisar a resistência regional - expressa em manifestações como a instalação de cruzes no memorial de luta contra a barragem, ocupação da prefeitura municipal, procissões - a estratégia hidroenergética nacional e a postergação, até o momento, da iniciativa de construção de usinas. Implica, igualmente, em estudar fatores étnico-culturais acionados pelas comunidades no embate com a política energética, a agência e experiência dessas comunidades frente aos Projetos de Grande Escala. Além disso, demanda o estudo dos limites e das potencialidades da portaria, na hipótese de ser utilizada na salvaguarda do rio. Trata-se pesquisa qualitativa, embasada em trabalho de campo, literatura e fontes documentais.
-
Articulação institucional no processo de regularização fundiária em contexto urbano da Comunidade Quilombola dos Arturos-MG
— Vanessa Costa Cançado Silva, Breno Trindade da Silva
— Vanessa Costa Cançado Silva, Breno Trindade da Silva
O Censo Demográfico de 2022 revelou que Minas Gerais abriga a terceira maior população quilombola do Brasil. Apesar desse dado expressivo, o estado apresenta um dos quadros mais críticos de regularização fundiária de territórios quilombolas: dos mais de 270 processos abertos no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), apenas dois resultaram, até o momento, em titulações parciais. Passados mais de vinte anos da promulgação do Decreto nº 4.887/2003, que regulamenta o procedimento de reconhecimento, delimitação e titulação desses territórios, a morosidade estatal tem produzido efeitos diretos sobre as condições de reprodução social, cultural e territorial das comunidades quilombolas, especialmente em contextos urbanos e metropolitanos.
Diante desse cenário, este trabalho analisa a experiência de regularização fundiária do território tradicionalmente ocupado pela Comunidade Quilombola dos Arturos, localizada no município de Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte. O caso em questão destaca-se por articular, de forma inédita, políticas de patrimônio cultural, ordenamento urbano e regularização fundiária, mobilizando diferentes escalas do poder público — municipal, estadual e federal — a partir da atuação política da própria comunidade e de suas lideranças.
Com base em pareceres técnicos, notas informativas e documentos institucionais produzidos no âmbito do licenciamento urbanístico, da política de patrimônio cultural e das tratativas fundiárias, o artigo discute como a categoria “patrimônio cultural” passou a operar como ferramenta estratégica de reconhecimento territorial, incidindo sobre instrumentos de planejamento urbano e tensionando modelos hegemônicos de gestão do solo. Argumenta-se que a experiência dos Arturos evidencia formas alternativas de produção do território em contextos urbanos, nas quais pertencimento, memória, paisagem e direitos territoriais são construídos de maneira relacional e conflitiva.
Ao dialogar com debates antropológicos sobre patrimônio, meio ambiente e territorialidades, o trabalho contribui para o GT ao demonstrar como comunidades tradicionais urbanas elaboram estratégias políticas complexas frente às limitações estruturais do Estado, ampliando o campo de reflexão sobre patrimônio cultural como dispositivo de mediação, resistência e produção de futuros possíveis.
Coordenação
Fernanda Oliveira Silva (IFMT / UFMT)
Jordeanes do Nascimento Araújo (UFAM)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Mariana Vieira Galuch (UFAM)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Paula Stolerman Araujo (UNIR)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Maria Audirene de Souza Cordeiro (UFAM)
Este GT, iniciado na VIII Reunião Equatorial de Antropologia, tem como objetivo reunir e ampliar discussões sobre projetos que se atualizam no ideário desenvolvimentista. Tais projetos, em geral, envolvem a apropriação de territórios tradicionalmente ocupados, como os de povos indígenas e comunidades tradicionais, ou incidem sobre áreas visadas pela lógica da exploração capitalista, desconsiderando outras formas de territorialidade nelas existentes. Partindo do pressuposto de que a questão ambiental é conflitiva, devido aos diferentes usos e sentidos atribuídos à natureza, observamos que o cenário político-econômico do capitalismo contemporâneo tem aprofundado estratégias agro-hidro-minerais, intensificando processos de exploração e de commoditização da natureza. Interessa-nos, portanto, reunir trabalhos que abordem temas como “territorialidade”, “políticas de gestão territorial”, “conflitos (sócio) ambientais”, “conflitos territoriais” e “violações de direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais”. São igualmente bem-vindas propostas que analisem atos de Estado que atualizam ou produzem conflitos no “campo do desenvolvimento”. Também integram o escopo deste GT investigações sobre projetos vinculados ao mercado de carbono, como Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA), iniciativas de REDD+ e outros modelos de créditos de carbono associados à redução do desmatamento, compreendidos como novas arenas de disputa (sócio) ambiental.
Títulos e Resumos
-
Entre capturas e alianças: o processo de concessão-privatização do caso do Parque Estadual de Itaúnas-ES
— Amanda Kapiche Brito
— Amanda Kapiche Brito
Considerando o avanço capitalista e a sua relação com a degradação ambiental, este estudo pretende analisar a discussão envolvendo o processo de concessão de unidades de conservação capixabas para o setor privado, mais conhecido como Programa Estadual de Desenvolvimento Sustentável das Unidades de Conservação do Espírito Santo (PEDUC). A partir do caso do Parque Estadual de Itaúnas (PEI), localizado em Conceição da Barra-ES, o estudo busca compreender os impactos da expansão turística pelas lentes dos movimentos de resistência das comunidades atingidas, que atuam para impedir as concessões, em que tais mobilizações unem estratégias de alianças entre humanos e não humanos nos limites e nas imediações do parque. Por ser um dos primeiros parques a serem pensados como um projeto piloto de concessão ao longo de 35 anos, bem como por já ter um histórico marcado de conflito ambiental e ser reconhecido pelo seu potencial turístico, soma-se a contradição do papel do Estado, que após ter sido o agente mobilizador da criação dessa área de conservação em 1990, passa agora a ser também o responsável em facilitar a chegada de megaempreendimentos no local. Diante do crescimento nacional das políticas de concessão de unidades de conservação, o estudo propõe uma investigação etnográfica e documental ao somar com um diálogo crítico sobre os impactos frente às mudanças climáticas em plena aceleração. Por fim, urge o registro e a problematização da contradição feita sobre o uso “sustentável” desses ambientes, que opera sobre uma lógica de administração dos recursos naturais ao prometer estruturas ecológicas, ecoturismo e geração de renda, enquanto promove o apagamento das histórias locais e dos conflitos existentes, ao dar continuidade ao processo de mercantilização e separação entre natureza-cultura.
Palavras-chaves: Concessão-privatização; Unidades de Conservação; Conflitos ambientais; Relações naturezasculturas
-
O conflito sob o signo da paz: desenvolvimento, desterritorialização e resistência em Itaparica-PE
— Ana Carolina Jatobá de Souza
— Ana Carolina Jatobá de Souza
Este trabalho analisa os conflitos socioambientais e as violações de direitos decorrentes da implantação da hidrelétrica de Itaparica (PE) na década de 1970, entendendo-a como um projeto paradigmático do ideário desenvolvimentista. Objetiva-se demonstrar como sua execução pela CHESF e empreiteiras como a Hidroservice e Mendes Júnior ao promover a commoditização do rio São Francisco, gerou uma violenta reordenação territorial. Esta se materializou num acampamento de obra hierarquizado e numa “cidade livre” marginalizada, desencadeando graves conflitos por terra e indenização. A metodologia associa análise documental a uma etnografia familiar, tomando a casa, à maneira de Damásio (2022), como campo etnográfico denso onde história, memória e afeto se articulam. Minha posição como neta de José Antônio (Rubinho), um dos construtores, não é um viés, mas a condição para acessar as camadas íntimas do conflito. Essa perspectiva permite uma crítica às narrativas oficiais do desenvolvimento a partir do trabalho de memória e da transmissão geracional que inscrevem o símbolo no território do parentesco. Os resultados detalham como a lógica do projeto, ao tratar o território como recurso, promoveu o deslocamento forçado de populações cuja terra detinha significados profundos, oferecendo em troca um sistema de indenizações falho e seletivo. Paradoxalmente, o empreendimento utilizou-se da mão de obra dessas mesmas famílias deslocadas, atraídas pela promessa de “progresso”, enquanto desconsiderava suas territorialidades e suprimia modos de vida. A discussão, situada no debate sobre conflitos ambientais, interpreta a construção do monumento “Paz” no morro — idealizado e erguido pelo topógrafo Jaime Lima e por meu avô, Rubinho, então jovem auxiliar de topografia e indígena Pankará — como um ato de resistência material e simbólica que explicita a contradição central do capitaloceno na região. Mais do que um marco religioso, o símbolo emerge como denúncia direta da violência do desenvolvimento. Sua construção, no entanto, foi marcada pelo anonimato: no início os próprios construtores não reivindicaram a autoria, possivelmente por medo das tensões no ápice do conflito. Esse silêncio é, ele próprio, um dado etnográfico do clima de intimidação. Os achados evidenciam que o monumento se constitui, portanto, em um potente registro etnográfico da resistência, no qual a inscrição da palavra “Paz” na paisagem transformada pelo conflito documenta criticamente a agência de corpos e comunidades tradicionais frente aos processos hegemônicos de desterritorialização, exploração e violação de direitos.
-
Desenvolvimento, Colonialidade E Expropriação: O "Governar Pela Espera" Como Tecnologia Política Nos Megaprojetos Do Maranhão
— Anna Carollina da Silveira Frazão, Mayra Portela Silva Matteucci, Horácio Antunes de Sant'Ana Júnior
— Anna Carollina da Silveira Frazão, Mayra Portela Silva Matteucci, Horácio Antunes de Sant'Ana Júnior
Em diálogo direto com a proposta de debater a commoditização da natureza, este trabalho analisa o “governar pela espera” como uma tecnologia política central nos conflitos socioambientais no Maranhão. Em um contexto de expansão de corredores logísticos, argumenta-se que a dilação temporal na garantia de direitos territoriais não constitui falha institucional. Pelo contrário, a espera opera como um sofisticado mecanismo de gestão que, articulado ao capital, regula desigualmente o acesso ao território e à natureza, incorporando-os à lógica de acumulação, transformando-os em recursos a serem explorados e reeditando ciclos de colonialidade.
Para compreender essa dinâmica, a discussão teórica investiga a arquitetura burocrático-jurídica que legitima a expropriação. Mobilizam-se os conceitos de “atos de Estado” (Pierre Bourdieu) e “Pilhagem Legalizada” (Laura Nader) para demonstrar como a violência simbólica transforma violações de direitos em rotinas administrativas. Nessa perspectiva, a engrenagem estatal é sustentada pela “colonialidade do poder” (Aníbal Quijano) e dialoga com a crítica de Alfredo Wagner Berno de Almeida à “ideologia da decadência”: a construção discursiva do Maranhão como "atrasado" para justificar a imposição vertical de infraestruturas que degradam as relações sociedade e Natureza preexistente.
Metodologicamente, a pesquisa estrutura-se na triangulação de três fontes: (1) revisão bibliográfica sobre desenvolvimento e conflito; (2) levantamento hemerográfico (notícias), mapeando denúncias e discursos públicos; e (3) pesquisa documental em procedimentos administrativos. O objeto empírico foca no Corredor da Estrada de Ferro Carajás (EFC) e seus projetos de expansão, analisando o continuum de violência que liga os conflitos consolidados em Açailândia, no sul do estado, às novas ameaças de desterritorialização na Ilha do Cajual em Alcântara, no litoral maranhense. A análise coteja a celeridade do licenciamento dessas obras com a letargia imposta à regularização fundiária e às reparações ambientais, ferindo a Constituição de 1988 e a Convenção 169 da OIT.
Conclui-se, portanto, que o Estado atua simultaneamente como modernizador (na infraestrutura) e conservador (na manutenção de hierarquias sociais e raciais). A “espera” revela-se como estratégia ativa de despossessão, seja na demora dos assentamentos, nas titulações de quilombos e terras indígenas ou na criação de unidades de conservação de uso sustentável, garantindo a segurança jurídica do capital em detrimento da segurança jurídica das comunidades e da justiça socioambiental.
-
Imaginários sociotécnicos das políticas energéticas no Brasil e Chile: o hidrogênio verde e a transição energética na América Latina
— Denise Pistilli Rodrigues
— Denise Pistilli Rodrigues
Neste trabalho, proponho uma análise comparativa das políticas energéticas do Brasil e do Chile no contexto da expansão do hidrogênio verde, atentando para as limitações dos dados oficiais disponíveis. Embora ambos os países apresentem elevados percentuais de participação de fontes renováveis em suas matrizes energéticas — cerca de 88% no Brasil e 71% no Chile —, as estatísticas governamentais não discriminam quanto desta matriz corresponde especificamente ao hidrogênio verde. Os dados oficiais se limitam às categorias clássicas de geração (eólica, solar, hidrelétrica e geotérmica), que constituem a base material para a produção desse vetor energético, mas não permitem identificar sua contribuição efetiva.
Diante dessa lacuna, o trabalho recorre a indicadores alternativos, como o número de projetos de hidrogênio verde por país e por região, bem como os volumes de investimento destinados a esses empreendimentos. A análise desses dados evidencia a concentração espacial dos projetos em territórios dotados de recursos naturais estratégicos — sol, vento e infraestrutura logística — e historicamente integrados a circuitos globais de exploração e exportação. No Brasil, destaca-se o Complexo do Pecém, no Nordeste, consolidado como polo industrial e logístico; no Chile, a região do Atacama emerge como espaço prioritário para a implantação desses megaprojetos.
Além disso, o trabalho mobiliza fontes jornalísticas para analisar como a noção de “soberania energética” é acionada nos discursos de governos, empresas e organismos internacionais, frequentemente em tensão com as experiências e demandas de populações locais afetadas. Observa-se que o hidrogênio verde tende a operar como forma de neocolonialismo energético, ao reinscrever dinâmicas de extrativismo de baixo carbono, nas quais recursos territoriais latino-americanos são mobilizados para atender à demanda energética e industrial de países centrais, enquanto os passivos sociais, ambientais e territoriais permanecem localizados.
Do ponto de vista teórico, mobilizo o conceito de fricção (Tsing, 2004) para compreender como projetos globais de transição energética se materializam em contextos locais por meio de encontros marcados por tensões, resistências e assimetrias de poder. A análise dialoga ainda com a noção de imaginários sociotécnicos (Jasanoff e Kim, 2009, 2013; in Hubert e Spivak, 2021), permitindo compreender como ideias de “desenvolvimento sustentável”, “economia verde” e “justiça climática” operam de forma desigual em escala global, condicionadas por estruturas de dependência energética. Sustenta-se que o hidrogênio verde, longe de representar uma ruptura, pode reconfigurar — e atualizar — lógicas desenvolvimentistas e extrativistas historicamente consolidadas na América Latina.
-
A Abstração Financeira da Floresta: Colonialidade, Grilagem Verde e os Conflitos de Territorialidade em Portel (Marajó/PA)
— Ione Missae da Silva Nakamura, Lílian Regina Furtado Braga, Maria Audirene de Souza Cordeiro
— Ione Missae da Silva Nakamura, Lílian Regina Furtado Braga, Maria Audirene de Souza Cordeiro
Em 2026, o município de Portel (PA) despontou como o laboratório radical da "Economia Verde" na Amazônia, onde a financeirização da floresta transmuta terras públicas e posses ribeirinhas em ativos imateriais. Este artigo problematiza o avanço dos projetos de REDD+ na região, interpretando-os como uma atualização da acumulação por despossessão (HARVEY, 2004) que, sob o verniz da conservação, opera novos cercamentos territoriais. A análise busca desvelar como a tradução da biodiversidade marajoara em métricas de CO2 - uma racionalidade ambiental (LEFF, 2006) puramente contábil - entra em rota de colisão com as territorialidades específicas (ALMEIDA, 2008) de grupos que habitam o território. Amparado na crítica à colonialidade do poder (QUIJANO, 2005), o trabalho demonstra que a imposição de padrões tecnocráticos de gestão ambiental silencia saberes tradicionais e reitera quadros de racismo ambiental (ACSELRAD, 2004), ao converter o modo de vida ribeirinho em variável de compensação para emissões globais. A partir de dados do Ministério Público do Pará e de investigações sobre a legalidade fundiária local, o que se observa no chão do território portelense é que a grilagem verde e a preterição sistemática da Convenção 169 da OIT não são falhas acessórias, mas elementos estruturantes de uma governança que prioriza a natureza-mercadoria. Como conclusão, o artigo ratifica que o cenário em Portel reencena a herança desenvolvimentista amazônica (CASTRO, 2012), na qual a abstração financeira se sobrepõe ao direito originário, torna-se evidente: a regularização fundiária não é apenas um trâmite burocrático, mas a barreira política sine qua non contra a expropriação do comum.
Palavras-chave: Portel/Marajó(PA); REDD+; Conflitos Territoriais
-
Florestas sob contrato: comoditização da natureza, poder e coerção em projetos REDD+ no Marajó/PA
— Laura Carolina Vieira
— Laura Carolina Vieira
A presente investigação analisa os discursos desenvolvimentistas que circundam os projetos de carbono tipo REDD+ em face às comunidades tradicionais e à natureza. Para tal, discute cinco projetos implementados no município de Portel, situado na Ilha do Marajó, estado do Pará. Esses, inseridos no mercado voluntário de carbono, articulando discursos de sustentabilidade, descarbonização e crescimento social e econômico, operam coercitivamente em territórios de comunidades ribeirinhas portelenses. A partir de uma etnografia prolongada baseada na observação participante em empresas de carbono, assim como a análise documental (documentos de descrição de projetos/PDs, atas de reuniões governamentais, ações públicas e literatura cinzenta), são discutidas as racionalidades desenvolvimentistas que permeiam a arquitetura do mecanismo de descarbonização REDD+, demonstrando os efeitos da materialização desses arranjos sobre as territorialidades locais, gestão e uso da terra, direitos consuetudinários e a relação com a natureza. A pesquisa se organiza em três frentes: a arquitetura dos projetos de carbono e os agentes envolvidos - comunidades, empresas e instituições; a agenda climática e os contextos desenvolvimentistas que sustentam os projetos; a prática situacional dos projetos, perspectivando as relações de poder, coerções e racionalidades envolvidas. Reflexiona-se sobre a mercantilização das florestas (comumente ocupadas por modos de produção de vida não capitalistas), a apropriação digital de territórios e os efeitos materiais decorrentes, observando a desarticulação comunitária. É discutido como a atual agenda climática reatualiza conflitos e violações de direitos sob uma lógica de desenvolvimento verde e descarbonificado.
-
A produção jurídica da provisoriedade: judicialização, efeitos de poder e administração do conflito no Quilombo da Lapinha (MG)
— Marcus Vinicius dos Santos Souza, Felisa Cançado Anaya, Alexsânder Nakaóka Elias
— Marcus Vinicius dos Santos Souza, Felisa Cançado Anaya, Alexsânder Nakaóka Elias
A dimensão processual dos conflitos territoriais de povos e comunidades tradicionais no Brasil é subsumida pelo recorte enquadrado dos aparatos administrativos e legais, do campo jurídico (Bourdieu 2007), produzindo efeitos de poder sobre os grupos étnicos envolvidos, seus modos de vida e seus territórios. O presente trabalho pretende analisar o processo de reintegração de posse da Fazenda Casa Grande, parte das terras tradicionalmente ocupadas pela comunidade quilombola e vazanteira da Lapinha, Minas Gerais. A peça jurídica é tomada nesse trabalho enquanto artefato etnográfico (Hull, 2012) capaz de revelar a materialidade das práticas de governo através de seus agentes, discursos e práticas de poder. Nesse contexto, o conflito social passa a ser compreendido enquanto uma questão técnica.
O trabalho analisa o processo de reintegração de posse como um dispositivo de governo (Foucault 1979) que opera para a gestão da população, o controle das condutas e a contenção das retomadas territoriais. Embora reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo desde 2005, a comunidade da Lapinha tem seu direito territorial reiteradamente suspenso por meio de procedimentos judiciais que reconfiguram o conflito como litígio possessório, deslocando-o de sua dimensão histórica, política e coletiva. A retomada da Fazenda Casa Grande, em 2006, inaugura um regime de gestão jurídica do conflito marcado pela suspensão permanente da solução definitiva, decisões possessórias iniciais, conciliatórias e contraditórias que perpassam omissões qualificadas, e pela produção contínua de insegurança jurídica. A posterior incorporação da área pelo Estado para fins de conservação ambiental, sem a realização de consulta prévia, livre e informada à comunidade afetada, intensifica o conflito ao sobrepor racionalidades ambientais e patrimoniais aos direitos étnico-territoriais, contrariando os parâmetros normativos estabelecidos pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 1989), notadamente no que se refere ao dever de consulta livre, prévia e informada e à proteção dos direitos territoriais dos povos tradicionais.O caso evidencia como o direito, longe de operar apenas como instância de resolução, atua como dispositivo que produz contenção, a pretensão de pacificação e o governo do conflito, mantendo-o aberto e administrável, ao mesmo tempo em que a comunidade sustenta práticas cotidianas de resistência e afirmação territorial.
Palavras-chave: Quilombo da Lapinha. Conflitos fundiários. Reintegração de posse. Territórios quilombolas. Direitos territoriais.
-
Racismo ambiental e violação de direitos: impactos subjetivos e institucionais das enchentes em territórios amazônicos
— Mariana Arinana Canuto Pereira, Jordeanes do Nascimento Araújo
— Mariana Arinana Canuto Pereira, Jordeanes do Nascimento Araújo
RESUMO
As enchentes que se repetem em Humaitá (AM) constituem um fenômeno socioambiental multifacetado, cujos impactos extrapolam as perdas físicas e econômicas, alcançando esferas subjetivas, institucionais e coletivas. Ao incidir de maneira acentuada sobre áreas ribeirinhas e periféricas, como o bairro Santo Antônio, tais ocorrências revelam a sobreposição entre vulnerabilidade social, ineficiência da ação estatal e racismo ambiental entendido como a alocação desigual de riscos e danos ambientais que afeta, sobretudo, populações negras e pardas. A investigação adota uma metodologia mista, unindo procedimentos estatísticos descritivos e análises de correlação a partir de questionários aplicados via Google Forms, com exame qualitativo de conteúdo dos relatos obtidos. Fundamentada em abordagens críticas e interseccionais, a análise articula dimensões raciais, territoriais e socioeconômicas. O propósito central é compreender as enchentes como expressões de desigualdades estruturais e históricas, evidenciando violações de direitos e repercussões psicossociais, a fim de orientar políticas e práticas de justiça ambiental na Amazônia.
Palavras chaves: Vulnerabilidade Social; Justiça Ambiental; Direitos Humanos.
-
Processo de Ambientalização em uma Situação de Grilagem de Terras no Estado de Rondônia
— Paula Stolerman Araujo
— Paula Stolerman Araujo
No percurso de elaboração da Tese, me deparei com diversos elementos que compõem o que chamei de campo social do Agro em Rondônia. Apesar de ter como elemento central da pesquisa a relação entre os atos do Estado e a ruína da reserva extrativista Jaci-Paraná, as ações de uma das Associações de Produtores Rurais que reivindica o território da reserva, a ASPRUMIN – Associação de Produtores Rurais de Minas Novas, apontaram para o que parecia ser um elemento do processo de ambientalização das atividades de grilagem de terras. Ocorreu que um dos aportes para reivindicação das terras dentro da reserva pelos invasores (palavra nunca usada pela classe política de Rondônia e por nenhum veículo de imprensa local), foi a produção de um “diagnóstico socioambiental”, intitulado “estudo ambiental”. O documento foi elaborado pela empresa Ambiente Gaia – Consultoria e Engenharia, que a ASPRUMIN contratou por iniciativa própria, para caracterizar a antropização da reserva.
A reserva de Jaci-Paraná foi criada por meio do Decreto 7.335 de 19/01/1996. A demarcação da área da Resex, por meio de decreto, por si só, não garantiu a manutenção do espaço físico e sua correta destinação ao uso dos extrativistas. As denúncias sobre invasões iniciais foram protocoladas no Ministério Público, no entanto, não havia mecanismos de barrar eficazmente esse avanço na medida em que a atitude leniente do estado e suas instituições de controle para com os invasores ou grileiros, beneficiava esses grupos, muitas vezes colocada para a sociedade local como verdadeiros bastiões do desenvolvimento.
Ao encomendarem um estudo ambiental para justificar a desafetação do território da reserva, a Asprumin apostou no poder simbólico dos estudos produzidos
pela empresa especializada nesse campo, visto que legalmente os estudos não foram aceitos como válidos. Isto implica em reconhecer o significado desse tipo de documento num contexto de disputas socieconômicas ambientalizadas. Minha intenção é refletir sobre a produção do estudo ambiental e em que medida funciona como um bem de valor simbólico, em meio às reivindicações sobre o território.
-
O deserto em disputa: lítio e extrativismo verde no Imperial Valley, Califórnia
— Viviane Kraieski de Assunção
— Viviane Kraieski de Assunção
Este trabalho é parte de uma pesquisa em andamento sobre os efeitos sociais da extração de lítio na região desértica do Imperial Valley e do Salton Sea, no sul da Califórnia, Estados Unidos. Partindo de uma pesquisa etnográfica iniciada em 2023, este trabalho discute como o lítio é definido e nomeado, tendo como pano de fundo a manutenção de um ideário desenvolvimentista que reatualiza práticas extrativistas sob o enfoque da sustentabilidade.
Políticas do governo estadunidense anunciadas em 2021, voltadas à expansão de veículos elétricos, reposicionou o lítio como elemento fundamental para a segurança nacional e a transição energética, transformando o território do Imperial Valley em foco de projetos de desenvolvimento. Nesse processo, a região passou a ser nomeada como “Vale do Lítio”, denominação que reforça imaginários de prosperidade e modernização, ao mesmo tempo em que invisibiliza a presença de povos nativos e suas territorialidades. As desigualdades históricas que afetam a população majoritariamente composta por “Mexican-Americans”- visibilizadas nos altos índices de desemprego, falta de acesso à moradia, sistema de saúde, educação, entre outras - são mobilizadas discursivamente para justificar a implementação dos projetos por meio de promessas de crescimento econômico e criação de empregos.
Este trabalho considera os processos de nomeação do lítio como atos políticos, nos quais diferentes agentes - Estado, empresas, cientistas, jornalistas, organizações comunitárias locais e povos nativos - disputam projetos para a região. Nesta dinâmica, o deserto também é ressignificado. Por um lado, o deserto é representado como espaço degradado, vazio ou improdutivo, legitimando a implementação de projetos de desenvolvimento para a superação de tais condições. Neste espectro, a disputa centra-se na definição de como o lucro da extração será distribuído, quais impactos serão gerados e como estes serão mitigados. Por outro lado, o deserto é (re)afirmado por povos nativos como território ancestral de produção da vida, composto por seres tidos como entidades vivas. Esta concepção denuncia a persistência da lógica colonial, e busca interromper a extração, reconhecendo o território como espaço a ser preservado. Essas perspectivas antagônicas evidenciam que os projetos em torno da exploração (ou não) do lítio colocam em disputa a própria concepção do que é o território, sua história e (qual deve ser) seu futuro.
Considerando a extração de lítio no Imperial Valley como um projeto de “extrativismo verde”, a pesquisa busca contribuir para a compreensão sobre como a transição energética tem (re)produzido processos de comoditização da natureza, reinserindo práticas extrativistas em regimes de legitimidade sob o rótulo da sustentabilidade.
Coordenação
Fernanda Cruz Rifiotis (UFPEL)
Andréa de Souza Lobo (UNB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Claudia Fonseca (UFRGS)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Alessandra Rinaldi (UFRRJ)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Fernanda Bittencourt Ribeiro (PUCRS)
O GT objetiva discutir os contornos e os desdobramentos da governança reprodutiva na contemporaneidade, particularmente no Brasil e na América Latina, contextos fortemente marcados por desigualdades de classe, raça e gênero. Nesses cenários, a governança reprodutiva tem operado simultaneamente como mecanismo de controle estatal e arena de resistência, onde estratégias femininas de solidariedade e redes intergeracionais de cuidado emergem diante da ausência histórica de um Estado de bem-estar social consolidado. Nessas condições, a reprodução humana, longe de se mostrar restrita a uma esfera “doméstica” delimitada, revela-se como um processo inevitavelmente entrelaçado com valores morais, interesses institucionais e forças políticas que perpassam o tecido social. Nos últimos anos, a problematização da governança reprodutiva tem ganho novas dimensões através das noções tais como justiça reprodutiva e parentalidades, as quais têm iluminado “zonas de sombra” nesse campo. Assim, tal perspectiva tem revelado como as dimensões reprodutivas atravessam e estruturam não apenas as relações familiares e de parentesco, mas também as diversas configurações do poder público, do panorama econômico e das políticas sociais. Dessa forma, nesse GT, buscamos reunir trabalhos que pensem nas articulações possíveis da governança reprodutiva com parentalidades, economias morais, emoções, regulações estatais e éticas do cuidado, relações intergeracionais, mobilidades, catástrofes climáticas, etc.
Títulos e Resumos
-
Parentalização da vida social e as políticas voltadas para a primeira infância
— Aline Marques da Costa, Alessandra de Andrade Rinaldi, Maria Cristina Corrêa dos Reis, Luma Fortunato Laurindo, Bianca Brito dos Santos
— Aline Marques da Costa, Alessandra de Andrade Rinaldi, Maria Cristina Corrêa dos Reis, Luma Fortunato Laurindo, Bianca Brito dos Santos
A proposta desta apresentação é refletir sobre as conexões entre a parentalização da vida social (Martin e Leloup 2020), a invenção da noção de primeira infância e as práticas de justiça (Schuch 2009) voltadas à entrega voluntária no Brasil. Almejamos compreender de que forma essas noções, inventadas em contexto euroamericano, produzem efeitos diferenciais (de acordo com a raça/etnia, a classe, o gênero e o território) na vidas das pessoas e de suas experiências no âmbito da Justiça da Infância e da Juventude.
O pressuposto que sustenta essa reflexão é o de que existe uma contradição estrutural nas práticas de justiça no âmbito da Infância e Juventude no Brasil. As noções de parentalidades e de primeira infância, construídas com base em uma perspectiva universalizante, ao serem aplicadas produzem e reproduzem desigualdades de raça, de classe, de gênero e de território .
As reflexões trazidas são apresentadas com base em textos de lei, campanhas sobre a primeira infância e sobre a entrega voluntária . Nossas ponderações são produtos de um acúmulo de pesquisas etnográficas e documentais realizadas em equipe, tendo o Rio de Janeiro como lócus privilegiado. Acreditamos (cf. Goldman, 2006) que pesquisas antropológicas devem promover desafios epistemológicos, éticos e políticos. Sendo assim, realizar etnografia/escritos antropológicos significa também fazer pesquisa engajada e inquietar-se se com desigualdades sociais, visando dirimi-las. Ponderamos que nossos achados e nossos incômodos precisam circular, com o intuito de produzir um diálogo crítico e potenciais transformações sociais. Ademais, nos termos de Haraway (1995), precisamos de pesquisas localizadas que nos permitam chegar aos significados, às construções desiguais de corpos e suas sujeições, não apenas para que fiquemos nessa esfera do conhecimento, mas para que tenhamos a possibilidade de um futuro.
-
Colocar a cara para bater: a mobilização de mulheres vítimas do Essure por justiça reprodutiva no Distrito Federal
— Ana Carolina Lessa Dantas
— Ana Carolina Lessa Dantas
O trabalho proposto acompanha a trajetória de uma única pessoa, Kelli Patrícia da Luz, entre os anos de 2008, quando ela procurou, pela primeira vez, um serviço de planejamento familiar, e 2023, quando realizou uma cirurgia de histerectomia financiada pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nesses 15 anos, a vida dela se transformou radicalmente.
Kelli é uma das 2.522 mulheres que, entre 2012 e 2016, tiveram o dispositivo contraceptivo Essure implantado em seus corpos através da rede pública do Distrito Federal (DF). A elas, foi prometido um método "seguro, rápido e indolor" de esterilização. Anos depois, porém, várias delas começaram a relatar sintomas adversos, passando por processos de adoecimento que afetam sua saúde física, seus empregos, suas vidas sociais e suas relações familiares.
Neste texto, gostaria de partir da experiência de Kelli para refletir sobre como suas interações com a Secretaria de Saúde do Distrito Federal fizeram com que ela se percebesse como uma agente política e a provocaram a agir coletivamente. Argumento que as mudanças na forma como ela e suas companheiras se percebem e atuam são marcadas por emoções como a dor e o ressentimento. Mas, longe de paralisarem a ação política, essas emoções estabelecem vidas morais compartilhadas, criando laços entre mulheres que compartilham de um mesmo sofrimento social. Essa coletividade, após se reconhecer como um grupo de vítimas, assume o caráter de um movimento social por justiça reprodutiva.
Acredito que esse processo tem muito a informar não só sobre os mecanismos de governança reprodutiva que envolvem as políticas de contracepção, mas sobre como os encontros com os profissionais e gestores da saúde são determinantes para a formação de identidades e reivindicações coletivas.
Hoje, Kelli é presidente da Associação de Mulheres Vítimas do Essure Brasil (Amveb). Mas a escolha por contar sua história não se deu apenas por isso, mas porque sua trajetória pessoal com o Essure é metonímia do percurso de tantas outras mulheres - mães, periféricas e majoritariamente negras - vítimas do dispositivo.
Tenho acompanhado o caso Essure no DF desde o final de 2021, primeiro como advogada voluntária no Cravinas - Clínica de Direitos Sexuais e Reprodutivos da UnB, depois como pesquisadora de doutorado na mesma instituição. As elaborações apresentadas neste texto são baseadas em entrevistas semiestruturadas presenciais realizadas com Kelli em 2024 e 2025, mas também estão ancoradas na observação participante em manifestações e reuniões da Amveb, em 2022 e 2023, e em entrevistas realizadas com outras doze mulheres vítimas do dispositivo, entre 2024 e 2026.
-
Adoção inter-racial e reconfiguração de moralidades na África do Sul pós-apartheid: considerações sobre o trabalho de campo com famílias multirraciais
— Ana Luísa Della Coletta, Laura Moutinho
— Ana Luísa Della Coletta, Laura Moutinho
O presente trabalho busca perscrutar as dinâmicas das relações raciais e de gênero na África do Sul nas famílias multirraciais que se engajaram em processos de adoção inter-raciais no pós-apartheid. Através de etnografias e entrevistas no formato de histórias de vida (Bordieu, 2006) com membros de algumas famílias, busquei me aproximar da vida ordinária dessas configurações familiares e de como as lógicas morais do apartheid são trabalhadas pelo tempo dentro dessas dinâmicas, reescrevendo o cotidiano (DAS, 1999).
No período do pós-apartheid, em que se transicionava entre um regime autoritário e racial para uma democracia, foi realizado um esforço para reconstituir a nação sul-africana e superar a lógica moral racista através de uma nova gramática humanista. No entanto, a permanência e atualização de antigas tensões morais, sexuais e raciais evidenciam uma não ausência do tempo do apartheid na África do Sul atual, mas sim, uma presença reconfigurada (MOUTINHO, 2012, 2014).
Legalizada após a revogação em 1991 da seção 40 (b) da Child Care Act 74 (1983), que proibia explicitamente a adoção de crianças com classificações raciais diferentes dos potenciais pais adotivos, a prática da adoção inter-racial é profundamente impactada pela a história segregacionista da África do Sul, particularmente relacionada ao legado do apartheid (LUYT; SWARTZ, 2021).
Assim, a pesquisa trabalha com a hipótese de que as famílias que se engajam em adoções inter-raciais são atravessadas pela permanência reconfigurada de hierarquias e lógicas raciais de forma particular. Isso, porque a existência dessas configurações familiares confronta o que durante o apartheid foi um imperativo legal: a proibição do contato inter-racial e a criminalização de relacionamentos afetivo-sexuais inter-raciais (Moutinho, 2025).
Como aponta Dalmage (2018) o ato de viver entre fronteiras raciais desafia a estrutura social da raça. Por essa razão, quando as pessoas escapam desses limites a dinâmica da formação racial é evidenciada, mas também revista. Assim, o atual trabalho tem como objetivo contribuir para a discussão sobre como as categorias morais são operadas nas vivências da inter-racialidade na democracia sul-africana. Vinculado à Iniciação Científica FAPESP (2024/22421-2), apresenta reflexões do trabalho de campo desenvolvido na University of Cape Town (UCT) no âmbito de estágio de pesquisa no exterior (BEPE/FAPESP nº 2025/18235-1).
-
Moralidades maternas em processos de restituição de identidade na Argentina pós ditadura: a gestação como gatilho da pergunta pela própria origem
— Jimena Maria Massa
— Jimena Maria Massa
Este trabalho trata sobre o modo em que determinadas noções biologicistas da maternidade têm condicionado a decisão de conhecer as respectivas histórias de origem por parte de pessoas que foram “apropriadas” durante a última ditadura militar argentina. Trata-se de uma derivação de uma pesquisa realizada junto a “netos/as restituídos/as” -crianças vítimas do “plano sistemático de roubo de bebês” e posteriormente localizadas por suas famílias consanguíneas- cujo objetivo foi compreender como (re)constroem seus laços de parentesco uma vez descobertas suas respectivas origens biológicas. O foco é refletir sobre o impacto que a gravidez das “netas restituídas” e o fato de “ter filhos/as” têm nos processos de restituição das interlocutoras mães, e sobre as consequências dessa experiência na configuração das novas relações familiares que elas criam. Muitas das dúvidas e reflexões em torno das histórias de origem descobertas na vida adulta são ressignificadas por suas próprias experiências de maternidade, que incluem vivências corporais e afetivas a partir das quais elas se repensam como filhas.
Durante o trabalho de campo surgiram narrativas que indicam a influência desses eventos em diversas decisões como, por exemplo, aceitar fazer o teste genético para verificar uma ligação biológica ou inclusive mudar de nome, trocando aquele dado pela família apropriadora por outro escolhido pela família consanguínea. Algumas “netas” assinalaram o desafio de imaginar possíveis pontos de contato entre a experiência de gravidez de suas respectivas mães e a delas próprias. E diante da impossibilidade de ter relatos daquelas vivências de primeira mão (as mães biológicas estão desaparecidas) surge a pergunta sobre como as genitoras teriam experimentado a gestação, colocando, às vezes pela primeira vez, a necessidade de buscar informação sobre a história de origem. Os sentidos atribuídos à gestação, então, provocaram a tomada de decisões fundamentais. Isso não implicou, necessariamente, uma aproximação amorosa às memórias dos pais consanguíneos nem uma aceitação plena da história de origem. Implicou, pelo menos em alguns casos, que as experiências de gravidez, parto e aleitamento mobilizassem sentidos e valores que, intima ou ostensivamente, repercutiram na percepção que elas tinham sobre sua própria condição de filhas. Assim, além de revisitar as moralidades em jogo, analisar o papel da maternidade biológica coloca em questão qualquer noção estática das identidades, mostrando-as como processos dinâmicos que incluem, entre outras variáveis, marcas geracionais. Devir mãe, nos casos em foco, trouxe novas perguntas, promoveu decisões, “adensou” relações e permitiu repensar as ideias de origem e pertencimento, tornando-se uma nova substância construtora de parentesco.
-
Governança reprodutiva em contextos emergências sanitárias: experimentações teórico-etnográficas
— Jonatan Jackson Sacramento
— Jonatan Jackson Sacramento
Emergências sanitárias não são fenômenos evidentes. As respostas a elas também não o são. Menos do que óbvias, as emergências sanitárias devem ser pensadas como produtos de práticas classificatórias, científicas e burocráticas, que visam produzir entendimento dentro de um enquadramento político e intelectual. Por sua vez, suas respostas são pautadas em pressupostos e evidências que se querem universais, sem considerar o caráter localizado das relações saúde-doença. Com base em uma etnografia das práticas científicas no contexto da epidemia de Zika no Brasil, esse texto tem como objetivo empreender uma análise antropológica das práticas científicas e sanitárias de saúde pública a partir da ideia de cuidado, entendendo-o como uma tecnopolítica - o que se cuida, como se cuida e como se compreende aquilo que se cuida. Do ponto de vista empírico, lanço mão de uma etnografia dos documentos (científicos e burocráticos) de modo a compreender como se define o fenômeno epidemia de Zika enquanto uma emergência sanitária, como e quais evidências são construídas para sustentar a febre por Zika e a microcefalia a ela associada como um fato científico, e quais as prerrogativas sanitárias de risco, cuidado e prevenção a ela dirigidas. Do ponto de vista analítico, meu objetivo é entender as práticas de saúde pública como práticas de cuidado inseridas naquilo que vem sendo chamado de governança reprodutiva. Desde um ponto de vista que articula a Crítica Feminista da Ciência, os Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia e a Antropologia da Saúde, proponho uma experimentação teórico-etnográfica de um enquadramento de pesquisa que possa ser utilizado em outros contextos de governança dos direitos e comportamentos sexuais e reprodutivos.
-
Governança reprodutiva, parentalidades e economias morais do cuidado nas políticas de primeira infância
— Kálita Taques de Brito
— Kálita Taques de Brito
Este trabalho busca fornecer elementos acerca dos desdobramentos da governança reprodutiva contemporânea no Brasil a partir do exame do Programa Primeira Infância Melhor (PIM), uma política pública de primeira infância transversal de ação sócio educativa, implementada no Estado do Rio Grande do Sul. Trata-se dos primeiros resultados de uma pesquisa de iniciação científica, baseada em observação participante junto às famílias atendidas pelo programa na cidade de Pelotas-RS, iniciada em 2024 a partir do ingresso da pesquisadora como visitadora domiciliar do PIM.
Ancorado nos debates sobre governança reprodutiva, o estudo percebe essas políticas como mecanismos centrais de regulação estatal da reprodução e do cuidado infantil em contextos marcados por profundas desigualdades de classe, gênero e raça e pela ausência histórica de um Estado de bem-estar social consolidado. Nesse cenário, através do acompanhamento de três famílias atendidas pelo PIM na cidade de Pelotas, município de referência para o programa por atender mais de 1,2 mil crianças em situação de vulnerabilidade social, buscou-se compreender como estas políticas atravessam o tecido social, extrapolando os limites da esfera privada das famílias.
O trabalho busca evidenciar como, no âmbito dessas políticas, a parentalidade emerge como eixo privilegiado da governança reprodutiva, configurando o que a literatura denomina “virada parental”. Observa-se um deslocamento do foco sobre as famílias para uma avaliação permanente da competência parental, produzindo modelos normativos de cuidado baseados na responsividade afetiva, no investimento intensivo na primeira infância e na vigilância do desenvolvimento infantil. Ao mesmo tempo, tais políticas possibilitam a construção de vínculos e de redes de apoio entre as famílias e os visitadores domiciliares que as acompanham.
Contudo, embora formuladas sob a retórica da promoção do bem-estar e do desenvolvimento integral da criança, essas políticas acabam por operar economias morais do cuidado que tendem a individualizar responsabilidades e a deslocar problemas estruturais, como pobreza e desigualdade, para o âmbito da gestão familiar, incidindo, principalmente, sobre as mulheres, reforçando, amiúde, papeis de gênero.
Desse modo, o trabalho argumenta que políticas públicas voltadas à primeira infância, como o PIM, configuram arenas ambíguas da governança reprodutiva contemporânea, nas quais coexistem controle estatal, regulações éticas do cuidado e formas situadas de negociação e resistência. Ao iluminar as “zonas de sombra” dessa política, o estudo contribui para evidenciar como as parentalidades e as práticas de cuidado se constituem como campos centrais de disputa moral, política e afetiva no contexto das políticas sociais de primeira infância no Brasil.
-
Redes de cuidado e resistência frente as maternidades destituídas: a luta pelo exercício de maternidades dignas a partir de uma etnografia entre a Coletiva em apoio às Mães Órfãs
— Laura Machado Tameirão
— Laura Machado Tameirão
Este trabalho é fruto de uma pesquisa etnográfica realizada de outubro de 2023 a agosto de 2025 com a Coletiva em apoio às Mães Órfãs, movimento que apoia mulheres que têm suas maternidades destituídas - em sua maioria, mulheres negras e em situação de vulnerabilização - tendo seus filhos retirados de maneira compulsória e violenta em Belo Horizonte. A partir dessa realidade, busco compreender quais os diferentes temas que rondam o debate de maternidades destituídas e quais agentes se mobilizam em torno do fenômeno. Analiso como se criam redes de cuidado, pesquisa, denúncia e resistência às violências nos processos de retiradas compulsórias de bebês de suas mães. Faço isso a partir da investigação de como se organiza a Coletiva em apoio às Mães Órfãs e as pesquisadoras que lutam pelo direito ao exercício de maternidades dignas, suscitando caminhos possíveis de mobilização a partir da perspectiva da Justiça Reprodutiva e Governança Reprodutiva.
A coletiva teve seu início em 2014 organizando redes de resistência frente a recomendações e portarias estaduais e municipais que facilitaram os casos de retirada compulsória na região. A pesquisa aponta para como a Coletiva pode ser entendida enquanto um movimento social que atua na produção de percepções e enquadramentos do cenário atual de retiradas compulsórias, mostrando como o Estado é um agente na produção de violências e controle de comportamentos reprodutivos (Morgan; Roberts, 2012). O movimento atua na produção de documentos e ações públicas que tensionam o enquadramento hegemônico das construções sociais atribuídas a mulheres e mães em situação de vulnerabilização. Dessa forma, disputa atributos de maternidade e de cuidado que o Estado enquadra como ideais, baseados na interseção da opressão de gênero e raça, os quais são fruto de processos de escravidão e do colonialismo na formação do mundo moderno (Vergés, 2021).
Ademais, realizo uma reflexão a respeito de quais mãos constroem essas lutas por Justiça Reprodutiva e da governança reprodutiva como arena de resistência, pensando na prevalência de mulheres nesse campo de estudos e reivindicação e como isso mobiliza e evoca éticas do cuidado. Além de ser um espaço de denúncia social, a Coletiva em apoio às Mães Órfãs se organiza de forma a ser uma rede de cuidado às mães vulnerabilizadas e também uma rede de cuidado das profissionais que atuam perto da realidade das retiradas compulsórias, a partir do fortalecimento e acolhimento mútuo na forma que pautam suas ações. Dessa forma, busco mostrar como o movimento se apresenta enquanto uma chave para pensar a integração, força e mobilização de ideias coletivas na construção de futuros que influenciam na produção de novos fazeres de Estado.
-
Governança reprodutiva e judicialização do cuidado: disputas e controvérsias a partir da Lei da Alienação Parental
— Raquel Vieira de Castro Braga
— Raquel Vieira de Castro Braga
O trabalho analisa a Lei da Alienação Parental (Lei 12.318/2010) como tecnologia de governo e dispositivo da governança reprodutiva contemporânea no Brasil, focalizando os debates em torno de sua manutenção ou revogação, protagonizados por diversos atores sociais no campo jurídico, político e familiar. Busco destacar as disputas em torno da criança e as controvérsias morais que atravessam e articulam os diferentes sentidos produzidos sobre família, cuidado, proteção e violência. A partir de pesquisa etnográfica no âmbito do doutorado em antropologia, investigo como aquilo que o sistema de justiça classifica como ‘conflitos parentais’ entre mães e pais é interpretado à luz de regimes morais que produzem sentidos específicos sobre quem cuida, quem protege e quem violenta. Argumento que a LAP vem operando como uma tecnologia de regulação das parentalidades, deslocando o cuidado da prática cotidiana para a suspeição jurídica. Nesse processo, ações maternas frequentemente associadas à proteção – como denúncias de violência ou restrições ao convívio paterno – passam a ser enquadradas como indícios de manipulação, abuso psicológico ou ameaça à ordem familiar. A governança reprodutiva, nesse sentido, não atua apenas por meio da retirada ou concessão da guarda ou da manutenção da convivência, mas pela produção e reprodução de narrativas legítimas sobre o cuidado “adequado” e a violência “reconhecível”. O trabalho dialoga com a literatura sobre governança reprodutiva, parentalidades e economias morais, evidenciando como a criança figura simultaneamente como “sujeito de direitos” e como objeto de disputa discursiva, simbólica e institucional. Nesse contexto, é possível notar que, longe de neutralizar conflitos ou garantir “o melhor interesse da criança”, o aparato jurídico frequentemente os reforça, distribuindo responsabilidades parentais desigualmente, e redefinindo fronteiras entre proteção e violência de maneira generificada. Destaco também os desafios colocados ao reconhecimento da assimetria de gênero nesses contextos, por vezes tensionada pela defesa da família ou da proteção à infância, pautas acionadas de forma heterogênea por diversos atores sociais envolvidos no “conflito”. Articulando antropologia do Estado e perspectivas do campo das dinâmicas familiares, evoco a antropologia da reprodução, em diálogo com propostas feministas de politização da maternidade. O artigo contribui ao pensar a Lei da Alienação Parental como campo privilegiado para observar alguns dos desdobramentos contemporâneos da governança reprodutiva, especialmente no que se refere à judicialização do cuidado, à moralização das maternidades e às tensões entre justiça reprodutiva e controle estatal.
-
Negociando o âmbito doméstico: casa como política reprodutiva em um caso de retirada compulsória na Cidade de Deus
— Tássia Áquila Vieira
— Tássia Áquila Vieira
Este trabalho é um desdobramento da pesquisa de doutorado sobre a ameaça e/ou retirada compulsória de crianças de famílias na favela Cidade de Deus na cidade do Rio de Janeiro. Na tese, busca-se compreender as complexidades que envolvem a ameaça de retirada ou a retirada compulsória de crianças, destacando as intersecções entre raça, gênero, classe e território entrelaçados com a casa como políticas reprodutivas, isto é, a produção desse espaço como em avaliação sobre a capacidade protetiva/de cuidado no âmbito da governança reprodutiva (Morgan; Roberts, 2012).
Nessa proposta, a análise centraliza-se na trajetória de Ana Maria, uma liderança comunitária marcada por uma peregrinação institucional para reaver a guarda de sua neta, Jaci, levada ao Acolhimento Institucional após o nascimento. Marcadores sociais como o território (favela), a idade da cuidadora (idosa), a trajetória de rua da mãe e as condições de saúde do bebê são mobilizados pelo Sistema de Justiça para atestar uma suposta incapacidade protetiva. Tais fatores ignoram a capacidade de cuidado desta avó, que já é responsável por outros dois netos. Por meio dos relatórios da maternidade, judiciais, do Conselho Tutelar e da Assistência Social, demonstra-se a construção de materialidades e de provas que, na verdade, se traduzem como práticas de "terror benevolente" (Roberts, 2022) e de um "policiamento familiar", em que a vigilância punitiva é exercida sob a retórica da proteção à infância.
A noção de governança reprodutiva indica não apenas como controle, mas a produção de regimes morais. Como a situação em que a avó materna vê-se compelida a performar constantemente o ideal de uma "boa avó", produzindo evidências de sua "aptidão" por meio de vídeos e fotos da rotina e da organização da casa. A retirada configura-se como um evento disruptivo que reorganiza o cotidiano (Das, 2020) familiar e o âmbito privado porqque exige esse manejo estratégico do doméstico com os agentes estatais. A construção de mundos híbridos em que as fronteiras entre o público e o privado são borradas revelam uma ambivalência nas relações de intimidade. Como a relação com a conselheira tutelar, se, por um lado, é uma figura de confiança e desafo que acompanhou a família por nove anos, por outro, atuou como principal denunciante no processo judicial. Em nome da proteção, há uma maior presença do Estado produz violência, nas quais as dimensões do cotidiano se tornam materialidades de denúncia. A governança sobre a capacidade de cuidado revela um par indissociável entre cuidado e violência sobre as famílias. Logo, a casa emerge como um espaço híbrido (público e privado), mas também político de resistência com a mobilização e o êxito do retorno da criança à família.
-
"Por mim não tinha nem esses" governança reprodutiva sob as mulheres Warao: um estudo no cenário de Natal-RN
— Waleska Maria Lopes Farias
— Waleska Maria Lopes Farias
Durante o acompanhamento de uma mulher indígena Warao no processo de renovação de seus documentos no Brasil, uma situação específica chamou atenção: enquanto eram realizadas as fotografias exigidas para a emissão dos registros, um policial questionou o número de filhos da mulher e afirmou que, em sua opinião, essas mulheres deveriam ser esterilizadas, uma vez que seus filhos viviam em situação de vulnerabilidade. Longe de se configurar como um episódio isolado, essa cena revela formas cotidianas e moralizadas de intervenção estatal sobre corpos, maternidades e trajetórias reprodutivas de mulheres indígenas migrantes. A partir do conceito de governança reprodutiva, tal como formulado por Morgan e Roberts (2012), o artigo analisa como diferentes agentes e instituições mobilizam discursos de proteção, cuidado e responsabilidade para justificar práticas de vigilância, controle e julgamento moral, produzindo narrativas que reiteradamente constroem mães Warao como irresponsáveis e incapazes de cuidar de seus filhos. Argumenta-se que tais práticas se inscrevem em processos de reprodução estratificada e atualizam lógicas racializadas e colonialmente informadas de gestão da vida. O objetivo do trabalho é analisar a relação entre governança reprodutiva, direitos reprodutivos e migração a partir do caso Warao, evidenciando como mulheres-mães indígenas são permanentemente observadas, avaliadas e narradas no interior das burocracias estatais.
Coordenação
Naara Luna (UFRRJ)
Rozeli Maria Porto (UFRN)
O país segue impactado pelo avanço do conservadorismo no Estado e na sociedade. Mesmo com a vitória de Lula em 2022 e o início do seu 3º governo – que sinalizou uma recomposição institucional e a retomada de agendas progressistas-, o discurso da defesa da família heterossexual permanece central, articulada a noção de liberdades individuais, especialmente a liberdade religiosa. Após o desmonte de políticas públicas voltadas ao segmento LGBT e a direitos reprodutivos no governo anterior, observa-se a reorganização de grupos conservadores que buscam cercear o debate público sobre gênero e sexualidades sob acusação de “ideologia de gênero”. Agentes religiosos atuando no Estado e no Legislativo, além de empreendedores morais do campo religioso, buscam influir na opinião pública e nas políticas de governo. O valor da liberdade individual é acionado para defender o direito da liberdade religiosa a fim de impor posições LGBTfóbicas contrárias aos direitos das mulheres, alegando a defesa da família. O GT dá continuidade ao debate iniciado em anos anteriores na RBA, acolhendo trabalhos que problematizam as articulações entre diferentes moralidades, discursos religiosos e pânicos morais. Aborto, reprodução assistida, adoção por casais de mesmo sexo, transgeneridade, reconhecimento do nome social, parto humanizado, são questões de interesse. Busca-se analisar percepções de sexo, gênero e família, produzidas nessas tensões e seus impactos sobre o acesso a direitos e às políticas públicas.
Títulos e Resumos
-
Aborto em caso de estupro no Código Penal brasileiro: uma análise semiótica do deslocamento do discurso médico-legal entre 1915 e 1940.
— Carolina Nicoletti Ramos da Silva
— Carolina Nicoletti Ramos da Silva
A presente pesquisa tem como objetivo analisar os deslocamentos nos discursos produzidos por atores médico-legais no debate sobre o aborto em casos de estupro no Brasil e como esses deslocamentos implicam, também, transformações nos valores morais construídos em torno da concepção de início da vida e da sacralidade da vida. Para tanto, examinei materiais documentais datados de 1940, mas que revelam um debate iniciado ainda em 1915, a partir do advento da Primeira Guerra Mundial e da consequente problemática do estupro de mulheres por soldados das nações inimigas. À luz da antropologia linguística e da categoria de indexicalidade, busco demonstrar a reconfiguração do discurso operada por esses atores em relação à previsão do permissivo ao aborto em casos de estupro, desde sua emergência, em 1915, até sua posterior incorporação ao Código Penal brasileiro em 1940 (art. 128, II). Ao reconstruir historicamente a constituição desse permissivo legal, que perdura até os dias de hoje, busco contribuir para a compreensão de como disputas morais envolvendo religião, ciência e direito se inserem no Estado, fazendo parte das disputas em torno de direitos reprodutivos no Brasil. Esta pesquisa está vinculada ao projeto temático "Pluralismo religioso e diversidades no Brasil pós-Constituinte", sediado no CEBRAP e coordenado pela Professora Paula Montero.
-
Autoridade médica e disputas morais: a atuação do CFM na campanha antiaborto no Brasil
— Gabriela Cortez Campos
— Gabriela Cortez Campos
Este trabalho apresenta resultados preliminares da pesquisa de doutorado que investiga as relações entre disputas políticas e morais em torno do aborto no Brasil e o acesso ao aborto legal no Hospital Universitário da Unicamp. Inserido em um esforço mais amplo de reconstrução da evolução do debate público sobre o aborto, o trabalho analisa a atuação do Conselho Federal de Medicina (CFM) como ator institucional central na conformação recente da agenda antiaborto no país. A partir da análise de documentos e e pronunciamentos públicos do CFM, argumenta-se que o Conselho exerce papel estratégico na disputa pública sobre o aborto, tendo passado por uma transformação significativa ao longo dos anos. Em momentos anteriores, a entidade se posicionava de maneira a reconhecer o aborto como problema de saúde pública, dialogando com o movimento feminista, sobretudo em razão da preocupação com a mortalidade materna e com os efeitos dos abortos clandestinos. A partir de 2015, contudo, os documentos do CFM contém um tom mais cauteloso, marcados por ressalvas constantes e pela centralidade da proteção do profissional médico. O direito à objeção de consciência ganha destaque e reitera-se a competência exclusiva do Poder Legislativo de tratar sobre aborto. Em 2018, o CFM passa a se posicionar publicamente em defesa da vida. Durante o governo Bolsonaro, são poucos os documentos, o que pode ser explicado pelo alinhamento político com o Executivo federal e com as diretrizes do Ministério da Saúde à época. Com a entrada do terceiro governo Lula, o CFM retoma uma atuação mais reativa, Intensificam-se processos disciplinares e ações de intimidação contra profissionais e serviços de aborto legal, culminando no encerramento de atividades de hospitais de referência e na abertura de investigações administrativas contra equipes médicas. Esse processo atingiu seu ápice em 2024, com a edição da Resolução CFM nº 2378/24, que proíbe a realização da assistolia fetal, método reconhecido pela OMS. A normativa, posteriormente suspensa pelo STF, produziu ecos diretos no Congresso Nacional, sendo explicitamente citada em diversos projetos de lei que buscam criminalizar o aborto após a 22ª semana de gestação, inclusive nas hipóteses legais. Em diversas ocasiões, o CFM equiparou a assistolia fetal, método reconhecido pela OMS, à tortura, infantícidio e assassinato, termos também utilizados na notas conjunta publicada com a CNBB. A análise preliminar sugere que o CFM passou de uma atuação predominantemente opinativa e técnica para uma intervenção normativa direta no campo do aborto, reposicionando-se como autoridade epistêmica na regulação moral da reprodução e contribuindo para a restrição indireta de direitos sexuais e reprodutivos.
-
Considerações sobre o exercício parental nas narrativas de homens trans parturientes: intersecções entre gênero, parentalidade e famílias
— Letícia Carolina Boffi, Manoel Antônio dos Santos
— Letícia Carolina Boffi, Manoel Antônio dos Santos
Apesar dos avanços das últimas décadas que possibilitaram, no Brasil, a legitimação jurídica e social de famílias não normativas - especialmente por meio da reprodução assistida e da adoção em famílias homoparentais -, as famílias constituídas por homens trans que gestaram seus filhos permanecem pouco visibilizadas e encontram dificuldades de reconhecimento e acolhimento no campo da reprodução e da parentalidade ao deslocarem sentidos normativos de gênero, corpo e família, produzindo outras possibilidades de parentesco. Este trabalho analisa como a gestação vivenciada por homens trans pós-transição reconfigura os sentidos entre gênero, parentalidade e família, evidenciando estratégias cotidianas de gestão do risco da violência e da educação de gênero. A pesquisa baseia-se em entrevistas em profundidade, mediadas por tecnologias digitais, audiogravadas e transcritas na íntegra, realizadas com sete homens trans que gestaram após a transição de gênero no Brasil. A análise temática reflexiva evidencia medos e expectativas que atravessam o exercício parental em um contexto social ainda fortemente marcado pela cisheteronormatividade. As narrativas revelam que a transparentalidade é frequentemente permeada pela antecipação de possíveis violências dirigidas aos próprios sujeitos, a seus filhos e cônjuges, em diferentes espaços sociais, como bairros de moradia, instituições escolares, serviços de saúde, meios de transporte e redes sociais. Essa antecipação produz um cotidiano parental atravessado por estresse, vigilância e elaboração constante de estratégias de proteção, sobretudo em relação às crianças. Em contraste, emerge também a expectativa de uma educação parental que privilegie reflexões sobre gênero como fator protetivo e como elemento formador de maior consciência social sobre si, a família e o mundo. Desse modo, o trabalho cotidiano de legitimação da família e da gestação transmasculina junto aos filhos constitui tanto uma estratégia defensiva frente às violências potenciais quanto um processo de construção narrativa da história familiar. O estudo contribui para a antropologia das famílias e do parentesco ao demonstrar como gênero, corpo e reprodução se articulam na produção de formas dissidentes de parentalidade, evidenciando os tensionamentos, esforços emocionais e práticas de resiliência que marcam a experiência de famílias transmasculinas em sociedades ainda normativas.
-
Governança reprodutiva, moralidades e práticas profissionais: o cuidado à violência sexual e ao aborto legal na APS
— Rozeli Porto, Maria Eduarda Benevides Rodrigues
— Rozeli Porto, Maria Eduarda Benevides Rodrigues
A consolidação de regimes morais que regulam a sexualidade e a reprodução tem operado como eixo central na reconfiguração contemporânea dos direitos sexuais e reprodutivos, com especial atenção a América Latina. Esses regimes podem ser compreendidos como formas de governança reprodutiva (MORGAN; ROBERTS, 2012), nas quais Estado, instituições religiosas, aparatos jurídicos e saberes biomédicos disputam o controle sobre corpos, práticas e decisões reprodutivas. Em contextos marcados pela polarização política, tais regimes são mobilizados por projetos (neo)conservadores articulados a racionalidades neoliberais, produzindo mudanças nas formas de regulação de práticas, corpos e direitos. No Brasil, esses processos se materializam na fragilização persistente do acesso ao aborto legal no Sistema Único de Saúde (SUS), marcada pelo subfinanciamento, pela descontinuidade institucional e pela concentração territorial dos serviços, o que aprofunda desigualdades estruturais de gênero, raça e classe (CRENSHAW, 2002). Essa configuração evidencia fragilidades na linha de cuidado, especialmente na Atenção Primária à Saúde (APS), frequentemente marginalizada nos fluxos de atendimento. Paralelamente, observa-se o crescimento dos registros de violência sexual, cujas vítimas são predominantemente meninas e mulheres negras, com agressões que ocorrem, em grande medida, no âmbito familiar (FBSP, 2025; Bandeira, 2025). Tendo o Rio Grande do Norte como recorte empírico, o trabalho analisa de que modo o avanço de agendas neoliberais e (neo)conservadoras vem reconfigurando o atendimento às vítimas de violência sexual na APS e os procedimentos relacionados ao aborto legal. A pesquisa, de caráter etnográfico, está sendo desenvolvida em uma unidade básica de saúde de Natal e em eventos institucionais da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Norte (SESAP/RN), buscando compreender como discursos morais, arranjos institucionais e práticas cotidianas de cuidado produzem, no nível local, os efeitos concretos da governança reprodutiva.
-
A agenda legislativa federal brasileira e a pauta dos direitos reprodutivos de mulheres lésbicas de 2003 a 2025
— Vitória Dreide Xavier Araújo Silva, Hayeska Costa Barroso
— Vitória Dreide Xavier Araújo Silva, Hayeska Costa Barroso
O presente estudo examina a conformação da agenda legislativa federal brasileira relativa aos direitos reprodutivos de mulheres lésbicas no período compreendido entre 2003 e 2025, a partir do levantamento sistemático de proposições disponíveis no Portal da Câmara dos Deputados. A relevância do tema reside no caráter historicamente preconceituoso atribuído às experiências reprodutivas de mulheres lésbicas no campo jurídico-político brasileiro, marcado pela tendência de subsumi-las a categorias universalizantes, como saúde da mulher ou direitos humanos, sem a nomeação explícita da lesbianidade como sujeito político e jurídico de direitos. Essa invisibilização opera não apenas como lacuna normativa, mas como mecanismo ativo de produção de silêncios institucionais.
O problema de pesquisa consiste em compreender em que medida o Poder Legislativo Federal tem incorporado, tensionado ou silenciado as demandas específicas no âmbito dos direitos reprodutivos, considerando as disputas morais, os limites do universalismo jurídico e os processos de reconhecimento estatal. Parte-se da hipótese de que a ausência de previsão explícita não é neutra, mas expressa uma racionalidade normativa que privilegia modelos heteronormativos.
Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, ancorada na análise documental e categorial de 28 proposições legislativas, entre Projetos de Lei e requerimentos, combinada a uma leitura crítico-interpretativa. O objetivo central consiste em mapear, sistematizar e interpretar os limites e as possibilidades da atuação legislativa brasileira na garantia dos direitos reprodutivos de mulheres lésbicas.
No desenvolvimento da análise, observa-se que o panorama legislativo apresenta forte heterogeneidade temática e baixo grau de especificidade. Embora algumas proposições abordem a reprodução assistida, o planejamento familiar e a capacitação de profissionais de saúde para o atendimento de mulheres lésbicas, a maioria o faz de maneira indireta, diluindo tais demandas em políticas amplas de saúde, diversidade ou enfrentamento da violência. Destacam-se tensões entre políticas universais e demandas específicas, bem como a centralidade do reconhecimento do parentesco na disputa por cidadania sexual. O Sistema Único de Saúde emerge como arena biopolítica privilegiada, na qual o direito opera simultaneamente como instrumento de inclusão e de silenciamento.
Conclui-se que a agenda legislativa brasileira permanece fragmentada, recente e predominantemente indireta. Apesar de avanços pontuais, persiste uma lacuna normativa para abordar relações lésbicas como categoria juridicamente relevante, revelando os limites estruturais do Legislativo.
Palavras-chave: Direitos Reprodutivos; Mulheres; Lésbicas.
Coordenação
Giovanni Cirino (UEL)
Rubens Silva (UFMG)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Mayara Amaral dos Santos (USP)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Pâmilla Vilas Boas Costa Ribeiro (USP)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Fernanda Marcon (UFFS)
Este GT propõe debater as teorias da performance na antropologia e suas interlocuções com perspectivas interseccionais e decoloniais provenientes da América Latina, do Caribe, da África e de diásporas diversas. Discute-se performance como prática social, estética e política; corpo, ritual, teatralidade, representação e agência; performance como método, como episteme e como crítica das formas hegemônicas de produção de conhecimento. Ao estabelecer o diálogo das abordagens da performance com perspectivas do debate sobre de(s)colonialidade, o grupo pretende problematizar as formas hegemônicas de representação e interpretação antropológica, interrogando as condições coloniais que moldaram a disciplina e as possibilidades de sua reconfiguração. Serão discutidas etnografias que evidenciam práticas performativas como estratégias de resistência, reinvenção identitária, insurgência estética, epistêmica e produção de mundos. Interessam-nos especialmente as contribuições de povos indígenas, afro-diaspóricos, coletivos feministas, queer e movimentos sociais, que mobilizam a performance como tecnologia de vida, método de crítica e instrumento de reexistência. O GT convida, assim, pesquisadores que articulem teoria e prática em seus trabalhos, ampliando o diálogo entre antropologia, artes da performance e epistemologias decoloniais.
Títulos e Resumos
-
Tragédia na Amazônia: uma reflexão antropológica sobre tragédia, ativismo e ética em projetos teatrais colaborativos
— Fernanda Marcon
— Fernanda Marcon
A proposta pretende pensar os limites éticos apresentados por projetos contemporâneos de teatro colaborativo e ativista, como é o caso da peça “Antígona na Amazônia” (uma co-produção entre o diretor Milo Rau, a companhia NTGent e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). A partir disso, discutem-se as ferramentas estéticas e o gênero dramático (tragédia) que embasam estas produções, procurando dar relevo à complexidade de projetos que envolvem sujeitos oriundos de diferentes experiências políticas e artísticas em territórios do norte e do sul global. Esta reflexão resulta de uma pesquisa de pós-doutorado realizada em 2024 e se entrelaça a questões apresentadas anteriormente e que apontam para a contribuição do olhar antropológico sobre os encontros ativistas em performance.
-
Corpo-Território e Ancestralidade: Mediunidade como Prática Política Afrocentrada
— Jove Fagundes, Daniela Lima Macchione, Osvaldo Martins de Oliveira
— Jove Fagundes, Daniela Lima Macchione, Osvaldo Martins de Oliveira
Este trabalho pretende analisar a mediunidade como prática política afrocentrada, a partir do corpo enquanto território ancestral e como superfície ativa de inscrição da memória. Em diálogo com a afrocentricidade de Molefi Kete Asante, parte-se da crítica às abordagens eurocentradas que reduzem as práticas espirituais afro-diaspóricas a objetos simbólicos ou desvios patológicos, defendendo o recentramento do corpo mediúnico como lugar de agência, proposição de ação política. A mediunidade então é compreendida como forma de produção de mundo, firmada na ancestralidade negro-africana como princípio ativo de orientação ética e coletiva.
A partir do conceito de corpo-tela desenvolvido por Leda Maria Martins, ao corpo mediúnico em análise, busca-se investigação, é pensado como arquivo vivo. A rigor, gestos, ritmos e movimentos inscrevem memórias ancestrais em temporalidades não lineares. De modo que o transe mediúnico constitui, assim, uma escrita corporal da ancestralidade, onde passado, presente e porvir coexistem, performam memórias e pertencimento. O corpo-território torna-se lugar de enunciação e transmissão de saberes que escapam às formas hegemônicas de registro e legitimação.
Em diálogo com Roy Wagner, a mediunidade é compreendida como prática inventiva, na qual cultura e ancestralidade não são entidades fixas, mas se constituem relacionalmente no acontecimento e no rito. O ritual mediúnico é analisado como espaço de invenção contínua do corpo-território, no qual a política se manifesta não como representação institucional, mas como criação de modos de existência, insurgentes às hegemonias ocidentais. Ao propor a mediunidade enquanto prática política afrocentrada, o trabalho contribui para o reconhecimento das epistemologias afro-diaspóricas e do corpo como território vivo de memória, produção de identidades, invenção cultural e ação política.
Palavras-chave: afrocentricidade; corpo; território; memória e cultura.
-
Epistemologias Encarnadas: Ballroom e Transfeminismo Contra o Regime de Verdade do Gênero
— Laryssa Kethellen Paiva da Silva
— Laryssa Kethellen Paiva da Silva
Este trabalho analisa a cena ballroom, com ênfase no Vogue Femme, como um campo privilegiado de fabulação, experimentação corporal e produção de conhecimento situado, capaz de tensionar os regimes modernos de verdade sobre gênero, corpo e feminilidade. A partir de uma experiência etnográfica o trabalho propõe compreender a ballroom não apenas como espaço estético ou performático, mas como uma epistemologia encarnada, forjada na experiência vivida de corpos trans, negros e dissidentes. Historicamente fundada por mulheres trans e travestis negras e latinas a ballroom emerge como um espaço de proteção, reconhecimento e exaltação de feminilidades sistematicamente deslegitimadas pela ciência moderna, pela biomedicina e pelo regime cisheteronormativo. Nessas cenas, a feminilidade não aparece como essência natural, mas como técnica, linguagem e repertório corporal aprendido, reiterado, exagerado e reinventado. O Vogue Femme, em particular, explicita a instabilidade da categoria mulher, demonstrando que o gênero é algo que se faz, e não algo que se é. Em diálogo com teóricos de gênero e sexualidade, o trabalho articula a ballroom como parte de um pluriverso no qual outros mundos, corpos e modos de existência são produzidos contra as classificações biomédicas e coloniais que historicamente fixaram gênero e raça como verdades naturais. As performances ballroom operam como críticas práticas ao determinismo biológico, deslocando a autoridade científica de dizer o que um corpo é, para afirmar o que um corpo pode fazer e vir a ser. Categorias como Vogue Femme Open to All e Realness Butch Queen evidenciam o caráter relacional e não biologicista do gênero, permitindo o trânsito entre masculinidades e feminilidades e produzindo zonas de fronteira onde identidades não se estabilizam. Inspirada na noção de fabulação crítica, a ballroom é lida como continuidade de uma genealogia de experimentos libertários negros e queer, nos quais estética, glamour e performance funcionam como tecnologias de sobrevivência, agência e imaginação política. Assim, o trabalho sustenta que a ballroom constitui uma outra epistemologia possível: um regime de conhecimento no qual corpo, matéria, afeto e discurso se co-produzem, desafiando as exigências modernas de coerência entre sexo, gênero e sexualidade, e afirmando modos alternativos, corporificados e politicamente situados de conhecer, existir e fabular o mundo.
-
O corpo insurJente como uma habitação depois do fim: a performance de Olinda Tupinambá na e da luta
— Leandro Teixeira da Silva
— Leandro Teixeira da Silva
Essa proposta de apresentação é fruto das discussões que vêm germinando junto a pesquisa de mestrado a respeito dos trabalhos da cineasta, performer e artivista ambiental, Olinda Tupinambá. Nosso objetivo é compreender como as performances de Olinda constrói narrativas e debates importantes sobre crise climática, a cosmologia do seu povo, descentralizando a figura do ser humano e evocando outras formas de vidas a partir deste corpo político que é extensão do processo de colonização, que muda e transmuta para falar com e de outros mundos possíveis. A partir dos debates estabelecidos pelo campo dos estudos das formas expressivas do conhecimento, busca-se articular uma revisão bibliográfica junto ao trabalho de campo, acompanhando atentamente o fazer performance de Olinda, buscando observar e analisar do ponto de vista antropológico as relações e questões que se colocam. Neste sentido, buscaremos pensar as performances como objeto de análise, incluindo várias práticas e eventos, mas também, refletir com/sobre elas como uma importante ferramenta metodológica. Assim, o trabalho contribui para os estudos deste campo e da Antropologia em um sentido ampliado, uma vez pensando essas práticas a partir deste lugar de uma performer artivista, que são realizadas mediante diversas alianças afetivas da e com a terra, e mais, a partir da experiência desta corporalidade de uma mulher indígena. Fazendo uso das palavras de Braulina Aurora (2022), vejo Olinda como uma performer em um corpo território, um corpo político em movimento; um espaço onde outros habitam, ou melhor, co-habitam. Ao realizar uma performance, o corpo de Olinda passa por uma transmutação, se tornando um outro para além dela.
-
O que sustenta um processo de criação coletiva com o corpo? Uma etnografia sobre o Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre de 2025.
— Maria Eugênia Nunes Ferreira
— Maria Eugênia Nunes Ferreira
A pergunta “O que sustenta tua existência?”, amparou o processo de criação e aprendizado coletivo da turma de 2025 do Grupo Experimental de Dança de Porto Alegre/RS e foi levada ao palco para ser dançada ao público. Nesta etnografia, reflito sobre o que sustenta este processo, do qual também fiz parte, a partir das capacidades do subjuntivo (Hartman, 2020), um modo gramatical que expressa dúvidas, desejos e possibilidades. Participar deste processo como pesquisadore e bailarine, me deixou com um desafio metodológico. Explorar a dúvida e as tentativas de resposta, aqui estão vinculadas a um processo duplo, viver a experiência de aprendizado junto ao grupo e tomar minha propriocepção também como dado. O GED é um projeto de formação em dança(s) com uma proposta pedagógica vinculada à educação somática, que trabalha a integração mente/corpo (Fernandes, 2015) e incentiva a percepção, o cuidado e a saúde do próprio corpo. Público e gratuito, o projeto existe desde 2007, coordenado pelo Centro de Dança da cidade com aulas de segunda a sexta-feira, realizadas em um período de nove meses, em diferentes espaços públicos da cidade. Um ritmo diário de aprendizado com o corpo. Com diferentes didáticas, proposta por seis professores diferentes, aprendemos várias técnicas e possibilidades diversas para trabalhar a consciência de nossos corpos em movimento. Meu objetivo, é compartilhar o processo de criação e as negociações internas realizadas pelo grupo, para pensar o que sustenta uma prática coletiva e a criação de um vocabulário interno a partir da dança, levando em conta dificuldades encontradas, mudanças que nossos corpos passaram, assim como olho para os motivos de quem saiu e de quem ficou até o final do processo. Dentro de uma prática antropológica descolonizada (Allen e Jobson, 2016), entendo que esta dança-linguagem criada pelo grupo é uma forma de narrar o mundo e suas inquietações e também reflete o contexto sócio-político da cidade de Porto Alegre. Iniciamos em 21 integrantes e terminamos em 12. O projeto é público e gratuito, no entanto possui uma evasão significativa. O que dizem as pessoas que saíram sobre o que sustenta este processo? E quem ficou, como escolheu dançar? Além disso, esta reflexão antropológica aposta na difusão de um projeto como o GED, pois percebo sua importante contribuição dentro de um contexto local, regional e nacional para uma epistemologia do corpo (Martins, 2021), que oferece uma formação em dança e mantém vivo um espaço institucional destinado a produção de um pensamento corporificado.
-
Escrevivências de mulheres negras faveladas
— Mayara Amaral dos Santos
— Mayara Amaral dos Santos
Esta pesquisa visa analisar por meio de uma etnografia a rede de relações de mulheres imbricadas no distrito da Brasilândia, São Paulo, com olhar voltado para práticas políticas cotidianas de mulheres negras que, através de uma rede de afetos, cuidam de seu território e de si mesmas. Por meio da escrita das minhas interlocutoras, reflito sobre como ocorre o processo de elaboração de pensamento sobre os diversos tipos de violência e escassez vivenciados na favela, bem como possíveis fabulações críticas para o bem viver, e o processo de ontogenese favelada. A partir da escrevivência de Conceição Evaristo, descrevo esta rede de relações políticas, institucionais e auto organizadas entre favelas de São Paulo, Bahia, e Rio de Janeiro. Neste trabalho destacamos organizações que atuaram durante a pandemia de Covid-19, mulheres com deficiência, e etnografias sobre a vida e trajetória de mulheres negras periféricas.
Gostariamos de apresentar neste grupo de trabalho, alguns resultados preliminares da pesquisa, que advém de redes de articulação política de mulheres negras, como a irmandade da boa morte, em Cachoeira- BA. Espaço em que aconteceram articulações políticas entre mulheres negras de todo o Brasil, e em especial candomblecistas da região norte de São Paulo, que fazem parte da rede desta pesquisa, em contato com uma política maior, a nível institucional, como ministras dos direitos humanos, ministério de igualdade racial, a primeira dama do Brasil, ministério da cultura entre outras figuras políticas. Nesta pesquisa também trabalhamos em articulação com mandatos políticos como de vereadores e deputados, para implementação de emendas parlamentares para promoção dos direitos humanos em favelas, como cursinhos populares, e cozinhas comunitárias.
Outro aspecto que gostaríamos de apresentar, é o da luta de mulheres negras mães, que perderam seus filhos para violência do Estado, e a "guerra às drogas", ou a guerra aos pobres. Mães que tiveram crianças e adolescentes negros vitimados em chacinas, pisoteamentos, graves violações dos direitos humanos em favelas do Rio de Janeiro e de São Paulo. Como o caso dos 9 de Paraisópolis, em São Paulo; e também as chacinas que ocorreram no Complexo do Alemão deixando mais de 130 mortos em outubro de 2025.
Outro viés que pretendemos apresentar sobre esta pesquisa, são as novas metodologias de pesquisa, apresentadas em minicurso na UNESP em Araraquara, sobre novas formas de fazer pesquisa antropológica através da literatura de mulheres negras, como bell hooks, Grada Kilomba, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Saiydia Hartman, que mobilizam conceitos como a escrevivência e a fabulação crítica como formas da apreensão da realidade de cotidianos de mulheres negras faveladas.
-
Performances, feitiços e fabulações na produção historiográfica do território das marakanãs
— Zwanga Adjoa Nyack Mesquita Xavier
— Zwanga Adjoa Nyack Mesquita Xavier
Este texto busca partilhar algumas estratégias e ferramentas de investigação utilizadas na realização da pesquisa doutoral em andamento a respeito da presença negro-africana e a sua representação na narrativa historiográfica oficial do município de Maracanaú, localizado na Região Metropolitana de Fortaleza-Ceará. Aqui, procuro aprofundar como a ancestralidade bantu existente no território citado estabeleceu um canal de comunicação comigo e me apontou, em termos epistemológicos, políticos e ancestrais o que e como eu deveria agir para que fosse possível a emergência de narrativas sobre a cidade que fossem enraizadas nas comunidades negras e indígenas locais. Além de apresentar este fenômeno, busco refletir como o mesmo se relaciona com os postulados clássicos e contemporâneos sobre as formas de produção de conhecimento do/no campo da (antropologia da) performance.
Coordenação
Gilson Rodrigues Jr (IFRN)
Yérsia Souza de Assis (UFRB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Ana Clara Sousa Damásio dos Santos (UNB)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Vinícius Venancio de Sousa (Universität Leipzig)
Na antropologia, brasileira e internacional, o corpo ocupa lugar de destaque e constitui hoje um campo consolidado de reflexão. Ainda assim, o corpo de quem pesquisa carece de maiores aprofundamentos teórico-metodológicos. Interessa-nos explorar como relações de poder, saberes, afetos e posicionalidades, pensadas em chave interseccional, atravessam os encontros de campo e produzem acessos, aproximações, conflitos, violências e deslocamentos na própria prática antropológica. Este GT propõe discutir a centralidade do corpo na produção do conhecimento antropológico, tomando a posicionalidade e a corporeidade de antropólogas, antropólogos e antropologues – articuladas à intersubjetividade que estrutura os encontros que atravessam nossa existência – como elementos que incidem diretamente sobre o trabalho de campo. São bem-vindos trabalhos situados em contextos brasileiros e de outras regiões do mundo, com atenção especial às diásporas africanas e ao continente africano em suas múltiplas realidades, bem como pesquisas de temáticas diversas que tomem o corpo – do/a pesquisador/a e de seus interlocutores – como eixo privilegiado de reflexão e de invenção de modos de atuação profissional.
Títulos e Resumos
-
Quando o corpo entra em campo: apontamentos sobre a experiência de um antropólogo negro em diferentes contextos urbanos
— Cassio Oliveira dos Santos
— Cassio Oliveira dos Santos
O fazer antropológico já é desafiador por si só, tal ofício visa compreender as complexidades dos fenômenos culturais, sociais e humanos em relações e exige de nós um movimento constante de elaboração sobre os métodos, teorias, estratégias de narrativas, subjetividades e emaranhados estabelecidos na relação entre o pesquisador e o que é pesquisado. Neste sentido, pretende-se aqui refletir sobre as experiências inerentes ao trabalho antropológico e etnográfico, considerando as peculiaridades da dinâmica das interações que envolvem o antropólogo, a prática em campo e também dentro das universidades. Para isso, partirei de duas experiências de interação em locais completamente distintos. O ponto de convergência nessas situações será a percepção sobre o meu corpo enquanto um homem negro. A primeira experiência diz respeito a minha inserção no campo realizado em um contexto urbano periférico com homens negros cisgênero em situação de sociabilidade em barbearias de Salvador, Bahia. Já no segundo relato, reflito as aproximações em circunstâncias parecidas com a primeira, porém ocorrida na cidade de Almada, região metropolitana de Lisboa, Portugal. Diante disso, interessa-me aqui elaborar acerca do mesmo corpo que é lido em chaves opostas de proximidade/distanciamento, familiar/estrangeiro e como isso reverbera nos modos de produção de conhecimento.
-
"Puta que não cobra": corpos, afetos e desafios de pesquisa na cena do trabalho sexual
— Débora Antonieta Silva Barcellos Teodoro
— Débora Antonieta Silva Barcellos Teodoro
Fátima Medeiros, trabalhadora sexual e presidenta da Articulação Nacional de Profissionais do Sexo (ANPROSEX) e da Associação de Profissionais do Sexo da Bahia (APROSBA), convoca: “Se quer pesquisar a gente, tem que pisar no cabaré!”. A convocação é complementada por um desabafo em relação a pessoas que manifestam o interesse em pesquisar sobre o tema, mas se recusam a adentrar nos territórios do trabalho sexual.
Na cena do trabalho sexual o corpo é um campo de batalhas múltiplas - no âmbito do trabalho em si, no âmbito dos enfrentamentos produzidos pelo estigma, no âmbito das disputas em torno de moralidades, no âmbito da produção de subjetividades, no âmbito individual e coletivo etc. Argumento que a ideia de corpo enquanto campo de batalhas pode ser experimentada de formas particulares por pesquisadoras não trabalhadoras sexuais que atendem à convocação de Fátima.
Diante desse contexto, proponho descrever e explorar alguns aspectos relacionados ao encontro de corpos de pesquisadora e interlocutoras, à produção de afetos e ao enfrentamento a desafios a partir de minha experiência de pesquisa doutoral na cena do trabalho sexual.
*“Puta que não cobra”, expressão presente no título da comunicação, é a forma como Lourdes Barreto, uma das lideranças mais antigas do movimento de trabalhadoras sexuais, nomeia mulheres aliadas às pautas e demandas da categoria.
-
Quem representa a antropologia brasileira?: pacto narcisico da branquitude, trabalho de campo e produção etnográfica
— Gilson José Rodrigues Junior
— Gilson José Rodrigues Junior
Este trabalho propõe uma reflexão crítica sobre o lugar da raça e da branquitude na antropologia brasileira, examinando como o campo tem produzido análises sofisticadas sobre diferença, desigualdade e alteridade sem, contudo, racializar de forma consistente o próprio gesto antropológico. A partir do diálogo com obras teóricas, coletâneas de autorreflexão disciplinar e etnografias produzidas no Brasil, o artigo analisa os modos pelos quais a questão racial é frequentemente silenciada, deslocada ou substituída por categorias consideradas epistemologicamente mais aceitáveis, especialmente os conceitos de etnia e etnicidade.
A análise evidencia que, mesmo em pesquisas realizadas em contextos fortemente racializados — como o Nordeste brasileiro, região que concentra a maior parcela da população negra do país, ou a Amazônia, marcada por processos históricos de racialização envolvendo populações indígenas, negras e ribeirinhas —, a raça raramente é assumida como eixo analítico central. Nesses trabalhos, a desigualdade tende a ser regionalizada, culturalizada ou institucionalizada, enquanto o racismo estrutural permanece fora do enquadramento conceitual. De modo semelhante, em análises metodológicas e reflexões centradas no corpo, no gênero e nas relações de poder em campo, observa-se um avanço na crítica à neutralidade científica, mas uma interrupção recorrente da reflexividade quando se trata de racializar o corpo do pesquisador e as relações estabelecidas com interlocutores e interlocutoras.
O artigo sustenta que esse silêncio não é contingente, mas produzido por operações conceituais específicas. O uso reiterado da etnicidade como categoria autônoma, dissociada da raça, funciona como um dispositivo epistemológico que permite reconhecer a diferença sem confrontar hierarquias raciais, preservando a branquitude como norma não nomeada do campo acadêmico. A raça, por sua vez, aparece com maior frequência como atributo do “outro”, como problema histórico ou como questão externa à produção do conhecimento.
Essa discussão é tensionada a partir de experiências advindas do trabalho de campo realizadas pelo autor no Senegal, nas quais seu corpo não foi reconhecido como brasileiro, mas continuamente racializado de outras formas. Tais experiências impactam diretamente a construção das análises etnográficas, ao evidenciar que o conhecimento é produzido a partir de corpos racializados e posições situadas, ainda pouco reconhecidas pela antropologia brasileira. Ao articular crítica epistemológica, análise bibliográfica e experiências de campo, o trabalho propõe racializar a antropologia brasileira como condição para desestabilizar seus critérios de autoridade, legitimidade e universalidade.
-
Quando o cuidado é político: corpo em campo e experiência etnográfica em comunidades de matriz africana
— Jaqueline Cristina Mendes Bonifácio Bonne, Claudia de Oliveira Darede (Pendente)
— Jaqueline Cristina Mendes Bonifácio Bonne, Claudia de Oliveira Darede (Pendente)
Este trabalho apresenta um relato etnográfico articulado a uma reflexão metodológica a partir da experiência de campo vivida entre 2023 e 2025 durante a realização do Olubajé em comunidades de matriz africana no Distrito Federal. A festa é compreendida como um acontecimento etnográfico que permite analisar práticas de cuidado, memória e resistência produzidas nesses territórios em contextos marcados pelo racismo estrutural e pela desigualdade no acesso a direitos. A pesquisa resulta de uma inserção prolongada em campo, construída por meio de presença continuada, vínculos comunitários e participação em práticas cotidianas e rituais. Essa trajetória evidencia que o trabalho etnográfico se constrói na convivência e na implicação ética, e não apenas na observação pontual de eventos. A entrada em campo se dá a partir de uma posição situada, atravessada por marcadores raciais, religiosos e sociais que incidem diretamente sobre as formas de circulação, acesso aos saberes e exposição no contexto pesquisado.
O artigo dialoga com o debate sobre etnografia encarnada ao compreender a experiência vivida, a afetação e a corporeidade como dimensões constitutivas da produção de conhecimento antropológico. O corpo em campo é entendido como território epistemológico e político, no qual se inscrevem aprendizados, tensões e limites produzidos pelas relações de poder. O Olubajé é tomado como eixo analítico por condensar elementos centrais da vida comunitária, como a alimentação ritual, a organização coletiva do trabalho, o respeito às hierarquias e os tempos do cuidado. Ao articular relato de campo e reflexão teórica, o texto contribui para os debates metodológicos da antropologia ao enfatizar a produção de conhecimento situada, o corpo em campo e as dimensões éticas da pesquisa com comunidades de matriz africana.
-
Corpo-território: por uma epistemologia do retorno, uma etnografia encarnada
— José Lidomar Nepomuceno de Sousa
— José Lidomar Nepomuceno de Sousa
Este trabalho apresenta percepções preliminares decorrentes da minha inserção em campo para a realização da pesquisa de doutorado desenvolvida em uma comunidade rural no município de Chorozinho, região metropolitana de Fortaleza (CE). É também um desdobramento de uma reflexão apresentada no contexto da RAM de 2025, ao "GT02 Antropologia das/nas 'Origens': diálogos possíveis entre a etnografia, o corpo e o território". Ao investigar as relações de famílias campesinas com os processos de acesso e posse da terra, tomando como ponto de partida a minha própria família, deparo-me com um contexto etnográfico em que o meu corpo se insere de maneira particularmente tensionada e significativa. Como homem negro, gay, candoblecista e filho de trabalhadores rurais pobres, meu corpo se torna um operador analítico central da pesquisa, atravessando simultaneamente as relações no campo e na academia. No espaço acadêmico, ele é frequentemente interpelado por regimes de legitimidade marcados por uma epistemologia eurocentrada e branca, que tendem a questionar a validade de uma etnografia realizada por alguém "tão próximo" do campo, muitas vezes rotulando-a de forma hierarquizante como "autoetnografia". No campo, por sua vez, meu corpo é mobilizado por expectativas de regimes morais, familiares, religiosos e de gênero, especialmente em uma comunidade majoritariamente cristã, onde minha orientação sexual, minha religiosidade de matriz africana e minha trajetória educacional produzem deslocamentos simbólicos e afetivos que tencionam as relações no contexto do trabalho etnográfico. O texto discute, portanto, como se negocia a inserção de um corpo que simultaneamente "pertence" e "estranha" (ou é "estranhado"), que é "familiar" e "disruptivo", e como essas tensões informam a produção etnográfica. Argumenta-se, portanto, que o corpo do/a pesquisador/a não é apenas um dado contingente, mas um dispositivo metodológico e epistemológico, cuja presença em cena reconfigura as relações, os afetos, os silêncios e a dinâmica dos dados em jogo na pesquisa.
-
Performance Chegadas e Partidas: Violência de gênero e fluxos migratórios de mulheres nos estados do RN e PB
— Júlia de Freitas Motta
— Júlia de Freitas Motta
Esta pesquisa em andamento tem como objetivo refletir sobre os trânsitos de mulheres por violências de gênero, no fluxo capital-interior, nos estados do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Nesse sentido, a rodoviária foi o ponto de partida dos deslocamentos regionais das mulheres e da etnografia. Por meio de uma metodologia criada para o projeto doutoral, realizo uma ação performática nas rodoviárias de Natal e João Pessoa. A metodologia ocorre a partir da minha vivência artística em que ouço e escrevo os relatos de mulheres, entre 40 e 65 anos, sobre a movimentação e o fluxo que estabelecem entre a capital e o interior. Visto um macacão vermelho e brincos também vermelhos. A cor escolhida foi para chamar atenção em meio a tantas informações que há pela rodoviária: entre fluxo de passageiros, lojas de souvenir e alimentação, malas, funcionários e painéis de informação. Fico sentada em um banco e há outro vazio ao meu lado. Preso à mesa, um banner A3 tem impresso a frase: "Escuto mulheres. Escrevo/escrevemos histórias de mulheres sobre chegadas e partidas". No campo, uma das entrevistas já conseguiu mostrar outras dimensões de violências e, por isso, trago um dos relatos ouvidos até então. Damiana, uma mulher branca, de 52 anos, classe baixa, mora em Salvador e chegou na capital potiguar há quase três meses. Viajou para cuidar da mãe, que está doente. Ficou como cuidadora dela num hospital público em Natal, por dois meses, até a mãe ir para a UTI. Precisou sair do hospital e passou a morar na rodoviária. No dia que participou da ação, estava há duas semanas nessa situação, mas não pensava em voltar para casa. O sentimento que a moveu a viajar foi a perda, o medo de não encontrar mais a mãe viva. Com isso, podemos localizar como o recorte de violência de gênero é ampliado e traz outras dimensões, como a violência de Estado, uma vez que ela precisa morar numa rodoviária para cuidar da mãe, por falta de recursos. Na metodologia, também coloco o meu corpo, minhas memórias e experiências. Ao final da conversa com cada mulher que se senta para falar comigo, a última pergunta que faço é: você deixa que eu conte sua história para a próxima mulher que se sentar aqui? Desse modo, através da escuta de relatos de mulheres, apresento o de outras, construindo uma teia de significados. Histórias de mulheres que se diferenciam na raça, classe, geração, ocupação, território, mas compartilham memórias de dor e sofrimento. Procuro, assim, aprofundar a literatura nessa conjunção entre migração, gênero e violência, sob uma ótica interseccional e geracional. Para tal, dialogo com Abu-Lughod (2020), Das (20020) e Lugones (2008).
-
Corpos soropositivos em cena: diagnóstico, escrita de si, posicionalidade e produção etnográfica no viver com HIV
— Marco Antonio Gatti Junior
— Marco Antonio Gatti Junior
Este trabalho apresenta reflexões parciais de uma pesquisa de doutorado em Antropologia, em andamento, que se inicia a partir do próprio diagnóstico de HIV do pesquisador. A investigação tem como objetivo analisar os impactos do diagnóstico nas experiências de pessoas que vivem com HIV/AIDS, compreendendo como esse acontecimento atravessa trajetórias de vida, reorganiza temporalidades, relações sociais, percepções de si e práticas de cuidado, com efeitos que extrapolam a dimensão biomédica e alcançam a saúde mental, os afetos e os modos de existir.
A pesquisa fundamenta-se em uma abordagem etnográfica multissituada, articulando contribuições da antropologia da saúde e dos Estudos Sociais. Compreendendo o HIV como uma realidade performada e coproduzida por corpos, medicamentos, políticas públicas, tecnologias biomédicas, estigmas e afetos. Nesse enquadramento, propõe-se pensar o HIV como produtor de uma ontologia soropositiva, na qual viver com o vírus implica modos específicos de conhecer, narrar e cuidar de si.
O campo envolve a participação em grupos de apoio mútuo presenciais e digitais, além de debates, seminários e espaços coletivos sobre HIV/AIDS. Soma-se a isso a experiência de participação, enquanto pessoa vivendo com HIV, em uma pesquisa em saúde de caráter multicêntrico, mobilizada analiticamente para refletir sobre os modos de produção do conhecimento científico e seus efeitos corporais, morais e políticos.
Essa dupla inserção (como pesquisador e como pesquisado) torna-se eixo central da análise, evidenciando disputas de posicionalidade na saúde e na ciência. O trabalho tensiona o modelo hegemônico de produção científica baseado na separação entre sujeito e objeto, razão e afeto, apostando na escrita situada, na escrita de si e em estratégias autoetnográficas como recursos analíticos salutares para a construção da pesquisa. Aposta-se na escrita situada e na corporeidade como recursos analíticos capazes de explicitar os atravessamentos políticos, afetivos e ontológicos que conformam tanto a experiência de viver com HIV quanto o próprio fazer etnográfico. Ao reconhecer os afetos, as vulnerabilidades e as experiências corporais como constitutivos de tal fazer etnográfico, a pesquisa desloca a neutralidade como ideal epistemológico e explicita as potências da escrita de si no no fazer antropológico.
Ao acompanhar como o diagnóstico é vivido, narrado e negociado no cotidiano, o trabalho evidencia disputas em torno do cuidado, da saúde mental e da normalização biomédica, situando o HIV como uma experiência múltipla, instável e em permanente negociação. Trata-se de uma pesquisa em processo, que encontra no espaço do GT um lugar privilegiado para aprofundar debates sobre corpos, afetos, ontologias e produção de conhecimento.
-
Espelho D'água: O olhar mãe-filha-avó (re)construindo memórias durante a gestação.
— Maria Clicia de Almeida
— Maria Clicia de Almeida
O presente trabalho surge das limitações de uma pesquisadora no ano de 2025, quando, ao descobrir uma gestação inesperada e de risco moderado, se afasta do campo, disciplinas e encontros presenciais. No cenário - quase - impossível de se seguir com o mestrado, fazer meu corpo de campo enquanto gesta foi o que ressignificou a Antropologia e produção etnográfica, abrindo espaço para este corpo-mãe na produção acadêmica sob nova perspectiva. Pensando a partir do encontro entre as minhas memórias e as memórias de minha mãe durante minha gestação, esta exposição busca analisar o tornar-se mãe entrelaçado ao tornar-se avó que carrega lembranças que construíram minha família materna, nossas casas, nosso quintal. Tratando-se de uma etnografia em casa (DAMÁSIO, 2020), encaro tensões metodológicas onde a aproximação e o ser de dentro é percebido como um limite, mas quando acontece, expõe grandes possibilidades que somente eu e meu corpo gestando poderia alcançar ao se relacionar com as interlocutoras.
-
Nada é explícito, Tudo é entendido: Gramáticas corporais e produção etnográfica em contextos de cruising
— Marx Peçanha Freitas
— Marx Peçanha Freitas
GT 051 - Corpos em cena: trabalho de campo, corporeidades e produção etnográfica
Marx Peçanha Freitas
Mestrando em Antropologia - UFF/RJ
marxp@id.uff.br
Este trabalho apresenta uma pesquisa etnográfica em andamento sobre práticas de cruising e sociabilidades homoeróticas em circuitos urbanos na cidade do Rio de Janeiro, investigando como desejo, anonimato, masculinidades e códigos de conduta organizam modos específicos de sociabilidade, enquanto simultaneamente se apropriam de espaços urbanos ao mesmo tempo que os constituem. A partir da observação participante em lugares onde o corpo e o olhar constituem formas privilegiadas de interação, analiso como se produzem reconhecimentos, hierarquias e negociações do desejo entre homens que o frequentam.
Proponho compreender esses espaços/práticas não apenas como cenário de encontros sexuais, mas como um dispositivo relacional que organiza regimes próprios de visibilidade e como fluxos de circulação compõem uma gramática sensível na qual o olhar opera como tecnologia de interação. Nesse contexto, o cruising aparece menos como prática isolada e mais como uma complexa rede de interações, elencando fronteiras e disputas morais e políticas sobre o corpo e usos do espaço, além de formas de sociabilidades fundadas na mobilidade, no anonimato e na corporeidade em constante tensão com normas sociais.
Argumento que essas interações produzem hierarquias móveis baseadas em marcadores sociais como idade, raça, classe, performatividades de gênero e estilos de corpos, que emergem de maneira relacional e situacional. Tais diferenças não se apresentam como identidades fixas, mas como elementos qualitativos percebidos enquanto categorias do campo. Os espaços de cruising assim, funcionam como um laboratório etnográfico para observar como o desejo também é atravessado por classificações sociais e morais.
A pesquisa também se volta para os efeitos da presença do pesquisador nesse campo, onde o corpo não é apenas instrumento de observação, mas parte constitutiva das dinâmicas analisadas. Ao tensionar as fronteiras entre observar e ser observado, envolvimento e distanciamento, o trabalho dialoga com bibliografias sobre corporeidade, ética, reflexividade e autoridade etnográfica. Sustento que, nesse contexto, produzir conhecimento implica negociar posições corporais e afetivas, desestabilizando a ideia de um olhar exterior e neutro.
Ao articular etnografia do corpo, estudos sobre sexualidade e discussões contemporâneas sobre produção de conhecimento, o trabalho propõe pensar o campo como situação compartilhada de exposição e leitura mútua, na qual também o antropólogo se torna parte da cena que busca descrever.
Palavras-chave: Corpo; Cruising; Homoerotismo.
-
O corpo como campo: uma etnografia no pole dance.
— Míriam Soares Dias
— Míriam Soares Dias
Este trabalho pretende através de uma análise baseada no universo etnográfico de diálogos entre praticantes e na experiência da prática, convidar a uma reflexão frente ao material que foi desenvolvido em um estúdio de pole dance em Niterói (RJ) entre maio de 2023 à dezembro de 2024. Esse estudo tem como objetivo abordar as dimensões de um campo como o pole dance, em que o corpo é elemento fulcral para os caminhos de interpretação e investigação, considerando os afetos e atravessamentos na produção corporal como formas de produzir conhecimento antropológico.
Esta análise se dedica em abordar o corpo, a corporalidade e a performatividade como fenômenos que merecem ser examinados etnograficamente. Dessa forma, o estudo explora portanto as experiências vivenciadas pelas praticantes em consonância com a experiência da participação observante, buscando compreender como o corpo pode ser percebido, moldado, produzido e assumir significado nesse contexto.
-
Anthropological Blues or an unsuitable body for an ethnographer
— Natália Maria Alves Machado, Bruno Araújo Lopes
— Natália Maria Alves Machado, Bruno Araújo Lopes
Há carnes-organismos que bio-fisiologicamente tal qual ao modo dos etno-genocídios, só servem para ilustrar as Ciências Sociais, porém, jamais serem parte delas enquanto autoria e agência? Questionamento talvez comum e recorrente nos pleitos de reconhecimento e denúncias epistêmicas contemporâneos, e antes. Aqui intentamos compartilhar questões e talvez partilhar fragmentos, versos de es/histórias aleijadas (MCRUER).
Apontamentos etnográficos multifocais e reflexões metodológicas, desde anos de análises quase mântricas, da relação com a universidade em espaços físicos, virtuais, documentais, memoriais, eventos e instituições correlatas, também no cotidiano de demais exigências do existir, apontamentos estes sobre o que denominamos enquanto ‘socialidades manicomiais’ ou eugênicas (DIAS), abjeção e festejos: sobrevivendo à burocracia, à academia, ao plantationceno, sendo pessoa com ‘miolo mole’, recortes em primeira pessoa, posicionalidade e coletivos encarnados em existências taxadas. “Nada sobre nós sem nós”, reafirmando essa trincheira que está longe de ser garantida, aqui é atributo técnico-científico e cognitivo, demarcando etnicidade, inteligibilidade, raça e abjeção de vida PCD neurológica e múltipla e que pesquisa (??), entre colapsos, desistências e disputas, de terra, em seus N sentidos desterrados: corpo.
Uma realdade com deficiência (DINIZ), alguém, e também sob outros marcadores coletivos da diferença e desigualdade (por raça, classe, etnicidade, sexo/gênero), em seus percalços, ausências e não-acessos, impossível ao concurso acadêmico, o que ela faz aqui? Falamos povo e povos, em primeira pessoa-teia-híbrida-multidão-mutirão, espectros.
É impossível para um pobre! Estudante-pesquisador que demanda suportes técnicos, lida com fármacos, rotinas médicas, equipamentos bio-fisiológicos e tecnologias assistivas. Mais que um “evento crítico”, este impossível é sintoma do contrato social, percebê-lo é um possível: deslocamento epistêmico de valor e apesar, cremos.
Estímulos e respostas aqui são um vórtice, uma fenomenologia que é indisfarçável no que tange este trabalho ser criação coletiva ainda que com um “panorama limite” em tela e problemática/temática enquanto foco, sem embargo, o é somente por estar em relação, espécie cultural e gregária, poder ser e viver: isolamento, economias e redes.
“Vitimismo”, “identitarismo”, “ponto de vista” (o ponto de vista sobre o ponto de vista) são adjetivações recorrentes que buscam invalidar a abordagem em tela, esta descrição perspectivada (???) aqui, o olhar ciborgue da onça? Descrição densa de materialidades adensadas e perdedoras dos jogos (em N sentidos sociológicos), jogos de inteligibilidade, inscrição e valor. Perguntas que destoam e desvelam um logos em disputa, o naturalizado das ruínas.
-
Programas para Desprogramar Corpos em uma Visita à Feira: trânsitos etnográficos de reinscrição da experiência na Feira de São Joaquim, em Salvador, Bahia
— Victor Gargiulo
— Victor Gargiulo
Não é de hoje que a Antropologia vem experimentando deslocamentos metodológicos a partir de aproximações com as artes, em especial com o campo dos estudos da performance. Neste trabalho, interessa-me retomar a perspectiva de Dwight Conquergood, para quem a experiência corporal não é um recurso ilustrativo da etnografia, mas o próprio terreno onde o conhecimento antropológico se produz. Ao compreender a cultura como movimento e a performance como lente metodológica, o texto se insere no debate sobre a centralidade do corpo, da posicionalidade e da intersubjetividade na produção de conhecimento situado.
A discussão apresentada é desdobramento de uma série de práticas performativas realizadas durante uma visita à Feira de São Joaquim de Salvador, Bahia, com estudantes de graduação das áreas de artes, teatro, música e bacharelado interdisciplinar em artes da Universidade Federal da Bahia. A feira, entendida não como mero pano de fundo, mas como acontecimento performativo, constitui um campo privilegiado para pensar as relações entre corpo, memória, circulação, temporalidade e poder.
As práticas foram orientadas por programas performativos, conforme proposto por Eleonora Fabião, compreendidos como dispositivos metodológicos de desprogramação perceptiva, e pelo entendimento do corpo como lugar de inscrição da memória, em diálogo com Leda Maria Martins. Esses operadores orientaram a visita na tentativa de suspender modos habituais de observação do campo, enquanto consumo, turismo ou coleta de dados, propondo outras formas de relação ética, sensível e implicada com o território.
Nesse sentido, a visita guiada por programas performativos: (1) desfamiliarizou o cotidiano da feira, suspendendo automatismos perceptivos; (2) instaurou encontros corpo a corpo entre o corpo da Feira e os corpos das estudantes, acionando afetos, ritmos e memórias; (3) evidenciou assimetrias nas relações de poder implicadas no ato de observar e ser observado; (4) tensionou os cânones da neutralidade do pesquisador; (5) afirmou o campo como espaço relacional, construído e criativo; e (6) permitiu experimentar o caráter processual e efêmero da experiência cultural.
Ao tomar o corpo do pesquisador como lugar de disputa, memória e produção de conhecimento, o trabalho afirma a antropologia da performance não como método alternativo, mas como prática crítica que reinscreve o trabalho de campo no domínio da experiência.
-
Etnografia dos slams em São Paulo: Corpos performáticos na diáspora da periferia ao centro
— Victoria Maria Baulé Gebara Cândido
— Victoria Maria Baulé Gebara Cândido
O presente trabalho tem como objetivo seguir a trajetória da autora ao acompanhar o circuito paulistano de batalhas de poesia - slam - durante os anos de 2023 e 2024, além do evento do campeonato mundial (World Poetry Slam Championship) realizado em outubro de 2023, no Rio de Janeiro, durante a Festa Literária das Periferias (FLUP) na Vila Olímpica da Gamboa. Esta etnografia mescla análises da literatura da Antropologia Urbana e das Formas Expressivas, na tentativa de elucidar o quanto as performances dos diferentes corpos poéticos são marcados pela(s) cidade(s) e criam um movimento literário com foco na oralidade e na expressão das poesias. A análise foca em como essas performances afetam as relações dentro da cena, como diferentes corpos com diferentes marcadores são capazes de evidenciar suas vivências com a palavra proferida, aguardando as notas e reações do público. As investigações partem da própria experiência de reconhecer seu corpo em campo, do uso de fotos e vídeos feitas pela autora como outra forma de linguagem complementar para a análise do objeto proposto, da corporificação da poesia e da importância da autoetnografia para compreender o esforço etnográfico. Há também o interesse de demonstrar a necessidade do uso de conceitos da pesquisadora Leda Maria Martins, como encruzilhada, oralitura e corpografia. Conclui-se, assim, a importância de compreender a complexidade e diversidade de um campo em constante crescimento por São Paulo e pelo mundo, trazendo novos paradigmas de entendimento sobre poesia, escrita e oralidade.
-
"Trabalho não rima com armário": negociando marcadores sociais no trabalho de campo em Cabo Verde
— Vinícius Venancio de Sousa
— Vinícius Venancio de Sousa
A frase "trabalho não rima com armário" estampava um cartaz durante a Parada do Orgulho LGBTQIA+ em Lisboa, no ano de 2023, quando estive na cidade realizando meu estágio de pesquisa no exterior do doutorado. Apesar de curta, ela me mobilizou a pensar as mobilizações e negociações de raça, gênero, classe, sexualidade e idade que precisei produzir ao longo da última década, período no qual me dirigi múltiplas vezes à Cabo Verde para realizar trabalho de campo em diferentes localidades do país, acerca de variadas temáticas. É a partir dessa longeva experiência de pesquisa que pretendo refletir neste trabalho.
Aqui, me interessa refletir como, em uma área científica marcada pela "abertura ao outro" e apreço pela diversidade, compreendemos o trabalho trabalho de campo quando o "outro" vira etnógrafo e o seu trabalho de campo demanda regressos ao armário, deslocamentos raciais e de classe, reorganizações nas percepções de gênero, entre outros. Mais do que produzir uma reflexão autocentrada a partir de uma "eutnografia", o que me interessa é perceber como o nosso corpo e os marcadores sociais da dominação que ele carrega são canal de produção central dos dados etnográficos, delimitando os acessos e as possibilidades do fazer antropológico. A partir disso, ampliar a concepção de armário para compreender os diferentes atos de silenciamento produzidos em campo pelo "bem" da pesquisa.
Coordenação
Diógenes Egidio Cariaga (UEMS)
Jozileia Kaingang (UFSC)
Pessoa debatedora
Ana Maria Ramo Affonso (UFSC)
Gabriel Ozorio de Almeida Soares (UFES)
Suzane de Alencar Vieira (UFG)
A escalada das violências estatais e do capital extrativista agroindustrial têm marcado as experiências de vida de povos indígenas, comunidades quilombolas e de outros povos e comunidades tradicionais, produzindo desarticulações nos modos como estes coletivos agenciam suas coexistências com entes humanos e não humanos. Neste grupo de trabalho, pretendemos reunir descrições sobre mundos fraturados, invadidos, aquecidos pelo habitar colonial. Nos interessa discutir presente e futuro, seus confrontos, mediações e negociações frente aos artefatos e personagens que recriam a imaginação conceitual-politica destes povos, por vezes reativando arranjos e entes ancestrais. A especulação e criatividade dos povos da terra tem evidenciado os riscos e pressões exercidas pelo metal das balas e bombas, pelos agrotóxicos, pelas espécies invasoras, pela burocracia estatal, pela mineração e por novos entes trazidos por projetos de sustentabilidade e mitigação climática. A análise da temporalidade e da colonização que afetam os entes sobrenaturais aliados a esses povos e a etnografia dos entes ferais surgidos na zona de fricção dos projetos coloniais fazem parte do que pretendemos agregar, propostas que articulem as formas de agência, insurgências e confluências mais que humanas, mobilizando fazeres, conhecimentos e práticas, acordos e guerras ontológicas que sigam a provocação de Mark Fischer em imaginar antes o fim do capitalismo que o fim do mundo, por meio das recusas contra-coloniais.
Títulos e Resumos
-
As retomadas Kaiowá e Guarani: estratégias para viver nas ruínas de um mundo possível na Grande Dourados, Mato Grosso do Sul.
— Ana Clara Ribeiro Prado
— Ana Clara Ribeiro Prado
As reservas indígenas foram criadas pelo Serviço de Proteção ao Índio durante as décadas de 1910 e 1920 sob a justificativa da preservação e proteção dos povos indígenas, mas o que se percebe, especialmente no contexto do Mato Grosso do Sul é que elas funcionaram – e ainda funcionam – como uma forma de confinamento compulsório (Brand, 1997) para os Kaiowa e Guarani. Esse modelo de demarcação e organização territorial foi realizado em porções territoriais diminutas, ignorando o natural crescimento demográfico, os modos de organização territorial e política, o que consequentemente alterou de maneira violenta a continuidade do que os Kaiowa e Guarani denominam como ñande reko (nosso modo de ser). O contexto violento da criação das reservas no Mato Grosso do Sul se sobrepõe ao que já ocorria com a presença da Companhia Mate Laranjeira (Argentina), que chegou às terras brasileiras no pós-guerra do Paraguai em um período conhecido como Brasil Império. Durante esse período e muito tempo depois dele, o imaginário colonizador era povoado pela ideia de que o curso da história levaria os povos indígenas no Brasil, a se tornarem apenas trabalhadores brasileiros de modo que a coroa e posteriormente, o Estado, fossem desobrigados de assegurarem direitos sociais e territoriais específicos às populações ameríndias. Mas o que aconteceu – e ainda acontece mesmo depois de 100 anos da criação das reservas e do “regime de confinamento” – são estratégias de resistência frente às violências praticadas pelo Estado e com o aval dele (seja pela omissão em garantir segurança e proteção, pelo extremo desinteresse de resolver a questão territorial, pela negação do direito a água e pela intoxicação com as centenas de tipos de agrotóxicos espalhados pelo ar e pela água); é que foram sendo criadas estratégias insurgentes para viver em um mundo em ruínas e as retomadas, para os Kaiowa e Guarani, são parte delas. As retomadas territoriais são uma forma de transbordamento social das reservas (Benites, 2021), pois em decorrência do grande adensamento populacional nos confinamentos – e aqui uso como sinônimo para reserva – as pessoas precisaram se firmar em outros espaços e a estratégia Kaiowa e Guarani foi a de reocupação de seus territórios sagrados e tradicionais para a construção de seus tekoharã (lugar de retomada) (Crespe, 2015). E é o que acontece a partir de então é o foco desse trabalho pois, ao retornarem ao tekoharã o que se encontra são as ruínas devastadas pelo agronegócio industrial, cercadas por jagunços e constante sensação de que o céu vai cair (Kopenawa, 2015), mas o que se tem como resposta à destruição é o manejo impecável da festa e da guerra na construção de um mundo possível em Dourados.
-
Alianças cotidianas e seus possíveis.
— Ana Maria Ramo Affonso
— Ana Maria Ramo Affonso
Proponho para a minha apresentação refletir sobre a antropologia como meio de atravessamentos cosmológicos, ponto de atenção sobre a diferença incomensurável entre diversos tipos de guerras e, ao mesmo tempo, território de expansão de desenhos de dispositivos coloniais. Habitar e sondar os paradoxos de nossas práticas, sonhos, intenções e produções, é um convite-prerrogativa para podermos encontrar os modos de seguir acompanhando nossxs parceirxs indígenas, quilombolas e de comunidades tradicionais em busca de curas e alegrias cotidianas. O cotidiano das alianças que podemos assentar supõe um belo e sincero detalhe crucial que afirma a contra-colonialidade como forma de vida, fuga permanente em relação ao que só se espalha em tanto forma de pensamento (epistemologia ou teoria). Estender os recursos das instituições de pesquisa em direção às comunidades e expandir na academia as confluências outras que humanas, faz imaginar o tecido com o que re-envolver-nos. Mas é preciso, como sempre foi, encontrar nas linguagens sutis caminhos entre mundos. Pode a antropologia oferecer estímulos para a caminhada? Enquanto nos refugiarmos nos oásis (ou zona de excepção) dos índices de produção, que oferecem um fim do capitalismo pensado mas longe de ser vivido, continuaremos a percorrer os circuitos criados pela ficção de uma inteligência menos-que-humana.
-
O encantamento que não fortalece: karai reko vai ojepota e o desequilíbrio radical das economias cosmológicas Kaiowá e Guarani
— Guilherme Zanardo Costa, Antonio Carlos Benites/Ava Vera Rendy Ju, Celuniel Aquino Valiente, Makiel Aquino Valiente
— Guilherme Zanardo Costa, Antonio Carlos Benites/Ava Vera Rendy Ju, Celuniel Aquino Valiente, Makiel Aquino Valiente
Este trabalho, de orientação cosmocentrada e construído em aliança com intelectuais Kaiowá e Guarani, investiga as guerras ontológicas contra o projeto colonial-capitalista a partir do karai reko vai ojepota, que pode ser traduzido como o “encantamento desequilibrado do modo de ser não indígena”, é a máxima do que a teoria antropológica não indígena identifica como o “sistema feiticeiro sem feiticeiros”, o capitalismo. Argumentamos que este encantamento trabalha pela inversão radical das economias cosmológicas tradicionais e encontra suas expressões e instrumentalizações nas máquinas estatais. Os jepota são tecnologias relacionais integradas as economias da alteridade, que através dos ñe'ē ñemonde (cantos-armadilha), coletivos — sejam humanos, animais, plantas ou jára (donos/guardiões) — capturam forças uns dos outros para fortalecimento de seus coletivos. Trata-se de lógicas de capturas e fortalecimentos, que variam em espectros entre o equilíbrio (jepota porã) e o desequilíbrio (jepota vai), sendo os ñanderu e ñandesy (rezadores) os diplomatas ontológicos que gerenciam essas relações. Enquanto os jepota fortalecem um coletivo específico, o karai reko vai ojepota visa a aniquilação de todos os coletivos que não se renderem à sua lógica unívoca. Sua perspectiva não é a de uma relação, mesmo que assimétrica, mas a dessubjetivação e a dissolução dos ava reko (modos de ser Kaiowá e Guarani). Ele funciona pelos excessos e pelas desmedidas permanentes, convertendo tudo — terras, águas, relações, corpos — em mba’e “coisas-mercadorias”, rompendo qualquer economia de equilíbrio. Compreender sua lógica — a da aniquilação em vez do fortalecimento relacional — e suas formas materiais de atuação sincrônica é fundamental para situar as resistências cosmológicas e ontológicas tradicionais Kaiowá e Guarani.
-
Entre espíritos e forças armadas: guerra ontológica e mundos possíveis no Noroeste Amazônico
— João Jackson Bezerra Vianna
— João Jackson Bezerra Vianna
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre as relações concretas e especulativas que os Baniwa, povo de língua arawak que vive no Noroeste Amazônico, estabelecem com diferentes formas de poder, especialmente os exércitos nacionais, as guerrilhas revolucionárias e os grupos paramilitares narcotraficantes na fronteira entre Brasil e Colômbia. A partir de uma etnografia com os Baniwa, discuto como eles concebem o Estado não como uma entidade única, mas como “formas-estados”, em uma maquinaria não indígena moderna, que se encarna nos estados nacionais, mas também nas facções criminosas e nos grupos revolucionários. Um episódio ocorrido na escola indígena Pamáali, marcado pelo relato de uma aluna sobre a presença de guerrilheiros, revela, junto a outros tantos relatos semelhantes, um medo que conjuga diferentes dimensões na cosmologia baniwa: os guerrilheiros são percebidos como atualização dos espíritos matsiara, entes predatórios que habitam o cosmos Baniwa e ameaçam as comunidades. Essa analogia entre forças armadas e espíritos permite pensar as capturas e vigilâncias do Estado como experiências sobrenaturais que atravessam mundos marcados pela violência, no limiar dos fins dos mundos, entre estados securitários, capitalismo cognitivo e as necropolíticas. Argumento que tais encontros fantasmagóricos com os guerrilheiros-matsiara evidenciam uma guerra ontológica em curso, onde tecnologias, corpos e cosmologias se entrelaçam, produzindo modos de coexistência tensionados por formas-estados e insurgências mais-que-humanas.
-
Cosmopoéticas ribeirinhas: criações estéticas, políticas e etnográficas entre os mundos do São Francisco
— Leon Patrick Afonso de Souza
— Leon Patrick Afonso de Souza
Nas beiras e margens do São Francisco, entre as cidades norte-mineiras de Buritizeiro e Pirapora, pescadores, vazanteiros e artistas emitem alertas sobre as transformações do tempo do clima e, consequentemente, na relação com o tempo do calendário. Enquanto numa escala global buscam-se maneiras de descrever e enfrentar as mudanças climáticas, as existências ribeirinhas criam maneiras para descrever a mudança na temperatura da água, a mortandade de peixes, o desaparecimento da piracema, a pouca oxigenação da água e o acúmulo de sedimentos de minério no fundo do leito d’água. Não se trata, pois, de uma ameaça alhures, tampouco de uma catástrofe que vai chegar com problemas a serem mitigados. Ao escutar sobre essas transformações narradas pelos ribeirinhos com os quais compartilhei a pesquisa de campo, penso que um dos elementos cruciais para as crises, ameaças e lutas que temos travado é a compreensão de que a catástrofe mobilizadora da crise climática é produzida e se expande com o habitar colonial sobre os mundos ribeirinhos. Nesse sentido, não é possível traçar uma separação entre o passado e futuro; pelo contrário. Qualquer possibilidade de prolongamento das existências ribeirinhas, humanas e outras que humanas, não deve abandonar a reconstrução de relações sociais e de superação das injustiças perpetradas sobre as pessoas, grupos e sobre o meio ambiente.
Este trabalho apresenta as criações de ribeirinhos para denunciar os modos violentos de habitar os mundos do São Francisco, mas, sobretudo, criações ecológicas subjetivas, sociais e ambientais, num emaranhado ecosófico que tem permitido atravessar a catástrofe com ousadia e resistência política. Diante da violência que opera para tornar viável a ocupação por infraestruturas de energia elétrica, mineração e das fazendas de irrigação, as alianças entre pescadoras/es, vazanteiras/os, artistas, pesquisadoras/es, carrancas, águas e outros seres não apenas denunciam o habitar colonial sobre os mundos ribeirinhos, mas, principalmente, se associam para “fazer mundo”, tomando emprestada uma proposta de Malcom Ferdinand (2022). Cosmopoéticas ribeirinhas é, ao mesmo tempo, a emissão de alertas que denunciam os modos violentos de ocupação e a criação estética e política para fazer avançar e prosseguir a existência.
-
Pássaros que cantam, pessoas que agem: Narrativas sobre a ausência em duas aldeias Guarani no Sudeste
— Matheus Giacomin Sian
— Matheus Giacomin Sian
Este trabalho propõe uma etnografia das presenças e ausências dos pássaros em duas aldeias Guarani Mbya localizadas no Sudeste — Ka’aguy Porã, em Aracruz (ES), e Jeaxa’a Porã, em Ubatuba (SP) —, buscando compreender como contextos ecológicos distintos implicam modos de relação e ação entre os Guarani. Nesse sentido, viso estabelecer um breve retorno crítico à divisão da pessoa como um “entre” o céu e a terra; acredito que, ao olharmos para as relações entre pessoas e pássaro, podemos enriquecer a observação etnográfica, entendendo como terreno fértil os desdobramentos das diferenças que compõem cada pessoa, ou seja, como diferentes tipos de alteridades contida nos pássaros desencadeiam ações e compõem a pessoa Guarani que as articulam em meio a contextos de ausências, presenças e até mesmo de reaparecimento dos pássaros aonde eles antes não existiam mais. O problema se situa na interface entre a etnologia ameríndia e os estudos multiespécies, buscando contribuir para uma reflexão sobre a agência e a ação.
-
Não apenas recursos: encantaria e projetos de desenvolvimento na Amazônia
— Sariza Oliveira Caetano Venâncio, Dernival Ramos
— Sariza Oliveira Caetano Venâncio, Dernival Ramos
O objetivo é descrever o impacto da construção de obras de infraestrutura na Amazônia, mais especificamente a UHE na cidade de Estreito/MA, na existência e permanência de seres míticos e encantados que vivem nas águas do Rio Tocantins. A partir da interconexão entre Etnografia e História oral à Amazônida (Ramos Jr., Silva, Pereira, 2024), analisamos entrevistas e conversas com ribeirinhos e pessoas do povo de santo sobre a relação desses seres encantados e da encantaria com esses grandes empreendimentos. Percebemos que o conflito afeta e desloca não somente pessoas, mas provoca também conflitos cosmológicos e luta por reexistência de sujeitos que permeiam o cotidiano do povo de santo e de quem vive às margens do rio Tocantins.
-
Cartografias dos refúgios - imagens-testemunhos dos modos indígenas de recuperar mundos
— Thiago Mota Cardoso
— Thiago Mota Cardoso
Esta comunicação trata do modo em como povos indígenas da Amazônia a Mata Atlântica, que habitam mundos friccionados e devastados por agenciamentos históricos das infra-estruturas imperiais do capital, buscam construir alianças cosmopolíticas para manter coexistências em seus lugares-mundos. A proposta é de trazer experiências do fazer antropológico como ato de testemunhar vidas em acontecimento, promovendo imagina-ações por meio das imagens. Busco recuperar as possibilidades do fazer antropológico implicados nas reconstruções de mundos arruinados por meio de produções de imagens sobre as criatividades técnicas indígenas diante das guerra ontológica e ontogenética marcadas por violências estatais e do capital extrativista agroindustrial, que têm marcado as experiências de vida de povos indígenas, nos processos de desterritorialização, desfazer paisagens, desagregar coordenações multiespécies e simplificar ecologias, em outras palavras promovendo ecocidios e genocidios. Denomino estes agenciamentos regenerativos como táticas de construção de refúgios no plantationoceno. Trago a experiência de produzir imagens como forma de documentação e testemunho destes modos de construção de refúgios em diversas situações etnográficas e arranjos convivenciais em minha trajetória. Num primeiro plano exploro a articulação entre a produção de mapas desenhados, mapas de satélite e fotografias que se articulam com textos para nos "fazer ver" processos, articulações multiespécies (entre humanos, plantas, espíritos, animais, etc), estratégias de lutas e reconfigurações cosmopolíticas diante de momentos de catástrofes existenciais, como nos experimentos agroecológicos pataxó e Potiguara, entendido como modos de recriar nichos biosociais em áreas retomadas; na aliança dos Munduruku com espíritos em sua luta contra as hidroelétricas e outros projetos de devastação; e nos movimentos de recusa Kagwahiva Piripkura como forma de refúgio diante do cerco agrocapitalista. Esta comunicação não vista chegar a um denominador comum entre estas experiências, mas explorar contrastes e diferenças como modo de tatear experiências vividas de antropologia engajada e implicada, de testemunhar táticas e de contar histórias sobre os muitos "refúgios indígenas" em suas artes de adiar o fim de mundos, por meios do esforço artesanal e sensivel de recriar mundos de coexistência.
Coordenação
Patrício Carneiro Araújo (UNILAB)
Vilson Caetano de Sousa Júnior (UFBA)
Segundo Sidney W. Mintz (2003), quando as vemos pelo ponto de vista de quem se interessam pelo tema da comida, uma cozinha nunca se refere estritamente à comida de um país e sim de um lugar. Assim, a frase de Brillat-Savarin de que “A cozinha é a mais antiga das artes” adquire um sentido mais amplo, já que toda forma de arte convive com as condições do lugar no qual toma forma e adquire sentido. Para além de qualquer especulação ou triângulo culinário, todo qualificativo de cozinha se refere às experiências vividas por sujeitos em interação com alteridades próximas ou distantes, humanas, não-humanas ou mais-que-humanas. Dessas interações resultam as marcas e sentidos que se vão imprimindo na arte de transformar alimentos em comida. Práticas locais e forâneas, estabelecidas e outsiders vão se mesclando, em relações de acomodação, rechaço ou hibridação, enquanto vão dando forma àquilo que se vai considerar tradicional, diaspórica, mestiça, ancestral, regional, nacional, étnica, de quilombo, de terreiro, indígena, italiana, baiana. Este Grupo de Trabalho propõe, portanto, encontros e intercâmbios entre pesquisadores(as) do campo da Antropologia e afins, que desejem interagir a partir do tema da alimentação e das cozinhas. São bem-vindos trabalhos resultantes de estudos realizados ou em desenvolvimento, em Português ou Espanhol, abordando questões antigas e/ou contemporâneas sobre o universo das cozinhas e da comida.
Títulos e Resumos
-
O que faz uma cozinha ser tradicional? Trajetórias alimentares, negociações e pertencimentos
— Bárbara Sofia Cardoso dos Santos
— Bárbara Sofia Cardoso dos Santos
O que faz uma cozinha ser reconhecida como tradicional? Este trabalho propõe compreender as cozinhas tradicionais não como conjuntos fixos de receitas ou técnicas, mas como processos sociais construídos ao longo de trajetórias alimentares marcadas por negociações, disputas simbólicas e pertencimentos. A tradição culinária é abordada, assim, como uma categoria relacional, produzida no cruzamento entre práticas cotidianas, memória social, circulação de saberes e contextos históricos específicos.
Ao acompanhar as trajetórias de alimentos, receitas e conhecimentos culinários (do espaço doméstico aos mercados, das relações familiares às políticas culturais, da produção ao consumo) esta pesquisa analisa como determinadas práticas passam a ser legitimadas como tradicionais, enquanto outras permanecem invisibilizadas ou desqualificadas. Esses percursos revelam relações de poder que atravessam os sistemas alimentares, evidenciando desigualdades associadas a marcadores sociais como raça, gênero, classe e território, bem como heranças coloniais que estruturam narrativas sobre identidade e pertencimento.
As cozinhas são compreendidas como espaços de encontro e negociação entre práticas locais e influências externas, onde categorias como "autêntico", "regional" e "ancestral" são continuamente disputadas e resignificadas. Nesse sentido, a tradição não se opõe à mudança, mas se constitui justamente na tensão entre permanência e transformação, acomodando adaptações, reinvenções e resistências cotidianas.
Por fim, o trabalho argumenta que analisar a cozinha tradicional a partir de suas trajetórias permite reconhecer a alimentação como campo privilegiado de produção de vínculos, afetos e identidades, ao mesmo tempo em que evidencia a comida como espaço de disputa material e simbólica. Essa abordagem possibilita articular debates sobre memória, mobilidade, território e pluridiversidade, contribuindo para uma reflexão crítica sobre os modos pelos quais diferentes sujeitos constroem, reivindicam e negociam suas formas de cozinhar e comer.
-
Agências de Quintais e Ribeirinidade Urbana: Usos, Apropriações e Memórias na Várzea do Igarapé Sapucajuba (Belém-PA)
— Cintia Sousa, Bárbara Faciola Pessoa Baleixe da Costa, Luiz de Jesus Dias da Silva
— Cintia Sousa, Bárbara Faciola Pessoa Baleixe da Costa, Luiz de Jesus Dias da Silva
Este trabalho investiga os poderes e agências de quintais imaginários (Sousa et al, 2024) situados em áreas de várzea no bairro do Guamá, em Belém-PA. A pesquisa situa-se na fronteira entre o Igarapé Sapucajuba — que atravessa o campus universitário — e a via arterial denominada Perimetral, um território marcado por tensões entre a lógica de produção hegemônica da cidade e as formas de habitar insurgentes. Embora a literatura (Cardoso et al, 2020) aponte que hegemonicamente esses espaços, geralmente chamados de “baixadas”, sejam marginalizados, eles possuem potencialidades e este estudo busca olhar para a singularidade dos arranjos e técnicas que ativam o território. Por meio de uma etnografia focada nos agenciamentos sensíveis, observou-se que as casas e quintais operam como dispositivos que recriam o modo de vida tradicional em meio ao adensamento urbano. A implementação de construções vernaculares (como jiraus, estivas e plantações em várzeas) não são meras adaptações físicas, mas sim práticas que criam e transformam o espaço, permitindo a criação de plantas, afetos e fazendo emergir memórias de um passado onde o rio era espaço de lazer e encontro. Os resultados indicam que, mesmo diante da degradação ambiental e do encurramento urbanístico,as áreas urbanas em estudo atuam como um espaço de reunião e resistência. Nele, emerge o que Rente Neto e Furtado (2015) chamam de “ribeirinidade”: uma vivência que reivindica o protagonismo do rio e as potências de vida que resistem a um urbanismo que nega o rio, elaborado em um contexto exógeno e implementado na capital paraense.
-
Cozinha, política e soberania alimentar: a atuação da Associação de Mulheres Ticuna Mapana na alimentação escolar
— Edson Tosta Matarezio Filho
— Edson Tosta Matarezio Filho
Esta comunicação apresenta um panorama da formação e da atuação da Associação de Mulheres Indígenas Ticuna Mapana, localizada na comunidade de Belém do Solimões, no município de Tabatinga (AM), a maior comunidade do povo Ticuna, considerado atualmente o grupo indígena mais populoso do Brasil. A experiência da associação constitui um caso emblemático de articulação entre cuidado, território e soberania alimentar, protagonizado por mulheres indígenas em um contexto marcado por profundas desigualdades sociais, históricas e territoriais.
Fundada em 2009 e liderada desde então por Adelina Fidélis Ramos, a Associação Mapana surge no mesmo ano da promulgação da Lei nº 11.947/2009, que estabelece a obrigatoriedade da aquisição de alimentos da agricultura familiar para a alimentação escolar. A partir desse marco legal, a associação consolida-se como uma das mais exitosas experiências de fornecimento de alimentos da agricultura indígena para a merenda de escolas públicas no Brasil, articulando dezenas de famílias Ticuna produtoras agrícolas e uma ampla rede de apoio institucional, que inclui frades missionários capuchinhos, servidores da FUNAI, do Ministério Público Federal no Amazonas, bem como universidades e centros de formação técnica.
Em 2018, a Associação Mapana concretizou a venda de aproximadamente 309 toneladas de alimentos provenientes diretamente das roças Ticuna para todas as escolas públicas de Tabatinga, evidenciando não apenas sua capacidade produtiva, mas também a centralidade dos sistemas alimentares indígenas na garantia do Direito Humano à Alimentação Adequada em contextos amazônicos de fronteira.
Entre os Ticuna, a cozinha é um lugar central de produção da vida social, atravessado por relações cosmológicas, regimes rituais e prescrições alimentares que regulam corpos, ciclos vitais e relações com humanos e não humanos. Práticas como o preparo do peixe moqueado, da mujica, dos mingaus, das bebidas fermentadas e das farinhas tradicionais articulam trabalho, cuidado e ritualidade, estando profundamente conectadas às festas, aos resguardos, às trocas rituais e à reprodução da coletividade.
Ao discutir a atuação da Associação Mapana, o trabalho dialoga com perspectivas antropológicas e decoloniais sobre soberania alimentar, gênero e economia indígena, destacando o protagonismo das mulheres Ticuna na defesa de sistemas alimentares próprios, na geração de renda comunitária e na afirmação de modos de vida que resistem às lógicas hegemônicas do agronegócio e da mercantilização da alimentação. Assim, a experiência da Mapana contribui para pensar, em chave pluri-epistêmica, as relações entre alimentação, território e cuidado em tempos de crise, reafirmando a centralidade dos saberes indígenas na defesa da vida plural.
-
Arepas, cachapas e hallacas: A comida como mediação de venezuelanos no Cone Sul
— Jesus Marin Morales
— Jesus Marin Morales
Multifacetada e de grande escala, a migração venezuelana está se tornando rapidamente o maior deslocamento humano na história recente da América do Sul. Esta pesquisa se propõe a analisar o comércio da gastronomia considerada nacional na diáspora venezuelana como mecanismo não só de sobrevivência econômica mas também de manutenção dos laços com o país de origem e criação de novos vínculos com outros venezuelanos e com estrangeiros nos países de destino pesquisados, a saber, Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai.
Ao longo desse deslocamento, os venezuelanos carregam consigo suas práticas alimentícias correntes. As arepas, as cachapas e as hallacas são três exemplos relevantes nas refeições amplamente difundidas pela população venezuelana no país e no exterior. Além de serem consumidas em um nível cotidiano e de produção acessível, essas refeições são há décadas entendidas como símbolos nacionais (CARTAY, 1998). A preparação dessas comidas (especialmente as hallacas por sua conotação natalina) possui até mesmo um caráter ritualístico, catalisador de coesão social por meio da participação coletiva na sua preparação e no seu consumo, reforçando a identidade venezuelana e o senso de identificação com a comunidade imaginada através da comida (FINOL & PEREZ, 2016). Para a grande maioria dos venezuelanos (no país e no exterior), a arepa e a cachapa são preparadas em contextos cotidianos, como base da dieta diária, que são levadas pelos migrantes em seus movimentos geográficos e construções identitárias. Me baseio inicialmente no livro clássico de Benedict Anderson (2008), que define a nação como comunidade imaginada como limitada e soberana. Essa definição, amplamente difundida, instaura as bases para a concepção antropológica da nação como uma construção cultural que vai além de sua substância institucional. Nesta pesquisa, serão investigados os laços das comidas entendidas como nacionais e a própria sensação de pertencimento à nação, baseado nas contribuições de Anderson. Ainda, esta dinâmica ganha contornos especiais no contexto migratório de venezuelanos no Cone Sul. Nesse sentido, parto tambem dos trabalhos de Sidney Mintz (2001), que desenha um panorama da comida e seu papel mediador de cultura e identidade como campo de estudo na antropologia.
Em sintese: em diálogo com as antropologias da comida e da globalização, a pesquisa examina a produção e o comércio de comida venezuelana em relação com o nacionalismo de longa distância e a ressignificação e mercantilização da cultura em contextos diaspóricos. A pesquisa consistirá em etnografia virtual em redes sociais e em entrevistas e conversas informais online.
Se trata de uma pesquisa de Iniciação Científica com Bolsa PIBIC CPNq/FFLCH, em andamento.
-
Ajeumbó: Os de comer, a etnografia contracolonial e o surgimento de epistemologias dissidentes a partir do chão de terreiro.
— Lina Dèlé Nunes, Evelyn Marcele, Cláudio Fonseca de Oliveira
— Lina Dèlé Nunes, Evelyn Marcele, Cláudio Fonseca de Oliveira
Este trabalho parte da experiência de quem vive o chão de terreiro, investigando como práticas cotidianas, especialmente alimentares e ritualísticas, constituem modos de vida e saberes em comunidades afrodiaspórica. Neste breve artigo,exploro os saberes produzidos no chão de terreiro, com atenção às práticas alimentares e aos rituais que configuram modos de vida e formas de conhecimento em comunidades afrodiaspóricas. Por meio de uma pesquisa etnográfica, ancorei-me na contracolonialidade, busquei compreender como as práticas de terreiro de candomblé geram epistemologias dissidentes, que subvertem padrões eurocêntricos de produção de conhecimento. Inspirada por esse pensamento a abordagem reconhece o terreiro como espaço de memória, ancestralidade e resistência, onde os saberes cotidianos da alimentação ritualizada aos cuidados com o corpo e o ambiente que emergem como formas legítimas de conhecimento, capazes de afirmar identidades, criar suas próprias teorias e sustentar comunidades.
-
A mandicuera: mingau ritual, em memória dos mortos, no nordeste paraense
— Miguel de Nazaré Brito Picanço
— Miguel de Nazaré Brito Picanço
A pesquisa sobre a mandicuera, um mingau ritual produzido na comunidade de Araí, em Urumajó, no nordeste paraense, revela a complexidade simbólica e social de uma tradição ancestral que resiste ao tempo. O objetivo do estudo foi compreender a mandicuera como um rito de passagem (Gennep,2011) que articula memória, sociabilidade e identidade cultural, explorando suas práticas, rituais e significados simbólicos. A metodologia envolveu uma abordagem etnográfica, com observações presenciais e entrevistas com moradores locais, sobretudo mulheres guardiãs da tradição, como Rosa, Catarina e dona Benedita, além de registros visuais e análise de relatos de familiares. O trabalho focou na descrição do processo de preparo do mingau, sobretudo na elaboração da calda da mandiocaba, e na interpretação do rito a partir da teoria de Victor Turner (1974), que destaca a liminaridade, a communitas e a performatividade dos rituais sociais. Os resultados evidenciam que a mandicuera transcende a uma simples comida, sendo uma prática ritualizada que reforça laços afetivos, memórias ancestrais e identidades coletivas, especialmente na relação entre vivos e mortos, presente nas celebrações do dia de finados. A sua preparação exige paciência, silêncio e atenção aos detalhes, momentos que criam um espaço liminar uma espécie de estado de suspensão temporal em que os participantes se renovam social e espiritualmente. Além disso, a pesquisa aponta a continuidade dessa tradição apesar de seu risco de desaparecimento, em função do declínio do cultivo da mandiocaba e do desinteresse de novas gerações em manter a prática. Ainda assim, a venda do mingau nas festividades e em cemitérios funciona como uma forma de resistência cultural, reafirmando o pertencimento, a memória e a religiosidade popular. Os depoimentos ilustram que a mandicuera é um símbolo de resistência, de preservação de saberes tradicionais e de conexão entre gerações, atuando como uma matriz de sociabilidade e memória coletiva. Assim, o estudo revela que esse rito alimentar integra elementos de transformação social e espiritual, fortalecendo a identidade do povo paraense, em um processo de resistência cultural, que atravessa o tempo e reafirma a brasilidade amazônida.
-
Quando a cozinha depende de doações: pensando o menu na Obra Social Casa de San Martín de Porres, Lima, Perú
— Patrício Carneiro Araújo
— Patrício Carneiro Araújo
A Obra Social Casa de San Martín de Porres é uma instituição beneficente ligada à Província Dominicana do Peru, com duas Casas, uma na cidade de Lima e outra na cidade de Chosica. Na sede de Lima a Obra oferece diferentes formas de assistência social a populações pobre e vulneráveis, entre elas um grupo de aproximadamente 120 idosos e idosas que diariamente comparece às suas instalações para tomar um café da manhã e um almoço. No que se refere a este atendimento, a segurança alimentar desse grupo de idosos está diretamente ligada à existência de um armazém (dispensa), uma cozinha e dois refeitórios. O armazém, do qual cozinha e refeitórios dependem, é abastecido por doações coletivas e individuais, entre cujos doadores estão pessoas comuns, a Municipalidad de Lima (através do Banco de Alimentos) algumas redes de supermercados como Plaza Vea e Vivanda que, semanalmente, doam alimentos fora do padrão de venda. Da administração desse fluxo de alimentos depende a formulação, aplicação e disponibilização do menu praticado na cozinha e refeitórios da Casa. Neste trabalho pretendo apresentar e analisar o menu praticado ali, considerando a realidade de vulnerabilidade alimentar de populações de idosos em risco no centro de Lima, considerando, inclusive, quando que a dita "cozinha limenha" comparece ou não à mesa dos idosos beneficiados por esta política alimentar adotada pela Ordem Dominicana naquela região da capital do Peru. O trabalho é resultado de uma pesquisa de pós-doutorado realizada por mim ao longo do ano de 2025, através da Universidad Veracruzana (México) e tendo a sede de Lima da Obra Social Casa de San Martín de Porres como epicentro da pesquisa de campo.
Coordenação
Eduardo de Oliveira Rodrigues (Colégio Pedro II / Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança (PPGJS-UFF))
Elizabete Albernaz (Wits University)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Lucia Eilbaum (UFF)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Leonardo Brama (Università degli Studi di Perugia | UFF)
A etnografia se baseia na co-presença e na mútua implicação, em que a pesquisa se torna inseparável das relações que a tornam possível. Nesse sentido, a pesquisa etnográfica sobre policiamentos empreendidos por grupos armados traz uma série de desafios e limites de natureza ética, afetiva e política. A presença em campo exige expor-se a riscos, negociar acessos e aceitar a incerteza como parte constitutiva da produção do conhecimento. Implica o diálogo com alteridades desconfortáveis, o contato com práticas consideradas ilegais e formas de violência material e simbólica em suas diferentes manifestações. Dessa forma, a presente proposta recepcionará trabalhos que se aproximem dos múltiplos desafios envolvendo o estudo sobre formas de policiamento de grupos armados como as polícias, o tráfico varejista, grupos paramilitares, agentes de segurança privada e situações mais gerais de “vigilantismo”. Nos interessa sobretudo refletir acerca: 1) dos dilemas éticos e/ou metodológicos envolvidos no tocante ao “fazer etnográfico” no âmbito dessas pesquisas; 2) das diferentes estratégias e formas de lidar (e eventualmente superar, ou reformular o desenho de pesquisa de acordo) com tais limitações; 3) do papel político dos resultados das pesquisas não apenas para os atores sociais em campo, mas também para as instituições envolvidas nesse processo como universidades, comitês de ética em pesquisa, órgãos ligados ao sistema de segurança pública, grupos armados ilegais, etc.).
Títulos e Resumos
-
"Matar tem mérito, morre teve merecimento": Operações policiais e os rendimentos políticos, econômicos e midiáticos da "guerra contra o crime" no Rio de Janeiro
— Fatima Cecchetto, Jacqueline de Oliveira Muniz
— Fatima Cecchetto, Jacqueline de Oliveira Muniz
Analisa-se a banalização das operações policiais em territórios sob domínios armados no Rio, entre 2017 e 2024. Apoia-se em trabalho de campo com moradores de favela, policiais militares e guardas civis, além de fontes documentais, iconográficas e jornalísticas. A análise toma a insegurança pública como projeto de poder, no qual a operação se consolida como uma tecnologia de governo de elevada visibilidade, emancipada dos marcos normativos do uso da força, que desloca o policiamento de rotina para o policiamento-exceção, produzindo ganhos para a economia do crime. Sustenta-se que as operações rotinizadas são uma forma de governar com o crime que combina fins eleitoreiros e modos táticos pessoalizados, alimentando governos policiais autônomos com ampla latitude discricionária, baixa institucionalidade e opacidade decisória. A operação funciona como linguagem de Estado e como ativo de negociação da gestão dos policiamentos, tornando visíveis as sobreposições entre legal e (i)legal. Nesse arranjo, o Estado opera como agência reguladora do crime, terceirizando policiamentos, arrendando territórios, negociando alvarás informais de funcionamento das bocas e consorciando governanças sobre populações e mercados (i)licitos. Matar passa a ter mérito quando ocorre sob autorização política e consentimento social, morrer passa a ter merecimento quando a morte pode ser comunicada como efeito moral cirúrgico da ação estatal. Aqui a regra da não rendição opera como tecnologia: elimina custos de custódia, julgamento e administração do preso faccionado, reduz riscos de vazamento de esquemas, preserva hierarquias criminais e permite que a morte se converta em saldo operacional legítimo. O argumento organiza-se em torno de um paradoxo: o emprego reiterado da repressão armada, longe de ampliar a capacidade estatal de controle, consome a própria possibilidade de a polícia policiar gerando escassez de seus meios repressivos. As operações prosperam porque sua elevada visibilidade midiática permite fabricar dividendos políticos e econômicos, deslocando a segurança pública para uma política baseada em impacto e terceirização do comando. As chacinas emergem como racionalidade instrumental: funcionam como solução para reordenar domínios armados, reduzir custos logísticos, antecipar eliminações no atacado para estabilizar o varejo do crime. O Estado não abdica do monopólio de matar-deixar morrer, mas o exerce como franquia seletiva, compartilhada com parcerias operacionais e tolerâncias negociadas. Essas dinâmicas impõem desafios metodológicos ao fazer etnográfico: negociações sob regime do medo, manejo de fontes/imagens e implicações da produção e circulação dos resultados. "Matar tem mérito, morrer tem merecimento" não constitui juízo moral, mas gramática prática de governo.
-
"Se você tomar um tiro, vou colocar uma arma na sua mão": matabilidada, ética e pesquisa etnográfica com policiais
— Flavia Medeiros Santos
— Flavia Medeiros Santos
A frase que intitula este resumo foi dirigida a mim, no interior de uma delegacia policial enquanto fazia trabalho de campo naquela repartição. Diante da impossibilidade de sair a um local junto aos meus interlocutores de campo, devido ao suposto risco de troca de tiros, um deles me elucidou: Se você tomar um tiro, vou colocar uma arma na sua mão. Neste resumo, irei articular dados etnográficos construídos no decurso dos últimos 15 anos de trabalho de campo com agentes estatais armados, que incluem investigadores, peritos, delegados e policiais militares no Rio de Janeiro e em Santa Catarina, que atuam executando corpos, forjando mortes e/ou inscrevendo-as em documentos públicos. A partir deste contexto, irei refletir sobre como a morte se compõe enquanto categoria êmica dos modos de viver e habitar de policiais e sobre como se constitui enquanto conceito fundamental nas suas interações entre si e com não policiais. Nos processos de manipulação material e simbólica da morte, tais agentes evidenciam a arma de fogo como artefato que media a relação técnica com os mortos e como dispositivo que produz o corpo armado como ferramenta para o exercício do poder coercitivo, aprofundando a diferença entre policiais e não policiais. Considerando que a chance de matar por parte de um policial é acionada como justificativa da percepção de ameaça de morte, a sua autoridade na produção de mortos está vinculada ao risco, que opera de forma central na relação policial com as armas, pois legitima a autodefesa como gestão de si. O presente trabalho parte de reflexões sobre a produção técnica, econômica e moral de mortos na rotina burocrática e militar, com o objetivo de produzir uma análise antropológica da racionalidade policial, considerando seus valores, crenças e conceitos. Proponho que o risco de matabilidade tem relação direta com a forma como os policiais controlam os vivos e matam os mortos e se reflete em sua ética corporativa. Neste sentido, espero contribuir de forma etnográfica por meio de reflexões teórico-metodológicas sobre conflitos, violência e política; e também nos debates sobre a ética de pesquisa em contextos de conflito armado.
-
Campo em tensão: dilemas metodológicos da pesquisa em territórios de controle armado
— Jocenei Rosa da Costa
— Jocenei Rosa da Costa
O presente trabalho parte da experiência de um morador-pesquisador em um bairro do extremo oeste do Rio de Janeiro, território historicamente marcado pela atuação e pelo controle de grupos milicianos. A pesquisa busca compreender como se estruturam as relações de poder e dominação territorial no cotidiano dos agentes e de que forma atravessam práticas de sociabilidade, moralidade e pertencimento. A partir de uma abordagem etnográfica, analisa-se como a violência e o medo operam como dimensões organizadoras da vida social, revelando negociações sutis entre coerção e convivência. Para contextualizar a consolidação das milícias na cidade, o trabalho retoma marcos histórico de ampla repercussão pública, como o sequestro e a tortura de jornalistas em 2008 na favela do Batam, episódio que levou à instalação da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Os desdobramentos da Comissão revelaram a estruturação desses grupos como formas de poder territorial baseadas na violência, na extorsão e no controle político e econômico de serviços essenciais. Após a repressão institucional e a prisão de agentes públicos envolvidos, as milícias passaram a atuar de maneira menos ostensiva, porém mais capilarizada e adaptada. Dados indicam que, entre 2006 e 2021, o domínio territorial miliciano se expandiu de forma expressiva, especialmente na Zona Oeste, evidenciando a permanência e a reconfiguração dessas formas de governo armado no espaço urbano. Nesse sentido, o principal eixo do trabalho consiste em refletir sobre as implicações de pesquisar em contextos atravessados pela atuação de milícias para o próprio fazer antropológico, marcado por risco, silêncio e restrições de acesso, bem como em discutir as estratégias e os procedimentos analíticos mobilizados para lidar com tais limitações, seja na tentativa de superá-las, seja por meio da reformulação do desenho da pesquisa em função dessas condições.
-
A metodologia da paciência: saber estar e calar na etnografia do policiamento no Paraguai
— Juan A. Martens
— Juan A. Martens
Esta comunicação reflete sobre os desafios metodológicos e éticos da pesquisa sobre os policiamentos a partir de uma etnografia multisituada das práticas e identidades policiais, desenvolvida de forma contínua no Paraguai desde 2019, com a colaboração de alguns agentes policiais, a partir de uma perspectiva criminológica e de análise da configuração do sistema penal. Os sete anos de produção de informações foram possíveis graças à superação de desafios éticos e à adoção de uma metodologia da paciência, marcada por negociações constantes, trocas e ajustes permanentes no trabalho de campo.
A construção de vínculos de confiança e cooperação com oficiais e suboficiais foi o que permitiu a presença prolongada em campo, a participação em operações policiais e a visita a centros de formação. Identificou-se a existência de um relato para exportação, dirigido a civis e a estranhos ao universo policial, caracterizado pela normalização e pela legalização discursiva das práticas institucionais. Transpor esse registro defensivo exigiu longos tempos de copresença e o desenvolvimento de uma estratégia relacional diferenciada, que resultou na classificação dos interlocutores em três níveis de confiança (alta, média e baixa). Apenas nos vínculos de alta confiança, nos quais a relação se tornou pessoal e de amizade, emergiram relatos desprovidos de justificativas normativas e mais próximos da experiência vivida.
Do ponto de vista ético, um dos principais aprendizados do trabalho de campo foi o desenvolvimento da capacidade de saber estar e calar diante de ações cujos limites entre o legal e o ilegal não eram claros, bem como de relatos de violações de direitos humanos. Foi necessário aprender a não reagir emocional ou moralmente frente a narrativas de abusos policiais, violências extremas e práticas de tortura. A escuta sustentada, contida e estrategicamente silenciosa constituiu-se, assim, em uma técnica ética fundamental do trabalho etnográfico.
Além disso, foi preciso lidar com a tendência sistemática à defesa do colega, com a persistência de um pacto de silêncio aprendido desde a academia policial e com o resguardo ativo do anonimato de interlocutores críticos, tanto para protegê-los quanto para proteger o próprio pesquisador. A comunicação discute, ainda, como a posição pública do pesquisador como ator crítico no debate sobre segurança reconfigura o campo, gerando simultaneamente alianças, desconfianças e fechamentos de acesso, o que torna a reflexividade ética uma condição permanente da pesquisa e propõe ferramentas metodológicas para investigações etnográficas em contextos de policiamento e violência institucional.
-
Tensões, recusas e negociações: o fazer etnográfico em uma delegacia de polícia em Santa Catarina.
— Luís Augusto de Souza Bevacqua
— Luís Augusto de Souza Bevacqua
Esta apresentação é fruto de uma parte do meu Trabalho de Conclusão de Curso para a graduação em Antropologia na Universidade Federal de Santa Catarina e se desenvolve junto ao Laboratório Universitário de Política, Direitos, Conflitos e Antropologia (LUPA) e que tem como tema "A violência contra pessoas idosas", que de acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa, são as pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. Durante o ano de 2025 percorri as principais instituições que de alguma forma lidam com a questão da violência contra pessoas idosas, em Florianópolis. Neste período estive na Defensoria Pública de Santa Catarina (DPSC); na Ouvidoria Geral da Defensoria Pública de Santa Catarina; no Ministério Público do Estado de Santa Catarina (MPSC) e por fim na Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) do município de Florianópolis. Aqui apresentarei a minha experiência etnográfica junto a esta delegacia, onde realizei entrevistas com as autoridades policiais, as delegadas e as agentes da autoridade policial, escrivães, agentes e psicólogas e acompanhei através de observação as dinâmicas policiais nesta delegacia e também analisei dados da documentação que me foi disponibilizada através da Lei de Acesso à Informação (Lei Federal nº 12.527/2011), sobre os crimes onde as vítimas eram pessoas idosas, colocando em evidência o empenho necessário para realizar uma pesquisa etnográfica junto às instituições do sistema de justiça e segurança pública, em Santa Catarina, discutindo a formação deste campo, marcado por negações e jogo de empurra entre as diversas autoridades policiais para conseguir acesso ao campo. A experiência etnográfica junto à DPCAMI de Florianópolis, por sua vez, colocou em relevo os desafios éticos, metodológicos e políticos que atravessam as pesquisas na área das Ciências Humanas quando estas se debruçam sobre instituições de controle social. Um outro ponto importante é o de que, na realização de entrevistas com as autoridade e agentes da autoridade policial, criou-se uma inversão de papéis, ou seja, aqueles que geralmente entrevistam e fazem as perguntas, agora estavam no papel de entrevistados. Além disso, aponto também as dificuldades enfrentadas ao submeter meu projeto de pesquisa para o TCC, ao Sistema do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos (CEPSH) da Universidade Federal de Santa Catarina, revelando camadas de uma burocracia e de disputas institucionais.
-
"SEM CONDIÇÃO" A relação civil x militar no ambiente universitário do Curso de Bacharelado em Segurança Pública - UFF
— Thayná Moreira Cardoso de Carvalho Grandin
— Thayná Moreira Cardoso de Carvalho Grandin
Com minha pesquisa tenho como objetivo discutir as moralidades em jogo na relação civil-militar no ambiente universitário. Nesse sentido, através do trabalho de campo, pretendo descrever o processo de socialização acadêmica dos agentes de Segurança Pública como alunos do Curso de Bacharelado em SPU UFF. E mais especificamente, demonstrar as diferentes sensibilidades que envolvem as relações entre as práticas militares e as formas de administração de conflitos na universidade. Nesse sentido, buscarei apresentar a estrutura metodológica do curso como um diferencial para se pensar no tema de forma crítica-reflexiva, provocando o estranhamento e a interpretação das diferentes relações e contextos sociais. Este é um estudo inicial na minha pesquisa de doutorado, o qual pretendo desenvolver durante a pesquisa de campo com base nas observações etnográficas, entrevistas e participação no ambiente de aprendizagem do curso.
Palavras-chave: Segurança Pública; Relação civil x militar; Universidade;
-
O impacto da regulamentação da maconha no Brasil nas percepções, narrativas e práticas dos agentes de segurança pública do estado do Rio de Janeiro
— Yuri José de Paula Motta
— Yuri José de Paula Motta
Neste trabalho busco sistematizar dados da pesquisa que venho desenvolvendo por meio do estágio de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Justiça e Segurança da Universidade Federal Fluminense (PPGJS/UFF). O estudo visa interpretar e compreender as narrativas, percepções e práticas dos agentes de segurança pública do estado do Rio de Janeiro com relação às recentes regulamentações da cannabis no país. Ao longo da última década, o status legal da planta vem passando por diversas transformações normativas, que vão desde resoluções expedidas pela Anvisa e decisões judicias proferidas exclusivamente para finalidades medicinais, até mesmo a descriminalização do porte e do cultivo por parte do Supremo Tribunal Federal (STF). Dessa maneira, o principal objetivo da pesquisa é compreender se e como essas diversas normativas que surgiram em torno da maconha nos últimos anos impactam ou não na prática cotidiana dos profissionais. A metodologia utilizada é a das ciências sociais, em especial a da antropologia a partir da realização de trabalho de campo. Por conta da minha participação no Grupo de Estudos em Segurança Pública (GESP), grupo ligado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (InEAC), estabeleci interlocução com diversos agentes de segurança pública do estado do RJ, em especial policiais militares, civis e guardas municipais que são alunos no curso de Tecnólogo em Segurança Pública na UFF. Além disso, tive a oportunidade de observar seus posicionamentos sobre a política de drogas durante os encontros. Os dados etnográficos nesse sentido são fruto da construção dos vínculos de confiança no trabalho de campo. A etapa da pesquisa é inicial, portanto, exploratória, cujas próximas etapas são: a) pesquisa em profundidade através de entrevistas semiestruturadas; b) pesquisa quantitativa por amostragem a partir da aplicação de questionários; c) projeto de internacionalização e possibilidade de realizar uma pesquisa comparativa na Argentina. Até o momento foi possível sistematizar alguns discursos e argumentos que se mostraram comuns aos agentes de segurança pública, são eles: a não valorização das experiências, práticas e saberes dos agentes de segurança pública na formulação e implementação de políticas públicas sobre o tema; demandas por capacitação e protocolo de atuação; demandas por acessibilidade ao debate acadêmico e científico sobre a planta; o policial enquanto um agente operacional. Ao fim, espero que os resultados orientem gestores públicos e formuladores de políticas públicas na direção de reduzir as desigualdades jurídicas, sociais e raciais. Também almejo que estes dados possam servir como base para a construção de um material didático para cursos de capacitação e qualificação desses profissionais.
Coordenação
Antonio Carlos de Souza Lima (UFRJ e UFF)
Leonardo Francisco de Azevedo (UFJF)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Leonardo Francisco de Azevedo (UFJF)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Antonio Carlos de Souza Lima (UFRJ e UFF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Deborah Bronz (UFF)
A partir dos anos de 1950, o desenvolvimento consolidou-se como paradigma central nos debates políticos e intelectuais, orientando a criação de agências estatais e justificando intervenções técnico-políticas. Seu discurso oficial prometia combater a pobreza via crescimento econômico e avanço tecnológico, priorizando métricas como o PIB em detrimento de possibilidades redistributivas. Desde então, antropólogos e cientistas sociais latino-americanos analisam os efeitos dessas transformações em sociedades de origem agrária, marcadas por legados coloniais e escravistas. A industrialização, urbanização acelerada e projetos de “integração nacional” – como a ocupação estatal de biomas sensíveis – produziram soluções autoritárias, afetando drasticamente populações tradicionais. Apesar da transição para democracias e do reconhecimento parcial de direitos étnicos, o século XXI testemunhou a reprimarização econômica, a desindustrialização e as crises socioambientais. A atual emergência climática reacendeu críticas aos modelos ultraneoliberais e extrativistas, baseados na exploração de recursos finitos. Propõe-se aqui, portanto, um exame histórico-antropológico do desenvolvimento, seu substrato autoritário e alternativas futuras, acolhendo trabalhos sobre práticas de poder que conformam elites e instituem organizações estatais bem como aqueles dedicados a compreender formas de luta de coletividades frente a Estados, empreendimentos e corporações.
Títulos e Resumos
-
Uma etnografia do Projeto Agrícola da Lavoura Mecanizada dos Haliti (Paresi)
— Carolina Delgado de Carvalho
— Carolina Delgado de Carvalho
Argumento que a adoção da agricultura mecanizada pelos Haliti (Paresi) não deve ser compreendida como um fenômeno isolado recente, mas como parte de uma dinâmica histórica e social de interação e negociação com as sucessivas frentes de expansão capitalista sobre seu território. Na literatura, é descrito o prolongado histórico de contato do povo Haliti, com trocas econômicas e prestação de serviços durante os ciclos econômicos que ocorreram na região. Assim, o envolvimento contemporâneo com a produção de grãos não representa uma ruptura absoluta com o passado, mas uma reconfiguração de práticas econômicas e de poder anteriores, em um contexto político e tecnológico contemporâneo. A etnografia do Projeto Agrícola da Lavoura Mecanizada está baseada em farta documentação analisada e em trabalho de campo realizado junto às quatro cooperativas existentes atualmente. A análise demonstra como o Estado brasileiro e as políticas de desenvolvimento estimularam a ocupação não indígena do território Haliti, fortalecendo a ideia de que eram “terras improdutivas”, e com isso, a expansão do agronegócio, o incentivo à monocultura, à concentração fundiária e ao desmatamento. Nesse contexto, emerge a demanda pela implantação do Projeto, estratégia política, econômica e social construída por alguns Haliti, com fazendeiros e políticos da região. Demonstro que tal iniciativa partiu de lideranças Haliti que trabalhavam em fazendas e foram convencendo os demais a aderir ao Projeto, com pressão, diálogo e com a expansão da repartição de benefícios, investindo em projetos coletivos e em ações individuais ou familiares. Não nego as controvérsias e tensões que cercam o Projeto, que se insere em uma lógica de economia de mercado, articulada a valores sociais próprios, como a centralidade da diplomacia e das negociações com diversos atores. A etnografia revela a agência dos Haliti na construção de estratégias de inserção no capitalismo contemporâneo, evidenciando que suas decisões são tomadas em um campo de forças desigual, não desprovido de capacidade reflexiva e ação política. A tendência é de responsabilizar os Haliti pela adoção a um modelo produtivo que é hegemonicamente promovido pelo Estado e pelo mercado. Este trabalho reconhece os impactos ambientais e os desafios associados à agricultura mecanizada, sem, contudo, reduzir a análise a um juízo moral sobre as escolhas indígenas. Em síntese, o Projeto não pode ser interpretado nem como simples assimilação ao agronegócio, nem como traição a uma suposta “essência indígena”, mas como uma resposta historicamente situada às condições de poder impostas pela expansão do capitalismo no Cerrado mato-grossense, revelando continuidades e rupturas nas formas de interação entre povos indígenas, Estado e mercado no Brasil contemporâneo
-
"Argila lavada é rejeito": uma análise sobre a participação social no processo de licenciamento ambiental estadual dos empreendimentos de terras raras no Sul de Minas Gerais
— Coral Veloso de Oliveira
— Coral Veloso de Oliveira
No sul do estado de Minas Gerais, em uma região geologicamente conhecida como Complexo Alcalino de Poços de Caldas, dois projetos de empreendimentos minerários, cujo objetivo é a extração e beneficiamento dos "Elementos Terras Raras" (ETR), avançam sobre o território: o Projeto Colossus, da Viridis Mining & Minerals Ltd., e o Projeto Caldeira, da Meteoric Caldeira Mineração Ltda; ambas empresas australianas.
Os elementos terras raras, presentes na região de Poços de Caldas e Caldas na forma de argila iônica, representam um novo mercado global emergente dos acordos climáticos e estudos científicos que esclarecem ser urgente uma transição energética no planeta Terra, como medida de adaptação às mudanças climáticas já em curso nas últimas décadas, sendo esta a principal justificativa econômica apresentada pelos empreendimentos. Desta forma, o contexto geopolítico dessa "corrida" pelas terras raras no Brasil revela-se na velocidade com que os dois empreendimentos prosseguem no âmbito do rito técnico-administrativo do licenciamento ambiental mineiro.
Ao longo do ano de 2025, desde o mês de maio os dois empreendimentos estiveram em busca da concessão de suas Licenças Prévias (LP), de maneira concomitante, sendo estas enfim aprovadas pela Câmara de Atividades Minerárias (CMI) do Conselho de Política Ambiental de Minas Gerais (COPAM) no dia 19 de dezembro de 2025, após quase 10 horas ininterruptas de uma reunião virtual que contou com a inscrição de mais de 50 participantes da sociedade civil e movimentos sociais, como o Movimento Nacional pela Soberania Popular na Mineração (MAM).
Entre a deflagração da Operação Rejeito, em setembro de 2025, a greve dos servidores do Meio Ambiente de Minas Gerais, que durou 94 dias, e irregularidades na composição dos conselheiros ainda em mandato no COPAM, a política ambiental mineira parece frágil, o que não tem passado despercebido pela sociedade civil engajada.
Em uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, na Comissão de Meio Ambiente, encabeçada pela deputada estadual Bella Gonçalves, atores de instituições federais, estaduais e municipais estavam presentes, bem como uma parcela da população sul-mineira que busca compreender com clareza a magnitude e dimensão de ambos os projetos. Os representantes das empresas, embora convocados, não estavam presentes.
A partir deste contexto, o trabalho busca investigar como a participação da sociedade civil implica-se durante o prosseguimento dos procedimentos de licenças ambientais dos projetos, considerando o licenciamento ambiental como uma ferramenta institucional de manutenção das relações de poder e os limites e possibilidades de tensionamentos do fator participativo social no processo de licenciamento, em meio a continuidade do progresso no Brasil.
-
Petróleo, desenvolvimento e práticas de poder: efeitos socioambientais da indústria petrolífera sobre comunidades quilombolas no estado do Rio de Janeiro
— Deborah Bronz
— Deborah Bronz
O presente artigo propõe uma reflexão sobre os efeitos socioambientais da indústria do petróleo e gás no estado do Rio de Janeiro, tomando como eixo a articulação entre petróleo, desenvolvimento e práticas de poder. A partir de pesquisas etnográficas realizadas na região norte do estado, em áreas adjacentes à chamada Bacia de Campos, examino como a presença histórica e contemporânea da indústria petrolífera tem reconfigurado territórios, modos de vida e formas de governança socioambiental. O artigo dialoga com o imaginário desenvolvimentista que, desde a criação da Petrobras e da campanha “O petróleo é nosso”, associa a exploração petrolífera à soberania nacional e ao progresso econômico. Argumento que esse discurso se atualiza no século XXI com as descobertas do pré-sal e com a expansão recente de novas fronteiras petrolíferas (a exemplo da região da foz do Amazonas), ao mesmo tempo em que se reproduzem dinâmicas de concentração fundiária, especialização produtiva, urbanização acelerada e dependência econômica dos municípios em relação aos royalties do petróleo. Procuro mostrar como esses não são efeitos colaterais, mas elementos estruturais de um modelo de desenvolvimento centrado na exploração intensiva de recursos energéticos e na produção de combustíveis fósseis. Ao articular escalas locais, regionais e nacionais, o trabalho evidencia como as instituições de Estado, em associação com grandes corporações, operam por meio de instrumentos regulatórios, políticas de licenciamento e programas de mitigação e compensação que tendem a minimizar esses efeitos e a neutralizar conflitos. Por fim, discuto como as comunidades atingidas produzem formas de crítica, resistência e elaboração política frente aos empreendimentos petrolíferos, contribuindo para o debate sobre justiça socioambiental, autoritarismos contemporâneos e alternativas ao paradigma desenvolvimentista no contexto da crise climática.
-
Uma etnografia às redes de fomento à inovação regional do Paraná
— Laísla Dantas Chagas
— Laísla Dantas Chagas
Esse trabalho de pesquisa tem como objetivo desenvolver uma etnografia das políticas de Inovação no Estado do Paraná, a partir das redes de atores e instituições envolvidas em seus processos de elaboração, consolidação e implementação. Busca-se compreender os deslocamentos provocados nas políticas de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) e no próprio conceito de Ciência, tomando como eixo de análise o entrelaçamento entre práticas burocráticas, discursos e dinâmicas políticas que configuram o campo da inovação regional. A investigação propõe apreender como e o que define a Inovação e a Ciência às quais essas políticas fazem referência, observando sua "vida social", seus limites de significação, os processos tecnopolíticos de conhecimento e seus modos de ação. Pretende, ainda, analisar de que modo está sendo concebido o papel da ciência e como ela se articula às narrativas de desenvolvimento socioeconômico do Estado. O estudo se fundamenta em uma abordagem etnográfica, combinando acompanhamento de reuniões, eventos e instâncias decisórias, além de uma etnografia dos documentos burocráticos produzidos no âmbito das políticas de inovação e ciência. Ao articular uma reflexão sobre o "fazer-política" a partir das práticas cotidianas que produzem o Estado, a pesquisa pretende contribuir para uma compreensão antropológica das políticas de CT&I, destacando as especificidades e os arranjos locais do caso paranaense.
-
Estratégias estatais de silenciamento dos Povos de Terreiro: a atuação das redes de mobilização dos terreiros nos conflitos de natureza étnico-racial-religioso.
— Leonardo Vieira Silva
— Leonardo Vieira Silva
O trabalho visa analisar a atuação da rede jurídica dos terreiros e suas mobilizações diante das estratégias dos agentes estatais que utilizam as leis sonoras (Lei do silêncio, perturbação do sossego e poluição sonora) para impedir e reprimir práticas religiosas, ou seja, estabelecer um silêncio, no modo de vida dos terreiros. A partir dos casos advindos das cidades de Itaboraí (RJ) e Maceió (AL), observa-se que as estratégias de silenciamento nesses dois contextos são ampliadas, pois não se restringem somente ao combate ao uso dos instrumentos ritualísticos, como, por exemplo, os atabaques e os tambores, como alvos de repressão. Elas se expandem quando os agentes estatais não permitem que os cortejos do Xango Rezado Alto em Maceió realizem o percurso histórico que reconstrói a história do Quebra de Xangô, de 1912, e o deslocam por toda a cidade até gerar o isolamento dele numa área central de pouca visibilidade e realocam as atividades desse movimento, do dia 02 de fevereiro, da histórica e fundamental, para o dia 21 de março. Pretendo compreender como os povos de terreiro de ambas as cidades, que embora vivenciem contextos distintos, estabelecem estratégias de mobilização, a partir das suas redes jurídicas e políticas, atuam para reivindicarem e garantirem direitos e resistirem às tecnologias de governo (FOUCAULT, 2008) dos agentes estatais. Por fim, em análises desses processos, considero que as ações desses agentes encontram resistência, a partir das estratégias de mobilização desses povos, que encontram na ambivalência do Estado brasileiro, uma forma para que os seus ativistas de terreiro e os ativistas estatais (SALVADOR, 2024), atuem em redes para a garantia dos direitos desses povos e para o enfrentamento das violações oriundas dos conflitos étnico-raciais-religiosos (MIRANDA, 2024) presentes na sociedade brasileira.
-
Racismo institucional e produção legislativa: branquitude, cidadania e políticas raciais na Câmara dos Deputados (19452024)
— Luciane Patricio Barbosa Martins, Jacqueline de Oliveira Muniz, Juliana Lencina da Silva, Andréia Soares Pinto, Cyntia Cristina de Carvalho e Silva
— Luciane Patricio Barbosa Martins, Jacqueline de Oliveira Muniz, Juliana Lencina da Silva, Andréia Soares Pinto, Cyntia Cristina de Carvalho e Silva
Este trabalho examina, a partir da produção legislativa federal, como a Câmara dos Deputados formula, organiza e hierarquiza os projetos de lei relativos à raça/etnia no período de 1945 a 2024. O estudo toma o racismo como fenômeno político que se atualiza em rotinas, categorias e procedimentos estatais, muitas vezes sob a forma de universalismos neutros que desracializam conflitos e obscurecem desigualdades. Interessa compreender como se configuram os enquadramentos da cidadania racial, as condições de possibilidade de políticas reparatórias e os modos de justificativa e banalização das denúncias de racismo. Metodologicamente, a pesquisa constrói e analisa um banco de dados de produtos legislativos da Câmara, indexadas por um conjunto de palavras-chave associado a raça/etnia (e articulado a marcadores como religião e segurança pública), permitindo mapear séries históricas, variações por legislaturas e destinos institucionais das proposições (arquivadas, apensadas, em tramitação e transformadas em norma). O recorte longitudinal permite observar mudanças de agenda associadas a marcos político-jurídicos, normas emblemáticas (a exemplo do Estatuto da Igualdade Racial), situando continuidades e rupturas nos regimes de classificação e reconhecimento mobilizados pelo Legislativo. Essas mudanças se expressam nas variações do léxico e das categorias acionadas ao longo das legislaturas, revelando manobras de sentido e acordos políticos inscritos na linguagem da produção legislativa. Observa-se a tendência a restringir o racismo a um problema individual, tratado por respostas penais, enquanto se amplia o escopo normativo de modo generalizante, dessingularizando a população negra como sujeito específico da discriminação e vítima direta dos efeitos do regime escravocrata no Brasil. Os achados indicam (i) forte assimetria entre volume de proposições e efetiva conversão em normas, sugerindo mecanismos institucionais que filtram e limitam a incidência de pautas raciais; (ii) oscilações históricas na centralidade do tema, com crescimento em períodos recentes, mas acompanhado de disputas de sentido sobre cidadania, direitos e segurança; e (iii) padrões de categorização que tendem a deslocar a racialização para registros moralizantes, administrativos ou universalistas, o que pode operar como expressão de branquitude institucional isto é, como produção de normalidade política que define quais demandas se tornam inteligíveis e governáveis. Ao enfatizar as dimensões institucionais do racismo no processo legislativo, o trabalho contribui para compreender obstáculos cotidianos à implementação de políticas públicas antirracistas e ações afirmativas, destacando os pontos de fricção onde se abrem possibilidades de reconhecimento, reparação e transformação.
-
Apontamentos sobre formas atualizadas de exercício de poder tutelar na política patrimonial brasileira
— Maicon Fernando Marcante
— Maicon Fernando Marcante
A presente reflexão busca tecer apontamentos acerca da política patrimonial brasileira considerando imbricações entre práticas e estratégias de interlocução e dispositivos normativos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão do qual faço parte como servidor da área técnica no Estado de Alagoas. Tendo em vista seu histórico de atuação desde a década de 1930, integrando os processos de formação estatal e sua ramificação pelo território nacional produzido por meio da própria malha administrativa, considera-se a dimensão tutelar exercida sobre os patrimônios tombados com base no Decreto-Lei nº 25/1937. Contudo, mais recentemente observamos a promulgação de regulamentações que derivam do relativo reconhecimento e fortalecimento de direitos difusos e coletivos pela Constituição Federal de 1988. No âmbito do patrimônio definido como de natureza material, destacam-se a Política do Patrimônio Cultural Material, instituída pela Portaria nº 375/2018, e o procedimento para declaração de tombamento de sítios ocupados por comunidades quilombolas, regulamentado pela Portaria nº 135/2023. Partindo de instruções de tombamento em Alagoas, almejo cotejar estes dois dispositivos normativos a partir de práticas efetivamente levadas a cabo em processos de reconhecimento pelo IPHAN. Por um lado, vislumbro a instrução de tombamento da Coleção Perseverança que logrou a aprovação do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, em novembro de 2024, a partir de uma série de interlocuções com lideranças e representantes religiosos de Matriz Africana de Maceió e do interior do Estado. Por outro, considero os contatos inicias com lideranças comunitárias para declaração de tombamento do Quilombo Tabacaria, localizado no município de Palmeira dos Índios no Agreste alagoano. Os casos são explorados tendo em vista minha posicionalidade simultânea como técnico do IPHAN-AL e etnógrafo que busca problematizar as formas de interlocução elaboradas nas ações institucionais do órgão. Os resultados preliminares da investigação indicam que, ao passo que as referidas portarias demandam consultas prévias e a participação social dos grupos de referência dos bens considerados, a produção de documentos técnicos e outras práticas processuais podem abrigar formas atualizadas de exercício de poder tutelar no interior da política patrimonial brasileira.
-
As piracemas contra a hidrelétrica: estratégias indígenas e ribeirinhas na Volta Grande do Xingu frente a UHE Belo Monte
— Marcus Antonio Schifino Wittmann
— Marcus Antonio Schifino Wittmann
A UHE Belo Monte é a maior hidrelétrica brasileira em capacidade de geração de energia. Seu projeto se iniciou na década de 1970, durante a ditadura empresarial-militar no Brasil. Mas sua construção só foi realizada quase 4 décadas depois, nos governos do PT, fazendo parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Este programa investiu trilhões de reais na construção de obras de infraestrutura, saneamento básico, transporte e recursos hídricos. Os indígenas Juruna (Yudjá) e ribeirinhos que moram na Volta Grande do rio Xingu, região onde a UHE Belo Monte foi implantada, vivem, desde 2015, quando as comportas de Belo Monte se fecharam, tempos de incertezas. A UHE relegou o Xingu a um novo regime hídrico, e essas populações tradicionais afirmam não mais conhecer o rio em que viveram toda suas vidas. Até os peixes, afirmam os indígenas e ribeirinhos, não sabem mais como é o rio.
O objetivo dessa pesquisa é entender as estratégias utilizadas para lutar contra uma das causas dessas incertezas: os estudos e dados científicos produzidos pela Norte Energia (Nesa), concessionária da UHE. Para os indígenas e ribeirinhos essas ciência com seus mapas, estatísticas, gráficos e previsões não mostra os reais impactos desse empreendimento. Contra essa ciência incerta, a estratégia dos indígenas e ribeirinhos tem sido fazer suas próprias ciências, construindo um corpo de dados que inclua seus conhecimentos tradicionais. A partir disso, foi criado em 2014 o Monitoramento Ambiental Territorial Independente da Volta Grande do Xingu (Mati). Esta rede interdisciplinar, juntando indígenas, ribeirinhos, ONGs e pesquisadores de universidades, tem por objetivo produzir seus próprios dados, articulando conhecimento tradicional e acadêmico para produzir e analisar dados científicos, disputando o discurso e dados oficias sobre os impactos de Belo Monte. Em 2022, os pesquisadores do Mati se reuniram para criar a proposta do Hidrograma Piracema, o qual se baseia nos saberes dos indígenas e ribeirinhos da região e nos dados que eles vêm levantando há anos sobre a vazão dágua e a relação com as piracemas.
Este trabalho se baseia tanto em uma etnografia dos documentos burocráticos do licenciamento de Belo Monte, como ofícios e relatórios enviados ao Ibama tanto pela Norte Energia quanto pelo Mati, assim como uma etnografia de reuniões e eventos de apresentações de dados sobre os impactos de Belo Monte, nos quais estavam presentes técnicos e cientistas da Nesa, do Ibama, do MPF, de Ongs e também indígenas Juruna (Yudjá) e ribeirinhos.
-
ArpinSudeste na COP 30: O movimento indígena organizado frente às disputas pelo “desenvolvimento”
— Maria Clara Oliveira Bellotti
— Maria Clara Oliveira Bellotti
Esse trabalho tem como tema as disputas pelo significado de “desenvolvimento” no contexto do movimento indígena organizado (representado pela Articulação dos Povos Indígenas do Sudeste - ArpinSudeste). Faço essa discussão a partir da experiência de acompanhamento da delegação da ArpinSudeste na COP 30, realizada na cidade de Belém no ano de 2025, espaço complexo e contraditório em que se encontraram Estado, corporações, sociedade civil, movimentos sociais, comunidade internacional e etc. para disputa da pauta climática e de entendimentos diversos da relação entre humanidade e natureza. Como colocou Svampa no livro "Debates latino-americanos: indianismo, desenvolvimento, dependência e populismo" (2023), sobre esses eventos internacionais: “Para além da evidente complexidade, devido à disputa político-ideológica desencadeada em torno de sua definição e seus alcances, era claro que o conceito de desenvolvimento sustentável diferia conforme os variados entendimentos sobre a relação entre homem e natureza, entre crescimento e meio ambiente.” (Svampa, 2023, p. 201)
No contexto de um Governo tido como “favorável” à causa indígena, em que o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) esteve próximo ao movimento indígena para garantir “a maior participação indígena na história das COPs”, as contradições se acentuam: Tivemos no ano do evento o leilão dos lotes de petróleo na foz do rio Amazonas e o avanço da concessão para hidrovia no Tapajós. Enquanto isso, o movimento indígena organizado lidava com suas próprias disputas internas, como coloca Luciano Baniwa, na obra "O Índio Brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje" (2006): “O modelo de organização social, no formato de associação institucionalizada, não respeita o jeito de ser e de fazer dos povos indígenas. Os processos administrativos, financeiros e burocráticos, além de serem ininteligíveis à racionalidade indígena, confrontam e ferem os valores culturais dos seus povos, como o de solidariedade, generosidade e democracia. (...) No entanto, é o único caminho para o acesso a recursos públicos ou da cooperação internacional.” (Baniwa, 2006, p. 82). Diante disso, procuramos refletir sobre as formas de luta do movimento indígena organizado nos espaços de negociação com o Estado e com o atual governo, levando em consideração suas disputas e contradições internas e como as ideias de “desenvolvimento” aparecem nesse contexto.
LUCIANO, Gersem dos Santos Baniwa. O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje. Brasília: LACED/Museu Nacional, 2006.
SVAMPA, Maristella. Debates latino-americanos: indianismo, desenvolvimento, dependência e populismo. São Paulo: Elefante, 2023.
-
Produzir vazios para demarcá-los: o nonsoeil, a Lei do Marco Temporal e a acumulação primitiva do capital
— Mariana Vilas Bôas Mendes
— Mariana Vilas Bôas Mendes
Resumo: A primeira demarcação da TI Ibirama-Laklanõ aconteceu nos anos 1920 e foi realizada pelo SPI. Um século depois essa mesma demarcação deu origem ao julgamento do Marco Temporal da ocupação de terras indígenas no STF. Nesta apresentação, derivada da minha tese de doutoramento, desenvolvo a relação entre o extrativismo econômico, a produção de vazios ou nonsoels (TSING, 2005), a demarcação de terras indígenas e o modo como o Estado e o empresariado se articulam para suprir a necessidade permanente de acumulação primitiva de capital para o “desenvolvimento”.
No início do século XX o governo brasileiro considerou que a região sul do Brasil precisava ser desenvolvida pois havia ali, a seu ver, um vazio populacional e terras improdutiva. Por esta razão contratou empresas de colonização alemãs a fim ocupá-las. Após anos de resistência e a morte de aproximadamente 2/3 de sua população, o povo indígena Laklanõ-Xokleng, que ali habitava, se viu compelido a aceitar a proposta de pacificação feita pelo SPI de criação do Posto Indígena Duque de Caxias, reservando a eles uma parte do território onde pudessem viver em paz.
Ao longo dos anos a indústria madeireira e a indústria de extração do óleo da canela de sassafrás operaram dentro da terra demarcada. Por essa razão a canela de sassafrás foi quase extinta, levando o governo do estado de Santa Catarina a criar uma reserva florestal para protegê-la. Parte dessa reserva foi sobreposta à TI. Além disso, o governo federal construiu nos anos 1970 uma barragem dentro da TI para conter as enchentes do rio Itajaí, alagando-a e dividindo-a ao meio. Tudo isso resultou em graves confrontos entre indígenas, posseiros e o estado de SC. Na medida em que o território disponível para os indígenas foi se tornando escasso esses confrontos se intensificaram até que foram judicializados.
As demarcações servem ambiguamente para isso: protegendo parte das terras indígenas elas também domesticam a terra, estabelecem fronteiras e afirmam a soberania do Estado sobre a terra e sobre os indígenas (SOUZA LIMA, 1985; LEIRNER, 1997). Para isso, aos indígenas é imposta uma identidade jurídica instável, prestes a, a qualquer momento, deixar de serem “índios” e as terras demarcadas estão sempre sob ameaça.
A burocracia estatal controla e reduz a multiplicidade por meio da categorização dos agentes que ela organiza e da multiplicação das etapas procedimentais quando estes recorrem a ela. O Estado se constitui assim como uma caixa de ressonância da política, do mercado e das hierarquias sociais. Vemos que mesmo em composições de governo menos desfavoráveis aos povos indígenas essa ressonância permite que as políticas anti-indigenistas gestadas ao longo da história tenham continuidade.
-
Instituições Participativas e ativismo institucional: a luta do movimento de Economia Solidária no e pelo Estado
— Marina Puzzilli Comin
— Marina Puzzilli Comin
Este trabalho apresenta de que forma o movimento social de Economia Solidária tem feito sua incidência no Estado através das políticas participativas e atuação de agentes estatais alinhados à pauta. O foco é pensar a IV Conferência Nacional de Economia Solidária (CONAES) e o ativismo institucional (Abers, 2014) enquanto lócus privilegiado, no Estado, da luta por essa outra lógica econômica, autointitulada anticapitalista e guiada por valores de cooperativismo, autogestão, solidariedade, sustentabilidade e bem viver.
Os governos petistas têm sido marcados por um maior diálogo com movimentos sociais, por meio da inserção de ativistas nos cargos públicos (Abers, 2014) e o reavivamento de Instituições Participativas (Avritzer, 2012). Ao etnografar as relações estabelecidas entre os agentes da Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES) e ativistas da Economia Solidária, percebi como o órgão, composto por militantes do movimento em cargos de chefia, e a política participativa da IV CONAES fortalecem os valores coletivistas e democráticos que guiam essa luta, apontando para o fato de que a estrutura estatal é mais flexível ou porosa do que se pode pensar. Ao mesmo tempo, o efeito legitimador do Estado (Asad, 2008), com ritos e ritmos próprios, impactam no funcionamento das organizações sociais, conformando suas práticas por mecanismos de legibilidade e legitimidade. Pude observar que documentos e burocracias podem ser vistos tanto como amarras na atuação das pessoas envolvidas com a luta, quanto formas de garantir certa perenidade às políticas.
Uma vez estabelecidas as relações socioestatais, é possível perceber como aquelas pessoas que se veem dentro do Estado, que entendo enquanto ativistas institucionais (Abers, 2014), possuem possibilidades de atuação diferentes daqueles localizados fora dele, e isso se reflete nos sentimentos diversos relatados pelas partes envolvidas - diferentes posições de poder podem trazer opiniões divergentes sobre o caráter democrático do processo conferencial (Silva et. al., 2020). Jogar luz sobre essas diferentes visões se faz central aqui, e pretende-se com isso somar às discussões acerca do funcionamento do Estado e suas políticas públicas participativas, bem como formas de atuação da sociedade civil frente ao poder público, sobretudo em se tratando de uma luta contrária à lógica capitalista. Enfim, a ideia é esmiuçar as relações socioestatais enquanto fenômenos complexos, que envolvem pequenas e grandes disputas de poder na construção de projetos políticos que buscam moldar a sociedade, a economia e a própria noção de Estado.
-
Políticas para o governo das águas, ideologias do desenvolvimento e processos constantes de formação do Estado no Brasil
— Natália Morais Gaspar
— Natália Morais Gaspar
Neste trabalho, a análise de mudanças recentes no campo institucional da gestão de recursos hídricos no Brasil, principalmente o traslado da Política Nacional de Recursos Hídricos do (então) Ministério do Meio Ambiente para o (atual) Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, é tomada como via de acesso para investigar processos (constantes) de formação do Estado no Brasil, especialmente em situações nas quais os organismos multilaterais desempenham expressivo papel na formulação, implementação e avaliação de planos e políticas públicas.
A partir de pesquisa sobre políticas públicas para governar as águas, que envolve observação participante em eventos e atividades governamentais, não-governamentais e de organizações multilaterais e etnografia de documentos, .procura-se observar nuances e pormenores da aplicação de um modelo de gestão dos recursos hídricos formulado a partir do exterior, por meio da (trans)formação de segmentos das elites nacionais, que se tornam seus agentes multiplicadores, mas não sem a negociação de certas especificidades locais. As mudanças investigadas apontam para uma predominância cada vez maior de uma gestão das águas baseada em grandes obras hídricas, na qual a ideologia do desenvolvimento é acionada para justificar ou escamotear a gigantesca desigualdade na alocação de água no país e os efeitos deletérios do elevadíssimo consumo e contaminação das águas por parte dos grandes usuários, particularmente nocivos aos povos e comunidades tradicionais ou etnicamente diferenciados, que sustentam modos de vida reconhecidamente mais afinados aos ciclos naturais, nos quais as águas desempenham papel fundamental.
Trata-se de um caso especialmente propício para observar os processos opostos e simultâneos de, por um lado, dispersão, manifesta na competição entre diferentes agentes e agências que atuam ou pretendem atuar no governo das águas, e, por outro lado, a fabricação da unidade que a implementação de uma política governamental supõe, pelo menos no plano discursivo. De um lado, vários processos competitivos por recursos e poder, protagonizados por variados agentes e agências situados em diferentes níveis do campo dos recursos hídricos, do poder executivo federal, do parlamento brasileiro e do campo transnacional da cooperação técnica internacional para o desenvolvimento, parecem constituir forças de dispersão, esticando e tensionando as bordas da atuação dos dispositivos de Estado. Ao mesmo tempo, opera também uma panóplia, material e simbólica, que permite vislumbrar uma imagem de totalidade, na qual a ideologia do desenvolvimento desempenha papel relevante para a fabricação de uma impressão de unidade do Estado e para a promoção de aceitação e aderência ao modelo de gestão de recursos hídricos hoje hegemônico.
-
Bioeconomia e restauração ecológica: novas estratégias de desenvolvimento e controvérsias sobre a conservação da Amazônia
— Thereza Cristina Cardoso Menezes
— Thereza Cristina Cardoso Menezes
O trabalho busca investigar novas práticas de combate às mudanças climáticas na Amazônia com foco nas iniciativas em curso no Sul do Amazonas, região que constitui um dos epicentros do Arco do Desmatamento no estado. A pesquisa propõe enfocar dois conjuntos recente de iniciativas articuladas de gestão de florestas capitaneadas pelo BNDES desde 2024: 1) o incentivo do uso sustentável de florestas através do leiloes de concessões florestais de grandes áreas de florestas federais; 2) projetos de recuperação de milhões de hectares degradados na faixa do Arco do Desmatamento amazônico. Estas inciativas representam uma transformação na política ambiental da região e de envolvimento de comunidades neste esforço, ambicionando tornar o Brasil um dos principais players mundiais da área florestal. Há um potencial de 25 milhões de hectares de áreas planejadas para novas concessões na região norte nos próximos anos e a iniciativa é apoiada com recursos robustos do BNDES, em parceria com o Serviço Florestal Brasileiro (SFB) e o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Além de concessões de florestas, os investimentos de recuperação ambiental os investimentos buscam abarcar a recuperação de área degradada em Terras Indígenas, Unidades de Conservação e Assentamentos Rurais para a formação de um Arco da Restauração, que recrie um cinturão verde que constitua uma barreira às atividades predatórias ao meio ambiente. Ambas iniciativas prometem priorizar a geração de renda e emprego para as comunidades amazônica. A partir de uma análise preliminar propõe-se levantar questões sobre a consolidação deste novo modelo bioeconômico de desenvolvimento econômico proposto para a Amazonia, considerando as dinâmicas de poder nacionais e internacionais, bem como as controvérsias nesta região sob forte pressão ambiental e considerando a complexa teia de demandas de mercados regionais, comunidades e movimentos sociais, empreendedores, cooperativas, empresas-âncora e instituições financeiras.
Coordenação
Angela Figueiredo (UFRB)
Luciana de Oliveira Dias (UFG)
Pessoa debatedora
Luciene de Oliveira Dias (UFG)
Cristiane Santos Souza (UNILAB)
Sabemos que a antropologia surgiu com o propósito de produzir conhecimento sobre os povos diferentes, distantes e longínquos durante a invasão colonial. A maior parte dos estudos esteve ancorada em uma perspectiva evolucionista. Mas do estudo do outro distante, passamos para o estudo do nós, nós negros, nós mulheres e tantos outros nós que constituem as comunidades periféricas e racializadas. A política de cotas implementada desde 2002 ampliou o número de estudantes negros, negras e indígenas nas universidades, e esse aumento está sendo acompanhado de importantes transformações na produção do conhecimento, nas perspectiva teórica, metodológica e epistemológica. Para a maioria dos pesquisadores e pesquisadoras negras, a experiência é o ponto de partida para a escolha de seus temas de pesquisa. A ideia do distanciamento que caracterizou os primeiros trabalhos da antropologia no Brasil, a sugestão para estranhar o familiar ao realizar pesquisas em um universo sociocultural próximo ao nosso tem sido substituída por uma urgente e necessária reflexão sobre o próximo, sobre o nós, ou seja, estamos atuando dentro do contexto em que a alteridade é mínima. Nesse sentido, a demanda pela autoetnografia e escrevivência como métodos não podem ser ignorados pela disciplina. O objetivo desse GT é estabelecer um diálogo entre pesquisadores que problematizem tais questões à luz de trabalhos empíricos, buscando entender quais são os desafios e contribuições para o fazer antropológico.
Títulos e Resumos
-
As contribuições das Okinkas e Mindjer Ika Tambur na emancipação feminina na sociedade guineense
— Adenauer Marcos da Costa, Domiciano Marciano Lopes De Oliveira, Policarpo Gomes Caomique
— Adenauer Marcos da Costa, Domiciano Marciano Lopes De Oliveira, Policarpo Gomes Caomique
A Guiné-Bissau é um país que enfrenta desigualdade de gênero a semelhança dos outros países do continente africano e do mundo. Durante a luta pela independência, as mulheres participaram ativamente do processo, engajando-se na resistência de forma equivalente à dos homens. Amílcar Cabral, líder do movimento de libertação, enfatizava a importância da participação feminina na luta armada e na construção do projeto político de independência nacional. Este artigo pretende-se destacar a importância destes dois movimentos sociais Okinkas e Mindjer i ka Tambur na emancipação das mulheres guineenses e nas denúncias da violência doméstica e na luta pelo reconhecimento delas no aparelho público. Além disso, busca-se evidenciar as contranarrativas produzidas por esses movimentos, considerando que as diferentes ondas do feminismo e seus objetivos se configuram de acordo com os contextos socioculturais e os grupos sociais envolvidos. Adicionalmente, serão abordadas as formas de emancipação feminina e as lutas das mulheres guineenses frente aos valores socioculturais e religiosos que historicamente limitam sua atuação social e política. Após a independência, a participação e representação das mulheres nos aparelhos púbicos sofreu um grande retrocesso. Atualmente a sociedade guineense apresenta elevados níveis de desigualdade de gênero e violência doméstica, realidade que se expressa no surgimento e fortalecimento de movimentos sociais que combatem essas problemáticas. Para a concretização da pesquisa utilizaremos a etapa da pesquisa bibliográfica de natureza exploratória, na base dos fundamentos dos autores que escreveram sobre o feminismo negro, em especial feministas africanas. E, por outro lado, serão feitas entrevistas com os fundadores desde grupos e algumas pessoas que participaram em algumas formações realizadas por estes movimentos, o trabalho é de cunho qualitativo. Nos últimos anos, o debate sobre gênero na sociedade guineense vem ganhando espaço no ambiente acadêmico, pode-se dizer que é um assunto muito recente. Os estudantes guineenses de diferentes partes do mundo, em particular, os de Brasil e de Portugal vêm levando este debate para as universidades da Guiné-Bissau, através das palestras, rodas de conversas, seminários com apoio das organizações não governamentais nacionais e internacionais.
-
Rasurando imagens de controle: mulheres negras, memória e etnografia implicada no Sul do Brasil
— Ana Júlia Pereira da Silva Santos
— Ana Júlia Pereira da Silva Santos
Este artigo apresenta os resultados parciais de uma pesquisa de mestrado em Antropologia Social que investiga como mulheres negras constroem, narram e disputam memórias em espaços institucionalizados e cotidianos de memória em Santa Catarina como museus, acervos, práticas culturais e territórios comunitários, em um contexto historicamente marcado por políticas de branqueamento e apagamento das presenças negras. Partindo da noção de imagens de controle, entendidas como estereótipos racializados que regulam corpos, afetos e possibilidades de existência, o trabalho analisa como tais imagens são produzidas, reiteradas e, sobretudo, rasuradas no cotidiano. O foco recai sobre práticas de oralidade, afeto, criação de arquivos e produção de presença como estratégias de fuga e reexistência.
O referencial teórico se ancora nos feminismos negros e em perspectivas decoloniais, mobilizando autoras como Lélia Gonzalez, Patricia Hill Collins, Alexandra Alencar, bell hooks e Conceição Evaristo, especialmente as noções de imagens de controle, escrevivência e amor como prática política. O diálogo com a antropologia afro-brasileira e com críticas ao cânone antropológico colonial permite tensionar regimes de visibilidade, memória e representação que historicamente posicionaram mulheres negras como objeto de pesquisa, e não como produtoras de conhecimento e teoria.
Metodologicamente, a pesquisa se estrutura a partir de uma etnografia implicada, que articula autoetnografia, escrevivência e produção audiovisual. O corpo da pesquisadora, mulher negra migrante, sapatão e jornalista, é assumido como campo e ferramenta metodológica, reconhecendo a mínima alteridade e a centralidade da experiência na produção do conhecimento antropológico. A escrevivência é mobilizada não como relato pessoal, mas como método analítico que permite acessar dimensões de memória, afeto e política frequentemente silenciadas pelas abordagens etnográficas clássicas. As etnografias se constroem por meio de escuta, convivência, registros audiovisuais e criação de arquivos afetivos, compreendidos como contra-arquivos que disputam narrativas institucionais.
A pesquisa, em processo e em permanente construção, se justifica pela necessidade de afirmar epistemologias produzidas a partir das experiências de mulheres negras, especialmente em contextos nos quais suas memórias seguem sendo invisibilizadas, exotizadas ou folclorizadas. Ao deslocar o olhar da sujeição para as práticas de fuga, criação e cuidado, o trabalho contribui para a antropologia ao afirmar a escrevivência e a autoetnografia como métodos legítimos, éticos e politicamente situados para a compreensão das existências negras contemporâneas.
-
Uma autoetnografia da encruzilhada epistêmica: o feminismo negro como prática antropológica
— Bruna Ribeiro Troitinho
— Bruna Ribeiro Troitinho
Este trabalho resulta de um estudo sobre a recepção da obra de Antenor Firmin, antropólogo haitiano, no Brasil, no qual utilizei a metodologia da autoetnografia feminista negra. Entendo que o meu fazer autoetnográfico foi entrelaçado pelas experiências cotidianas de ser uma estudante/pesquisadora negra na academia por vezes marcada pela perspectiva de ser uma "outsider interna", como pontua Patricia Hill Collins e em processo de erguer a voz, bell hooks. Ergui a voz ao escrever em primeira pessoa, tornando-me sujeita e analisando o percurso de uma pesquisadora negra em busca de referências negras nas Ciências Sociais. Ainda há uma encruzilhada epistêmica para o/a estudante negro/a na pós-graduação ao encontrarmos uma bibliografia branca e uma postura de racismo por omissão de professores/as que continuam silenciando a produção teórica de autores/as negros/as.Mobilizo o conceito de escrevivência, de Conceição Evaristo, e a condição de outsider interna, de Patricia Hill Collins, para narrar o percurso de "erguer a voz" (hooks) em busca de genealogias negras. A pesquisa demonstra que a autoetnografia não é apenas um exercício de autodefinição, mas uma estratégia decolonial que desafia o distanciamento objetivista, revelando como a subjetividade da pesquisadora negra opera na recuperação de autores como Lélia Gonzalez, Zora Neale Hurston e W.E.B. Du Bois. Conclui-se que a presença de Firmin no debate da antropologia brasileira, mediada por esta perspectiva metodológica, tensiona as estruturas do saber e oferece novos caminhos para um fazer antropológico ético e racializado.
Palavras-chave: Autoetnografia Feminista Negra; Encruzilhada Epistêmica; Escrevivência; Decolonialidade.
-
Marcha, memória e futuro: A marcha como estratégia política do movimento de Mulheres Negras de Pelotas/RS
— Elisângela dos Santos Bandeira
— Elisângela dos Santos Bandeira
A cidade de Pelotas no Rio Grande do Sul, abriga o movimento de mulheres negras, sendo uma expressão local de processos históricos mais amplos de organização política, produção de saberes e resistência ao racismo e ao sexismo no Brasil. O artigo focaliza as múltiplas organizações das quais essas mulheres participam, suas formas de autopercepção nos processos de mobilização e os valores e visões de mundo que orientam seu ativismo. Busca-se compreender as lógicas e dinâmicas organizacionais construídas a partir de trajetórias de vida e vínculos de pertencimento, bem como as rupturas que essas mulheres produzem em relação às representações históricas que as posicionam de modo estereotipado no imaginário social brasileiro.
O trabalho dialoga com a consolidação do feminismo negro no país, especialmente a partir das décadas de 1970 e 1980, quando mulheres negras passaram a denunciar simultaneamente o racismo presente em setores do feminismo hegemônico e o sexismo no interior do movimento negro. A reflexão teórica é atravessada por contribuições de autoras como Lélia Gonzalez, que questionou o mito da democracia racial, propôs a noção de amefricanidade e criticou os papéis sociais historicamente impostos às mulheres negras, dentre outras autoras. Essas imagens, ainda operantes, são analisadas como parte de uma estrutura simbólica que legitima violências e expectativas sobre seus corpos e trajetórias.
Metodologicamente, a pesquisa apoia-se na etnografia das vivências, redes e práticas organizativas dessas mulheres, com atenção especial à sua participação na organização e mobilização para a Marcha Nacional das Mulheres Negras de 2025, evidenciando a centralidade do ato de marchar como prática política e pedagógica de visibilização, denúncia e construção de agendas coletivas. A abordagem antropológica permite compreender as mulheres negras pelotenses como sujeitas inseridas em redes locais, nacionais e internacionais de ativismo, cuja atuação articula militância, produção intelectual e organização comunitária. Se reconhece a centralidade dessas mulheres na formulação de projetos sociopolíticos transformadores e na incidência sobre políticas públicas voltadas à equidade racial e de gênero, contribuindo para a construção de uma sociedade mais plural, democrática e antirracista.
-
Memórias de um Terraço: a "redenção pelo detalhe" e a recusa à antropologia da dor
— Joana Dias Barros
— Joana Dias Barros
Este trabalho propõe um deslocamento das narrativas antropológicas que, ao estudarem as experiências femininas no mundo doméstico, privilegiam abordagens que dão ênfase à dor e ao sofrimento. Sob o conceito de “Redenção pelo Detalhe”, investigo a trajetória de minha avó materna como uma potencialidade viva, capaz de se reinventar no cotidiano do cuidado para a criação de um novo futuro. A pesquisa situa-se em uma configuração familiar em que, considerando-me o ego entre os vínculos de parentesco, e diante do abandono paterno, o sustento é garantido pelo esforço conjunto entre minha mãe e meu avô no “mundo de fora”, enquanto minha avó exerce a guarda e a manutenção do “mundo de casa”. É minha avó quem, apesar das ausências, ressignifica o “fazer-família” (Carsten, 2004; Damásio, 2025), transformando o vazio em presença. O terraço da casa se constitui como o cenário central desta análise, onde a memória visual era mediada pelo uso de um celular antigo. Ao registrar o crescimento e o cotidiano das netas, o visor do celular atuava como uma ferramenta de produção de dignidade, opondo-se às classificações estatais de uma família disfuncional. Nesse espaço, as imagens operam como registro das potências familiares, permitindo que minha avó reescreva nossa história, transformando a esperança em um ato concreto de registro e resistência. Amparada na “Escrevivência” (C. Evaristo, 2007), a pesquisa não se pretende uma observação externa, mas uma construção biográfica e coletiva de marcas que nos constituem e nos narram. Ao investigar a trajetória de minha avó, uma mulher negra de pele clara, o texto assume o compromisso de que a nossa escrita não pode se separar do nosso corpo, da nossa ancestralidade e das complexas negociações de identidade que permeiam o ambiente doméstico. A investigação revela que a dedicação de minha avó ao lar não foi um ato de passividade, mas uma estratégia para garantir que eu tivesse as escolhas que ela não teve. O cuidado exercido dentro de casa foi o que possibilitou a nossa independência fora dela. Dessa forma, evidencia-se que esse cuidado não se encerra em um esquecimento de si; pelo contrário, viabiliza um processo de retomada subjetiva que permite a essa mulher, após décadas sendo o espelho da família, finalmente reconhecer seu próprio rosto e habitar seus próprios desejos.
-
O Caribe na obra de Lélia Gonzalez: diálogos transatlânticos e a formulação dos conceitos de pretuguês e amefricanidade
— Luiza Moreira Cabral
— Luiza Moreira Cabral
O presente estudo visa investigar o lugar do Caribe no pensamento de Lélia Gonzalez, especialmente sua influência na elaboração de dois conceitos centrais de sua obra: pretuguês e amefricanidade. Partindo da hipótese de que a influência caribenha se caracteriza como um eixo estruturante da teoria desenvolvida pela autora, busca-se, compreender como o contato com autores caribenhos e os processos de constituição de línguas crioulas a partir da experiência afro-diaspórica nas Américas, com o encontro de diferentes povos perante uma empreitada colonial, funcionou como inspiração para as reflexões da autora sobre a relação entre raça, colonialismo e linguagem. Nesse sentido, a amefricanidade é entendida como uma categoria político-cultural que destaca o papel da presença negra e dos povos originários na construção das Américas, reconhecendo esses elementos como parte constitutiva das sociedades do Novo Mundo. Considerando que a interação entre diferentes culturas no Caribe modificou o espanhol, o inglês e o francês falados na região, fruto do encontro histórico, cultural e linguístico da diáspora negra, proponho que a categoria de pretuguês formulada pela autora, foi pensada como uma marca de africanização da língua portuguesa a partir das similaridades no que se refere aos falares entre as línguas crioulas presentes no Caribe e o modo de se falar o português no Brasil. Desse modo, proponho a seguinte reflexão: em que medida essa ancestralidade caribenha retratada pela autora pode ser interpretada como uma “força ancestral”, expressa nos falares, na música, na religião e nas formas de resistência das populações afro-diaspóricas que habitam essa Améfrica? Além disso, ao analisar a obra de Lélia nota-se a forte dimensão de gênero presente em seus escritos, articulada juntamente às questões de raça e classe, antecipando debates que hoje conhecemos como “interseccionalidade” (Crenshaw, 1989). Tal dimensão aproxima a autora de pensadoras como Patricia Hill Collins (2021) e Angela Davis (2016), contribuindo nas reflexões sobre o feminismo negro, principalmente no que diz respeito à situação das mulheres “amefricanas”. Nesse sentido, a reflexão proposta a partir da obra de Lélia Gonzalez, consiste em contribuir para os debates contemporâneos sobre os desafios epistemológicos, teóricos e metodológicos do fazer antropológico a partir de perspectivas feministas negras e decoloniais. Ao compreender categorias como amefricanidade e pretuguês como expressões de uma ancestralidade afro-diaspórica compartilhada entre Brasil e Caribe, evidencia-se a centralidade da experiência, da linguagem e da memória como elementos constitutivos da produção de conhecimento.
-
Entre universidades e periferias: autoetnografias, memórias e feminismos periféricos
— Milena Mateuzi Carmo
— Milena Mateuzi Carmo
Esta comunicação propõe refletir sobre a produção acadêmica de pesquisadoras em ciências sociais oriundas das periferias da cidade de São Paulo que produziram seus trabalhos pautadas em autoetnografias. As políticas de ações afirmativas, implementadas nas últimas décadas e consolidadas com a lei no12711/2012, possibilitaram o ingresso de estudantes historicamente excluídos do ensino superior em cursos de graduação e pós-graduação. A partir da análise de dissertações e teses em ciências sociais produzidas por mulheres com esse perfil, argumento que tais pesquisadoras vêm reconfigurando modos de narrar e de lembrar os territórios periféricos, ao articular memórias de experiências vividas e lutas sociais contemporâneas nesses territórios, com os processos históricos e políticos que conformam esses espaços. Essas narrativas inscrevem a memória como campo de disputa simbólica e política, evocando histórias intergeracionais que atravessam diferentes momentos da produção das periferias paulistanas: as migrações internas das décadas de 1960 e 1970; os movimentos comunitários e populares dos anos 1980; a intensificação da violência urbana nos anos 1990; o movimento hip hop e, mais recentemente, os ativismos periféricos, em especial o feminismo negro e periférico. Tais produções introduzem novas camadas interpretativas aos estudos consolidados sobre a cidade e suas margens, ao fazer emergir vozes e memórias locais como forma de conhecimento e de inscrição no mundo, ressaltando perspectivas e trajetórias de mulheres. Ao analisar essas produções como escritas de si e de territórios, a apresentação busca compreender como elas deslocam fronteiras epistêmicas, desestabilizando as formas tradicionais de representação da periferia como espaço de carência e propondo novas memórias coletivas ancoradas em experiências de luta, cuidado e criação. Essas memórias, produzidas também na interface entre os movimentos de feminismo periférico e a universidade, reinscrevem trajetórias intergeracionais de mulheres das periferias, de suas mães e avós, muitas vezes engajadas nos movimentos de mulheres dos anos 1980 e 1990, agora reconhecidas e reconfiguradas como lutas feministas. Fazendo esse movimento, estariam também deslocando o próprio saber acadêmico questionando perspectivas coloniais de narrar corpos e territórios periféricos.
Coordenação
Edward MacRae (UFBA)
Sandra Lucia Goulart (FCL)
Nos últimos anos, o estudo do uso de substâncias psicoativas passou a ser foco de antropólogos/as e cientistas sociais, indo além das áreas tradicionais de saúde e direito. Esse interesse traz desafios teóricos, metodológicos, políticos e éticos, como a relação do pesquisador/a com ambientes de práticas ilegais ou estigmatizadas e o cuidado com a segurança e dignidade dos participantes. Pesquisadores/as enfrentam riscos pessoais, podendo ser acusados de envolvimento com o crime, e mulheres pesquisadoras são especialmente vulneráveis a assédio e violência, inclusive por parte de autoridades. O sigilo dos dados coletados é outro ponto crítico, já que cientistas sociais não têm garantias legais para proteger suas fontes. Além disso, discute-se a responsabilidade ética de retornar os resultados às populações estudadas e as dificuldades provocadas por exigências burocráticas da academia, como prazos rígidos para conclusão de pesquisas. Tais condições limitam o que pode ser estudado, revelando dilemas centrais para o campo.
Títulos e Resumos
-
CIRANDA DE MALUCA: Uma investigação antropológica sobre o uso de maconha por mães das camadas médias urbanas.
— Ana Catarina Souza Regis Moreira
— Ana Catarina Souza Regis Moreira
O trabalho investiga o uso de maconha por mães das camadas médias urbanas em Salvador, analisando como gênero, classe, raça e maternidade se articulam em um contexto marcado pela ilegalidade da planta e pela atuação desigual do Estado. Utilizando do método de análise episódica proposto por Grada Kilomba (2019), a partir da noção de "espaço-tempo", examino como essas mulheres constroem cotidianos atravessados por prazer, cuidado, risco e estratégias de sigilo, tensionando estereótipos que associam usuárias de drogas à desordem, vulnerabilidade ou falha moral. A pesquisa se volta para um grupo pouco estudado, já que a produção acadêmica se concentra majoritariamente em mulheres negras e pobres , alvos centrais das políticas repressivas e do encarceramento. Entre mães brancas das camadas médias urbanas, é possível observar como a branquitude, o capital cultural e as redes de apoio modulam tanto a relação com a maconha quanto a forma como elas são interpeladas ou protegidas por instituições como polícia, judiciário e conselho tutelar. A maconha aparece não apenas como substância, mas como elemento que organiza sociabilidades, trocas e economias do dom, além de reconfigurar experiências de tempo, cuidado e maternidade. Dessa forma assumo uma escrita situada, alinhada à objetividade feminista, onde busco compreender como essas mulheres negociam suas identidades de usuárias e mães, revelando tensões e contradições das políticas de drogas no Brasil.
-
Educação patrimonial, renascença psicodélica e cultura mazateca
— Danilo Melo de Morais Carvalho
— Danilo Melo de Morais Carvalho
A renascença psicodélica (Sessa, 2012; Gifford, 2020; Lawrence, 2022) abre, para o campo da educação patrimonial (Varine, 2013; IPHAN, 2016; Scifoni, 2022), a possibilidade de inventariamos culturas de uso de substâncias psicoativas, historicamente marcadas pela perspectivação proibicionista (Carneiro, 2018), a partir do Século XIX. O que renasce, a partir do século XX, traz à tona o que, para o contexto indígena Mazateco, de Huautla de Jiménez, Oaxaca, México, é memória de extrativismo científico (Estrada, 2015) e de impacto do turismo psicodélico, com investimentos importantes nas pesquisas contemporâneas sobre o uso da psilocibina (Haze & Mandrake, 2016), no mainstream da medicina e da psicologia. Configura-se, portanto, o desafio teórico-metodológico de pesquisar no referido contexto, afetado pelo extrativismo, ainda que o interesse de pesquisa seja pelo impacto contemporâneo do turismo em busca de fungos alucinógenos em Huautla de Jiménez. O retorno social para a proposta de pesquisa foi sugerido na aproximação ao campo, via oficina de educação patrimonial, construção de mapas de referências culturais mazatecas e análise das ameaças à sua sustentabilidade. Os dados primários deste relato de experiência derivam do caderno de campo, da entrevista e das gravações em áudio da oficina mencionada. Os dados secundários foram derivados da revisão bibliográfica integrativa. A primeira parte do artigo contextualiza a aproximação ao campo em 2025 e segunda apresenta um contraste dos dados primários com textos antropológicos (Jacorzynski & López, 2015) e sociológicos (Citlali, 2017) da revisão integrativa sobre a cultura mazateca em Huautla de Jiménez a partir do século XX. A terceira parte do artigo discute as primeiras impressões sobre os impactos do turismo psicodélico contemporâneo em Huautla de Jiménez. Nas considerações finais foi reforçada a agência de igrejas que demonizam a religiosidade Mazateca, em especial os rituais de cura com uso dos fungos e os Huehuentones, uma forma de expressão cultural associada à celebração do Dia dos Mortos. Também foi reforçada a desvalorização escolar das referências de pertencimento mazatecos. A abordagem frequente para venda de fungos evidenciou cogumelos com o píleo (chapéu) ainda fechados e gerou a hipótese de impacto ambiental por coleta precoce, ameaçando, talvez, a sustentabilidade do extrativismo, justificando uma oficina de cultivo para geração de renda a catadores e catadoras, suspensa por riscos de acusação de envolvimento com o crime, tanto no território brasileiro, quanto no mexicano, ao passo em que a indústria farmacêutica avança com a pesquisa científica da renascença psicodélica, um acontecimento carregado de implicações étnicas a serem lembradas e atualizadas.
-
Cultivar Plantas e Colher a Infância: Uma Etnografia com Crianças Mapienses e seus Vínculos com a Floresta
— Matheus Lopes Hengles
— Matheus Lopes Hengles
Esta é uma proposta de etnografia situada na Antropologia da Criança que tem como locus a Vila Céu do Mapiá, Pauini (AM), integrante da Floresta Nacional do Purus e centro simbólico de uma linha do Santo Daime. Nesse sentido, o objetivo central deste trabalho consiste em compreender como as crianças se relacionam com o ambiente a partir de seus vínculos cosmológicos, tendo em mente a dificuldade de equacionar justiça social e conservação ambiental em áreas protegidas, sobretudo, no que toca a práticas tradicionais de manejo e discursos conservacionistas. Logo, trabalhamos em um território categorizado como Unidade de Conservação de Uso Sustentável. Nossos objetivos específicos são: (1) entender o que é ser uma criança mapiense, (2) identificar as relações das crianças com plantas, entidades espirituais e animais e (3) mapear ações de conservação da biodiversidade. Deste modo, através de nuances do método etnográfico associadas a mobilização de autores que permitam pensar as crianças como produtoras de cultura dotadas de autonomia relativa, assim como o vínculo mítico-ritual nas práticas de produção e consumo desta comunidade, trabalha-se no acompanhamento da vida cotidiana das crianças, assim como em sua vida ritual. Com efeito, o material a ser levantado, que consiste em desenhos, fotografias, entrevistas e anotações de campo, nos permite pensar sobre as concepções de infância, as relações com não-humanos e o vínculo dos mapienses com o seu território a partir dos saberes espirituais de ordem ambiental. Por fim, nossas contribuições se baseiam no reconhecimento da agência das crianças no fazer etnográfico e suas formas de ocupação mapiense no bioma amazônico que permitem levantar informações ainda não vislumbradas sobre o manejo da biodiversidade por populações tradicionais em áreas protegidas.
-
Atalhos para a investigação psicodélica: Reflexões a partir de um estudo sobre o peiote no México
— Paula Bizzi Junqueira
— Paula Bizzi Junqueira
Passados os tempos áureos da investigação com psicodélicos em meados do século XX, os anos 70 viram surgir uma conjuntura de repressão política que se impôs também ao campo científico, estabelecendo limites para a investigação com essas substâncias. Mesmo com o boom do chamado renascimento psicodélico, pesquisadores/as de todas as disciplinas lidam ainda hoje com muitos obstáculos para a investigação devido à ilegalidade que pesa sobre a maior parte destas substâncias ao redor do mundo, enfrentando tanto impedimentos legais que inviabilizam as pesquisas, como também processos de estigmatização por parte de colegas e pares acadêmicos. No campo antropológico esse cenário levanta questões teóricas e metodológicas importantes, que vão desde a engenhosidade para garantir o sigilo de interlocutores/as de pesquisa, passando pela dificuldade de conformar um repertório teórico que de fato dê conta das particularidades desse campo de práticas e vivências, e também pelas inquirições sobre o nível de envolvimento afetivo de investigadores/as com as substâncias e grupos estudados. Estes e outros desafios levam pesquisadores/as que trabalham com psicodélicos a traçar rumos alternativos, caminhos de pesquisa que estão fora do cânone antropológico, e que começam gradualmente a mobilizar legitimidade dentro da disciplina. A apresentação discorrerá sobre estas questões tendo como base uma pesquisa etnográfica realizada com um grupo heterogêneo de pessoas não indígenas que têm uma longa trajetória de relação com o peiote no Deserto de Chihuahua (México), explorando também as controvérsias em torno ao uso não indígena de peiote na região.
-
Conselhos de ética e pesquisas com pessoas que usam drogas
— Wagner Coutinho Alves
— Wagner Coutinho Alves
As Resoluções do Conselho Nacional de Ética em Pesquisa - CONEP n.º 466/2012 e n.º 510/2016 foram concebidas com o propósito central de proteger os participantes de pesquisas de natureza biomédica por meio da instituição de uma série de formalidades e, atualmente, não existem determinações específicas que orientem o trabalho investigativo sobre práticas ilícitas, como o uso de drogas, por exemplo. Neste campo, as investigações de cunho etnográfico, teoricamente, devem orientar-se pelo Código de Ética da Associação Brasileira de Antropologia, que, apesar de não conter detalhes particularmente direcionados para tal temática, consegue contemplá-la. De acordo com ele, a integridade dos interlocutores deve ser mantida e cabe ao pesquisador(a) proteger o anonimato dos participantes desse tipo de pesquisa. Porém, as pesquisas em seres humanos e as pesquisas com seres humanos oferecem diferentes níveis de riscos e benefícios aos colaboradores(as), demandando, portando, adaptações nos projetos da área antropologia, especialmente quando estes carecem de submissão aos Conselhos de Ética em Pesquisa CEPs, centralizados na Plataforma Brasil, Sistema CEP/CONEP. Assim, baseado na minha própria experiência, e nos limites impostos à prática etnográfica, proponho uma apresentação sobre as questões ético-metodológicas relacionadas ao delineamento, classificação e tipificação de projetos antropológicos para se enquadrar, cumprir os requisitos e ficarem de acordo com as Resoluções do CONEP.
Coordenação
Mariana Pitasse Fragoso (UFF)
Fabio Reis Mota (UNB)
A proposta do GT é reunir pesquisas etnográficas que analisem as práticas e repertórios discursivos que envolvam o exercício de julgamento e qualificação de grupos, pessoas e /ou fenômenos sociais a partir das categorias da confiança, da desconfiança, da cisma e de suas possíveis variações. Serão aceitas comunicações que abordem tais temáticas: 1) no campo da política ordinária e institucional; 2) no domínio dos movimentos sociais; 3) nos processos de produção da verdade na ciência, justiça e segurança pública; 4) no universo da internet e das redes sociais; 5) nas políticas de reconhecimento de direitos e cidadania; 6) no campo da informação e produção de notícias nas mídias tradicionais, entre outros. O binômio confiança/desconfiança faz parte de processos históricos modernos, tais como o capitalismo (trust), o individualismo (confiar em si) e o reconhecimento da dignidade e igualdade (confiar no outro). Todavia, na virada do século XXI esses fundamentos entram em crise com a profusão de novas tecnologias que alteram a relação entre os seres humanos, face aos novos formatos de discriminação, diante da transformação de uma ordem política, institucional e cotidiana marcada não mais pela oposição, mas pela polarização. Portanto, desenvolver pesquisas etnográficas sobre essas mutações colabora para compreender e diagnosticar os percursos desses processos em curso em escala global e local.
Títulos e Resumos
-
A economia da confiança: fraudes e tecnologia nos leilões digitais
— Luiz Gustavo Simão Pereira
— Luiz Gustavo Simão Pereira
Desde a pandemia de Covid-19, o mercado brasileiro de leilões passou por uma digitalização integral, deslocando as negociações para ambientes exclusivamente online. Nos leilões de veículos usados, objeto deste trabalho, esse processo foi acompanhado por um aumento de golpes envolvendo os chamados “leilões falsos”, ou “páginas-cópia” que se passam por leiloeiras tradicionais para realizar vendas fraudulentas. No discurso de atores do setor, amplamente replicado pela mídia especializada e por jornais de grande circulação nacional, esse cenário é descrito como uma espécie de “epidemia”, capaz não apenas de causar prejuízos financeiros, mas sobretudo de comprometer a reputação e a confiança que sustentariam o crescimento do mercado no país. Partindo da reconstrução desse cenário e das formas de geri-lo por meus interlocutores, este trabalho explora como o recurso à confiança e seu par, a desconfiança, se tornou um ativo para a dinamização de mercados tecnológicos em torno dos leilões. Para isso, a pesquisa acompanha o desenvolvimento e a implementação de uma plataforma baseada em tecnologia blockchain, apresentada por seus idealizadores, um grupo de leiloeiros nacionais, como capaz de oferecer registros mais “seguros” e “imutáveis” em resposta à proliferação de fraudes. Argumento que, mais do que apenas uma solução técnica, o recurso à blockchain é um dispositivo moral e infraestrutural, no qual a promessa de segurança reconfigura expectativas, valores e disputas em torno da legitimidade dos leilões digitais. O trabalho é baseado em uma pesquisa de mestrado realizada com leiloeiros e outros agentes do setor, e combina observação participante em eventos leiloeiros, acompanhamento de conferências, entrevistas presenciais e online, além da análise de materiais secundários produzidos pelo próprio setor e por atores engajados no desenvolvimento da plataforma acompanhada.
-
Entre o cuidado e a pesquisa: um ensaio sobre as economias morais do recrutamento na epidemia do vírus Zika em Recife
— Mariana Esteves Petruceli
— Mariana Esteves Petruceli
O encontro entre leigos e especialistas tem se consolidado como um campo vibrante na antropologia brasileira, analisando como o saber científico é negociado em contextos de cronicidade e deficiência, em especial no caso da epidemia do vírus Zika em Recife entre 2015 e 2016 (Fleischer, 2018, 2022; Freitas et al, 2021; Scott, 2024). Este trabalho amplia esse debate ao investigar o recrutamento de sujeitos não como etapa técnica, mas um estágio primordial onde se estabelecem as economias morais da pesquisa (Epstein, 1996; 2007). O cenário de crise sanitária impôs uma temporalidade de urgência e um volume massivo de protocolos científicos. A viabilidade dessas pesquisas assentou-se sobre o hibridismo de profissionais que atuam simultaneamente na assistência pública e em instituições de pesquisa, operando sob uma confiança mobilizada, onde o vínculo terapêutico e a autoridade da ciência impulsionaram o aceite da pesquisa em contextos de vulnerabilidade. O recrutamento, aqui analisado, ocorreu em meio ao fluxo de ambulatórios, laboratórios e salas de espera, onde a legitimidade da pesquisa parece ser chancelada pela própria estrutura hospitalar e pela figura dos clínicos que atendiam as famílias, confundindo as fronteiras entre o ato médico e a coleta de dados. A base empírica ancora-se em 16 entrevistas realizadas por mim em 2022, somadas a um acervo de 83 entrevistas conduzidas por colegas de pesquisa (2018, 2022-2024) com profissionais de saúde, técnicos e pesquisadores. A análise foi fortalecida pelo acúmulo de quase uma década de pesquisa do grupo ao qual me vinculo, permitindo compor uma perspectiva ampliada sobre o fenômeno ao integrar as lógicas institucionais e as vivências das populações atingidas (Valim, 2017, 2025; Simas, 2020; Coutinho, 2024; Franklin, 2024; Valle; 2024, entre outras). Somando a este corpo empírico, analisei diários de campo — meus e de colegas —, e artigos científicos publicados por alguns dos pesquisadores que entrevistei. A análise desses materiais revela como a espacialidade hospitalar e a burocracia do atendimento clínico podem ter servido de suporte para a adesão das famílias. Minha hipótese é que a confiança no prestador de serviços funcionou como a infraestrutura moral das “Ciências do Zika”, mas que esse duplo vínculo gera desafios éticos no presente: observo como o encontro produz sentidos distintos, onde o que é elaborado pelos pesquisadores como um esforço de adesão e continuidade, pode ser experienciado pelas famílias como uma insistência incômoda (Fleischer, 2023). Concluo que o recrutamento é um espaço de negociação permanente, onde o artesanato do social é tensionado pelo hiato entre a expectativa de cuidado e a realidade da entrega institucional em cenários de pós-emergência e lacunas nas políticas de fomento.
-
É a ética da verdade o "espírito" da comédia? Sobre crise da expertise, bolsonarismo e humor
— Matheus Alysson Cunha
— Matheus Alysson Cunha
Este trabalho analisa como a comédia pode ser uma prática, cara a movimentos políticos, para a produção de verdade e reorganização dos regimes de confiança pública. Tomo, como caso empírico de análise, a produção audiovisual de um grupo de comediantes bolsonaristas denominado “Canal Hipócritas”. Argumento como uma possível hipótese é a de que determinadas performances cômicas não apenas criticam instituições epistemológicas tradicionais, mas também disputam, ativamente, a autoridade epistêmica, o que oferece a um público específico formas alternativas de fatos e interesses.
Há duas técnicas identificadas na comédia bolsonarista para a produção, reivindicação e desafio epistêmico. Historicamente, o humor é uma posição liminar que autoriza a figura do que faz-rir em dizer, francamente, sem limites, o que pensa. No caso analisado, essa autorização se organiza em torno da noção de "parresía". entendida não apenas como franqueza discursiva, mas como um regime ético no qual a disposição ao risco (censura, sanções jurídicas, desmonetização, estigmatização pública) opera como índice de autenticidade e compromisso com a "verdade". Outro ponto fundamental à comédia bolsonarista é a construção de vínculos de confiança com públicos que se percebem sistematicamente desautorizados pelos circuitos institucionais de produção do conhecimento. Assim, os próprios comediantes se colocam como pontos de passagem obrigatórios para o “verdadeiro conhecimento”. A comédia, portanto, funciona tanto para “dizer-a-verdade” (a própria parresía), como, também, para criticar e desvalidar, como “hipócritas” um conjunto de profissionais credenciados. Portanto, de um lado, confiança na comédia; de outro, desconfiança aos especialistas. A desconfiança, por sua vez, não aparece como um déficit a ser superado, mas como um recurso produtivo central. Ela é sistematicamente cultivada e direcionada contra especialistas, jornalistas e autoridades epistêmicas, associados a interesses ocultos, hipocrisia ou corrupção moral. Todo o processo passa por um paradoxo: para desvalidar os especialistas, os comediantes os interpretam em um conjunto de esquetes (“FakeNews”, com jornalistas; “Justiça Canhota”, com magistrados, por exemplo), o que implica em um tipo de mimese que, ao mesmo tempo que rejeita a expertise, depende de sua autoridade e reconfiguração como ponto de encontro de confiança. Por fim, a ideia é argumentar que os comediantes e o próprio bolsonarismo não negam os especialistas, mas sim, diante de seus próprios interesses, querem usá-los politicamente: a ideia não é negar que existe uma “verdade”, mas a forma em que a se conta. A comédia bolsonarista funciona, então, como uma forma de tentativa de substituição de autoridade epistêmica, como um certo tipo de “novos especialistas”.
Coordenação
Tatiane dos Santos Duarte (UNB)
Marilande Martins Abreu (UFMA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Ana Carolina de Oliveira Costa (UFSCAR)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Chirley Mendes (UFNT)
O GT debaterá sobre as complexas e multifacetadas interseções entre religiões, espiritualidades e capitalismos. A proposta parte da constatação de que práticas religiosas têm interagido profundamente com lógicas capitalistas, dinâmicas de mercado, consumo e formas mercantilizadas das relações. Com a expansão do neoliberalismo global, o sagrado é incorporado a novos registros de significado, valor e performance, reconfigurando o empreendimento religioso e suas dinâmicas. Os debates sobre neoliberalismo e religião têm focado prioritariamente nos pentecostalismos — cristianismos, cristianismos proféticos, cristianismos negros, etc. — relegando, ainda hoje, as outras religiões a uma marginalização nos debates sobre economia religiosa. Este GT pretende ampliar o debate, incorporando uma diversidade religiosa — Islã, religiões indígenas, afro-brasileiras, endógenas africanas, judaísmos, festividades religiosas populares, etc. — e suas relações com as dinâmicas do capitalismo. O GT acolherá reflexões sobre como estas diferentes tradições religiosas interagem com lógicas neoliberais, comércio e espetacularização; sobre o crescente movimento de “consumo religioso” através de mídias digitalizadas. Será igualmente acolhido trabalhos que reflitam sobre formas de resistências religiosas ao neoliberalismo; comunidades religiosas e lutas pelo meio ambiente, pela terra e por direitos sociais — raça, gênero e sexualidade — como resistências aos neoliberalismos.
Títulos e Resumos
-
Ciganos do ouro: entidades, novos léxicos on line e a construção da vida próspera à venda
— Joana D´Arc do Valle Bahia
— Joana D´Arc do Valle Bahia
Este trabalho faz parte da pesquisa Fábrica de médiuns: produção do religioso em modo digital e suas múltiplas controvérsias públicas, coordenada por mim, e com financiamento da UERJ e da Faperj. Analisamos as mudanças no campo afro brasileiro e sua relação com o universo digital. Como vender mais com a ajuda dos exus, pomba giras e ciganos? Essas e outras ofertas mágicas mostram sua eficácia veiculando pequenos feitiços, banhos, amarrações que evidenciam uma narrativa de prosperidade que pode ser alcançada de diferentes modos. A exemplo temos os contratos vitalícios oferecidos como novo léxico mágico, minimizando a ideia de pacto, frequente em religiões como quimbanda, suavizando palavras com alta carga negativa, e afirmando não apenas sua eficácia simbólica que lidar com as aflições humanas, mas se adaptando a lógica econômica contemporânea. Na veiculação do marketing digital do campo contratual afro religioso temos a ofertas de cursos de como lidar com as entidades da prosperidade pela umbanda EAD, temos ritualísticas em que o dinheiro é mostrado no campo magístico, produção de objetos e materialidades vendidas como oferendas e muitas outras possibilidades. Nascimento (2024) analisou a caixa mística com ritual para Oxumaré, comercializada nos sites da UEAD, e mostra que há uma valorização dessas religiões no mercado de serviços mágicos, pois produzem conhecimentos e o uso de forças sobrenaturais para intervenção no mundo, dirimindo as aflições. A caixa é um kit ritual, cada uma se refere a uma entidade específica, possui itens como velas, ervas especificas para banhos rituais, pemba, guia, e um livreto com as instruções para os ritos. É uma espécie de prática guiada para como ativar a religiosidade dentro de casa, com segurança, conhecimento e fundamento, conforme afirma um dos líderes da umbanda ead.
Ressaltamos que a entrada do povo de santo no universo digital se dá desde os anos 90 e tem criado possibilidades no ambiente da rede. Capone (1999), Freitas (2003), Ferreira (2013), Bahia (2023) mostram os diversos usos da internet praticados pelos grupos afro-religiosos seja a oportunidade de convivência, troca de informação e conhecimentos litúrgicos, ofertas de serviços e na captação e conversão de novos adeptos, no combate às outras denominações e na articulação política inter-religiosa. Analisamos as redes da umbanda ead, e de alguns influencers da umbanda, quimbanda e candomblé afim de observar essa oferta desses serviços, para alguns, é algo distanciado do jogo e da ritualística praticada nos terreiros, enquanto para outros trata-se de um novo modus operandi sob webcams. Isto é, de que modo discursos de coaching e marketing digital recriam as complexas conexões entre espiritualidade e mercado no campo afro-brasileiro contemporâneo.
-
A inscrição das formas econômicas no caso IURD em Angola
— João Baptista Manuel
— João Baptista Manuel
Propomos uma leitura antropológica do caso da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola a partir da noção de economia da religião. O foco recai sobre a crise deflagrada em 2019, quando um grupo de bispos e pastores angolanos rompeu com a liderança brasileira, denunciando práticas de lavagem de dinheiro, branqueamento de capitais, gestão opaca de recursos financeiros e esvaziamento da soberania religiosa local. Em vez de privilegiar a disputa jurídica entre alas, o texto analisa como práticas rituais, campanhas financeiras, narrativas midiáticas e dispositivos transnacionais de gestão produzem valor simbólico, legitimidade e autoridade religiosa. A IURD é compreendida como uma infraestrutura religiosa global que transforma sofrimento social, expectativas de prosperidade e experiências espirituais em circuitos de consumo, visibilidade e mercantilização do sagrado. A partir desse enquadramento, argumenta-se que o processo de “angolanização” não deve ser entendido apenas como uma reação identitária ou nacionalista, mas como uma reconfiguração local das lógicas econômicas da fé, na qual se disputam os sentidos legítimos do dinheiro religioso, da prosperidade e da responsabilidade moral. O texto dialoga com debates antropológicos sobre capitalismo, religião e neoliberalismo, sugerindo que o campo religioso angolano se tornou um espaço privilegiado de negociação entre mercado, espiritualidade e soberania simbólica. O caso evidencia como igrejas neopentecostais operam simultaneamente como agentes econômicos, produtores de subjetividades e arenas de resistência moral às assimetrias do capitalismo global.
-
Quanto vale meu Axé? Entre o sagrado e o neoliberalismo
— Larissa Ramos da Silva, Sharles Robert Mendes da Silveira Santos, Yasmin Avelar Alves
— Larissa Ramos da Silva, Sharles Robert Mendes da Silveira Santos, Yasmin Avelar Alves
O presente trabalho tem como objetivo explorar os elementos tradicionais de um Terreiro de Umbanda - a Tenda Espiritualista Caminhos de Axé (TECA) - inserido em um grande centro urbano, a cidade de Belo Horizonte/MG, atentando para as formas pelas quais suas práticas, valores e modos de organização dialogam e tensionam as lógicas do capitalismo neoliberal. Partindo de uma abordagem etnográfica, empreendida pelos autores, o estudo investiga o terreiro enquanto território simbólico, espiritual e político, compreendendo-o como um espaço de produção de sentidos que não se reduz às racionalidades mercantis predominantes na sociedade envolvente. Com base em uma vivência etnográfica de aproximadamente dois anos na casa participando de giras abertas e fechadas, atividades de estudo e desenvolvimento mediúnico, macaias, entre outras práticas observa-se que a Umbanda praticada na TECA é preta, no sentido de mobilizar princípios cosmológicos, éticos e relacionais ancorados em saberes afro-indígenas, no catolicismo popular e em uma composição social majoritariamente negra. Nesse contexto, elementos como o axé, a centralidade da ancestralidade, a reciprocidade e o cuidado coletivo estruturam práticas e valores que frequentemente destoam das lógicas individualizantes, competitivas e produtivistas próprias do neoliberalismo. Ao mesmo tempo, o trabalho reconhece que esses territórios religiosos não se encontram alheios às dinâmicas capitalistas, sendo atravessados por negociações cotidianas que envolvem a circulação de recursos, o consumo religioso, a visibilidade pública, uso de redes socias e as mediações com o espaço urbano. Tais processos evidenciam a inserção do terreiro em zonas de contato e fricção (Tsing, 2005) entre economias espirituais, morais e materiais. Nesse sentido, o artigo busca escapar de leituras dicotômicas entre resistência e cooptação, evidenciando a existência de zonas de fronteira nas quais práticas religiosas afro-brasileiras produzem, simultaneamente, críticas morais e cosmológicas ao neoliberalismo e adaptações pragmáticas voltadas à garantia de sua reprodução material e simbólica. A partir desse caso empírico, o trabalho contribui para ampliar o debate sobre religiões e capitalismo para além dos cristianismos, evidenciando como religiões afro-brasileiras elaboram respostas próprias às dinâmicas neoliberais, articulando espiritualidade, território, economia moral e lutas por reconhecimento em contextos urbanos contemporâneos.
Referências:
TSING, Anna Lowenhaupt. 2005. Friction: An Ethnography of Global Connection. Prince ton/Oxford: Princeton University Press.
-
Sagrado em linha de montagem: o "muçulmano desejado" e a economia moral no Rio Grande do Sul
— Laura Ferrari Cambraia
— Laura Ferrari Cambraia
Este trabalho analisa as tensões entre normatividade religiosa e racionalidade de mercado, tendo como lócus analítico a indústria pecuária Halal no estado do Rio Grande do Sul (RS) e a inserção estratégica de migrantes muçulmanos em suas linhas de produção. Partindo da premissa de que a economia moral reside nas obrigações mútuas que emergem de transações recorrentes (Carrier, 2017), a argumentação demonstra como o neoliberalismo opera uma subsunção real do sagrado (Rudnyckyj, 2009). Nesse processo, saberes rituais são capturados e convertidos em diferenciais técnicos de exportação, transformando a identidade religiosa em um ativo de capital (Araújo, 2019). A análise busca iluminar como os fluxos migratórios no RS são atravessados por vetores econômico-morais: o parentesco e a religião funcionam como operários de relações de produção transnacionais, em que o envio de remessas e a observância religiosa estruturam a própria força de trabalho. Nesse cenário, emerge a figura do "muçulmano desejado" (Araújo, 2021), cuja utilidade é capitalizada para legitimar a inserção da agroindústria em mercados globais. A moralização do matar e do comer, expressa no conceito de Halalan Tayyiban — o alimento permitido e puro — impõe regimes de bem-estar animal e biossegurança que parecem superar as regulamentações mercantis genéricas. Entretanto, argumenta-se que essa ética é frequentemente instrumentalizada como um fetiche da mercadoria, utilizando a promessa de uma "democratização alimentar" para obscurecer as condições de trabalho precarizado e os riscos sanitários inerentes aos frigoríficos. Conclui-se que o contexto sul-rio-grandense exemplifica a formação de economias espirituais (Rudnyckyj, 2009) em que a fé é moldada pela lógica da acumulação; contudo, essa valorização técnica da identidade muçulmana não se traduz em pertencimento social, mantendo o migrante em uma condição de "presença ausente" na paisagem simbólica local.
Palavras-chave: Indústria Halal. Migração. Economia Moral.
-
Resistência às Lógicas Neoliberais no Santuário do Bom Jesus Da Lapa (Ba): A Romaria da Terra e das Águas
— Luciano Ventura de Souza Júnior, Ana Paula Glinfskoi Thé
— Luciano Ventura de Souza Júnior, Ana Paula Glinfskoi Thé
Nas últimas décadas, os conflitos em torno da terra e da água têm se intensificado no Brasil, impulsionados pela expansão do agronegócio, da mineração e de grandes empreendimentos de infraestrutura, que aprofundam processos de expropriação, desigualdade e degradação socioambiental. Nesse contexto, práticas religiosas historicamente vinculadas às lutas sociais não se apresentam como uma novidade, mas como uma reconfiguração dessas práticas em um contexto marcado pelo agravamento dos conflitos socioambientais. Ao sacralizar a terra e a água como bens comuns e fundamentais à vida, práticas religiosas articulam fé, política e justiça socioambiental, oferecendo um contraponto às lógicas de exploração econômica e privatização promovidas pelo capitalismo contemporâneo. Por meio de caminhadas, orações e discursos públicos, constroem sentidos coletivos que denunciam os impactos do agronegócio, da mineração e das barragens, ao mesmo tempo em que reafirmam valores como cuidado, justiça social, partilha e defesa dos territórios. Essas dinâmicas produzem um sagrado em resistência, gerando formas de valor simbólico e moral que se opõem às lógicas mercantis e à mercantilização da vida. É nesse horizonte que este trabalho analisa a Romaria da Terra e das Águas, realizada no Santuário do Bom Jesus da Lapa (BA), destacando a mobilização de agricultores, povos tradicionais, movimentos sociais e agentes pastorais, especialmente vinculados à Comissão Pastoral da Terra (CPT). Argumenta-se que, diferentemente da mercantilização observada em outros contextos religiosos, o valor produzido pela romaria se manifesta na preservação da vida, na afirmação do bem comum e na articulação de identidades coletivas que fortalecem a luta socioambiental.
Coordenação
Bruno de Oliveira Rodrigues (UFAM)
Sidnei Clemente Peres (UFF)
Pessoa debatedora
Ismatonio de Castro Sousa Sarmento (UFF)
A proposta deste GT é reunir o conjunto de estudos e pesquisas sobre os cenários de conflito e mudança social, na América Latina, que implicam mobilizações coletivas, dinâmicas territoriais e demandas de reconhecimento étnico que confrontam grupos indígenas e comunidades negras com agencias estatais, atores econômicos e empreendimentos capitalistas. O enfoque incidirá sobre contextos de antagonismo entre modalidades distintas de uso dos recursos naturais, estratégias de reprodução social e processos de reorganização econômica e política. Serão privilegiados trabalhos oriundos de etnografias e/ou reflexão teórica sobre os contextos contemporâneos dos conflitos étnicos, das dinâmicas territoriais e suas formas de organização econômica e expressão política. Os regimes de dominação social, expropriação/controle fundiários e (i)mobilização da força de trabalho são diversos, constituindo uma área de estudos antropológicos que produziram etnografias e um rico arsenal conceitual e analítico que permitem uma base sólida para formulação de reflexões em nível comparativo sobre as situações diversas de reorganização social, econômica e política em que povos e comunidades tradicionais lutam pela manutenção de suas identidades e modos de vida.
Títulos e Resumos
-
Máquina de Moer História: Marco Temporal, movimento indígena e tempo
— Gabriel Hardt Gomes
— Gabriel Hardt Gomes
"Em relação ao Marco Temporal, ele é uma máquina de moer história
Ele acaba com a
história, muda toda a história. Para ele, 5 de outubro de 88 pra trás não há mais história,
e sim a partir daquele dia. Ele inverte a lógica também: quem não estava passa a estar, e
quem estava passa a ser invasor. Parece que quem chegou nas caravelas foram os
indígenas." (Sabaru, M., 2023, p. 1)
Em abril de 2024 o Acampamento Terra Livre, maior mobilização do movimento indígena brasileiro, completou 20 anos. A edição que comemorava suas duas décadas de existência e os mais de 500 anos de resistência e luta dos povos originários teve seu início atravessado pelo anúncio de criação de uma câmara de conciliação a partir da Ação Direta de Inconstitucionalidade movida pela Articulação dos Povos Indígenas do brasil (APIB) contra a Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal - tese que limita os direitos indígenas ao defender que só teriam direito à demarcação os povos que estivessem em suas terras em 5 de outubro de 1988.
A partir dos documentos produzidos e divulgados pela APIB sobre este processo, das lutas do movimento indígena nacional e da etnografia dos ATLs de 2024 e 2025, o presente trabalho busca explorar a proposta de Sabaru (2023), do Marco Temporal como uma máquina de moer história, testando as conexões possíveis com o debate acerca da plantation - entendendo-a como projetos de escala e desejo, enraizadas na disciplina e no controle sobre os ambientes considerados úteis, conforme eles sirvam aos interesses de alguns humanos (Chao, 2022).
CHAO, S. Plantation. Environmental Humanities, v. 14, n. 2, p. 361-366, 2022.
SABARU, M. Máquina de Moer História. Não ao Marco Temporal! Cartilha sobre o
julgamento decisivo para o futuro dos povos indígenas do Brasil e o enfrentamento da
crise climática. Brasília, p. 3-4, agosto 2023. Disponível em: https://apiboficial.org/files/2023/06/marcotemporal_cartilha_v7.pdf
-
Caminhando com as pedras: lutas, saberes e memórias indígenas nos semiáridos Brasil-México
— Humberto Bismark Silva Dantas
— Humberto Bismark Silva Dantas
Nos últimos anos, investigo a permanência das memórias e saberes indígenas no semiárido através das relações territoriais e familiares em minha comunidade de origem, no Vale do Sabugi paraibano, em diálogo com experiências acadêmicas e de articulação política com o movimento indígena no Nordeste brasileiro. Imbuído nas experiências etnográficas vividas durante esta pesquisa, as pedras emergem como um ponto de partida para a compreensão das memórias e saberes autóctones, remontando a uma cartografia dos lugares de memória onde o tempo dos caboclos brabos é constante presença. Partindo desse contexto, nesse trabalho pretendo abordar as relações entre as pedras e as comunidades indígenas das zonas semisecas/semiáridas dos Valles Centrales de Oaxaca, no México, com especial atenção às mobilizações políticas frente aos empreendimentos de mineração nos distritos de Ocotlán e Tlacolula. Esta comunicação parte do trabalho de campo realizado entre jan-jun de 2026 através do programa de Doutorado Sanduíche junto ao Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS-MX). Pretendo discutir as relações entre identidade, territorialidade e meio ambiente, contrastando as relações de preservação e regeneração das paisagens, coisas e saberes de pedra realizadas pelos povos originários frente às constantes tentativas de violação de direitos e exploração dos territórios semiáridos na América Latina, seja na Caatinga brasileira ou nas zonas semisecas mexicanas. Para dar conta desse cenário, articulo diferentes frentes da teoria antropológica, focando especialmente nos estudos interespécies, na antropologia da técnica e na etnologia indígena.
-
Gestão Territorial e Indigenismo Ambiental: processos de mudança e disputas em torno da ação, participação e representação, dos indígenas Memõrtumré Canela, no Maranhão
— Ismatonio de Castro Sousa Sarmento
— Ismatonio de Castro Sousa Sarmento
Os processos interétnicos envolventes, configurados no campo indigenista ambientalista, são sobremaneira multifatoriais e antagônicos. Nesta proposta, ensejo uma discussão acerca dos projetos de gestão socioambiental, na terra indígena Kanela, produzidos na interface relacional com os indígenas Memõrtumré Canela. Serão objeto de análise o conjunto das múltiplas e dinâmicas representações que organizam e orientam a ação política, desta coletividade. Trarei à lume os cenários nos quais as ações e representações políticas indígenas estão em disputa, face os projetos de desenvolvimento e o acirramento de intensos conflitos fundiários, entre os diferentes atores, indígenas e não-indígenas.
-
O associativismo de base étnica no Leste de Minas Gerais: o idioma do direito no processo de construção da identidade quilombola
— João Vitor de Freitas Moreira, Kayo Almeida Guimarães de Sousa
— João Vitor de Freitas Moreira, Kayo Almeida Guimarães de Sousa
Os agrupamentos quilombolas localizados no Leste de Minas Gerais são fenômenos relativamente recentes na literatura especializada. Os dados etnográficos são esporádicos, assim como uma compreensão da dinâmica territorial e política perpassam por uma premente necessidade de situar os conhecimentos sobre grupos tradicionais em contextos sociais de grandes violações de Direitos. Inserem-se nesse contexto o Quilombo de Ilha Funda, localizado na Zona Rural do município de Periquito (MG), e o Quilombo de Águas Claras, localizado na Zona Rural do município de Virgolândia (MG). Esses dois agrupamentos se movimentaram recentemente acerca da sua identidade étnica, articulando fatores sociais, políticos e territoriais que levaram a uma coesão forte o suficiente para se afirmarem como quilombolas nos “Sertões do Leste” (Paraíso, 2014; Mattos, 2019). Nessa mobilização paroquial, destaca-se um fator extremamente relevante na confrontação dos grupos sociais com as agências do Estado: as associações quilombolas. Tem-se como objetivo apresentar uma discussão comparada, fundamentada em dados etnográficos provenientes do engajamento (Moreira; Vidal; Nicácio, 2021) dos autores junto aos grupos referidos e suas associações. A análise incide sobre um campo de problematização ainda pouco abordado nas monografias especializadas – ou, tratado como variável secundária – a saber: o papel político-jurídico do uso do idioma focal do direito na afirmação de uma identidade culturalmente diferenciada. Se, por um lado, observamos alguns estudos no campo ameríndio sobre as associações e seus papeis (Peres, 2003; Almeida, 2014; Sant’ana, 2017), por outro, a discussão no âmbito do associativismo negro é relegada à estudos históricos e com pouca investidura etnográfica (Domingues, 2014). De toda maneira, já foi constatado que o associativismo é uma forma “privilegiada de mobilização e organização política da etnicidade” (Peres, p. 157), o que ainda não foi verificado, contudo, são os efeitos de formas exógenas de organização institucional baseadas em regras cristalizadas em normas cogentes, nem o impacto na organização social advindo da hierarquização de uma associação sem fins lucrativos. Todavia, a formação de associações torna-se uma condição inescapável aos grupos étnicos que buscam acessar uma série de direitos, como a regularização fundiária disciplinada pelo Decreto 4.887/03. Ao acompanhar as associações dos grupos acima referidos, é possível indicar que a linguagem jurídica não é apenas incorporada passivamente, mas é transfigurada em algo local e vernacular (Merry, 2006) que se insere nas dinâmicas de territorialização (Oliveira Filho, 1998) dos quilombos nos Sertões do Leste, transformando-se em formas locais de uma política da resistência silenciosamente eloquente.
-
Disputas territoriais, conflitos interétnicos e mobilizações indígenas transfronteiriças no Alto Juruá (Amazônia ocidental)
— José Antonio Vieira Pimenta
— José Antonio Vieira Pimenta
Nas últimas três décadas, a região do Alto Juruá, situada no noroeste do estado do Acre, na fronteira com o departamento peruano do Ucayali, vivenciou profundas dinâmicas territoriais. A partir do início dos anos 1990, as lutas dos povos indígenas e dos seringueiros da região, apoiadas por setores do ambientalismo, levaram à criação de diversos territórios protegidos: terras indígenas, Reserva Extrativista do Alto Juruá, primeira reserva extrativista do Brasil, Parque Nacional da Serra do Divisor, etc. O conjunto desses territórios forma hoje um amplo corredor de áreas protegidas que borda a fronteira internacional e encontra semelhanças no país vizinho que também criou reservas ambientais e garantiu direitos territoriais para as comunidades nativas.
Apesar dessas conquistas, a fronteira do Brasil com o Peru no Alto Juruá continuou sendo palco de conflitos territoriais para o uso dos recursos naturais. Invasões do território brasileiro por madeireiros peruanos, aumento do narcotráfico e assassinatos de lideranças indígenas marcaram as relações interétnicas na região nas últimas décadas. A construção recente de uma estrada ilegal do lado peruano da fronteira tem aumentado o desmatamento e acirrado os conflitos entre indígenas e não indígenas. Além disso, a região também é considerada estratégica para o desenvolvimento de grandes projetos de infraestrutura e de integração binacional. A construção de uma interligação terrestre transfronteiriça entre Cruzeiro do Sul, principal município do Alto Juruá brasileiro, e a cidade de Pucallpa, capital do departamento peruano do Ucayali, por uma rodovia ou ferrovia, tem ganhado força nos últimos anos e é mais uma ameaça para as populações tradicionais e os povos indígenas da região, alguns vivendo em situação de isolamento voluntário.
Neste cenário conflituoso, marcado por visões antagônicas de desenvolvimento e por disputas pelo controle de territórios e de recursos naturais, o povo Ashaninka do rio Amônia tem se destacado como o principal protagonista na articulação de uma ampla rede de alianças indígenas e indigenistas transfronteiriças. A partir de pesquisas etnográficas realizadas na região nos últimos anos, dos dois lados da fronteira, esta comunicação procurará refletir sobre as estratégias dos povos indígenas, principalmente dos Ashaninka, para defender a integralidade de seus territórios e reafirmar suas identidades e modos de vida diante das ameaças externas, enfrentando atividades ilegais, como o narcotráfico e a exploração predatória de madeira, mas também projetos governamentais de desenvolvimento e integração binacional.
-
Custos da garantia de direitos e autonomia comunitária entre povos e comunidades tradicionais
— Nathalie Le Bouler Pavelic
— Nathalie Le Bouler Pavelic
Embora seja do Estado brasileiro o dever constitucional de proteger os direitos dos povos e comunidades tradicionais, observa-se, na prática, um deslocamento sistemático dos custos de sua efetivação para as próprias comunidades. Diante da negligência institucional, da morosidade administrativa e da criminalização de lideranças, povos indígenas e comunidades tradicionais são frequentemente compelidos a mobilizar recursos próprios para participar de processos judiciais, audiências públicas, deslocamentos, articulações políticas e estratégias de autoproteção. Esse cenário impõe um ônus desproporcional às coletividades, que precisam escolher entre investir na defesa de direitos ou em dimensões essenciais do bem viver, como cultura, território, saúde e reprodução social.
A observação etnográfica desses processos, articulada a abordagens históricas, comparativas e interdisciplinares, tem contribuído para debates contemporâneos da antropologia sobre economia, governança e produção de subjetividades. Nesse contexto, evidenciam-se formas contemporâneas de governo que, ao invés de assegurar direitos, produzem barreiras adicionais, transferindo responsabilidades estatais para coletividades historicamente vulnerabilizadas. Como destacam Silva e Lunelli (2020), a fragilidade, a fragmentação e a baixa transparência do Orçamento Indigenista Federal limitam a materialização de direitos, revelando desafios estruturais na implementação de políticas públicas voltadas aos povos indígenas e tradicionais (SILVA; LUNELLI, 2020, p. 7-10).
Diante desse quadro, muitas comunidades desenvolvem estratégias próprias de organização, financiamento e gestão de suas lutas, produzindo formas de autonomia que não decorrem de uma escolha ideal, mas de uma necessidade política. Essa dinâmica dialoga com reflexões sobre autonomia comunitária em contextos de ausência ou violência estatal, nas quais a coletividade assume a produção material e simbólica de sua existência, reorganizando economia, política e vida cotidiana a partir de práticas coletivas (SÓRIA, 2019).
Nesse sentido, a comunicação apresentará um panorama geral dos custos financeiros, organizacionais e subjetivos envolvidos na luta pela garantia de direitos entre povos e comunidades tradicionais, analisando seus impactos no cotidiano comunitário e as estratégias mobilizadas para sustentá-los. Ao final, será detalhado um exemplo, a partir de pesquisas já realizadas entre os Tupinambá de Olivença, na comunidade Serra do Padeiro, como uma das expressões concretas desse processo mais amplo.
-
Estrutura versus conhecimento no universo não branco: Uma breve revisão histórico antropológico da negação do racismo e conhecimento.
— Wilson Sanca
— Wilson Sanca
Tenho consciência de que este tema é amplo e complexo, mas este trabalho versa sobre a discussão estrutural, e de poder cosmológico, partindo do ponto de vista de alguns autores que debruçaram sobre esta temática. Tentarei trazer alguns elementos essenciais que ao longo de décadas foram ou tentaram colocá-lo no esquecimento. Começo texto discutindo alguns conceitos como estruturalismo, Racismo, Esquecimento/Silenciamento, transformação estrutural, e Identidade. Uns com mais ênfase, outros nem tanto. Preciso discutir esses conceitos e demostrando como esses autores me ajudaram na compreensão dessa discussão no campo histórico-antropológico. Apontarei alguns desafios e possíveis soluções para estes problemas. Terei como fio condutor para ajudar a entender essa discussão, autores como: Marçal Sahlins; Lévi-Strauss; Lélia Gonzalez; João Paulo Lima Barreto; Davi Kopenawa; e Michel-Rolph Trouillot. Objetiva-se nesse trabalho compreender como esses autores ajudaram de uma certa forma, na desmistificação de algumas discussões que antes eram negligenciadas como por exemplo racismo e o apagamento de algumas histórias, refazendo esse debate e criticando-as apresentando as soluções para esses fenômenos. Para alcançar o objetivo desejado, o presente trabalho teve como base metodológica a revisão de literatura por meio de um estudo com abordagem qualitativa, realizado através de um levantamento bibliográfico tanto do curso/disciplina “seminários avançados em pesquisa doutoral I”, como também junto a diferentes bases de dados, tais como Google acadêmico e Scientific Electronic Library Online (SciELO), envolvendo a leitura, análise e interpretação de artigos, livros publicados na íntegra.'
Coordenação
Guillermo Vega Sanabria (UFBA)
Ceres Karam Brum (UFSM)
Nas últimas duas décadas, a Antropologia passou por uma expansão significativa no Brasil: cresceram os cursos de graduação e pós-graduação, ampliou-se a presença da disciplina em diferentes níveis de ensino e multiplicaram-se seus usos em contextos profissionais diversos. Ao mesmo tempo, a expansão do ensino superior — marcada pelo aumento de vagas na rede privada e pela intensificação da Educação a Distância — deu origem a novas modalidades de formação, nem sempre claramente identificadas ou reguladas. Esse cenário exige uma reflexão atualizada sobre como temos ensinado e aprendido Antropologia no país, especialmente no que tange a nossas práticas pedagógicas e didáticas, mas também aos fundamentos epistemológicos, éticos e a articulação entre teoria, método e história da disciplina. O objetivo deste GT é reunir pesquisas que busquem compreender os rumos da Antropologia como disciplina acadêmica e como prática profissional, a partir da análise de seus processos formativos. Serão bem-vindos trabalhos que abordem desafios e inovações no ensino da Antropologia, seus fundamentos históricos e epistemológicos, bem como experiências de formação em diferentes contextos — da universidade à educação básica, passando por espaços não escolares e ambientes profissionais em transformação. Convidamos colegas de todas as regiões e instituições a contribuir com reflexões, diagnósticos, estudos de caso e propostas que ajudem a pensar o futuro da formação antropológica no Brasil.
Títulos e Resumos
-
O Museu, o Laboratório e a Universidade - práticas de campo na disciplina Teoria Antropológica 3 na Ufac
— Ana Letícia de Fiori
— Ana Letícia de Fiori
Esta comunicação apresenta um estudo de caso acerca da experiência realizada com a turma cursista da disciplina Teoria Antropológica 3, do curso de Ciências Sociais – bacharelado e licenciatura da Universidade Federal do Acre, no semestre letivo 2024.4 (outubro de 2024 a março de 2025). A partir de um plano de curso dividido em 3 unidades, “cultura e conhecimento” (com leituras de Lévi-Strauss, Sahlins e Manuela Carneiro da Cunha), “virada interpretativista” (com leituras de Geertz, Turner e Clifford), “virada ontológica e noção de pessoa” (com leituras de Eduardo Viveiros de Castro, Roy Wagner, Donna Haraway e Strathern) e “virada ontológica e antropologia simétrica” (com leituras de Strathern e Latour), foi proposto à turma que realizasse uma etnografia do Museu dos Povos Acreanos, institucionalizada como projeto de extensão, seguindo um roteiro para a produção de um relatório a ser devolvido à gestão do museu, com propostas de atividades que poderiam ser realizadas sob a forma de estágio. A turma organizou-se em grupos para as incursões a campo no contra-turno das aulas, a partir de suas diferentes disponibilidades, e discussões dos resultados foram realizadas em sala. Por sua vez, foi realizada uma visita coletiva ao Laboratório de Entomologia da Ufac, para um exercício descritivo a partir da Teoria Ator-Rede latouriana, tendo por anfitriãs pesquisadoras de formigas, abelhas e besouros. Ambas as atividades geraram práticas de escrita friccionando graus de letramento acadêmico, compreensão teória e expressão subjetiva. Esta comunicação discute as potencialidades e limites dessa experiência que intentou unir ensino, pesquisa, curricularização da extensão em uma costura parcial com os cânones da teoria antropológica que se espera comporem a grade curricular de uma graduação em ciências sociais, enquanto abarca também instituições, discursos e práticas localizadas em Rio Branco e em sua Universidade Federal.
-
Extensão Universitária à luz da Antropologia: ainda necessárias ações antirracistas.
— Ana Margarida Andrade dos Santos, Marco Aurélio Paz Tella
— Ana Margarida Andrade dos Santos, Marco Aurélio Paz Tella
O projeto de extensão “Ouvir, refletir e Agir: a sociedade do Vale do Mamanguape e as relações raciais (2020 a 2025)”, vem problematizando atitudes racistas presentes no cotidiano nas relações sociais, que contribuem para as violências raciais. O projeto colocou em prática ações antirracistas que sensibilizassem, mas também que provocassem reflexões críticas, acerca das desigualdades raciais presentes na sociedade. Apresentamos e desejamos ampliar as discussões.
Iniciamos o projeto no período da pandemia. Contudo, sem imaginarmos o que viria com a Sars cov2, nosso objetivo foi vivenciar em uma escola pública na cidade de Rio Tinto/PB, diferentes saberes à luz da negritude. Nosso público alvo foi estudantes de escola de ensino médio integral, comunidade acadêmica, comunidade quilombola.
O contato com a antropologia, o título do projeto, a autoestima mais elevada e as afirmações de negritudes em pauta – corroboraram com a ida há uma comunidade quilombola, o maior acesso a autores/as negres de forma de nos fortalecer cada vez mais em contextos além da educação. Assim para quem se aproximasse já soubesse do que iríamos tratar, negritude e antropologia (nem sempre foi assim!).
A proposta desse resumo é apresentar duas ações realizadas pelo projeto: ‘Rodas de conversas on line com as turmas do ensino médio’, período em que toda a equipe extensionista participava mais a escola, juntavam de duas a três turmas. A outra ação foi de divulgar ‘Cientistas Pretes’ e suas pesquisas, trabalhos, através de Lives ao vivo no Instagram do projeto (@ouvirrefletireagir).
Para realizar as ações (remota e presencial), acessamos a coordenação pedagógica da escola, para apresentar a proposta aprovada no edital da universidade e as ações que planejamos para desenvolver com os/as estudantes de ensino médio. A proposta desse resumo é apresentar e discutir um projeto que cumpriu o seu papel. Os quatro anos de execução do projeto (2021-2025), foi o meio por onde traçamos alguns caminhos, levantamos algumas possibilidades e já entendemos a necessidade de dar continuidade – mediante objetivos atualizados! Momento de, de fato agir em prol de muito mais ações antirracistas e com ênfase em contextos de educação.
Nós estudantes/equipe compreendemos que a antropologia dialoga com diferentes áreas e tem a alteridade como uma de suas bases. Nesse sentido a diversidade de pessoas e temas para nossas Lives com Cientistas Pretes, afirmou a potência da disciplina em diálogo com outras. Presenteando-nos com excelentes convidades.
-
A Antropologia na educação científico-tecnológica: um olhar sobre os currículos da área de Ciência e Tecnologia de Alimentos
— André Gondim do Rego
— André Gondim do Rego
A presença da Antropologia na formação de diversas áreas de nível superior tem se tornado cada vez mais comum, inclusive naquelas referidas como de “ciência e tecnologia”. Em relação ao universo de estudos que envolve o fenômeno alimentar, os profissionais costumam ser divididos entre aqueles que, de um lado, o abordam em termos de “alimento”, visando sobretudo seus aspectos físico-químicos e biológicos (a exemplo das várias subáreas das Ciências Agrárias), e, de outro, os que o discutem na chave da “alimentação”, através da qual exploram também sua dimensão sociocultural (tal como na Nutrição e na Gastronomia). Embora seja fácil identificar as afinidades entre o escopo da antropologia e o trabalho destes últimos, seria um erro considerá-la como ausente na formação dos primeiros. Ao menos, é o que indicam os resultados desta pesquisa. Seu objetivo foi discutir a mobilização da antropologia (em associação ou não com outras ciências sociais) no currículo dos cursos de Ciência e Tecnologia de Alimentos no país. Chamamos de mobilização não só a presença dessas disciplinas nos planos de curso analisados, mas também sua quantidade, carga horária, posição e conteúdos indicados na ementas. Por fim, também foi observado se tais conteúdos indicavam uma abordagem socioantropológica mais introdutória/básica ou efetivamente aplicada ao fenômeno alimentar. A pesquisa se baseou em uma amostra abrangendo todas as regiões e unidades da federação. Dos 104 cursos identificados, 19 são de bacharelado e 85 tecnológicos. Entre estes, há cursos públicos e privados, bem como presenciais e EaD. Dos 39 selecionados como amostra, nove não apresentaram quaisquer disciplinas relacionadas à Antropologia/Ciências Sociais; 12 apresentaram componentes envolvendo conteúdos afins, mas sem relação com a questão alimentar; e 18 o fizeram incluindo tal relação. Em conclusão, observou-se um número significativo de cursos que incluem componentes curriculares relacionados à Antropologia/Ciências Sociais (cerca de 77% da amostra) e, dentro deste conjunto, um número também expressivo de disciplinas envolvendo alguma relação entre estas ciências e a questão alimentar (cerca de 46% da amostra). Por fim, mais da metade deste último grupo (cerca de 25% da amostra) envolve abordagens de sociologia e/ou antropologia da alimentação em sentido estrito, isto é, mobilizada no sentido de uma aplicação desse campo de saber a temas e questões específicas da área de formação em questão.
-
Caderno de artesanato intelectual, crônicas antropológicas e outras experimentações de ensino e escrita em ciências sociais
— Hermes de Sousa Veras
— Hermes de Sousa Veras
A presente reflexão considera a experiência de ensino em diversos cursos de graduação junto a turmas de disciplinas de antropologia e sociologia em duas instituições, a Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e a Universidade Estadual do Ceará (UECE). O fio condutor da experiência é a proposta de intensificar ou despertar, simultaneamente, senso de autoria e de comunidade entre discentes. Insistindo que ensinar ciências sociais é também fazê-la, foram adotadas estratégias de ensino e de escrita para que, na medida em que eram respeitadas as ementas das disciplinas, com o aprofundamento dos contextos históricos de formação da antropologia e da sociologia, o desdobramento de suas principais abordagens teóricas e a reflexão epistemológica e prática dessas ciências, a turma participante fosse convidada a se colocar diante e dentro do que estava sendo ensinado. Nesse engajamento, elaborei em diálogo com Pedro Demo, Carlos Brandão, Wright Mills, Howard Becker, bell hooks e Conceição Evaristo, uma metodologia de ensino e avaliação denominada de “caderno de artesanato intelectual”. O uso do “caderno de artesanato intelectual” pela comunidade discente esteve atrelado ao letramento sensível e crítico necessário para se mobilizar a imaginação sociológica e a experiência antropológica. Primeiro, foi desenvolvida uma abordagem de ensino e avaliação contínua, fazendo com que a turma registrasse e organizasse a sua reflexão dentro de três eixos: a) anotações de sala de aula, b) esboços e reflexões teóricas a partir da bibliografia da disciplina, c) exercícios de observação cotidiana. Partindo do “caderno de artesanato intelectual”, a escrita foi experimentada e materializada no desenvolvimento de textos de gênero parcialmente “híbridos”, tais como a crônica sociológica e antropológica e os ensaios etnográficos. Propor uma boa relação entre literatura e ciências sociais possibilitou com que a comunidade discente se aproximasse de uma maneira mais encantada e engajada com o modo de pensar e fazer ciências sociais, considerando a crônica enquanto gênero focado na brevidade, lirismo e reflexão cotidiana, ao mesmo tempo em que o ensaio etnográfico carregou a conexão entre teoria e prática. Diante disso, a presente reflexão apresenta esse percurso de ensino e escrita, elencando alguns dos desafios enfrentados, tais como a difícil relação entre Inteligência Artificial e o Artesanato Intelectual, a dificuldade de relacionar o contexto social e cultural discente com as bibliografias obrigatórias clássicas e a necessidade de se compreender leitura e escrita de mundo enquanto atividades fragilizadas na conjuntura neoliberal que atinge a educação.
-
Antropologia e Interdisciplinaridade: Articulação de processos formativos e o exercício profissional no mundo contemporâneo
— Juan Felipe Villamizar Vivas
— Juan Felipe Villamizar Vivas
O presente trabalho visa mostrar uma experiencia etnográfica que se utiliza de técnicas de arquivo para descrever a história curricular e analisar a proposta académica e profissionalizante do curso de graduação em Antropologia Social da Escuela de Ciencias Humanas da Universidad del Rosario, Colômbia. Realizando uma pesquisa antropológica desde dentro (levando em conta a qualidade de estudante e pesquisador), pretendo mostrar a originalidade da modalidade de formação interdisciplinar na qual o programa de antropologia está inserido, dando a conhecer também a heterogeneidade das trajetórias formativas e perfis profissionais das/os antropólogas/os formados neste programa. O horizonte interdisciplinar em questão nasce a partir do diálogo direito com saberes pertencentes às áreas da Sociologia, História, Filosofia, Jornalismo e Artes Liberais, fazendo surgir novas formas de ensinar e aprender antropologia. Além de explorar as maneiras pelas quais essa modalidade de ensino e aprendizagem antropológica estende os alcances da disciplina tanto no âmbito acadêmico como no âmbito laboral, esta apresentação busca dar a conhecer a articulação de práticas pedagógicas dialógicas e apostas epistemológicas integradoras onde a relação entre teoria e prática etnográfica confluem em um patamar comprometido com a transformação das condições sociais do país. Naturalmente, uma abordagem formativa inovadora como esta remete a desafios institucionais e disciplinares concretos, os quais pretendo abordar no grupo de trabalho com o objetivo de estabelecer reflexões em torno não somente à configuração da diversidade e da pluralidade das AntropologiaS feitas na Colômbia, mas também às AntropologiaS feitas no sul global e no sistema mundo da antropologia.
-
A disciplina de Antropologia Política como ferramenta contra a lógica da colonialidade nos cursos de Ciências Sociais
— Jucy Monteiro de Melo, Vinícius Yeshua Lira de Lima
— Jucy Monteiro de Melo, Vinícius Yeshua Lira de Lima
A antropologia política pode ser definida por meio da forma de explicar como os atores sociais compreendem e experimentam a política, isto é, como significam os objetos e as práticas relacionadas ao mundo da política (Kuschnir, 2008). A partir dessa área da antropologia, a presente pesquisa tem como objetivo apresentar e discutir os conceitos e quadros teóricos que fundamentam o debate entre modernidade e colonialidade, contribuindo para as reflexões sobre justiça histórica e autodeterminação dos povos. Esta proposta de comunicação se ancora no referencial teórico dos estudos decoloniais, especialmente a partir das contribuições de autores do grupo modernidade/colonialidade, como Aníbal Quijano, Walter Mignolo, Catherine Walsh e Maldonado-Torres, construído por pensadores latino-americanos e caribenhos, que enunciam a perspectiva dos sujeitos subalternizados acerca das relações globais de poder, dos modos de produção do conhecimento e da persistência de hierarquias herdadas do colonialismo. Conforme Quijano (2000), modernidade e colonialidade constituem uma mesma lógica de poder, na qual a “colonialidade do poder” se manifesta pela naturalização de uma hierarquia ocidentalcêntrica que legitima o Ocidente como centro da racionalidade, do progresso e da autoridade. Nesse sentido, a modernidade oculta a lógica da colonialidade que sustenta as práticas de dominação. Além dessa dimensão, os estudos decoloniais também evidenciam a “colonialidade do saber”, denunciando a imposição de uma epistemologia eurocêntrica como parâmetro universal de conhecimento (Mignolo, 2003; Walsh, 2009), bem como a “colonialidade do ser”, conceito que explicita a desumanização sistêmica dos sujeitos historicamente colonizados (Maldonado-Torres, 2007). A pesquisa adota uma abordagem, baseada em pesquisa bibliográfica e análise documental, partindo da análise das ementas da disciplina de antropologia política em universidades renomadas do país, orientada pela Matriz Metodológica Contra-Hegemônica (Martins; Benzaquen, 2017), com propósito de identificar tensões entre marcadores coloniais e descoloniais nos programas de curso e problematizar a permanência da lógica colonial nos cursos de ciências sociais das universidades brasileiras.
-
Juventude e Trabalho: a reforma do ensino médio e a perspectiva de futuro na escola pública
— Letícia Freitas de Carvalho
— Letícia Freitas de Carvalho
Este artigo é uma síntese do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), da Especialização de Políticas Públicas. Desta maneira, o objetivo é apresentar, de maneira sucinta, como a Lei nº 13.415, de 2017, que instituiu o Novo Ensino Médio e, posteriormente, após inúmeras críticas, a implementação da Política Nacional do Ensino Médio instituída pela Lei nº 14.945, de 2024 se relacionam com a construção da perspectiva de futuro das juventudes. Para tanto, analisaremos as duas políticas educacionais para compreender se os objetivos foram alcançados e há relação com a construção de uma perspectiva de futuro, como recorte teremos o ingresso ao ensino superior e mercador de trabalho. É importante mencionar que o recorte para a pesquisa é a escola pública porque parte-se da ideia de que existe maior familiaridade na maneira em que a política será implementada, por exemplo: os itinerários formativos são propostos no modelo top-down e abrangem toda a rede de ensino pública de um estado.
-
Todo Adoecimento Conta Uma História: O Olhar Antropológico na Formação de Profissionais da Saúde
— Millena Pessanha do Nascimento
— Millena Pessanha do Nascimento
Partindo do pressuposto de que todo adoecimento conta uma história, este trabalho propõe uma reflexão sobre a contribuição da antropologia para a formação de profissionais da saúde, em especial do enfermeiro, a partir da noção de produção social da saúde. Sob o olhar antropológico, o adoecer é compreendido não apenas como evento biológico, mas como experiência vivida e narrada, atravessada por trajetórias de vida, identidades, territórios, relações sociais e arranjos de cuidado. A reflexão toma como base uma experiência docente desenvolvida na disciplina Produção Social do Processo de Saúde e Doença e Aspectos Epidemiológicos, no curso de Enfermagem, na qual conteúdos da antropologia da saúde foram mobilizados para problematizar a pretensa universalidade do diagnóstico e da prática clínica, evidenciando que o adoecer assume sentidos distintos a partir das histórias de vida e dos contextos nos quais os sujeitos estão inseridos. Ao longo da disciplina, as categorias analíticas de cultura, identidade e território foram utilizadas como eixos centrais para a compreensão do cenário brasileiro e para o entendimento do adoecimento como processo social, histórico e político, inscrito em contextos de desigualdade e produção de vulnerabilidades. Nesse percurso formativo, o convite à troca de narrativas de vida entre os estudantes emergiu como elemento central para a compreensão da promoção do bem-estar social e do adoecer, possibilitando articular experiências singulares ao reconhecimento do adoecimento como fenômeno sociocultural. Como recurso metodológico dessa perspectiva, analisa-se o uso da cartografia social como ferramenta pedagógica, por meio da qual os estudantes mapearam seus territórios vividos, produziram leituras sobre os determinantes sociais da saúde e construíram compreensões acerca de como o adoecimento se produz em seus próprios contextos territoriais, como condição para compreender o adoecer do outro. Argumenta-se que a antropologia, ao deslocar o olhar do corpo isolado para o sujeito situado em suas histórias, relações e espaços de pertencimento, contribui de forma decisiva para a formação de enfermeiros capazes de compreender o cuidado como prática social e política.
-
Racializando a discussão - a raça dentro das disciplinas de antropologia
— Rennan Pires da Silva Porto
— Rennan Pires da Silva Porto
O presente trabalho tem como objetivo investigar e discutir como o tema raça é introduzido nas disciplinas de antropologia a partir do curso de licenciatura em ciências sociais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO). Os anos 2010 são marcados por fortes modificações nas universidades públicas, considerando o avanço das ações afirmativas que alteram o perfil histórico dos discentes do ensino superior (Costa, 2020). Este avanço também demonstrou uma lacuna existente entre os assuntos abordados nos cursos e este novo grupo que agora é maioria nas universidades (Gomes; Silva; Brito, 2021; Lima, 2022). Na esteira deste fenômeno, o Ministério da Educação (MEC) a partir da Resolução CNE/CP nº 4, de 29 de maio 2024, propõe diretrizes para guiar os cursos de licenciatura em um processo de reforma de seus currículos acadêmicos com objetivo de modificar e tornar o ensino mais compatível com as novas gerações de alunos que compõem as universidades. Entre as indicações a serem seguidas, as relações étnico-raciais deveriam se tornar um componente curricular obrigatório e comum a todas as licenciaturas, e autores e autoras negras deveriam ser introduzidas nos currículos das disciplinas. Neste cenário, o curso de ciências sociais da UNIRIO, após dez anos de sua fundação, enxergou enquanto um momento oportuno para reformular seu Plano Político Pedagógico (PPP) e por consequência o currículo de suas disciplinas, levando em consideração estas novas medidas (UNIRIO, 2025). Compreendendo o currículo, não como um documento técnico e neutro, mas sim como um instrumento pedagógico de disputa de poder político e ideológico com objetivo de estabelecer uma forma de saber (Apple, 1989), é possível observar que seu estabelecimento é reflexo do momento a qual é implementado. Neste sentido, este trabalho se propõe a analisar os PPPs do ano de 2015 em comparativo ao ano de 2025 depois da reforma proposta, tendo como metodologia a análise documental e focando nas disciplinas obrigatórias de antropologia, para compreender como a raça está presente nestes dois currículos, levando em consideração as ementas, temas e autores utilizados. Também buscando compreender o que é modificado e o que é preservado nos dez anos que separam estes dois currículos.
Coordenação
Gekbede Dantas Targino (IFPB)
Breno Rodrigo de Oliveira Alencar (IFPA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Tatiana Bukowitz (Colégio Pedro II)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Andréa Lúcia da Silva de Paiva (UFF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Andréa Lúcia da Silva de Paiva (UFF)
O Grupo de Trabalho propõe atualizar e aprofundar o debate iniciado pelo Grupo de Pesquisa em Antropologia na Educação Básica, em 2020. Esteve presente em encontros posteriores da Associação Brasileira de Antropologia, reunindo docentes e pesquisadores/as que atuam no ensino fundamental e médio, em diferentes redes de ensino, para compartilhar experiências de inserção da Antropologia no currículo escolar, através da discussão de materiais didáticos, metodologias e políticas educacionais, além da reflexão sobre o lugar dos saberes antropológicos na escola. Esse movimento consolidou-se como um fórum de interlocução permanente em eventos nacionais e internacionais e por meio de publicações de artigos e coletâneas. O GT convida docentes, pesquisadores/as e estudantes a apresentarem trabalhos que discutam a atuação de antropólogos/as na educação básica, as possibilidades de construção de currículos plurais, as práticas pedagógicas de inspiração etnográfica e as experiências de extensão e divulgação científica voltadas para a escola. Interessa-nos especialmente refletir sobre como práticas de ensino-aprendizagem podem promover valorização de saberes locais, protagonismo estudantil e circulação de epistemologias indígenas, afro-diaspóricas, quilombolas e periféricas, contribuindo para uma Antropologia escolar comprometida com a transformação social. Palavras-chave: Antropologia; Educação Básica; Ensino-aprendizagem; Justiça epistêmica; Decolonialidade.
Títulos e Resumos
-
LEPIC uma tecnologia social
— Alice Magalhães Ribeiro, Yuri José de Paula Motta
— Alice Magalhães Ribeiro, Yuri José de Paula Motta
A proposta pretende apresentar o trabalho realizado no âmbito do Laboratório Escolar de Pesquisa e Iniciação Científica (LEPIC/UFF), um grupo de pesquisa composto por pesquisadores em diversas etapas da formação acadêmica com maioria de estudantes de ensino médio de colégios públicos dos municípios de Niterói e São Gonçalo. O grupo é atualmente coordenado por quatro pessoas, sendo três autores desta proposta.
O LEPIC integra, desde 2019 o Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq, tem caráter multidisciplinar, e se vincula ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC), da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Um dos objetivos principais do grupo é fortalecer a ponte entre escolas e Universidades públicas através da prática da pesquisa e da socialização acadêmica. Isso quer dizer que os alunos são convidados a ocupar a posição de cientistas e realizar as atividades que envolvem este ofício, tais como escrita de caderno de campo e descrições etnográficas, leitura e discussão de bibliografias, apresentações orais, frequência nas reuniões de pesquisa, lida com burocracias acadêmicas e divulgação científica.
As pesquisa desenvolvidas no LEPIC pelos pesquisadores iniciantes matriculados na escola e a partir de suas próprias inquietações, seguem a orientação temática do INCT-InEAC, investindo portanto na compreensão da natureza de diversas formas de conflitos escolares, a exemplo do uso de IAs na sala de aula, conflitos decorrentes de assédio sexual, entre outros temas.
Especificamente interessa a esta apresentação dois aspectos envolvidos no cotidiano do grupo, quais sejam: o entendimento do grupo enquanto uma tecnologia social que aparece como ferramenta na administração de conflitos no espaço escolar; e a participação majoritária de meninas e mulheres.
-
Uma disciplina, muitas descobertas: a formação docente e sua contribuição prática para a Antropologia na educação básica
— Andréa Lúcia da Silva de Paiva
— Andréa Lúcia da Silva de Paiva
Este trabalho tem como objetivo o debate sobre a formação de professores de modo a garantir e contribuir para a presença da Antropologia na educação básica. Nosso locus de observação são as aulas da disciplina optativa Antropologia e Sociologia da Educação, ministrada no segundo semestre de 2025 para o curso de licenciatura em Ciências Sociais, no município de Campos dos Goytacazes (RJ). Ao longo de quatro meses, buscamos descrever práticas de ensino e aprendizagem que valorizam o debate sobre decolonialidades, saberes locais, diversidade cultural e alteridade. A presença de estudantes de outros cursos, como os de História e Psicologia, ampliou o debate interdisciplinar com a Antropologia, trazendo diversas contribuições à prática pedagógica. O trabalho consiste em apresentar e experimentar um olhar antropológico inserido na educação básica a partir da formação docente, por meio da construção de práticas pedagógicas e da elaboração de propostas e materiais didáticos sobre temas, teorias e conceitos. Por meio da observação, descreveremos os espaços ocupados pela Antropologia no ensino superior e seu ritual de passagem analisando as transições significativas dos alunos ao longo do processo de construção do conhecimento por meio de comportamentos, leituras, avaliações e debates vivenciados em sala de aula. Detalharemos as trocas de narrativas entre os licenciandos, seus estranhamentos sobre a temática, os desafios enfrentados para pensá-la como trabalho final que atendesse à proposta e as mudanças provocadas na construção identitária e educacional desses indivíduos para atuação na educação básica. A partir da experiência vivenciada, é possível descrever, analisar e repensar a construção curricular na formação de licenciados, especialmente nos cursos de Ciências Sociais. Sendo assim, por meio deste trabalho, buscamos contribuir para novos caminhos para a valorização da Antropologia na educação básica frente à percepção de currículo e conteúdo da formação docente no ensino superior.
-
Roteiro de documentário na educação para as relações étnico-raciais
— Bárbara Duarte Casseb
— Bárbara Duarte Casseb
A maioria das produções audiovisuais são planejadas a partir da escrita (roteirização) e consumidas por nós de forma acrítica, sem a consciência de um planejamento prévio e das estratégias de produção elaboradas para criar efeitos de sentido no público. Enfrentar essa situação significa um desafio para quem luta por uma educação pública de qualidade, o que inclui uma análise mais crítica destas produções.
Diante disso, é mister destacar a importância do exercício de roteirização como estratégia de ensino e aprendizagem. A elaboração de roteiros de curta-metragens de documentário nas aulas de Sociologia, em que o olhar da Antropologia também está presente, possibilita um exercício crítico e reflexivo do audiovisual subsidiado pela abordagem do conhecimento antropológico.
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre esta iniciativa, realizada na disciplina de Sociologia para turmas do ensino médio integrado do Instituto Federal do Pará (IFPA), campus Belém. As turmas foram introduzidas ao conceito de documentário como uma "prática de representação" que lida com imagens e sons do mundo histórico, organizados para um propósito (NICHOLS, 2016). Foram realizadas oficinas que incluíram a apresentação dos diferentes modos e estilos de documentários, os estudantes aprenderam sobre a função do roteirista e organização da produção de documentário e realizaram exercícios de pesquisa sobre o tema das relações étnico-raciais no Brasil. Nesta etapa, evidenciou-se a necessidade do embasamento antropológico, que se deu com o conteúdo das aulas sobre classe social e raça no Brasil, o "mito da democracia racial", e a desigualdade racial como elemento estrutural da sociedade brasileira (CARNEIRO, 2003; MUNANGA, 2004; RIBEIRO, 2019; SCHWARCZ, 1993; YANOMAMI, 1999).
Como produto, os alunos elaboraram os roteiros juntamente com os guias de captação e entrevistas que continham: logline, descrição de cenas, objetivo narrativo, imagens-chave, sequência de registros e roteiro de perguntas para as entrevistas. Os estudantes apresentaram dificuldade para pensar o roteiro como uma descrição de imagens e sensações, uma vez que estão acostumados com textos dissertativos, impessoais e acadêmicos.
Conclui-se que esta experiência foi exitosa sobretudo por possibilitar que os estudantes percebam as estratégias comunicacionais ocultas nas produções audiovisuais que, se por um lado são habitualmente utilizadas para reforçar estereótipos, também podem servir como instrumento da prática educativa antirracista. A atividade possibilitou aos estudantes experimentar um modo afetivo e sensível para lidar com o tema, promovendo mais engajamento, valorização das culturas indígenas e afro-brasileiras, bem como o compromisso com uma sociedade mais justa.
-
Entre a caneta na mão e a bola no pé: reflexões sobre estudantes-atletas em um clube de futebol de Alfenas em Minas Gerais.
— Bruno José Samonetto
— Bruno José Samonetto
Este trabalho tem por objetivo refletir sobre as trajetórias escolares de estudantes-atletas do primeiro ano do ensino médio em uma escola estadual da cidade de Alfenas, no Sul de Minas Gerais, a partir de observação participante. Considerando a origem social desses jovens oriundos de diferentes estados do Brasil e contratados como jogadores por um clube da cidade, analisa-se a experiência de uma dupla jornada marcada pela conciliação entre a rotina escolar e as exigências do futebol de alto rendimento, o que coloca em embate suas rotinas, expectativas de ascensão social e projetos de futuro.
A partir do acompanhamento nos jogos do time, da vivência no espaço escolar e de conversas frequentes com os estudantes, evidencia-se o papel central do futebol como instrumento de mobilidade social, ao representar uma possibilidade concreta de ascensão social por meio do esporte. Inspirado na tradição antropológica que compreende a cultura como aprendizado social, associada às contribuições de Franz Boas (2011) para a antropologia da educação, argumenta-se que o aprendizado mediado pelo corpo ocupa lugar central na formação desses jovens, estruturando culturas próprias e projetos de vida. No entanto, essa centralidade do esporte tensiona a relação com a escola, uma vez que os estudantes tendem a priorizar compromissos e expectativas vinculadas à carreira esportiva em detrimento do ensino formal.
O trabalho também dialoga com contribuições da antropologia do esporte e da cultura, especialmente a partir de Roberto DaMatta (2012), para compreender o futebol como uma linguagem social que expressa valores morais, hierarquias, regras e formas de convivência. Em diálogo com Roque de Barros Laraia (1986), a cultura é entendida como um conjunto de padrões aprendidos que condicionam visões de mundo, práticas e expectativas. Nesse sentido, a inserção desses jovens no universo do futebol não apenas os socializa segundo códigos específicos desse campo, mas também reconfigura suas percepções sobre escola, ensino e futuro, evidenciando como a participação no que se denomina cultura da bola produz deslocamentos, negociações e transformações nas trajetórias escolares e nos projetos de vida.
Por fim, discute-se o caráter dinâmico e instável da vida do atleta em formação, marcado pelo encerramento de contratos e deslocamentos frequentes, o que impacta diretamente a continuidade do processo educacional. Ao analisar os estudantes-atletas como objeto legítimo da reflexão antropológica, o estudo contribui para os debates sobre educação básica, esporte e juventude, destacando os desafios e as possibilidades de práticas pedagógicas mais sensíveis aos saberes e às experiências juvenis.
-
Entre o ritual e o calendário escolar: experiências formativas de jovens indígenas em circulação entre aldeia e cidade.
— Cassiana Oliveira da Silva Kamikiawa
— Cassiana Oliveira da Silva Kamikiawa
Este trabalho apresenta reflexões etnográficas oriundas da pesquisa de doutorado “Entre a escola e a aldeia: etnografia das trajetórias formativas de jovens indígenas em contextos urbanos em Mato Grosso”, desenvolvida junto a jovens indígenas que transitam entre a escolarização urbana e os regimes formativos de seus territórios de origem, no sudeste do estado de Mato Grosso. A investigação acompanha estudantes indígenas matriculados em uma escola pública estadual situada em contexto urbano, próxima a Terras Indígenas dos povos A’uwẽ/Xavante, Boe Bororo e Kurâ-Bakairi, focalizando suas trajetórias, práticas cotidianas e modos de negociação entre diferentes formas de produzir pessoas, saberes e pertencimentos. A partir de uma abordagem etnográfica baseada na convivência, na escuta e no acompanhamento de deslocamentos entre cidade e aldeia, o trabalho analisa a coexistência e a tensão entre a temporalidade escolar urbana e os ciclos rituais indígenas. A atenção se concentra na participação de adolescentes A’uwẽ/Xavante no ritual de iniciação Danhõnõ, um complexo cerimonial que articula corporalidade, ética, memória e ancestralidade, constituindo um regime próprio de formação. O retorno periódico desses jovens à aldeia para vivenciar o ritual produz deslocamentos significativos nas rotinas escolares, acionando negociações institucionais, disputas em torno da legitimidade das ausências e questionamentos sobre o que conta como aprendizagem reconhecida. A etnografia evidencia que o trânsito entre escola e aldeia não implica ruptura identitária ou abandono de vínculos comunitários, mas a produção de experiências formativas situadas em um “entre-mundos”, no qual diferentes regimes de conhecimento e autoridade convivem de forma assimétrica. As narrativas dos jovens interlocutores revelam modos próprios de articular a aprendizagem ritual — vivida com o corpo, a coletividade e o território — e a escolarização urbana, frequentemente marcada por lógicas universalizantes e pela dificuldade de reconhecer saberes indígenas como constitutivos da formação. Ancorado na interculturalidade crítica e em perspectivas decoloniais, o trabalho propõe compreender a escola não como espaço hegemônico de formação, mas como um dos polos de um campo mais amplo de produção de sujeitos indígenas contemporâneos. Ao tomar o ritual e as experiências indígenas como chaves analíticas, o estudo contribui para os debates antropológicos sobre circulação aldeia–cidade, juventudes indígenas, regimes de formação e cosmopolítica, deslocando a educação do lugar normativo para pensá-la como experiência vivida e disputada.
Palavras-chave: etnografia; juventudes indígenas; regimes de formação; ritual; entre-mundos; cosmopolítica.
-
Um ensaio sobre a rede estadual de educação de Goiás
— Emília Guimarães Mota
— Emília Guimarães Mota
A implementação do modelo gerencial empresarial tem acontecido na educação, no Brasil, desde os anos 1990. Mudanças propostas para o Ensino Médio nos últimos anos mostram a potencialização dos efeitos desse processo. A proposta é analisar alguns dos efeitos a partir de um trabalho etnográfico realizado junto à rede estadual de educação de Goiás que tem características específicas, como a coexistência de modelos de escolas diferentes (militarizada, integral, curso técnico integrado ao ensino médio). O objetivo é analisar o lugar e as margens de atuação dos saberes antropológicos em meio aos documentos oficiais, as estratégias da secretaria estadual e a prática docente nos tipos de escola. Para isso, falarei desde a experiência como antropóloga-professora efetiva da rede que atua em duas escolas, sendo uma delas militarizada, nas disciplinas de Sociologia e Civismo e cidadania. As descrições darão ênfase ao ano 2025. O ponto de partida será uma descrição do tratamento diferenciado ofertado pela rede para ambas escolas no sentido da aplicação de estratégias avaliativas, da percepção de autonomia escolar e do trabalho docente. Sobretudo, pensando os documentos distribuídos bimestralmente que organizam os conteúdos por área/disciplina, e as avaliações bimestrais “prontas” e obrigatórias enviadas pela secretaria estadual. As diferentes nuances das estratégias da secretaria estadual não podem ser analisadas apartadas das questões que ressoam no estado de Goiás. Elas relacionam a criação e captura do desejo de parte da população despertado pelos discursos de segurança, formação moral, da “melhor educação do país”, “o estado que dá certo”. A presença religiosa dos evangélicos na esfera pública também é um fator relevante. Se por um lado notamos uma defesa institucional e popular do modelo militarizado como modelo de sucesso, por outro, é possível notar como esse elemento influi no constrangimento — às vezes visível— para trabalhar conteúdos previstos. Seja, no caso das escolas não militarizadas, pelo ritmo imposto pela previsão de conteúdos dispersos e diversos, mal distribuídos, seja pelas dinâmicas de constrangimento, vigilância, controle naquelas militarizadas. Em meio a isso, algumas linhas de fuga vão sendo criadas desde a parceria com outros professores, do manejo com a disciplina de Civismo e cidadania. Algumas contradições ou situações não previstas também foram se constituindo. As decisões da secretaria estadual e os documentos formulados por ela geram a sensação de falta de conhecimento/preparo em relação às ciências humanas e sociais e aplicadas. Por outro lado, menos otimista, percebemos como a área sofre um tipo de desprestígio, enfraquecimento sistemático que combinam com as apostas neoliberais entranhadas na educação brasileira.
-
Caboclos na escola: resistências e aberturas
— Helena Assunção, Ana Luíza Duarte de Brito Drummond
— Helena Assunção, Ana Luíza Duarte de Brito Drummond
Este relato de experiência integra a IV Semana Integrada da Consciência Negra do Instituto Federal de Minas Gerais (IFMG) campus São João Evangelista, que promoveu reflexões sobre diversidade cultural e combate ao racismo religioso. Direcionado aos estudantes do ensino médio integrado ao técnico, o evento buscou discutir a presença das culturas afro-brasileiras no currículo escolar e na vida cotidiana, incentivando uma educação antirracista, conforme a legislação brasileira. Em um contexto historicamente marcado pela invisibilização dos saberes de matriz africana, o evento visou ampliar a escuta e o diálogo, cumprindo a Lei 10.639/2003 e fortalecendo o papel da escola na desconstrução de preconceitos.
Realizado entre novembro e dezembro de 2024, o evento exibiu o documentário Caboclos da Pedra (2024), dirigido por Nilmar Lage e Makota Wulangana (Ana Luíza Drummond), produzido pelo terreiro de Candomblé Angola, o Manzo Ngunzo Amazilemba. A exibição, para mais de 250 estudantes, foi seguida de um bate-papo com o zelador de inquices Tatetu Aladey, líder da comunidade retratada, e com a escritora Adriana Santana, autora de Das cinzas da senzala, o levante (2021), obra que dialoga com processos de resistência das populações afrodescendentes. A conversa, mediada pela professora Helena Assunção, buscou esclarecer dúvidas e aproximar os jovens do universo simbólico e filosófico das religiões afro-brasileiras, com foco na cultura bantu, base do terreiro de nação angola.
Apesar do receio inicial dos organizadores quanto à recepção, dada a forte tradição católica local, os estudantes demonstraram grande interesse e engajamento. Desde o início da exibição, mostraram atenção e curiosidade, que se intensificaram no bate-papo, revelando desejo genuíno de compreender as tradições apresentadas. Destacou-se o interesse dos alunos de agropecuária pela relação entre espiritualidade e meio ambiente, percebendo conexões entre os ensinamentos tradicionais e o trabalho com a terra. Além disso, o evento possibilitou que estudantes compartilhassem experiências pessoais de silenciamento espiritual, sentindo-se acolhidos. As discussões prosseguiram em sala de aula, ampliando o debate e reforçando a importância de ações pedagógicas que não apenas denunciem opressões, mas também valorizem as epistemologias afro-brasileiras como parte essencial da formação dos estudantes.
-
CONEXÃO COM ADOLESCENTES: rastreando tecnologias e produzindo um podcast sobre educação digital
— Irene do Planalto Chemin
— Irene do Planalto Chemin
Entre as juventudes, certas tecnologias parecem tão desterritorializadas, que se torna difícil identificar suas relações e funcionamentos. Este trabalho visa apresentar os resultados finais da pesquisa de mestrado realizada entre 2024 e 2026. A pesquisa buscou compreender os sentidos e as práticas atribuídas por adolescentes às tecnologias digitais e produzir um podcast sobre educação digital. Realizei uma etnografia, aliada com metodologias de pesquisa-ação, com cinco estudantes do ensino médio que participaram do Programa de Bolsas de Iniciação Científica Nível Ensino Médio (PIBIC-EM) na Universidade de Campinas. Durante 12 meses, junto às pesquisadoras de iniciação científica do ensino médio, investigamos as tecnologias desde o imaginário, as infraestruturas visíveis ou invisíveis, as realidades sociotécnicas, as perspectivas relacionais, os dispositivos corporificados, incorporados e cotidianos nas experiências das juventudes brasileiras. Nesta pesquisa permeada de brincadeiras, imaginações, roteiros, entrevistas e músicas, nos orientamos em torno do Estatuto da Criança e do Adolescente, de legislações acerca da Internet e do desenvolvimento ético de tecnologias. Partimos de mapeamentos, passamos por discussões teóricas até a produção da série de podcast “Conexão”, veiculada ao Mundaréu, um podcast de Antropologia promovido pelo Laboratório de Estudos Avançados da Unicamp. A produção do podcast se colocou como uma metodologia de pesquisa, promovendo o debate acerca dos conflitos e potencialidades das tecnologias digitais. Inspiradas por Donna Haraway (2023) e Ursula K. Le Guin (2021), formulamos nossas próprias figurações para compreender as tecnologias e nossa posição enquanto pesquisadoras: nos consideramos como uma liga de ciborgues rastreadores de poderes tecnológicos, como uma atualização dos coletores de ficção, de Le Guin. Identificamos poderes que as tecnologias trazem para nossa vida cotidiana: conexão, invisibilidade, simulação, miniaturização, informação, entre outros, que foram associados a cada episódio da série, quais são: (1) Tecnologias ancestrais – poder de conexão; (2) Algoritmos – poder de invisibilidade; (3) Cronicamente online – poder de simulação; (4) Tecnologias na escola – poderes de miniaturização versus extensão; (5) Tecnologias comunitárias – poder de informação. Neste jogo de vozes hiperlinkado e bastante vasto, perspectivas racializadas sobre a tecnologia e a noção de vigilância das plataformas foram fundamentais para mediar os sentidos e práticas mobilizados pelas adolescentes.
-
Contribuições antropológicas para o Ensino Médio: formação de professores da área de Ciências Humanas e Sociais Aplicadas na temática indígena.
— Joice Milenna Feitosa Bezerra
— Joice Milenna Feitosa Bezerra
Oficialmente, a Antropologia está inserida no currículo escolar da disciplina de Sociologia. No entanto, ela tem um espaço reduzido em comparação com outros campos de conhecimento, assim como é apontado por Oliveira (2013), em seus estudos sobre antropologia e educação. É indiscutível que o conhecimento antropológico contribui de maneira significativa para o desenvolvimento pedagógico dos jovens, fornecendo uma educação de maior qualidade, especialmente quando tratamos de temas como questões étnico-raciais, decolonialidade, etnocentrismo, cultura, dentre outros. Determinadas temáticas, quando abordadas à luz da antropologia, podem ter seu campo de discussões ampliado. Esse é o caso das temáticas indígenas. Foi pensando nessa possível contribuição que elaborei uma formação de professores para discuti-la a partir do conhecimento antropológico. Essa formação reuniu professores da área de conhecimento das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas de uma escola integral da Paraíba. O objetivo dessa formação foi dar centralidade à temática indígena, de modo que, o lugar do conhecimento antropológico dentro da sala de aula fosse reconhecido. O presente trabalho é derivado do meu Trabalho de Conclusão de Curso, em que consta um relato das etapas que levaram até a elaboração e execução da formação de professores. A construção do projeto foi baseada em uma análise do livro didático da Moderna Plus de 2021, o primeiro material a entrar em vigor no Ensino Médio após a reforma educacional que originou o Novo Ensino Médio. Essas novas políticas educacionais impactaram diretamente a construção de um novo currículo, contribuindo para que ocorressem novas análises sobre a maneira com que esses materiais abordam determinados temas. Após uma reflexão sobre o espaço que a temática indígena possui dentro do currículo, ocorreu a elaboração de um roteiro de três encontros. Foram selecionadas obras de Manuela Carneiro da Cunha (1992), Gersem dos Santos Luciano-Baniwa (2006) e João Pacheco de Oliveira (2004) para debater questões históricas, econômicas e étnicas, com o intuito de fornecer um material aprofundado que contribuísse para o planejamento de aula dos professores. Por meio da experiência vivenciada nesses três encontros é possível refletir sobre o lugar que a antropologia tem ocupado em torno da temática indígena, além de formular estratégias de ensino para a inserção da antropologia no ensino médio. Por meio dessa experiência é possível articular as análises dos livros didáticos aos apontamentos dos professores durante os encontros, identificando possíveis lacunas e desafios ao abordar temas étnicos-raciais na educação básica através da antropologia.
-
Representações sociais sobre o racismo entre estudantes da educação profissional e tecnológica em Belém/PA
— Kirla Korina Anderson Ferreira
— Kirla Korina Anderson Ferreira
Este texto tem como objetivo principal compreender antropologicamente quais são as percepções dos alunos da educação profissional e tecnológica, na cidade de Belém, estado do Pará, sobre o conteúdo Raça e etnicidade. Parto da consideração antropológica sobre raça, que significa um sistema construído socialmente de classificação das pessoas por critérios físicos e biológicos, para problematizar as estruturas da nossa sociedade atual. O procedimento metodológico contou com aula expositiva e dialogada sobre racismo estrutural e uma sessão de vídeo debate, em uma turma de terceiro ano do ensino médio, do Filme O Xadrez das Cores (2004), que mostra o combate cotidiano entre uma patroa branca e uma trabalhadora doméstica negra, em analogia a uma partida de xadrez. Os alunos assistiram ao filme tendo que destacar uma cena que, na opinião deles, retratava o racismo da forma como ainda se expressa nos dias de hoje. Para além das cenas específicas do filme em que o racismo é sempre muito explícito, embora naturalizado de maneira jocosa, foram os vários relatos pessoais em comparação ao enredo cinematográfico, que mais chamaram atenção. Os alunos, em especial as meninas, trouxeram muitos relatos pessoais, como falas racistas em relação à cor da pele e preferências amorosas e desafios no mercado de trabalho vivenciados por seus pais, mães e avós, bem como ofensas em relação à cor da pele e textura do cabelo. Disseram também que, em razão do racismo do nosso cotidiano, negaram, por exemplo, os cabelos crespos com alisamentos e outros procedimentos estéticos. A partir das experiências pessoais dos alunos, nota-se que o racismo continua se atualizando na estrutura de funcionamento da sociedade contemporânea e, para combatê-lo, é necessário ampliar espaços de debates e adotar práticas educacionais antirracistas.
-
A presença de estudantes indígenas no Instituto Federal de Rondônia: possíveis caminhos para a promoção de justiça epistêmica.
— Lediane Fani Felzke, Thiago Rodrigues da Rocha
— Lediane Fani Felzke, Thiago Rodrigues da Rocha
Este trabalho situa-se no contexto da presença de estudantes Paiter Suruí na Educação Profissional e Tecnológica (EPT) do Instituto Federal de Rondônia (IFRO), nos campi Cacoal e Colorado do Oeste, ambos localizados em municípios homônimos, o primeiro na região central de Rondônia e o segundo no Cone Sul do estado. Desde a implantação da Lei de Cotas (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012), a instituição tem recebido estudantes indígenas em seus campi. Entretanto, sua permanência e êxito — expressões do jargão institucional — permanecem muito aquém do ingresso. O objetivo desta pesquisa foi ouvir as vivências de egressas e egressos Paiter durante seu tempo de permanência no IFRO e, por meio de seus relatos, compreender o cenário da presença indígena na instituição. Para tanto, a metodologia participante de inspiração etnográfica, com a realização de entrevistas semiestruturadas junto a seis estudantes que acompanharam todas as etapas da pesquisa, incluindo a avaliação do produto final, somada à revisão bibliográfica e à análise documental de PPCs de cursos, mostrou-se a conformação mais coerente para a geração de dados. Os obstáculos logísticos, as barreiras linguísticas, mas sobretudo as distinções epistêmicas e ontológicas, que repercutem diretamente nos modos de aprender e apreender, foram apontados como os principais gargalos que desestimulam a continuidade de indígenas no IFRO. Deste modo, por meio da chave analítica da interculturalidade crítica e do pensamento decolonial, percebeu-se que, embora os documentos curriculares já incorporem a retórica da interculturalidade, persistem desafios relacionados à formação docente, à adequação metodológica, ao apoio institucional e às barreiras socioeconômicas enfrentadas pelos estudantes. O trabalho aponta que a melhoria da presença de estudantes indígenas na rede está vinculada, necessariamente, a ações articuladas que integrem políticas institucionais, tais como recursos para transporte, alimentação, moradia e monitoria; práticas pedagógicas sensíveis às especificidades culturais, com a efetividade de PPCs de cursos que deem conta da interculturalidade crítica (Candau, 2012; Fleuri, 2003), o que inclui a participação ativa das comunidades indígenas; e formação docente, por meio de oficinas, rodas de conversa e minicursos que contemple, minimamente, leituras de teorias antropológicas, sobretudo da etnologia indígena. Como contribuição prática, a pesquisa propõe subsídios para a elaboração de currículos interculturais como um recurso a mais na busca por promover efetivamente a permanência e o êxito escolar dos povos indígenas nos Institutos Federais e, deste modo, garantir minimamente a justiça epistêmica em relação a estes povos no contexto da EPT.
-
"Esse garoto precisa de laudo": algumas considerações sobre o tratamento da neurodiversidade na rede pública de ensino (RJ)
— Marcos Alexandre Verissimo da Silva
— Marcos Alexandre Verissimo da Silva
O objetivo da presente proposta é discutir os processos de inclusão de estudantes tidos como neurodivergentes no contexto de uma escola pública na região metropolitana do Rio de Janeiro, bem como refletir sobre os alcances e limitações da abordagem antropológica para uma compreensão apropriada dos conflitos associados ao referido processo. Esta proposta tem origem nos trabalhos do Laboratório Escolar de Pesquisa e Iniciação Científica (LEPIC), que é vinculado ao Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC), da Universidade Federal Fluminense (UFF). No LEPIC, temos exercitado no ensino básico a prática antropológica, com inspiração etnográfica em atividades regulares de socialização de estudantes e professores na prática da produção do conhecimento sobre a natureza dos conflitos escolares. Que efeitos produzem? Como são administrados? Em que medida a escola pública, como um lugar em que os estudantes forçosamente terão que lidar com a diversidade, cumpre seu papel no ensino da administração de conflitos em uma chave do respeito às diversas formas do existir? Neste trabalho, pretendo, a partir de minha posição como professor em uma escola pública e coordenador do LEPIC, a partir de tais questões, colocar sob descrição as formas como a instituição escolar tem lidado com as neurodiversidades em seu âmbito. Pretende-se também realizar uma reflexão sobre a construção do conhecimento antropológico dos conflitos escolares a partir de descrições de contextos particulares como estes.
-
Educar para a diferença: as possibilidades de uma educação intercultural mediada por TDICs para a diversidade religiosa no ensino básico
— Rodrigo dos Santos Mendonça
— Rodrigo dos Santos Mendonça
Este trabalho propõe uma reflexão sobre as possibilidades de promoção de uma Educação Decolonial mediada por Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) como subsídios para a construção de Ensino Religioso Intercultural na educação básica. O objetivo da pesquisa é contribuir para práticas pedagógicas decoloniais mediadas por TDICs a partir de uma matriz intercultural que possibilite o diálogo e o respeito com as diferentes manifestações religiosas do país. Esse empreendimento se torna ainda mais urgente diante dos desafios para a ampliação do reconhecimento da diversidade religiosa, que permanece pressionada por hierarquias e discriminações da colonialidade que se reproduzem nas disciplinas, currículos, tecnologias, práticas e no cotidiano escolar. Nesse contexto, a pedagogia e as tecnologias digitais emergem não como dimensões neutras, mas como campos de disputa que devem ser criticamente instrumentalizados para o fomento de plataformas mais simétricas de enunciação do discurso por segmentos religiosos subalternizados pela colonialidade. Para tanto, realiza-se uma revisão bibliográfica dividida em eixos (colonialidade e religião, interculturalidade crítica e TDICs como mediação pedagógica decolonial) a fim de reunir ferramentas conceituais para a construção um ensino religioso plural na educação básica. Dessa forma, defendo que, quando incorporadas a partir de uma pedagogia decolonial, as TDICs podem mediar a circulação de saberes plurais e o respeito à alteridade religiosa através de práticas pedagógicas — como curadoria crítica de conteúdos, produção colaborativa e o contato com narrativas plurais — que favoreçam a circulação de epistemologias outras.
-
INCT-InEAC vai à Escola: reflexões sobre uma metodologia de trabalho com/para a Educação Básica
— Talitha Mirian do Amaral Rocha
— Talitha Mirian do Amaral Rocha
Este trabalho tem como objetivo refletir sobre a metodologia de atuação do INCT-InEAC no ensino da Antropologia na educação básica, a partir de práticas de pesquisa, ensino e extensão que valorizam o protagonismo estudantil e os saberes locais no espaço escolar. A abordagem etnográfica adotada distancia-se de modelos normativos ou repressivos de gestão de conflitos, priorizando a explicitação de sua natureza e a administração a partir das perspectivas dos sujeitos envolvidos.
A metodologia desenvolvida pelo INCT-InEAC fundamenta-se na antropologia comparativa por contraste e em um enfoque multidisciplinar, promovendo a inserção de estudantes da rede pública como agentes ativos em todas as etapas do processo de produção do conhecimento. Ao incorporar práticas etnográficas sobre conflitos escolares junto aos estudantes, a pesquisa torna-se um dispositivo pedagógico que articula reflexão crítica, valorização das experiências vividas e construção coletiva de saberes, especialmente aqueles oriundos de contextos periféricos. Essa perspectiva se materializa em experiências iniciadas em 2016 com a criação do Laboratório Escolar de Pesquisa e Iniciação Científica (LEPIC), criado pelo professor Marcos Veríssimo no qual o papel do professor da escola é orientar pesquisas de Iniciação Científica Júnior, já os docentes universitários assumem o papel de comentadores das propostas elaboradas pelos estudantes.
Para ampliar as discussões que estávamos realizando, em 2019, o INCT-InEAC participou da Chamada do CNPq - Feiras de Ciências e Mostra Científica e criou a Feira de Ciências Simoni Lahud Guedes (em 2020). A segunda edição (2022) e a terceira edição tiveram o financiamento da FAPERJ e da SBPC, seguindo o seguiu o mesmo formato, sendo composto por uma série de atividades sequenciais ao longo dos anos pares. Alguns dos resultados das três edições podem ser conferidos no nosso site: https://ineacconflitosnaescola.uff.br/.
Como desdobramento, foram criados grupos de pesquisa vinculados ao INCT-InEAC, fortalecendo redes locais de ensino-aprendizagem da Antropologia e promovendo a circulação de saberes produzidos na escola pública como, por exemplo, o Laboratório de Vivências Interdisciplinares da Antropologia (VIdA), oordenado pela professora Talitha Rocha. Além disso, no ano de 2024, concorremos ao edital Mais Ciência na Escola para ampliar o contato com as escolas estaduais da região metropolitana do Rio de Janeiro.
Dessa forma, espera-se analisar como a metodologia do INCT-InEAC contribui para a construção de currículos mais plurais e para a consolidação de uma Antropologia escolar comprometida com a transformação social, ao articular práticas pedagógicas etnográficas, valorização de saberes locais e formação crítica de estudantes da educação básica.
-
Abraço afrodiaspórico: narrativas, caminhos y escolhas para praticar a antropologia decolonial na escola básica
— Tatiana Bukowitz
— Tatiana Bukowitz
O trabalho visa apresentar uma das propostas de atividade educacional criada em 2025 destinada aos estudantes da 1ª série do Ensino Médio Regular, dentro da disciplina escolar Sociologia no Colégio Pedro II, Campus Centro (Rio de Janeiro - RJ). Serão descritas as etapas de criação e desenvolvimento da proposta pedagógica intitulada ABRAÇO AFRODIASPÓRICO: ESTÉTICA, LITERATURA E IDENTIDADE, a partir do qual cada estudante foi convidado/a escolher uma obra afroreferenciada do acervo de nossa biblioteca escolar, assimilar sensivelmente seu conteúdo e apresentá-lo por meio de alguns elementos, que compuseram uma síntese original constituída dos seguintes elementos: cerca de 15 palavras geradoras advindas do contato com a obra abraçada, uma imagem autoral que traduza emocional e cognitivamente a obra desde a perspectiva subjetiva de cada discente, acompanhada de um texto, de próprio punho, apresentando o conteúdo da obra à comunidade escolar, expressando como tal conteúdo ressoou dentro de si e indicando a relevância dela como parte de nosso acervo bibliográfico, que merece ser visitado, conhecido. O conjunto destas obras, feitas integralmente à mão, em folhas de papel A3, deram origem a 3 cadernos, categorizados desde as temáticas centrais que sentimos que elas abordavam: CADERNO DA MEMÓRIA E ANCESTRALIDADE; CADERNO DA VIOLÊNCIA E RESISTÊNCIA; CADERNO DA FORÇA E ESPERANÇA (que poderão ser acessados pelas pessoas presentes durante a comunicação oral). A atividade foi concebida como parte de atividades avaliativas do 1º semestre de 2025, anunciadas como obras que se destinariam à criação de um material artístico-didático para ser consultado e estudado por estudantes da escola básica, licenciandos/as e pós-graduandos/as dos cursos de humanidade. A categorização, organização descritiva e análise dos trabalhos vem sendo realizada por equipes de estudantes da escola básica que fazem parte dos programas de Monitoria e da Iniciação Científica Júnior, além da participação ativa de Amanda Toledo, licencianda em estágio supervisionado sob a orientação da docente Tatiana Bukowitz, coordenadora dos trabalhos. Esta estratégia pedagógica faz parte de uma série de projetos, iniciados em 2020, fundamentados na pedagogia decolonial, na educação freireana e na pedagogia engajada, inspirada nos ensinamentos de Nêgo Bispo, de Ailton Krenak e nas obras de bell hooks, objetivando diálogo entre os conteúdos curriculares institucionais formais e as possibilidades que se abrem a partir da antropologia decolonial. Todo o processo educacional tem em vista a valorização da subjetividade discente e as necessárias críticas às múltiplas facetas da colonialidade e, sobretudo, à valorização dos saberes afrodiaspóricos.
-
Onde estão os estudantes indígenas? Escola, cidade e invisibilização no Distrito Federal.
— Thais Nogueira Brayner
— Thais Nogueira Brayner
O artigo analisa os processos de invisibilização de estudantes indígenas na rede pública de ensino do Distrito Federal, tomando a escola urbana como espaço privilegiado de produção de silenciamentos institucionais. Partindo de uma pesquisa exploratória de caráter qualitativo e documental, baseada na análise de dados do Educacenso e em informações obtidas junto à Secretaria de Estado de Educação do DF, o estudo problematiza a ausência, a fragmentação e a instabilidade dos registros oficiais sobre a presença indígena na educação básica fora de territórios demarcados. Argumento que a dificuldade de acesso a dados sistematizados, a diluição identitária em categorias genéricas e a ausência de protocolos claros de identificação étnica não constituem meras falhas administrativas, mas operam como formas específicas de racismo institucional, sustentadas pela negação da existência indígena em contextos urbanos. O trabalho dialoga com a literatura antropológica e educacional sobre migração indígena, cidade e escolarização, evidenciando como a associação persistente entre “indígena” e “aldeia” contribui para o apagamento das experiências de estudantes indígenas nas escolas regulares. No contexto de Brasília, esse processo articula-se à narrativa histórica do “vazio demográfico” que marcou a construção da capital, reforçando a marginalização simbólica e política dos povos indígenas no espaço urbano. A análise dos dados de matrícula entre 2020, 2021 e 2024 revela oscilações significativas, lacunas informacionais e inconsistências metodológicas, especialmente no que se refere à Educação de Jovens e Adultos e à transição entre etapas da educação básica, levantando questões sobre permanência, evasão e acompanhamento escolar.
Ao discutir os limites da implementação de legislações e normativas voltadas à educação escolar indígena em contextos urbanos, o artigo evidencia o descompasso entre o arcabouço legal e as práticas institucionais, bem como a fragilidade das políticas de formação docente e de acolhimento intercultural. Concluo que a invisibilização dos estudantes indígenas nas escolas do Distrito Federal expressa disputas mais amplas em torno da produção de saberes legítimos, da justiça epistêmica e do reconhecimento da diversidade indígena contemporânea. Nesse sentido, o estudo contribui para o debate sobre a atuação da Antropologia na educação básica, apontando a necessidade de currículos plurais, práticas pedagógicas sensíveis à diversidade e políticas educacionais comprometidas com a valorização de saberes indígenas e com a transformação social.
Coordenação
Glauco Batista Ferreira (UFG)
Vi Grunvald (USP)
Em continuidade às reflexões desenvolvidas em Grupos de Trabalho da RBA e da RAM e em Simpósios Temáticos do Encontro Anual da ANPOCS, esta proposta tem como foco práticas e sujeitos sociais que operam nos interstícios entre arte e política. No cenário antropológico contemporâneo, são constantes as investigações que buscam analisar ações sociais que se processam através de imagens, sons, materialidades, objetos, performances e formas expressivas que, não raro, se coadunam em processos de organização coletiva e mobilizações sociais que apontam o rico potencial transformativo de agências que são, simultaneamente, artísticas e políticas. Por outro lado, pelo menos desde os anos 2000, tem se intensificado, em nossa disciplina, o que podemos caracterizar como “virada artística” e que aponta para uma aproximação entre arte e antropologia do ponto de vista de suas práticas e fazeres, enfatizando novos caminhos etnográficos possíveis para exprimir os resultados de nossas pesquisas, bem como atentando para outras possibilidades metodológicas de construção das mesmas. Nesse sentido, buscamos acolher tanto pesquisas que, ao se debruçarem sobre o campo artístico, enfatizam suas potencialidades políticas (e vice-versa) quanto aquelas nas quais o fazer etnográfico opera a partir de produções que mesclam antropologia e práticas artísticas.
Títulos e Resumos
-
K-Pop e Negritude: Dance-Covers, Conflitos e Novas Estéticas afrodiaspóricas no Brasil
— Aymara Montezuma
— Aymara Montezuma
Este trabalho acompanha as práticas de dança cover de k-pop protagonizadas por jovens negros/as no Brasil, observando como performances corporais, estéticas e midiáticas operam como práticas artísticas, formas de produção identitária e espaços de disputa política. A investigação, preliminar, evidencia como sujeitos negros, inseridos em um campo marcado por padrões estéticos asiáticos e por regimes globais de consumo cultural, negociam pertencimentos raciais, corporeidades, imagens de si e formas de reconhecimento social, produzindo deslocamentos, conflitos e novas estéticas afrodiaspóricas. Nesse processo, o engajamento com o k-pop tensiona dinâmicas de racialização, apropriação cultural, visibilidade e hierarquias simbólicas, ao mesmo tempo em que amplia possibilidades de experimentação criativa e de reconfiguração do corpo negro nos espaços públicos e digitais. A análise concentra-se nas maneiras pelas quais dançarinos/as e fãs negros/as constroem narrativas sobre identidade, raça, estética e pertencimento, considerando a mediação das performances, das redes sociais, dos eventos presenciais e das interações comunitárias. Os dados indicam conflitos relacionados a padrões de beleza, colorismo, representatividade e expectativas de autenticidade, bem como processos de ressignificação de práticas corporais e visuais associadas ao k-pop no contexto brasileiro. As performances são compreendidas como espaços de produção de sentidos políticos, tanto no plano da afirmação identitária quanto na negociação com regimes hegemônicos de visibilidade. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa desenvolve-se por meio de abordagem etnográfica, articulando observação participante em eventos, ensaios, apresentações e competições de dança cover, acompanhamento de redes sociais e plataformas digitais, aplicação de formulários e entrevistas individuais e coletivas. O campo empírico concentra-se em Salvador, com desdobramentos em Recife, São Paulo e Rio de Janeiro, considerando a relevância dessas localidades para a cena do k-pop e a existência de redes de interlocução constituídas. Também são acompanhados eventos de cultura asiática, encontros de fãs e outros espaços de sociabilidade. Ao acompanhar práticas artísticas associadas ao entretenimento e à cultura pop, o estudo evidencia como esses espaços se configuram como arenas de elaboração política, especialmente nas disputas por visibilidade, reconhecimento, corporeidade e produção de narrativas sobre a negritude em contextos transnacionais. As experiências analisadas ampliam o debate antropológico sobre a arte como prática social situada, capaz de tensionar hierarquias raciais, deslocar regimes de representação e fomentar novas estéticas afrodiaspóricas.
-
Desviando o Gênero, Reimaginando a Terra: Performances Monstruosas e Ecologias Decoloniais na Arte Drag Queen de Salvador
— Guadalupe do Nascimento Ferreira
— Guadalupe do Nascimento Ferreira
Este trabalho tem o objetivo de analisar os processos de fabricação corporal agenciados por artistas drag queens de Salvador, a partir da criação de uma estética específica: a monstruosidade. Faz parte de uma pesquisa de doutorado em Sociologia, em andamento desde 2024, na qual, por meio da etnografia como metodologia de pesquisa, busca-se observar o cotidiano criativo dessas artistas. Sustenta-se a hipótese de que, ao empregarem referências imagéticas de seres outros-que-humanos para compor suas performances, elas não apenas desafiam o padrão corporal da feminilidade hegemônica nesse circuito, mas também vão além: podem suscitar questões contemporâneas sobre diferentes formas de habitar um mundo em constante crise ambiental, ao reutilizar e reciclar materiais descartados, como resíduos sólidos e materialidades orgânicas. Considerando a forte presença da ancestralidade africana na vida dessas artistas, tendo em vista que estão localizadas na cidade mais negra do Brasil fora da África, pretende-se compreender como essas experiências são transformadas em uma estética de resistência afrodiaspórica em suas práticas artísticas, a partir da integração de teorias interdisciplinares, visando avançar na interface teórica entre os estudos queer e raciais.
-
Arte contemporânea yanomami e sua influência em debates sobre mudanças climáticas, direitos indígenas e questões de gênero
— Helena Barsted Young
— Helena Barsted Young
Os Yanomami da aldeia de Watoriki ocupam hoje um lugar de destaque no cenário internacional, tanto pela liderança política de Davi Kopenawa Yanomami quanto pela recém inserção de seus artistas em circuitos globais de arte. Situada na maior Terra Indígena do Brasil, essa comunidade historicamente marcada pela luta em defesa da floresta amazônica e contra o extrativismo ilegal vem transformando o uso da imagem figurativa antes sujeita a restrições cosmológicas em estratégia de visibilidade política e de representação. Na última década, a atriz e ilustradora Ehuana Yaira Yanomami, o pintor e desenhista Joseca Mokahesi Iramari Yanomami e o cineasta Mozarniel Iramari Yanomami são os artistas de Watoriki com maior projeção internacional, fazendo da arte contemporânea uma estratégia de crítica cultural e de participação em debates sobre as mudanças climáticas, os direitos dos povos indígenas, as questões de saúde coletiva e de proteção da Floresta Amazônica.
A presente pesquisa investiga a circulação das obras destes artistas e está inserida no projeto de doutorado em desenvolvimento com o título de Estatuto da imagem para os Yanomami de Watoriki: do grafismo à figuração que busca analisar as premissas ontológicas e os atravessamentos políticos de parte das obras, focalizando nas interseções entre práticas estéticas e políticas, especialmente enquanto mecanismos de socialização interétnica. Através de uma investigação etnográfica e da interlocução com os artistas, buscou-se discorrer sobre as produções de seus trabalhos e as suas reverberações em diferentes áreas do conhecimento que têm deslocado os saberes yanomami para o centro de questões socioambientais, culturais e de gênero, assim como apontar para as contribuições da antropologia da arte e da figuração na produção e na interpretação de dados sobre a centralidade da arte indígena contemporânea diante da atual crise sócio-ecológica global, ampliando as discussões sobre usos da imagem, relações sociais e meio ambiente.
Palavras-chave: Imagens yanomami; Arte contemporânea; Antropologia; Watoriki;
-
"Exu te ama": quando o fazer antropológico gira com o fazer artístico
— Jean Souza dos Anjos
— Jean Souza dos Anjos
“Exu te ama” é um painel de 6m x 24m, aproximadamente, com letreiro preto e fundo vermelho pintado na parede externa do Museu de Arte Contemporânea (MAC), em Fortaleza, Ceará. O painel compôs a exposição “FestaBaiaGiraCura”, no Museu da Cultura Cearense (MCC) e causou um grande impacto visual dentro do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura (CDMAC), seja pela sua explosão estética, seja pela sua capacidade de inverter, insubmisso e transgressor, o racismo religioso contra as culturas e religiosidades afro-indígenas do Ceará. A exposição “FestaBaiaGiraCura”, em que o painel está inserido, é resultado de um trabalho de pesquisa etnográfica de dez anos na Cabana do Preto Velho da Mata Escura / Ilé Asé Ojú Oya, terreiro de Umbanda e Candomblé localizado no bairro Bom Jardim, periferia de Fortaleza, Ceará. Aberta em setembro de 2023 e encerrada em fevereiro de 2024, vista por cerca de vinte e cinco mil visitantes, a exposição movimentou tanto a cena local, como o turismo da capital cearense, evidenciando nossa cultura de terreiro. Logo após a inauguração da exposição uma parlamentar da Assembleia Legislativa do Ceará (ALECE) filiada ao Partido Liberal (PL) requereu a retirada do painel “Exu te ama” alegando que ele agredia os valores cristãos e não poderia estar em espaço público. Apesar do pedido da deputada bolsonarista, o painel não foi retirado e permaneceu até novembro de 2025. Esta comunicação, de caráter etnográfico com recorrente produção e uso de imagens, realiza reflexões sobre antropologias, artes, macumbas, políticas antirracistas e demais práticas insubmissas de enfrentamento nas encruzilhadas, girando entre academia, terreiros e museus.
-
Antes o mundo não existia - agenciamentos de artistas indígenas no sistema de artes: entre branding e uma ética decolonial.
— Jeremias Silva Cavalcanti
— Jeremias Silva Cavalcanti
O advento da Arte Indígena Contemporânea (AIC) resultou de fricções no que chamamos Sistema de Artes preponderante. Por um lado, a AIC incorporou ao sistema das artes sujeitos que antes eram exotizados em coleções etnográficas. De outro, revela novas tensões e agenciamentos de sujeitos que trabalharam até recentemente às margens do referido sistema.
Diante do advento da AIC, duas instituições em São Paulo/SP, a Pinacoteca e o MASP, traçaram novas estratégias de ação para acolher nos seus acervos e apresentar novos objetos de arte. Tais estratégias que submeteram artistas e seus índices a regimes de artificação, possibilitaram que artistas indígenas atravessassem a condição de objetos para sujeitos na construção da história das artes. A necessidade de tal incorporação já havia sido assinalada por Hans Belting, ao criticar a realidade excludente do sistema de artes (Belting, 2006). A arte é entendida aqui como sistema de ação social (Gell, 1998), deslocando o foco analítico da estética para dimensões extrínsecas, dentre as quais, a dimensão política foco das análises de Boris Groys (Groys, 2015).
Os museus assumem, então, o lugar de Zonas de Contato (Clifford, 1997), evidenciando processos de artificação de novos sujeitos e seus índices. Os sujeitos indígenas, por sua vez, agenciam novos tensionamentos no sistema reconfigurando a liminaridade política (Turner, 2013), e revelando o trânsito entre condições de sujeitos táticos e estratégicos (Certeau, 1998).
Após analisar o material institucional lançado pelos dois museus e que revela como as instituições passaram a se posicionar a partir de 2017, temos acompanhado as ações empreendidas por alguns indígenas incorporados no sistema de artes. Em particular, as ações realizadas na Casa Vituká, em Cuiabá/MT. Coordenada por Naine Terena e Gustavo Caboco, a casa indígena, conforme classificada por Naine, vem demonstrando que, mesmo em regimes assimétricos de agenciamentos na lógica do liberalismo cultural, é possível agir outramente tensionando o modus operandi do regime liberal.
Referências
BELTING, Hans. O fim da história da arte: uma revisão dez anos depois. São Paulo: Cosac Naify, 2006.
CLIFFORD, James. Routes: travel and transmission in the late twentieth century. Cambridge, MA & London, UK: Havard University Press, 1997. 412 p.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes do fazer. Tra. Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, Rj: Editora Vozes, 1998. 351 p.
GELL, Alfred. Arte e agência. São Paulo: Ubu, 2018. 400 p.
GROYS, Boris. Arte, Poder. Trad. Virgínia Starling. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2015. 238 p.
TURNER, Vitor W. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Trad. Nancy Campi de Castro e Ricardo A. Rosenbusch. 2. Ed. Petrópolis, Rj: Vozes, 2013. 200 p.
-
Fazer política e ocupar a cidade: o acesso aos direitos das profissionais do sexo por meio de criações artísticas e práticas cotidianas do Coletivo Por Elas Empoderadas
— Marcella Cristyna Morena Sousa Lima
— Marcella Cristyna Morena Sousa Lima
A atividade da prostituição tem uma presença histórica no Centro Histórico de São Luís (Maranhão), nos anos de 1950 e 1960, os bairros Desterro e Praia Grande fizeram parte da Zona do Baixo Meretrício (ZBM), área onde se concentrava as principais áreas de prostituição da cidade. Atualmente, a atividade ainda continua presente no local. Nesse espaço, o Coletivo Por Elas Empoderadas se articula com autoridades estatais e com a própria comunidade do bairro do Desterro -sua principal área de atuação-, para realizar ações voltadas à garantia dos direitos das profissionais do sexo. Esta pesquisa investiga a atuação política do Por Elas Empoderadas, um grupo formado majoritariamente por mulheres negras e trabalhadoras sexuais. Desde o ano de 2022, venho acompanhando as ativistas do Coletivo no seu cotidiano e nas ações que realizam na cidade, deste modo, a orientação teórica-metodológica deste trabalho é a etnografia, que preza pela convivência e interação. A forma do grupo de atuar politicamente no mundo não se restringe à esfera estatal, mas também se dá pela arte, e envolve a construção e estímulo às redes de amizade, parceria, cuidado e afeto que tem o cotidiano urbano como lócus. Assim, a pesquisa pretende analisar como as criações artísticas e práticas cotidianas do grupo se expressam enquanto uma criação de um modo de ocupar a cidade e um modo de fazer política (Schechner, 2012). As suas ações dizem muito a respeito da sua atuação política, uma vez que não são pensadas apenas na saúde sexual das profissionais, o grupo organiza eventos e palestras que abordam temas como trabalho, moradia e saúde mental. Ainda, é no espaço do Bar dos Amigos, localizado no Desterro, que o grupo também organiza festas voltadas para as profissionais do sexo e mulheres da comunidade. O Bar, aqui, se mostra um elemento central na pesquisa, pois ele opera como um espaço de sociabilidade das ativistas e de vivência coletiva, tendo em vista que tanto elas quanto as profissionais com quem atuam circulam nele cotidianamente. As festas se expandem do Bar para o espaço da rua, que vira um palco para performances de drag queens, para dançar, celebrar com amigas, estreitar laços e produzir beleza urbana. Enquanto uma arte efêmera, podemos entender as festas como criações artísticas que tem o corpo como instrumento de performance, é por meio delas que essas sujeitas chamam atenção para sua presença no espaço. Conclui-se, portanto, que o cotidiano dessas ativistas, materializado no contexto do Bar, evidencia que, por meio de práticas de cuidado e criações artísticas, elas elaboram outras formas de conhecer a prostituição feminina e de pensar os direitos das profissionais do sexo.
-
Entre armários e arquivos: etnografia da cena transformista em Porto Alegre
— Pâmela de Souza Costa
— Pâmela de Souza Costa
Este trabalho investiga a emergência da cena transformista e drag em Porto Alegre a partir da década de 1970, em pleno contexto da ditadura civil-militar brasileira, articulando memória, cidade e dissidências sexuais. Parto da noção de "fabulação crítica" (Hartman, 2008) para interrogar as lacunas dos arquivos oficiais e reconstruir histórias urbanas apagadas, tomando a cidade como território em disputa entre projetos de modernização autoritária e formas alternativas de existência. Nos anos 1970, Porto Alegre vivia intensas transformações urbanas: crescimento populacional acelerado, expansão das periferias, verticalização do centro e grandes obras viárias promovidas por administrações alinhadas ao regime militar. Esse processo produziu rupturas nas experiências urbanas e estimulou movimentos de preservação da memória da cidade. No entanto, as vivências queer permaneceram amplamente ausentes dos registros institucionais, aparecendo apenas sob marcas de censura, moralização e desvio. Dialogando com a antropologia dos arquivos e com estudos queer, proponho compreender memórias orais, relatos afetivos, performances e acervos pessoais como formas legítimas de arquivo. A pesquisa baseia-se em trabalho etnográfico, entrevistas e na análise de narrativas memoriais de artistas e produtores da cena noturna porto-alegrense. Destaco a Boate Flower’s, inaugurada em 1971, como o primeiro espaço assumidamente GLS da cidade e um marco da arte transformista no sul do Brasil. Criada por Dirnei Messias, a casa funcionou como território de sociabilidade, experimentação estética e resistência simbólica, mesmo sob constante vigilância policial. Outros espaços, como a Boate Coliseu, ampliaram essa cartografia dissidente, articulando performances travestis, redes de sociabilidade e experiências políticas inéditas, como a criação da Coligay, a primeira torcida organizada LGBT do país. Ao acompanhar a transição do termo “transformista” para “drag queen” entre as décadas de 1980 e 1990, o trabalho demonstra como esses espaços noturnos operaram como laboratórios de identidade, onde o gesto de se montar constituía uma prática estética, política e urbana, cuja história persiste não nos arquivos do Estado, mas nos corpos, memórias e afetos de quem a viveu.
-
É cabaré ou não é?: como o cabaré-selvático (re)molda a capital paranaense
— Paula Melo Alves
— Paula Melo Alves
Este artigo é uma perseguição ao cabaré-selvático, ou em outras palavras, uma análise de como o que é propagado pelo coletivo Selvática Ações Artísticas (re)molda o espaço já existente. Uma busca pela reflexão sobre quais maneiras a arte-cabaré, produzida pelo grupo artístico, altera a realidade cotidiana na cidade de Curitiba no Paraná. A investigação ampliada aqui, nasce com o meu trabalho de conclusão de curso na licenciatura em Ciências Sociais pela PUCPR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) em julho de 2025, onde investiguei a arte-cabaré como uma possibilidade de construção de identidade e subjetividade entre as(os) artistas que a articulam. Para além dessa dimensão entendo o cabaré, enquanto manifestação artística, como uma expressão de cunho político, capaz de produzir/tensionar saberes/práticas/modos de existência no mundo. Aqui neste texto, visando como objeto de pesquisa a minha experiência com as duas residências artísticas (2024 e 2025) que levaram o nome de Cidade-Cabaré, e considerando uma escrita em que sou sujeito e objeto do meu próprio texto, desenvolvi uma pesquisa compreendendo a etnografia como um gênero de performance narrativa, um método que não delimita o local de quem observa e de quem é observada(o), mas que rearranja essas posições, permitindo que eu como pesquisadora seja também afetada pela pesquisa. Desse modo, levando em consideração meu trabalho de campo na residência artística de 2024 e meu trabalho como artista-residente na de 2025, o discurso ao longo do texto percorre nomes importantes nas áreas da antropologia da performance como Bauman, da antropologia da cultura material como Miller, e da antropologia urbana como DaMatta e Grunvald. Foi estabelecido ainda, uma interlocução desses autores durante todo o artigo com o livro intitulado Cidade Cabaré: 13 anos de Selvática abrindo fendas no concreto, que foi escrito por Várias(os) Autoras(es), estruturado por Várias(os) Organizadoras(es) e publicado em 2024. Esse texto conclui-se, abrindo as discussões de como as produções do cabaré-selvático criam outras variadas possibilidades de cidade dentro da mesma Curitiba; e fazem isso enquanto questionam: é cabaré ou não é?
-
Barulho sem arquivo: Fabulações e ficções para uma etnografia do que não foi guardado
— Steffane Pereira Santos, Nora Dalva Arantes Lima
— Steffane Pereira Santos, Nora Dalva Arantes Lima
A busca por arquivos de memória da cultura hip hop em Belo Horizonte (MG) tem se configurado como uma experiência etnográfica marcada por ausências, silêncios e deslocamentos. Em especial, quando me debruço sobre a trajetória de mulheres negras nesta cultura. Mais do que a dificuldade material de localizar acervos, o que se impõe é a constatação do apagamento destes arquivos na preservação institucional. Os registros aparecem fragmentados, dispersos em coleções pessoais, em lembranças compartilhadas, em corpos que rimam e narram. Pesquisar esses arquivos tem significado para entrar em relações, construir confiança e sustentar uma escuta atenta às memórias que circulam fora dos circuitos formais do patrimônio e da documentação.
-
Fricções gráficas: desenho, cartografia e invenção de territórios na prática etnográfica.
— Stephanie Virginio
— Stephanie Virginio
Este trabalho propõe uma reflexão sobre o desenho e a cartografia como práticas etnográficas que operam fricções teóricas, metodológicas e epistemológicas no interior da própria antropologia. Inscrita no horizonte da chamada virada gráfica e em diálogo com autores que vêm reposicionando o estatuto das práticas visuais na disciplina, a pesquisa parte de oficinas cartográficas realizadas em um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) para analisar o desenho como gesto ético-político e epistêmico implicado na produção de territórios, experiências e modos de subjetivação.
A cartografia, tomada como processo de acompanhamento da experiência, percorre paisagens do vivido e percursos inscritos coletivamente em mapas desenhados, nos quais o território emerge como construção relacional no entrelaçamento de forças institucionais, afetivas e imaginativas, atravessada por memórias e temporalidades heterogêneas. Nessas práticas gráficas, os mapas configuram-se como superfícies de correspondência, nas quais linhas, gestos e narrativas se produzem em co-presença, fazendo emergir dimensões da experiência que escapam aos instrumentos técnicos que organizam a gestão institucional do cuidado e deslocando, ao mesmo tempo, os regimes de visualidade e de inscrição que configuram a própria prática antropológica.
Ao posicionar o desenho como elemento constitutivo da experiência etnográfica e da cartografia, argumento que as práticas gráficas instauram um campo de fricção entre regimes de visualidade e modos situados de produção de conhecimento. Nesse sentido, as oficinas cartográficas configuram-se como práticas de acompanhamento e composição, nas quais se produzem encontros entre corpos, saberes técnicos e saberes locais, entre regimes de planejamento e formas ordinárias de compor territórios.
O argumento central é que o desenho, enquanto prática etnográfica, não apenas acompanha processos sociais, mas participa da invenção compartilhada de territórios e da composição da experiência, configurando-se como gesto metodológico e político no interior das pesquisas antropológicas. Ao situar o método no próprio campo de disputas que investiga, o trabalho contribui para o debate do GT ao pensar as articulações entre arte, política e etnografia a partir de práticas gráficas que fazem do território não um objeto a representar, mas um problema e uma criação coletiva.
-
Tecendo práticas feministas : um (re) encontro com o acervo audiovisual da Mostra Rosa Teatral (CEART/UDESC)
— Suzana Morelo Vergara Martins Costa, Miriam Pillar Grossi
— Suzana Morelo Vergara Martins Costa, Miriam Pillar Grossi
Esta comunicação reflete, a partir do audiovisual, sobre a contribuição dos teatros feministas produzidos no contexto universitário para o campo dos feminismos brasileiros. Debruça -se sobre os processos de catalogação do acervo audiovisual da Mostra Rosa Teatral, mostra de atividades e apresentações artísticas com temática feminista criada e idealizada pela Profa Dra Maria Brígida de Miranda e promovida desde o ano de 2017 pelo PPGAC e DAC/ CEART/ UDESC. A partir do (re) encontro e da (re) descoberta de imagens e vídeos produzidos ao longo das sete edições da Mostra Rosa Teatral, busca-se elucidar as narrativas e discursos feministas trazidos à cena pelas atividades promovidas pelo evento (espetáculos, oficinas, exposições, mesas, rodas de conversa). Com o intuito de compreender quais são os feminismos que emergem e suas contribuições ao campo dos feminismos brasileiros. Em um primeiro momento, nota-se um grande número de trabalhos oriundos de experiências reais de vida, em que o imbricamento arte, política e vida se apresenta em cena enquanto manifesto, confissão e cura. Neste contexto, a temática das violências, em especial as violências de gênero, é uma grande temática do evento. Em um segundo momento, é possível perceber como ao longo do tempo o evento foi se construindo em diálogo com teorias práticas decoloniais e interseccionais. Em um terceiro momento, identifica-se no evento um espaço de nutrição de pesquisas em teatro feminista e de encontros, afetos e criação de redes. Esta pesquisa está sendo desenvolvida junto a pesquisa de Doutorado, na área de Estudos de Gênero e Sexualidades (EGES) do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Ciências Humanas (PPGICH) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) - Brasil e está vinculada ao Projeto de Pesquisa Curarte: Práticas Cênicas para o bem viver - estudos de gênero e feminismos nas artes da cena (CNPq e UDESC).
Coordenação
Sonia Regina Lourenço (UFMT)
Elizabeth de Paula Pissolato (UFJF)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Anna Bottesi (Università di Torino)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Ana Guggenheim Nunes Coutinho (CEBRAP/USP)
Nos últimos cinquenta anos, mudanças significativas na antropologia e na museologia levaram ao crescente envolvimento de povos indígenas nos processos de documentação, e curadorias de coleções etnográficas. A partir disso, multiplicaram-se experiências de pesquisa colaborativa e curadoria compartilhada, criando outras narrativas e ampliando os sentidos e significados entre pessoas, objetos, sociabilidades, políticas e territórios. Nesse cenário, por um lado, vêm ganhando visibilidade a criação de museus locais que, fundados e geridos por representantes indígenas, criam parcerias de diversas naturezas entre as comunidades e instituições universitárias e museais. Por outro, destacam-se as iniciativas de digitalização de acervos, por meio das quais museus, universidades e coletivos indígenas vêm desenvolvendo diversos projetos para a criação de arquivos digitais acessíveis ao público. Neste GT pretendemos reunir experiências e reflexões críticas sobre tais processos, enfatizando seus potenciais, limites e riscos, e afirmando o protagonismo de pesquisadoras(es) indígenas como condição central para a construção de práticas efetivamente descolonizadoras de saberes sobre acervos, experiências de curadorias colaborativas com e de povos indígenas no Brasil.
Títulos e Resumos
-
Prática arqueológica e experiência antropológica com o povo Iny-Karajá no Médio-Alto Araguaia: tensionando a ideia de "colaboração"
— Camila Azevedo de Moraes Wichers
— Camila Azevedo de Moraes Wichers
Desde 2017, diálogos com lideranças Iny-Karajá das aldeias de Buridina e Bdè Burè, em Aruanã (GO), integram um projeto de pesquisa de longo prazo que articula mobilização de documentação histórica, exame de coleções arqueológicas e etnográficas, pesquisas arqueológicas ao longo do rio Araguaia, ações piloto com o museu indígena e a curadoria compartilhada de exposições. Essas atividades têm possibilitado reflexões sobre a noção de "colaboração". O povo Iny-Karajá é um dos mais estudados do Brasil, o que resultou em mais de dois séculos de colecionamento de objetos, imagens e narrativas atualmente dispersos por museus do mundo todo. O projeto com as aldeias de Aruanã insere‑se em um movimento, crescente ao longo das últimas duas décadas, de abertura das pesquisas à participação indígena, seja na condução de arqueologias indígenas, na requalificação de coleções ou na realização de curadorias colaborativas. Não obstante, o que temos denominado colaboração restringe‑se, muitas vezes, a protocolos de consulta orientados pela episteme moderna e ocidental. Nesse sentido, embora o estudo com o povo Iny-Karajá, em Aruanã, tenha proporcionado avanços, buscarei refletir sobre os limites e desafios evidenciados. Entre os avanços, destaco o reconhecimento de sítios arqueológicos como o Iny - algo sistematicamente ignorado por parcela da arqueologia realizada em Goiás; o questionamento da divisão entre coleções arqueológicas e etnográficas; o aprendizado com o Museu da Cultura Karajá Maurehi; e a produção de exposições e materiais bilíngues (inyribè/português). Entre os desafios, ressalto os efeitos do distanciamento físico, burocrático e epistêmico. O primeiro resulta em dificuldades para a construção de uma vivência contínua com o território Iny, espaço de troca e experiência partilhada. O aparato burocrático a que estão submetidos os projetos de pesquisa, com reduzida possibilidade de aplicação dos recursos financeiros conforme as demandas Iny-Karajá, constitui outro entrave. Por fim, embora esforços sejam feitos para conceber a prática antropológica como forma de correspondência (Ingold, 2007), ainda persistem barreiras significativas para romper com a "vantagem epistemológica" (Castro, 2002). Para que a colaboração seja efetiva, é preciso entender a relação de conhecimento como recíproca: a transformação gerada pelo processo deve também alterar nosso horizonte epistêmico. Tomaremos a experiência com o povo Iny-Karajá de Aruanã como um caso de ativação de trocas entre saberes indígenas e nossos olhares, a partir do qual traçaremos reflexões críticas sobre esse processo.
-
INY HANA RITI: Do grafismo dos antigos Karajá , ao grafismo Karajá contemporâneo. Analisando objetos no Grassi Museum of Applied Arts, LEIPIZIG, (ALEMANHA) e no Museu Antropologico da UFG.
— Frederico Elias Barbosa Silva
— Frederico Elias Barbosa Silva
Este resumo apresenta parte da introdução de minha pesquisa de doutorado, onde procuro analisar parte da historiografia, etnografias e coleções cujo o grafismo Karajá esteja representado em seus primórdios, passando pelas transformações estéticas e sociais e suas representações nos museus citados no título. A pesquisa perpassa primeiramente na Ilha dos Martírios, um reduto na fronteira entre o Estado do Tocantins e o Estado do Pará, que contém desenhos entalhados na rocha e que podem contribuir na análise dos desenhos de grafismos difundidos na cerâmica coletada nas primeiras expedições, pois os registros visuais entalhados na pedra, se encontram em território habitado pelos Karajá há tempos imemoriáveis, Expedições Capuchinhas, Jesuíticas e das Bandeiras Paulistas, ambas respectivas aos séculos XVII, XVIII e XIX foram realizadas na bacia do Rio Araguaia, porém, a coleta de dados quanto a cultura material seria bastante remota. A primeira grande expedição responsável por coletar cultura material e se preocupar em descrever sobre o grafismo do povo Iny, (mesmo de forma breve) foi a expedição de (PAUL EHRENREICH, 1888), criando assim a coleção da reserva etnográfica Karajá do Museu de Berlim. Em sua obra intitulada “Beitrage zur volkerkunde Brasiliens", publicada em Berlim no ano de 1891, o autor cita a Ilha dos Martírios, porém, sua pesquisa não abrange de forma satisfatória o objetivo desse trabalho como entendemos, necessitando maiores esforços junto aos interlocutores e colaboradores Karajá. Como pesquisa primordial, suas páginas trazem algumas ilustrações que demonstram 48 figuras e 16 pranchas de imagens. Outro etnólogo alemão responsável por coletar junto aos Karajá foi (FRITZ KRAUSE, 1908). Ao desempenhar empreitada no intuito de criar a coleção etnográfica para o Grassi Museum em Leipzig, o trabalho resulta em uma obra intitulada “In den wildnissen Brasiliens: bericht und ergebnisse der Leipzig Araguaya expedition” publicada em 1910, demonstra maior atenção quanto a produção da cultura material e do grafismo. Juntamente com um artigo intitulado “Die Kunst der Karajá (staat Goyaz, Brasilien), Baesler” onde apresenta uma extensão de sua obra, acrescentando uma série de imagens tanto de grafismos coletados em pedaços de papel, quanto estampados nas mais variadas superfícies da cultura material Iny. Ao revisitar a coleção do Museu Antropológico, a pesquisa busca por uma temporalidade um pouco menos recuada no tempo, apontando novas estéticas dos desenhos em colaboração com os interlocutores Karajá, hoje protagonistas de suas identidades e representações. A pesquisa entende e busca as transformações dos grafismos por meio dos objetos, apontando as transformações na estética e suas contribuições para a estrutura social do povo Iny.
-
Oficina de Musealização do Território do Povo Apyãwa/Tapirapé: a participação dos Comunicadores Apyãwa na elaboração de um museu na aldeia
— Koria Valdvane Tapirapé
— Koria Valdvane Tapirapé
Os Apyãwa/Tapirapé, povo Tupi-Guarani ao qual pertenço, vivem no estado de Mato Grosso, Brasil, e vêm se organizando para a construção de um museu em seu território, na região da Serra do Urubu Branco. Trata-se de um sonho antigo, que se fortaleceu articulado a diversos processos de retomada apyãwa, como o retorno ao território ancestral, a revitalização das festas da tarywa (ciclo ritual anual), a consolidação da Escola Tapirapé, que abrange todas as aldeias, o fortalecimento da língua e o avanço das pesquisas conduzidas pelo próprio povo, inclusive com a formação de antropólogos apyãwa.
O percurso da musealização apyãwa envolve, desde os anos 1970, encontros com pesquisadores e pesquisadoras da antropologia, tanto por meio de visitas às aldeias quanto por deslocamentos de lideranças e mestres apyãwa a museus etnográficos no Brasil, nos Estados Unidos e na França. Paralelamente, os pesquisadores apyãwa vêm se fortalecendo por meio da escola indígena, de cursos de graduação e de programas de pós-graduação em universidades brasileiras.
O projeto arquitetônico do Museu Apyãwa já foi elaborado, a partir de um processo colaborativo entre o povo Apyãwa e parceiros da Universidade Federal de Juiz de Fora e da Universidade Federal do Rio de Janeiro. No entanto, as reflexões em torno da musealização continuam em curso. Simultaneamente, tanto na escola quanto nas pesquisas universitárias, os Apyãwa vêm construindo acervos de cantos tradicionais e realizando estudos voltados à organização do futuro museu.
Como professor e pesquisador do povo Apyãwa, proponho apresentar neste Grupo de Trabalho a Oficina de Musealização do Território Apyãwa, realizada em novembro de 2024 com os Comunicadores Apyãwa jovens com formação em audiovisual que participarão ativamente do processo de musealização por meio do registro das práticas culturais, rituais e elementos da natureza associados ao território.
O processo de musealização apyãwa compreende, entre outras ações, o mapeamento de lugares sagrados de relevância espiritual e cultural, a construção de acervos materiais e digitais, o cuidado dos objetos apyãwa presentes nas aldeias e daqueles que se encontram em instituições museológicas no Brasil e no exterior, compreendendo o museu como uma extensão viva do território e da comunidade.
-
Entre dois tempos: a pesquisa indígena do Arquivo Kamayurá e a reflexão sobre os desafios do presente
— Luísa Valentini, Rodrigo Lacerda Fernandes, Auakamu Kamayurá, Kanawayuri Marcello Kamaiurá
— Luísa Valentini, Rodrigo Lacerda Fernandes, Auakamu Kamayurá, Kanawayuri Marcello Kamaiurá
O projeto Arquivo Kamayurá nasceu da iniciativa de lideranças das duas principais aldeias do povo Kamayurá no Território Indígena do Xingu, Ypavu e Morená, como uma ação coletiva de memória, patrimônio e pesquisa indígena. Nosso objetivo é conhecer os arquivos onde estão guardados registros feitos entre nós e entre nossos avós, compreender como esses documentos foram produzidos e utilizados e, a partir deles, refletir e debater sobre o nosso presente e o nosso futuro. Ao longo desse percurso, contamos com o apoio de antropólogos parceiros que caminham connosco no mapeamento de acervos, no acesso a recursos de pesquisa e na discussão metodológica.
A primeira etapa do projeto, realizada em 2019, consistiu em visitar pesquisadores e arquivos no Brasil que trabalham com nosso povo desde os anos 1960, como Carmen Junqueira, Rafael de Menezes Bastos, Lucy Seki e Pedro Agostinho, além de instituições de memória que guardam esses registros. Queríamos saber como esses materiais foram feitos, como foram usados, como são cuidados e de que modo poderíamos aprender com essas experiências para construir nossas próprias políticas de salvaguarda e transmissão da memória.
A segunda etapa ocorreu em 2025, em museus de Portugal e da Alemanha, onde estão guardadas coleções Kamayurá formadas desde o final do século XIX, incluindo os objetos recolhidos por Karl von den Steinen e Herrmann Meyer na região do Alto Xingu. Essas viagens trouxeram uma diversificação de conhecimentos muito especial e positiva, ampliando nossa compreensão sobre os caminhos percorridos pelos objetos e pelos registros dos nossos ancestrais.
Nosso objetivo é retomar esses materiais, áudios, imagens, filmes, cadernos de campo, fotografias e objetos, não apenas como documentos do passado, mas como fontes vivas de pensamento, capazes de provocar debates dentro da comunidade sobre aquilo que antes era comum e hoje se tornou tão raro e precioso. Por isso, a pesquisa do Arquivo Kamayurá é viva e dinâmica. Ela acontece em diálogo com o cotidiano da comunidade, com as realidades que vivemos hoje e com as responsabilidades que temos com as novas gerações. É no cotidiano que a gente tem que aplicar um pedacinho de cada uma dessas reflexões para a gente poder ir construindo e fortalecendo as nossas referências, as nossas raízes ancestrais.
-
Trançados, cosmologias e museus: uma etnografia sobre as artes do trançado no Museu de Etnologia e Arqueologia da UFMT
— Viviane Sara Contareli de Oliveira
— Viviane Sara Contareli de Oliveira
Este trabalho é um recorte da dissertação de mestrado em andamento e possui como tema central as artes trançadas presentes nas coleções do Museu Rondon de Etnologia e Arqueologia da Universidade Federal de Mato Grosso (MUSEAR/UFMT), sobretudo a cestaria Paresi-Haliti. Parte-se da taxonomia proposta por Berta Ribeiro (1985), usada como categorias de classificação do inventário do museu, que define trançados como artefatos feitos manualmente pela sobreposição, junção e amarração de fibras vegetais (não fiadas) longas e rígidas para que se tornem uma superfície entrelaçada. Essa abordagem, contudo, também reconhece o fazer técnico como pensamento artístico, incorporado e relacional, onde as coisas fluem e vivem como materiais para além de produções imagéticas (Ingold, 2013). Compreende-se o trançado como uma tecnologia relacional que articula técnica, estética e cosmologia, ocupando um lugar singular nas ontologias ameríndias (Velthem, 2007), expressando formas de fabricar pessoas e habitar mundos. Tomando o acervo do MUSEAR/UFMT como campo etnográfico, reconhece museus como espaços em constante fluxo de memórias, alteridades, agenciamentos e negociações. Compreende-se que longe de serem espaços neutros, os acervos museais são atravessados por ações políticas e de grupos fsociais, por esta razão, o ato de conferir musealidade a um objeto, e posteriormente torná-lo museália, é uma forma de intervenção social que reconhece nele elementos dignos de serem guardados, lembrados ou esquecidos. Museus etnográficas são consideradas então como instituições políticas que, por vezes, podem cristalizar imagens sobre outras culturas de formas unívocas (Abreu, 2005), e como tal devem ser vistas de forma crítica. A pesquisa aborda também os debates sobre arte, nesse sentido, serão importantes as discussões propostas por Alfred Gell (2018) e Els Lagrou (2007), que orientam a leitura da técnica e da arte como uma forma de ver e sentir o mundo expressa no ritmo e na forma como dimensão sensível do conhecimento cosmológico. Ao deslocar o olhar do trançado enquanto objeto para pensá-lo em uma relação, pensamos a técnica do trançar como modo de produção artística cosmopolítica (Stengers, 2018), cujas tramas entrelaçam saberes estéticos e cosmológicos, evidenciando, assim, vínculos entre artes, humanos, não-humanos, paisagens e ambientes.
Coordenação
Mariane da Silva Pisani (UFPI)
Luiz Fernando Rojo (UFF)
Este GT reúne trabalhos dedicados à reflexão sobre os fundamentos epistemológicos e metodológicos da Antropologia dos Esportes. O grupo vem se consolidando nos principais encontros da área — RBA, RAM e ALA — onde tradicionalmente organizamos um GT amplo e outro temático; para esta edição, optamos por concentrar o debate na dimensão epistemológica e metodológica. Interessa-nos compreender como o esporte se tornou objeto legítimo da disciplina, quais tradições teóricas o moldaram e como abordagens contemporâneas — feministas, interseccionais, decoloniais, queer, anticapacitistas e perspectivas de “objetos para cima” (studying up) — têm reconfigurado esse campo. Serão acolhidos trabalhos sobre etnografia em ambientes esportivos, desafios éticos, relações de campo, métodos audiovisuais, análise de performance, pesquisa colaborativa e escrita antropológica. Também incentivamos investigações voltadas a instituições e agentes detentores de poder — como CBF, FIFA, COI, dirigentes e gestores — examinando como suas práticas e discursos estruturam políticas e experiências esportivas. O GT acolhe reflexões sobre categorias nativas, regimes de verdade, produção de conhecimento e circulação de saberes entre academia, mídia e instituições esportivas. A proposta é fortalecer debates sobre como pesquisamos, interpretamos e representamos práticas esportivas, contribuindo para consolidar um campo teórico-metodológico plural, crítico e inovador na antropologia.
Títulos e Resumos
-
Mulheres e Futebol em contextos de proibição: censura e resistências no Brasil
— Caroline Soarrs de Almeida
— Caroline Soarrs de Almeida
Não é novidade que o futebol praticado por mulheres esteve oficialmente proibido no Brasil entre 1941 e 1979 - um período que atravessa duas ditaduras e intensos processos de controle moral e político. Esta proposta tem como objetivo refletir sobre as interdições históricas ao futebol de mulheres no país, considerando suas conexões com regimes autoritários, dispositivos de censura e disputas em torno dos espaços futebolísticos. A pesquisa tem como base documentos do Arquivo Nacional, especialmente do Fundo da Divisão de Censura de Diversões Públicas, e da Hemeroteca da Biblioteca Nacional que revelam as estratégias do Estado para regular práticas corporais e espetáculos considerados "incompatíveis" com os valores atribuídos a ideais de feminilidade vigente.
-
De quebrada em quebrada: futebol de várzea e as várzeas da cidade
— Evandro Lima dos Santos
— Evandro Lima dos Santos
Esta proposta analisa as marcas distintivas (lemas, cores, nomes de quebradas, mascotes) dos times de futebol de várzea de Taboão da Serra-SP como elementos de identidade e pertencimento na periferia da cidade. Inspirado na abordagem de Toledo (1996) sobre as marcas distintivas no universo das torcidas organizadas, demonstra como esses códigos, mais do que identificar um time, constroem comunicação e identidade periféricas no futebol de várzea. Argumenta-se que tais marcas compõem uma estética varzeana, com símbolos e valores que permitem reconhecimento mútuo na cidade, principalmente a partir das quebradas, pensadas aqui como categoria analítica (Pereira, 2018) para demonstrar que essas marcas expressam um modo de vida e um pertencimento que une moradores para além do território.
A discussão situa a prática no contexto histórico de espoliação urbana (Kowarick, 1979) e segregação na Região Metropolitana de São Paulo. Contudo, seguindo D’Andrea (2013; 2020), entende-se a periferia não apenas como localização geográfica, mas como categoria identitária ressignificada pela própria periferia, marcada pelo orgulho e ação política. O futebol de várzea, praticado predominantemente nesses territórios, transcende a atividade lúdica, tornando-se espaço vital de sociabilidade e mobilização comunitária. Ações sociais organizadas pelos times e a gestão voluntária preenchem lacunas de políticas públicas, consolidando o campo como referência espacial e social nesses territórios. As marcas distintivas, ao ostentar o nome da quebrada, materializam essa relação, e as camisas, usadas no dia a dia, transformam-se em símbolo que carregam a quebrada pela cidade.
A análise demonstra como os varzeanos, por práticas cotidianas e ações coletivas, são agentes ativos na produção simbólica e social da cidade. Criam experiências urbanas, convertendo segregação em pertencimento e estigma em orgulho, ilustrando as tensões entre mobilidade e imobilidade, partindo de territórios marginalizados e ganhando toda cidade. Ao articular memória, territorialidade e ação política, o futebol de várzea permite compreender a citadinidade periférica, e revela como macroprocessos de segregação são confrontados por microprocessos astuciosos de construção de identidade, nos quais o clube e suas marcas se confundem com o fazer-se cidade a partir das quebradas.
-
Desafios metodológicos na Antropologia do Esporte: quais os limites da relação entre a pesquisadora e sua interlocução com crianças atletas?
— Maíra Tura Pereira
— Maíra Tura Pereira
Este artigo busca compreender os aspectos éticos, políticos e metodológicos da realização de pesquisas antropológicas em ambientes esportivos com crianças atletas. Assim, reflete sobre como uma adulta consegue realizar interlocução com crianças as ouvindo no que elas têm a dizer. Procura entender como esta pesquisadora é lida pelas meninas e examina quais são as complexidades de se pesquisar com crianças. Este estudo trata especificamente da reflexão sobre os dilemas metodológicos de se pesquisar com crianças atletas de categorias de base do futebol de mulheres. Foi realizado um trabalho de campo entre janeiro e dezembro de 2025 em um projeto social esportivo de futebol de campo exclusivo para meninas entre 7 e 15 anos. Com isso, foi possível acompanhar treinos e jogos das categorias sub-11 e sub-13. Como procedimento metodológico foi realizada uma etnografia com a técnica de perto e de dentro (Magnani, 2002). Além disso, foram produzidos registros escritos, vídeos, fotos, conversas logo antes e após os jogos e entrevistas com as atletas nos treinos. Ademais, houve a leitura e análise de artigos e capítulos de livros que tratam de questões de gênero, criança, futebol de mulheres e métodos e técnicas de pesquisa. A hipótese é que não são necessárias novas abordagens metodológicas para se pesquisar com crianças no esporte, mas sim uma adaptação dos métodos e técnicas antropológicos para que a interlocução com as crianças seja produtiva.
-
Conhecimento situado em campo: contribuições das epistemologias feministas para a Antropologia das práticas esportivas
— Mariane Pisani
— Mariane Pisani
Esta apresentação propõe discutir de que modo as teorias e epistemologias feministas podem operar como ferramentas críticas centrais para a Antropologia das práticas esportivas, não apenas como um “recorte temático”, mas como um deslocamento profundo nos modos de produzir conhecimento. Parto do argumento de que o esporte, historicamente constituído como espaço privilegiado de reprodução de hierarquias de gênero, raça, sexualidade, classe e capacidade, revela com especial nitidez as limitações de abordagens que se pretendem neutras, universalizantes ou desincorporadas. Dialogando com epistemologias feministas, especialmente aquelas que enfatizam conhecimento situado, reflexividade, ética do cuidado, interseccionalidade e crítica às relações de poder na produção científica, o trabalho analisa como essas perspectivas reconfiguram escolhas metodológicas na pesquisa antropológica do esporte. Isso inclui a redefinição das relações de campo, a problematização das assimetrias entre pesquisador(a) e interlocutores(as), o estatuto das emoções e do corpo na etnografia, bem como as implicações políticas da escrita antropológica.
-
Saídas etnográficas coletivas em ambientes esportivos: alternativas para a observação de campo
— Marina Falcão, Emanuel de Abreu Soares, Paolla Suhett, Yohannes de Mesquita Soares, Débora da Cruz Almeida
— Marina Falcão, Emanuel de Abreu Soares, Paolla Suhett, Yohannes de Mesquita Soares, Débora da Cruz Almeida
Este trabalho se propõe a apresentar e exemplificar alguns meios de contribuição das saídas etnográficas coletivas enquanto metodologia de observação inserida nos estudos antropológicos das práticas esportivas, tomando o esporte como um fenômeno social atravessado por sentidos, disputas simbólicas e relações de poder. Parte-se do entendimento de que, a produção coletiva do conhecimento, ao articular diferentes olhares e posições quando em campo, permite uma leitura multifacetada de um mesmo espaço relacionado às práticas esportivas, ampliando perspectivas analíticas e tensionando hierarquias tradicionais do fazer antropológico, que por muito tempo priorizou o trabalho sem pares (Spaggiari et. al., 2025).
Esse estudo analisa a forma pela qual as saídas etnográficas coletivas podem reconfigurar processos de produção, validação e interpretação do conhecimento antropológico no âmbito das práticas esportivas.
A partir de exemplos empíricos de saídas coletivas, já experienciados e catalogados pelos membros do Grupo de Estudos e Extensão “Cancha: Esporte e Ciências Sociais”, da Universidade de Brasília (UnB) estabelece-se diálogo com as contribuições da área, bem como com as reflexões sobre divulgação científica e modos contemporâneos de circulação de conhecimento. Defende-se a prática coletiva como um trabalho que "rompe com a figura clássica do pesquisador solitário" (Spaggiari et. al., 2025, p.71).
Metodologicamente, o trabalho se ancora na observação etnográfica coletiva, problematizando seus desafios, as relações de campo e as implicações do “fazer antropológico” de modo compartilhado, especialmente, em contextos esportivos marcados por institucionalidades, disputas de legitimidade, regimes de poder, mobilização popular e outros fatores diversos. Todas as análises que dão suporte empírico ao trabalho foram e vêm sendo realizadas no Distrito Federal — área de atuação do Grupo Cancha. Essas observações acerca das experiências empíricas buscam apreender um amplo leque de eventos esportivos ocorridos na Capital Federal, considerando a diversidade de atores e práticas presentes no território.
Ao privilegiar uma abordagem crítica e reflexiva, o estudo busca discutir não apenas os resultados das saídas de campo em si, mas também, novos modos de pesquisar, interpretar e representar as práticas esportivas nas Ciências Sociais, visando contribuir com a abertura de novos debates acerca das metodologias de observação — e ação na Antropologia das Práticas Esportivas, abrindo espaço para novos meios de aplicar a antropologia no cotidiano, estando atenta às disputas epistemológicas e às transformações contemporâneas do campo e da figura dos pesquisadores e pesquisadoras na contemporaneidade.
-
Instituto Meninos Bons de Bola: uma leitura etnográfica de uma experiência futebolística transcentrada
— Maurício Rodrigues Pinto
— Maurício Rodrigues Pinto
Em meio a um contexto de disputas políticas em torno do sexo-gênero e de ofensiva ultraconservadora antigênero, que tem como um dos seus principais alvos as pessoas trans e as políticas e direitos conquistados por esta população, este trabalho trata da questão do acesso às práticas esportivas por pessoas trans, mais especificamente da organização de times transcentrados para a prática do futebol. Será dada ênfase à experiência do Meninos Bons de Bola [hoje, Instituto Meninos Bons de Bola - IMBB], que nasce em 26 de agosto de 2016, inicialmente dirigido para homens trans e pessoas transmasculinas, e completa 10 anos de existência neste ano. O futebol no Brasil ainda é considerado um dos principais redutos e espaços de socialização de uma masculinidade cisgênera e pretensamente heterossexual. A história do IMBB revela como o futebol foi apropriado e ressignificado para se constituir em uma das estratégias pelas quais pessoas trans forjaram novos espaços de sociabilidades transcentradas e ampliaram a visibilidade pública para seus corpos. Dessa forma, vem tensionando noções hegemônicas do esporte – ainda muito calcado na binariedade cisnormativa e na lógica da hierarquização sexual – e do praticar futebol. Em diálogo com as epistemologias feministas negras e críticas da colonialidade e o aporte teórico dos estudos trans, apresento uma parte da pesquisa etnográfica que fiz acompanhando o IMBB e eventos com a participação de times trans, com o propósito de compreender como a prática do futebol entre os seus se torna uma válvula de escape dos problemas cotidianos e proporciona maior fortaleza para o enfrentamento das violências cistêmicas, atravessadas por outros marcadores sociais da diferença. O pertencimento a um time (família) e a ressignificação do jogar bola têm possibilitado também a estes sujeitos ocuparem coletivamente espaços públicos e autodeterminarem politicamente as suas existências e vivências futebolísticas.
-
Entre picos e aldeias: disputas conceituais em torno da categoria "esporte"
— Pedro Diniz Vieira, João Pedro de Oliveira Medeiros
— Pedro Diniz Vieira, João Pedro de Oliveira Medeiros
Este artigo parte da proposta de analisar, em perspectiva comparada, como o sentido da categoria esporte emerge em contexto etnográficos distintos. De um lado, as disputas inerentes à definição do surfe enquanto prática em uma praia do Rio de Janeiro; de outro, a produção de modalidades para o evento Jogos Indígenas Pataxó, no extremo-sul baiano. Como os grupos utilizam a categoria “esporte” para dar sentido a suas práticas? Quais são as continuidades e descontinuidades em relação ao conceito de esporte gestado no interior da produção acadêmica das ciências sociais? E o que isso pode nos dizer em relação ao lugar da antropologia nesta discussão? Essas são as questões que ensejam nossa reflexão epistemológica em torno da constituição do esporte enquanto objeto, e metodológica, insistindo na etnografia e na comparação enquanto ferramentas fundamentais. Nesse sentido, apresentamos casos etnográficos significativos de nossas pesquisas que apontam para os tensionamentos imbricados na definição das práticas nativas, ora enquadradas como lúdicas, ora como competitivas, como a categoria esporte modulando entre estes polos.
-
Etnografia audiovisual e processos multimodais nas pesquisas com Torcidas Organizadas
— Roberto Souza Junior
— Roberto Souza Junior
Como etnografar Torcidas Organizadas com câmera em campo? Quais os limites éticos e os desafios políticos por trás da escolha do que registrar ou não audiovisualmente? Como é possível relacionar as técnicas audiovisuais com as premissas antropológicas de observação participante? Como relacionar texto, fotos, vídeos e/ou sonorizações em peças acadêmicas (dissertação, tese, artigo, ensaio) multimodais? A partir destas indagações práticas e metodológicas, e do exercício multimodal que tenho realizado entre antropologia, audiovisual e etnomusicologia com as Torcidas-Escolas na cidade de São Paulo, discuto a importância e os desafios dos processos colaborativos nas experimentações etnográficas multimodais. Com base nisso, reflito sobre a importância da perspectiva interdisciplinar no conjunto de ferramentas e técnicas contemporâneas fundamentais às experimentações etnográficas para além do texto e da observação participante. Afinal, se as Torcidas Organizadas seguem em constantes disputas e atualizações, por que então as seguimos pesquisando de uma só forma? Mais do que uma mera extensão da produção etnográfica à fotografias e vídeos documentais musicados, a proposta multimodal visa provocar a ampliação da própria observação participativa no campo de pesquisa - dando assim protagonismo à novos atores e renovados temas -, através do acolhimento de técnicas interdisciplinares de trabalho colaborativo, que tensionam nossas posicionalidades em campo e produzem novos rearranjos relacionais de rendimento etnográfico.
-
O campo também nos atravessa: desafios de ser mulher e pesquisadora nas arquibancadas de futebol
— Thaís Rodrigues de Almeida, Franciane Maria Araldi
— Thaís Rodrigues de Almeida, Franciane Maria Araldi
Os estádios de futebol configuram-se como espaços socialmente produzidos e historicamente marcados por territorialidades, nos quais a ocupação dos diferentes setores expressa hierarquias, pertencimentos e formas de sociabilidade. Nesta investigação, a experiência de estar nas arquibancadas enquanto pesquisadora, realizando uma etnografia multissituada, envolveu a aprendizagem de disposições corporais específicas, como modos de ocupar o espaço, gestualidades, posturas, entonações vocais, ritmos de aplauso, além de momentos de silêncio e de explosão coletiva. Esses saberes não foram transmitidos formalmente, mas apreendidos por meio da observação, da repetição e da convivência com outros corpos torcedores. Trata-se de um conjunto de conhecimentos práticos, sensíveis e situados, produzidos na relação direta entre corpo, espaço e coletividade, as pedagogias do torcer, das quais também precisamos nos apropriar ao dimensionarmos nossas ações em campo. Além disso, enquanto desafio etnográfico, deparamo-nos com proibições e com a incorporação de normas de conduta ao adentrarmos a vivência de uma torcida organizada mista, o que implicou desafios e tensionamentos que atravessaram o ser mulher e estar em campo em diferentes contextos. Nesse sentido, observou-se um borramento das fronteiras entre pesquisadora e integrante efetiva do grupo de interlocutores e interlocutoras. Dessa forma, interrogamo-nos sobre os riscos de estar em campo circulando entre diferentes grupos e rivalidades no contexto futebolístico, bem como sobre as relações de gênero que permeavam as disposições corporais e as distinções da experiência torcedora. Contudo, o percurso metodológico trouxe contribuições para refletirmos sobre os desafios da pesquisa etnográfica no contexto das torcidas de futebol a partir de uma perspectiva feminista e situada. Longe da pretensão de apontar direções ou acertos, a análise se construiu no conjunto da experiência vivida em campo, reconhecendo que o conhecimento produzido é permeado pelo corpo, pelo gênero e pela posição ocupada pela pesquisadora, abrindo possibilidades de diálogo a partir desses atravessamentos.
-
O ensino da ancestralidade em Russas (CE): Diálogos com contramestre Grilo
— Victor Emanuel da Silva Bandeira, Elcimar Dantas Peretra
— Victor Emanuel da Silva Bandeira, Elcimar Dantas Peretra
A capoeira é uma manifestação cultural afro-brasileira dinâmica que se desenvolveu em algumas regiões do Brasil, a exemplo da capoeiragem carioca que foi estudada por Carlos Eugênio (1993). Porém ao me inserir na capoeiragem em Russas (CE), interessei-me em pesquisar e entender: De que forma se expressa a ancestralidade banto no ensino de capoeira contemporânea do contramestre Grilo e na percepção de seus alunos/ex-alunos em Russas (CE)? Tendo como objetivo central analisar a partir das entrevistas com contramestre Grilo e com seus alunos/ex-alunos a presença e influência da ancestralidade banto no ensino de capoeira contemporânea em Russas (CE). A metodologia utilizada é qualitativa apoiada por entrevistas semiestruturadas para coleta de dados e para analise dos dados; analise do discurso
pautada nas interpretações foucaultianas . Neste trabalho, tomo como base a ideia de ancestralidade trabalhada e defendida por Oliveira (2005, p. 258) onde ele afirma “A ancestralidade é uma categoria de relação - no que vale o princípio de coletividade – pois não há ancestralidade sem alteridade.” E logo em seguida conclui “A ancestralidade é uma categoria de relação, ligação, inclusão, diversidade, unidade e encantamento”. Baseio-me também na obra A filosofia Bantu de Tempels (1945), pois ele mostra como a partir da ancestralidade pode-se construir um pensamento ontológico, epistemológico, ético e até educacional. Nos resultados preliminares observados até o presente momento, percebe-se que o ensino do contramestre Grilo é todo baseado na ancestralidade, visto que ele sempre cita a
importância de mestres de capoeira antigos sejam eles ainda vivos ou falecidos, a exemplo de Pastinha, Bimba e Moraes.
Coordenação
Bruno Ferraz Bartel (UFPI)
Mirian Alves de Souza (UFF)
O GT visa discutir como a categoria estética atua como forma de mediação em contextos religiosos e seculares, contribuindo para a produção de experiências, socialidades e modos de subjetivação. Parte-se da noção de formas sensoriais proposta por Birgit Meyer, entendidas como modos relativamente estabilizados de organizar sensações, afetos e acessos ao transcendental, estruturando a participação dos sujeitos em comunidades morais. Essas formas, ao orientar maneiras de ver, ouvir e sentir, estabelecem padrões de repetição que sustentam conexões sociais e a eficácia simbólica de práticas devocionais. Os contextos seculares também mobilizam estéticas sensoriais e emotivas capazes de produzir efeitos similares aos observados em práticas devocionais. Atos cívicos, eventos públicos, performances políticas e objetos que circulam no espaço urbano ativam modos de sentir e interpretar o mundo que operam como dispositivos de subjetivação, ainda que não ancorados em tradições religiosas específicas. Esperamos que a análise proposta permita compreender como materialidades, imagens, sonoridades e corporalidades presentes no cotidiano tornam-se centrais na produção de sujeitos. Ao observar essas mediações, torna-se possível captar como mundos religiosos e seculares são continuamente configurados por modos de existência que unem não somente sensações e emoções, mas também formas de vida.
Títulos e Resumos
-
Estética ecológica: árvores, painéis solares e composteiras
— Adriano Santos Godoy
— Adriano Santos Godoy
Esta apresentação explora os esforços de conversão ecológica em ambientes católicos em Manaus (Amazonas), com base em pesquisas de campo realizadas entre 2024 e 2025. A proposta é analisar como a ecologia tem sido materializada por grupos católicos em diferentes espaços da maior cidade da região amazônica, por meio de iniciativas como coleta seletiva de resíduos, oficinas de compostagem, uso de painéis solares, captação de água da chuva, hortas orgânicas e projetos de arquitetura sustentável. Embora a “ecologia integral” tenha ganhado centralidade na Igreja Católica após o pontificado de Francisco, o engajamento socioambiental na Amazônia é anterior a esse marco e está ligado à defesa dos territórios e modos de vida de populações indígenas e ribeirinhas. O objetivo, portanto, é compreender como esses projetos atuais se articulam com legados pastorais mais antigos, mas também como são transformados pelas novas diretrizes romanas, revelando diferentes maneiras de integrar práticas religiosas e ecológicas em contextos urbanos amazônicos. O meu argumento é que a ecologia tem se tornado um referencial estético e sensorial católico a partir de materialidades específicas atreladas a práticas políticas formativas e sensoriais.
-
Seguindo matérias, pessoas e coisas: as vidas das cerâmicas do Vale do Jequitinhonha
— André Leandro Gonçalves Silva
— André Leandro Gonçalves Silva
O Artesanato em Barro do Vale do Jequitinhonha, reconhecido como patrimônio imaterial do estado de Minas Gerais, é um conjunto de práticas e estéticas que são produzidas de forma tradicional na região do Vale do Jequitinhonha. É um coletivo de materiais, objetos e pessoas, fluxos que se emaranham e fazem emergir os acontecimentos que interessam a nossa pesquisa de doutorado. As cerâmicas que tradicionalmente eram produzidas e circulavam nas dinâmicas locais, em cidades do Vale do Jequitinhonha, a partir da década de 1970 tornam-se presentes nos centros urbanos (nas capitais brasileiras, coleções privadas e nos museus). Nessa travessia, elas participam da vida no vale, no ambiente familiar e espaços de comercialização, e da vida fora do vale pelos projetos de desenvolvimento e nos projetos de modernidade artística. Neste trabalho nos propomos refletir sobre como o artesanato em barro participa dos lugares e relações nos quais estão engajados. Para tal, consideraremos sua estética como um modo de ser sensível que, ao ser modulada e operada, agencia diferentes contextos da vida social.
-
"Manto de mistério": as sendas hierofânicas da experiência negra pentecostal na igreja Assembleia de Deus (Adesal) Cosme de Farias
— Bruno de Araujo Conceição
— Bruno de Araujo Conceição
O escopo de análise antropológica deste trabalho é direcionado à compreensão da religiosidade negra no pentecostalismo. Busco desenvolver uma etnografia da experiência negra pentecostal, observando as possibilidades de influência do racismo nas obliterações da vertente cultural negra no pentecostalismo. A abordagem deste trabalho é oriunda das observações preambulares e parciais da pesquisa em desenvolvimento, na qual estabeleço como objetivo central: compreender, nos acontecimentos rituais e litúrgicos da Igreja Assembleia de Deus (Adesal) Cosme de Farias, a relação estabelecida entre a perspectiva racial brasileira e a experiência da religiosidade negra pentecostal. O lócus etnográfico da pesquisa é uma comunidade religiosa pentecostal assembleiana localizada em Cosme de Farias, bairro da região central de Salvador (BA), e é constituída por uma membresia majoritariamente negra. Na pesquisa, para compreensão dos fenômenos rituais e litúrgicos pentecostais (transe, glossolalia, cura, exorcismo, emocionalidade, manifestação e o batismo do Espírito Santo de Deus) na denominação religiosa, a materialidade pentecostal, a corporeidade e a sensorialidade constituem a tríade impreterível para a compreensão da centralidade analítica do mencionado empreendimento de pesquisa, evidenciando a materialidade religiosa das práticas estético-ritualísticas pentecostais e a perspectiva de racialidade dessas experiências sensoriais da pentecostalidade.
-
Além da igreja: materialidades mobilizadas em cultos evangélicos domésticos.
— Jéssica da Silva Pinheiro
— Jéssica da Silva Pinheiro
Quando pensamos em estudos sobre o campo evangélico, é comum que o olhar se volte para as igrejas. No entanto, seguindo a lógica de trabalhos que se dedicam ao campo evangélico para além das igrejas, este trabalho propõe um caminho diferente: interesso-me pelos cultos evangélicos feitos em casas, na Baixada Fluminense. Esta pesquisa chama atenção para como é feita a atividade religiosa evangélica dentro de uma residência domiciliar. Diante disso, se questiona como um espaço comum e privado é transformado em um espaço coletivo e aberto para um culto religioso. Quais são as materialidades que estão circulando? Ao observar os objetos em circulação, é possível perceber como o sagrado se faz visível, audível e tátil. A vivência da fé pode se estruturar em torno de uma série de objetos, e práticas corporais, que podem dar formas à experiência do sagrado. O espaço do culto também contribui para a materialização da fé e faz parte de uma ambiência cuidadosamente produzida. Em um caso específico, importa para nós o púlpito, as cadeiras, as caixas de som, até a lâmpada fluorescente usada somente nos dias de culto. A “formação estética” compõe o espaço como uma forma de produzir uma atmosfera espiritual. Exploro garagens, quintais, lajes e salas, a partir da observação participante, a fim de entender como esses lugares de cultos são criados. Além do mais, o presente trabalho está olhando para as articulações entre cidade, espaço e religião. Aqui, não importa somente as materialidades, mas a infraestrutura também. Nesse sentido, a produção, a manutenção e o funcionamento das coisas são de grande relevância para o presente trabalho. Por fim, anseio que esta pesquisa contribua para os estudos antropológicos da religião e os estudos urbanos, ampliando a discussão sobre as materialidade e infraestrutura da religião.
-
Produções culturais LGBTQIAPN+ como mediações entre religião, identidade e pertencimento no Brasil contemporâneo.
— Lucas de Melo
— Lucas de Melo
Este trabalho visa investigar como produções culturais protagonizadas por pessoas LGBTQIAPN+ podem operar como mediações estéticas, sensoriais e afetivas entre experiências religiosas e contextos seculares no Brasil contemporâneo, ao mesmo tempo em que tensionam dispositivos heteronormativos e coloniais que regulam gênero, sexualidade e pertencimento. A pesquisa se insere no diálogo entre antropologia da religião, estudos queer e estudos da performance, compreendendo a cultura como espaço privilegiado de disputa simbólica e política em contextos marcados pela centralidade histórica do cristianismo.
A partir da análise de dois casos empíricos — a Festa da Chiquita, realizada durante o Círio de Nazaré, em Belém do Pará, e o espetáculo O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu — o trabalho examina como corporalidades dissidentes, performances e narrativas contra-hegemônicas reinscrevem símbolos cristãos e espaços ritualizados. Essas práticas culturais mobilizam imagens, sonoridades, afetos e gestos que produzem experiências sensoriais capazes de reorganizar modos de sentir, crer e pertencer, especialmente para sujeitos historicamente marginalizados por discursos religiosos normativos.
Dialogando com a noção de “formas sensoriais” (Birgit Meyer, 2019), o estudo entende essas produções como dispositivos relativamente estabilizados de organização do sensível, que sustentam processos de subjetivação e construção de pertencimento religioso dissidente. Ao mesmo tempo, evidencia-se como tais práticas atuam como enfrentamentos à heterocolonialidade que estrutura projetos de nação marcados pela regulação sexual e de gênero, produzindo deslocamentos no imaginário religioso, cultural e político. Argumenta-se que a produção cultural constitui uma ferramenta fundamental de autoconhecimento, autoaceitação e transformação social, operando como mediação entre espiritualidade, identidade e cidadania no Brasil contemporâneo.
-
O lixo sagrado das velas: como resíduos de parafina influenciam a expressão da espiritualidade
— Luiza Lince Jesus dos Santos
— Luiza Lince Jesus dos Santos
Na Principado das Velas, loja de produtos religiosos no centro do Rio de Janeiro, os clientes de Marcelo procuram preferencialmente por velas de parafina pura. O proprietário explica que as velas já rezadas - isto é, as confeccionadas a partir do reaproveitamento de resíduos de velas usadas - são menos vendidas porque alguns dos fiéis acreditam que a cera pode ainda estar carregada da energia de quem fez uso dela primeiro. É uma energia desconhecida, e portanto, duvidosa. Aquele religioso que busca uma vela de parafina pura, busca a garantia de que não haverá interferências no seu contato com o divino; e só a neutralidade de uma vela como essa pode garantir uma comunicação espiritual sem ruídos.
O simples ato de acender uma vela pode representar diversos significados a depender do contexto do uso. Guiar a alma de um falecido, fazer pedidos a entidades, agradecer milagres a santos e muitos outros. Sendo a materialidade um aspecto fundamental da religião, é possível compreender que a vela funciona como um objeto que compõe a forma sensorial (Meyer, 2018) responsável por produzir sentido na relação que humanos estabelecem com a espiritualidade. Esse objeto opera como materialidade sagrada que sustenta práticas tradicionais religiosas. Mas e depois do uso? O que resta?
O objetivo deste estudo é analisar como essa materialidade remanescente pode ser entendida como lixo sagrado (Stengs, 2014; Toniol, Lince & Thomaz, 2025) e de que maneira ela orienta a relação dos indivíduos com sua espiritualidade. Para aqueles que creem, o resultado da deterioração da vela é tão portador de energia espiritual quanto a vela em si. Mesmo que de maneira imperceptível, o resíduo da vela também pode operar como forma sensorial que agencia a experiência religiosa, porque prolonga a mediação estabelecida ao manter aberto o canal de contato com o mundo espiritual.
Desse modo, o caso de Marcelo é um dos muitos em que pode-se observar o lixo sagrado como parte constituinte da expressão da espiritualidade, ainda que de forma imperceptível, já que as velas preteridas são as velas recicladas.
-
Pedagogias de feminilidade, estética e consumo em conferência religiosa para mulheres
— Magnólia Oliveira de Almeida Santos
— Magnólia Oliveira de Almeida Santos
O presente texto analisa um evento presencial promovido por um coletivo digital interdenominacional de mulheres evangélicas no Rio de Janeiro. A partir da observação participante e da etnografia digital, investiga-se como práticas devocionais, estratégias de marketing e dinâmicas de consumo se articulam na produção de formas contemporâneas de feminilidade evangélica. O evento é interpretado como um espaço eclesial "líquido", no qual a experiência religiosa se manifesta em rituais sensoriais, economia de afetos e estética devocional, configurando modos específicos de pertencimento e de autoridade simbólica. Dialogando com teorias sobre poder, estudos de gênero e religião, o artigo discute as implicações dessas práticas na construção de subjetividades religiosas e engajamentos morais em contextos associados a agendas neoconservadoras. A análise aponta para expansão do espaço religioso para além do templo. Ao articular normativas religiosas e expressões de agência, o evento revela-se como um lócus importante para a produção de uma moralidade feminina evangélica que não é meramente reprodutora, mas também ativa em seus processos de mediação.
Coordenação
Stephen Grant Baines (UNB)
Lara Erendira Almeida de Andrade (UFPE)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Stephen Grant Baines (UNB)
O GT pretende dar continuidade a e avançar nos debates iniciados em GT na última RBA, realizada em Belo Horizonte, que reuniu pesquisas sobre a interface entre a Antropologia Social e os povos indígenas em diferentes contextos de Estados nacionais, com base na proposta de estudar “estilos de antropologia”, formulada no Brasil pelo professor Roberto Cardoso de Oliveira (1988, 1998), a partir de propostas anteriores e contemporâneas de Gerholm & Hannerz (1982), Stocking Jr (1982), Peirano (1981), Ramos (1990), entre outros. Neste GT, buscaremos observar de forma mais detida o papel de indígenas antropólogos(as) na transformação e revitalização da disciplina em distintos contextos nacionais. Pretende-se examinar, a partir do caso brasileiro — onde o ingresso de indígenas na antropologia vem ocorrendo ao longo das últimas duas décadas —, países como como Canadá, Austrália e Argentina — onde a presença de indígenas antropólogos(as) se consolidou há várias décadas —, além de outros países da América Latina. O GT pretende estimular debates desde perspectivas internacionais que comparam os estilos de antropologia em contextos de diversos países, como se refletem ideologias da construção da nação na disciplina (Peirano 1981) e as diversas maneiras em que os povos indígenas estão transformando a antropologia
Títulos e Resumos
-
Patrimônio Indígena e Fronteiras Étnicas: debates a partir da pesquisa indígena do povo Karão Jaguaribaras (Ceará)
— Gleidison Karão Jaguaribaras (Francisco Gleidison Cordeiro Lima)
— Gleidison Karão Jaguaribaras (Francisco Gleidison Cordeiro Lima)
Este trabalho discute patrimônio indígena e fronteiras étnicas a partir de uma pesquisa indígena realizada pelo povo Karão Jaguaribaras, povo originário do Ceará, com presença histórica e territorial na serra do Baturité atualmente em municípios como Aratuba, Capistrano, Baturité e Canindé. A reflexão se concentra especialmente no Kalembre (Aldeias) Feijão e Cabeça da Onça, onde se localizam relevantes espaços de memória lido pelo como sítios arqueológicos e são esses lugares de memória que compõem a territorialidade Karão Jaguaribaras. A pesquisa é conduzida por um pesquisador indígena Karão Jaguaribaras, implicada afetiva e politicamente no território, o que permite compreender o patrimônio não como um conjunto de objetos do passado, mas como campo vivo de narrativas, espiritualidade, identidade coletiva e continuidade histórica no presente. Articulando contribuições da antropologia interpretativa, da arqueologia pública e das arqueologias indígenas, o texto defende que os sítios arqueológicos, ao serem narrados e vividos pelo povo, atuam como mediadores entre ancestralidade e contemporaneidade, operando como fronteiras dinâmicas de afirmação étnica. Ao reconhecer a inseparabilidade entre memória, história e território, o trabalho reafirma a importância de uma escrita acadêmica situada, comprometida com a justiça epistemológica e com o direito dos povos indígenas de gerarem conhecimento sobre seus próprios patrimônios.
-
Antropologia de indígenas do Piauí: etnografias de nós mesmos
— Hélder Ferreira de Sousa
— Hélder Ferreira de Sousa
Neste trabalho pretendo refletir sobre as observações empíricas durante o período em que estive em campo para produção da tese de doutorado, a partir da participação como indígena e antropólogo, junto a uma organização indígena formada em Piripiri - Piauí, dentro do quadro das emergências étnicas na região nordeste do Brasil. Neste caso particular, o surgimento de uma reivindicação de base étnica, assistida por um antropólogo indígena, e que até então não apresentava similaridade em outras reivindicações deste tipo na região. Faço referências neste quadro sobre o período em que já tendo recolhido os dados com os quais trabalho, me foi possível reorganizá-los e refletir sobre estes, em outro período histórico, na tentativa de construção dialógica entre indígenas antropólogos.
-
A ritualidade do Menino de Rancho como expressão de identidade, resistência e cosmovisão do povo Jiripankó: contexto de visibilidade e (re)configuração do sagrado.
— Rogério Rodrigues dos Santos
— Rogério Rodrigues dos Santos
O presente trabalho analisa a ritualidade do Menino do Rancho como elemento central na (re)elaboração da existência do povo Jiripankó, no Alto Sertão Alagoano. A partir da perspectiva antropológica, como a relação sagrada com o território e o bioma Caatinga fundamenta a cosmovisão e a identidade do grupo. Lugares como o Terreiro e o Poró são examinados como espaços de memória e socialização de saberes ancestrais, onde o ritual atua como circulação do indivíduo ao cosmos e a cultura. O estudo aborda, ainda, os processos de visibilidade e reconfiguração do sagrado face ao crescente olhar externo de pesquisadores e visitantes, demonstrando que a continuidade Jiripankó reside na vivência comunitária e na manutenção das fronteiras simbólicas.
-
O Ingresso de Indígenas na antropologia e seu impacto sobre a disciplina: Brasil, Argentina, Canadá, Austrália.
— Stephen Grant Baines
— Stephen Grant Baines
Aborda-se a etnologia indígena em contextos de Estados nacionais diversos, a partir da proposta de estudar "estilos de antropologia" (Cardoso de Oliveira, 1998), e examina-se o papel de indígenas antropólogos na transformação e revitalização da disciplina em distintos países. No Brasil, o número de indígenas no ensino superior, incluindo a antropologia, tem crescido muito nos últimos anos, sobretudo a partir da introdução de políticas de ações afirmativas e da Lei de Cotas nº 12.711/2012. Baniwa (2023) espera do crescente ingresso de indígenas na disciplina, uma antropologia renovada, plural, e inclusiva com a diversidade de outras formas de pensar e fazer antropologia, o que Ramos (2014, 2023) chama uma antropologia ecumênica, e Little denomina "intercientificidade" (2010). Pretende-se examinar, a partir do caso brasileiro, países como Canadá e Austrália onde a presença de indígenas antropólogos se consolidou há várias décadas e onde eles têm trabalhado em campos diversos da disciplina como patrimônio cultural, direitos territoriais, pesquisa comunitária, e uma antropologia da descolonização, e Argentina onde, apesar da consolidação do movimento indígena nos últimos anos, os indígenas permanecem invisíveis nas estatísticas do sistema universitário nacional, que carece de mecanismos para registrar e monitorar a identidade indígena dos estudantes. Pretende-se estimular debates desde perspectivas internacionais que comparam os estilos de antropologia em contextos de diversos países, como se refletem ideologias da construção da nação na disciplina, e as diversas maneiras em que os povos indígenas estão transformando a antropologia. Apesar da imensa variedade de abordagens e maneiras diversas de entender sua posição como indígenas dentro da antropologia, todos sofreram longas histórias de colonização e violência e compartilham o fato de serem ativistas políticos e acadêmicos na luta para a efetivação de direitos indígenas diferenciados, posicionando-se dentro dos contextos coloniais que permanecem na atualidade.
Coordenação
Sabrina Melo Del Sarto (UFRJ)
Cristina Dias da Silva (UFJF)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Sara Vieira Sabatini Antunes (ENS Lyon)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Cristina Dias da Silva (UFJF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Túlio Maia Franco (UFSJ)
Este GT pretende reunir trabalhos que discutam as formas pelas quais cuidado e abandono, tratamento e controle, integração e confinamento se entrelaçam nas vidas de pessoas e instituições atravessadas pelos processos de saúde e doença - nas relações entre familiares, profissionais e usuários de serviços de saúde. Serão valorizadas etnografias que abordem os agenciamentos de pessoas e instituições de saúde, seja nos contextos da atenção básica, seja nas experiências de internação. Trata-se de refletir sobre como trabalhadores e pacientes habitam as normas e vivenciam o cotidiano das políticas públicas de saúde. Ademais, gostaríamos de refletir sobre os desafios antropológicos e metodológicos de conduzir pesquisas em espaços institucionais, incluindo certa perspectiva sobre a produção de documentos como artefatos culturais que não apenas informam, mas performam relações. São bem-vindas pesquisas em diversos estágios de desenvolvimento e em diferentes campos/instituições de saúde.
Títulos e Resumos
-
Atenção diferenciada, hospital e cuidado: tecendo sentidos com indígenas Tupinambá de Olivença
— Amanda Silva Rodrigues
— Amanda Silva Rodrigues
Com a instituição da Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) em 2002, a assistência a pacientes indígenas nos serviços do Sistema Único de Saúde passou a ser orientada pelo princípio da atenção diferenciada na tentativa de articular as diferentes formas de atenção, incluindo a biomedicina e os saberes “tradicionais”. A PNASPI também prevê que a atenção primária à saúde seja realizada nas aldeias, e que as atenções secundária e terciária sejam ofertadas no âmbito dos serviços que compõem o SUS. Porém, a interface entre o Subsistema de Saúde Indígena (Sasi-SUS) e os serviços como hospitais e maternidades, não foi normatizada. A concretização da atenção diferenciada nestes espaços enfrenta desafios como desconhecimento por parte dos profissionais sobre o contexto sociocultural dos indígenas, a fragilidade da articulação entre os níveis de atenção à saúde, o tecnicismo do saber biomédico fortalecido nas rotinas hospitalares. No entanto, as etnografias também registram que os itinerários terapêuticos praticados por indígenas apresentam múltiplos agenciamentos por meio dos quais esses sujeitos convidam profissionais de saúde atuantes no Sasi-sus e nos hospitais a praticar a atenção diferenciada. A proposta desta comunicação é apontar alguns desses agenciamentos tomando como fio condutor experiências de internação de indígenas Tupinambá de Olivença em um hospital público de Ilhéus entre os anos de 2024 e 2025.
-
Recém-nascido e entre-fios: notas sobre trabalho de campo em maternidades
— André Luiz Coutinho Vicente
— André Luiz Coutinho Vicente
Um trabalho de campo iniciado em 2025 produz os incômodos que rabisco neste resumo. Percorrendo duas maternidades no Rio de Janeiro, ambas vinculadas a instituições de pesquisa - uma estadual e outra federal - e classificadas como de referência para tipos diferentes de condições de saúde (fetal ou materna), meu interesse de pesquisa tem sido compreender, descrever, interpretar e, de certo modo, traduzir o que acontece aos recém-nascidos do ponto de vista das técnicas e tecnologias médicas que visam a produção e/ou manutenção e prolongamento da vida “saudável”. Para isso, interessam-me tanto os atos referentes aos testes e exames mais “comuns” – aqueles realizados em todos os neonatos, via políticas de saúde infantil e orientações dos tratados de pediatria – quanto aqueles atos mais específicos decorrentes de quadros clínicos e propostas terapêuticas diversas – como aqueles que acontecem nas UTI Neonatais destas maternidades. Não está enquadrada nesta proposta de pesquisa uma descrição das diversas possibilidades de “adoecimentos” neonatais – com proposta cirúrgico-terapêutica e/ou clínica, por exemplo -, nem mesmo é vislumbrada a possibilidade de exaurir as múltiplas intervenções possíveis. A partir do campo e das conversas e visitas possíveis de serem feitas – sobretudo levando-se em consideração dificuldades referentes ao gênero do antropólogo, das relações entre humanidades e saúde e das internas ao campo da neonatologia, esta última salientada também pelas profissionais da saúde com quem tenho tido contato – vislumbro apresentar parcialmente como o corpo do neonato, sobretudo nos ambientes médico-hospitalares, é atravessado por marcadores, monitores, fios, sons, medicamentos e desafios técnicos que aparecem nos corpos (Mauss, 2017) das trabalhadoras.
-
Gênero e relações étnico-raciais no cotidiano dos Agentes Comunitários de Saúde.
— Francisca Alves do Nascimento, Francisca Alves do Nascimento
— Francisca Alves do Nascimento, Francisca Alves do Nascimento
Resumo
O Projeto tem como objetivo analisar gênero e relações étnico-raciais no cotidiano no Programa de Agentes Comunitários de Saúde (ACS) no município de Trindade-GO, considerando como essas intersecções influenciam o trabalho, as vivências profissionais e as desigualdades percebidas no cotidiano da atenção básica. O ACS ocupa um papel central no Sistema Único de Saúde, atuando como mediador entre a comunidade e os serviços de saúde, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. Inserido em um modelo de atenção territorialidade, esse profissional transita entre o saber biomédico e os conhecimentos populares, configurando uma atuação híbrida e estratégica.
A pesquisa parte da constatação de que as ACS são compostas majoritariamente por mulheres, em sua maioria negras, o que torna relevante investigar como gênero e raça impactam o reconhecimento profissional, as relações de trabalho e a interação com a população atendida. Ancorado em referenciais da antropologia da saúde, dos estudos de gênero e das relações étnico-raciais, o estudo busca compreender como essas dimensões estruturam práticas, responsabilidades e experiências no âmbito do programa.
Método; abordagem qualitativa, de natureza etnográfica, privilegiando a observação participante e o registro em caderno de campo, a fim de apreender as relações sociais de dentro e de perto(Magnani, 2002) Espera-se que a pesquisa contribua para a compreensão crítica das desigualdades de gênero e raça no contexto da saúde pública no município de Trindade-GO, bem como para o fortalecimento de estratégias que promovam equidade, respeito à diversidade e valorização do trabalho dos Agentes Comunitários de Saúde.
-
Habitar as "normas" e os "cuidados": etnografia em um serviço de saúde com profissionais, crianças e adolescentes trans
— Francisco Janis Borges Xavier de Gouveia
— Francisco Janis Borges Xavier de Gouveia
A proliferação de leis que proíbem ou restringem práticas médicas voltadas para menores de idade trans tem sido notável nos últimos anos em alguns países. No contexto brasileiro, não foi diferente, com a publicação da Resolução nº 2.427/2025 pelo Conselho Federal de Medicina. Esse cenário tem sido acompanhado pelo acirramento de discursos de proteção da infância e da família contra a chamada “ideologia de gênero”, produzidos por setores conservadores, bem como pela limitada mobilização de setores políticos da esquerda na garantia de direitos para essa população. É no interior desse contexto que esta proposta de trabalho busca refletir sobre como crianças e adolescentes trans elaboram e produzem trânsitos de gênero mediados por instituições de saúde e, por sua vez, como essas instituições produzem seus saberes e práticas a partir dos agenciamentos (materiais, simbólicos e corporais) dessas crianças e adolescentes.
Para isso, parto de dados de uma pesquisa de caráter etnográfico, ainda em desenvolvimento no âmbito do doutorado, realizada em um serviço público de saúde voltado ao ensino, à pesquisa e ao cuidado em saúde de crianças e adolescentes trans e/ou com vivências de variabilidade de gênero, bem como de seus familiares. A investigação se constrói a partir do acompanhamento do cotidiano institucional, das consultas, das interações clínicas e das práticas dos profissionais de saúde.
Importa compreender como, por meio dessas práticas profissionais e da produção de documentos — aqui entendidos como artefatos culturais performativos — se estabelecem diretrizes, protocolos, técnicas, usos de hormônios e outras séries de práticas que compõem um enquadramento clínico da transgeneridade infantojuvenil. Tal enquadramento articula dinâmicas de cuidado, controle e tutela no interior das políticas públicas de saúde, cujas bases epistêmicas contemporâneas do “cuidado” dirigido a “menores” podem ser localizadas a partir dos anos 1980. Analiso, ainda, como crianças e adolescentes trans se relacionam com essas práticas médicas, negociando, interpretando e tensionando normas e protocolos no cotidiano institucional.
Essa relação é atravessada por um contexto político recente de retração de direitos das juventudes trans, marcado pela instituição de normas restritivas de acesso à saúde pelo Conselho Federal de Medicina. Nesse sentido, o trabalho discute o modo complexo como profissionais, crianças e adolescentes habitam tais normas e as estratégias que adotam no cotidiano institucional para lidar com a instabilidade política e com os discursos antigênero que têm focalizado as juventudes trans.
-
Entre ruínas institucionais e futuros em disputa: a implementação da Resolução CNJ nº 487/2023 no campo da saúde mental e da justiça
— Isabela Eduarda Guedes
— Isabela Eduarda Guedes
Este trabalho apresenta reflexões iniciais de uma pesquisa etnográfica sobre os efeitos e as tensões relacionadas à publicação e implementação da Resolução do Conselho Nacional de Justiça nº 487/2023, que estabelece diretrizes para o fechamento progressivo dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico (HCTPs) e a ampliação do cuidado em liberdade em todo o país. A partir de entrevistas realizadas no pré-campo no estado de São Paulo, argumento que as dificuldades de implementação da política não decorrem apenas de entraves burocráticos ou da insuficiência de recursos técnicos, mas de modos distintos e concorrentes de imaginar como o Estado deve lidar com o futuro das pessoas consideradas inimputáveis, isto é, aquelas que, segundo o ordenamento jurídico, não podem ser responsabilizadas penalmente por seus atos em razão de um sofrimento psíquico reconhecido no momento da infração, sendo submetidas a medidas de segurança.
Cartas, notas técnicas e posicionamentos públicos contrários à Resolução já indicavam que a disputa extrapola o desacordo normativo, envolvendo controvérsias sobre a legitimidade do cuidado em liberdade, sobre a definição de risco e periculosidade e sobre quem deve assumir a responsabilidade pelo acompanhamento desses sujeitos. Nesse sentido, a pesquisa não busca avaliar se a Resolução “funciona” ou “falha”, mas compreender as tensões que ela torna visíveis quando colocada em prática.
O pré-campo é tratado como um exercício etnográfico de atenção às fissuras do presente, permitindo captar processos ainda em formação, nos quais passado e futuro se sobrepõem. A desinstitucionalização dos Hospitais de Custódia e Tratamento Psiquiátrico aparece menos como um percurso linear de superação do modelo manicomial e mais como um campo de disputas, atravessado por memórias violentas, resistências institucionais e tentativas de recomposição. Observou-se que, mesmo diante da promessa de fechamento dos HCTPs, o passado manicomial e a forma de administração prisional que envolve confinamento e punição persiste nas práticas, nos discursos e nas formas de gestão da vida. Simultaneamente, o trabalho das Equipes de Avaliação e Acompanhamento das Medidas Terapêuticas Aplicáveis à Pessoa com Transtorno Mental (EAP) surge como um esforço concreto de deslocamento dessas lógicas, operando no interior das ruínas institucionais.
A proposta deste trabalho é, portanto, debater sobre como cuidado e controle se entrelaçam no cotidiano das políticas de saúde mental no campo da justiça, tomando o trabalho das EAPs como um ponto privilegiado de observação etnográfica, bem como a atuação de membros da área jurídica envolvidos e/ou afetados pela Resolução.
-
Estruturas que produzem vulnerabilidade: racismo institucional e HIV entre mulheres negras
— Luiza Tavares Maciel Rodrigues Brasil
— Luiza Tavares Maciel Rodrigues Brasil
Este trabalho discute as intersecções entre raça, gênero e classe que atravessam as vulnerabilidades das mulheres negras diante da atual epidemia de HIV, bem como as respostas de saúde pública no Brasil, evidenciando o racismo institucional (Werneck, 2016) operante nas políticas de enfrentamento à epidemia. A pesquisa consiste em uma investigação antropológica cujo objeto é a análise de dados epidemiológicos expressos nos boletins de HIV/AIDS publicados anualmente pelo Ministério da Saúde. Tendo em vista as incongruências produzidas pela mesma instância responsável por essas respostas, observa-se que campanhas governamentais de prevenção reproduzem a sub-representação de mulheres negras, enquanto políticas nacionais de saúde apresentam protocolos que não se convertem em práticas de cuidado efetivas. Esse processo revela contradições profundas: a inércia institucional, sustentada pelo discurso de universalidade do Sistema Único de Saúde (SUS), continua a perpetuar práticas discriminatórias, racistas, machistas e generalizadas dentro e fora dos sistemas de saúde. Como resultado, verifica-se um letramento extremamente limitado sobre as possibilidades de prevenção entre mulheres negras, assim como a atuação incipiente de organizações da sociedade civil voltadas especificamente a essa intersecção, o que evidencia um desinteresse estrutural em garantir que informações sobre HIV cheguem de forma concreta e acessível a esse grupo. Parte-se do reconhecimento de que a cadeia de vulnerabilidades em saúde não se inicia nas respostas biomédicas, mas nas estruturas sociais que as precedem (Crenshaw, 1989; 1991). Enquanto o cenário epidemiológico brasileiro revela uma marcada feminização e racialização do HIV, com casos entre mulheres negras passando de 56,8% para 62,5% em um intervalo de dez anos e os óbitos por AIDS alcançando 62,8%, sendo 12,4% entre mulheres pretas (BRASIL, 2025), os discursos e as respostas sobre HIV permanecem sendo construídos majoritariamente por e para homens brancos, apesar de as mulheres negras figurarem como protagonistas das atuais curvas de infecção. Nesse sentido, a análise é atravessada por uma reflexão situada, construída a partir de um vínculo com iniciativas de cooperação internacional em saúde, na qual a leitura dos dados epidemiológicos se desenvolve em diálogo crítico com a prática institucional contemporânea. O trabalho busca, assim, evidenciar como o racismo institucional mantém mulheres negras à margem da resposta ao HIV.
-
Casa, Território e Cuidado em Saúde Mental: Uma etnografia do CAPSI Monteiro Lobato
— Maria Emília Almeida de Sousa
— Maria Emília Almeida de Sousa
Iniciada no Centro de Atenção Psicossocial Infanto Juvenil (CAPSi) Monteiro Lobato e com o campo ainda em curso, essa pesquisa está sendo feita a partir de visitas domiciliares. Isso porque entendo que as relações entre usuários do Sistema Único de Saúde, sua moradia e vizinhança, são intrinsecamente ligadas ao cuidado, relação com o território e à desinstitucionalização. Compreender como os impactos e significados da casa, hotel social e/ou abrigos se dão na vida dos usuários desse dispositivo é um ponto chave dessa pesquisa, pois são dados significativos ao pensar sobre as visitas domiciliares. Dessa forma, é importante frisar que a moradia, independentemente de sua construção, o estar como pessoa no território, é algo de muita importância, influenciando a saúde e o cuidar. Isso porque, além de um "teto", como muitas vezes o termo é empregado pelo senso comum, essa construção é constituida de memória, tanto para o morador, quanto para a vizinhança, e isso muitas vezes é ignorado, ou simplesmente despercebido. Portanto, busco a partir de análises de casos compreender essa relação e a importância dessas visitas, principalmente em casos cujo projeto terapêutico singular (PTS) visa a desinstitucionalização do indivíduo.
-
Oralizar para existir: uma autoetnografia sobre interseccionalidades e violências epistêmicas na saúde pública
— Marjorie Manuela Viana Sancho Marques Paiva de Oliveira
— Marjorie Manuela Viana Sancho Marques Paiva de Oliveira
Este trabalho mobiliza a autoetnografia crítica para analisar interseccionalidades
entre raça, classe e deficiência no sistema público de saúde brasileiro. A partir da
minha trajetória como mulher parda, surda oralizada e usuária do SUS, articulo
experiência corporificada e teoria crítica para evidenciar como capacitismo, racismo
e classismo operam de forma imbricada na produção de hierarquias de acesso ao
cuidado.
Fundamentada em Guedes de Mello (2016; 2019), Mills (2023), Bento (2022),
Carneiro (2003) e Ferreira da Silva (2021), demonstro que a negligência no
diagnóstico precoce da surdez, a inacessibilidade aos tratamentos e as barreiras
linguísticas nas consultas não constituem falhas isoladas, mas expressões de
estruturas que constroem determinados corpos como "não-ser". A experiência com
um médico cubano negro revela como a racialização da autoridade médica opera
através da desconfiança sistemática, mesmo quando a comunicação é mais
acessível.
A "antropologia mediada pela deficiência" (Mello, 2016) fundamenta a escolha
metodológica, reafirmando que diferentes corporalidades produzem formas
legítimas de conhecimento. Conceitos como epistemicídio, contrato racial e
capacitismo estrutural demonstram como a linguagem médica opera como barreira
epistêmica. Este trabalho contribui para antropologias insurgentes ao posicionar
saberes corporificados como epistemologias que desafiam o cânone disciplinar,
propondo uma saúde interseccional e decolonial.
Palavras-chave: Autoetnografia; Interseccionalidade; Saúde Pública; Deficiência;
Racismo.
-
Corpos que permanecem: memórias, cuidados e hanseníase em um bairro de Pernambuco
— Mateus Souza Araujo
— Mateus Souza Araujo
O Brasil ocupa o segundo lugar entre os países com maior incidência de hanseníase no mundo. Passadas décadas, os estudos indicam que a hanseníase ainda impõe múltiplos desafios. Na comunidade da Mirueira, situada na Região Metropolitana do Recife, não é diferente, sobretudo quando as experiências de cuidado e abandono se entrelaçam, produzindo e atenuando diferentes formas de exclusão social. Este trabalho tem o objetivo de apresentar alguns fragmentos do diário de campo durante a escrita da dissertação de mestrado em Antropologia, defendida em 2025. A pesquisa foi realizada no bairro da Mirueira, no município de Paulista em Pernambuco, e busca evidenciar as tramas sociais, os enredamentos e as experiências de pessoas que tiveram relação direta ou indireta com a doença, busco enfatizar através de duas cenas etnográficas como marcadores de gênero, raça e classe, se intercruzam no percurso do cuidado. Propõe-se discutir como os sentidos atribuídos à hanseníase mobilizam categorias analíticas como estigma (Foucault, 2006; Goffman, 1991; Aquino et al., 2010), bem como as percepções individuais sobre a doença e sobre o pós-doença. A pesquisa combinou entrevistas semiestruturadas, observação participante, diário de campo e a experiência pessoal da pesquisadora enquanto moradora do bairro, o que possibilitou o acesso ao campo e sua retomada em diferentes momentos. Palavras-chaves: Etnografia; Hanseníase; Cuidado; Contextos Locais.
-
Entre cuidado e controle: sofrimento psíquico, medicalização e agência em um hospital psiquiátrico em Campo Grande/MS
— Patrick de Almeida Trindade Braga, Giulia Villa Alves
— Patrick de Almeida Trindade Braga, Giulia Villa Alves
O presente trabalho tem como eixo central uma etnografia realizada ao longo de seis meses em uma clínica psiquiátrica particular de referência no estado de Mato Grosso do Sul, tendo como interlocutores trabalhadores da saúde e pacientes. A pesquisa buscou compreender como se configuram, no cotidiano institucional, os sentidos atribuídos por esses dois grupos ao sofrimento psíquico, analisando também a relação entre cuidado, controle, tratamento e promoção da saúde, tomando as vivências dos sujeitos como via de acesso aos modos de gestão da saúde mental. A partir desse material etnográfico, o estudo problematiza, em diálogo com perspectivas bioéticas, os efeitos da institucionalização na subjetividade de pacientes diagnosticados com transtornos psiquiátricos, colocando em questão se hospitais psiquiátricos particulares, na forma como operam no Brasil contemporâneo, efetivamente promovem saúde a seus pacientes, tratando-os como sujeitos autônomos a partir de seus próprios referenciais e necessidades, ou se operam como asilos pagos de corpos indesejados ou inconformes. Nesse sentido, a institucionalização da loucura é tratada como um problema analítico que emerge do campo, permitindo examinar como as pretensas racionalidades institucionais organizam experiências de sofrimento e enquadram determinados corpos como passíveis de tutela. O estudo dialoga com o pensamento foucaultiano sobre loucura, poder e regimes de subjetivação, com a crítica antimanicomial de Franco Basaglia e com as contribuições de Arthur Kleinman acerca da experiência moral do adoecimento, articuladas às reflexões de Débora Diniz e Paulo Amarante sobre bioética, cuidado e saúde mental no contexto brasileiro. A análise evidencia tensões entre dispositivos biomédicos de patologização e medicalização do sofrimento e as experiências subjetivas dos pacientes, apontando para a persistência de lógicas asilantes. Ainda nesse contexto, práticas de arteterapia observadas etnograficamente foram identificadas como objeto analítico privilegiado para compreender como outros regimes de escuta e visibilidade podem ser produzidos no interior da instituição. Tais práticas são analisadas como espaços nos quais os internos elaboram narrativas não estritamente biomédicas sobre o sofrimento psíquico, tensionando processos de subjetivação marcados pela tutela e pela redução do sujeito ao diagnóstico. Ao evidenciar essas dinâmicas, o trabalho conclui pela necessidade de alternativas centradas na agência dos pacientes na produção de sentidos sobre seu sofrimento e tratamento, bem como para os limites e ambivalências da psiquiatria institucional na contemporaneidade.
-
O filho de Helena e a oferta de saúde em serviços especializados em HIV/aids
— Wertton Luís de Pontes Matias
— Wertton Luís de Pontes Matias
A implementação, em escala global, de descobertas científicas que garantem controle clínico e/ou previnem à infecção pelo HIV, requalificou a relação do Ocidente com a aids. Na narrativa pública sobre a epidemia, há caminhos para superação nos quais medicamentos se somam a: a) ampliação da oferta de políticas baseadas nos direitos humanos; b) campanhas pela quebra de patentes de novos fármacos e; c) preocupações com o declínio dos financiamentos nacionais e internacionais para organizações da sociedade civil. Garantir direitos, acesso ao tratamento e participação cidadã compõem um tripé que visa colocar um fim à aids. Imerso no mundo social do HIV em João Pessoa, na Paraíba, identifiquei essa pulsão ética e política que guia as ações de resposta à epidemia, desde dentro. Entre fevereiro e setembro de 2025, pude visualizar que, nesse universo e na memória estatal, viver com HIV representa assumir uma carreira moral (Gomes da Cunha, 2002) onde a identificação do sujeito, sobretudo nos hospitais, precede da certeza de que, em adesão aos tratamentos, a aids não é mais um problema. Este é o pontapé para este trabalho. Em diálogo com ativistas, profissionais de saúde, gestores estaduais e a partir de pesquisa em arquivo, busco identificar as economias éticas da vida (Fassin, 2018) que definem modos, ou molduras, pelas/os quais o viver com HIV é enquadrado (Butler, 2009) nesses tempos de uma epidemia em vias de fim. Neste artigo, o fio condutor da discussão será o filho de Helena, um profissional de saúde. Meu encontro com ele, desde os corredores do Complexo Hospitalar de Doenças Infectocontagiosas Dr. Clementino Fraga até sua casa, inaugura o contato com histórias que revelam o que é a aids hoje. Meu objetivo será apresentar de que modo saúde e cuidado se fazem em relação, por um sujeito mediador que se torna go-betweens (Velho, 2001) entre o organismo estatal e a vida vivida. Mais que contar histórias, o filho de Helena disse ser um conciliador entre pessoas e medicamentos. Me interpelou a ver como regimes de precariedades propõem chaves de leitura relevantes sobre quais usos são imaginados para tecnologias que representam a excelência científica, para quais sujeitos. Algo que torna a aids uma epidemia em afinidade a necropolítica de administração dos adoecimentos e da exposição à morte (Castro, 2018; Mbembe, 2017), que serve como produção de valores à bioeconomia global, via precariedades oportunas. O filho de Helena será, nesse trabalho, uma fenda para visualização do que se encobre nessa paisagem epidemiológica cada vez mais negra, pobre, feminina e permeada por fábulas do fim (Maricato, 2020). Vidas que tensionam o que é, em saúde, emergências sanitárias.
-
Traços do tempo: notas sobre os entrelaçamentos entre diferença, cuidado e cronicidade
— William Paulino Rosa
— William Paulino Rosa
Esta apresentação se concentra em como pacientes e profissionais de saúde elaboram estratégias de cuidado para doenças crônicas, com atenção especial à hipertensão, no âmbito da Atenção Primária à Saúde (APS). A cronicidade assume um duplo sentido: refere-se tanto ao caráter duradouro da hipertensão, que exige tratamento de longo prazo, quanto à persistência de processos de diferenciação e desigualdades que moldam a prevalência da condição e o cuidado. Assim, sugiro que tais processos podem ser melhor compreendidos por meio da noção de intemperismo, termo da geologia que descreve fenômenos de erosão e desagregação do solo. Nesse contexto, o intemperismo ilustra como condições ambientais, precariedades, estresse e o acesso limitado aos serviços de saúde desgastam gradualmente o corpo, aumentando a incidência de doenças crônicas como a hipertensão em grupos específicos.
Minha pesquisa de doutorado investiga como a raça e os processos de racialização produzem efeitos no cuidado da hipertensão. Entre 2023 e 2024, realizei trabalho de campo etnográfico em um serviço de APS em São Paulo, acompanhando rotinas cotidianas e decisões que moldavam o manejo da hipertensão. Certa vez, durante o trabalho de campo, a médica de família responsável pelo acompanhamento de Geny afirmou, em reunião de casos clínicos: isso só está ocorrendo dessa forma em seu caso porque Geny é uma mulher negra e mora em um bairro periférico. Em outras palavras, a ausência de cuidado que enfrentava para tratar uma ferida no dedo dizia respeito à forma como diferenças e desigualdades iam, pouco a pouco, materializando-se no corpo por meio de um processo de intemperismo. À medida que acompanhava o caso, percebi que a lesão no dedo de Geny apenas piorava, segundo os profissionais envolvidos em seu atendimento. Pode-se dizer, ainda, que o problema de circulação enfrentado pela paciente estava intimamente relacionado ao fato de ela ser hipertensa, condição crônica de saúde prevalente na população negra brasileira e que pode provocar complicações caso a pressão arterial não seja devidamente controlada.
Apesar dos riscos da pressão elevada, ela pode ser controlada de modo eficiente com medicamentos de baixo custo, disponíveis nas farmácias das unidades básicas de saúde. Ainda assim, apenas uma em cada cinco pessoas com hipertensão consegue mantê-la sob controle, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Diante disso, surgem três questões centrais para essa apresentação: quem consegue controlar a pressão arterial de forma efetiva; de que maneira processos crônicos de diferenciação e desigualdade influenciam o cuidado de uma condição igualmente crônica; e como o intemperismo nos auxilia, teórica e metodologicamente, a refletir sobre a cronicidade.
Coordenação
Welliton Caixeta Maciel (UNB)
Luana Almeida Martins (UFRJ)
Pessoa debatedora
Jania Perla Diógenes de Aquino (UFC)
Juliana Melo (ufrn)
Roberta Fernandes Santos (PUC MINAS)
Este Grupo de Trabalho se propõe a reunir estudos empíricos baseados em pesquisas etnográficas desenvolvidas em diferentes espaços e práticas dos Sistemas de Justiça Criminal e Penitenciário – desde as audiências judiciais e a persecução penal, até o cumprimento de medidas restritivas de direitos e medidas privativas de liberdade (em ambientes prisionais, socioeducativos ou de restrição em meio aberto). A ideia é fomentar o diálogo entre investigações que analisem processos, práticas, rotinas, representações e moralidades que atravessam a justiça criminal e suas instituições. Serão bem-vindas contribuições que explorem as circulações e fluxos de pessoas e objetos, documentos e decisões, bem como as relações entre sujeitos sancionados, agentes estatais e demais atores envolvidos nesses contextos. A discussão em torno de metodologias relacionadas ao trabalho de campo será aceita quando permitirem discussões mais amplas sobre os desafios éticos da pesquisa etnográfica considerando as particularidades desses contextos, os quais são marcados pela coerção, pelo segredo institucional e por complexas dinâmicas de poder. Assim, busca-se, com este Grupo de Trabalho, constituir um espaço de troca interdisciplinar, reunindo pesquisadoras e pesquisadores das Ciências Sociais, da Antropologia, da Sociologia, do Direito e áreas afins, interessadas/os em compreender o funcionamento cotidiano dos sistemas mencionados.
Títulos e Resumos
-
Queima de Arquivo: Da Escravidão ao Cárcere Feminino e o Apagamento Documental da História Negra no Brasil
— Amanda Gonçalves Prado Quaresma
— Amanda Gonçalves Prado Quaresma
Este artigo parte de dois episódios separados por mais de um século: a queima dos arquivos da escravidão, ordenada por Ruy Barbosa em 1891, e a incineração de prontuários e registros de mulheres encarceradas no Presídio Feminino de Salvador/BA, em 2023, para analisar a destruição de documentos não como falha administrativa, mas como prática burocrática de apagamento racial e de gestão política da memória. Longe de gestos excepcionais, esses incêndios revelam uma racionalidade estatal que administra corpos, histórias e responsabilidades por meio da produção, seleção e eliminação de papéis. A pesquisa se apoia em análise documental, reconstrução histórica e descrição etnográfica de um episódio institucional, articulando literatura antropológica e sociológica sobre burocracia, arquivo e violência de Estado. No caso contemporâneo, o material empírico decorre da observação direta e dos relatos das integrantes do Patronato de Presos e Egressos da Bahia, que presenciaram a queima não autorizada judicialmente de prontuários individuais, fichas disciplinares, registros de visitas e mapas carcerários, classificados pela gestão prisional como arquivo morto. No plano histórico, o artigo revisita a destruição dos registros da escravidão como operação jurídica e administrativa voltada a impedir disputas indenizatórias, mas que produziu um apagamento estrutural da história negra no Brasil. Ao aproximar esses episódios, o artigo demonstra como o arquivo opera como tecnologia de poder, capaz de definir o que pode ser lembrado, o que pode ser esquecido e quem pode existir juridicamente no tempo. A destruição documental, nesse sentido, não elimina apenas provas ou registros administrativos, mas reorganiza narrativas, inviabiliza processos de reparação e reinscreve hierarquias raciais. Na prisão, onde o papel assume uma dimensão afetiva e vital, sua queima funciona como extensão da punição sobre corpos já vulnerabilizados, negando às mulheres encarceradas qualquer possibilidade de memória, reconhecimento ou reinscrição social. O artigo sustenta, por fim, que queimar arquivos não apaga o passado (ou antecedentes prisionais), mas governa o futuro por meio do esquecimento institucional daqueles corpos. Ao transformar vidas negras em cinzas documentais, o Estado reafirma sua capacidade de administrar a violência não apenas pela força e pelo encarceramento, mas também pela escrita e pela destruição da história.
-
Audiência de custódia nos casos da Lei Maria da Penha: uma análise a partir dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da cidade de Goiânia-GO
— Caroline Ramos Bacic
— Caroline Ramos Bacic
Esta pesquisa é mobilizada por uma lacuna na produção empírica qualitativa sobre audiências de custódia nos casos de violência doméstica e familiar contra as mulheres. Embora o instituto processual tenha sido bastante explorado em pesquisas empíricas, poucos estudos têm se debruçado sobre sua realização nesses casos, bem como sobre os distintos espaços institucionais nos quais o procedimento pode ocorrer. Em alguns contextos, a realização da audiência de custódia em Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (JVDFM) tem sido apresentada como uma solução institucional para conferir especialização ao procedimento, sendo este um arranjo ainda pontual e pouco analisado empiricamente. Diante disso, o objetivo do trabalho é compreender a dinâmica de funcionamento desses Juizados na realização das audiências de custódia e refletir sobre se e em que medida esse espaço institucional contribui para a qualificação do procedimento nos casos da Lei Maria da Penha. A pesquisa tem como base a observação de 44 audiências de custódia realizadas em três dos quatro JVDFM da cidade de Goiânia, acompanhadas ao longo de três semanas entre os meses de setembro e novembro de 2025. Como resultados parciais, pode-se apontar que os Juizados cumulam a realização das audiências de custódia e audiências de instrução, o que gera um alto volume de trabalho e uma rotina acelerada; as audiências de custódia, que iniciam a pauta do dia, são realizadas com pressa, visando eficiência e tendem a ser percebidas como secundárias em relação às de instrução. Ainda assim, verificam-se preocupações com o risco de feminicídio, conferindo visibilidade às vítimas, embora não raro atravessadas por uma ótica punitivista. A observação revelou cenários distintos entre os Juizados; em um deles, a ausência de experiência na temática da violência de gênero e o domínio limitado do Direito Penal/processual favoreceram práticas retributivas, autoritárias e uma adesão quase automática às teses acusatórias, reduzindo significativamente a permeabilidade às argumentações defensivas. Em dois Juizados, posturas punitivistas mostraram-se associadas à reivindicação simbólica da seriedade da violência contra as mulheres como se o reconhecimento da vítima dependesse do recrudescimento penal e à expectativa de dissuasão do comportamento violento. Sob essa perspectiva, variadas práticas, falas, modos de atuação e de tratamento dos presos revelam tensionamentos e uma percepção que opõe vítima e custodiado. Por outro lado, quando há especialização em violência de gênero e conhecimento crítico na área penal, observa-se maior equilíbrio entre atenção à vítima e garantias do custodiado, com decisões mais adequadas e melhor fundamentadas ao caso concreto, sem ampliação arbitrária do controle punitivo.
-
A Assistência Religiosa como Mecanismo de Controle e (Re)Significação: Um Estudo sobre as Crisálidas do Presídio Feminino Nilza da Silva Santos
— Danielle Henrique
— Danielle Henrique
Este estudo é parte de uma pesquisa mais ampla sobre a reinserção social de egressas e os mecanismos da assistência religiosa no Presídio Feminino Nilza da Silva Santos, em Campos dos Goytacazes/RJ. O objetivo é analisar como a prática, embora amparada por marcos legais como a Constituição Federal e a Lei de Execução Penal, é operacionalizada como instrumento de controle, distanciando-se de seu propósito de garantir a liberdade de crença. Como metodologia, trabalhou-se com um estudo de caso qualitativo, observando a hegemonia de grupos neopentecostais em contraste com a notória ausência de religiões de matriz africana. Os resultados preliminares indicam que essa falta de pluralidade força as detentas a aderirem a tais grupos como única alternativa para acessar benefícios materiais, como kits de higiene e contato com a família. Esta distribuição seletiva, embora não prevista em lei, cria um ciclo de dependência e cooptação, no qual a fé é condicionada à obtenção de recursos básicos. Com isso, a assistência religiosa, neste contexto, transcende a (re)significação subjetiva, convertendo-se em uma ferramenta de gestão penal que subverte o direito à liberdade religiosa e reproduz assimetrias de poder dentro do cárcere.
-
"Esses aí vão sair pra Papuda": os discursos de perigo no sistema de justiça juvenil do Distrito Federal
— Flávia de Freitas Cabral
— Flávia de Freitas Cabral
O juiz é a única autoridade competente para decretar a internação de um adolescente acusado pela prática de ato infracional em uma unidade socioeducativa. Cabe a ele analisar as provas do processo, formar o seu convencimento e decidir sobre a imposição da medida privativa de liberdade. Desde a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), os juízes da infância e juventude passaram a ser obrigados a fundamentar expressamente as suas decisões de acordo com os critérios definidos em lei, a fim de demonstrar as razões explícitas pelas quais se entende necessária a imposição da medida de internação. Apesar disso, há inúmeras lacunas no texto do ECA, de modo que, em muitos casos, a utilização de termos genéricos e conceitos indefinidos pela própria legislação possibilita que as fundamentações sejam legitimadas por discursos abstratos produzidos subjetivamente pelos juízes, ocultando, por vezes, as reais motivações das suas decisões. Na etnografia que realizei na Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal, pude analisar os discursos dos juízes que fundamentaram as decisões de internação provisória de adolescentes entre os anos de 2018 e 2022. Durante a pesquisa, verifiquei que haviam duas categorias que concorriam para a fundamentação das decisões: verdade e perigo. Como as decisões de internação provisória possuem caráter cautelar e são proferidas na fase inicial do processo, ainda não há elementos probatórios suficientes para determinar uma verdade jurídica sobre os fatos. Portanto, na impossibilidade de se declarar um discurso de verdade no momento inicial de um processo, as fundamentações das decisões de internação provisória se mostraram legitimadas por discursos de perigo. No processo de apuração de ato infracional, o juízo de periculosidade é realizado pelo magistrado que ao avaliar determinadas características pessoais na conduta de um adolescente, pode atribuir a ele a condição de perigoso, de forma que ele se torna uma ameaça à ordem pública. A avaliação de periculosidade é feita com base em uma suposta potencialidade do sujeito em representar uma personalidade criminosa que desestabilize a estrutura social. O discurso de perigo, portanto, está muito menos relacionado aos pressupostos fáticos do ato praticado e, muito mais às valorações pessoais que são feitas sobre os atributos morais do adolescente. Nesse sentido, pude compreender que, legitimar a privação de liberdade de um adolescente a partir de um discurso baseado no juízo de periculosidade sobre as qualificações morais do acusado, atenuando a relevância do ato infracional, é uma forma de reconhecer que o sistema juvenil ainda opera na lógica do biopoder para exercer o controle sobre os corpos dos indivíduos considerados perigosos, incorrigíveis e degenerados.
-
"Lá fora perde força porque não é uma facção de rua": O lugar do Povo de Israel no debate acadêmico sobre coletivos criminais
— Jaider dos Santos Costa
— Jaider dos Santos Costa
Este paper se trata de uma reflexão, ainda em caráter inicial, a respeito do lugar do Povo de Israel ("Rael") no debate acadêmico sobre coletivos criminais, passando pela diferenciação entre crime organizado, organizações criminais, facções criminosas e coletivos criminais. A primeira se tratando de uma categoria normativa. A segunda pautada em características mais operacionais, como a estrutura, o controle territorial e o mercado ilícito. A terceira representando um termo mais popularizado pelo discurso midiático. E a quarta como uma categoria mais fluida, pensando na identidade comum e nas formas de regulação internas. A discussão se dará a partir dos dados produzidos por meio de entrevistas realizadas com dois homens que estiveram no convívio prisional do Povo de Israel. Um já em liberdade e outro durante uma visita periódica ao lar (VPL). Ambos afirmam que o Rael não se trata de uma facção criminosa, pois, para eles, uma facção pressupõe atuação extramuros, com domínio territorial e tráfico de drogas, o que não é o caso do Povo de Israel, por ser composto, em sua maioria, por presos acusados de estelionato e estupro. Assim, buscarei analisar os dados produzidos nas entrevistas realizadas, comparando-os por contraste com a discussão acerca de outros coletivos criminais. Por fim, espero que com essa pesquisa possa propor dados iniciais que contribuam para o debate sobre as práticas e moralidades que marcam a especificidade do Povo de Israel.
-
Entre a suspeição e a sentença: perfilamento racial e a produção do sujeito criminoso no sistema de justiça brasileiro
— Jéssica de Oliveira Ferreira, Thiago dos Santos Martins Fidelis
— Jéssica de Oliveira Ferreira, Thiago dos Santos Martins Fidelis
Este artigo analisa o perfilamento racial nas decisões judiciais criminais a partir de uma abordagem interdisciplinar que articula a antropologia do direito, a sociologia e o campo jurídico. Com base em uma leitura etnográfica das práticas decisórias do sistema de justiça criminal, a pesquisa mobiliza referenciais teóricos dessas áreas, bem como a análise de jurisprudência de tribunais brasileiros, documentos institucionais e produções acadêmicas, compreendendo as decisões judiciais como práticas sociais e simbólicas produtoras de classificações e hierarquias. O estudo evidencia um tratamento paradoxal conferido pelo Poder Judiciário à temática do perfilamento racial: enquanto os Tribunais Superiores vêm desenvolvendo esforços normativos e interpretativos voltados ao reconhecimento e à mitigação de práticas discriminatórias, por meio da ampliação da leitura de dispositivos legais e da criação de protocolos institucionais, observa-se que, na prática decisória dos tribunais estaduais, persiste uma neutralidade formal que contribui para a reprodução do perfilamento racial nas sentenças e acórdãos. Argumenta-se que essa dinâmica opera como mecanismo de legitimação da punição e de preservação de uma estrutura racializada de poder, reforçando a construção social do homem negro como sujeito associado à criminalidade e reproduzindo hierarquias e formas de controle no âmbito da justiça penal.
-
Cultivando o Salvo-conduto: coleta e análise dos Habeas Corpus para o cultivo de maconha com fins medicinais
— João Luiz Rodrigues Bastos Pinto, Mário José Bani Valente, Frederico Policarpo, Gabriel Seixas Silva
— João Luiz Rodrigues Bastos Pinto, Mário José Bani Valente, Frederico Policarpo, Gabriel Seixas Silva
A pesquisa analisa o uso do Habeas Corpus como estratégia jurídica para a obtenção de salvo-conduto para o cultivo da planta cannabis para fins medicinais no estado do Rio de Janeiro, no período entre 2013 e 2023. Partindo da tensão entre a criminalização da maconha e o reconhecimento judicial de seu uso terapêutico, o estudo investiga o papel do Judiciário como mediador central na regulação do acesso à cannabis para uso medicinal no Brasil. Embora o acesso legal à maconha venha aumentando na última década, com a flexibilização de regras para a importação, com novos produtos nas farmácias e a disponibilização pelas associações canábicas, a judicialização continua a ser um elemento central. Como forma de melhor entender as características desse tipo específico de ação na justiça, chamada de judicialização do cultivo, foram levantados 596 processos do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2) por meio da Lei de Acesso à Informação (Lei nº 12.527/2011), dos quais 187 se referem à Justiça Federal do Rio de Janeiro. Desses, 32 processos se enquadram no recorte da pesquisa e tiveram suas sentenças analisadas qualitativamente a partir de um formulário estruturado aplicado no LimeSurvey. Os resultados indicam a ausência de consenso entre magistrados quanto à legitimidade do Habeas Corpus como via adequada para o cultivo, evidenciando fundamentações heterogêneas e a influência de moralidades situacionais acionadas pelos juízes nas decisões. A análise dialoga com a noção de construção do "paciente ideal" para a concessão do salvo-conduto, conforme apontado por Policarpo, Martins e Valente (2025), segundo a qual determinados perfis de saúde e condição socioeconômica tendem a ser privilegiados. Além disso, observa-se como diferentes operadores do direito mobilizam mecanismos e estruturas do Judiciário para sustentar seus argumentos ao longo dos processos. Conclui-se que, embora os Habeas Corpus representem avanços no reconhecimento jurídico da cannabis para fins medicinal, sua aplicação permanece limitada e excludente, revelando dinâmicas de judicialização arbitrárias e a ausência de políticas públicas abrangentes sobre o tema.
-
Dignidade e sentidos de justiça em contextos prisionais franceses e brasileiros: um panorama
— Juliana Melo
— Juliana Melo
A proposta é apresentar um breve quadro comparativo entre o sistema prisional francês e brasileiro, demonstrando relações de continuidade e de descontinuidade entre os dois países. Ao focar as noções de dignidade e substância moral proposto por Luís Cardoso de Oliveira (2021), busco refletir sobre práticas e os sentidos de justiça que se apresentam nos dois contextos. Igualmemte pretendo evidenciar como, ainda que a realidade francesa se diferencie da brasileira em muitos aspectos, o encarceramento é uma experiência traumática em ambos os países. Além disso, tanto o Brasil como a França parecem eleger políticas punitivistas como forma de controle social de populações marginalizadas, como negros e imigrantes. Fundamento-me em pesquisa empírica realizada em 2023 no Centro Penitenciário de Gradignan, em Bordeaux/França e em minha trajetória acadêmica - orientada na última década para reflexões sobre prisões brasileiras,
sobretudo no Rio Grande do Norte. Mais do que uma discussão teórica, a proposta é apresentar um relato sobre os dados e análises produzidas. Nesse sentido, muitas vezes, escolho um tom subjetivo e que demonstra, no sentido proposto por Favret-Saada (1990), minha afetação com as experiências vividas e as intepretações que delas produzi.
-
Perfil dos profissionais da socioeducação no Rio de Janeiro: uma pesquisa coletiva da Escola Estadual de Socioeducação - RJ
— Luana Almeida Martins, João Vitor Duarte Travassos, Isabelle Cardoso Varanda, Davi França Rodrigues
— Luana Almeida Martins, João Vitor Duarte Travassos, Isabelle Cardoso Varanda, Davi França Rodrigues
Este paper tem como objetivo apresentar os primeiros resultados de uma pesquisa coletiva realizada com profissionais que atuam na socioeducação no estado do Rio de Janeiro, realizada por nós, como membros da equipe de pesquisa da Escola Estadual de Socioeducação do estado do Rio de Janeiro (EES-RJ), com apoio da Secretaria de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos (SEDSODH) e da Escola de Gestão Socioeducativa Paulo Freire do Departamento Geral de Ações Socioeducativas (ESGSE-Degase). A Escola Estadual de Socioeducação (EES-RJ) foi implementada no ano de 2025, seguindo a Resolução nº 244, de 26 de fevereiro de 2024, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente CONANDA, que busca estabelecer uma formação continuada que garanta os direitos humanos de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas em meio aberto ou fechado, por meio do aperfeiçoamento dos profissionais que atuam no âmbito da socioeducação (meio aberto e fechado), bem como o oferecimento de eventos e ações de pesquisa e extensão. Nesse contexto, a pesquisa realizada pela EES-RJ teve como principal objetivo mapear, por intermédio de um estudo exploratório, o perfil de trabalhadores que atuam em medidas socioeducativas em meio aberto e meio fechado, a partir de uma coleta de dados realizada entre os meses de maio e setembro de 2025, por meio da qual foram acessados 245 profissionais que trabalham com a socioeducação no estado do Rio de Janeiro. Para isso, adotamos duas abordagens distintas. A primeira foi realizada a partir da aplicação de um questionário pelo Google Forms, preenchido de modo auto instrucional por profissionais que atuam no meio aberto e fechado na socioeducação do Rio de Janeiro. A segunda foi a realização de entrevistas com estes profissionais, o que se deu de forma remota síncrona (via Google Meets) por pesquisadores de diferentes níveis de formação. Trata-se, portanto, de uma pesquisa quantitativa e qualitativa, que tem como objetivo principal produzir dados sobre o perfil, a formação acadêmica e profissional e as condições de trabalho de profissionais do sistema socioeducativo fluminense.
-
Da expectativa à realidade: Representações sociais da monitoração eletrônica no Distrito Federal
— Marcos Aurélio Sloniak
— Marcos Aurélio Sloniak
Este trabalho analisa a política de monitoração eletrônica no Distrito Federal a partir de uma análise institucional do sistema de justiça criminal. A pesquisa compreende a monitoração eletrônica não apenas como instrumento técnico-jurídico, mas como um dispositivo penal historicamente construído por discursos políticos, legislativos e institucionais que orientaram sua incorporação ao ordenamento jurídico brasileiro e moldaram as possibilidades de utilização.
O estudo articula a reconstrução histórica dos debates político-criminais que resultaram nas leis federais responsáveis por introduzir a medida no campo penal com a análise empírica de sua implementação no Distrito Federal, no recorte de 2017 a 2024, com base em dados administrativos oficiais, observação institucional, entrevistas em profundidade com operadores do sistema de justiça criminal e procedimentos sistemáticos de triangulação analítica.
A investigação abrange a observação do Centro Integrado de Monitoração Eletrônica CIME com foco nas práticas decisórias, fluxos documentais, rotinas administrativas e padrões recorrentes de fundamentação relacionados ao uso da monitoração eletrônica tanto no âmbito das medidas cautelares quanto da execução penal, demonstrando as diferenças formais, procedimentais e simbólicas em cada uma das finalidades.
Embora juridicamente distintos, esses usos tendem a ser operacionalizados de forma convergente no cotidiano institucional, produzindo continuidades no exercício do controle penal. A partir da Teoria das Representações Sociais (TRS), entrevistamos 18 atores entre magistrados, membros do Ministério Público, Defensores Públicos e gestores, para compreender como eles mobilizam categorias envolvendo riscos, disciplina, controle, periculosidade, confiança e credibilidade para legitimar as decisões e sustentar ou não o uso da tecnologia.
Os resultados indicam que, apesar de os discursos políticos e normativos associarem a monitoração eletrônica a uma racionalidade de eficiência e de modernização da punição, tanto no aspecto não encarcerador (front door) e desencarcerador (back door), sua utilização no DF é fortemente marcada pela prevalência de modelos penais de matriz clássica, centrados na vigilância, na contenção e na análise criteriosa dos sujeitos sancionados principalmente na execução penal, contrapondo a realidade predominante no Brasil.
Essa lógica contribui para conter a banalização do uso da tecnologia, racionalizando o modelo convencional de progressão previsto na LEP, e evitando, ao que é possível, o risco da extensão do controle penal em meio aberto, que redefiniu pragmaticamente as fronteiras entre a prisão convencional e a liberdade vigiada.
-
A Justiça Juvenil e a Recomendação 62 do Conselho Nacional de Justiça na vida dos adolescentes ou "menores infratores" .
— Raymundo Nonato de Almeida Santos
— Raymundo Nonato de Almeida Santos
O trabalho a ser apresentado é fruto da dissertação de mestrado defendida no ano de 2024 junto ao Programa de Pós-graduação em Justiça e Segurança da Universidade Federal Fluminense. De forma inicial, apresento um levantamento quantitativo realizado nos anos de 2020 a 2022, durante a pandemia do Covid-19, das decisões que foram proferidas nos habeas corpus que fizeram menção a Recomendação 62 do Conselho Nacional de Justiça, editada com intuito de evitar a propagação do vírus, no âmbito do sistema de justiça juvenil, e que foram impetrados, ou seja, distribuídos perante o tribunal de justiça do estado do Rio de Janeiro. A referida recomendação tinha como objetivo principal orientar os magistrados visando a liberação dos adolescentes que se encontravam internados nas unidades do sistema socioeducativo do Departamento Geral de Ações Socioeducativas - DEGASE. A referida recomendação abrangia tanto o sistema prisional quanto o sistema socioeducativo. O objetivo geral deste trabalho será compreender, quais mecanismos argumentativos foram acionados pelos desembargadores e juízes ao produzirem suas decisões, observando os critérios estabelecidos como orientação da citada recomendação. Como observado durante o trabalho de campo realizado no curso do mestrado que foi possível produzir uma etnografia, os adolescentes ingressam no sistema juvenil que se inicia numa delegacia e segue para o judiciário onde são julgados por uma vara especializada da infância e da juventude e posteriormente no tribunal de justiça julgado por uma câmara criminal. Portanto, a intenção deste trabalho será propor a continuidade de uma pesquisa de caráter etnográfico, partindo inicialmente desse levantamento, buscando compreender empiricamente a construção das decisões e das categorias acionadas. O objetivo tem como base de reflexão teórica, identificar de forma qualitativa, quais foram os impactos da Recomendação 62 do CNJ. O ponto principal consiste em apresentar uma abordagem analítica, nos HCs destacando as categorias nativas acionadas pelos julgadores na elaboração dos acórdãos. Apresento de forma descritiva, quais os argumentos utilizados pelos julgadores para não conceder a liberdade aos adolescentes. Irei trabalhar três categorias nativas: decisões etiquetadas; menores infratores e nefasto ambiente criminoso. Proponho uma análise contrastiva com os sistemas juvenis da cidade do Rio de Janeiro e na cidade de Buenos Aires sobre seus funcionamentos e os impactos sociojurídicos durante o período da pandemia que impactou mundialmente os sistemas de encarceramento, seguindo a trajetória de pesquisas realizadas no âmbito do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos - InEAC - UFF.
-
Entre grades e direitos: quando a universidade aprende a entrar na prisão
— Rodrigo Martins Azevedo
— Rodrigo Martins Azevedo
O Programa de Formação Superior para Pessoas Privadas de Liberdade (PROPPL) constitui a primeira experiência no Brasil de oferta de um curso de graduação integralmente presencial no interior de uma unidade prisional. Idealizado pela professora Karina Biondi, na Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), o programa se inscreve como uma política afirmativa voltada à ampliação do direito à educação superior em contextos de privação de liberdade. Em sua fase inicial, o curso de Serviço Social é ofertado simultaneamente na Unidade Prisional Feminina de São Luís (UPFEM) e no campus Centro Histórico da UEMA, destinado a egressas e egressos do sistema prisional. Embora sessenta vagas tenham sido inicialmente disponibilizadas, a efetivação do curso ocorreu apenas no segundo semestre de 2025, após mais de dois anos de trâmites burocráticos, negociações interinstitucionais e acordos com diferentes órgãos do Estado.
Desde dezembro de 2024, atuo como assistente da coordenação do PROPPL, acompanhando etnograficamente os processos de divulgação, inscrição e matrícula. Essa inserção permitiu observar, de perto, os desafios específicos que atravessam a implementação do curso, exigindo estratégias constantes de mediação entre a lógica universitária e os regulamentos do sistema prisional. No cotidiano da turma interna, na UPFEM, as dinâmicas acadêmicas são tensionadas pela atuação da equipe dirigente da unidade as chamadas auxiliares agentes penitenciárias que, para além das rotinas institucionais, intervêm diretamente na experiência educacional das alunas, seja por meio da suspensão do jantar, seja pela interdição da presença em sala de aula como forma de punição por mau comportamento. Já na turma externa, composta por egressas e egressos, as tensões se concentram no campo jurídico, sobretudo na dificuldade de obtenção de autorizações judiciais para o comparecimento regular às aulas.
A partir dessas cenas de campo, este trabalho analisa a implementação do PROPPL, atentando para as estratégias de gestão das burocracias mobilizadas para garantir o acesso ao ensino superior em condições adversas. Ao privilegiar uma escrita etnográfica, o texto busca evidenciar como as alunas e os egressos negociam, resistem e produzem sentidos no interior de instituições marcadas pela criminalização e pela subalternização de saberes. A análise pretende contribuir para o debate sobre os limites e as possibilidades da universidade pública frente às políticas penais e às disputas em torno do direito à educação.
-
Punição eletronicamente monitorada: percursos etnográficos multissituados em movimento, entre Brasil e França
— Welliton Caixeta Maciel
— Welliton Caixeta Maciel
Este trabalho enfoca as experiências vividas de pessoas monitoradas com tornozeleiras eletrônicas durante o cumprimento de medidas judiciais, no Brasil e na França, a partir de incursões em trabalho de campo de cunho etnográfico multissituado em movimento nos serviços penitenciários nos dois países. Considerando que o corpo das pessoas monitoradas tem sido o lugar/espaço/tempo da punição e dos controles psico(tecno)políticos, objetivou-se compreender as narrativas desses indivíduos marcados pela monitoração, as interações e tensões no/do corpo monitorado e deste com outros corpos (de agentes estatais, de familiares, de pessoas próximas e outras), em seus aspectos teóricos e práticos, morais e não institucionalizados, pânicos morais a partir deles acionados e representações sociais elaboradas a partir do senso comum sobre e para além desses corpos em seus diferentes marcadores sociais (de gênero, classe, etnia/raça, geográficos, entre outros). Os contextos e as singularidades das experiências das pessoas monitoradas na tentativa de adaptação às demandas dos aparelhos estatais de gestão da monitoração eletrônica, tais como pólos e/ou centrais de monitoração, bem como de serviços de reinserção social, quando existentes (como no caso da probation francesa, com seus protocolos de acolhimento e acompanhamento durante o cumprimento das medidas impostas pela Justiça), evidenciam que, ao contrário dos objetivos oficialmente declarados pelos governos em suas políticas criminais, a monitoração de pessoas com tornozeleiras eletrônicas tem sido um recurso tecnológico de esquadrinhamento e contenção de corpos (des)governados em tempos e espaços (in)controláveis, em ambos os países, diante do momento punitivo, sob a égide do continuum carcerário racializado instrumentalizado por indústrias da segurança e da punição.
Coordenação
Natália Lago (UNIRIO)
Vanessa Sander (UFMG)
Pessoa debatedora
Roberto Efrem Filho (UFPE)
Juliana Farias (UERJ)
Este Grupo de Trabalho objetiva reunir etnografias realizadas em contextos de violência, criminalização e encarceramento. Para tanto, toma "violência" como categoria densamente plurívoca e produtiva, que alude a práticas, experiências, linguagens, razão de denúncia e contextos, servindo como relevante vetor analítico e político. Além disso, divisa "crime" não apenas como o resultado da previsão normativa estatal, mas sobretudo como relação social e razão de governo, processo de criminalização constituinte de sujeitos, corpos e territórios. Por sua vez, compreende "encarceramento" considerando as abordagens que discutem os modos pelos quais a prisão se infiltra em territórios e relações para além daquelas circunscritas pelas unidades penitenciárias. Tendo em vista a crescente proeminência dessas etnografias na antropologia brasileira, este GT se propõe a aglutinar trabalhos que tematizem, por exemplo: a) os desafios, potencialidades e limites metodológicos de empreender pesquisas etnográficas nesses contextos, levando em conta especialmente a cumplicidade entre a escrita da violência e a sua incitação; b) os efeitos dos contextos de pesquisa em mobilizações sociais, lutas por direitos e justiça e a produção ou negação de sujeitos de direitos; c) as imbricações entre experiências de violência, criminalização e/ou encarceramento e categorias de diferença como gênero, sexualidade, raça, classe, geração e territorialidade.
Títulos e Resumos
-
Pânico moral e violência discursiva na recepção e repercussão no meio digital de políticas socioeducativas no Rio Grande do Norte
— Daizio Lopes Bezerra Neto, Eliane Anselmo da Silva, Elcimar Dantas Peretra
— Daizio Lopes Bezerra Neto, Eliane Anselmo da Silva, Elcimar Dantas Peretra
Embora não situado fisicamente no interior de uma unidade prisional, este trabalho dialoga com a proposta do GT ao investigar a capilaridade da lógica carcerária no tecido social. Compreende-se aqui que o encarceramento não se encerra nos muros da prisão, mas se estende através de discursos punitivos que buscam, no espaço público digital, perpetuar a criminalização e interditar os processos de ressocialização via ensino. O objetivo central é analisar as relações de poder-saber presentes na recepção social de políticas públicas de incentivo educacional e financeiro para jovens em cumprimento de medida socioeducativa no Rio Grande do Norte. O recorte empírico concentra-se na análise de um acontecimento discursivo específico: uma publicação em um portal de notícias de grande circulação na cidade de Mossoró-RN, a qual gerou mais de duzentos comentários públicos. Metodologicamente, articula-se a netnografia à Análise do Discurso de orientação foucaultiana. Para a sistematização e análise, os dados foram organizados em uma planilha estruturada em três eixos: 1) Trecho do Comentário, contendo a transcrição ipsis litteris da fala extraída; 2) Categoria Nativa, destinada à classificação dos termos utilizados pelos comentaristas, adotando-se a distinção proposta por Clifford Geertz (1983) entre "conceitos de experiência próxima" e "conceitos de experiência distante", sendo a expressão utilizada aqui para referir-se ao vocabulário êmico dos atores sociais; e 3) Análise Foucaultiana, reservada à interpretação teórica sobre a quais regimes de poder tais discursos atendem e quais efeitos de verdade colocam em circulação. O estudo investiga como a "ordem do discurso" presente nesses dados opera na manutenção de estigmas, produzindo um regime de verdade que antagoniza a identidade de "estudante" à de "infrator". Observa-se preliminarmente que, embora a normativa estatal busque a ressocialização via escolarização, o dispositivo discursivo social atua na "gestão dos ilegalismos", interditando simbolicamente a reintegração desses jovens. Tal interdição é legitimada por uma moralidade punitiva que se apresenta, na visão dos comentaristas, como a única ética possível. Ao rotular o auxílio como indevido, o discurso social exerce um poder disciplinar que visa fixar o sujeito na posição de um corpo indigno ao estudo, deslegitimando as práticas pedagógicas propostas pelo Estado. A hipótese central é que esses comentários funcionam como uma microfísica de poder que, ao circular socialmente, constrói barreiras subjetivas e culturais impeditivas à efetivação do ensino no contexto socioeducativo.
-
Escrever da prisão: artivismo feminista no Centro de Readaptação Social (CERESO) de Atlacholoaya
— Kamilla Santos da Silva
— Kamilla Santos da Silva
Este trabalho propõe uma reflexão metodológica sobre a realização de etnografias em contextos de violência e encarceramento a partir da experiência de pesquisa desenvolvida no México junto a coletiva Hermanas en la Sombra. O coletivo, fundado em 2008, constitui uma iniciativa central que articula mulheres privadas de liberdade do Centro de Readaptação Social (CERESO) de Atlacholoaya, no estado de Morelos, com ativistas e acadêmicas externas, rompendo o isolamento imposto pelo confinamento carcerário. Até o momento, conta com mais de 17 publicações produzidas no interior da prisão. Sua atuação se estrutura a partir do artivismo feminista, entendido como a articulação entre práticas artísticas e ação política, com ênfase na escrita identitária como prática coletiva, analítica e política. A partir do acompanhamento de oficinas de escrita e dos processos de circulação pública das narrativas produzidas pelas mulheres internas, discute-se a escrita não apenas como técnica de registro, mas como método etnográfico compartilhado, capaz de deslocar hierarquias de autoria e de reconfigurar a relação entre pesquisadora, interlocutoras e instituição penitenciária. Argumenta-se que a etnografia colaborativa, mediada pela escrita, exige atenção permanente às condições de produção do campo e aos efeitos da pesquisa, contribuindo para o debate antropológico sobre métodos de pesquisa em contextos de violência.
-
"Isso só tem na cadeia dos homens": notas sobre uma prisão não faccionada
— Karina Biondi
— Karina Biondi
Esta proposta é resultado de pesquisa que vem sendo realizada na Unidade Prisional Feminina de São Luís (UPFEM), Maranhão desde 2022. A UPFEM é uma prisão destinada à custódia de internas provisórias e sentenciadas da capital maranhense, mas também de várias outras cidades do estado que não possuem prisões femininas. Considerada modelo de gestão por seu reconhecimento nacional, a UPFEM tem uma população prisional de cerca de 300 mulheres que, em sua maioria, realizam atividades laborais e/ou educacionais.
A população prisional masculina da capital maranhense é dividida em unidades prisionais de acordo com a lógica das facções. Existe unidade destinada a presos do CV e PCM, outra para presos do PCC, unidades do Bonde dos 40, além de uma prisão neutra e outra para abrigar presos do chamado seguro (aqueles que correriam risco de morte em outras prisões). Diferentemente, a UPFEM não responde a essa lógica. Isso não quer dizer que não existam mulheres presas naquela unidade que tenham anteriormente participado de facções; elas também ficam na UPFEM e, mais do que isso, convivem umas com as outras, dado que não existem mecanismos para separá-las por facções.
O que vemos operando na unidade não é apenas uma gestão de uma prisão não faccionada, mas também uma gestão para uma prisão não faccionada. Além dos mecanismos de inibição da manifestação das facções já existentes no estado, loperam, na UPFEM, o que venho denominando tecnologias de dissociação. Por meio delas, a administração interrompe fluxos de colaboração, evita a cristalização de parcerias, restringe manifestações de solidariedade.
Nesta apresentação, buscarei descrever etnograficamente esses mecanismos e tecnologias que fazem emergir, na UPFEM, uma prisão não faccionada em meio a um contexto intensamente faccionado.
-
Cuidado em liberdade e produção de dignidade para pessoas que fazem uso de substâncias psicoativas: uma etnografia coletiva em uma organização da Sociedade Civil
— Keila Silene de Brito e Silva, Camila Pimentel
— Keila Silene de Brito e Silva, Camila Pimentel
O presente trabalho analisa a produção de cuidado para pessoas que fazem uso de drogas, destacando os impactos da guerra às drogas como dispositivo colonial e necropolítico que legitima violências e exclusão social. Argumentamos que a racionalidade neoliberal, associada ao racismo estrutural sustenta estratégias centradas na abstinência, criminalização e confinamento. Em contraposição, o paradigma da redução de danos (RD) emerge como proposta ética e antirracista, orientada pela autonomia, dignidade, liberdade e integralidade do cuidado. O presente texto é fruto da pesquisa intitulada Itinerários de cuidados com a saúde sexual e reprodutiva das mulheres que fazem uso prejudicial de drogas: um estudo de caso na cidade do Recife. Utilizamos como método a etnografia coletiva para compreender experiências no Centro de Convivência da Escola Livre de Redução de Danos (ELRD). Entre março e dezembro de 2024, foram acompanhadas dinâmicas semanais, com observação participante e registro sistemático das interações. Os achados revelam vulnerabilidades interseccionadas por gênero, raça e uso de substâncias, evidenciadas em narrativas de mulheres cis e trans em situação de rua. Histórias como as de Capibaribe, grávida e temerosa de perder a guarda da filha, e Beberibe, vítima de violência transfóbica, ilustram barreiras ao acesso a direitos sexuais e reprodutivos e à proteção contra violências. A ELRD, que tem a RD como horizonte organizativo do cuidado ofertado, se configura como espaço de resistência e hospitalidade, promovendo cuidado integral, fortalecimento pessoal e promove práticas que que visam romper os estigmas. Conclui-se que estratégias territorializadas baseadas na RD e pautadas na dignidade e nos direitos humanos, são fundamentais para enfrentar as violações produzidas pela cultura proibicionista, ainda presente nas políticas sobre drogas. O estudo reforça a necessidade de políticas públicas sensíveis às múltiplas existências, reconhecendo usuários como sujeitos de direitos e interlocutores na construção de práticas de cuidado.
-
DINÂMICAS DE APROXIMAÇÃO: tipologia da inserção e permanência das mulheres no tráfico de drogas em Brasília e na Cidade do México.
— Ludmila Gaudad Sardinha Carneiro
— Ludmila Gaudad Sardinha Carneiro
O trabalho apresenta parte dos resultados de uma pesquisa desenvolvida no contexto da significativa ampliação do número de encarcerados em todo o mundo, ocorrendo concomitantemente à complexificação das estratégias proibicionistas, à utilização do encarceramento em detrimento de alternativas penais, à manutenção da prisão preventiva como política criminal e ao recrudescimento das penas. Destaca-se o fato de que particularmente o aprisionamento de mulheres aumentou nas últimas duas décadas, tendo ocorrido proporcionalmente mais intensamente que o de homens.
Realizada durante o doutoramento, a investigação comparativa se deu nas cidades de Brasília e Cidade do México, nas quais experenciou ampla etnografia registrada em audiovisual, bem como utilizou técnicas quantitativa e qualitativa, sendo esta última produzida a partir de entrevistas em profundidade semi-estruturadas e da recuperação de trajetórias de vida por meio de oficinas sobre a escrita de si.
Apresentou-se que o crescimento da privação de liberdade das mulheres está ligado à criação e modificação de leis sancionadoras do tema, à crescente circulação de drogas, e especialmente à recente complexificação da atuação de mulheres na produção, venda e distribuição destas substâncias criminalizadas.
Com olhar crítico em relação ao hiper-encarceramento de mulheres traficantes, refletiu sobre o contexto gendrado que cerca este fenômeno multifacetado por meio do esquadrinhamento das dinâmicas de aproximação de mulheres ao tráfico de drogas nas duas capitais, objetivando identificar sua heterogeneidade, evidenciando os intrincados meandros percorridos pelas mulheres em suas trajetórias de vida até chegarem ao primeiro contato com as drogas.
O resultado foi a elaboração/análise de uma tipologia de treze meios de aproximação ao tráfico de drogas que compõem três grandes chaves-explicativas ancoradas nas situações de vulnerabilidade a que as mulheres estão expostas nas sociedades investigadas. Porém, por meio da captação das atuais especificidades da presença feminina no tráfico de drogas - entendendo estas em uma interação simultânea e articulada entre uma escolha pessoal e o produto de relações sociais interseccionadas prioritariamente com classe e raça -, pretendeu-se evidenciar também a fluidez das categorias de agência e subjugamento em suas trajetórias de envolvimento e permanência com/no tráfico de substâncias ilícitas, bem como as experiências possíveis dentro desta rede criminalizada. Isto porque além da (re)vitimização destas mulheres, a diversidade do tráfico de drogas também expõe casos de protagonismo feminino e desestabilização dos enrijecidos papéis sociais de gênero, ainda que pelo cometimento de ações consideradas criminosas e que estas rupturas se deem em número relativamente reduzido.
-
O controle policial em relação: uma análise das dinâmicas relacionais no controle externo da polícia pelo Ministério Público de São Paulo
— Marina de Oliveira Ribeiro
— Marina de Oliveira Ribeiro
Este trabalho tem como objetivo analisar antropologicamente o controle externo da polícia exercido por/pelas promotores(as) do Ministério Público de São Paulo, a partir do GAESP (Grupo de Atuação Especial de Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial). Partindo tanto de dados etnográficos de campo sobre um encontro com promotores e associações/sindicatos de policiais, ocorrido no ano de 2025, quanto de entrevistas com membros do GAESP, busco jogar luz para as dinâmicas relacionais estabelecidas no controle externo da Polícia. As relações mais evidentes ocorrem entre controlador e controlado, ou seja, entre policiais e promotores(as). Tais vínculos são, em muitos momentos, percebidos pelos/pelas promotores(as) como uma colaboração, já em outros momentos, são entendidos como desafiadores. Além disso, o trabalho coloca em relevo o modo como as dinâmicas relacionais institucionais do Ministério Público influenciam na composição do GAESP e em seus destinos, como no caso da alternância bianual de Procurador-Geral de Justiça. Argumento que tais nuances relacionais constituem um dos fatores que balizam as diferentes abordagens acerca do controle externo das polícias. Assim, ao tomar a violência policial como fio condutor da análise, examino de que modo as dinâmicas relacionais tornam visíveis os momentos, os sujeitos e as situações em que a violência emerge como elemento central do controle policial.
-
Gestão estatal da forma miliciana
— Roberto Efrem Filho
— Roberto Efrem Filho
31 de março de 2025. Carlos Eduardo, um dos membros do Setor de Direitos Humanos do MST de Pernambuco, informa em nosso grupo de WhatsApp que dez sem-terra sofreram ameaças graves de policiais militares e do prefeito de Alvorada, um pequeno município do sertão do estado. Identificados com o Invasão Zero, esses agentes públicos teriam dito que “colocariam pra fora” os militantes do MST que alugaram uma casa na cidade para aglutinar trabalhadores com vistas à ocupação de terras na região e à reivindicação da reforma agrária. Preocupado, Carlos explica que orientou os militantes a consultarem a direção do movimento para decidir como agir com maior segurança.
1 de abril de 2025. Carlos Eduardo comunica que se encontra no Ministério Público estadual e conversou com os dois promotores de justiça responsáveis pela atuação ministerial junto a conflitos fundiários, interlocutores dos membros do Setor há alguns anos. Os dois promotores estavam prestes a ingressar numa reunião on-line com a PM local e a promotoria de um município próximo. Pretendiam que o protocolo de atuação policial em conflitos fundiários, firmado entre os representantes do MP e das polícias civil e militar em 2024, fosse cumprido. Preocupava os promotores o fato de que, naquela manhã, 8 “pistoleiros” armados invadiram a casa dos sem-terra, vasculhando o imóvel e intimidando os militantes para que deixassem o local.
Neste trabalho, analiso dimensões da gestão estatal da “forma miliciana”, expressão comum de práticas de composição entre agentes públicos e privados em conflitos armados alusivos ao controle de populações e territórios. A partir de uma pesquisa etnográfica de longa duração e derivada de minha implicação no Setor de Direitos Humanos do MST de Pernambuco, perscruto sobretudo os modos como: a) práticas de associação entre agentes públicos e privados, a priori classificáveis como ilegais, sofrem certa filtragem junto a determinados agentes oficiais e processos de Estado; b) essa filtragem aduz a disputas em torno do que seria o empenho da violência legítima; c) as iniciativas de “pacificação do conflito” produzem certo efeito de paridade entre os sem-terra e os proprietários de terras locais, dando a entender que de ambos os lados pode emergir a violência que deve ser evitada; e d) tal efeito de paridade enseja, contudo, a possibilidade que os sem-terra serem tomados como sujeitos de direitos aptos à negociação e à reivindicação, por canais institucionais, da destinação de terras à reforma agrária. Para tanto, valho-me do registro das discussões no Setor de Direitos Humos do MST a respeito do caso; da análise dos procedimentos instaurados no MP a fim de mediar o conflito; e de conversas com os militantes do MST envolvidos nas mobilizações de 2025 em Alvorada.
-
Justiça que mede, justiça que apaga: indígenas encarcerados no Amazonas
— Sued Felix Ruiz
— Sued Felix Ruiz
Este trabalho apresenta resultados iniciais da pesquisa de mestrado acerca do encarceramento de indígenas no Amazonas a partir das práticas ordinárias do sistema de justiça criminal, da administração penitenciária e da segurança pública. Parto de uma análise geral de que, embora haja um crescimento recente de legislações, resoluções e ações institucionais voltadas para a garantia de direitos indígenas, o número de indígenas encarcerados no estado segue aumentando, ao mesmo tempo em que se movimenta um amplo processo de invisibilização dessas pessoas, especialmente fora das unidades prisionais formalizadas.
O ponto de partida da pesquisa é a cena da Chacina do Compaj, ocorrida em 2017, quando cinco indígenas foram mortos em uma cela de seguro externo. O caso convida compreender como o Estado aponta as razões da morte dos indígenas encarcerados devido ausência de identificação, de protocolos ou de políticas específicas. No entanto, a pesquisa desloca essa chave interpretativa ao buscar compreender não a ausência, mas a presença ativa de práticas colonialistas na produção de dados, de direitos e de justiça. Interessa compreender como essas práticas são atualizadas nas entrelinhas das legislações, recomendações, documentos judiciais, eventos institucionais e ações de promoção de justiça.
A partir de etnografia de documentos, análise de dados oficiais e extraoficiais e entrevistas realizadas em Manaus e em São Gabriel da Cachoeira, argumento que a autodeclaração indígena é sistematicamente subestimada no contexto da criminalização. Há uma régua colonialista de medição da indianidade, na qual indígenas são considerados integrados, descaracterizados ou mesmo transformados em pardos quando atravessam a porta de entrada ao cárcere. O crime aparece como um marcador que suspende direitos específicos e autoriza a intervenção estatal, reforçando práticas assimilacionistas e integracionistas.
As ações institucionais analisadas, como traduções da Constituição, cartilhas em línguas indígenas e grupos de trabalho, revelam esforços de visibilização que, paradoxalmente, pouco incidem sobre as experiências e realidades concretas de indígenas encarcerados na produção cotidiana de violências. Assim, o cárcere aparece como um espaço de governo colonial que produz sujeitos, apaga identidades e redefine quem pode ou não ser reconhecido como indígena. O trabalho contribui para o debate etnográfico sobre violência, criminalização e encarceramento ao evidenciar como o Estado produz justiça e violência simultaneamente, não em sua suposta ausência, mas por meio de suas práticas ordinárias.
-
Quando o corpo vira papel: etnografia dos laudos periciais de necropsia nos RPMs do BOPE (2023-2024)
— Thales Santos da Cruz, Amanda Gonçalves Prado Quaresma
— Thales Santos da Cruz, Amanda Gonçalves Prado Quaresma
O corpo caiu no chão. A operação terminou. Agora, o policial precisa decidir o que fazer com aquele corpo, afinal, a morte inaugura uma sequência de procedimentos, formulários e narrativas que transformam o cadáver em documento. Este artigo parte dessa cena para refletir sobre como a letalidade policial é administrada a partir de dentro, tomando os documentos como ponto de observação privilegiado. Ao olhar a morte pela ótica do policial e da burocracia que a absorve, investigamos como o corpo morto passa a existir sobretudo como papel dentro dos documentos policiais. A pesquisa se baseia na análise sistemática do universo total dos Registro Policial Militar (RPM) instaurados pelo BOPE nos anos de 2023 e 2024, com foco nos laudos periciais produzidos pelo IML Afrânio Peixoto, no Rio de Janeiro. O RPM é o procedimento instaurado no âmbito da Justiça Militar desse estado para apurar exclusivamente mortes decorrentes de intervenção policial, de modo que o conjunto documental analisado corresponde à totalidade de pessoas mortas pelo BOPE nesse período. Os documentos foram acessados por meio de trabalho de campo etnográfico realizado nas Promotorias de Justiça junto à Auditoria Militar, órgão responsável pelo controle externo da atividade policial, o que permitiu acompanhar o fluxo institucional desses procedimentos e suas lógicas internas de produção documental. Esses registros revelam narrativas padronizadas, descrições econômicas dos fatos e uma escrita orientada pela antecipação da leitura jurídica: o agente, ao depor, e o perito, ao produzir o laudo, parecem responder menos ao acontecimento e mais à pergunta tácita: o que é juridicamente aceitável registrar? Assim, a perícia surge como elo central entre morte, burocracia e produção de verdade, contribuindo para um congestionamento documental que administra corpos e responsabilidades. Após, sistematizamos dados quantitativos para traçar o perfil das vítimas da letalidade do BOPE, evidenciando um padrão reiterado de vitimização masculina, jovem e negra, indicativo da seletividade dessa letalidade, bem como informações sobre registro paterno, vestimenta no momento da morte, existência de tatuagens, local de residência, número de disparos, principais regiões do corpo atingidas etc. No mais, ao analisar a morte como processo burocrático, o artigo evidencia como a violência letal se estabiliza por meio de papéis, formulários e narrativas técnicas: o corpo, ao ser transformado em documento, deixa de interromper a rotina institucional e passa a alimentá-la, permitindo compreender não apenas como se mata, mas como se escreve a morte, e como essa escrita sustenta a administração cotidiana da violência estatal.
Coordenação
Soraya Fleischer (UNB)
Marcia Reis Longhi (UFPB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Raquel Lustosa da Costa Alves (UFPE)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Tatiane Vieira Barros (IFCE)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Elaine Reis Brandão (UFRJ)
A antropologia da saúde sempre esteve nas instituições de saúde. Em geral, estas instituições têm sido descritas como repletas de gates e gatekeepers que, depois de alguma negociação e autorização, permitem nossa entrada, circulação e permanência. Com frequência, estes espaços são mencionados instrumental e rapidamente nos capítulos ou seções metodológicos. Depois, os serviços de saúde oferecidos se tornam, sobretudo, o foco de atenção da disciplina. E muitas pesquisas priorizam os conteúdos das conversas e vivências ali dentro, enquanto as interpelações recebidas das próprias instituições de saúde figuram como curtas descrições, notas de rodapé ou sequer são mencionadas. O espaço hospitalar é desafio, é passagem, é contexto, mas também história, relações e gestão, bem como formação e produção científica também podem ser tomadas como temas de pesquisas antropológicas. Este GT deseja conhecer etnografias produzidas dentro e também sobre e com os diversos tipos e escalas de hospital. E se interessa por reunir papers sobre: a) Estratégias e desafios éticos, políticos e metodológicos de fazer pesquisas nos espaços hospitalares; b) Histórias de construção, institucionalização e memória destas instituições de saúde; c) Diálogos e ruídos entre serviços de saúde, de formação e de pesquisa que acontecem especialmente nos hospitais universitários; d) Participação da antropologia em programas de estágio, residência, projetos de pesquisa e extensão nessas instituições.
Títulos e Resumos
-
Ensaio sobre a performance do Palhaço Cuidador no espaço hospitalar: trazendo a teoria do Drama Social de Victor Turner para a escrita de uma etnografia de doutorado.
— Aldenildo Araujo de Moraes Fernandes Costeira
— Aldenildo Araujo de Moraes Fernandes Costeira
O drama social de Victor Turner constitui uma importante teoria/modelo que se aplica à compreensão de determinados fenómenos sociais. Esse modelo foi desenvolvido a partir de suas pesquisas junto aos ndembu, na Zâmbia, nas observações sobre conflitos comunitários, rituais de passagem e curas. Um dos seres místicos em rituais de cura é o Kavula, que se assemelha ao arquétipo do palhaço. A vida observada como drama é permeada por processos de rupturas (quebra da normalidade) que levam a crises. Isso é a fonte observacional dos fenômenos perante o modelo do drama social. As ações reparadoras diante da crise poderão culminar na reintegração ou na cisão. Ao longo desse percurso, a realidade suspensa que emerge em momentos de transição produz estados liminares, zonas fronteiriças em que a ordem habitual se afrouxa. Nesses momentos, a communitas pode surgir como experiência intensa de vínculo e igualdade, favorecendo certos desfechos do drama social. Na minha pesquisa de doutorado que consiste num estudo etnográfico da atuação do Palhaço Cuidador do Projeto de Extensão PalhaSUS - UFPB, faço essa aproximação de perceber o adoecimento como algo que pode ser explorado e compreendido à luz do Drama Social. Percebo ainda o internamento hospitalar como a quebra da normalidade e que as pessoas no adoecimento possam se encontrar em uma das fases do drama social do adoecimento. Esse movimento foi motivado pelas provocações do uso do drama social em realidades contemporâneas desenvolvido por Turner em parceria com Richard Schechner que acrescenta a vida como performance. Mas recentemente na fase atual do tratamento dos dados, encontrei um artigo que traz uma pesquisa que aplicou o modelo de drama social em pacientes com câncer de intestino na Noruega (HANSEN; BERNTSEN; SALAMONSEN, 2019), o que me mobilizou a ensaiar o entendimento da ação do Palhaço Cuidador, no momento em que a pessoa tem sua realidade modificada mediante a hospitalização, e de que modo sua performance/atuação promove possibilidades de cuidado nas fases do drama social aplicado ao adoecimento. Como método apresentarei algumas cenas vividas e observadas na ocasião do campo da pesquisa em diálogo com a teoria e verificando aproximações ou dificuldades de aplicar o modelo como forma de compreensão da ação da palhaçaria do cuidado. A performance do Palhaço Cuidador inserido em dois hospitais de João Pessoa, cuja rotina é um rito que altera o espaço em suas rotinas e o tempo em suas percepções, é refletida em vários depoimentos na mudança na qualidade do ambiente, tornando mais acolhedor, menos frio mais humanizado, momento em que o sofrimento e as preocupações são suspensas por um tempo e a alegria é restabelecida mesmo em algumas situações difíceis como de dor física.
-
Pessoas e crachás, protocolos e sofrimentos: trabalho de campo no contexto de diálogos e práticas interdisciplinares num grupo do Programa de Educação Tutorial em Saúde Digital da UFSM
— Daniel Alves, Francis Moraes de Almeida
— Daniel Alves, Francis Moraes de Almeida
O presente trabalho tem como objetivo apresentar aplicação situacional de princípios de trabalho de campo em contexto hospitalar e de projeto de formação profissional. O Programa de Educação Tutorial em Saúde Digital (PET-SD) da UFSM tem como objetivo acompanhar discentes de cursos de graduações dentro de ambientes de atuação profissional em saúde no setor público. Os desafios dos 16 grupos envolvidos são: conhecer o contexto dos serviços e divisar soluções práticas na direção da digitalização, conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde e, no país, pelo Ministério da Saúde. Na contextualização do serviço, enquanto tutores de um grupo de monitoras e monitores oriundo de diversos cursos, apresentamos uma discussão crítica contemporânea sobre Sociologia e Antropologia digitais, Antropologia do Corpo de da Saúde e fundamentos de trabalho de campo que permitam redação de relatórios. O grupo é composto por quatro preceptoras atuantes em setores do Hospital Universitário de Santa Maria (HUSM), as quais acompanham conosco discentes monitores dos cursos de Odontologia, Farmácia, Psicologia, Estatística e Ciências Sociais. Interessa-nos uma discussão metodológica de ensino na pesquisa, a dinâmica interdisciplinar do grupo e as sutilezas que fazem a experiência de relatar situações concretas em hospitais extrapolar a dimensão pragmática da "produção de dados" para algo que tange a abordagem antropológica das possibilidades e dos dilemas de campo.
-
"A composição da identidade institucional do Hospital Universitário de Brasília": a visão de seus diretores/superintendentes ao longo de sua história
— Isadora Carvalho
— Isadora Carvalho
O presente trabalho faz parte do projeto “Antropologia de um hospital-escola: Serviço, formação e ciência no HUB/UnB”. Seu objetivo geral é conhecer a história do Hospital Universitário de Brasília (HUB), a partir da experiência vivida por seus ex-diretores/superintendentes. Para isso, foram realizadas entrevistas semiestruturadas que buscaram resgatar as memórias do hospital e como essa trajetória foi percebida por aqueles que assumiram o mais alto cargo da gestão nessa unidade.
Os relatos remontam à época em que a estrutura física e o quadro de servidores do Hospital do Distrito Federal Presidente Médici foram cedidos à Universidade de Brasília (UnB). Esse processo de unificação forçada deu origem a conflitos hierárquicos e choques culturais entre os servidores originais e o corpo acadêmico. O resultado foi uma profunda crise de identidade institucional que reverberou por mais de trinta anos.
Nesse cenário de fricções internas, agravado pelo subfinanciamento crônico e atravessado pelas instabilidades políticas, o hospital operava em estado constante de gestão de crises. Com sua governabilidade sistematicamente afetada, para manter o HUB funcionando, os gestores eram compelidos a adotar medidas vitais no curto prazo, mas que acabavam convertendo-se na gênese dos problemas das administrações seguintes.
O estudo aborda a polêmica decisão de aderir à Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), recebida com grande resistência por parte dos servidores do complexo hospitalar. Na visão dos diretores/superintendentes entrevistados, esse momento foi um divisor de águas, conferindo maior organização burocrática, melhor gestão financeira e integração em uma rede nacional de Hospitais Universitários. Ou seja, apesar de apresentar seus próprios desafios, a EBSERH foi percebida por esse grupo como um instrumento que possibilitou recuperar, pelo menos em parte, a governabilidade da instituição.
Por fim, os resultados das análises dos diários de campo e das transcrições das entrevistas sugerem que grande parte dos entrevistados vivenciou desgastes físicos e emocionais durante seu período no cargo. Além disso, foi possível constatar impactos em suas vidas pessoais e profissionais que perduraram por muito tempo.
-
"A história sou eu": conhecendo o olhar de crianças e adolescentes em acompanhamento oncológico por meio de oficinas de histórias em quadrinhos.
— Karleyla Fassarella Firmino, Rachel Paterman
— Karleyla Fassarella Firmino, Rachel Paterman
Esta comunicação apresenta o andamento de uma pesquisa realizada com crianças e adolescentes em acompanhamento oncológico que visa conhecer seus saberes e vivências, e assim dar expressão a sujeitos desprovidos de voz em produções científicas sobre a doença. A pesquisa utiliza oficinas de histórias em quadrinhos como caminho investigativo, valendo-se da arte como forma lúdica de externar sentimentos e emoções em assuntos densos como o câncer, e envolve observação, descrição e análise do processo e conteúdo das criações artísticas. As oficinas possuem lugar na sala de recreação de um hospital oncológico público na cidade do Rio de Janeiro, onde crianças e adolescentes aguardam atendimento, e são facilitadas por equipe multidisciplinar composta por pesquisadores das áreas da saúde, educação, arte e antropologia. A pesquisadora principal deste estudo é profissional de saúde e atua na instituição, mantendo convívio diário com os participantes. Até o momento, participaram 37 crianças e adolescentes na idade de 5 a 15 anos, com um total de 43 criações artísticas. O material de análise contempla imagens e narrativas produzidas, que tornam oportuno o uso de referências como de arteterapia e psicologia analítica, e dados da observação, cuja inspiração etnográfica, em particular o conceito de "descrição densa" de Clifford Geertz, vem lançando luz sobre as estruturas significantes produzidas pelos interlocutores na interação com o ambiente hospitalar e o adoecimento em si. Notam-se no processo os silêncios participativos, a recusa como distanciamento, a atividade como brincadeira e as trocas de experiências nas histórias narradas. Em si o espaço é peculiar em diversos aspectos, com o ritmo imprevisível das chamadas para consultas e procedimentos; as interações com diversos sujeitos, como familiares e voluntários, que acabam participando das oficinas; e de fundo o ruído ininterrupto de interações paralelas. Quanto ao conteúdo das produções, são analisadas histórias em quadrinhos e também desenhos livres, em que se percebe por exemplo a presença ou ausência de cores, monstros simbolizando medo, dor e adoecimentos; quadros vazios simbolizando o inaudível ou indescritível, cenas cotidianas do hospital e em família; elementos da natureza, animais de estimação e amigos, apontando para desejos e sonhos. Um material discursivo que corrobora com estudos sobre os impactos da doença na vida das crianças e familiares por trazer à tona histórias deste cotidiano, assim contribuindo para mitigar o estigma da doença. A pesquisa também pretende ampliar conhecimentos transdisciplinares sobre o câncer infantojuvenil visto que a desinformação é uma importante causa de abandono do tratamento e redução na sobrevida dos pacientes.
-
"O HUB é um laboratório a céu aberto": memórias, saberes e experiências de pioneiros de um hospital universitário
— Kelven Tavares
— Kelven Tavares
Integro, como bolsista voluntário de iniciação científica, o projeto “Antropologia de um hospital-escola: Serviço, formação e ciência no HUB/UnB”. O objetivo geral é articular a memória institucional, a produção de saberes em saúde e as experiências vividas por seus pioneiros. São dois conjuntos de materiais empíricos construídos até o momento: a) entrevistas com 12 ex-gestores e com a atual superintendente do HUB; e b) relatos de professores fundadores do Departamento e depois Faculdade de Medicina da UnB. Para esta apresentação, minha intenção é contextualizar historicamente e entender os principais significados enunciados por estas entrevistas e depoimentos. Como o departamento de Medicina foi criado em 1966 e o hospital em 1972, as primeiras décadas foram marcadas pelo contexto autoritário da ditadura militar brasileira. Há experiências de repressão, perseguições políticas e interrupções de projetos acadêmicos quanto memórias de entusiasmo, invenção institucional e compromisso com a formação de profissionais de saúde e o cuidado em saúde. O HUB aparece, nessas narrativas, como um espaço simultaneamente vulnerável às ingerências do Estado e potente como laboratório de ensino, pesquisa e assistência, onde se experimentavam novas maneiras de formar profissionais e atender a população do Distrito Federal. A pesquisa analisa como essas experiências contribuíram para constituir e esboçar o hospital universitário como um lugar de tensões duráveis entre ciência, política e cuidado, mas também como um espaço de sociabilidade, aprendizado coletivo e construção de sentidos sobre o trabalho em saúde. Ao dialogar com a Antropologia da Saúde e a Antropologia da Ciência, o estudo propõe compreender o HUB não apenas como instituição hospitalar, mas como campo etnográfico onde histórias, afetos, saberes e conflitos continuam a produzir uma comunidade escolar.
-
A plataforma Bahia e as comissões locais de pesquisa: reflexões sobre a ética em pesquisas sobre saúde e em serviços de saúde
— Matheus Felipe Oliveira Costa
— Matheus Felipe Oliveira Costa
Este texto trata-se de inquietações éticas e metodológicas que emergiram no desenvolvimento de uma etnografia de doutorado em Antropologia sobre o cuidado em saúde de pessoas transexuais, travestis, transgêneras e não binárias, a partir de seu acesso aos serviços públicos de saúde e às intervenções biomédicas. O contexto empírico é o Ambulatório Trans do Centro Estadual Especializado em Diagnóstico, Assistência e Pesquisa (CEDAP), localizado na cidade de Salvador, Bahia, instituição vinculada ao Sistema Único de Saúde (SUS). Neste texto, apresento os momentos iniciais do trabalho de campo, marcados pelo contato com a Comissão Local de Pesquisa do CEDAP. No estado da Bahia, toda pesquisa realizada em serviços do SUS deve ser previamente submetida à Plataforma Bahia, etapa anterior ao envio ao sistema CEP/CONEP, por meio da Plataforma Brasil. Para a submissão do projeto, o pesquisador responsável precisou acessar um conjunto de treze documentos — entre eles o Código de Nuremberg, a Declaração de Helsinque, o Relatório Belmont, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Lei de Biossegurança e resoluções do Conselho Nacional de Saúde — além de realizar uma avaliação de múltipla escolha sobre ética em pesquisa, como requisito para o envio à apreciação da Comissão Local de Pesquisa do CEDAP. O projeto, originalmente formulado no âmbito de um programa de pós-graduação em Antropologia, precisou ser reformulado e enquadrado nos parâmetros das pesquisas em saúde. Entre as exigências, destacou-se a necessidade de apresentação prévia de um roteiro de observação participante para análise da Comissão. A partir dessa experiência de submissão do projeto à Plataforma Bahia e do contato com os documentos normativos, reflito sobre concepções estabelecidas de ética em pesquisa, tanto no campo das Ciências da Saúde quanto da Antropologia e questiono como construir etnografias possíveis na intersecção entre esses dois campos de saber.
-
"Um hospital de ensino é uma dádiva para a residência": Notas antropológicas sobre práticas de ensino no HUB
— Soraya Fleischer
— Soraya Fleischer
Nas Ciências Sociais, os estudos mais clássicos sobre a formação em saúde se concentraram no espaço convencional de sala de aula e nos currículos médicos (Eliot Friedman, Howard Becker, Byron Good). O nosso movimento tem sido de ampliação, quer dizer, considerar mais espaços e mais áreas de formação. Desde 2025, nossa equipe de pesquisadoras da Antropologia tem se dedicado a conhecer o Hospital Universitário de Brasília (HUB) como uma instituição de assistência e de pesquisa e, sobretudo, de ensino. Neste artigo, pretendo recorrer às diferentes oportunidades de interlocução que a entrada e a circulação pelo hospital têm nos oferecido. Se, por um lado, entrevistas mais oficiais e formais nos contextualizam mais amplamente sobre a constituição histórica desta instituição-escola, por outro lado, as trocas cotidianas nas portarias, nos encontros pelos bancos de espera, lanchonetes e corredores e dentro dos serviços e ambulatórios propriamente ditos, temos a chance de ver o ensino acontecendo e sendo discutido na prática contemporânea. Além disso, à medida que, como orientadora de iniciação científica e de trabalhos de final de curso, apoio as estudantes para começarem suas pesquisas ali dentro, também observo como outros colegas realizam suas tarefas pedagógicas e como percebem a nossa presença enquanto turmas da Antropologia. Diferente de nossa área, observo estágios, internatos e residências multiprofissionais acontecendo; observo transferência de conhecimento de técnicos e de usuários aos discentes. Quer dizer, a minha presença como professora faculta diálogos sobre a minha própria docência e sobre tantos outros formatos docentes ali praticados. Para esta apresentação, pretendo reunir e discutir cenas de ensino em um hospital universitário, considerando que também a Antropologia pode formar seus quadros dentro deste espaço.
-
O hospital múltiplo como objeto de pesquisa: desafios de/para uma etnografia plural do hospital no contexto do SUS carioca.
— Zoé Richard Rusunan
— Zoé Richard Rusunan
Em uma das minhas bancas de doutorado, uma das orientadoras da minha tese perguntou: “você está fazendo uma etnografia no hospital, ou do hospital?“. Esta pergunta será o ponto de partida da minha apresentação. Busco refletir sobre a produção de etnografias tendo como objeto de pesquisa o hospital em si, não apenas como um lugar ou espaço concentrando serviços de saúde. Entendo aqui o hospital como um objeto múltiplo: uma instituição complexa, um conjunto de trabalhadoras e trabalhadores, de infraestruturas e material, um lugar de cuidado, de fluxo, de vida, além de parte de um sistema de saúde. Com base em minha experiência de pesquisa realizada no hospital público de doenças infecciosas do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz), proponho refletir sobre os desafios e as estratégias de produção de uma etnografia Do hospital a partir de um trabalho de campo No hospital. Baseada em situações vividas ao longo do meu trabalho de campo, realizado em diversos setores do centro hospitalar (enfermarias, unidade de tratamento intensivo, setor de cuidados paliativos e longa permanência, espaços de gestão, núcleo interno de regulação, assistência social), trago para a discussão alguns desafios da realização da pesquisa etnográfica em ambiente hospitalar. Me deparei com complexidades práticas no acesso ao campo, na circulação e integração em um espaço biomédico de desconfiança e de risco de contaminação, e atravessado por numerosas questões institucionais. Procuro refletir sobre a forma como o olhar antropológico plural - voltado para o cuidado, o trabalho, os valores, afetos e materialidades do hospital – pode produzir um entendimento fino da economia política da instituição hospitalar. Construído de forma emergencial no início da pandemia de Covid-19, o Centro Hospitalar Evandro Chagas passou por um processo de “des-emergência” na continuidade da pandemia. Ele foi se consolidando como hospital de referência em doenças infecciosas do SUS, e modelo institucional ou encarnação de um projeto mais amplo para um “SUS que funciona”. A partir desses resultados preliminares, refletirei sobre o potencial das etnografias dos hospitais nos estudos voltados para as “economias políticas da doença e da saúde” (R. Castro).
Coordenação
Maria Elvira Díaz Benítez (PPGAS/MN/UFRJ)
Osmundo Santos de Araujo Pinho (UFRB)
Este GT teve sua primeira versão na RAM de 2025 e a sua apresentação novamente, no marco da RBA, visa consolidar um debates que interessa a diversos antropólogos e antropólogas no Brasil. O GT tem como objetivo qualificar analiticamente a reprodução contínua e diferencial do racismo em diferentes contextos sociais (casa, refúgio, família, prisão, emprego, ascensão etc.), sem dispensar a reflexão sistemática sobre os modos através dos quais se tecem vidas (im)possíveis (apostas na ancestralidade, escolarização, fuga, empreendedorismo etc.). Se a vida negra é constantemente assombrada pela morte (quando não física, social), o que na prática requer a busca por uma vida que seja passível de ser considerada “boa”? Como os sujeitos racializados que ocupam diferentes posições na estrutura social de distintos países lidam com processos históricos e/ou contemporâneos (escravização, dívida, perda de direitos, precarização, mobilidade, etc.)? Incentivamos a inscrição de propostas que levem em consideração as ligações entre os modos de opressão e de existência criativa das coletividades negras. Visando a multiplicação das abordagens que tratam da oscilação entre as formas de vida e morte negra, buscamos por etnografias que levem a sério em sua composição ao menos uma das muitas proposições teórico-políticas existentes sobre raça e racismo (feminismos negros, pensamento negro radical, afropessimismo, quilombismo, capitalismo racial, plantatioceno etc.).
Títulos e Resumos
-
"O futuro acaba/começa aqui": performances fugitivas na cidade "Heroica".
— Danrlei De Oliveira Moreira
— Danrlei De Oliveira Moreira
Este artigo propõe reformular a semântica visual da negritude em Cachoeira (BA) por meio de uma performance animada baseada nas pichações da cidade - muitas delas com os nomes de pessoas assassinadas - e nas conversas de um grupo focal, deslocando a cena negra de seu lugar habitual de dor. No terceiro capítulo da dissertação - "Pixos da Morte: Narrativas visuais e subjetividades negras nas 'quebradas' da cidade heroica" -, essa proposta se sustenta em uma leitura do patrimônio cultural por meio das categorias ressonância, materialidade e subjetividade, para pensar a memória negra como uma força viva na paisagem urbana, mesmo depois da morte. Além disso, o trabalho analisa como ritos mortuários urbanos, em forma de performances ritualísticas, atuam como gestos simbólicos de (re)posse da cidade por comunidades historicamente marginalizadas. Essa reapropriação desafia narrativas hegemônicas e realiza uma reontologização profunda: os corpos negros, mesmo na morte, afirma um modo de existência capaz de redesenhar a cartografia simbólica de Cachoeira, ressignificando o patrimônio cultural como espaço de tensão, resistência e reinvenção identitária.
-
"TRAVESTIS EXPERIENTES": Etnografia do envelhecimento de travestis em Fortaleza - Ce.
— Dediane Souza
— Dediane Souza
A pesquisa da qual trata este projeto se insere no campo da antropologia urbana e dos estudos sobre envelhecimento, Raça, Classe e travestilidades. Ela parte de uma inquietação gestada na minha experiência pessoal como uma travesti negra e ativista do movimento social de travestis e transexuais no Ceará, que tem experimentado últimos 20 (vinte) vinte anos os fluxos da sociabilidade das travestis no município de Fortaleza (CE) e percebido a presença de travestis com mais de cinqüenta anos de idade em espaços e instituições localizadas na região central, bem como acessados múltiplos relatos de memória construídas por elas nesses espaços, despertando o interesse em compreender a seguinte questão: como as travestis com mais de cinquenta anos de idade e frequentadoras do Centro de Fortaleza estão construindo as suas estratégias de envelhecimento, as suas relações com a cidade e com os seus patrimônios culturais? Entre os objetivos específicos, buscar-se-á responder: de que forma os marcadores sociais da diferença impactam a experiência de envelhecimento destas sujeitas; quais são as categorias acionadas por elas para pensar o seu próprio envelhecimento; quais são seus os fluxos e espaços de sociabilidade na região central do município e que relações estabelecem com e nos os equipamentos, instituições e patrimônio culturais localizados nesse território. Para isso, utilizarei como método a etnografia, com recurso à observação participante em eventos que compõem a programação cultural da cidade, bem como à aplicação de entrevistas semi-estruturadas com 05 (cinco) interlocutoras, percorrendo e construindo junto com estas as rotas de seus trânsitos geográficos, corporais, etários e afetivos. A análise teórica recorrerá preferencialmente à produção acadêmica elaborada por outras travestis pesquisadoras e ativistas transfeministas que me antecederam.
-
Empreendedorismo negro no Brasil: três décadas de luta pelas vidas negras
— Filipe Romão Juliano
— Filipe Romão Juliano
Este trabalho tem como objetivo apresentar os resultados da tese “Empreendedorismo negro no Brasil: um ensaio de etnografia histórica”. A pesquisa se dedicou a estudar as organizações pioneiras que promovem o afroempreendedorismo no país, surgidas no contexto da redemocratização e da Constituinte, e que continuam a contar com lideranças ativas até os dias de hoje. O foco principal foi o trabalho do Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon), localizado no Rio de Janeiro, e da Rede Brasil Afroempreendedor (Reafro), um movimento de alcance nacional.
Ao longo de três décadas de ativismo, essas organizações têm concentrado suas ações na formação em empreendedorismo e na mobilização de empreendedores e militantes, com o intuito de melhorar as condições de vida da população negra no Brasil. A pesquisa combinou a análise das trajetórias das lideranças fundadoras do movimento com a reconstrução histórica dos debates sobre o papel do racismo na estratificação social brasileira. Dessa forma, buscou-se entender como a formação de uma classe empresarial foi concebida como uma estratégia para combater a pobreza e a fungibilidade negras. Além disso, o estudo destacou a ênfase que essas organizações atribuem ao princípio racial para a hierarquização das classes sociais no contexto do capitalismo brasileiro, e o combate ao mesmo com o apoio a diversas formas associativas, que vão desde empresas até organizações culturais. Essa atuação as coloca em uma posição central na emergência política negra no Brasil contemporâneo.
-
Saberes em confluência: o terreiro e a criação de outros mundos possíveis
— Humberto Manoel dde Santana Júnior
— Humberto Manoel dde Santana Júnior
A proposta de texto intitulada: “Saberes em confluência: o terreiro e a criação de outros mundos possíveis” é parte de minha pesquisa como professor visitante no PPGAS/UFRN. Essa pesquisa parte de reflexões que foram surgindo a partir da pesquisa etnográfica com as Pombogiras que deu origem a tese “Acende a luz do candeeiro pra receber pessoa amiga: encontros e acertos na encruzilhada. Essa reflexão tem como objetivo construir uma confluência entre os conhecimentos do terreiro e os saberes científicos, com intuito de nos permitir compreender, não somente o que os saberes científicos podem aprender com os meios de pensar do terreiro, como também, a partir das práticas das Pombogiras, propor uma reflexão frente sobre as relações étnico-raciais perante o sistema antinegritude.
Seguindo o caminho proposto pela noção de relação da Strathern, podemos criar um diálogo com a noção de confluência apresentada por Nego Bispo. A confluência é um meio de pensar em que as coisas se ajuntam, mas não se misturam (SANTOS, 2015). A confluência segue o mesmo caminho da liga entre heterogêneos, pois não se baseia em um respeito as diferenças, mas na necessidade de honrar as divergências (STENGERS, 2015). Proponho um momento de reflexão seguindo os passos da antropóloga Marylin Strathern (2017) que nos provoca a fazer uma antropologia em câmera lenta, levando a sério a importância da reflexão sem a pressa de encontrar respostas rápidas e prontas. Ou nas palavras da filósofa Isabelle Stengers (2018): é preciso desacelerar, e assim parar para pensar. Sigo então a provocação que lancei no artigo publicado na Vibrant: O que podemos aprender com a noção de encruzilhada em relação as relações étnico-raciais?
-
Desejados, Temidos, Exibidos: a fabricação visual do corpo negro jovem
— Jorge Wilton da Silva Santos Junior
— Jorge Wilton da Silva Santos Junior
Proponho investigar os modos como a racialização dos corpos, especialmente os corpos de homens negros jovens cariocas, é mobilizada nas interações mediadas por plataformas digitais e pelo ambiente urbano. Inspirado pelas formulações de Anne McClintock (2010) sobre os entrelaçamentos de raça, classe e sexualidade, particularmente nas formas em que o fetichismo e as dinâmicas de dominação foram historicamente organizadas a partir de práticas coloniais de visualidade e desejo, examino como essas mesmas estruturas simbólicas reaparecem no contexto contemporâneo da pornografia amadora periférica. Na primeira seção, discuto as construções simbólicas da raça como marcador de desejo e perigo, e como essas imagens são recicladas nas redes, particularmente na figura dos mavambos, jovens negros hipersexualizados. Em seguida, investigo como a juventude negra é interpelada por performances de masculinidade que oscilam entre a afirmação da virilidade e a submissão racializada, evidenciando os limites e os tensionamentos entre agência e estigma. Ao longo, busco mostrar que essas performances não são apenas reações à marginalização, mas produções ativas de subjetividades atravessadas por disputas de poder, desejo e pertencimento. Assim, a análise se debruça sobre os regimes de visibilidade que organizam essas masculinidades, seus códigos estéticos, seus rituais de exibição e seus modos de negociação com os sistemas de classificação racial e sexual.
-
Necropolítica e tranfake : (de) codificando as assimetrias discursivas sobre representatividade trans.
— Keo Silva
— Keo Silva
Tematizar questões como visibilidade e representatividade das identidades dissidentes tem sido tema urgente das reflexões sobre mídia e identidade. No curso dessa reflexão, nos deparamos com movimentos políticos culturais de resistência tanto em relação à censura dos conservadores, quanto em relação à denuncia frente à prática cultural do transfake. Essa reflexão tem como objetivo destacar algumas problematizações sobre o tema da representatividade de pessoas trans, colocando em cheque questões como a codificação e decodificação cultural a partir da prática do transfake. A partir de conceitos como necropolítica, epistemicídio e sistema snuff problematizamos questões relacionadas ao enquadramento que se dá a noção de representatividade da vida trans (e preta) e as questões que a circundam como violência, invisibilidade, regimes de inteligibilidade e reconhecibilidade.
-
Reescrever o Brasil através da Arte Negra: O Teatro Experimental do Negro e o Terreiro Contemporâneo
— Mariana Gomes Coelho
— Mariana Gomes Coelho
A arte pode ser considerada como um lócus privilegiado de análise social. Podemos refletir através dela sobre o passado, presente e as possibilidades de futuro. Considerando as artes cênicas enquanto enfoque, o teatro brasileiro nos indica movimentos interessantes para pensar e repensar o país. O teatro pode ser observado como uma forma de expressão que possibilita uma conexão como denúncia. Na história das artes cênicas brasileira, um movimento importante que podemos considerar como um movimento de denúncia é o Teatro Experimental do Negro (TEN) que atuou entre os anos 1944 a 1961. No entanto, a atuação do TEN vai muito além dessa chave de análise. Mais que o teatro em si, seu foco direto era na educação e valorização da identidade negra. Abdias Nascimento, seu fundador e principal expoente, constrói uma alternativa ao que é realizado a época. Ao contrariar o que estava posto e possibilitar a presença do negro nos palcos, Abdias não apenas rompe com um mecanismo habitual aquela época, o blackface, mas também viabiliza uma transformação nas artes onde o negro tem a oportunidade de contar a sua própria história enquanto protagonista. Um dos objetivos do TEN era a reintegração do negro na sociedade, haja visto que o Brasil, aquela época, apesar de ser considerado como uma "democracia racial", excluía e marginalizava sua população negra, o que Abdias Nascimento considera como genocídio. Apesar de não haver um antagonismo explícito como em outros lugares (como as leis Jim Crow nos Estados Unidos e o apartheid na África do Sul), no Brasil existia um hiato entre a promessa de inclusão, a partir da democracia racial e a realidade de exclusão. Essa exclusão pode ser entendida como uma morte social desse sujeito. A revolta se tornou um caminho possível para uma ação que possibilite sua fuga e superação. A partir deste diagnóstico, é possível construir novos caminhos. Abdias Nascimento (1980) aposta no "quilombismo" como uma possibilidade, uma tecnologia social de futuro. O TEN foi um movimento importante a sua época e também gerou frutos visíveis na sociedade atual. O Terreiro Contemporâneo, gerenciado pela Confraria do Impossível, pode ser considerado uma continuidade de seus passos. A partir de um trabalho de campo nos moldes antropológicos realizado neste espaço durante meu doutoramento, questões sobre a influência, similaridades e atuação desses movimentos me despertaram atenção. Entendendo estes movimentos artísticos e políticos, como resistência ao genocídio e expressão do quilombismo que este trabalho será desenvolvido. Aqui entendemos o quilombo não como uma representação do passado, mas sim como um futuro possível. O Teatro Negro nos ajuda a construir novos caminhos e superar o genocídio reescrevendo a história do negro neste país, através da arte.
-
Protestos Negros no Brasil: Os Movimentos Negros na Pandemia de Covid - 19
— Paulo Henrique Ferreira de Freitas, Brenna de Araújo Vilanova
— Paulo Henrique Ferreira de Freitas, Brenna de Araújo Vilanova
Neste artigo discuto como os Movimentos Negros se posicionaram em vários momentos distintos da Pandemia de Covid - 19, através da análise das Imagens dos protestos Negros (RIOS, 2012; FREITAS, 2023). A pandemia de Covid-19 no Brasil, teve seu início no dia 26 de Fevereiro de 2020 após confirmar o primeiro caso na cidade de São Paulo e desde então o Brasil sofreu com mais de 700 mil mortes que poderiam ter sido evitadas. O Movimento Negro, entendido aqui como fonte primária de proposições públicas manifestou-se em diferentes momentos e formas durante esse período, tanto como formulador de críticas em relação ao Governo Brasileiro com a proposição da Carta “Enquanto Houver Racismo Não Haverá Democracia” como também, de resolutor de demandas específicas como o combate à fome durante esse período que restringiu diversas pessoas de frequentarem o espaço público e os seus respectivos locais de trabalho com a Campanha “Se Tem Fome, Dá de Comer”. As imagens desses Protestos Negros referidos aqui nos permitem visualizar, contextualizar e analisar as diferentes estratégias e questões levantadas por Militantes Negros/as em diferentes contextos territoriais, de gênero e geracionais. Possibilita compreender como os Movimentos Sociais em áreas urbanas e não urbanas mobilizaram discursos políticos e estéticos contra-hegemônicos durante a Pandemia de Covid-19.
-
O peso do silêncio: sobrevivências de mulheres negras em famílias brancas
— Roberta Freitas
— Roberta Freitas
Este trabalho analisa o silêncio como prática aprendida e transmitida no interior de famílias brancas que incorporam mulheres negras em contextos de vulnerabilidade, tomando a família como um espaço central de produção da sujeição racial e, simultaneamente, de estratégias de sobrevivência (GONZALEZ, 1984). O foco da análise recai sobre um tipo específico de arranjo familiar, frequentemente narrado como gesto de “acolhimento” ou “ajuda”, no qual o cuidado oferecido se articula à expectativa tácita de gratidão, lealdade e contenção do conflito racial (BRITES, 2007). O trabalho se insere no campo da etnografia, articulando histórias de vida, entrevista e observação das dinâmicas familiares (CABRAL; LIMA, 2005), a partir de trajetórias de mulheres negras inseridas em arranjos domésticos racialmente hierarquizados. A pesquisa parte de uma história de vida situada: a incorporação de uma mulher negra, jovem e grávida, a uma família branca, sob a promessa de proteção e permanência, condicionada à sua atuação no trabalho doméstico e à manutenção da harmonia da casa. Esse arranjo, longe de configurar uma adoção formal, produz uma forma ambígua de pertencimento, na qual essas mulheres são simultaneamente enunciadas como “da família” ou “quase da família” (L. DIAS, 2019) e tratadas como agregadas, incluídas afetivamente, mas mantidas em uma posição social liminar, sem pleno reconhecimento de direitos, voz ou autoridade. É nesse contexto que o silêncio emerge como aprendizado central: não nomear o racismo, não tensionar a desigualdade, não desorganizar a narrativa familiar do cuidado. O silêncio não aparece como ausência, mas como regra moral implícita, ensinado como condição para a permanência nesse lugar ambíguo de “quase da família”. Falar demais, questionar ou nomear violências pode significar a perda do abrigo, do afeto e da legitimidade dentro da casa (DÍAZ-BENÍTEZ, 2019). Dialogando com os debates sobre racismo estrutural e feminismos negros, o trabalho propõe compreender o silêncio não como passividade ou apagamento subjetivo, mas como uma tecnologia moral de sobrevivência (COLLINS, 2019), transmitida intergeracionalmente. A análise evidencia que esse silêncio, embora imposto, não é vivido de forma homogênea. Ao longo do tempo, ele se transforma, sendo reelaborado como forma de leitura do ambiente, cálculo do risco e gestão da própria presença no espaço doméstico. Trata-se, portanto, de compreender esse silêncio ativo, situado entre a sujeição e a fuga, que permite a essas mulheres permanecerem na casa sem, contudo, confundirem pertencimento com igualdade de tratamento.
-
Existir apesar dos retratos (mal)ditos: experimentações estéticas fugitivas e imaginação radical das negritudes
— Samara Almeida Lima Santos
— Samara Almeida Lima Santos
Em busca de compreender os retratos (mal)ditos, imagens estruturadas pela Antinegritude (Pinho e Vargas, 2016), através do método da pesquisa ação-critica (Wallace, 2025), tenho percebido como a experiência negra no ocidente é marcada pela domesticação do olhar e como existências negras esgarçam os limites de humanidade e de gênero. A fabricação dos retratos (mal)ditos, está intimamente relacionada à produção de corpos e opera a partir do olhar branco-ocidental, alicerçado no processo de construção do “Outro”. Nesse sentido, este trabalho tem entendido a antinegritude como um regime visual, ontológico e cognitivo que comunica a impossibilidade de existência negra plena e a “persistência de um sentimento/entendimento de que o negro é o ‘outro’, redutível à raça e o ‘inimigo’ da nação” (Soares, 2022). Aprisionada, a subjetividade negra é condicionada a se ver como “maldição”, ou como “problema e desenvolve uma consciência dupla de si (duble consciousness) que aceita como seu o olhar distorcido daquele que o despreza” (Du Bois, [1992] 1999, apud Ribeiro e Faustino, 2017). Isso porque, como argumenta Hortense Spillers (1987), a escravização não apenas racializou corpos negros, mas os reduziu à condição de carne (flesh), destituindo-os de gênero, de vínculos familiares e de reconhecimento simbólico. Essa redução se estende ao campo da representação, produzindo uma visualidade que antecede e sustenta os retratos (mal)ditos. Dessa forma, a imagem não retrata um sujeito, mas uma carne disponível à exploração, ao controle e à violência. Em busca de romper com essa visualidade e deseducar esse olhar, as oficinas buscam articular as colagens, portanto, como uma experimentação estética e crítica, provocando a imaginação radical sobre negritudes e gêneros por meio do sentir–pensar e do destruir–construir, operados pelo corte e pela rasura. Essa experiência tem esgarçado os limites das categorias, tornando possível rasgá-las e reimaginá-las para além de suas formulações normativas. As colagens têm se articulado, portanto, não como substituição de representações, mas como práticas estéticas que habitam a brecha e o vestígio (Sharpe, 2023), afirmando modos de existência negra, apesar da sua impossibilidade, que não dependem da promessa de reparação nem da integração ao mundo antinegro. Desse modo, este trabalho tem como objetivo dialogar como a experiência metodológica, na pesquisa de mestrado em andamento, em suas tensões e contradições tem experimentado a imaginação crítica das negritudes e gêneros com tentativas, bem-sucedidas ou não, de borrar as representações ou (des)representar os retratos (mal)ditos. E, sobretudo, pensar como as colagens agenciam, considerando sua materialidade, suas poéticas fugitivas e suas radicalidades estéticas.
-
Fugitividade, Branquitude/Racismo e Performatividade de Raça: reflexões a partir de análises etnográficas em uma escola branquíssima
— Thais Regina Santos Borges
— Thais Regina Santos Borges
Este trabalho tem como finalidade trazer reflexões sobre o papel da linguagem e do discurso na reprodução contínua e diferencial do racismo, levando em conta aspectos relacionais e performativos dos processos de construção social da raça no contexto sociorracial brasileiro, a partir da análise etnográfica de performances raciais de representantes do grupo racial branco, no contexto escolar da educação básica, a partir de recorte de pós-doutoramento em andamento. Com base no pensamento de Stefano Harney e Fred Moten (2013, 2021), compartilho reflexões sobre como raça comparece nesse ambiente, trazendo questões relativas às práticas especulativas do estudo e às possibilidades de coalizão (Moten, 2013) relativas a políticas de compartilhamento (Santos, 2023, Harney; Moten, 2021), que se dão à revelia daquilo que é promovido pedagogicamente e performado racialmente em espaços branquíssimos, onde impera o que compreendo como a ordem branca da captura; anti-fuga, anti-incompletude, anti-compartilhamento, encapsulada na promoção e manutenção de práticas de logística, conforme trabalhado em Harney; Moten (2021), como a ciência da perda, da degradação dos meios: a ciência da branquitude. Nesse contexto, o foco nas performances raciais do grupo racial branco cuja formação escolar básica pavimenta o caminho para a ocupação quase que totalitária das posições de poder se justifica na possibilidade de ampliação da compreensão de como a dinâmica racial, complexa e relacional, se dá performativamente, permitindo também compreender como são materializados processos de significação da vida negra sob a lógica do assombro (Kilomba, 2008), exigindo resistência constante na luta por uma vida vivível (Butler, 2004). Com essas reflexões ancoradas no pensamento negro radical acerca da fugitividade, prática feminista negra por pressuposto (Moten, 2024), ilustradas neste trabalho a partir de pesquisa mais ampla, portanto, busco atentar para a operacionalização dos modos de opressão que visam capturar a existência criativa das coletividades negras e suas formas de vida e de morte. Entendendo branquitude como o duplo do racismo enquanto tecnologia do poder colonial-racial da tríade indissociável capitalismo-colonialismo-modernidade (Mbembe, 2018, Curiel, 2018), sem o qual ele não se materializa, e partindo da noção de performatividade racial (Melo, 2021, Muniz, 2022), as reflexões deste estudo ajudam a ampliar a compreensão sobre como se constituem sociossemioticamente as práticas sociais e discursivas, de onde deriva a inteligibilidade que desenha as (im)possibilidades das vidas negras, tecidas em modos contínuos de resistência em atos de fala e de corpo (Butler, 2004).
-
O amor como experiência racializada: corpos, afetos e narrativas negras
— Thaynara Kelly dos Santos Pereira
— Thaynara Kelly dos Santos Pereira
Este trabalho analisa as experiências afetivo-românticas de jovens negros em Pernambuco, tomando o amor e o desejo como dimensões centrais para compreender a produção social dos corpos, das subjetividades e das existências negras em contextos marcados pelo racismo. A partir de uma pesquisa etnográfica baseada em entrevistas narrativas, investiga-se como raça, gênero e classe atravessam as vivências afetivas, organizando expectativas, frustrações e possibilidades de vínculo.
As narrativas revelam que o campo das afetividades está longe de constituir um espaço privado ou neutro, sendo atravessado por hierarquias raciais que produzem experiências recorrentes de preterimento, hipersexualização e solidão afetiva. Esses processos incidem diretamente sobre a forma como os sujeitos constroem suas percepções corporais, suas trajetórias emocionais e seus projetos de vida, evidenciando o amor como um terreno privilegiado de inscrição da desigualdade racial.
Ao mesmo tempo, o trabalho enfatiza que as experiências afetivas não se reduzem à sujeição. As estratégias de ressignificação do amor, a valorização de vínculos racialmente conscientes e a afirmação do afeto como prática ética emergem nas narrativas como formas de elaborar o sofrimento, afirmar a própria humanidade e produzir modos de existir que tensionam as lógicas excludentes do racismo. A pesquisa também reflete sobre o processo etnográfico, considerando como a minha presença, sendo mulher negra, incidiu nos encontros de campo, na construção da confiança e na emergência de relatos atravessados por identificação e memória compartilhada. Nesse sentido, o meu corpo é compreendido como parte constitutiva da produção do conhecimento, evidenciando a centralidade da intersubjetividade na prática antropológica. Ao articular afetividade, corporeidade e experiência racializada, o trabalho contribui para debates antropológicos sobre corpo, etnografia e existências negras, compreendendo o amor não apenas como experiência íntima, mas como dimensão política fundamental da vida social.
-
ANTROPOLOGIA DE CRIA: Desenhando Sonhos e Identidades na Favela Tororó através da Coletividade do Terreiro
— Vinicius Pereira
— Vinicius Pereira
Este artigo apresenta a Antropologia de Cria como uma proposta etnográfica situada, desenvolvida a partir de uma pesquisa realizada na favela do Tororó, em Cachoeira (BA), tendo o terreiro como espaço central de observação e produção de conhecimento. A partir de uma posição implicada — de quem pesquisa desde dentro do território — o texto busca qualificar analiticamente a reprodução contínua e diferencial do racismo no cotidiano, mostrando como ele se atualiza em diferentes contextos da vida social, como a casa, a rua, o trabalho, as relações familiares e os horizontes de mobilidade e ascensão. Ao compreender o racismo como uma tecnologia ordinária de gestão da vida e da morte, o artigo discute como a existência negra é permanentemente assombrada por formas de morte social, que limitam futuros possíveis e regulam quem pode ou não ter uma vida considerada “boa”. Em diálogo com proposições teórico-políticas sobre raça e racismo — especialmente aquelas que pensam a plantation como forma social persistente e o capitalismo racial — o Tororó é analisado como um plot contemporâneo, onde se tecem, de maneira tensa e precária, modos de existência criativa ancorados na ancestralidade, no axé e na coletividade. As figuras de Exu, da encruzilhada e do terreiro operam como operadores analíticos para pensar práticas de desvio, negociação e permanência diante de processos históricos e atuais de precarização, perda de direitos e controle racial da vida. Sem recorrer a narrativas de superação, o artigo aposta em uma etnografia que leva a sério a oscilação entre vida e morte negra, evidenciando como, mesmo sob cerco permanente, coletividades negras seguem produzindo sentidos, vínculos e formas possíveis — ainda que instáveis — de continuidade da vida.
-
Partilhar uma mesma existência
— Yohana Cristina dos Santos Rosa
— Yohana Cristina dos Santos Rosa
Este texto parte de uma reflexão realizada durante o mestrado, concluído a partir de uma pesquisa desenvolvida em um terreiro de umbanda na região metropolitana de Curitiba, cuja fundadora é a preta velha Vovó Maria Conga. Esse espírito possui uma participação intensa na vida da comunidade, deliberando rituais, negociando assentamentos no terreiro e a chegada ou não de novos filhos de santo para a participação comunitária. Contudo, um ponto que chama atenção é o modo como suas familiares afirmam que, quando viva, a mãe de santo e a preta velha pareciam partilhar uma mesma existência. Além de afirmarem uma a palavra da outra, a relação entre elas era tão próxima que as diferenças quase se apagavam na percepção das pessoas, que muitas vezes não sabiam com quem estavam lidando. Nesse sentido, ainda em processo de maturação do pensamento, e considerando pertinente mobilizar noções de existência e estatutos ontológicos, este texto busca refletir sobre práticas cotidianas que podem produzir maneiras fugitivas de morte social, percepções que parecem se constituir coletivamente nos terreiros, mesmo em meio a violências sistemáticas, como formas de dignificar a vida e a morte.
Coordenação
Telma de Sousa Bemerguy (cebrap)
Renata Barbosa Lacerda (UFRJ)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Letícia Maria Costa da Nóbrega Cesarino (UFSC)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Katerina Hatzikidi (Universidade de Tuebingen)
As posições defendidas por sujeitos de extrema-direita devem ser analisadas a partir de seus próprios elementos conceituais, independentemente de nossa avaliação sobre sua razoabilidade ou aceitabilidade moral. Formulações que qualifiquem as percepções desses sujeitos como irracionais, delirantes ou meramente manipuladas comprometem a elaboração de registros etnográficos densos sobre visões de mundo mobilizadas em processos de radicalização política. Esse tipo de enquadramento configura um obstáculo epistemológico para a compreensão da lógica que sustenta as ações e posições defendidas por esses sujeitos na esfera pública. A etnografia é um meio potente para enfrentar os desafios metodológicos envolvidos na construção de enquadramentos para o estudo das visões de mundo de sujeitos de extrema-direita, mas diferentes enquadramentos podem ser mobilizados. Nesse marco, o grupo de trabalho buscará reunir pesquisas com enquadramentos analíticos e metodológicos diversos, que abordem crenças, valores e moralidades mobilizados pelo campo da extrema-direita brasileira, bem como narrativas etnográficas sobre a visão de mundo de atores autoidentificados como bolsonaristas em diferentes regiões brasileiras, análises de processos históricos relacionados ao fortalecimento da extrema-direita no Brasil e discussões sobre os desafios metodológicos envolvidos no estudo de atores/eventos relacionados a processos de radicalização política.
Títulos e Resumos
-
Do portão ao púlpito: uma etnografia de longa duração da radicalização política do culto de uma igreja pentecostal durante o Governo Bolsonaro
— Adriel Torres Ferreira
— Adriel Torres Ferreira
Nos últimos anos, os sujeitos evangélicos obtiveram maior visibilidade midiática, porém, constantemente, eles são resumidos ao enquadramento dicotômico: fiéis manipulados pela extrema-direita ou rebeldes contra ela. Esse retrato impede a apreensão da complexidade e diversidade desses sujeitos, além de atrapalhar a percepção de criatividade e fraturas no recrudescimento do conservadorismo. De forma a evitar e refletir sobre isso, realizei uma etnografia de longa duração, durante graduação e mestrado, no templo pentecostal que frequentei desde criança, a sede da Assembleia de Deus (AD) - ministério Belém - em Campinas.
No trabalho proposto para o GT, escrevo a partir de cenas etnográficas de três cultos em temporalidades distintas: as eleições de 2018; as eleições de 2022; e a pandemia de Covid-19 durante o Governo Bolsonaro, para pensar através das seguintes questões: como são os efeitos e produções da radicalização política no cotidiano e como essas transformações são percebidas no culto de uma igreja evangélica? A comunidade observada tem uma particularidade que permitiu maior contraste entre as eleições recentes, visto que a AD - Belém faz parte do fenômeno das igrejas com candidaturas oficiais e, além disso, no caso do templo sede em Campinas, seu pastor presidente é também deputado federal reeleito desde 2010. Portanto, essa comunidade já tem a tradição de participar de eleições promovendo suas candidaturas próprias, o que demandou regimes de visibilidade para ordenar discursos político-eleitorais nos quais observei uma mudança. Em 2018, observei uma campanha eleitoral do portão para fora, nomeada por pastores que formavam os cabos eleitorais, na qual Bolsonaro foi apoiado de forma envergonhada e tardia. Já em 2022, observei uma campanha eleitoral de púlpito, nomeada por meus amigos-irmãos que frequentam o templo, em que Bolsonaro foi apoiado com performances pastorais, durante os cultos. Apresentado o contraste, argumento que o Governo Bolsonaro foi um período de articulação das direitas religiosas em que se produziu novos cotidianos, deslocando sensibilidades e regimes de visibilidade do político. Esse cotidiano religioso ordenado é entendido a partir de debates antropológicos clássicos ao observar a circulação do secularismo e sensibilidades específicas, nas quais as fronteiras religiosas se deslocam com produções de consenso que mobilizam noções de perigo e pureza ao tratar certos discursos (Asad, 2024; Montero, 2006; Douglas, 1991). Considero que esse enquadramento dependeu da minha memória pessoal, rede de vínculos e compromisso ético com os interlocutores, não tratados como um outro repugnante, em suma, dependeu da minha posição de nativo-relativo, um assembleiano-antropólogo vivendo na zona fronteiriça entre a Religião e a Antropologia.
-
A potência feminina do conservadorismo: o caso de vereadoras do Nordeste
— Emanuel Freitas da Silva
— Emanuel Freitas da Silva
A comunicação tem como objetivo apresentar dados de pesquisa que versa sobre a atuação de vereadoras autoproclamadas conservadoras e de direita, com atuação no Nordeste brasileiro, que exerceram/exercem mandatos de vereadora partir das duas últimas eleições municipais (2020 e 2024). O foco comunicação é a atuação de vereadoras filiadas a partidos de direita ou de extrema-direita, com identificação religiosa cristã (católica ou evangélica) de considerável inserção no ambiente digital (redes sociais), compreendendo, assim, dados de uma pesquisa que se debruça sobre fenômenos políticos de suma importância no cenário político contemporâneo: a presença de mulheres na política; o avanço do conservadorismo/reacionarismo como plataforma política e mobilização ideológica; as transformações na vida social, em geral, e na política, em particular, operadas pelos meios digitais; e os dilemas da democracia representativa. A religião se tornou, de algum modo, uma caixa de ressonância da tradição agonística nos regimes de democracia representativa. A partir dos anos 1980, esses grupos, uma vez eleitos, passaram a vocalizar uma posição de enfrentamento e belicosidade contra outros grupos sociais, em especial os liberais de centro e as diversas matizes da esquerda. Retira-se a perspectiva liberal-representativa de cena e recoloca-se a perspectiva do inimigo a ser combatido. É nesse sentido, que ao pensarmos figuras femininas evangélicas que ascendem na política institucional não se trata de casos específicos, mas de uma onda conservadora que tem investido em candidaturas femininas ancoradas em discursos de representação feminina, uma onda crescente que tem se mostrado através religião um poder de adesão, principalmente no que tange mulheres. Conflitando com as agendas feministas que defendem uma maior participação feminina na política, levantado em consideração debates sobre sub-representação política feminina, assim como os setores religiosos negam às desigualdades de gênero. Na comunicação, traremos resultados colhidos a partir de: análise do trabalho legislativo e da mobilização digital das parlamentares, em períodos eleitorais e fora deles; identificação dos temas que ganharam maior relevância nos discursos por elas proferidos nas Casas Legislativas para a qual foram eleitas; e, por, fim, uma análise documental de projetos de lei apresentados, vetos a políticas públicas ou projetos de lei do Executivo ou de outros parlamentares e discursos proferidos em matérias que tenham sido cruciais para a defesa da plataforma política de cada uma delas.
-
Classes médias e bolsonarismo
— Glauber Franco de Oliveira
— Glauber Franco de Oliveira
Esta é uma comunicação com alguns resultados parciais de uma pesquisa de doutorado em desenvolvimento sobre classes médias e bolsonarismo. Considerando a precarização do trabalho advindas das reformas trabalhistas das últimas décadas e a presença de sujeitos com alto assalariamento e escolaridade em protestos de rua mobilizados pela extrema-direita política, problematiza-se como as transformações das relações de trabalho da alta classe média contribuíram para a formação de disposições ideológicas e políticas que favorecem a sua adesão à extrema-direita no Brasil recente. Busca-se expor na comunicação alguns aspectos de como as características do culto ao trabalho, da anticorrupção e do meritocracismo encontrados na teoria sobre estas classes se relacionam com a base social bolsonarista; como a flexibilização, precarização e desproteção social do trabalho afetaram ocupações típicas da classe média, compreendendo suas divisões internas entre alta e baixa e suas distintas adesões ideopolíticas; e como o padrão de protestos de rua de massas da alta classe média se comportam, em suas pautas políticas e discursos ideológicos, frente às mudanças nas suas relações de trabalho. O trabalho se relaciona com o GT porque compreende que, ao invés de taxar tanto as classes médias, como o bolsonarismo, a partir de efeitos cognitivos ou de consciência, psicologizantes ou moralizantes, tal como teses sobre déficit cognitivo ou de ilusão de consciência, ressentimento ou uma essência maligna, que corresponderia, por sua vez, à uma generalidade vazia de grande parcela da população brasileira que votou em Jair Bolsonaro, centra-se em compreender sua necessidade a partir de transformações recentes nas relações de trabalho e suas clivagens ideológicas e políticas.
-
Estetização, cliques e performance: Uma análise sobre a "Caminhada pela liberdade"
— Juliana Antunes
— Juliana Antunes
O presente trabalho insere-se no bojo de investigações tocadas pela autora, referentes às dimensões estéticas e performáticas da extrema-direita brasileira. Na comunicação aqui submetida, estabelece-se a atenção sobre um caso em específico, decorrido no mês de Janeiro de 2026. Na ocasião em questão, um grupo de aproximadamente 18.000 pessoas realizaram uma caminhada de mais de 230 km, entre os estados de Minas Gerais (MG) e Brasília (DF). A peregrinação, intitulada como “Caminhada pela Liberdade”, foi liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL/MG), uma das faces mais repercutidas entre os meios da extrema-direita brasileira desde a declaração de inelegibilidade e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Vale mencionar, ainda, que Nikolas foi um dos políticos mais bem votados do Brasil, na eleição que lhe concedeu seu atual mandato, em 2022. A caminhada mobilizou diversos ícones e símbolos que já são marcantes na extrema-direita - o nacionalismo, a religiosidade, a retórica do nós vs eles e o messianismo. Ademais, em relação à sua motivação, a mesma entra em consonância à defesa dos presos pelos atos de depredação da Praça dos Três Poderes no 08 de Janeiro de 2023, à libertação de Jair Bolsonaro e à gramática de um “despertar do povo brasileiro”. Aposta-se na presente comunicação, ainda, que as redes sociais tiveram um papel essencial no decorrer da manifestação, servindo para veicular fotos de seus participantes - quase sempre em uma aura épica e heróica - e trechos de discursos efusivos - algo que vai em encontro à categoria da “política dos cortes”. Dessarte, é aqui proposta uma abordagem sobre a “Caminhada pela liberdade”, atentando ao seu caráter estético dentro e fora das redes sociais. A abordagem proposta é iluminada pelas contribuições de Walter Benjamin, no que tange ao conceito de estetização da política, Guy Debord, com a ideia de espetáculo, e Victor Turner, nas categorias para estudo dos rituais.
-
Civismo agrário e colonialismo em dois redutos bolsonaristas
— Luciana Schleder Almeida, Carla Craice da Silva
— Luciana Schleder Almeida, Carla Craice da Silva
Associações do patronato rural que compõem a concertação política do agronegócio são elementos sempre associados ao bolsonarismo. É notório que, nos últimos anos de radicalização política, os palanques do “agro” promoveram discurso autoritário e reacionário. Nos eixos rodoviários das áreas de produção, a identificação com a extrema-direita se explicitou com os chamados “bloqueios golpistas” em 2022.
A pesquisa apresenta uma abordagem etnográfica da moralidade de sujeitos de extrema-direita que se identificam com o mundo do agronegócio comparando dois redutos eleitorais bolsonaristas: a BR 163, na parte em que ela cruza as áreas de maior produtividade de soja no Mato Grosso, mais precisamente nos municípios de Lucas do Rio Verde e Sorriso (trechos que se destacaram no noticiário pelos bloqueios golpistas de outubro de 2022) e o Oeste da Bahia, em que se estabeleceu uma nova regionalização ligada ao “agro” cuja capital é Luís Eduardo Magalhães, o único município da Bahia em que Jair Bolsonaro venceu as eleições de 2018 e 2022.
As áreas estudadas estão integradas ao sistema agroalimentar hegemônico, intensamente financeirizado, e compõem a sucessão de fronteiras internas que vem constituindo a nação brasileira. A análise revela a permanência da lógica da plantation colonial e suas conexões globais nas instituições econômicas e jurídicas do Brasil e a incorporação de estratégias de ocupação territorial e de formas discursivas de civismo agrário associadas ao “colonialismo de povoamento”.
-
Moral, família e política: uma etnografia das pedagogias anti-gênero no Brasil contemporâneo
— Maria Andoyiki
— Maria Andoyiki
Nos últimos anos, o “combate à ideologia de gênero” e, mais recentemente, às agendas identificadas como “anti-woke”, tem se consolidado como um dos principais eixos de mobilização política de redes conservadoras e de extrema-direita no Brasil. Longe de se expressarem apenas por meio de discursos dispersos nas redes sociais, essas mobilizações se materializam em livros, cursos, workshops, lives e materiais pedagógicos que articulam moralidades cristãs, defesa da família e reivindicações de liberdade religiosa, operando como dispositivos centrais de formação política e radicalização.
Esta pesquisa propõe uma etnografia dessas produções — livros e cursos anti-gênero — entendendo-as não como meros “textos” ou “conteúdos”, mas como artefatos sociais que participam ativamente da constituição de sujeitos, vínculos e visões de mundo associadas ao campo bolsonarista e à extrema-direita brasileira. O foco da análise recai sobre os desafios metodológicos de uma etnografia que se desloca do modelo clássico baseado na copresença prolongada em um espaço físico delimitado, para um trabalho de acompanhamento de trajetórias, circulações e engajamentos que atravessam plataformas digitais, mercados editoriais religiosos e eventos formativos on-line e off-line.
Inspirada na crítica de Tim Ingold às concepções modernas de percepção baseadas na distância e na observação exterior, a pesquisa adota uma abordagem processual e relacional da etnografia, compreendendo o trabalho de campo como um exercício de “seguir” fluxos, controvérsias e materiais. Livros, cursos e conteúdos digitais são tratados como linhas de movimento que conectam atores, instituições religiosas, plataformas tecnológicas e disputas morais, exigindo do pesquisador uma forma de engajamento que privilegia a atenção, a escuta e o acompanhamento das práticas, mais do que a simples captura representacional do discurso.
Dialogando com a antropologia digital e documental, bem como com a noção geertziana de descrição densa, o trabalho busca compreender como categorias como “gênero”, “família”, “infância” e “liberdade religiosa” são rearticuladas como categorias de acusação e operadores morais. Ao analisar as pedagogias de mobilização presentes nesses materiais, a pesquisa contribui para os debates do GT ao evidenciar como processos de radicalização política se constroem a partir de infraestruturas culturais, documentais e algorítmicas, colocando em primeiro plano os desafios epistemológicos e metodológicos de etnografar a extrema-direita a partir de suas próprias formas de produção de conhecimento.
-
UM FEITIÇO POLÍTICO: Extrema Direita, Fantasias de Conspiração e Mobilização Social
— Naê Della'Parma Prieto Salatim
— Naê Della'Parma Prieto Salatim
O presente estudo investiga o fenômeno QAnon e a eficácia das fantasias de conspiração na mobilização de grupos sociais diversos, analisando como tais narrativas emergem e se consolidam na política contemporânea. Diferenciando-se do termo racionalista "teoria", o conceito de "fantasia da conspiração", cunhado por Paolo Demuru a partir do coletivo Wu Ming de autores anônimos, destaca o caráter extraordinário, de encantamento e de "disfarce" presente nessas construções discursivas, que operam através do desejo e do fascínio mágico para estruturar o comportamento político. O movimento QAnon surgiu em 2017 no fórum 4chan, fundamentado na crença de que o mundo é governado por uma cabala satânica de pedófilos, o "Deep State" que estaria infiltrada no governo e no entretenimento, tendo Donald Trump como a figura central de um "salvador". Pesquisas indicam que o perfil predominante dos adeptos nos Estados Unidos consiste em indivíduos brancos, entre 30 e 49 anos, majoritariamente protestantes evangélicos e alinhados à extrema direita.
A transposição dessas ideias para o cenário brasileiro evidencia uma ressignificação dentro do bolsonarismo, exemplificada por episódios de radicalização como a tentativa de atentado ao Supremo Tribunal Federal em 2024 por Francisco Wanderley Martins, cujas mensagens em suas redes sociais faziam uma referência à "Operação Storm" e solicitava o envio do FBI para as Ilhas do Marajó, para o combate contra o tráfico infantil, evento esse que fazia uma referência a uma fala da ex-ministra Damares Alves. Além disso, observa-se uma simbiose entre o conspiracionismo e movimentos de "Nova Era" e espiritualidade no Brasil, em que discursos sobre o "despertar da consciência" na era de aquário são utilizados para validar oposição a pautas liberais e à chamada agenda "Woke", bem como ao sistema. Metodologicamente, o trabalho adota uma abordagem qualitativa, bibliográfica e documental, cruzando literatura acadêmica com manifestações em redes sociais e notícias jornalísticas sob a ótica das Ciências da Religião e Ciências Sociais.
A análise busca compreender como líderes populistas de extrema direita capturam a pauta do desejo e como as fantasias de conspiração criam uma verdadeira liga no tecido social, utilizando do maravilhoso e do fantástico para oferecer respostas e soluções aos conspiracionistas. Espera-se que a pesquisa contribua para o debate acadêmico sobre o conspiracionismo político e extremismo, fornecendo chaves interpretativas sobre como essas fantasias captam adeptos e impactam a percepção política ao mesmo tempo que reforçam o ódio. Em última análise, o projeto ressalta a urgência de novas formas de narrar o mundo e "encantar o futuro" como resistência à colonização do imaginário por discursos conspiracionistas.
-
Possessão demoníaca e batalhas espirituais no Brasil contemporâneo: Investigação sobre o ponto de vista de católicos conservadores
— Ricardo Correia Carramillo Caetano
— Ricardo Correia Carramillo Caetano
Durante o governo do ex-presidente Jair Messias Bolsonaro (2019 a 2022) diversos comunicadores mais associados à direita mobilizaram a noção de uma batalha que não ocorria só no âmbito político e material (Silva, E. M. A. da, Silva, E. F. da, & Bartel , B. F., 2023). Segundo os autores houve o uso de uma gramática moral conservadora [
] que confere a uma disputa eleitoral os contornos de uma batalha espiritual. Ao longo de todo o processo, desde a eleição, a pandemia da Covid-19 até a tentativa de reeleição, foram utilizadas narrativas cosmopolíticas associadas à noção cristã de batalha espiritual (Camurça, 2024). Nos últimos anos as Ciências Sociais tem direcionado a atenção para o conservadorismo católico e sua atuação em diferentes campos: político e jurídico, por exemplo. Se destacam as autoras Ana Carolina Marsicano, Brenda Carranza e Tabata Tesser, além do ISER (Instituto de Estudos d a Religião)
Tem-se como objetivos principais compreender, no contexto brasileiro, a atuação de parte de uma intelligentsia católica, bem como a fundamentação teórica, filosófica e teológica utilizada por ela. Esta intelligentsia é representada por padres e leigos que assumem um papel de orientar os fiéis e de participar de um debate de cunho intelectual. Portanto, seria uma intelectualidade engajada e que assume um papel de orientação. O Padre Paulo Ricardo, Olavo de Carvalho e leigos católicos, acadêmicos ou não, seriam exemplos dessa figura.
Entende-se o ambiente digital como o espaço principal de propagação das ideias conservadoras, sendo consideradas como tecnoconservadorismo (Rosa et al, 2024), tendo como destaque a empresa e produtora Brasil Paralelo. Desta forma o recorte do trabalho se dá na análise, ainda a ser melhor definida, de canais de youtube e podcasts com conteúdo católico conservador. Tendo como principal foco os que abordam o tema de batalha espiritual da perspectiva conservadora. É fundamental perceber a presença católica nas redes. Alguns exemplos são o canal Caravelas Podcast, comandado por Marcelo Andrade, que traz convidados com tendências mais à direita do espectro político e, muitas vezes, defensores da Igreja Católica. Além do crescimento do número de podcasts católicos como Ânima Podcast e Santa Flow.
Por fim, pretende-se contribuir para a ampliação dos conhecimentos e da literatura científica sobre a perspectiva Católica acerca da noção de possessão demoníaca e batalha espiritual e quais suas implicações para a dinâmica política e social no Brasil. Também trazer o ponto de vista dos defensores desta visão de batalha espiritual, entendendo a possessão demoníaca como subsumida nela, para melhor compreender como eles mesmos descrevem essa batalha.
-
A Autodeterminação Reconfigurada: Um esforço etnográfico sobre a captura de lutas emancipatórias pela direita radical, e inserção de terras Indígenas demarcadas em cadeias de commodities no Brasil.
— Rodrigo Souza Silva
— Rodrigo Souza Silva
No Brasil, a inserção de terras indígenas demarcadas em cadeias de commodities agropecuárias, como analisado por Caio Pompeia (2022), vem sendo articulada em duas frentes. (1) A defesa da continuidade dos arrendamentos e suas variantes existentes, diretamente contestados pela jurisprudência que identifica sua ilegalidade; e (2) a abertura de possibilidades de criar alterações legislativas e administrativas que autorizem tais práticas, permitindo seu crescimento no país. O mesmo autor elabora uma análise sofisticada de como elites brasileiras do setor agropecuário se alinham ao projeto autoritário que vem se reagrupando e criando corpo no Brasil contemporâneo (Pompeia 2021;2024). O presente estudo busca compreender melhor certas nuances das referidas articulações que podem contribuir com as análises já formuladas, através de um esforço etnográfico de delicado engajamento do fenomenológico com o político (Comaroff e Comaroff 2003). Para tanto o trabalho foca em comunidades indígenas do oeste do Mato Grosso, principalmente Haliti-Paresi, que atualmente operam mais de 19.000 hectares de monocultura mecanizada de grãos em seus territórios. Nas eleições presidenciais de 2022, uma dessas comunidades registrou 91% dos votos para Jair Bolsonaro. Considerando o longo histórico de negociações políticas complexas entre estes povos indígenas, o Estado e elites econômicas (mediadas por assimetrias de poder e contextos desenvolvimentistas) busco elucidar aspectos cotidianos que ajudem a entender de que maneira o projeto político bolsonarista passou a ser percebido como convergente aos interesses de determinadas coletividades indígenas. Busco também um melhor entendimento de novas táticas políticas da direita radical brasileira empenhadas em reconfigurar estratégias de autodeterminação, elaboradas por grupos historicamente oprimidos, em adesão a projetos de dominação capitalista. Os trabalhos desta pesquisa se encontram em fases iniciais, portanto o que será apresentado está fundamentado em uma revisão de mídia, conversas informais e observações durante visitas preliminares ao campo, e falas públicas de indígenas em eventos e sessões parlamentares no congresso nacional. Desse modo, o trabalho conecta este contexto local às análises sobre as frentes de inserção de terras indígenas demarcadas em cadeias de commodities agrícolas. Mesmo que preliminares, estas reflexões oferecem elementos para debater as formas pelas quais tais frentes, levadas ao limite pela direita radical, adaptam-se a dinâmicas locais e articulam sua validação através de renovadas formas de gestão do socialmente marcado.
Coordenação
Gabriel O. Alvarez (PPGAS/UFAL)
Renato Athias (UFPE)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Renata do Amaral Mesquita (UFPE)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Ana Lúcia Ferraz (UFF)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Carlos Caroso (UFBA)
Resumo: A antropologia multimodal interpela a antropologia escrita ao deslocar os eixos, da pretensão de científica para a sensibilidade artística, da palavra para a performance, da colonialidade da escrita para outras formas de expressão simbólica com a fotografia, vídeo e desenho; outras poéticas, e a incorporação da dimensão estética. Uma antropologia que se desloca do antropólogo omnisciente para uma perspectiva compartilhada, criando narrativas que transcendem o público antropológico. O GT propõe discutir experiências de trabalhar com antropologia multimodal, priorizando a discussão da metodologia participativa envolvida nestes empreendimentos antropológicos. Com um olhar sensível respeitando as memórias, histórias e relações envolvidas, bem como o processo de construção, busca-se refletir sobre outras poéticas que incorporam uma dimensão estética, desenhos, documentários, fotografias e suas potencialidades envolvidas, sobretudo a partir dos saberes e fazeres antropológicos e etnográficos. O GT convoca pensadoras/es e suas respectivas produções para apresentar seus trabalhos a partir de uma abordagem contracolonial, afro-indígena, diaspórica e amefricana.
Títulos e Resumos
-
Modos de existência do vídeo e da Terra: cenas e presenças entre os A’uwé Xavante
— Ana Lúcia Ferraz
— Ana Lúcia Ferraz
Este trabalho parte de uma experiência mediada pelo vídeo com os A’uwé Xavante que vivem às margens do rio das Mortes, no Mato Grosso. Acompanho debates que circulam entre as Terras Indígenas Sangradouro, São Marcos, Areões e Pimentel Barbosa, durante os últimos 7 anos, em que pude relacionar-me com o modo de existência a’uwé. Desenvolvi uma série de vídeos que documentam as relações deles com o Ró, o lugar, o cerrado que viceja entre os rios, visando devolver materiais audiovisuais para a própria comunidade fazendo-os circular em suas redes sociais.
O trabalho documentou também os danhoré, os cantos de seus grupos de idade que caracterizam os A’uwé uptabi, a gente verdadeira que habita hoje a zona de transição entre o cerrado e a Amazônia. Os corpos transformados pela pintura (Miller) dançam em roda até a alteração da consciência (Turner). A pintura indica categorias sociais e prerrogativas rituais (Seeger) e seria uma espécie de roupa (Castro). O objetivo do trabalho é estreitar a possibilidade de entrar no ponto de vista como forma de fazer ver (Lapoujade, 2017).
Pensando as formas sensíveis do povo xavante, sua cosmologia e territorialidade, a partir da etnografia audiovisual, buscamos analisar os diferentes modos que se instauram entre diferenças: a ritualidade X a vida cotidiana, a aldeia X a mata, a Terra Indígena X a cidade, o mundo a’uwé X o mundo waradzu. Neste processo, os meios técnicos traçam um circuito em que vídeos curtos e curtíssimos circulam entre jovens usuários de redes sociais e um media-metragem faz outros circuitos. A pesquisa acabou por trabalhar a questão da percepção que, operando a partir das relações entre diferenças, logramos ver. A pesquisa explora diferentes formatos e meios de circulação de imagens visando intervir em um conflito socioambiental causado pela instalação de grandes empreendimentos sobre o território xavante.
-
Desenhar etnografias: como pensar/ensinar Antropologia com estudantes indígenas Guarani-Kaiowá em Amambai/ Mato Grosso do Sul
— Anna Carolina Horstmann Amorim
— Anna Carolina Horstmann Amorim
Este trabalho versa sobre a produção antropológica que não se limita ao texto escrito, mas abre espaço para outras formas de linguagem e expressões artísticas, estéticas e contracoloniais. Especificamente, trata do uso de desenhos nos processos de pensar e produzir exercícios etnográficos com estudantes indígenas Guarani-Kaiowá, no curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, onde atuei como professora. Ao trabalhar conteúdos de componentes curriculares de Antropologia com turmas majoritariamente formadas por estudantes indígenas falantes de Guarani, que tem no português sua segunda língua, uma língua habitualmente associada a um mundo de despertencimento e de relações violentas, a possibilidade de produzir relatos e exercícios etnográficos a partir de desenhos despontou como um caminho possível e potente no processo de ensino/aprendizagem de/na Antropologia. Neste sentido, apresentarei alguns desenhos produzidos por estudantes indígenas em exercícios de pesquisas e trabalhos finais das disciplinas ministradas por mim (Antropologia Contemporânea, Antropologia do Brasil e Tópicos Especiais em Antropologia) nos anos de 2022, 2023 e 2024, no curso de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, na Unidade Universitária de Amambai. A partir destes desenhos, discutirei como a escrita, sobretudo a escrita acadêmica em português, pode ser uma barreira para o processo de ensinar/pensar/produzir Antropologia, podendo inclusive configurar uma forma de violência para estudantes indígenas, mantendo atualizadas práticas pedagógicas que confundem educação com civilização/colonização. Em contrapartida, argumentarei como o uso de desenhos e pinturas tem um lugar destacado no modo de viver/pensar indígena e como estes podem ser um importante caminho para produção de teorias e etnografias indígenas em perspectiva contracolonial.
-
Antropologia Multimodal - Artes, Linguística e Transdisciplinaridade Participativa
— Bruno Karasiaki Filene
— Bruno Karasiaki Filene
Este trabalho insere-se no campo da antropologia multimodal ao problematizar os limites da antropologia escrita e propor deslocamentos epistemológicos, metodológicos e estéticos a partir de práticas etnográficas que articulam imagem, som, performance e sensibilidade artística. Partindo de experiências de pesquisa e criação que envolvem documentação linguística, práticas audiovisuais e processos colaborativos de produção de narrativas, o estudo interroga a centralidade da escrita como forma hegemônica de validação do conhecimento antropológico, evidenciando seus vínculos históricos com a colonialidade do saber.
A proposta dialoga com abordagens contracoloniais, afro-indígenas, diaspóricas e amefricanas compreendendo a antropologia multimodal como um campo de disputa simbólica, no qual fotografia, vídeo, desenho e performance não operam apenas como suportes ilustrativos, mas como dispositivos epistemológicos capazes de ativar outras poéticas e regimes de sensibilidade. Nesse sentido, a pesquisa desloca a figura do antropólogo omnisciente em direção a uma perspectiva compartilhada, na qual os sujeitos da pesquisa participam ativamente da construção das narrativas, dos enquadramentos estéticos e das escolhas metodológicas.
O trabalho enfatiza a metodologia participativa como eixo central da antropologia multimodal, discutindo os processos de coautoria, escuta sensível e negociação ética implicados na produção de imagens e narrativas audiovisuais. Ao priorizar as memórias, histórias e relações envolvidas no campo, a pesquisa busca refletir sobre como a incorporação da dimensão estética pode ampliar o alcance público da antropologia, criando narrativas que transcendem o público estritamente acadêmico sem perder densidade analítica.
Ao articular saberes e fazeres antropológicos e etnográficos com práticas artísticas e multimodais, o estudo contribui para o debate sobre outras formas de produção e circulação do conhecimento, reafirmando a antropologia multimodal como um campo fértil para a construção de epistemologias plurais, sensíveis e comprometidas com a crítica à colonialidade da escrita e com a valorização de outras formas de expressão simbólica.
O trabalho apresenta experiências etnográficas de pesquisas internacionais feitas na Universidade Federal de Goiás (Brasil), CIESAS (México) e UDELAR (Uruguai) para a grande área das Artes, Letras e Linguística, apresentando resultados quali-quanti e justificativas metodológicas para a superação epistemológica das fronteiras disciplinares, visando a unidade da ciência como paradigma científico de excelência. O trabalho compreende no espaço amostral, pesquisas focadas em comunidades afroindígenas, de múltiplas denominações, alinhadas pragmaticamente pelo espiritismo popular amefricano, uma ontologia anticolonial
-
Entre as raízes de novos universos: ensaio imagético sobre a construção de uma cultura ballroom em Natal/rn
— Clistenes Emanuel da Silva Costa
— Clistenes Emanuel da Silva Costa
A cultura Ballroom, considerada uma cultura de rua, é um interesse latente na minha jornada e pesquisas desde 2015, e é originária de comunidades afro-americanas e latinas de Nova York nas décadas de 1980 e 1990 (Bailey, 2009). Parrine (2017) indica que o documentário “Paris is Burning”, de Jennie Livingston (1990) é primordial para entender a cultura dos bailes pois como indica Koudelová (2022), ele possui escassos registros audiovisuais. Minhas pesquisas se debruçam em solo brasileiro entendendo que a Cultura Ballroom, ao se mundializar na década de 2010 se difunde no Brasil a partir de grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília (Nalin, 2023), chegando em Natal-RN em 2023. Neste sentido, Didi-Huberman (2020), indica as imagens enquanto testemunhos visuais de acontecimento, e destante, este trabalho tem por objetivo compreender o ponto de encontro entre o “legado” de uma ballroom originada nos EUA e uma em solo potiguar, tensionando a ideia do documentário e sua potencialidade de material etnográfico que registra práticas performativas centrais para a produção de identidade, pertencimento e reconhecimento social que seriam reproduzidos na autointitulada “Ballroom RN”. Por meio de colagens e/ou posteriores intervenções na imagem, usando como acervo imagéticos o filme “Paris is Burning” e registros audiovisuais das “balls” realizadas no RN, originando novas imagens, englobo as discussões de Didi-Huberman (2020), da sobreposição para desdobramento de novos olhares sobre os dois períodos, que tensionados revelariam a sua circularidade. Desta forma o trabalho pretende entender o poder simbólico do documentário para reproduzir as estruturas autoridade, organização e performances de gênero cruciais para uma comunidade em constante construção, influenciada por correlações de forças entre diferentes classes sociais, outros movimentos culturais de rua etnias e gêneros, dentro desse cenário de resistência simbólica e reorganização dos espaços urbanos a partir de corpos historicamente marginalizados.
-
Desenhar o arquivo: etnografando as resistências de gênero na corpografia de Maria Antônia Soares
— Dandara Vieira Luigi
— Dandara Vieira Luigi
Esta pesquisa investiga a trajetória de vida-política de Maria Antônia Soares (18981991), mulher operária e militante anarquista que atuou entre as cidades de Santos e São Paulo nas primeiras décadas do século XX. O trabalho tem como ponto de partida a prática de etnografia de arquivo, a partir de seus escritos publicados na imprensa anarquista e de outros documentos históricos, articulada à produção de desenhos realizados ao longo do processo de pesquisa. A investigação se desdobra a partir de uma experiência prévia de participação na elaboração do livro biográfico Unidas nos lancemos na luta: o legado anarquista de Maria A. Soares (2021), permitindo aprofundar uma reflexão metodológica sobre o desenho como forma de conhecimento antropológico e como prática artística de reinterpretação de arquivos. Nesse sentido, o arquivo é compreendido não como um repositório neutro, mas como um campo atravessado por disputas, silenciamentos e regimes de visibilidade, especialmente no que se refere às experiências de mulheres trabalhadoras no início do século passado. Interessa-me compreender como a atuação política de Maria Antônia se inscreve nos espaços urbanos e públicos, em um contexto marcado pela subalternização das mulheres, explorando as tensões entre visibilidade e apagamento. A partir do conceito de corpografia entendido como uma escrita do corpo no espaço e do espaço no corpo proponho os desenhos como formas de visualização de modos de [re]existência corpo-espacial, representando seus deslocamentos e presenças em ruas, fábricas, sindicatos, comícios e jornais. Assim, ao integrar escrita etnográfica e produção visual, o trabalho dialoga com debates sobre a colonialidade da escrita e com a antropologia multimodal, ao mesmo tempo em que contribui para reflexões contemporâneas sobre gênero, classe e práticas artísticas com arquivos. A trajetória de Maria Antônia Soares configura, desse modo, uma possibilidade de pensar formas alternativas de agência feminina na cidade, bem como os arquivos como espaços de disputa e o desenho como produção de conhecimento antropológico.
-
O Círculo Cultural (Círculo das Imagens) como proposta de educação crítica voltada a populações em situação de vulnerabilidade social.
— Emiliano Dantas, Daniel Dutra de Barros, Rhavi Ravenna de Almeida Pereira
— Emiliano Dantas, Daniel Dutra de Barros, Rhavi Ravenna de Almeida Pereira
Este trabalho tem como objetivo apresentar o Círculo Cultural/Círculo das Imagens como uma proposta teórico-metodológica inspirada na obra de Paulo Freire, voltada à produção compartilhada de conhecimento com pessoas em situação de vulnerabilidade social. Parte-se da compreensão da educação como uma práxis crítica e dialógica, orientada pela leitura complexa do mundo visível tal como vivido e significado pelos próprios sujeitos. O trabalho analisa treze imagens, elaboradas na forma de desenhos, produzidas no contexto da Pesquisa Participativa HIV/aids: passado, presente e futuro, fomentada pelo Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (CPC-HCFMUSP), cujo foco foram ações educativas voltadas ao desenvolvimento da consciência crítica para a prevenção das infecções pelo HIV na cidade de São Paulo. As imagens são fruto de um processo de investigação temática, de caráter participativo, conforme proposto por Freire em Pedagogia do Oprimido, e expressam temas geradores definidos coletivamente pelos participantes, tais como sexo, remédio, cura, prevenção, infecção e epidemia, que organizam o debate do plano mais geral às experiências particulares. No interior do Círculo Cultural, essas imagens funcionam como mediadoras do diálogo, favorecendo a problematização das experiências, a emergência de narrativas e a construção da consciência crítica no campo da prevenção. O trabalho discute, assim, como o funcionamento do círculo, o uso das imagens e a dinâmica dialógica constituem uma prática pedagógica crítica, articulada à epistemologia freiriana, que contribui para a construção coletiva de conhecimento e para a ampliação da autonomia dos sujeitos.
-
Às voltas do opérculo: contra a representação do real.
— Geslline Giovana Braga
— Geslline Giovana Braga
O presente trabalho propõe uma reflexão teórica sobre o uso da imagem não-realista na antropologia, a partir da afirmação de Michael Baxandall (1991) de que a pintura renascentista teria antecipado em dois séculos as formulações do humanismo oitocentista. A partir desse argumento, analiso referências feitas por antropólogos a artistas e pintores não-realistas, como Brueghel, o Velho, em Roy Wagner (2010); Wassily Kandinsky, em Tim Ingold (2015); Joseph Beuys, em Paul Stoller (2022), além dos trabalhos de arte contemporâneos indígenas, como Gustavo Caboco, Glicéria Tupinambá e Denilson Baniwa. O objetivo é compreender como essas referências visuais operam na antropologia como dispositivos de reflexividade, como instrumentos de crítica cultural e como formas de tensionar a centralidade da escrita acadêmica. A reflexão dialoga com debates da antropologia multimodal ao considerar a imagem como produção de pensamento e não como mera ilustração etnográfica. Nesse contexto, apresento as imagens de um opérculo surgido como corpo estrangeiro nas areias da praia de Ponta Negra, no Rio Grande do Norte, após as obras de engorda da orla. O objeto-imagem atua como operador conceitual e sensível, articulando paisagem, Antropoceno e poética visual. A proposta insere-se em uma perspectiva contracolonial ao explorar modos de conhecimento que deslocam a escrita como forma hegemônica de expressão antropológica e a imagem como representação do real e ampliam os regimes estéticos e epistemológicos da disciplina.
-
O contrafactum como colonizador? Pesquisando e refletando sobre ética com uma canção indígena
— Judith Cohen
— Judith Cohen
Como etnomusicóloga e intérprete de canções tradicionais, o termo "contrafactum" faz parte do meu discurso diário e é comum em muitas culturas, ao longo de muitos séculos. Um contrafactum, pl. "contrafacta", consiste em adaptar uma letra a uma melodia preexistente, frequentemente mudando um contexto secular para um espiritual ou vice-versa. O contrafactum é comum em muitas culturas ao longo dos séculos.
Tendo trabalhado com contrafacta em várias línguas por mais de meio século, questiono minha abordagem no contexto das discussões urgentes sobre colonialismo e apropriação cultural. O contrafactum é ponte? Apropriação colonialista? Ambos? Nas minhas pesquisas com criptojudeus no nordeste, ouvi contrafacta usando melodias locais. Como o tempo é limitado, concentro-me em meu próprio contrafactum de uma canção indígena Kanamary e nas questões que dele decorrem.
Pesquisadora e artista canadense trabalhando no Mediterrâneo, comecei a pesquisar no Brasil há poucos anos. Meu foco é a música em comunidades judaicas urbanas marroquinas da Amazônia e entre criptojudeus do Nordeste. Como etnomusicóloga e mãe de uma filha indígena canadense (Pasqua First Nations), procuro manter-me atenta aos ensinamentos que recebi dos anciãos indígenas.
Muitas pessoas no Brasil reconhecem a canção Kanamary “Wahanawarei...” como a música que Bruno Pereira fcantou casualmente em 2019, três anos antes de ele e Dom Phillips serem assassinados em junho de 2022. Muitas versões surgiram rapidamente, aparentemente a maioria sem a permissão do povo Kanamary.
Discuto o contrafactum como a ponte que me levou a esta canção e a um maior conhecimento sobre o povo Kanamary. Abordo meu trabalho de rastreamento da canção, procurando as autorizações, até sua versão original, incluindo características musicais surpreendentes; e a criação de um novo contrafactum. Pareceu-me crucial equilibrar a correspondência dos padrões métricos com o respeito às associações espirituais de ambas as culturas.
As anciãs sabias indígenas do Canadá me ensinaram a cantar canções indígenas somente com a permissão da pessoa indígena de quem as aprendi. (Essas canções são recreativas e nao cerimoniais.) Por isso, tenho dialogado com Feliciana Kanamary, a primeira mulher líderança do povo Kanamary, sobre o meu uso da canção. Os comentários dela no momento da apresentação determinarão o que poderei dizer sobre a reação do povo Kanamary. Embora a canção tenha sido interpretada em muitos estilos, eu a interpretei apenas uma vez, não transmitida online nem gravada. Aguardo com expectativa diálogos sobre "covers" e contrafactum, pontes para o entendimento e sua relação com o colonialismo e a apropriação, e o contrafactum como ponte não apenas entre melodias e letras, mas também entre mundos culturais e espirituais.
-
Montando antropologias expandidas: artistas híbridos em Sergipe e práticas estético-políticas
— Layla Bomfim
— Layla Bomfim
Este trabalho apresenta reflexões em curso de uma pesquisa de mestrado em Antropologia que investiga os modos de existir, criar e se relacionar com a imagem em movimento de artistas que operam nos chamados formatos híbridos no estado de Sergipe. A pesquisa parte do entendimento de que práticas como vídeo-instalações, videoperformances e obras audiovisuais experimentais não apenas desafiam classificações formais, mas tensionam regimes de visibilidade, modelos representacionais e estéticas historicamente hegemônicas tanto no campo das artes quanto na antropologia visual.
Ao tomar os artistas híbridos como campo empírico, argumento que suas práticas possuem um potencial contracolonial fundamental, na medida em que recusam a estética da não-mediação e a pretensão de transparência do real. Em diálogo com Trinh T. Minh-ha (2015), compreende-se que a insistência em modelos normativos e serenos de representação, especialmente no documentário e na antropologia, revela a insegurança da própria disciplina diante de seu projeto epistemológico. Nesse sentido, os artistas investigados operam por meio da mediação explícita, da montagem, da fragmentação e da experimentação sensorial como estratégias críticas.
Nesta comunicação, proponho estabelecer um diálogo inicial entre a antropologia multimodal e a noção de antropologia expandida formulada por Arnd Schneider (2021), tomando as práticas dos artistas híbridos como interlocutoras privilegiadas desses debates. Ao acompanhar processos de criação, circulação e montagem dessas obras, a etnografia passa a operar ela mesma de modo multimodal, mobilizando imagens, sons, arquivos, corpos e encontros como partes constitutivas do trabalho de campo. A partir de experiências etnográficas em curso, busco apresentar pistas metodológicas para pensar etnografias multimodais que se constroem em estreita relação com práticas artísticas experimentais.
REFERÊNCIAS
MINH-HA, Trinh T. A busca totalizante do significado. In: MAIA, Carla; FLORES, Luís Felipe (orgs.). O cinema de Trinh T. Minh-ha. Rio de Janeiro: Caixa Cultural RJ, 2015. p. 29-50.
SCHNEIDER, Arnd. Expanded visions: A new anthropology of the moving image. Routledge, 2021.
-
Cangira de Exú e Pombagira. Encantos imagéticos no Norte de Minas Gerais.
— Ravena Gomes Teixeira de Souza, Felisa Cançado Anaya, Alexsânder Nakaóka Elias
— Ravena Gomes Teixeira de Souza, Felisa Cançado Anaya, Alexsânder Nakaóka Elias
Exú nos convida a repensar o mundo, a nos deslocar das referências impostas. Nos conduz como potências transgressoras, não compreendidas no padrão normativo do saber - Laroyê. Este trabalho apresenta registros visuais da ritualística do IX Encontrão de Sete Gandaia e Zé Fumaça, realizados nos Terreiros de Umbanda Caboclo Tupinambá (TUCT) e Terreiro de Umbanda Pai Cipriano (TUPC), em Montes Claros, Minas Gerais. Esse encontro é o mercado de Exú acontecendo. O giro dos vivos e dos mortos explicam como esses territórios transpiram outros modos de entender concepções essenciais da vida. As imagens apresentam interações que acontecem para além do visível, revelando tratos feitos, mandinga conduzida, padê arriado. As vestimentas falam, anunciam a presença, hierarquia, caminho espiritual e relação com os Exús e Pombagiras. Evidenciam o direito à expressão estética e espiritual desses corpos, reconhecendo o vestir como gesto político, cultural e sagrado. Desafiam o pressuposto da cultura colonizadora, ultrapassando a noção de religiosidade, e as categorias de território e etnicidade, como usualmente tratada pela academia. O Norte de Minas é marcado pela presença extensiva de Terreiros e a imagética neste trabalho compõe a leitura de uma parte de todas essas histórias que falam sobre um país que tem sua base histórica, política, cultural e econômica que se explicam através da amefricanidade (Gonzalez, 1984). Este trabalho é resultado da disciplina Povos Tradicionais, Etnografias Audiovisuais e Imagéticas, ministrada pelos professores Drª Felisa Anaya e Dr. Alex Nakaòka, no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social (PPGDS/UNIMONTES). As fotografias foram registradas coletivamente pelos acadêmicos da disciplina, em diálogo e em parceria com a equipe interna do TUPC. Agradecemos a generosidade dos zeladores Mãe Dália (TUPC) e Pai Elder (TUCT) e de suas comunidades, que abriram as portas para a realização dessa etnografia compartilhada (Rouch apud Satiko, 2013).
-
Quando o baile vira campo: uma etnografia audiovisual no Clube das Pás, no Recife (PE)
— Suzan Regis, Flora Maria
— Suzan Regis, Flora Maria
A pesquisa analisa como o Clube das Pás, tradicional agremiação carnavalesca fundada em 1888 no Recife, mantém sua memória viva por meio da vivência de seu público fiel, ao conceber os bailes como práticas festivas centrais na produção de sociabilidade, pertencimento e continuidade geracional. A investigação observa as dinâmicas de sociabilidade que se desenvolvem nesses encontros, as interações entre frequentadores, dançarinos, funcionários e diretores, bem como os sentidos simbólicos atribuídos ao espaço. O estudo adota a observação participante como abordagem central, complementada por entrevistas semi-estruturadas, pesquisa documental e registros audiovisuais, compreendidos como parte constitutivo do processo etnográfico (Shah, 2020). A observação fílmica é mobilizada como estratégia metodológica de apreensão do mundo sensível, dos gestos e das performances corporais em campo (Mathias, 2009), enquanto o fazer audiovisual é entendido como prática antropológica que amplia as possibilidades de produção de conhecimento para além da escrita (Athias, 2011). A imersão etnográfica permitiu observar como diferenças geracionais, performances corporais, práticas de lazer e relações de gênero moldam o cotidiano do clube, revelando dinâmicas tanto de acolhimento quanto de tensões. Nos bailes, que se configuram como momentos centrais da sociabilidade observada em campo, articulando memória, corpo e performance, as mulheres idosas, em especial, encontram no espaço um importante fortalecimento de sua autoestima, expresso na dança, no cuidado com a aparência e na busca por reconhecimento afetivo. Nesse mesmo contexto, os dançarinos da casa e os frequentadores do sexo masculino atuam por meio de papéis que combinam cortesia, sedução e encenação social, compondo as dinâmicas afetivas e performáticas do clube. Também se evidenciam contradições internas, como o contraste entre tradição e modernização, a resistência a mudanças estruturais e a discrepância entre discursos oficiais e práticas cotidianas, especialmente no comportamento de diretores e outros funcionários. A análise audiovisual demonstra que o clube opera como um microcosmo no qual memória, relações de gênero, convivência e performances sociais se atualizam constantemente, produzindo um ambiente em que o passado é reiterado, mas também negociado. Conclui-se que, apesar de desafios estruturais, conflitos internos e limitações observacionais, o Clube das Pás continua a pulsar como espaço fundamental de sociabilidade recifense, identidade e continuidade geracional para o público mais velho, sustentado por vínculos afetivos, práticas corporais e tradições que se renovam a cada baile.
-
MoviMentar das Estéticas Periféricas: Colaboração e Multimodalidade na produção e divulgação do/no Movimento Brega, PE
— Tarsila Chiara Albino da Silva Santana
— Tarsila Chiara Albino da Silva Santana
Nesta exposição, pretendo refletir sobre o MoviMentar das Estéticas Periféricas, a partir de uma reflexão sobre o processo de produção do documentário "Recife é brega, meu amor!". Durante o processo de montagem e edição do documentário e dos debates junto ao MUSA - Núcleo de Estudos Arte, Cultura e Sociedade na América Latina e no Caribe, refleti sobre as diferentes experimentações etnográficas no meu campo de pesquisa e sobre o potencial das ecologias midiáticas apresentadas pelo uso da multimodalidade: busquei "ir além" no diálogo com o Movimento Brega e refletir sobre como a minha pesquisa poderia ocupar esses espaços midiáticos, tão importantes para os colaboradores. Portanto, "ir além" me leva a incorporar práticas experimentais e multissensoriais e a diversificar as linguagens na pesquisa antropológica. Trata-se de voltar ao meu material de campo das pesquisas anteriores, bem como o material compartilhado pelos colaboradores para o documentário "Recife é brega, meu amor!" e destacar caminhos outros, ocupando novos espaços e utilizando de outras linguagens para divulgação do conhecimento. Mais fundamentalmente levantar a questão: Como produzir e divulgar um documentário antropológico mais inclusivo, colaborativo e reflexivo?
Coordenação
Maxim Repetto (Universidade Federal do Delta do Parnaíba)
Rosani Kamury Kaingang (UFRGS)
O presente GT se propõe gerar um espaço de trocas e interaprendizagens entre profissionais, pesquisadores, educadores e estudantes que atuem nos sistemas educativos formais ou comunitários, em busca de um diálogo antropológico e interdisciplinar para a ampliação dos estudos sobre educação e formação intercultural. Dessa forma, queremos debater sobre os grandes desafios da formação para a educação intercultural, na perspectiva de buscar caminhos para superação da exclusão, da desigualdade e do racismo. Buscamos evidenciar os processos educativos que fortalecem a construção de sujeitos históricos e pedagógicos desde comunidades indígenas, quilombolas ou afrodescendentes, tradicionais, migratórias, assim como desde outros espações de convivência, sejam rurais ou urbanos, a partir das quais os sujeitos, seus conhecimentos e saberes fortalecem lutas e movimentos sociais que questionam os modelos educativos e de sociedade dominante. Nesse sentido buscamos promover uma troca e um diálogo entre pesquisas que abordem desde uma perspectiva crítica, inovadora e colaborativa experiências construídas desde processos históricos e pedagógicos comunitários, refletindo sobre o papel da diversidade social, cultural e linguística, nos currículos escolares e universitários e os desafios existentes para ampliar o reconhecimento da diversidade humana na educação e no convívio na sociedade contemporânea.
Títulos e Resumos
-
Areme Boe (Mulheres Boe)
— Ana Paula Parikokurereudo Apo, Ana Paula Purcina Baumann
— Ana Paula Parikokurereudo Apo, Ana Paula Purcina Baumann
Neste trabalho, abordamos o tema Areme Boe (Mulheres Boe) e sua relevância para a organização social do nosso povo Boe. As reflexões apresentadas neste trabalho foram construídas a partir de relatos de mulheres, da observação do cotidiano e da participação em encontros e atividades que envolvem mulheres Boe. Com a pesquisa buscamos destacar sobre a importância da matrilinearidade, exercida pela aredu (mulher), como elemento fundamental para a manutenção e a continuidade da cultura Boe. Ressaltamos, também, o papel central do clã materno na educação dos filhos e na formação das pessoas dentro da comunidade. Trazemos ainda sobre as mulheres Aroe Etuje, uma representação de grande importância na organização social Boe, que carrega grandes conhecimentos e responsabilidades na organização, realização e manutenção de práticas culturais. No trabalho também apresentamos sobre o protagonismo das mulheres Boe, sua inserção em diferentes profissões e sua atuação nos movimentos sociais, especialmente por meio de associações lideradas por mulheres, que têm contribuído significativamente para o fortalecimento das comunidades Boe e os modos próprios de bem-viver. Por fim, abordamos a atuação da mulher Boe na Educação Escolar Indígena e os impactos positivos dessa presença nas práticas pedagógicas e culturais. As mulheres Boe têm um papel central na educação das crianças, tanto dentro de casa quanto na escola. Elas atuam com um olhar sensível, maternal e pedagógico, transmitindo não apenas conteúdos escolares, mas também valores culturais, hábitos e tradições da comunidade. A paciência, a compreensão e a atenção às necessidades individuais das crianças são características destacadas na atuação feminina. O seja, as pesquisas desenvolvidas mostram como as mulheres boe estão envolvidas fortemente nos processos educativos, seja na escola ou fora dela, e desse modo, o futuro da Educação Escolar Indígena, da valorização dos saberes tradicionais e da formação da pessoa boe depende, em grande medida, do contínuo protagonismo feminino nas escolas e na comunidade.
-
Autorreconhecimento Indígena: Reflexão sobre a formação de professores no PARFOR/UFPI
— Ariana Vaz de Sousa, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
— Ariana Vaz de Sousa, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
Este projeto investiga os efeitos da formação intercultural nos processos de autorreconhecimento e reconhecimento étnico-cultural de estudantes indígenas e não indígenas vinculados ao curso de Pedagogia Intercultural do PARFOR/UFPI, no polo de Piripiri, Piauí. Parte-se do problema de que, embora a implementação de políticas de formação docente intercultural represente uma conquista histórica, ainda são pouco analisados os impactos dessa experiência formativa sobre os modos de identificação, pertencimento comunitário e valorização de saberes tradicionais dos sujeitos envolvidos. O objetivo geral consiste em compreender como a vivência acadêmica no curso incide sobre as trajetórias identitárias dos estudantes, considerando suas narrativas, experiências formativas e contextos comunitários. A pesquisa adota abordagem qualitativa, articulando análise documental, entrevistas semiestruturadas com discentes indígenas e não indígenas e observação participante em atividades acadêmicas e pedagógicas do curso. Espera-se que os resultados contribuam para a compreensão das relações entre formação docente intercultural, construção da consciência étnica e fortalecimento dos vínculos comunitários, bem como para o debate acadêmico sobre educação intercultural indígena no ensino superior.
-
Educação, Movimentos e Encruzilhadas: Interculturalidade e Formação Docente em uma Universidade Pública no Maranhão
— Daniel Bergue Pinheiro Conceição, Felisa Cançado Anaya
— Daniel Bergue Pinheiro Conceição, Felisa Cançado Anaya
Este estudo integra a pesquisa de doutorado desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Social (PPGDS) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) e tem como foco a interculturalidade como categoria analítica no campo da educação, a partir de sua constituição histórica na América Latina e de sua incorporação nas políticas públicas educacionais no Brasil. O trabalho propõe uma reflexão teórico-analítica sobre os sentidos atribuídos à interculturalidade no ensino superior, em diálogo com as críticas aos modelos formativos tradicionais, eurocêntricos e hierarquizantes que historicamente estruturam a universidade brasileira. A investigação assume uma abordagem qualitativa, de natureza teórico-documental, fundamentada na análise de produções acadêmicas, marcos normativos e documentos institucionais que orientam as políticas de educação intercultural e formação docente no país. Nesse percurso, a Licenciatura em Educação Quilombola (LIEQ), vinculada ao Programa de Formação Docente para a Diversidade Étnica do Maranhão (PROETNOS), é mobilizada como referência empírica e campo de problematização, permitindo refletir sobre os modos pelos quais a interculturalidade é acionada no âmbito da universidade pública maranhense. O objetivo do estudo consiste em compreender como a interculturalidade vem sendo concebida e operacionalizada no contexto educacional brasileiro, bem como identificar as tensões, disputas e desafios presentes em sua implementação no ensino superior. Argumenta-se que tais processos revelam limites e possibilidades para a construção de práticas formativas comprometidas com o reconhecimento da diversidade sociocultural, étnico-racial, a valorização dos saberes quilombolas e o enfrentamento das hierarquias epistemológicas, apontando para caminhos de decolonização da produção do conhecimento no espaço universitário.
-
Ensino Superior e Educação Escolar Indígena: trajetórias formativas de professores Potiguara do Catu (RN)
— Eric Araujo da Silva, Eric Araujo da Silva
— Eric Araujo da Silva, Eric Araujo da Silva
Está pesquisa integra um projeto iniciado em 2018, voltado à consolidação de uma política de formação específica e diferenciada para professores indígenas do Estado do Rio Grande do Norte, tomando como eixo analítico a relação entre o ensino superior e a educação escolar indígena , a experiências de formação intercultural docente. O estudo situa-se no campo na educação intercultural, da diversidade sociocultural e linguística e da formação de professores, tendo como foco a experiência de docente Potiguara do Catu (RN) vinculados à licenciatura em Educação Intercultural Indígena ( LICEII/UFRN). A institucionalização da LICEII a partir da política de formação do PARFOR - Equidade, configura-se como um marco no atendimento às demandas históricas por uma formação comprometida com a valorização dos saberes tradicionais, com o fortalecimento da educação escolar indígena e com a construção de práticas pedagógicas críticas e socialmente referenciadas. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, fundamentada em entrevistas semiestruturadas e observação participante, realizadas nos dois tempos formativos do curso, o Tempo Universidade e o Tempo Comunidade, respeitando o princípio da alternância como eixo estruturante do processo formativo. O recorte analítico concentra-se nas trajetórias dos/as professores/as indígenas Potiguara do Catu, permitindo analisar suas vivências acadêmicas, os desafios da permanência no ensino superior, as estratégias coletivas de apoio e as práticas pedagógicas desenvolvidas em diálogo com a comunidade de origem. Os resultados preliminares indicam que a inserção no espaço universitário tem contribuído para a afirmação identitária, para o reconhecimento da diversidade cultural linguística e para a ressignificação dos saberes indígenas no currículos escolares. Evidencia-se, ainda, a mobilização coletiva dos/as estudantes indígenas como forma de enfrentamento das desigualdades e do racismo estrutural presentes nos sistemas educacionais ao mesmo tempo em que emergem críticas consistentes à persistência de uma pedagogia colonial nos currículos nacionais, marcada pela insuficiência e pela e pela invisibilidade dos debates sobre história, cultural e conhecimento indígena no Rio Grande do Norte. O trabalho reforça, assim, a necessidade de aprofundar políticas e práticas de formação intercultural comprometidas com a justiça social, o reconhecimento da diversidade humana e a transformação dos modelos educativos dominantes.
-
A educação quilombola entre a escalabilidade sintética e a circularidade orgânica no semiárido nordestino
— Fernando Henrique Pires Mamédio, Patrícia dos Santos Pinheiro
— Fernando Henrique Pires Mamédio, Patrícia dos Santos Pinheiro
Este artigo analisa os rearranjos político-pedagógicos da educação quilombola a partir de uma etnografia engajada (2024-2025) na comunidade Cruz da Tereza, Coremas (PB). Compreendemos essas transformações como práticas de contra-colonização (Santos, 2015), investigadas através da parceria entre a União dos Negros e Quilombolas de Coremas (Unequico) e o projeto Histórias de Quilombo (UFPB/UNILA), que juntos atuam em uma fronteira epistêmica quilombola. Ao adotar o método da confluência para descrever o saber orgânico e práticas pedagógicas que se materializam no "Projeto Mãe Salete, realizado pela ONG Unequico, a pesquisa se submete à crítica imanente da contra-colonização. Enquanto o projeto enfrenta os desafios da escalabilidade sintética e extrativista dos modelos hegemônicos, ele protege a circularidade orgânica como biointeração do corpo-território permanente na re-existência encarnada (p. 44). A escola municipal que recebe a maior parte dos alunos da comunidade e apresenta o maior Ideb (INEP, 2023) evidencia a guerra das denominações (p. 57). A cartilha "Aprendendo com os quilombos de Coremas", como recusa ao adestramento, se torna artefato de transfluência e tática de circularidade para combater o epistemicídio e lutar por justiça cognitiva e territorial no Alto Sertão paraibano e no Sul Global. Este artigo não é água, é nuvem.
-
Educação superior e diálogo intercultural: Permanência na Universidade de Estudantes Indígenas no Sudeste do Pará
— Jessica Alejandra Solórzano Orellana, Edma Silva Moreira
— Jessica Alejandra Solórzano Orellana, Edma Silva Moreira
O mundo moderno tem uma dívida histórica com os povos indígenas dada a violência promovida contra eles, seus territórios e sistemas de conhecimentos. No campo educacional, essa dívida tem sido objeto de reivindicações, de compensação e conquistas. Este trabalho tem como objetivo refletir sobre o aumento do número de discentes indígenas na UNIFESSPA em relação às políticas institucionais, e com a estreita relação com os projetos que professores impulsionam. No Sudeste do Pará, a educação superior para essas populações converte-se num direito garantido com a implementação da lei de cotas, na UNIFESSPA, no ano 2013. A partir desse ano, uma série de políticas institucionais foram implementadas para garantir o acesso e permanência dos estudantes indígenas na universidade. Além dessas, há que se considerar os trabalhos de ensino, pesquisa e extensão dos professores junto com povos indígenas da região, não vinculados como políticas afirmativas necessariamente, que impulsionam a universidade à diversidade regional e ao diálogo intercultural. Vinte e dois anos depois do início das políticas afirmativas na Unifesspa podem ser avaliados os resultados deste processo. O Censo do IBGE (2022) e censos da própria universidade revelam um aumento no acesso e permanência dos alunos indígenas. Consideramos que esse aumento de discentes indígenas devem-se também às atividades de ensino, pesquisa e extensão que tornam possível o diálogo intercultural regional e a abertura da universidade como espaço de diálogo para os povos indígenas do Sudeste paraense.
-
Educação diferenciada: limites e potencialidades na "abertura para o outro" na escola Ñandejara, Caarapó-MS
— Jhemerson da Silva e Neto
— Jhemerson da Silva e Neto
O presente trabalho é oriundo de uma pesquisa de mestrado realizado no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). Teve como objetivo produzir uma etnografia a fim de interpretar os modos de construção da Educação Escolar Indígena (EEI) enquanto educação diferenciada no contexto da Escola Municipal Ñandejara, analisando as transformações vividas pelos Kaiowá e Guarani por meio dos processos de escolarização e como estes se constituem nos modos ser atual deste de povo, na Reserva Indígena Te’yikue, em Caarapó-MS. Compreende-se a Escola Ñandejara como um espaço atravessado pelo dilema da escola em contextos culturais diferenciados: ao mesmo tempo em que se insere como parte dos modos de ser e viver dos Kaiowá e Guarani, está submetida a formas de controle do Estado que tensionam sua autonomia. A etnografia ora realizada – ainda que situada e localizada – apresenta alguns elementos de como a escola atravessa as formas de organização social, nos regimes de autoridade e nas relações entre as parentelas em Te’yikue, evidenciando o status alcançado por professores, e reconfigurando as formas de relações. Documentos como o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola e espaços como o Fórum Indígena de Te’yikue indicam formas de fazer política e a própria agência dos Kaiowá, que buscam, por meio da escola, formas de contornar os problemas trazidos pela sociedade envolvente, como o sistema de liderança baseada nos “capitães”. Por fim, entende-se que a escola Ñandejara, em Te’yikue, ainda está em um processo – contínuo – de guaranização, onde coexistem projetos políticos distintos: uma política de estado orientada por suas normas de funcionamento dos sistemas de ensino e outro centrado nos modos de vida Kaiowá e Guarani. Essa tensão produz reconfigurações nos processos educativos, mas também abre possibilidades para a criação de caminhos próprios em busca da autonomia da escola indígena e “abertura para o outro”.
-
Baixar as bandeira e subir o cocar": pedagogia territorial e autonomia na terra indígena Maró
— Laise Lopes Diniz, Adenilson alves de Sousa, Juliene Pereira dos Santos
— Laise Lopes Diniz, Adenilson alves de Sousa, Juliene Pereira dos Santos
Este artigo analisa a educação escolar indígena na Terra Indígena Maró, localizada no município de Santarém (PA), a partir de pesquisa qualitativa realizada durante a Vivência Pedagógica Anual de 2024. A investigação combinou observação participante, entrevistas e grupos focais com professores indígenas, lideranças comunitárias, estudantes e gestores escolares, tendo a Vivência como situação empírica de observação concentrada. Argumenta-se que a Vivência Pedagógica opera como um dispositivo estruturante da organização escolar comunitária, ao articular formação docente, reelaboração curricular, produção de vínculos afetivos e tomada de decisões coletivas, sustentando a autonomia pedagógica no território.
A análise evidencia como a Vivência territorializa a escola indígena ao deslocar o processo educativo para além das salas de aula, incorporando a floresta, o rio, o acampamento e a convivência cotidiana como espaços legítimos de aprendizagem. Nesse contexto, o Projeto Político Pedagógico Indígena (PPPI) configura-se como um documento vivo, permanentemente atualizado a partir das experiências formativas e das demandas do território, organizando o currículo em torno da língua Nheengatu, dos saberes tradicionais, da memória coletiva e das relações intergeracionais. O estudo demonstra que essa concepção curricular entra em tensão com as exigências uniformizadoras do sistema municipal de ensino, especialmente no que se refere aos calendários escolares, às formas de avaliação e às demandas burocráticas.
Discute-se, ainda, como a convivência no Acampamento da Vivência conforma um clima escolar específico, no qual os afetos, os vínculos e as emoções constituem dimensões centrais da experiência formativa. Mobilizando contribuições da sociologia das emoções, o artigo analisa como sentimentos de pertencimento, solidariedade e corresponsabilidade fortalecem a permanência escolar e redefinem as noções de autoridade, disciplina e aprendizagem. A formação docente, construída de dentro, afirma a competência epistêmica das comunidades e funciona como resposta à ausência de políticas públicas específicas para a educação escolar indígena no âmbito municipal.
Por fim, o artigo compreende a Vivência Pedagógica como expressão de uma pedagogia territorial de (re)existência, na qual o direito à educação se entrelaça ao direito ao território e à construção coletiva de projetos de futuro, afirmando a escola indígena como espaço político, epistemológico e comunitário.
-
Os Laboratórios Socionaturais Vivos como Alternativa Curricular para uma Nova Educação Transformadora
— Maxim Repetto
— Maxim Repetto
O presente trabalho apresenta uma experiência educativa desenvolvida na formação de professores e estudantes em escolas de comunidades indígenas de Roraima, junto aos povos Macuxi, Wapichana, Patamona e Ingarikó. A proposta fundamenta-se no conceito de Laboratórios Socionaturais Vivos, concebidos como dispositivos pedagógicos e metodológicos de reflexão sobre a cultura tradicional, a integridade socionatural e os desafios educativos interculturais enfrentados pelas novas gerações de estudantes indígenas. Ancorada na Teoria da Atividade e no Método Indutivo Intercultural, a experiência toma como ponto de partida o estudo das atividades sociais das comunidades, compreendendo a educação como um processo integrado, complexo e indissociável das dinâmicas culturais, territoriais e ambientais. A partir dessa perspectiva, busca-se construir propostas pedagógicas e curriculares que emergem do contexto comunitário e valorizam os saberes tradicionais como elementos estruturantes do processo formativo. Assim, o trabalho evidencia a possibilidade de elaboração de currículos interculturais que, ao dialogarem com as exigências do sistema educacional formal, colocam a comunidade indígena no centro do processo educativo. Tal movimento promove transformações epistemológicas e curriculares significativas, ao reconhecer a centralidade dos modos próprios de produção de conhecimento e ao fortalecer uma educação escolar indígena comprometida com a autonomia, a identidade cultural e a sustentabilidade socionatural.
-
Currículo, diferenças e direitos humanos nos espaços lusófonos: notas etnográficas desde a UNILAB
— Pedro Rosas Magrini
— Pedro Rosas Magrini
A Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) foi criada em 2010 como alternativa ao modelo tradicional de universidade pública brasileira, combinando a interiorização do ensino superior no Ceará e na Bahia com a integração internacional com países africanos de língua portuguesa. Mesmo com grandes contradições, a instituição é sustentada pela promoção da interculturalidade e aposta em atividades que favorecem o pluralismo de ideias e a circulação de experiências entre diferentes nacionalidades, incorporando de forma articulada questões de gênero, raça, etnia, sexualidade, geração e deficiência. A pesquisa adota a etnografia como abordagem central, enfatizando o lugar do professor-pesquisador na condução de disciplinas na universidade em foco. O material empírico é composto por relatos de práxis docente, diários de campo e sistematizações de trabalhos produzidos por estudantes entre 2017 e 2025, em turmas dos cursos de Administração Pública e Serviço Social, o que permite uma leitura reflexiva do cotidiano de uma sala de aula multicultural e dos dilemas curriculares e políticos que atravessam o ensino superior nesse contexto. Os resultados indicam a possibilidade de construir perspectivas comparadas sobre temas centrais, como as múltiplas formas de racismo vivenciadas por estudantes brasileiras/os e internacionais em sua chegada ao Brasil, a diversidade das legislações nacionais de enfrentamento à violência doméstica e das políticas de cotas de representação política, bem como os debates em torno da descriminalização da homossexualidade em países lusófonos, ainda recentemente vigente em alguns deles. Ao mesmo tempo, o estudo evidencia o potencial emancipador de determinadas disciplinas, ao favorecer o letramento crítico, a produção de conhecimento situado e a articulação de experiências multiculturais, bem como os limites de outras que ainda reproduzem formatos tradicionais e excludentes de formação profissional.
-
A presença indígena na educação profissional e tecnológica: dinâmicas interculturais no Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT)
— Renata Cristina dos Santos
— Renata Cristina dos Santos
Esta comunicação propõe, em diálogo com a interculturalidade, suscitar uma reflexão em torno da temática da diferença na educação profissional e tecnológica e da atuação do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT) no que diz respeito às ações de ensino, pesquisa e extensão para estudantes indígenas na instituição. Um olhar mais atento para a educação escolar indígena tem ganhado espaço desde a promulgação da Constituição Federal de 1988. A partir da década de 1990, a relação com o Estado brasileiro começou a apresentar uma nova dinâmica, pois muitos jovens indígenas passaram a frequentar escolas, obter diplomas universitários e realizar cursos técnicos. A Lei n. 12.711, conhecida como Lei de Cotas, tem sido um importante instrumento para a garantia desses direitos, e a Lei n. 11.645 incluiu no currículo do ensino fundamental e médio a obrigatoriedade do estudo da história e da cultura afro-brasileira e indígena. Os Institutos Federais, criados pela Lei n. 11.892/2008 e presentes em todas as unidades da Federação, constituem-se como uma possibilidade para agregar essa formação por meio da oferta da educação profissional e tecnológica. O objetivo desta proposta é realizar uma análise reflexiva das experiências formativas, tendo em vista os registros de atividades, entre outras contribuições, dedicadas à garantia da efetivação de políticas públicas no IFMT e ancoradas em produções acadêmicas sobre este tema na instituição. Dentre as modalidades, destacam-se as atividades de extensão em parceria com outras instituições, projetos e cursos de Formação Inicial e Continuada (FIC). A exemplo disso, o curso FIC de Gestão para Lideranças Indígenas, ofertado pelo Campus Alta Floresta, fruto de uma parceria com o Instituto Centro de Vida (ICV), as Federações dos Povos Indígenas do Mato Grosso (FEPOIMT) e do Pará (FEPIPA), contou com representantes de 23 povos indígenas de diversas regiões do Alto Tapajós que se dispuseram a sair de seus territórios em 2023 para enfrentar as semanas de aula e se aperfeiçoarem, enquanto lideranças dessas federações, em gestão de processos associativistas. Neste contexto, lidar com as diferenças exige dos atores educacionais o compromisso de superar modelos tradicionais de ensino, repensar as estruturas das escolas não indígenas e valorizar os saberes entre diferentes grupos em diálogo com os conhecimentos técnicos da gestão, dos negócios e das demais áreas. Tais experiências podem contribuir para mapear a atuação da instituição em relação à presença indígena, tendo em vista que são 46 povos indígenas e 19 campi do IFMT no território de Mato Grosso, e para etnografar a implementação de políticas voltadas à diversidade no IFMT, particularmente as ações afirmativas.
-
Educação inclusiva e interculturalidade: capacitismo institucional e desigualdades na escolarização de pessoas com deficiência em Roraima
— Rhanderson Hugo de Oliveira Vieira, Márcia Maria de Oliveira
— Rhanderson Hugo de Oliveira Vieira, Márcia Maria de Oliveira
Este trabalho discute desafios contemporâneos da formação para uma educação inclusiva e intercultural, partindo de uma leitura sociológica da deficiência como fenômeno social e político. O foco recai sobre como barreiras institucionais e o capacitismo estruturam trajetórias educacionais desiguais e condicionam oportunidades de participação social e empregabilidade. A pesquisa combina estudo teórico-bibliográfico com análise documental de legislações e dados oficiais (com destaque para o Censo 2022/IBGE), articulando debates do modelo social da deficiência, da Sociologia da Educação e de teorias da justiça. Examina-se a distância entre a norma e o cotidiano escolar, incluindo precarização do trabalho docente, invisibilização de profissionais de apoio e barreiras administrativas e simbólicas. O estudo incorpora aportes críticos da pedagogia soviética e perspectivas indígenas sobre deficiência, evidenciando a colonialidade presente em categorias universalizantes de normalidade e capacidade. Empiricamente, os indicadores mostram maior analfabetismo e menor nível de instrução entre pessoas com deficiência no Brasil e, de modo acentuado, em recortes de Roraima e Boa Vista, com intersecções com cor/raça e território. Argumenta-se que, quando currículo e avaliação operam como dispositivos de padronização, a inclusão tende a se converter em presença sem participação e em certificação sem aprendizagem, produzindo efeitos intergeracionais. Conclui-se que a efetivação do direito à educação inclusiva demanda uma agenda simultânea de redistribuição e reconhecimento: acessibilidade, apoios, tempo e planejamento institucional, além do enfrentamento do capacitismo e da valorização de diferentes formas de aprender, como condição para ampliar o reconhecimento da diversidade humana nos espaços educativos.
Palavras-chave: educação inclusiva; interculturalidade; capacitismo; desigualdade educacional; reconhecimento; redistribuição.
-
Contra-Colonizando a Universidade: a Encontro de Saberes e o Notório Saber como Confluência de Mundos
— Valéria Viana Labrea, Rumi Regina Kubo, Marília Raquel Albornoz Stein, Eráclito Pereira
— Valéria Viana Labrea, Rumi Regina Kubo, Marília Raquel Albornoz Stein, Eráclito Pereira
O presente trabalho analisa iniciativas de processos de descolonização epistêmica da universidade brasileira através de dois dispositivos estruturantes: a implementação da transdisciplina Encontro de Saberes e a institucionalização do título de Notório Saber para Mestres e Mestras das culturas tradicionais e populares. Partindo do diagnóstico de José Jorge de Carvalho sobre o "racismo epistêmico" — que opera pela exclusão sistemática dos sistemas de conhecimento não-ocidentais —, argumentamos que a política de cotas raciais deve ser complementada por "cotas epistêmicas", garantindo não apenas a presença de corpos negros e indígenas, mas a legitimidade dos seus conhecimentos na docência superior.
Para sustentar essa proposição, o artigo constrói uma articulação teórica entre o manifesto de Basarab Nicolescu sobre a transdisciplinaridade e a filosofia quilombola de Antônio Bispo dos Santos (Nego Bispo). Demonstramos como a crítica de Nicolescu à fragmentação disciplinar converge com a crítica de Bispo à produção de "saber sintético" e à "cosmofobia" ocidental. Nesse sentido, a figura do Mestre Tradicional é apresentada como a encarnação viva da transdisciplinaridade e da biointeração, operando uma confluência de saberes que rompe com a lógica binária excludente da academia.
O trabalho examina a experiência da UFRGS, onde a disciplina Encontro de Saberes, ofertada desde 2016, funciona como um território de "docência compartilhada", subvertendo hierarquias ao colocar mestres como professores com plena autoridade epistêmica. Essa vivência prática fundamentou a aprovação da Resolução nº 11/2022 (CEPE/UFRGS), que regulamenta o Notório Saber. Analisamos os critérios dessa normativa — senioridade, reconhecimento comunal e polimatia — defendendo que o título não é uma honraria (Honoris Causa), mas o reconhecimento de um "saber orgânico" e de uma trajetória de trabalho intelectual equivalente ao Doutorado acadêmico. Conclui-se que a presença titulada desses mestres é a condição para transformar a universidade em uma "pluriversidade", capaz de superar o extrativismo e o racismo epistêmico, corroborando assim, para o diálogo horizontal com as tecnologias ancestrais de manutenção da vida.
-
O PODHE e a Amefricanidade no corpo (escolar): Jogos do Teatro do Oprimido como ferramenta de Educação em Direitos Humanos e fortalecimento da convivência escolar
— Wallesandra Souza Rodrigues, Fernanda Roberta Lemos Silva Marques
— Wallesandra Souza Rodrigues, Fernanda Roberta Lemos Silva Marques
O Projeto Observatório de Direitos Humanos em Escolas (PODHE) é uma iniciativa de educação em direitos humanos que, desde 2017, promove formação e vivência para docentes e discentes de escolas públicas em São Paulo. Inicialmente como atividade de extensão do Centro de Estudos da Violência (NEV/USP), o projeto que visa uma educação emancipatória e democrática, demonstra pertinência para se transformar em proposta de Política Pública em Educação em Direitos Humanos. Alinhado ao Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos da UNESCO(2012) e às Diretrizes Nacionais para a Educação em Direitos Humanos(2012), a metodologia do PODHE utiliza oficinas lúdicas e multilinguagens (teatro, música, audiovisual) estruturadas em três eixos: Sensibilização; Formação e Vivência; Monitoramento e Transformação.
Dialogando com Stuart Hall, o projeto entende a cultura como o terreno real das práticas e representações que moldam a vida popular. Assim, as temáticas que incluem bullying, ancestralidade e diversidade étnico-racial, emergem do cotidiano dos estudantes em duas escolas estaduais situadas em regiões periféricas da capital paulista (Jardim Guarani/Z. Norte e Jardim Horizonte Azul/Z.Sul).
O presente trabalho reflete sobre as possibilidades de operacionalizar o conceito de Amefricanidade, de Lélia Gonzalez, nesses encontros formativos, especificamente por meio da metodologia do Teatro do Oprimido. Ao compreendermos o corpo como parte inerente ao campo de pesquisa antropológica, observamos que a dinâmica dos jogos teatrais evoca uma dimensão central da cultura afro-brasileira: o "fazer".
Essa categoria do "fazer", como uma ação que prescinde de preâmbulos teóricos exaustivos e se realiza na própria execução, encontra eco na análise de Gonzalez sobre a influência da "Mãe Preta" na formação da cultura brasileira. A epistemologia Amefricana aqui, não é apenas um conceito abstrato, mas uma práxis. A forma afro de "rezar e ir fazendo" manifesta-se no jogo teatral como um aprendizado pela observação e pela corporalidade, permitindo que os participantes elaborem estratégias de resistência, compreendida nos termos de Sueli Carneiro como um imperativo político e subjetivo e, que assim, (re)criem contradiscursos diante das opressões estruturais que se apresentam no cotidiano escolar. Assim, o PODHE busca não apenas ensinar sobre direitos, mas vivenciá-los através de uma epistemologia que valoriza o corpo e o saber-fazer amefricano.
Coordenação
Edmundo Pereira (UFRJ)
Manuel Ferreira Lima Filho (UFG)
Os processos de restituição voltaram à ordem do dia, envolvendo bens culturais, remanescentes humanos, arquivos documentais, dados e registros de pesquisa. Alguns casos e ritos se tornaram referenciais, moldados, por um lado, pelas demandas anglo-saxãs por remanescentes humanos e bens sagrados, em torno da categoria de ‘repatriamento’; e, por outro, pelas europeias, que envolvem relações pós-coloniais — como as com as Áfricas — e noções como ‘arte’ e ‘etnografia’ sendo utilizadas para lavar situações de colecionamento sujas e garantir direitos de posse e uso patrimonial, em torno da categoria de ‘restituição’. Além disso, de norte a sul dos mundos científico-humanistas, tanto ‘arquivos’ de investigação têm sido restituídos e contribuído para processos de memória e reativação cultural, quanto jurisprudências de direitos autorais e de propriedade têm incidido sobre a salvaguarda e difusão de ‘dados’ de pesquisa. As últimas edições do GT revelaram tal vitalidade em casos latino-americanos — como os brasileiro, argentino e colombiano —, em quadros de demandas nacionais e internacionais. Nesta edição, focaremos em casos etnográficos e historiográficos atentos à relação entre os dispositivos expressos nas Convenções da UNESCO (que coíbem o tráfico de objetos e concedem imunidade ao patrimônio cultural) e suas repercussões e traduções em contextos locais de reparação e justiça de transição.
Títulos e Resumos
-
Experiências Apyãwa-Tapirapé sobre os destinos de artefatos e as possibilidades de retornos digitais (1966-2026)
— Ana Guggenheim Nunes Coutinho
— Ana Guggenheim Nunes Coutinho
Este trabalho apresenta alguns dos resultados da pesquisa de pós-doutorado desenvolvida no âmbito do MECILA/USP/CEBRAP, com foco nas estratégias dos Apyãwa-Tapirapé diante da crescente demanda por suas máscaras Ype/Cara-Grande no final dos anos 1960. O antropólogo Charles Wagley (1977) observou que, ao retornar à aldeia, em 1966, presenciou o que descreveu como uma verdadeira “fábrica” de produção de máscaras para venda. Essas máscaras passaram a ser produzidas segundo uma lógica organizacional distinta daquela das metades rituais, seja no interior da Takãra (casa cerimonial), seja nos espaços residenciais. Estabeleceu-se, assim, um acordo entre diferentes membros da aldeia – artesãos, anciãos, homens e mulheres – sobre como gerir dois processos concomitantes: a comercialização externa e a continuidade do ritual que atualiza a memória guerreira do povo. Atualmente, as máscaras Cara-Grande podem ser encontradas em praticamente todos os museus etnográficos euro-americanos. O trabalho discute as estratégias adotadas pelos especialistas indígenas para suprimir referências icônicas aos inimigos de guerra daquelas máscaras que foram comercializadas. Por fim, apresento a etapa conclusiva da pesquisa, que culminará com a visita de especialistas rituais a museus etnográficos na Alemanha, onde eles poderão rever muitas das máscaras que foram vendidas e escutar um canto gravado no início do século XX por W. Kissenberth. A partir das experiências e soluções elaboradas pelos Apyãwa, o trabalho propõe discutir a distinção entre aquilo que não deve ser restituído e as possibilidades produtivas dos retornos digitais para as aldeias.
-
Restituir, mas em quais termos? Colonialidade, direito e os entraves na busca pela repatriação
— Mariane Aparecida do Nascimento Vieira
— Mariane Aparecida do Nascimento Vieira
A partir do século XV, o continente europeu passou a experienciar uma ampliação significativa de sua visão de mundo ao estabelecer contato com territórios e culturas até então desconhecidas. Esse processo coincidiu com a formação de coleções privadas compostas por objetos de interesse artístico, histórico e científico, que viriam a constituir a base dos museus públicos modernos. No contexto de consolidação dos Estados nacionais, essas instituições participaram da produção de narrativas sobre o “outro” não europeu, materializadas sobretudo nos acervos etnográficos que hoje se encontram no centro de disputas acerca de quem seria o proprietário legítimo.
A produção de contexto do período colonial e de sua permanência por meio da colonialidade do poder (Quijano, 2005) evidencia um campo de violências interseccionadas, que inclui tanto o tráfico transatlântico de africanos escravizados — central para a formação econômica, política e simbólica das nações europeias — quanto os processos de expropriação territorial, genocídio e apagamento epistêmico dos povos originários. As aquisições de objetos, corpos e registros por meio de guerras, compras e doações, ainda que formalmente legalizadas, ocorreram em contextos marcados por trocas profundamente desiguais. Museus e arquivos europeus emergem, assim, como dispositivos centrais de legitimação simbólica do poder estatal.
Os processos contemporâneos de restituição e repatriação de bens culturais, remanescentes humanos e arquivos oriundos desses contextos têm sido apresentados como respostas reparatórias a tais violências (Sarr & Savoy, 2018; Hauser-Schäublin & Prott, 2016). Contudo, argumenta-se que permanecem estruturalmente limitados, pois são mediados pelos regimes jurídicos dos próprios Estados que detêm a guarda desses patrimônios e pelo direito internacional, em especial pelas Convenções da UNESCO, como a de 1970, voltada ao combate ao tráfico ilícito de bens culturais. Parte-se da premissa de que esses regimes organizam a restituição sem colocar em análise as bases coloniais que sustentaram a espoliação.
Em diálogo com autoras como Hortense Spillers (2021) e com a literatura crítica sobre colonialidade, o trabalho investiga a gramática jurídica das negociações de restituição e repatriação a partir de uma análise comparativa não exaustiva dos casos francês e alemão. O argumento central é que uma reparação mediada prioritariamente por negociações diplomáticas entre Estados-nação tende a reproduzir assimetrias coloniais, deslocando para uma posição secundária as demandas de coletividades indígenas e afrodescendentes, cujas concepções de ancestralidade, território, objeto e memória tensionam as categorias jurídicas de patrimônio, propriedade e autoria.
Coordenação
Fabiene Gama (UFRGS)
Rosamaria Giatti Carneiro (UNB)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Paulo Victor Santos Dias (UFRRJ)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Ester Paixão Corrêa (UFRN)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Fernanda Rechenberg (UFRGS)
Este grupo de trabalho visa reunir pesquisas antropológicas que abordem práticas artísticas em e com arquivos. No Brasil, diversas iniciativas têm revisitado arquivos - coloniais, contemporâneos, públicos e privados -, apresentando novas perguntas e perspectivas, assim como novas práticas discursivas e visuais para pensar o passado e imaginar o futuro. Vistos como espaços para construção de memórias, versões da história, justiças epistêmicas, processos de subjetivação e produção de conhecimento, os arquivos deixaram de ser vistos como meros repositórios de documentos e registros, e tornaram-se importantes locais de debate e de interesse para várias areas artísticas e acadêmicas. São espaços onde histórias são preservadas, mas também interpretadas, criadas e silenciadas; onde experiências são valorizadas, invisibilizadas e revisitadas. O processo de re-imaginar e reinterpretar arquivos têm trazido à luz histórias obliteradas das narrativas dominantes e acerca de si mesmo. Coleções e arquivos tornaram-se, assim, meios de resistência e disputa de poder — espaços onde se pode questionar uma história única e seus perigos. Diante disso, neste GT, desejamos explorar diferentes estratégias metodológicas de pesquisa e práticas artísticas em/com arquivos dedicadas a pensar os marcadores sociais, em especial gênero, geração e raça. Trabalhos que explorem tensões entre o visível e o invisível e novas perspectivas sobre espaços, estéticas, pessoas e histórias serão mais do que bem-vindos.
Títulos e Resumos
-
Limiar: práticas artísticas com arquivos familiares, gênero e memória na elaboração do luto
— Débora Mano de Faria
— Débora Mano de Faria
Este trabalho se volta para um projeto artístico pessoal intitulado "Limiar" (2025), desenvolvido a partir de imagens de arquivo familiar, mobilizadas como campo de investigação antropológica sobre memória, gênero, materialidade e luto. A série emerge de uma experiência de luto prolongado, marcada pela perda de minha avó em 2015 e pela venda de sua casa em 2018, vivenciada como uma segunda perda, uma vez que esse espaço sempre se constituiu como minha principal referência de lar. Ao revisitar, combinar e retrabalhar esses registros, com o objetivo de conceber os arquivos familiares como dispositivos de transmissão de experiências e de convivência com a ausência, busco dialogar com abordagens antropológicas que compreendem a elaboração da perda como um processo inscrito no cotidiano e na repetição de gestos e narrativas (Das, 2007). A série reúne fotografias produzidas por mim, em 2018, da casa vazia, em diálogo com imagens realizadas por diferentes membros da minha família no mesmo espaço ao longo de distintas décadas. As imagens foram trabalhadas por meio da técnica da cianotipia, cuja escolha articula dois eixos centrais: a manualidade como um saber tecido por memórias, afetos e práticas aprendidas no âmbito das relações entre mulheres - marcada por práticas como o bordado e o crochê - e a cor azul como operador simbólico associado à melancolia, à memória e à temporalidade. Parte das imagens foi tonalizada com café e costurada em dípticos e trípticos, em um gesto que dialoga diretamente com o legado artesanal de minha avó. O processo experimental incorporou a aceitação das falhas como elemento constitutivo da prática, aproximando o fazer artístico de uma reflexão antropológica sobre materialidade, afeto e conhecimento situado, em diálogo com abordagens que enfatizam a produção de saberes a partir do cotidiano e da experiência vivida (Abu-Lughod, 1993). Ao articular as imagens mais recentes com fotografias de arquivo que mostram a casa habitada, o trabalho constrói uma narrativa visual baseada na contraposição entre vazio e presença, na qual a memória familiar emerge como forma de reinscrição simbólica do espaço e de elaboração do luto.
-
Reimaginar Futuros com Hurston: Arte e Arquivo em Eatonville
— Débora Wobeto
— Débora Wobeto
Esta proposta parte de uma investigação com os filmes realizados por Zora Neale Hurston entre as décadas de 1920 e 1940, com foco nos processos de ativação do arquivo (Hochberg, 2021) e reinvenção de sua obra por meio de práticas artísticas e mobilizações comunitárias em Eatonville, primeira municipalidade negra incorporada aos Estados Unidos, onde a autora cresceu. O trabalho de campo foi realizado entre 2022 e 2023, durante estágio doutoral nos Estados Unidos com apoio da CAPES, e incluiu pesquisa arquivística em instituições como a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a Universidade de Columbia e o Barnard College, além de deslocamentos por cidades relacionadas à trajetória de Hurston.
A pesquisa examina os arquivos como espaços em disputa, atravessados por práticas de mediação, silêncio e invenção. Neste trabalho, o foco recai sobre Eatonville, onde a presença de Hurston alcançou densidade material e simbólica nas últimas décadas. A obra de Hurston passou a marcar a paisagem urbana da cidade, que aparece de forma recorrente em seus escritos. Murais e placas comemorativas se articulam a processos mais amplos de reinscrição histórica, fomentados por eventos como o festival Zora!, pelo esforço de ativistas culturais locais e do trabalho desenvolvido pelo Zora Neale Hurston National Museum of Fine Arts. Durante a pesquisa na cidade, a galeria principal do museu abrigava uma exposição do coletivo Black Kirby, que articula estética afrofuturista à trajetória de Hurston, W.E.B. Du Bois e outros intelectuais negros. Eatonville, antes presente na obra de Hurston como memória da infância, é agora uma cidade que se reconfigura a partir da notoriedade retrospectiva (Correa, 1995) da autora.
A pesquisa observa, assim, como elementos anteriormente alvo de críticas na obra de Hurston têm sido mobilizados por artistas visuais negros contemporâneos como matéria para reimaginar futuros e constituir um campo de ativação dos arquivos. Em Eatonville, o arquivo é convocado para além de sua função memorial, tornando-se um espaço de produção criativa e coletiva. O encontro com a obra do coletivo Black Kirby evidencia esse movimento de revisitação produtiva da obra de Hurston, no qual descrições e imagens etnográficas produzem novas imagens e narrativas que ressoam no presente. Ao refletir sobre esse processo, espera-se contribuir para a qualificação do debate sobre os arquivos na antropologia visual, especialmente no que diz respeito às suas dimensões éticas e generativas.
-
Cianotipia em arquivos de campo para reimaginar as Marujas de São Benedito
— Ester Paixão Corrêa
— Ester Paixão Corrêa
Este trabalho visa revisitar o acervo visual reunido no decorrer da pesquisa com as Marujas de São Benedito de Bragança (2014-2017). A Marujada de Bragança é uma manifestação cultural de origem afrodiaspórica na Amazônia Atlântica paraense na qual as mulheres são agentes centrais que fazem historicamente girar uma grande roda cultural por meio da festa e da dança. Estas contribuem na manutenção da festa de São Benedito, tanto nas articulações políticas como na construção em suas diferentes dimensões, de forma destacada na dimensão estética e gestual. Revisitar as Marujas proporciona aprofundar o destaque da participação das mulheres negras na formação sociocultural da Amazônia. Dessa maneira, proponho um mergulho no acervo visual reunido em pesquisa de campo realizada no Museu da Marujada, nos arquivos da Irmandade de São Benedito e durante a festa. As imagens que me interessam aqui ajudam a pensar as trajetórias das Marujas e, especialmente, das Capitoas, além de proporcionar uma perspectiva que valoriza as agências históricas das mulheres negras amazônidas. Todo material intelectual reunido parece ainda ter muito a dizer. Se o fazer antropológico é também uma forma de inventar mundos possíveis, minha proposta passa pelo fazer artesanal, tento, a partir das fotografias artesanais, trazer novas estéticas, responder a perguntas pendentes e apresentar novas práticas visuais oriundas do diálogo entre arte e antropologia. Tal diálogo é organizado entre as camadas de experimentação com a cianotipia, criando imagens artesanais como forma possível de uma representação cultural onde arte-antropologia se encontram. Utilizando a técnica de sobreposição de camadas, com negativos e objetos como colares, guias, brincos, rendas, crio um mundo, entre o digital ao analógico, no qual as Marujas e Capitoas representam a criatividade e a coetaneidade de uma ancestralidade que dança.
Palavras-Chave: Marujas; Capitoas; acervo visual; cianotipia; amazônia paraense.
-
Experimentar com as marcas de um trauma em acervos pessoais: reflexões éticas, políticas e metodológicas
— Fabiene Gama, Luana Bohrer Krob
— Fabiene Gama, Luana Bohrer Krob
Neste paper, refletimos sobre experimentações artísticas com fotografias danificadas pelas enchentes que ocorreram no estado do Rio Grande do Sul em 2024, que afetaram diretamente a população, causando diversos traumas psicológicos, sociais, econômicos, entre outros. Em junho daquele ano, iniciamos no Núcleo de Antropologia Visual da UFRGS um projeto voltado para mitigar as perdas de acervos fotográficos pessoais da população atingida, o Resgate de Memórias. Nele, resgatamos fotografias por meio de uma metodologia inovadora, criada em parceria com uma rede de especialistas, e disseminada amplamente para a população através de redes sociais. Tal metodologia nasceu de testes e adaptações de procedimentos de conservação e restauração realizados em um laboratório improvisado por nós no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UFRGS. Durante o trabalho, percebemos que os registros das memórias das famílias se misturavam a lembranças de eventos marcantes da equipe e também de práticas culturais regionais mais amplas: as festas de aniversário, os passeios escolares, as visitas ao zoológico, as férias na praia, casamentos, batizados etc. No laboratório, a experiência das enchentes era reavivada através dos sentidos: o cheiro dos materiais em decomposição, as texturas dos papéis e o próprio ato de observar em detalhes cada fotografia. A lida com os materiais nos provocou sensações que estimularam aproximações e afastamentos, inquietações e questionamentos. Passamos a repensar e tensionar nosso trabalho e os acervos. Acreditando que as fotografias, mesmo alteradas pelas marcas e apagamentos causados pelas águas e pela lama das enchentes, são capazes de conter e agenciar memórias das famílias atingidas, começamos a pensar em formas de olhar para essas imagens capazes de transpor o trauma. Para isso, realizamos diferentes experimentações artísticas com as fotografias, pensando as imagens tanto através de recuperações digitais e da retirada das marcas do trabalho das águas, como através da alteração das materialidades das imagens através de processos como a cianotipia e a fotomontagem, que visavam ressignificar os sentidos projetados pelas fotografias em diferentes suportes, fazendo emergir novas camadas de significados, capazes de se sobreporem àqueles presentes nas memórias da enchente e nas experiências no laboratório. Com as intervenções nas imagens, buscamos imaginar novas formas de rememoração, seja do passado anterior ao evento traumático, seja do próprio evento em si, que destruiu muita coisa, mas não tudo. A partir das intervenções, olhamos as imagens como potência poética, uma experimentação com a imaginação, uma possibilidade de testar uma nova vida para as fotografias, que não é desligada de sua biografia original.
-
Estou aqui: desaparições, intrusão e correspondências no arquivo da antropóloga
— Fernanda Rechenberg
— Fernanda Rechenberg
Este trabalho propõe a construção de experimentos reflexivos em meu arquivo fotográfico, composto por imagens de pesquisas etnográficas, projetos fotodocumentais, oficinas de fotografia, paisagens e vivências pessoais e familiares. Inspirada na ideia de “correspondência” como composição e combinação de movimentos (Ingold, 2016), mobilizo o arquivo colocando ênfase em outros aprendizados que não aqueles orientados por minhas indagações de pesquisa. O arquivo, assim, é entendido como espaço dinâmico e potencial (Azoulay, 2019), lócus de fabulações críticas (Hartman, 2021; 2022), composto por imagens produzidas em experiências corporificadas e parciais, as quais hoje, posso olhar à luz de uma objetividade feminista (Haraway, 1995), atualizando minha responsabilidade acerca do que aprendi a ver e a documentar. Na direção de criar novas formas de estar com os outros, e talvez à revelia das intenções que me conduziam na fabricação das fotografias, busco recriar encontros e fabular novas conversas. Associo a criação de correspondências no arquivo como “recusa ao obturador” e a seu poder de confinamento de pessoas, cenas e paisagens em categorias outras, distantes no espaço e no tempo (Azoulay, 2019), visitando poeticamente as possibilidades de recombinar imagens, escritos e texturas. Ao privilegiar imagens de mulheres e seus entornos, com quem compartilhei, na etnografia, momentos de vida, escolho o gênero como fio condutor na leitura do arquivo. Escolho também as imagens que, como mulher-mãe, fiz de meus filhos, de minha vida familiar e de mim mesma. Apresento duas experiências de ensaios fotográficos: a primeira parte da ideia de uma desaparição da fotógrafa-antropóloga-mãe nas imagens de minha autoria para, diante da ausência, criar intromissões na forma de autorretratos. Na segunda, aproximo tempos, paisagens e pessoas em imagens e escritos, gerando novas aprendizagens na pesquisa etnográfica. Em ambas, enfatizo a fotografia, a pesquisa e a vida pessoal como processos co-emergentes em contínua elaboração.
-
Eu também sou feito de arquivos borrados
— Guilherme Viana
— Guilherme Viana
Tudo começa com uma fotografia borrada: a única imagem que restou de meu avô, homem negro agricultor do interior do Ceará. É a partir dessa imagem precária, e do que ela não mostra que este texto se constrói, articulando memória familiar, práticas artísticas em/com arquivos e fabulação crítica. A ausência de registros visuais e documentais desloca o arquivo de sua condição de repositório do passado para a de dispositivo atravessado por relações de poder, silenciamentos e julgamentos, implicado na produção de regimes de verdade que organizam o que pode ou não ser lembrado. Em diálogo com autoras e autores como Beatriz Nascimento, Saidiya Hartman, Achille Mbembe, bell hooks, Édouard Glissant e Denise Ferreira da Silva, a fabulação crítica é mobilizada como procedimento ético, estético e epistemológico. Em vez de preencher lacunas deixadas por arquivos coloniais e racistas, a reflexão se detém nos ruídos, nas opacidades e nos fragmentos que persistem, reconhecendo neles a possibilidade de invenção de outras narrativas, imagens e imaginários. Fotografias escassas, relatos orais interrompidos, memórias familiares e a criação de um contra-arquivo, incluindo a produção de uma moringa em barro concebida como artefato de memória, estruturam o campo empírico, no qual o fazer criativo se afirma como forma de conhecimento, reinscrição temporal e gesto de resistência aos regimes de verdade do arquivo oficial.
-
"De cor: ______"
— Maria Victória Venâncio Romero, Rosamaria Giatti Carneiro
— Maria Victória Venâncio Romero, Rosamaria Giatti Carneiro
O trabalho está situado no contexto familiar intergeracional interracial brasileiro, trabalhando na interface de raça, gênero, geração e maternidade, visando refletir sobre a tessitura do parentesco entre mulheres racializadas de formas distintas em uma mesma família. Partimos da perspectiva de que as gramáticas emocionais desencadeadas pela maternidade não são somente expressões culturais, mas frutos de um “efeito geracional” (Barros, 2013) circunscritos como construções coletivas e historicamente localizadas, bem como altamente relacionadas ao desenvolvimento subjetivo do entendimento de raça e da autopercepção racial. Indo além, coadunando com uma abordagem inserida no campo da antropologia visual, mediamos a análise das dinâmicas familiares interraciais com a produção artística sobre a temática. Deste primeiro movimento, temos como resultado o entendimento de alguns dos sentimentos que compõem as gramáticas emocionais de famílias interraciais, a ver o sentimento negação e inadequação frente à identidade passível de ser amada. Pretende-se, assim, sedimentar a base que possibilitará a continuidade do estudo e o aprofundamento das reflexões sobre as relações intergeracionais entre mulheres de uma mesma família interracial.
-
Gestos etnográficos e artísticos em arquivo: retratos, experiência e posicionalidade na pesquisa haitiana de Maya Deren
— Nicole Faria Batista
— Nicole Faria Batista
Este trabalho apresenta um recorte de minha pesquisa de doutorado em andamento, dedicada à análise dos gestos metodológicos e teóricos mobilizados nas etnografias haitianas de Maya Deren e Zora Neale Hurston. A comunicação se concentra, em especial, nos resultados parciais da pesquisa de arquivo realizada em janeiro de 2026 na Maya Deren Collection, localizada no Howard Gotlieb Archival Research Center da Boston University, reunindo materiais da pesquisa de campo conduzida por Deren no Haiti entre as décadas de 1940 e 1950, no contexto do vodu haitiano.
Maya Deren (19171961), cineasta, escritora e pesquisadora judia nascida na Ucrânia e radicada nos Estados Unidos, é amplamente reconhecida como uma das fundadoras do cinema experimental moderno, embora sua formação em Antropologia, com nomes relevantes do campo da época, como Gregory Bateson e Margaret Mead, e sua vasta produção etnográfica sobre o Haiti ainda sejam pouco reconhecidas na história da disciplina.
O objetivo específico desta apresentação é refletir sobre uma seção particular do acervo da Maya Deren Collection intitulada "People", que reúne uma série de retratos fotográficos realizados por Deren com colaboradores, interlocutores e participantes de sua pesquisa de campo no Haiti. Ao tomar esses retratos como documentos e, simultaneamente, como gestos artísticos, a análise busca compreender como práticas visuais e afetivas se integram à produção do conhecimento etnográfico.
Argumenta-se que a produção desses retratos se articula diretamente à proposta etnográfica de Deren, marcada pela centralidade da experiência, da narração em primeira pessoa e da implicação subjetiva da pesquisadora, especialmente em seus relatos sobre a iniciação no vodu haitiano.
A análise considera ainda a posicionalidade de Maya Deren enquanto mulher judia branca, inserida em circuitos intelectuais, artísticos e políticos do início do século XX, nos quais pesquisadores, artistas e ativistas judeus se engajaram de maneira relevante com os estudos da diáspora africana e as lutas por direitos civis nos Estados Unidos. A partir desse enquadramento, propõe-se colocar os retratos produzidos por Deren - marcados por grande proximidade física e intimidade - em perspectiva para pensar sua posicionalidade em relação ao seu contexto de pesquisa. Diferentemente de grande parte da antropologia visual, historicamente centrada em imagens de rituais, cerimônias ou espetáculos, esses retratos em close enfatizam a relação interpessoal e a copresença, abrindo caminho para reflexões sobre as dimensões afetivas, políticas e epistemológicas dessas possíveis alianças diaspóricas e seus efeitos na produção do conhecimento etnográfico.
-
Reapropriações em disputa no campo artístico: imagens, rasuras e circulação.
— Paulo Victor Santos Dias
— Paulo Victor Santos Dias
Este trabalho analisa práticas artísticas contemporâneas que operam por meio da intervenção, apropriação e rasura de imagens produzidas e difundidas pelos meios de comunicação de massa, como jornais, revistas e histórias em quadrinhos. Partindo de uma perspectiva benjaminiana, especialmente das reflexões sobre reprodutibilidade técnica e obra de arte, a pesquisa dialoga com autores como Aleida Assmann, Maurice Halbwachs e Dario Gamboni para compreender essas imagens não apenas como registros do passado, mas como objetos de memória em constante circulação, disputa e reinscrição de sentidos. A apropriação artística é discutida como um gesto que intervém nas tragetórias das imagens impressas, deslocando-as de seus contextos editoriais originais e reinscrevendo-as em novos circuitos simbólicos, institucionais e expositivos. A noção de rasura é entendida como uma ação intencional e propositiva, que pode operar por apagamento, colagem, ampliação ou sobreposição gráfica, produzindo novas camadas de significado sobre imagens previamente estabilizadas. O artigo analisa obras de arte que interveem em representações de massa, observando os diferentes ciclos de circulação dessas imagens entre mídia impressa, espaço urbano e instituições de arte. Com ênfase na série Vogue, de Elian Almeida, o trabalho também discute as tensões entre apropriação artística, institucionalização e regimes de visibilidade racial, evidenciando como impressos de grande circulação participam ativamente da construção, disputa e reconfiguração da memória social na arte contemporânea.
-
(Re) encontros com Sá Biquinha: etnografia dos/nos arquivos (im) possíveis reconstruindo a trajetória de uma mulher negra.
— Rafaela Rodrigues de Paula
— Rafaela Rodrigues de Paula
O ensaio etnográfico, terá como objetivo discutir a partir da minha pesquisa de tese, uma etnografia dos/nos arquivos (Cunha, 2005), suas potencialidades e entraves em campo para recontar, pluralizar e fabular criticamente (Hartman, 2021), especialmente narrativas sobre as trajetórias de mulheres negras e os arquivos dessas. Minha pesquisa busca contar a trajetória de vida de Sá Biquinha, moradora da cidade de Oliveira-MG, falecida em 2003, que era muito conhecida na cidade pelo modo característico de se vestir (muitos acessórios e cores), tornando-se o nome dela um adjetivo na cidade para se referir a alguém que se vestisse de forma semelhante. Tal narrativa, contada e transmitida entre nós oliveirenses, é revirada quando em 2023 encontro despropositadamente uma fotografia de Sá Biquinha, em um dos arquivos da cidade, trazendo cor/raça, histórias e muitas perguntas sobre essa mulher. Desencadeando outros encontros e buscas de/e nos arquivos, nos quais encontro pedaços plurais de Sá Biquinha antes desconhecidos: como uma mulher negra, Rainha Conga, e muitas narrativas, arquivos e memórias sobre e com essa mulher que pluralizam a sua história para além do modo de se vestir. Especificamente no texto, pretendo apresentar esses encontros, de arquivos públicos dela nos jornais da cidade, documentos religiosos, e a experiência etnográfica de uma busca realizada pela localização do túmulo de Sá Biquinha. Quero discutir então as dimensões de reescrever histórias (im)possíveis (Hartman, 2021), a partir dos arquivos e memórias encontrados em contexto etnográfico, tensionando a dimensão da posicionalidade enquanto uma antropóloga negra oliveirense realizando tal pesquisa sobre a trajetória de uma mulher negra oliveirense, articulando essa posicionalidade racializada e a dimensão racial que perpassam os arquivos de mulheres negras.
-
Ponto Folha: (re)encontrando Tempo no cuidado ordinário
— Raquel Silva dos Santos
— Raquel Silva dos Santos
Este trabalho é uma costura. Um friccionar de bordas entre uma etnografia visual, um ensaio poético e uma escrevivência têxtil que narra a política cotidiana do cuidado e da memória. Apresento uma brecha de minha pesquisa de doutorado em andamento, onde investigo a casa, o cuidado e o corpo como arquivos vivos, espaços de tensão e refazimento. Diante das lacunas dos arquivos hegemônicos, utilizo a poética do contracuidado e o espaço de auto educação de pessoas que se encontram na categoria mulheres como metodologia de pesquisa.
Será que o ato de tramar, de "linhar a vida" e de vestir a si e a casa traz para o cotidiano íntimo da casa-museu a oportunidade do corpo-ateliê doméstico subverter a lógica patriarcal e colonial, onde corpos femininos e negros foram historicamente subjugados à servidão? Neste ensaio costuro o conceito de escrevivência (Conceição Evaristo), à prática têxtil. Não apenas como manualidade, mas inscrição de si e do outro. O emaranhado de linhas não apenas representa, mas constitui o pensamento e a vida em fluxo (Tim Ingold).
Neste contínuo momento-movimento em me re(conhecer) e re(inscrever) como um elo na política dos cuidados, entre os filhos e também de minha mãe, trago à visualidade, a memória e a presença de um corpo-ateliê-arquivo ainda vivo que se escondia na espiral velada (Leda Maria Martins) do esquecimento para o centro da investigação. Ao refletir a casa como lugar político e radical de construção de subjetividades potentes (bell Hooks) trago o fazer manual como política de contracuidado.
Um cuidado que torna visível a beleza ordinária do cotidiano (Christina Sharpe), da re(imaginação) política e poética de ressignificar o tempo. A partir de um projeto manual, convido minha mãe, este corpo-ateliê quase esquecido a se re(lembrar) e re(viver) ponto a ponto, ressignificando seu/nosso passado (Édouard Glissant). Nesta dança eu me re(vejo) a cada movimento seu e também re(faço), re(crio) e re(construo) o meu corpo-ateliê.
Pois é a partir desta observação participante que convido novas rotas de experimentação e desejo (Audre Lorde) para este meu corpo-mulher-negro-gordo-lésbico-materno-migrante-educador-pesquisador (SER) tempo. Assim, este trabalho propõe o têxtil e a memória doméstica não como resíduos, mas como tecnologias de justiças epistêmicas, onde o cuidado se torna uma prática estética e política de preservação e reinvenção da existência (também e principalmente) negra.
-
Os livros das Partilhas de Reflexões sobre as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas como arquivos vivos.
— Robson Xavier da Costa, Marcio Soares dos Santos
— Robson Xavier da Costa, Marcio Soares dos Santos
Este estudo analisa a experiência de produção coletiva dos livros (Volumes I, II e III) Partilha de Reflexões sobre as Artes, a Luta, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas, enquanto arquivos de práticas decoloniais. A Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas, localizada no Sertão de Pernambuco, é entendida como espaço de produção de memória, resistência, arte e conhecimento. Conceição das Crioulas é historicamente marcada por lutas pela terra, pela preservação de saberes tradicionais e pela atuação das mulheres negras quilombolas. A comunidade é um território onde resistência, memória e criação se entrelaçam cotidianamente, constituindo formas próprias de existir, aprender e produzir conhecimento. É nesse contexto que emergem os três volumes da coleção Partilha de Reflexões, publicados entre 2017 e 2025, os quais são frutos de processos coletivos desenvolvidos por meio dos 'Encontros de Partilhas de Reflexões Sobre as Artes, as Lutas, os Saberes e os Sabores da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas', em Salgueiro, Sertão de Pernambuco, onde são realizadas oficinas e atividades produzidas pela e para a própria comunidade, com a participação ativa de moradores, lideranças quilombolas, artistas, professores e pesquisadores vinculados a universidades brasileiras e portuguesas. As obras são compreendidas não apenas como registros etnográficos, mas como resultados de práticas de partilha de mundos, nas quais se cruzam pesquisa, arte, política, memória e ancestralidade. O objetivo central deste artigo é analisar a produção desses livros à luz de uma abordagem decolonial, levando em conta os saberes, as práticas e experiências registradas ao longo dos três eventos, nos quais os autores participaram, que resultaram nas três publicações. Busca-se, desta forma, compreender como os processos de criação coletiva, o registro das artes e dos saberes tradicionais e a materialidade dos livros operam como estratégias de resistência frente à colonialidade do saber, entendida aqui como a permanência de hierarquias epistemológicas que privilegiam formas de conhecimento eurocentradas e acadêmicas, em detrimento de saberes locais e coletivos. O artigo argumenta que Conceição das Crioulas desafia essas hierarquias ao afirmar suas próprias epistemologias, baseadas na experiência, na memória, na ancestralidade e na relação com o território. Com isso este estudo deixa evidente essa forma de produção de conhecimento situada, demonstrando que a comunidade não é apenas objeto de estudo, mas sujeito ativo na elaboração de reflexões sobre sua história, cultura e luta, fazendo com que as práticas culturais formas de conhecimento e resistência.
-
Rosana Paulino e práticas arquivo-artísticas de famílias negras brasileiras
— Rosamaria Giatti Carneiro
— Rosamaria Giatti Carneiro
Este paper pretende explorar a potencialidade da arte contemporânea subverter ideias hegemônicas de arquivos e de nos oferecer outras possibilidades de registros da vida. Interessa-me particularmente refletir sobre o registro de histórias domésticas e familiares, sobre suas normatividades e seus desvios, sobre como têm sido reutilizadas para produzir novas histórias e também práticas artísticas.
Para tanto, lançarei o olhar para a obra da artista visual multimodal brasileira Rosana Paulino, de modo particular para as obras Parede de Memórias (1994), Bastidores (1997) e Atlântico Vermelho (2016), a fim de ponderar sobre os usos que faz de arquivos institucionais e pessoais para explorar o lugar de existência de mulheres negras na história brasileira, refletir sobre a escravidão, o racismo e a violência de gênero; tomando de saída sua própria biografia e imagens da vida familiar.
Nesse sentido, explorarei as escalas que um arquivo pode conjugar, como pode falar de si e do coletivo a um só tempo, e de que maneira a ideia de família se alimenta, nesse caso, da noção de ancestralidade, ampliando e complexificando teorias antropológicas sobre o parentesco. Rosana Paulino fala de si como mulher negra, das mulheres negras que lhe deram e acompanharam a vida, fala de outras mulheres negras e de como seus corpos foram tomados em muitas instâncias de poderes-saberes. Ela coaduna biografia e história social brasileira.
Para isso, muitas vezes, recorre ao bordado, a linha e a costura, habilidades herdadas da mãe costureira e cultivada através da família intergeracionalmente. Por meio das linhas, rasura, borra, fecha bocas e olhos e abre outras conexões, denunciando a violência cotidiana experimentada por mulheres negras. A linha une mas também separa. Esperamos, a partir disso, aprofundar debate já iniciado com Tim Ingold sobre as linhas, linhagens e parentesco de maneira simbólica e também física, tematizando gerações, gênero e fotografia (Carneiro, 2021).
Junto das linhas aloja imagens e fotografias, coletadas em sua casa, na sua vizinhança mas também de arquivos institucionais, mapas e imagens de anatomia. Mistura fotografias e bordado, aplica as imagens, mistura-as e lhes dá outras figurações. Pretendo explorar tais habilidades na construção de arquivos artísticos.
Para, em seguida, conclusão, avançar um pouco no debate sobre o “arquivo aberto” ou em constante construção (Azoulay, 2020) e sobre como a arte pode fazer os arquivos falarem de muitos modos e, assim, escaparem dos perigos de uma história única (Chimamanda, 2012), denunciando a violência sofrida e as possibilidades de vida experimentadas; nesse caso, experimentadas por famílias de mulheres negras que (re)inventaram a si mesmas constantemente.
-
Presentes, ausentes! As performances de gênero nas revistas de capoeira dos anos 2000.
— Suelen Cristina Marcelino de Campos
— Suelen Cristina Marcelino de Campos
Os anos 2000 são considerados os “anos dourados” para as revistas impressas, sendo o último grande auge dessas publicações antes do advento digital. A Capoeira, arte popular afro-brasileira, também se torna parte desse mundo de grande circulação de revistas. O mundo da Capoeiragem cria suas próprias revistas, que vão expressar histórias, eventos, músicas, personalidades importantes para a tradição de capoeira... Entre a representação de uma ginga e outra, entre linhas e imagens podemos observar as representações de gênero. Sabe-se que o gênero e suas performances podem ser verificados em vários aspectos. Seus padrões e formas são incorporados nas mais variadas expressões da vida cotidiana. É justamente essas nuances que buscamos ao analisar as revistas de Capoeira desse período, percebe-se que em tais produções existe a presença e ausência de corpos femininos, uma vez que suas presenças aparecem em colunas intituladas como “Me leva morena” “Se essa mulher fosse minha” ou em matérias como “Top model capoeira: quando a beleza faz parte do jogo”. Em contraposição, nas mesmas revistas enquadra-se os corpos masculinos performando força, tradição e centralidade da prática. Deste modo, o artigo em questão se propõe a analisar as estruturas de gênero apresentadas nessas revistas relacionando aos seus impactos nas práticas de Capoeira e em suas relações sociais cotidianas. Dentro de uma perspectiva metodológica que se versa na Antropologia da História, performance e discursos de gênero.
Coordenação
Stephania Gonçalves Klujsza (UFF)
Débora Allebrandt (UFAL)
Dando continuidade as discussões iniciadas nos Colóquio da Rede Anthera, este GT busca reunir pesquisas que explorem etnograficamente as temáticas da gravidez e do parto, em interseção com as discussões sobre gênero, tecnologias e políticas reprodutivas. Visando contemplar a diversidade das experiências sociais relacionadas à reprodução, bem como as diferenças que lhes caracterizam a partir dos marcadores sociais. A partir da última década do séc XX, observa-se a ampliação do conjunto de temas abarcados pelas pesquisas antropológicas que tomam a gravidez e o parto como eventos-chave. As análises sobre justiça reprodutiva e direitos sexuais e reprodutivos, a humanização do parto, o desenvolvimento de tecnologias reprodutivas e seus efeitos, as políticas de assistência, os ativismos em torno das práticas de cuidado nas cenas de parto, os saberes tradicionais e a emergência de novos atores, a categoria violência obstétrica e seus desdobramentos e, mais recentemente, os contextos da epidemia do zika vírus e da pandemia de covid 19, evidenciam a relevância cultural e a dimensão política destes eventos e do próprio interesse temático. Neste GT, visamos dar continuidade a estes diálogos com ênfase nas práticas relativas aos corpos e seus agenciamentos em termos individuais/biográficos, coletivos ou institucionais. Também serão bem-vindas pesquisas que interroguem o lugar da própria antropologia e da prática etnográfica na produção e análise de tecnologias e políticas reprodutivas.
Títulos e Resumos
-
Resistências a uma "política de (des)cuidado": doulas e o ativismo contra a violência e o racismo obstétrico
— Ariene Almeida Gomes
— Ariene Almeida Gomes
Este trabalho tem como objetivo analisar como doulas e ativistas contra a violência obstétrica têm se organizado e elaborado estratégias de mitigação a esse problema considerando como essencial a divulgação e facilitação de acesso à cuidado em saúde e a informação sobre saúde e direitos. Esse posicionamento das ativistas está atrelado a priorização do recorte raça/cor no debate sobre a qualidade da assistência obstétrica dispensada as mulheres negras e/ou periféricas. A promoção de informação sobre saúde sexual e reprodutiva tem acontecido a partir da produção de conteúdo em mídias sociais e a transmissão de debates e rodas de conversa em espaços físicos e virtuais; e através da produção de material informativo, rodas de conversa, doulagem voluntária, cursos de educação perinatal e debates públicos. Também se tem buscado a formação de parcerias com instituições públicas e atores políticos para potencialização de suas ações e a viabilização de projetos para a justiça reprodutiva. A partir da descrição e análise da atuação de ativistas e coletivos operantes na região Metropolitana do Rio de Janeiro, pretendo refletir sobre a presença dessas ativistas no espaço público, e como essas mulheres veem a necessidade de inserção nesse espaço para a potencialização dos objetivos e resultados de sua atuação. Observo como esse ativismo expõe as dinâmicas do problema da violência obstétrica no contexto brasileiro e sua relação com o racismo estrutural e preconceito de classe, e como a popularização do acesso à informação e cuidado em saúde; a valorização do compartilhamento de vivências e histórias pessoais; e a ocupação do espaço público são concebidas como estratégias potentes de resistência e enfrentamento à violência e ao racismo obstétrico. Em um plano geral, essas estratégias se traduzem em uma mobilização de resistência para a preservação da vida frente a expressões necropolíticas no cenário obstétrico brasileiro.
Palavras-chave: doulas; violência obstétrica; justiça reprodutiva; racismo obstétrico
-
Entre a juventude e a maternidade: gênero e experiências juvenis em uma análise etnográfica em Beneditinos (PI).
— Izabela dos Santos Silva
— Izabela dos Santos Silva
A maternidade na adolescência não pode ser compreendida como um acontecimento isolado ou reduzido a um evento biológico decorrente de escolhas individuais. Trata-se de um fenômeno socialmente situado, atravessado por relações de poder, expectativas normativas de gênero e valores culturais que regulam as experiências juvenis e os sentidos atribuídos à reprodução. Até meados do século XX, a gestação na adolescência não era concebida como um problema de saúde pública, ganhando maior visibilidade no Brasil a partir da década de 1990, especialmente com o aumento proporcional de nascimentos de crianças cujas mães tinham menos de 20 anos (IBGE, 2002).
Partindo de uma abordagem antropológica, este trabalho, que integra minha pesquisa de mestrado, tem como objetivo analisar as experiências de gravidez e maternidade na adolescência a partir das trajetórias de jovens residentes em comunidades rurais do município de Beneditinos, no estado do Piauí. A análise considera a variação histórica e cultural da própria categoria "adolescência", compreendida como uma construção social associada às sociedades industriais modernas (Domingues; Alvarenga, 1991; Erikson, 1976), bem como os diferentes sentidos que a maternidade assume em contextos sociais específicos, marcados por desigualdades estruturais.
O estudo dialoga com debates antropológicos sobre reprodução, direitos sexuais e reprodutivos e políticas públicas voltadas para mães jovens (Heilborn, 1998; Brandão; Heilborn, 2006), evidenciando como a gravidez e a maternidade são atravessadas por marcadores sociais da diferença, tais como gênero, classe, raça, geração, território e sexualidade (Collins, 2020). A noção de interseccionalidade, formulada por Patricia Hill Collins, mostra-se central para compreender como esses marcadores se articulam e produzem efeitos específicos sobre corpos femininos jovens, sobretudo em contextos rurais, nos quais persistem conservadorismos morais, silenciamentos institucionais e desigualdades no acesso à educação sexual e aos serviços de saúde (Izquierdo; Santos, 2020; Monroy-Gorzon; Silva, 2022).
A partir do método etnográfico, que combina observação participante e entrevistas semiestruturadas realizadas com jovens mães beneficiárias do Programa Bolsa Família no município de Beneditinos, analiso as experiências e trajetórias sociais dessas mulheres. O trabalho mobiliza ainda contribuições dos estudos de gênero e sexualidade para problematizar a responsabilização feminina pela reprodução (Rubin, 1993), os dispositivos de controle dos corpos (Foucault, 1984). Ao articular juventudes, maternidade e políticas públicas, a pesquisa contribui para os debates contemporâneos da antropologia sobre práticas reprodutivas, agência e desigualdades sociais em contextos rurais.
-
Maternar com Deficiência: Produção Científica, Estigmas e Experiências de Cuidado
— Juliana Cavilha
— Juliana Cavilha
O presente trabalho apresenta resultados de uma etapa bibliográfica de pesquisa em andamento sobre maternidade e deficiência, desenvolvida no âmbito de um projeto de Iniciação Científica (PIBIC), sob orientação e coordenação da autora. Esta etapa teve como objetivo central mapear a produção científica brasileira dedicada à análise da maternidade e da maternagem de mulheres com deficiência, buscando compreender os imperativos que atravessam essa relação, especialmente aqueles que enfatizam a suposta incapacidade dessas mulheres para o exercício do cuidado, seja por não corresponderem ao ideal normativo de cuidadora, seja por serem socialmente percebidas como sujeitos que demandariam cuidados, e não como agentes do cuidado.
Como objetivos específicos, o estudo propôs: (a) analisar como a deficiência é abordada na produção científica enquanto aspecto da diversidade humana; (b) identificar as áreas do conhecimento com maior concentração de pesquisas sobre a temática; e (c) mapear os principais órgãos de fomento responsáveis pelo financiamento dessas investigações. A metodologia adotada consistiu em revisão e análise bibliográfica de artigos científicos indexados em bases de dados acadêmicas, com destaque para a SciELO, a partir da seleção de palavras-chave relacionadas ao tema.
Os resultados indicam que a maior parte da produção científica sobre maternidade de mulheres com deficiência concentra-se na área da saúde, sendo majoritariamente desenvolvida em universidades públicas e financiada por agências públicas de fomento. Observa-se, ainda, a predominância do modelo biomédico da deficiência como referencial interpretativo hegemônico, não apenas no senso comum, mas também nas produções acadêmicas analisadas, o que tende a reforçar leituras normativas e limitadoras acerca da maternagem dessas mulheres.
O estudo apresentado dá continuidade a um projeto de Iniciação Científica (PIBIC), desenvolvido sob coordenação da autora, encontrando-se atualmente em fase de ampliação metodológica e analítica. Como desdobramento da etapa inicial da investigação, prevê-se a realização de entrevistas qualitativas com mulheres com deficiência que vivenciaram a maternidade, com o objetivo de incorporar suas narrativas, tensionar os modelos interpretativos predominantes na literatura especializada e aprofundar a compreensão das relações entre maternidade, deficiência e cuidado a partir das experiências vividas.
Palavras-chave: maternidade; deficiência; capacitismo.
-
Vergonha: parir sob o legado da escravidão no Brasil rural negro Racismo obstétrico e abandono estrutural na atenção materna
— Laura Caballe Climent
— Laura Caballe Climent
Esta comunicação apresenta resultados parciais de uma pesquisa etnográfica realizada no âmbito do meu doutorado sobre reprodução da vida — social e biológica — em comunidades rurais negras no Baixo Sul da Bahia, Nordeste do Brasil, durante 2017/2018. A análise articula saúde pública, teoria feminista e teoria crítica da raça para examinar como o racismo e as desigualdades de gênero estruturam as experiências reprodutivas de mulheres negras rurais em interação com o sistema público de saúde.
O campo de pesquisa abrange comunidades rurais negras com diferentes perfis — comunidades tradicionais, quilombolas, assentamentos da reforma agrária e áreas vinculadas ao MST — marcadas por históricos de exclusão, abandono estatal e resistência. Tomando como estudo de caso a localidade pseudonimizada de Jaboticaba, discuto como a mortalidade materna, embora relativamente rara enquanto evento, torna-se etnograficamente legível por meio da acumulação de incidentes cotidianos na atenção maternal
A apresentação foca em duas dimensões centrais para a prevenção da mortalidade e da morbidade materna: (1) o acesso à rede de referência obstétrica, especialmente o transporte e os processos de transferência entre unidades de saúde; e (2) a qualidade da atenção obstétrica, marcada por práticas intervencionistas, precariedade institucional e violências de gênero e raça. A partir de narrativas etnográficas, analiso como o abandono estrutural do Estado e as práticas de cuidado violentas se entrelaçam, produzindo experiências de vergonha, insegurança e solidão durante o parto.
Argumento que essas experiências não se reduzem a falhas pontuais do sistema de saúde, mas expressam um legado histórico de racismo e colonialidade que atravessa a atenção materna. Introduzo a vergonha como uma categoria analítica central, entendida tanto como experiência vivida quanto como diagnóstico encarnado do racismo obstétrico. A vergonha revela como vulnerabilidades estruturais são internalizadas, naturalizadas e sentidas nos corpos e nas trajetórias das mulheres negras rurais.
Ao evidenciar as dinâmicas lentas e cumulativas do abandono e da violência obstétrica, sustento que a morte materna negra não constitui uma ruptura excepcional, mas um desfecho previsível de um contínuo de desigualdades que conecta passado e presentes históricos. A pesquisa contribui para os debates antropológicos sobre reprodução, saúde e justiça racial, ao demonstrar como parir e viver no Brasil rural negro implica enfrentar os efeitos persistentes do legado da escravidão.
-
Dignidade menstrual, políticas públicas e disputas de sentido: uma etnografia sobre o Programa de Distribuição de Absorventes de Santa Catarina
— Marina Dutra Soncini
— Marina Dutra Soncini
O conceito de pobreza menstrual entrou na agenda pública brasileira a partir do ano de 2019, especialmente após a divulgação de um relatório da UNICEF com a UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas). A partir desse marco, ativistas, parlamentares e sociedade civil mobilizaram-se para a aprovação do primeiro programa nacional voltado para a saúde menstrual no país. No mesmo caminho, governos estaduais e municipais passam a implementar campanhas e programas para o combate à pobreza menstrual e promoção da dignidade menstrual em seus territórios. O conceito de dignidade menstrual abrange as condições necessárias para que as pessoas possam viver seus ciclos com saúde, autonomia, segurança e livre dos estigmas sociais, sendo reconhecido como um direito de todas as pessoas que menstruam. A educação menstrual, nesse contexto, vem sendo discutida por pesquisadoras/es e ativistas como Silvana Guerreiro, o projeto MEInstruAção e o grupo GirlUp Brasil, que têm buscado a incorporação da perspectiva interseccional e de gênero para as discussões sobre a menstruação. Apesar desse entendimento mais amplo, o Programa de Promoção e Proteção da Saúde e da Dignidade Menstrual, do Governo Federal, vem executando apenas ações de caráter assistencialista, voltadas para a distribuição de absorventes descartáveis para populações em situação de vulnerabilidade. Na lacuna de uma abordagem integral, tanto ativistas como instituições e governos locais têm realizado projetos que buscam combater a pobreza menstrual também através da educação. Nesse sentido, o governo do estado de Santa Catarina lançou, em 2021, o programa de distribuição gratuita de absorventes higiênicos para as estudantes de baixa renda em ciclo menstrual matriculadas na rede pública estadual de ensino (acesso: https://leis.alesc.sc.gov.br/ato-normativo/21304). Além da distribuição dos absorventes, o programa conta com ações de orientação e palestras sobre a menstruação, que são realizadas também nas unidades de ensino estaduais. Apresentaremos resultados de etnográfia em andamento, de pesquisa doutoral que tem como objetivo analisar, através da perspectiva da antropologia feminista, as ações executadas no âmbito do programa de distribuição gratuita de absorventes promovido pelo governo do estado de Santa Catarina a partir de um duplo olhar: sobre as ações estatais e sobre a percepção de escolas e jovens estudantes do Ensino Médio a respeito de sua implantação. Busca-se, ainda, examinar as narrativas mobilizadas nessas ações, tomando como base as pautas difundidas e defendidas por ativistas menstruais, que são muito presentes nas redes sociais, com impacto em espaços presenciais.
-
Quem pode engravidar "tardiamente" no Brasil? Entre expectativas sociais e tecnologias e políticas reprodutivas
— Miria Cássia Oliveira Aragão, Susana Silva, Débora Allebrandt
— Miria Cássia Oliveira Aragão, Susana Silva, Débora Allebrandt
Esta comunicação discute as desigualdades que atravessam o desejo e a possibilidade de engravidar em idade considerada "tardia" no Brasil através das Tecnologias de Reprodução Assistida (TRA), articulando gênero, políticas reprodutivas e acesso à saúde. No imaginário social brasileiro, a maternidade ainda é fortemente associada a um suposto instinto feminino natural. Contudo, ao observar os percursos reprodutivos de mulheres que pretendem engravidar mais tarde, esse imaginário revela-se atravessado por desigualdades sociais, econômicas e institucionais que tornam esse projeto complexo e desigual. A pesquisa baseia-se numa etnografia virtual, que analisou dois perfis no Instagram e o site oficial do Conselho Federal de Medicina (CFM). A escolha foi orientada pela repercussão do chamado "caso Cláudia Raia" e pelas normativas do CFM sobre reprodução assistida publicadas entre 1992 e 2022. Embora a Resolução CFM nº 2.320/2022 reconheça que os avanços científicos permitem ampliar as possibilidades reprodutivas para todas as pessoas, a realidade revela limites. Atualmente, apenas 11 instituições públicas disponibilizam tratamentos de reprodução assistida pelo SUS, a maioria concentrada na região sudeste e vinculada a hospitais universitários, os pacientes enfrentam longas filas de espera e, frequentemente, arcam com os custos dos medicamentos. Este cenário restringe, na prática, quem pode ou não recorrer a TRA. A análise dos comentários nas redes sociais evidencia como essas desigualdades são frequentemente individualizadas e recaem sobre as mulheres. Comentários que exaltam juventude, aparência ou sucesso ("Você está tão bonita e jovem, espero chegar aos 50 anos assim como você" ou "Se eu tivesse os recursos da Claudia Raia, teria filhos até os 80 anos") reforçam expectativas normativas sobre quem será uma "boa candidata" a uma gravidez em idade "tardia". Expressões como "Com dinheiro, as possibilidades são infinitas" revelam a centralidade dos recursos econômicos nesse processo. O caso de Cláudia Raia aparece como inspiração e como exceção e simboliza um ideal de sucesso reprodutivo "tardio" que não é acessível à maioria das mulheres brasileiras. Assim como, contribui para obscurecer as dimensões sociais e políticas que condicionam as escolhas reprodutivas, recebendo pouca atenção nas discussões públicas promovidas nas redes sociais. A possibilidade de engravidar tardiamente no Brasil por TRA não depende apenas de avanços médicos e tecnológicos, sendo moldada por desigualdades de classe, gênero e acesso às políticas públicas. No debate público, especialmente nas redes sociais, essas questões permanecem em grande medida invisibilizadas, deslocando para as mulheres a responsabilidade por trajetórias reprodutivas que são socialmente produzidas.
-
Entre pontos e contrapontos: hierarquias e dilemas técnico-emocionais na formação em obstetrícia na Bahia
— Naiara Maria Santana dos Santos Neves
— Naiara Maria Santana dos Santos Neves
Este artigo, derivado de tese de doutorado defendida em 2025, analisa a formação em obstetrícia em uma maternidade-escola em Salvador-Bahia, focalizando como médicos residentes constroem saberes, práticas e subjetividades no campo da formação prático-assistencial, em um cotidiano marcado por hierarquias, pressões institucionais e dilemas técnico-emocionais. Ao tomar o processo formativo como espaço privilegiado de análise, argumenta-se que a residência médica é vivida como um rito de passagem e momento liminar, tendo no “caos dos plantões” sua principal matriz de aprendizado. Ancorado na antropologia da saúde, da ciência e do gênero, em diálogo com debates sobre aprendizado médico, tecnologias reprodutivas, cuidado, ritual e epistemologias situadas, o artigo demonstra que a formação obstétrica se estrutura em tensões constitutivas entre técnica e envolvimento, protocolo e experiência, teoria e “feeling”, controle biomédico e singularidade do parto. A pesquisa baseia-se em etnografia realizada entre 2018 e 2021, a partir de observações de sessões científicas da residência médica em obstetrícia, entrevistas semiestruturadas com seis médicos residentes, conversas informais e registros sistemáticos em diários de campo, incluindo o longo processo de avaliação da eticidade do projeto de doutorado pelo Comitê de Ética de Pesquisa (CEP). O trabalho examina os critérios de formação do “bom obstetra” - aquele capaz de se equilibrar entre dicotomias estruturantes -, evidenciando como gênero, emoção, autoridade e responsabilidade são aprendidos e corporificados no cotidiano formativo e do cuidado ao parto. Trata, ainda, da judicialização da saúde e das disputas em torno da violência obstétrica, fenômenos que impactam a formação em obstetrícia, reconfigurando, ainda que lenta e gradualmente, hierarquias no campo médico-hospitalar e as relações entre residentes, preceptores e parturientes. Por fim, discute a noção de "qualidade de vida", recorrente nas narrativas dos médicos aprendizes, como expressão da ambiguidade entre vida pessoal e vida profissional e os modos como se apresentam e influenciam a formação e atuação dos obstetras.
-
Gestação, parto e amamentação na experiência de um casal transcentrado, preto e periférico
— Olivia Nogueira Hirsch, Paulo Renato Flores Duran
— Olivia Nogueira Hirsch, Paulo Renato Flores Duran
Enquanto uma parcela da população transmasculina almeja se submeter a cirurgias de redesignação sexual, outra procura reivindicar suas identidades de gênero sem se submeter a procedimentos cirúrgicos. O corpo costuma ser modificado através do uso de hormônios e outros recursos, mas ainda assim pode manter ovários, útero e vagina, o que possibilita que homens trans engravidem.
Entre casais compostos por um homem trans e mulheres cisgêneras, a gestação resulta necessariamente de um planejamento, uma vez que depende da doação de esperma para que haja a concepção. No entanto, em relacionamentos transcentrados a concepção pode acontecer de forma espontânea, em meio à interrupção temporária dos hormônios consumidos para a construção do corpo.
Esse foi o caso de Zeus, que é uma pessoa transmasculina, e sua companheira, Joan, que é travesti, com os quais realizamos uma entrevista em profundidade com o intuito de compreender como foram significadas as experiências de gestação, parto e amamentação. Trata-se de um casal formado por duas pessoas pretas, provenientes de camadas populares, que já tem um filho adotivo e um biológico. No momento da entrevista - realizada em outubro de 2025, no Rio de Janeiro, como parte de um estudo inicial sobre parentalidade e gestação entre pessoas transmasculinas - Zeus estava em sua segunda gestação.
O fato de Zeus performar em seu corpo gestos e símbolos comumente associados à masculinidade faz com que suas gestações sejam percebidas como um curto-circuito, uma vez que tais experiências são frequentemente interpretadas como definidoras do feminino (Pereira 2021, Lemos 2025). Com efeito, o material colhido sugere que experiência de gestar, parir e amamentar tensionou a passabilidade masculina de Zeus, produzindo disforias, mas também novas formas de vínculo, cuidado e elaboração de masculinidades alternativas.
A partir dos relatos do casal também procuramos compreender como se deram as relações com os profissionais de saúde nas instituições públicas nas quais foram atendidos. Seus depoimentos evidenciam que as violências institucionais sofridas no sistema de saúde não se restringiam à transfobia, mas foram atravessadas pelo racismo e pela classe social, revelando estigmas reprodutivos historicamente associados a pessoas negras e pobres. A suspeição sobre sua capacidade parental, o medo de perda da guarda do filho e as dificuldades burocráticas para o reconhecimento legal da parentalidade, apontadas pelo casal durante a entrevista, ilustram esses impasses.
-
A violência obstétrica como dispositivo de imposição das normas de gênero, raça e classe
— Ruhana França
— Ruhana França
Retomando a discussão sobre medicalização e uso de tecnologias médicas como dispositivos de objetificação e exclusão das mulheres como sujeitos dentro da estrutura de saber biomédico sobre o corpo, articulo nesse trabalho produções da antropologia e sociologia sobre medicalização e formação obstétrica para refletir sobre o problema da violência obstétrica como um dispositivo disciplinar de imposição das normas de gênero, raça e classe.
Utilizo como eixo norteador a noção de drama médico, cunhada pelos pesquisadores Becker, Geer, Hughes e Strauss (2002) para se referir à internalização de valores e padrões de conduta durante a formação em medicina, e a performance dessas condutas durante sua atuação como profissionais médicos. A partir dessa abordagem, argumento, como já defendido por outros autores (Davis-Floyd, 1987; Becker et. al., 2002; Nott, Harris, 2020; Van Der Wall et. al., 2021), que a formação obstétrica pode ser entendida como um rito de passagem que facilita a objetificação dos sujeitos atendidos e a ocorrência de abusos e violências durante a assistência. Ao apresentar o caso da violência no parto, politizada e disputada nos últimos anos por meio da categoria de violência obstétrica, proponho olhar para a face produtiva dessa violência, ou seja, sua capacidade de criar e consolidar identidades, hierarquias e estruturas sociais.
Pesquisas sobre as formas de violência na gestação e no parto mostram que os abusos e violações acontecem de forma diferenciada, variando conforme os marcadores raciais, étnicos e sociais. Ao mesmo tempo, entre estudantes de medicina, as propostas de humanização relacionadas à desmedicalização são percebidas como retrocesso e precariedade na assistência ao parto, visto que prover tecnologias médicas e intervir para controlar o desfecho do parto equivaleria a um atendimento de maior qualidade. Assim, argumento que as duas faces da violência, negligência e controle, são recursos de manutenção da ordem de gênero, raça e classe, que constrói mulheres brancas como frágeis e dependentes e mulheres negras e pobres como resistentes, fortes e mais capazes de suportar a dor.
Referências preliminares:
BECKER, Howard S., GEER, Blanche, HUGHES, Everett C., STRAUSS, Anselm M. Boys in White. New Brunswick: Transaction Publishers, 2002.
DAVIS-FLOYD, Robbie. Obstetric training as a rite of passage. Medical Anthropology Quarterly. 1987;1(3):288-318.
NOTT, John; HARRIS, Anna. Sticky models. History as friction in obstetric education. Medicine Anthropology Theory 7 (1): 4465; 2020.
VAN DER WALL, Rodante; MITCHELL, Veronica; VAN NISTELROOIJ, Inge; BOZALEK, Vivienne (2021). Obstetric violence within students rite of passage: The reproduction of the obstetric subject and its racialised (m)other, Agenda, v.25, p36-53.
Coordenação
Paulo Victor Leite Lopes (UFRN)
Paula Lacerda (UERJ)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Sérgio Carrara (Instituto de Medicina Social da UERJ)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Jacqueline Moraes Teixeira (USP)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Andrea Moraes Alves (UFRJ)
A proposta do GT consiste em reunir pesquisas em diferentes fases de desenvolvimento a respeito da relação entre gênero, poder e política. Compreendemos que tais categorias são efeitos de práticas e disputas experimentadas pelos sujeitos de forma cotidiana, atravessadas pelas institucionalidades e por diferentes formas de agenciamentos. O GT pretende reunir reflexões que enfatizem o modo como esses ‘três campos’ são mutuamente elaborados, evidenciando processos que envolvem a produção de sujeitos (d)e direitos, embates em torno de diferenças, desigualdades e formas de exclusão, como também a conformação de saberes locais-técnicos-científicos, moralidades e gramáticas emocionais. Nesse sentido, buscaremos debater as distintas configurações que ocorrem quando são observadas etnograficamente instituições, políticas públicas e seus serviços, pensando a gestão, controle e administração de grupos sociais na confluência entre Estado e políticas governamentais. Pretende-se, ainda, acolher propostas que produzam abordagens sobre formas de organização, mobilização e luta política conduzidas por movimentos sociais e outros ativismos, trajetórias e biografias de militantes e políticas/os, observando como gênero e Estado emergem como aspectos relevantes para compreender percursos, trajetórias e conflitos. São ainda bem-vindas reflexões teórico-metodológicas a respeito dos desafios e potencialidades ao conduzir etnografias tendo por objeto a co-produção entre gênero, Estado e política.
Títulos e Resumos
-
Estado e diversidade: documentos, afetos e políticas públicas para população LGBTI+
— Amadeu Cardoso do Nascimento
— Amadeu Cardoso do Nascimento
O presente texto é o resultado da minha pesquisa de Tese de Doutorado em desenvolvimento, tem como foco o estudo etnográfico dos processos de construção e implementação das políticas públicas voltadas para a população LGBTI+ no estado do Ceará. O objetivo é investigar os processos de formulação, negociação e implementação das políticas públicas, identificando os atores envolvidos, as disputas de poder e os processos de formação do Estado que permeiam a governança das políticas públicas para população LGBTI+. A pesquisa se insere no campo da antropologia do Estado e burocracia, articulando os estudos de gênero e sexualidade com a análise das dinâmicas burocráticas e institucionais que moldam as políticas públicas a partir da Secretaria da Diversidade (Sediv) do Ceará, a primeira Secretaria de Estado destinada ao público LGBTI+ do Brasil e do Ceará. A partir de uma etnografia multissituada, adentro nas práticas institucionais e nos espaços públicos onde essas políticas são negociadas e implementadas para população LGBTI+. A pesquisa de campo tem sido realizada em múltiplos espaços: reuniões, conferências, seminários, palestras, atividades públicas, atendimentos institucionais no Centro Estadual de Referência Thina Rodrigues. A observação participante, articulada à análise documental de leis, decretos, atas do Conselho Estadual de Combate a Discriminação da população LGBTI+, relatórios e plano plurianual de Gestão da Sediv, e outros documentos do Estado e as entrevistas com gestores públicos, técnicos da Sediv, pessoas LGBTI+, realizadas com o intuito de identificar suas percepções sobre as políticas públicas e seus efeitos no cotidiano dessa população, permitindo acompanhar dos efeitos do Estado como processo relacional e contingente. Assim, as políticas públicas ganham forma — ou deixam de ganhar — nos encontros entre agentes, documentos, classificações, moralidades e afetos. É nesse entrelaçamento cotidiano que emergem vozes que, em conversas revelam dores marcadas por sistemas burocráticos; ou dores que transformam uma humilhação vivida no cotidiano em denúncia pública e performance política. Assim, o Estado se faz e se desfaz nos encontros entre agentes, documentos, discursos e tecnologias de governo, coproduzindo sujeitos e hierarquias sociais atravessadas por gênero, sexualidade, raça e classe. Em campo acompanho o Estado em ação: nas mesas das conferências, nas ações da secretaria, nos rituais administrativos, nos fluxos de documentos, no diálogo com os movimentos sociais e nos corpos que reivindicam direitos. Cada história ilumina a ambiguidade constitutiva da ação estatal: ora promotora de reconhecimento e dignidade, ora produtora de exclusão simbólica e apagamento identitário.
-
O gênero da rua e a Universidade: a construção de uma pesquisa militante com mulheres em situação de rua
— Caroline Silveira Sarmento
— Caroline Silveira Sarmento
Esta reflexão tem como foco apresentar os modos de produção de uma pesquisa militante com pessoas em situação de rua, enfatizando a relação com as mulheres que compõem tal grupo social. A proposição consiste em um capítulo da tese de doutorado em elaboração, cuja problemática se fundamenta na compreensão do ciclo que se repete por gerações entre famílias consideradas vulneráveis – com trajetória de rua e/ou uso de álcool e outras drogas – por meio do qual diferentes práticas de governo atuam e culminam em retiradas forçadas dos filhos. Esta comunicação enfoca os principais pontos abordados no capítulo da tese, tendo como base uma linha do tempo que percorre desde 2015 até os dias atuais. O espaço principal do trabalho de campo e de ativismo é o Jornal Boca de Rua – publicação elaborada por pessoas em situação de rua em Porto Alegre/RS há 25 anos –, em que atuo desde a graduação e por meio do qual acessei outros espaços mais amplos, grupos e discussões. Me envolvi em reuniões, eventos, audiências públicas, censos da população de rua, festividades, encontros, marchas, seminários, congressos, no legislativo, executivo, judiciário em seus diferentes âmbitos, entidades da sociedade civil, movimentos sociais e outros. Desde o ingresso no Boca de Rua, que se deu a partir de um projeto de extensão, orientei atenção às dinâmicas das mulheres, buscando compreender as questões mais relevantes para elas, suas vivências, demandas e os desafios que se apresentavam. Na aproximação com as mulheres constatei a centralidade da maternidade em suas narrativas, muito mobilizada pelo afastamento compulsório dos filhos, em que pese sua “organização” (saída da rua, abstinência das drogas, pré-natal, etc.). O investimento etnográfico se deu nos caminhos percorridos junto a essas mulheres na reivindicação pelo direito de criar seus filhos: desde a elaboração de reportagens para o Jornal sobre a maternidade atravessada pela trajetória de rua, passando por entrevistas com atores do judiciário e serviços de proteção social especial, até sendo testemunha em audiências judiciais de medidas protetivas para acolhimento de filhos. Em tais contextos, face ao Estado em suas diferentes instituições e atuações, frequentemente foi possível observar narrativas moralizantes sobre a biografia das mulheres, que resultaram em decisões baseadas em ideais homogeneizantes acerca das noções de gênero, de maternidade e de família. No exercício mútuo entre pesquisar e militar, tenho feito pesquisas com as pessoas em situação de rua ao mesmo tempo em que aprendo com elas a desenvolver a militância. Nessa relação, observei as mulheres do Boca de Rua intensificarem sua participação nos espaços de discussão e deliberação e se tornarem protagonistas da mobilização em torno do direito à maternidade.
-
"Você pode sair da rua, mas ela não sai de você": Pessoas LGBTQIA+ desabrigadas e articulação da vida como "causa"
— Fabricio Campos Longo da Silva
— Fabricio Campos Longo da Silva
A partir do meu encontro com duas mulheres trans durante meu trabalho de campo, espero discutir as trajetórias de pessoas LGBTQIA+ desabrigadas, a produção de sujeitos na política de direitos, noções de pertencimento social e os caminhos de circulação pelos espaços sociais urbanos. Alice, uma jovem que conheci numa calçada do Rio e depois reencontrei num abrigo para mulheres trans de São Paulo, a Casa Florescer, se sente "à deriva". Larissa, sexagenária, vive na casa há dois anos e afirma que aquele é seu lar, mesmo tendo contato com sua família e a possibilidade de viver fora da instituição. Os caminhos percorridos por elas e a maneira como falam de si e de suas histórias servem, no escopo desta apresentação, para ilustrar a questão central da minha pesquisa, que é saber como as pessoas LGBTQIA+ desabrigadas reconciliam suas identidades marginalizadas com a noção de “direitos” e qual é o papel do movimento LGBTQIA+ neste processo, enquanto produtor e remediador deste tipo de exclusão. O trabalho é parte da minha tese de doutorado – atualmente em fase de conclusão – sobre a Rede Brasileira de Casas de Acolhimento LGBTQIA+ (REBRACA), que é hoje a principal organização social a alimentar o debate sobre uma política de acolhimento específica para este grupo. Muitas das pessoas que conheci nos abrigos sentem que “carregam a rua” mesmo depois de anos sob algum teto. Desta forma, suas histórias de vida e a reflexão sobre uma “subjetividade desabrigada” servem, também, para desenhar uma cartografia das trajetórias de vulnerabilização LGBTQIA+ e dos caminhos que os debates sobre nossos direitos conseguem seguir. Eu não quero, necessariamente, criticar os caminhos, as estratégias e os resultados do movimento LGBTI+ institucionalizado, mas acho importante que as vozes das pessoas LGBTQIAPNB+ desabrigadas demonstrem como o sucesso de jeitos específicos de “ser LGBTI+” também reforçam estruturas de exclusão que deixam diversas pessoas à margem. Neste sentido, o trabalho procura articular a teoria com a dimensão empírica da pesquisa, além de discutir a produção de sujeitos, de corpos e de direitos em torno da sexualidade e da identidade de gênero, discutindo também a gramática de direitos identitários e a utilização estratégica de categorias político-sociais por pessoas vulnerabilizadas, especialmente em contextos de disputa por abrigo, acolhimento e reconhecimento. E, através do relato etnográfico sobre as trajetórias das personagens apresentadas, conduz a discussão para os temas de trânsitos, deslocamentos em diferentes escalas e produção da diferença na luta por igualdade.
-
Maternagem ativista indígena: enfrentamentos à letalidade branca
— Francine Pereira Rebelo
— Francine Pereira Rebelo
Este trabalho analisa como a letalidade branca e as violências coloniais atravessam a vida das mulheres indígenas, afetando seus corpos, filhos/as e comunidades. O conceito de "letalidade branca", cunhado pelo antropólogo indígena Felipe Sotto Maior Cruz (Felipe Tuxá), qualifica essas violências como comportamentos culturalmente padronizados do ordenamento cultural branco hegemônico, que estabelecem práticas e tecnologias responsáveis pela morte ou por deixar morrer povos não ocidentais, configurando um plano genocida sistemático (Cruz, 2021). A pesquisa identifica as violências que atingem mulheres indígenas como mães, desde a violação de seus territórios e interferências nas áreas demarcadas até arbitrariedades cometidas por instituições públicas, como conselhos tutelares, hospitais, escolas e universidades. Em contrapartida, as mulheres indígenas se organizam de diferentes formas, inserindo-se de modo complexo nos espaços políticos, tornando-se lideranças, cacicas e ativistas, protagonizando a militância indígena, disputando cargos institucionais e desenvolvendo novas formas de atuação política, como os denominados "mãedatos indígenas". Através dessa mobilização como mães líderes, preparam suas crianças para a continuidade da resistência indígena, "alimentando-as de luta" e reafirmando suas identidades. Mobilizando o conceito de maternagem ativista, desenvolvido por Nancy Naples, Cheryl Gilkes e Patricia Hill Collins, este estudo se ancora na ideia de que é a partir das demandas de seus filhos/as e comunidades que as mulheres indígenas se tornam agentes políticas, transformando o cuidado em prática de resistência. A maternagem ativista indígena, entendida como desobediente e contracolonial, constitui o eixo central da análise. Dessa forma, ao transformar o luto em luta, as mães indígenas responsabilizam o Estado pelas políticas de morte e politizam o cuidado, articulando maternidade, territórios e vida coletiva, produzindo formas dissidentes de fazer política.
-
Intersecções entre arte, política e religião no Brasil: reflexões a partir de um recorte de gênero e sexualidade
— Giovanna Mazzamboni Colussi
— Giovanna Mazzamboni Colussi
No artigo, parto da arte como campo privilegiado para o estudo de tensionamentos contemporâneos acerca de gênero e sexualidade em contexto de articulação de uma direita religiosa brasileira. A reflexão proposta é um desdobramento de minha pesquisa de mestrado (PPGAS/IFCH/Unicamp) sobre religião e política no Brasil, cujo recorte se situa em disputas sobre gênero e sexualidade na esfera pública, tendo o campo da arte e representações subversivas de corpos e comportamentos como ponto de partida para a observação etnográfica. Com especial interesse pela formação de rede e mapeamento de controvérsias entre os anos de 2011-2022 no Brasil, através do ciberespaço, a pesquisa trabalha a intersecção entre arte, política e religião para pensar modos com que produções artísticas são mobilizadas para questionar padrões vigentes de gênero e sexualidade, bem como os modos de sua recepção por coletivos à direita política em associação com o conservadorismo religioso brasileiro, naquilo em que a recepção culminou na emergência de controvérsias públicas e tentativas de interdição. Nesse sentido, o foco do mapeamento recai sobre atores, instituições, discursos, agendas e práticas que, em rede, atuam na produção de alianças e antagonismos políticos, e onde debates públicos sobre direitos sociais, laicidade, moralidades, liberdades de expressão e religiosa também podem ser observados. Desde este contexto de pesquisa, trata-se de compreender posicionamentos e racionalidades que os informam. Além disso, objetiva-se apresentar uma análise preliminar de controvérsias mapeadas no âmbito da pesquisa.
-
Corpos generificados e práticas de Estado: a atuação das lideranças comunitárias no enfrentamento à violência contra as mulheres em um bairro periférico de Porto Alegre/RS
— Helena Patini Lancellotti
— Helena Patini Lancellotti
A proposta desta comunicação é apresentar uma discussão inicial de uma pesquisa em andamento sobre a atuação de lideranças comunitárias no enfrentamento à violência contra as mulheres no bairro Restinga, em Porto Alegre/RS. Este projeto surgiu a partir de diálogos informais com a Polícia Civil e com moradores do território acerca de um suposto elevado número de registros de violência doméstica no bairro. Considerando que a Restinga é um território que possui um grande envolvimento da comunidade desde a sua criação nos 60 anos - a partir de um processo de remoção populacional - interessa-nos compreender a relação das lideranças comunitárias na produção de legibilidade estatal da violência doméstica. O trabalho de campo envolveu, até o momento, nove entrevistas com mulheres que se intitulam e são reconhecidas como lideranças deste território. A partir de suas narrativas e de insights teóricos da Antropologia do Estado, observa-se que essas mulheres não apenas realizam a mediação com o Estado, mas que suas práticas e intervenções se aproximam de atuações estatais. Isso ocorre na medida em que auxiliam na coprodução do registro policial - tornando a violência um fenômeno legível - tendo como efeitos tentativas de produzir certas condutas, a produção de sujeitos de direitos e a própria garantia da proteção. Tais práticas devem ser pensadas também a partir de seus corpos generificados: trata-se de lideranças mulheres cujas atuações são mobilizadas por experiências anteriores com a violência e com práticas que se aproximam de scripts femininos: atuam a partir de práticas de escuta, acolhimento, constituição de redes informais de proteção e de cuidado. O trabalho de campo com essas lideranças permite-nos dialogar sobre Estado, poder e gênero a partir das margens e de outras colonizações dos espaços de poder.
-
"A gente não faz venda, aqui a gente faz luta": Estado, coletividades e política cotidiana em torno da circulação de cestas básicas durante a pandemia da Covid-19
— Isabelle Caroline Damião Chagas
— Isabelle Caroline Damião Chagas
“Eu sabia que essas cestas não iam sair barato”, Estela me disse ao ouvir a mensagem da representante do movimento por moradia que atuava na ocupação Vila Nova, em Belo Horizonte, onde ela morava. Léia havia acabado de postar no grupo de WhatsApp que, para receberem as cestas básicas daquele mês, cada família teria que enviar pelo menos um membro à manifestação que ocorreria em alguns dias. Uma das recentes ocupações do movimento no Centro da cidade estava sob ameaça de despejo e, para pressionar o diálogo com a prefeitura, era necessário haver quórum. Diversas moradoras se queixaram, pois cada família pagava 10 reais mensais pela carteirinha da militância, destinada ao recebimento das cestas. “A gente não faz venda, aqui a gente faz luta”, Léia foi enfática e repetitiva nas respostas, em menção direta a outra rede de distribuição de alimentos liderada por uma ONG local que, com o apoio de Estela, comercializava sacolas de frutas e verduras pelo mesmo valor de 10 reais na ocupação. Durante as eleições para o Conselho Tutelar de 2023, as tais sacolas foram distribuídas em troca de votos para a candidata apoiada pela rede, uma funcionária pública do município que, em seguida, lançaria sua campanha para o cargo de vereadora.
Ao longo de mais de quatro anos (2020-2024) acompanhando a circulação de cestas básicas na Vila Nova como pesquisadora, moradora e mobilizadora de um coletivo local, testemunhei esses objetos se tornarem centrais nos processos de classificação moral e política. A cena em questão mostra como pessoas (militantes, lideranças comunitárias, agentes públicas e candidatas a cargos políticos) e coletividades (movimentos sociais, ONGs e chapas eleitorais) passaram a ser diferenciadas e hierarquizadas, assim como suas formas de organização e mobilização, distinguidas localmente entre “luta”, “venda” e “politicagem”. As mulheres, em especial, ocuparam lugares ambíguos ao serem tanto as principais cuidadoras e, portanto, as mais vulnerabilizadas pela carga de trabalho e pelos riscos de contaminação, quanto por assumirem o protagonismo de algumas dessas redes. A partir de uma abordagem feminista interseccional, esta proposta busca compreender como tais classificações são produzidas, disputadas e negociadas no cotidiano. De que modo elas estruturam diferentes formas de fazer política e de se relacionar com o Estado em um contexto marcado por desconfianças, expectativas e encontros ambíguos com a política institucional?
A proposta é parte da minha pesquisa de doutorado em curso, na qual analiso as redes de trocas e reciprocidades entre moradoras da Vila Nova desde a eclosão da pandemia da Covid-19. A metodologia é de cunho etnográfico, baseada em observação participante e entrevistas semiestruturadas em contextos presenciais e digitais
-
Construir a si mesmo e ao Estado pelas bordas: mediação, disputa e circuitos de aborto legal entre agentes estatais
— Jade Novaes de Figueiredo
— Jade Novaes de Figueiredo
Os processos de abortamento e cuidado são marcados por disputas políticas, sociais e morais. Pessoas de 10 a 14 anos que buscam acesso ao aborto legal estão envoltas nas disputas pelas definições de infâncias, famílias, direitos reprodutivos, justiça reprodutiva, papéis de gênero e, portanto, nas elaborações de Estado. Essas definições têm tomado espaço nos palanques políticos e debate público, sendo presente nas agendas conservadoras. Neste trabalho proponho explorar como agentes estatais, dentro da rede de apoio e assistência, das redes de garantia de direitos no Rio de Janeiro, se articulam para organizar e desorganizar fluxos de acesso ao aborto legal. As análises se deram a partir das conversas com diferentes atoras e agentes estatais que apresentaram as concepções e trajetórias que possuem ao mediar e estabelecer a relação entre os sujeitos e seus direitos. Do mesmo modo, as analises também se deram em conjunto as normativas do Conselho Federal de Medicina, e das organizações dos fluxos de saúde Municipais e Estaduais do Rio de Janeiro. Como exemplo: as agentes estatais que auxiliam na formação de políticas públicas e de capacitação dos sistemas de atendimento a vítimas de violência sexual; os profissionais de saúde que ficam à mercê do Conselho Federal de Medicina e de intervenções Estatais; ONGs como o Projeto VIVAS que organizaram coletivamente um circuito para acesso ao aborto legal. Olhar para estas mediações, articulações e trajetórias que se embrenham entre o fazer a si e o fazer do Estado, localizando o contraditório criado e vivido entre: as leituras de Estado, as moralidades, as hierarquias de poder estatais, as ilegibilidades, os medos de responsabilizações individuais dentro de estruturas precarizadas e as formações de circuitos nas bordas. Portanto, tais agentes estatais mediam e disputam para o (não) acesso aos direitos, a partir dos arranjos institucionais, suas dinâmicas de violência e resistências, suas múltiplas barreiras burocráticas, estatais, morais e religiosas.
-
Mais "sexo biológico", menos "identidade de gênero": a controvérsia pública sobre as estatísticas LGBTI+
— João Otávio Galbieri
— João Otávio Galbieri
No presente texto, busco discutir como os números LGBTI+ produzem controvérsias sobre sexo, gênero e sexualidade no debate público, a partir da análise da organização Mulheres Associadas, Mães e Trabalhadoras do Brasil (MATRIA). Tais controvérsias têm como foco os dados estatísticos produzidos pelos movimentos LGBTI+, para os quais conceitos como identidade de gênero e orientação sexual são centrais como critérios de mensuração. O primeiro conceito é foco dos principais esforços críticos por parte da organização, o que se explica pela sua defesa do conceito de sexo biológico e, ao mesmo tempo, permite a construções de novas alianças entre lésbicas, gays e bissexuais. Entendemos a controvérsia como uma reação aos esforços dos movimentos, em especial do transativismo, reivindicam há cerca de trinta e cinco anos - nos últimos dez com mais robustez - a inclusão das categorias que representam seu sujeito político nas pesquisas estatísticas e censitárias produzidas pelo Estado brasileiro. Metodologicamente, tais tensões foram acessadas através da análise dos relatórios e mapeamento das publicações da MATRIA em suas páginas na internet, tanto em seu site quanto em seu perfil nas redes sociais. Argumento que a MATRIA compõe o que vêm sendo denominado como pensamento "crítico de gênero", que busca se opor ao conceito de gênero ou identidade de gênero, em um ativismo marcado pela agenda anti-trans, traduzindo para o contexto brasileiro o repertório de ação deste pensamento que se desenvolveu no contexto do Reino Unido da última década. O que tais setores caracterizam como "falso" acerca dos números LGBTI+ é equivalente ao que os movimentos adjetivam como "sub-notificação". Ambos termos são utilizados para dar sentido ao modo pelo qual os números produzidos são determinados pela infraestrutura de contagem ativista e, sobretudo, o papel do Estado nessa disputa. Para os movimentos críticos de gênero, trata-se de desqualificar estas informações e as demandas que eles tornam possível mobilizar no debate público, enfatizando como sua eventual adoção nas infraestruturas de contagem do Estado terão um impacto negativo na produção de estatísticas populacionais. Por outro lado, para os movimentos LGBTI+, significa tornar evidente as limitações de tais dados e a necessidade de informações estatísticas mais robustas a serem providenciadas pelo Estado brasileiro.
-
A produção de verdades jurídicas em apelações criminais de estupro envolvendo corpos masculinos e vulneráveis.
— João Victor Rossi
— João Victor Rossi
Este trabalho é parte de um projeto de doutorado em curso que tem como foco a análise de jurisprudências e apelações criminais disponíveis no Sistema de Automação da Justiça Eletrônica (e-SAJ) do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). O campo de pesquisa é construído a partir de buscas por palavras-chave como “homem(s)” e “estupro (de vulneráveis)”, resultando em um conjunto específico de julgamentos. As apelações criminais, enquanto recursos destinados ao reexame de sentenças por instância superior, constituem também um outro momento de produção e disputa de narrativas, avaliadas pelos desembargadores. O objetivo central é analisar como operadores do direito mobilizam uma linguagem simultaneamente técnica e moral para acionar categorias, atribuir sentidos às apelações e produzir “verdades jurídicas” que operam como práticas políticas de classificação, reconhecimento e exclusão. A pesquisa toma acórdãos e jurisprudências como artefatos estatais por meio dos quais o estado, via poder judiciário, fixa e legitima determinadas interpretações do direito, articulando saber técnico-jurídico, poder institucional e produção de sentidos. A partir da metodologia etnográfica voltada à análise de documentos e práticas judiciais, investigo como esses materiais organizam percepções sobre violência, idade, classe, raça, gênero e sexualidade, delimitando o reconhecimento da vítima legítima e a inteligibilidade jurídica das experiências. O foco empírico recai sobre casos de estupro envolvendo corpos masculinos e vulneráveis, examinando como tais situações tensionam a masculinidade hegemônica, entendida como um mandato que articula poder sexual, social e de morte, e contribuem para a invisibilização das vulnerabilidades masculinas e para a minimização das experiências de vitimização sexual. Partindo da compreensão de gênero como uma construção performativa e relacional, analiso como as categorias de “vítima” e “acusado” são atravessadas por hierarquias de poder, regimes morais e expectativas sociais. A pesquisa combina etnografia documental e análise do discurso para compreender os termos e conceitos mobilizados nas práticas jurídicas, entendidos como expressões de um “saber local(izado)”. Ao considerar a genealogia desses conceitos, é possível mapear como normas, representações de gênero e discursos sobre sexualidade e responsabilidade se consolidam. Por fim, examinarei o processo pelo qual experiências complexas são traduzidas em categorias formais do direito, produzindo apagamentos e simplificações que evidenciam os limites da judicialização como matriz de inteligibilidade das violências.
-
Saúde por emendas: notas sobre algumas das táticas políticas do "movimento feminino" (PL Mulher) em torno do SUS
— Júlia Freire de Alencastro, Elaine Reis Brandão
— Júlia Freire de Alencastro, Elaine Reis Brandão
O Partido Liberal (PL), partido do ex-presidente Bolsonaro, tem sido uma das instituições mais beneficiadas pelo conturbado período que se estende desde o impeachment da primeira mulher presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, até a recente eleição de um congresso nacional favorável às agendas conservadoras. Nesse contexto, acompanhamos a emergência e o fortalecimento de diversos grupos de espectro político vinculados à direita, que têm, ao mesmo tempo, reconfigurado o próprio campo. Neste cenário, inclui-se a “célula feminina” do PL, responsável pelo autointitulado “movimento feminino”: o PL Mulher. A proeminência e o impacto desse "movimento feminino" configuram, em torno do gênero, chaves discursivas basilares para analisar a ativação de dinâmicas políticas que vêm ampliando o recrutamento e escalonando o número de filiadas ao partido. A partir de pesquisa documental em ambiente digital, focada no conteúdo produzido pelo PL Mulher, em particular do “I Workshop de Formação Política”, publicado em 2024, buscamos analisar os contornos dados pelo “movimento feminino” às políticas de saúde. Considerando a união estratégica de segmentos conservadores de mulheres cristãs (entre católicas e evangélicas), facilitada pela centralidade de Michelle Bolsonaro e por sua trajetória de mulher evangélica convertida, essa dinâmica é examinada como uma dimensão importante nas relações com as políticas sociais e o orçamento público. A partir da noção de mímese inversa de Letícia Cesarino, analisamos como o PL Mulher tem participado da recomposição de práticas relacionadas às políticas públicas com foco na saúde. Argumentamos que há uma ascensão da lógica de aquisição de benefícios políticos individuais na implementação de equipamentos públicos, por vezes operacionalizada por emendas parlamentares, em detrimento das formas de aplicação do orçamento público com maior participação social. Em última instância, a apresentação propõe uma reflexão sobre os pilares discursivos do “movimento feminino” e sua participação na composição da esfera pública, disputando a lógica do “cuidado” e da “família" nas políticas de Estado. Buscamos examinar as implicações da mobilização de porta-vozes "femininas" na legitimação de pautas que, paradoxalmente, podem intensificar políticas potencialmente prejudiciais aos direitos das mulheres como coletivo.
-
O cuidado na construção da paternidade e a paternidade na legitimação da luta política: "direitos humanos masculinos" no Brasil
— Júlia Viana Palucci
— Júlia Viana Palucci
Neste trabalho, pretendo apresentar algumas reflexões a respeito da construção de uma luta política que encontra na paternidade e no cuidado sua legitimação moral. Durante a realização da minha pesquisa de mestrado sobre as disputas em torno da Lei de Alienação Parental (LAP - Lei 12.318/2010) no Brasil, entrei em contato com grupos de homens-pais que defendem a existência da LAP por compreenderem que esta seria necessária para combater a suposta epidemia de “falsas denúncias” potencializadas pela Lei Maria da Penha (LMP - Lei 11.340/2006).
A Lei de Alienação Parental é intensamente disputada no Brasil. Perfis no Instagram e grupos de WhatsApp reúnem mulheres-mães, homens-pais e profissionais do Direito e da Psicologia articulados em torno de suas posições diante da lei, que caracteriza a alienação parental (atos que afastariam os filhos de um dos genitores) como um ilícito civil. Segundo a perspectiva dos homens-pais, as “falsas denúncias” seriam uma forma das mulheres-mães de promoverem o afastamento entre eles e seus filhos em um contexto de separação conjugal. Nesse sentido, a disputa se dá em termos generificados e antagônicos.
A partir desse contexto, procuro apresentar dois movimentos que me chamaram a atenção, sobre os quais pretendo refletir no curso do doutorado, iniciado em setembro de 2025. O primeiro deles é a transformação de homens-pais “alienados” e seus aliados e aliadas em sujeitos de uma luta que extrapola as discussões sobre a guarda dos filhos e constrói uma agenda em torno dos “direitos humanos masculinos”, de forma mais ampla. O segundo diz respeito ao esforço do Instituto de Defesa dos Direitos do Homem (IDDH-Brasil), um importante ator nesse cenário, em aglutinar e politizar tais sujeitos de luta em termos de uma política que se faz na disputa por espaços políticos formais e institucionalizados.
Para tal politização, a figura de homens-pais como cuidadores e como vítimas de uma sociedade “misândrica” e “matriarcal” é um recurso central, que reorganiza (ao menos discursivamente) os símbolos de cuidado/violência na conformação do gênero. Apesar disso, a incorporação do cuidado à figura paterna e sua centralidade na formação dos homens-pais e sua legitimação política não impõe que atributos de uma masculinidade viril e tradicional sejam abandonados. A aproximação dos homens-pais do cuidado não parece ser uma aproximação do feminino — explicitamente rejeitado por esses atores —, mas sim uma masculinização do cuidado. Nesse sentido, o exercício da paternidade defendido por esses homens não opera como um instrumento de desestabilização das relações de gênero, mas como uma forma de recuperar o lugar que os homens teriam perdido com o sucesso do “feminismo”, compreendido por esse grupo como uma “organização criminosa”.
-
Mediações, saberes e práticas: a assessoria técnico-academia na institucionalização de uma política pública LGBTI+ no Estado do Rio de Janeiro.
— Marcela Virgilio Vendramini de Souza, Viviane Mattar Villela Salles
— Marcela Virgilio Vendramini de Souza, Viviane Mattar Villela Salles
Este trabalho tem como objetivo analisar a assessoria técnica-acadêmica, desenvolvida por um núcleo acadêmico da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, como forma de construção de uma política pública estatal, a partir da experiência do Projeto Rio sem LGBTIfobia.
A análise baseia-se no acompanhamento técnico realizado desde 2022, cuja continuidade permite observar processos de produção, formação, monitoramento, unificação de processos de trabalho, bem como, a construção de fluxos institucionais, a fim de institucionalizar uma política pública voltada à garantia de direitos de pessoas LGBTI+.
A partir de uma abordagem antropológica das políticas públicas, o trabalho compreende a assessoria técnica como um dispositivo de mediação entre saberes acadêmicos, gestores públicos e demandas do movimento social. Longe de se limitar a um papel instrumental, essa atuação interfere diretamente na organização do Programa, na definição de procedimentos, na circulação de categorias e na construção de legitimidades, mostrando como a política é feita no dia a dia.
O Programa Estadual Rio sem LGBTIfobia, implementado desde 2010 e articulado à agenda inaugurada pelo Programa Brasil sem Homofobia (2004), constitui uma arena política importante para refletir sobre a longevidade de políticas de direitos em contextos políticos instáveis. O acompanhamento da assessoria técnica revela que a permanência da política não depende apenas de seus marcos normativos, mas de práticas ordinárias de negociações e constantes ajustes, sustentadas por alianças contingentes entre universidade, gestão pública e ativismo.
Ao olhar para o fazer cotidiano do Estado, e não apenas para suas estruturas formais, o trabalho busca evidenciar como como a assessoria técnica é um espaço importante, em que o Estado é produzido na prática e a qual se disputam sentidos de cidadania e de direitos LGBTI+
-
O que o movimento anti-woke estadunidense tem a ver com Diversidade e Transgeneridade no Brasil e na Espanha? A construção de uma perspectiva etnográfica sobre o mundo laboral
— Nina Acacio
— Nina Acacio
Este trabalho tem como objetivo central discutir as influências dos acontecimentos mais recentes, no que se pode entender como uma cruzada “antigênero” e/ou “sexogenérica”, desde uma perspectiva etnográfica comparativa e relacional entre os movimentos anti-woke (e anti-gênero) e conservadores entre os Estados Unidos, Brasil e Espanha e o mercado formal de trabalho. A partir da compreensão de que as raízes dos movimentos conservadores nesses três países tem suas diferenças, busco pensar as similitudes entre esses contextos, como também a capilaridade e reinvenção das pautas e ataques que são constituídos por esses movimentos, no que diz respeito a “eleição” de pessoas trans e travestis enquanto inimigos “públicos” e “em comum”. Utilizo o mundo laboral e as múltiplas movimentações, positivas ou não em torno da diversidade sexual e de gênero, como um campo etnográfico para explorar as relações intricadas e, cada vez mais evidentes e coléricas, entre gênero, política, economia e estado. Desde os eventos corporativos de formento a empregabilidade ao lançamento de estratégias de políticas públicas, é possível pensar na inscrição de uma outra gramática sobre a transgeneridade que perpassa, inevitavelmente, um olhar sobre como se desenham esses avanços frente aos movimentos conservadores e reacionários, e uma onda de retrocessos. Este trabalho, também, tem um carater exploratório no que concerne pensar movimentos políticos e sociais amplos que, a meu ver, convergem em uma discussão necessária sobre o entrelace entre um entendimento sobre o olhar antropológico e uma perspectiva de sociedade a partir da perda/ampliação direitos sociais. De modo geral, busco uma compreensão mais ampla sobre como a “diversidade” (e a transgeneridade) é enquadrada dentro da economia em uma posição cambiante, bem-vista ou não, e o que isso revela sobre como gênero e sexualidade se constituem enquanto um terreno de disputas amplo, multifacetado e que atravessa diferentes horizontes nacionais e políticos.
-
Tem ovelha colorida na família: a categoria família em disputa e sua apropriação pelo Estado
— Paula Esteves Pinto
— Paula Esteves Pinto
A teoria crítica da família problematiza a compreensão dessa instituição como uma entidade natural e universal, evidenciando seu caráter histórico, político e normativo. Autores como Mark Poster demonstram que a família moderna se constitui como uma tecnologia de poder, articulada à formação do Estado e à regulação da vida privada, operando como um dispositivo de produção de subjetividades e controle social. Nesse sentido, a categoria "família" não é apenas descritiva, mas normativa, sendo mobilizada pelo Estado para definir quais formas de convivência são legítimas e dignas de proteção.
No âmbito das políticas públicas, o Estado apropria-se da noção de família como unidade básica de intervenção social, especialmente nas áreas de assistência, saúde e educação. Cynthia Andersen Sarti destaca que, no contexto brasileiro, essa centralidade da família está associada a um modelo moral específico, baseado na heteronormatividade, na divisão sexual do trabalho e na reprodução biológica. Tal modelo orienta o desenho das políticas públicas e estabelece fronteiras simbólicas entre famílias consideradas adequadas e aquelas classificadas como disfuncionais ou desviantes.
Para Marília Moschcovich, a família moderna é estruturada por um regime de gênero que pressupõe coerência entre sexo atribuído ao nascimento, identidade de gênero e papéis sociais. Esse regime define a cisgeneridade como norma legítima, enquanto as transgeneridades são frequentemente interpretadas como rupturas da ordem familiar. Assim, pessoas trans vivenciam práticas de controle e disciplinamento, como a negação do nome social e a imposição de expectativas baseadas no gênero atribuído, revelando que os conflitos familiares derivam da rigidez normativa, e não da identidade trans em si. A autora critica a idealização da família como espaço necessariamente protetivo. Para muitas pessoas trans, a família de origem pode se tornar um ambiente de violência simbólica ou material, levando à construção de redes alternativas de cuidado, denominadas famílias escolhidas. Esses arranjos desafiam o modelo tradicional de parentesco ao se basearem em afinidade e reconhecimento, ampliando as possibilidades de organização familiar ao mesmo tempo em que pessoas transgênero são frequentemente deslegitimadas tanto em suas famílias de origem quanto nas políticas estatais.
Dessa forma, o Estado atua como mediador da convivialidade social, definindo quem pode acessar direitos, cuidados e reconhecimento a partir de um ideal normativo de família, revelando que essa mediação não é neutra, mas atravessada por relações de poder que produzem exclusões sistemáticas.
-
Pela reparação e bem viver: o direito a justiça reprodutiva de mulheres negras.
— Priscilla Pereira dos Santos
— Priscilla Pereira dos Santos
Este trabalho busca examinar os direitos reprodutivos de mulheres negras no contexto nacional brasileiro. Para tanto, irá explorar temas como o racismo institucional e a violência obstétrica, colocados em pauta no manifesto sobre direitos reprodutivos elaborado pelo "Comitê Impulsor Nacional Feminista e Antirracista por Justiça Reprodutiva", ligado a Marcha das Mulheres negras ocorrida no dia 25 de novembro de 2025 em Brasília. Sendo assim, a abordagem aqui trazida perpassa desde a mobilização da Marcha, a luta por direitos reprodutivos de mulheres negras, e consequentemente pelo cenário político e instituições de saúde, olhando para a (sub)representação de mulheres negras nesses espaços e os efeitos produtores dessa exclusão orientados pela raça e gênero.
Coordenação
Ramon Pereira dos Reis (UEPA)
Roberto Marques (URCA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Milton Ribeiro (UEPA)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Dediane Souza (UFRN)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Isadora Lins França (UNICAMP)
A aproximação entre antropologia e estudos urbanos no Brasil tem ressaltado a relevância das noções de território e territorialidades nos processos de constituição dos espaços, na produção de sujeitos, suas interações e relações. A articulação com as temáticas de gênero, sexualidade, raça e localização social evidencia como processos de produção citadina correspondem a marcações sociais heterogêneas, em que dinâmicas sociais locais de ocupação dos territórios produzem ranhuras, traduzindo-se por vezes em “periferias” e “centros”, facilitando ou impossibilitando fluxos e circulações, perfazendo mobilidades e zonas fronteiriças. A descrição dessas dinâmicas evidencia manejos, burlas e agenciamentos de diferentes sujeitos, a partir de marcadores específicos, demonstrando relações de pertencimento, denegação e, quem sabe, confluências. Nesse sentido, a co-produção de marcadores de gênero, sexualidade, raça e localização social em diferentes escalas é constituinte dos três eixos que norteiam o GT: as espacialidades, mobilidades e territorialidades. O nosso objetivo é receber trabalhos que aproximem os debates sobre cidades e marcadores sociais da diferença na tentativa de refinar reflexões teóricas e empíricas que nos auxiliem a questionar estatutos citadinos em relação à produção de diferenças e desigualdades, complexificando modos de ser/estar nas cidades desde a proposição de reflexões sobre pertencimento e uso democrático do espaço público.
Títulos e Resumos
-
Gênero e Sexualidade: uma análise sob pesrpectivas sociocultural, Guiné-Bissau
— António João Franco, Marianna Agnes de Almeida Soares
— António João Franco, Marianna Agnes de Almeida Soares
O presente artigo analisa a relevância da identidade de gênero e da sexualidade no contexto sociocultural da Guiné-Bissau, discutindo suas implicações nas relações de poder e nas dimensões físicas e emocionais dos sujeitos. Parte-se do pressuposto de que as construções sociais de gênero e sexualidade no país estão fortemente ancoradas em perspectivas conservadoras, que produzem hierarquias e desigualdades de status entre homens e mulheres, bem como a marginalização de identidades dissidentes. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa, com base em revisão bibliográfica e análise crítica de referenciais teóricos sobre gênero, sexualidade e cultura, articulados ao contexto guineense. Os resultados esperados indicam que as categorias de gênero e sexualidade não podem ser compreendidas apenas a partir de classificações biológicas ou normativas, mas como construções sociais dinâmicas, atravessadas por fatores históricos, culturais e políticos. O estudo contribui para a desmistificação de concepções preconceituosas e para o fortalecimento do debate sobre diversidade e direitos humanos em contextos africanos contemporâneos.
Palavras-chave: Identidade de gênero; Sexualidade; Poder; Contexto sociocultural; Guiné-Bissau.
-
GÊNERO E RESISTÊNCIA: Identidade Das Mulheres Bideiras No Mercado Da Guiné-Bissau
— Calado Sanhá
— Calado Sanhá
O presente trabalho busca valorizar as resistências e identidades das mulheres guineenses no processos socioeconômicos da Guiné-Bissau, com destaque, as mulheres Bideiras (vendedoras) no mercado informal da Guiné-Bissau. O mercado informal guineense, como sendo um espaço relevante onde as resistências e sobrevivências no qual as mulheres, em especial as Bideiras, tomam de frente tornando-se comerciantes, produtoras e até chefes da família. Embora elas deparam e frequentam várias desafios, tanto como estereótipos de classe, assim como desigualdade de gênero, onde o jeito tradicional de pensar e viver na Guiné-Bissau criou uma cultura em que o homem e a mulher não têm o mesmo poder, e coloca a mulher na posição que ela se encontra (subalterna). Essas mulheres no mercado informal, elas se tornam símbolos da resistências econômica do país, e suas identidades são moldadas pelas lutas diárias. Mas mesmo assim, essas Bideiras continuam resistindo, articulando suas resistência cotidiana, lutando por seus direitos de igualdade na sociedade guineense.
-
As diferentes formas de "fazer família" nas e a partir das ruas: parentesco situacional, cuidado e pertencimento entre mulheres trans e travestis em contextos de prostituição
— Emilly Costa Carvalho Souza
— Emilly Costa Carvalho Souza
Este trabalho analisa as formas de parentesco, cuidado e pertencimento produzidas por mulheres trans e travestis em contextos urbanos marcados pela prostituição, tomando a rua como território central de produção de relações sociais. A partir de uma etnografia realizada nas ruas, examina-se como gênero, sexualidade e localização social se articulam na constituição de espacialidades específicas, nas quais essas mulheres constroem redes de apoio que desafiam modelos hegemônicos de família, pertencimento e uso legítimo do espaço urbano.
O afastamento, frequentemente violento das famílias de origem e a experiência reiterada de exclusão em outros territórios da cidade tornam a rua um espaço ambíguo: simultaneamente marcado pela precarização e pela possibilidade de existência. É nesse contexto que emergem formas situadas de parentesco, baseadas na convivência cotidiana, no risco compartilhado, na reciprocidade moral e nas práticas de cuidado. Categorias como “mãe”, “irmã” e “filha” são acionadas como um idioma relacional que organiza obrigações, expectativas e formas concretas de proteção, configurando o que denomino parentesco situacional.
Dialogando com os estudos contemporâneos do parentesco (SAHLINS, 2013; CARSTEN, 2014), argumento que esses vínculos não se fundamentam em uma substância biológica ou genealógica, mas produzem sua própria substância relacional no próprio ato de se atualizar. O texto distingue analiticamente a ideia de “parentesco nas ruas”, cuja intensidade está diretamente ligada ao território e às práticas ali compartilhadas, e um “parentesco a partir das ruas”, quando esses laços transbordam para outros espaços da cidade, como a casa, sem que isso implique hierarquizar tais formas de relação.
A rua, longe de ser apenas cenário de marginalização, aparece como território ativo de produção de sujeitos, pertencimentos e agenciamentos. Nela se configuram espacialidades específicas que tanto evidenciam processos de denegação quanto possibilitam a construção de zonas de proteção, circulação e reconhecimento mútuo. O cuidado, nesse contexto, emerge como prática central e politicamente significativa, funcionando como resposta à promessa de cuidado rompida pelas instituições familiares e estatais.
Ao articular gênero, sexualidade e localização social, o artigo contribui para os debates sobre cidade e marcadores sociais da diferença, demonstrando como mulheres trans e travestis produzem modos próprios de ser/estar na cidade, tensionando fronteiras entre centro e margem e reivindicando, na prática, formas de pertencimento e uso do espaço urbano.
-
"Tatuagem de piranha": o que isso quer dizer sobre raça, classe, gênero e corpo na sociedade brasileira
— Flávia Cunha da Silva
— Flávia Cunha da Silva
A tatuagem tem sido amplamente analisada na antropologia contemporânea a partir de suas relações com processos de subjetivação e construção de identidades nas cidades (OSÓRIO, 2005). No entanto, a tatuagem ainda é pouco explorada sob as formas pelas quais os sistemas de poder, especialmente aqueles articulados a branquitude (BENTO, 2002), as atuais crescentes ondas conservadoras e liberais, atravessam os processos envolvidos no processo de tatuar-se. Considerando o corpo como um território em constante disputa, este trabalho analisa a categoria êmica “tatuagem de piranha”. Essa categoria foi identificada durante trabalho de campo realizado em um estúdio de tatuagem na cidade de Niterói/RJ, na zona sul, entre 2016 e 2017, para compreender os limites morais, éticos, subjetivos e estéticos, impostos à autonomia corporal feminina. A partir de treze entrevistas em profundidade, observação participante e a confecção de uma etnografia com mulheres jovens, brancas, de classe média, com formação universitária e com pelo menos uma tatuagem, examino como a categoria “tatuagem de piranha” opera simultaneamente como acusação racializada, generificada e periferizada, atuando como imagem de controle (COLLINS, 2019) e parâmetro de distinção estética. Argumento que a rejeição à “tatuagem de piranha” por parte das entrevistadas revela não apenas normas de gênero e sexualidade, mas também hierarquias de gosto atravessadas pela branquitude, nas quais a busca por diferenciação estética se articula à produção de respeitabilidade e superioridade racial, simbólica e material. O artigo contribui para o debate sobre corpo e subjetividade, moralidade, estética, ética e interseccionalidade, ao evidenciar como a tatuagem se constitui como um campo privilegiado de negociação entre desejo de singularização e regimes normativos de feminilidade.
-
O outro lado do "sonho europeu" de um escort brasileiro em uma cidade brasileira não autorreferente
— Guilherme Rodrigues Passamani
— Guilherme Rodrigues Passamani
A presente proposta é o desdobramento de uma pesquisa realizada na Europa e no Brasil sobre o trabalho sexual de homens brasileiros em Portugal entre 2020 e 2023. Aqui, se analisa a trajetória de Matheuzinho, um jovem de Ipatinga (MG) que, após uma experiência traumática de migração e trabalho sexual na Europa, retorna ao Brasil. O debate central gira em torno do conceito de cidades não autorreferentes, utilizando Ipatinga e Governador Valadares como cenários para compreender como dissidências sexuais e práticas globais são reconfiguradas em regiões “periféricas”. Diferente das cidades autorreferentes, que projetam uma identidade singular e simbólica baseada em sua própria história e cultura, as cidades não autorreferentes são pensadas como alteridades. Elas não se tornam símbolos de si mesmas, mas são atravessadas por fluxos externos que moldam suas aspirações. No Vale do Aço, essa característica manifesta-se na "vocação migratória". O horizonte de sucesso está depositado no exterior, tornando o "lá" o referencial de modernidade, enquanto o "aqui" é percebido como um espaço de precariedade ou vigilância moral. A é mostrar, a partir da pesquisa etnográfica. que as dissidências sexuais nessas periferias não são meras reproduções passivas de modelos centrais. Ao retornar, Matheuzinho e seus pares introduzem as sex parties e o chemsex no cotidiano de bairros populares. Os eventos podem ser percebidos como uma reinvenção do que ocorria na Europa, hibridizando o "sonho europeu" com a cultura local. Nesse cenário, emerge a figura do "vileiro" como um corpo dissidente e sexotizado. O debate sobre cidades não autorreferentes ganha profundidade ao observar o encontro entre os "mauricinhos" do centro e os "vileiros" da periferia. Opera-se aqui o conceito de sexotic: uma intersecção entre sexualização e exotização onde o corpo periférico (negro, musculoso, "mavambo") é desejado justamente por sua alteridade e perigo presumido. Para os “mauricinhos” dessas cidades mineiras, o “vileiro” encarna o "brasileiro autêntico" — um fetiche construído por permanências coloniais que hierarquizam sujeitos e lugares. Cidades não autorreferentes como Ipatinga e Governador Valadares mostram como dissidências sexuais, ao agenciar o "negócio do desejo" e importar lógicas transnacionais, desafiam a imagem de cidades pacatas e revelam como a “periferia” ressignifica a modernidade global sob suas próprias bases morais e econômicas. O retorno migratório, portanto, não é um fim, mas um motor de transformações nas subjetividades e nas formas de prazer nesse interior do Brasil. A precariedade do retorno não anula a agência desses sujeitos, que profissionalizam o prazer e reconfiguram as hierarquias locais através de práticas aprendidas no trânsito global.
-
Memória bissexual no Brasil: negociando registros históricos e roteiros urbanos
— Inácio Saldanha
— Inácio Saldanha
Nos últimos anos, desenvolveu-se no Brasil e em outros países latino-americanos o que vem sendo percebido como um campo da memória e do patrimônio LGBTQIA+. Na forma de redes, arquivos e museus, diversos atores vêm se dedicando à produção de narrativas históricas e ao reconhecimento de práticas e territórios. Em relação a uma população constituída por múltiplas identidades, essa experiência está repleta de disputas por visibilidade. Neste trabalho, pretendo contribuir para esse debate a partir de uma reflexão antropológica sobre os procedimentos metodológicos de produção discursiva da memória e do patrimônio LGBTQIA+. Tomo como ponto de partida a categoria “bissexual”, caracterizada pela ausência de espaços e territórios em separado e pela abertura classificatória à qual está relacionada. A partir de observação participante, analiso dois episódios em que as disputas, as diferenças sociais e as metodologias se expressaram coletivamente na elaboração de um “passado”: (1) a curadoria da exposição “Memória Bissexual no Brasil”, durante o I Encontro Nacional do Movimento Bissexual Brasileiro em Brasília, em 2023; e (2) a concepção e realização do “Rolezinho LGBTQIA+: Desvendando a História da Bissexualidade” pelo Museu da Diversidade Sexual em São Paulo, em 2024 e 2025. Argumento que as negociações entre ativismo e pesquisa têm um ponto de especial tensão no “essencialismo estratégico”, mas que os atores envolvidos em ambas as modalidades podem ceder a depender do público, da ocasião e dos efeitos políticos esperados.
-
"Movimento Junino sem corpo LGBT, não é movimento Junino": Corpos LGBTQIAPN+ nas juninas de Tocantinópolis-TO
— Larissa Alves dos Santos Lima
— Larissa Alves dos Santos Lima
A presente pesquisa, intitulada Movimento Junino sem corpo LGBT, não é movimento Junino: Corpos LGBTQIAPN+ nas juninas de Tocantinópolis-TO, é resultado da minha pesquisa de mestrado que teve seu início em março de 2025 e encontra-se em andamento. A cidade de Tocantinópolis-TO, é uma cidade que possui 22 mil habitantes, localizada ao norte do estado do Tocantins na mesorregião conhecida como Bico do Papagaio, e integra a Amazônia legal. As Juninas, dentro do município de Tocantinópolis, é um patrimônio cultural, e uma tradição que ocorre desde 1980 e traz movimento, significações, memórias e histórias. Os procedimentos metodológicos conduzidos por meio de trabalho de campo etnográfico, com observação participante nas quadrilhas juninas e nos eventos relacionados à etapa junina da cidade, abrange ensaios, apresentações e a documentação produzida sobre as dinâmicas dessas festas. O objetivo da pesquisa é compreender como corpos dissidentes se inserem, expressam e ressignificam sua presença nas festas juninas de Tocantinópolis-TO, analisando as relações entre performance, raça, gênero, sexualidade e espaço urbano. A importância deste estudo está em compreender como esses corpos se fazem presentes e são significados nesses espaços festivos, iluminando as tensões e as potências das relações para além de gênero, sexualidade e raça a corpo e território. A investigação contribui para o campo da Antropologia Urbana ao analisar as festas juninas não apenas como manifestações culturais, mas como circuitos de sociabilidade que articulam dimensões simbólicas, afetivas e políticas, mostrando modos plurais de ocupar os espaços de disputa e produzir novos modos de vivenciar os lugares e também pela necessidade de reconhecer e valorizar a presença de corpos dissidentes nos espaços públicos e culturais, sobretudo em cidades interioranas, onde ainda prevalecem discursos excludentes e heteronormativos. A pesquisa conta com aporte teórico de autores como Gontijo, Pelúcio, Damásio, Magnani, Velho, Butler, Preciado, Vigoya, Pinho, dentre outros para ajudar a pensar esses entrelaces entre cidade, raça, gênero e sexualidade.
-
"Não, não sou daqui": Reflexões etnográficas sobre lugar de origem, interior e processos migratórios de jovens interioranos, LGBTQI+, negros em Natal-RN.
— Lucas do Nascimento Santos
— Lucas do Nascimento Santos
A presente proposta é um fragmento da minha pesquisa de doutorado, em desenvolvimento, onde busco compreender como marcadores sociais de gênero, sexualidade, raça, território e geração se relacionam e influenciam os processos migratórios dos meus interlocutores: jovens interioranos, negros, LGBTQI+ que migraram para Natal, capital do Rio Grande do Norte. Neste texto, parto das trajetórias e narrativas dos meus interlocutores para explorar como os lugares de origem são descritos e imaginados por esses sujeitos. Assim, acompanhando os processos de subjetivação, me deparo com formas complexas de imaginar e reelaborar os lugares de origem, suas cidades e seus interiores. Indo de encontro a narrativas que insistem em reduzir os interiores do nordeste apenas a espaços de negação e expulsão para dissidentes de gênero e sexualidade, o que tenho encontrado nas experiências desses jovens são formas de reivindicar e disputar esses lugares, reelaborando relações com pessoas, família, amigos, vizinhos, e espaços como a casa, a rua e outras paisagens. Com esse movimento, é possível imaginar projetos de retorno ao interior, que não se limitam aos deslocamentos físicos de seus corpos. Concluo que, a mudança para Natal-RN possibilita uma série de experiências que modificam sujeitos e subjetividades, tornando possível também traçar novos imaginários sobre os lugares de origem. Através das memórias e emoções, outras perspectivas sobre o "interior" são desenhadas, atravessadas por noções de pertencimento e orgulho que constituem a identidade desses sujeitos, reivindicando seus territórios. A mudança excede os processos migratórios e passa também a produzir espaços, através da etnografia se torna possível compreender outras dinâmicas envolvendo a capital, os interiores, os fluxos e os movimentos que são atravessados por questões de gênero e sexualidade. Com isto, tento ressaltar que o caminho entre interior e capital não é marcado apenas pela saída, mas também pela construção das possibilidades de retorno.
-
Transnecropolítica e Morte Estatística: Cartografias da Violência e Territorialidades de Travestis e Mulheres Transexuais em Mato Grosso
— Luís Antonio Bitante Fernandes
— Luís Antonio Bitante Fernandes
A presente proposta discute as dinâmicas de produção de diferenças e desigualdades urbanas em Mato Grosso, tomando como referência o projeto de mapeamento estatístico e sociodemográfico da violência contra travestis e mulheres transexuais. A partir da articulação entre a perspectiva Decolonial e o conceito de Transnecropolítica, a investigação analisa como a violência letal e cotidiana opera como um mecanismo de marcação territorial, segregando esses corpos em "zonas de morte" ou invisibilidade institucional.
O estudo utiliza uma metodologia de triangulação de dados entre registros oficiais do Estado (GECCH/MT e DATASUS) e dossiês da sociedade civil (ANTRA), buscando evidenciar o que denominamos de "morte estatística": a omissão deliberada do Estado no registro de marcadores de gênero e sexualidade, o que aprofunda a precariedade das existências trans em contextos periféricos.
Sob a ótica das territorialidades e mobilidades, argumenta-se que a violência não é apenas um evento físico, mas um componente constituinte da espacialidade citadina que delimita onde esses sujeitos podem ou não circular, produzindo ranhuras entre centros e periferias simbólicas e materiais. Ao georreferenciar "hotspots" de violência por meio de ferramentas como o QGIS, o projeto pretende revelar como as estruturas coloniais de poder se materializam no espaço público, transformando o uso democrático da cidade em uma barreira de exclusão sistemática para a população travesti, sobretudo aquela atravessada pela raça e classe. Os resultados preliminares apontam que a gestão do espaço urbano em Mato Grosso, aliada à subnotificação institucional, reforça a manutenção de uma matriz colonial de gênero que interdita o pertencimento e a cidadania plena dessas populações.
-
Cartografias da resistência: memória LGBTQIAPN+ e direito à cidade em Belém (PA).
— Ramon Pereira dos Reis, Nicolas Ravi Tourinho Cruz Filomeno, Thiago Cabral da Silva, Iran Santos Da Conceição
— Ramon Pereira dos Reis, Nicolas Ravi Tourinho Cruz Filomeno, Thiago Cabral da Silva, Iran Santos Da Conceição
A pesquisa analisa a produção do espaço público urbano a partir de uma ação de extensão relacionada à memória LGBTQIAPN+ e o direito à cidade, em Belém (PA). O objetivo da atividade diz respeito à problematização da cidade como um território constituído por disputas simbólicas e materiais que definem, por exemplo, quais memórias serão contadas, quais espaços serão ocupados e quais acessos serão privilegiados, criando mecanismos de exclusão definidos por relações de poder (Lefebvre, 1968). Com efeito, o projeto Cartografias da resistência propôs formas de ser/estar na cidade com base na produção de uma cartografia afetiva e social das memórias de acolhimento, sociabilidade e (in)segurança vivenciadas por sujeitos LGBTQIAPN+. Tratou-se não apenas de uma estratégia de afirmação identitária, mas de uma ação política voltada à construção de um memorial imaterial do movimento LGBTQIAPN+, reconhecendo a necessidade de “hackear” a cidade ao rastrear espaços invisibilizados e/ou negados a corpos dissidentes através da arte-educação e da pedagogia freireana. Realizamos encontros semanais em espaços centrais e periféricos da cidade - Espaço Marielle Franco (bairro do Marco) e Ponto de Cultura Rompe-Mato e Jarina (bairro do Jurunas), respectivamente -, em outubro de 2025, com dez pessoas de diversas gerações e identidades, que dialogaram conosco observando a cidade através da feitura de mapas afetivos, relatos sobre pertencimento e análises fílmicas. Tamanha investida nos conduziu para a reflexão de que a cidade deve ser pensada com e para as pessoas, na esteira das contribuições de Joice Berth (2025), e não subordinada exclusivamente à lógica urbano-industrial. Ao observarmos atentamente a experiência LGBTQIAPN+ na cidade de Belém a partir das pesquisas de Milton Ribeiro (2012) e Ramon Reis (2012), tais processos desvelam a produção de violências e apagamentos históricos. Ao serem vigiados e normalizados, sujeitos e corpos dissidentes são impactados diretamente por um apagamento simbólico que transforma a cidade em objeto de consumo cultural, e não em espaço vivido. Somado a isso, destacamos a negligência dos gestores municipais em relação à pauta do envelhecimento LGBTQIAPN+, aspecto decisivo na organização da memória coletiva em períodos de repressão e resistência, fundamental, inclusive, para a compreensão da história do movimento LGBTQIAPN+ pelas novas gerações. Ressaltamos, portanto, a importância de ações construídas pelos próprios sujeitos dissidentes, pois o direito à cidade se torna uma realidade quando todos os corpos e memórias ocupam o espaço urbano sem exceção, não apenas como palco ou objeto e sim como mediadores na feitura das cidades, sobretudo na Amazônia que ainda é imaginada sob a alcunha de região não urbanizada.
-
Produção científica sobre pessoas trans e bissexuais: relações com a política e regionalidade (Brasil, 1970-2023)
— Regina Facchini, Clarice Santana, Nick Nagari
— Regina Facchini, Clarice Santana, Nick Nagari
Gênero e sexualidade têm se mostrado categorias centrais em disputas acerca da experiência democrática, sendo frequentemente acionadas em cenários morais, políticos e jurídicos; se expressando também em conflitos sociais marcados por raça, classe, geração e territorialidade. Além disso, constituem um campo interdisciplinar de estudos, presente em todas as áreas do conhecimento, com maior densidade nas Ciências Sociais. Após contínua diversificação teórica e expansão disciplinar e regional, tais estudos foram alvejados por fatores como a exploração político-midiática da noção de "ideologia de gênero".
A apresentação é parte de pesquisa que tematiza relações entre ciência, produção e circulação de conhecimento, políticas públicas e contextos políticos e focaliza a produção de conhecimento brasileira sobre bissexualidades e transgeneridades. Articula métodos qualitativos e quantitativos, incluindo levantamento e revisão de literatura em bases bibliográficas - Google Acadêmico, SciELO e CAPES. Os resultados serão cotejados com dados do próprio projeto mais amplo e com literatura sobre ativismos e produção acadêmica sobre bissexualidades e transgeneridades. O foco analítico são as possíveis alterações na quantidade e na distribuição regional e disciplinar dos estudos ao longo do tempo, considerando a co-produção de gênero, sexualidade e territorialidades no que concerne à produção e circulação do conhecimento.
Os resultados indicam que tanto estudos sobre bissexualidades como sobre transgeneridades crescem no período de intensificação neoconservadora e durante a pandemia de covid-19, embora as mudanças na produção remetam a diferentes aspectos: estudos sobre trans estão relacionados a marcos na conquistas de direitos, enquanto os sobre bissexualidade dialogam com acontecimentos em processos políticos do ativismo. Em relação à distribuição regional, a região Sudeste possui quase metade dos trabalhos registrados, refletindo a distribuição de grupos de pesquisa e Programas de pós-graduação no país. Nos estudos sobre bissexualidade, a região Sul se destaca em segundo lugar, enquanto nos estudos trans essa posição fica com o Nordeste, refletindo a distribuição de grupos de pesquisa e pesquisadores dedicados aos temas. Na distribuição disciplinar, as Ciências Humanas se sobressaem, sendo responsáveis pela elaboração de referencial teórico sobre ambos os recortes. Destacam-se as Ciências da Saúde, campo de intervenção mais direta sobre as condições de vida.
-
Produção do espaço urbano a partir de processos de mobilidade: gênero, sexualidade geração e nacionalidade em Ressano Garcia, cidade-fronteira moçambicana.
— Yssyssay Divina Rodrigues
— Yssyssay Divina Rodrigues
Este trabalho apresenta resultados preliminares de pesquisa etnográfica realizada entre junho e agosto de 2025 em Ressano Garcia, Distrito de Moamba, sul de Moçambique, na fronteira com a África do Sul.
Inicialmente pensada como espaço complementar para análise em minha pesquisa de doutorado, que discute raça e gênero em contextos migratórios em Moçambique e Portugal, Ressano-Garcia revelou-se um espaço fronteiriço que demandaria maior aprofundamento, dadas suas dinâmicas sociais organizadas a partir de marcadores como gênero, sexualidade, geração e nacionalidade, e produzidas por processos de mobilidade.
A partir de observação participante e entrevistas com trabalhadoras humanitárias, missionárias, população local e população em trânsito, a pesquisa evidencia usos do espaço e relações de poder a partir da interação entre grupos sociais diversos.
O principal deles é o das "crianças migrantes". Com idades a partir dos dez anos e oriundas de várias regiões do país, seus projetos migratórios em direção à África do Sul acabam interrompidos na fronteira, de modo que sua permanência ali passa a se organizar a partir de uma divisão do trabalho em que os meninos são explorados por meio da venda de castanhas na estrada e o as meninas por meio de trabalho sexual - ambos mediados, em sua maioria, por mulheres moçambicanas adultas que chefiam casas conhecidas por abrigar essas crianças.
Outro grupo fundamental na dinâmica cotidiana da cidade é composto pelas mulheres que se deslocam diariamente de Maputo à África do Sul para compra e revenda de mercadorias. O fluxo dos "chapas", principal meio de transporte coletivo local, organiza o ritmo urbano, produz esperas e disputas, e evidencia hierarquias de circulação atravessadas por gênero, raça, classe e nacionalidade.
Soma-se a esse cenário a presença dos "deportados", majoritariamente homens jovens retornando forçosamente do país vizinho, que ali recebem apoio humanitário e cuja presença provisória na cidade reinscreve a fronteira como espaço de suspensão e precariedade.
Por fim, Ressano-Garcia carrega a marca de acontecimentos importantes na história recente do país, considerando que se destacou como um dos palcos das manifestações pós-eleitorais de 2024, que deixaram cicatrizes materiais inscritas na paisagem urbana, e que a principal estrada de acesso à fronteira vem sendo impactada pelas cheias frequentes, relacionadas às mudanças climáticas.
Ao analisar Ressano-Garcia como cidade-fronteira, portanto, este trabalho evidencia como processos de mobilidade e marcadores sociais produzem usos do espaço e hierarquias de pertencimento, mostrando um espaço constituído por desigualdades e relações de poder específicas, contribuindo com o debate deste GT sobre espacialidades e produção de diferenças.
Coordenação
Igor Rolemberg (UFRRJ)
Nashieli Cecilia Rangel Loera (UNICAMP)
Pessoa debatedora
Maiara Dourado (Oceana)
Igor Rolemberg (UFRRJ)
Nashieli Cecilia Rangel Loera (UNICAMP)
Este GT é um convite à apresentação de pesquisas que abordem tanto modos não-estatais do “governo da terra” (Loera e Rolemberg, 2025), como também as novas políticas fundiárias, agrícolas e ambientais (de monitoramento, registro, cadastro, discriminação, demarcação, regularização, produção, dentre outras) que têm se transformado bastante nas últimas décadas (em seus métodos, justificações, objetivos, públicos destinatários), não só no Brasil, mas em outros países, e têm recebido pouca atenção etnográfica. Nesse sentido, estimulamos trabalhos voltados para as diversas tecnologias (biológicas, químicas, satelitais, cartográficas, financeiras, jurídicas, comunicacionais, comunitárias, dentre outras) utilizadas por esses modos de governo (estatais, paraestatais ou contra-estatais) para múltiplos fins: produção, reprodução, predação, proteção. A empreitada dessas pesquisas é ainda mais desafiadora, dado o crescente acaparamento de terras (land grabbing) em curso em diversos biomas e regiões, afetando os “múltiplos regimes camponeses de uso da terra” (Almeida, 2023). Direcionamos também o olhar para terras que estão, em muitos sentidos, na “fronteira” (onde diversos modos de conceber o que seja “terra” se chocam) ou ainda “nas margens”, como as terras-territórios moventes, instáveis, indivisíveis, dificilmente apropriáveis, a exemplo das faixas de areia/praias ou os manguezais.
Títulos e Resumos
-
Fazendo muvuca, fazendo floresta: A Rede Terra do Meio e a circulação de sementes para restauração florestal
— Bruno Campelo Pereira
— Bruno Campelo Pereira
Este trabalho reúne os primeiros apontamentos de uma pesquisa de campo que acompanha etnograficamente iniciativas de restauração florestal a partir do município de Altamira, no sudoeste do Pará. O foco recai sobre a atuação da Rede Terra do Meio, que conecta organizações da sociedade civil a uma malha de associações locais indígenas e ribeirinhas, situadas entre os rios Xingu e Iriri, para a gestão de atividades econômicas que envolvem produtos da sociobiodiversidade. Uma dessas frentes é a cadeia que viabiliza a coleta, o beneficiamento, o armazenamento e a circulação de sementes destinadas à restauração florestal. A infraestrutura dessa cadeia se apoia na distribuição de unidades comunitárias (estruturas locais situadas em algumas comunidades) para o recebimento das sementes coletadas e na Casa de Sementes, em Altamira, onde elas são recebidas, classificadas e armazenadas. Em campo, pude acompanhar uma parte dessas dinâmicas e notar como as sementes atravessam escalas e dispositivos: saem das comunidades, passam pelas unidades locais (as cantinas e os paióis), convergem para a Casa de Sementes e, dali, seguem para áreas em processo de restauração. Nesse circuito, o Instituto Socioambiental (ISA) surge como ator central ao adquirir as sementes da Rede Terra do Meio, viabilizando o pagamento aos coletores, e ao liderar iniciativas de restauração na região. Entre os destinos, destacam-se a Fazenda Juvilândia, na RESEX Rio Iriri, e a comunidade Gabiroto, na RESEX Rio Xingu, onde a restauração vem sendo realizada via muvuca (técnica de plantio que combina, de uma só vez, misturas de sementes nativas para semeadura direta). Neste trabalho, descrevo a organização desse circuito e sigo as sementes como fio condutor para discutir como a muvuca se produz na composição entre diversidades sociais e ecológicas, criando condições para que uma forma específica de restauração possa acontecer.
-
Tecnologias de estado e validação epistêmica: Terras, cartografias e regimes de verdade.
— Byron Ospina Florido
— Byron Ospina Florido
Esta comunicação analisa as tensões epistêmicas entre a memória camponesa e o conhecimento técnico-cartográfico nos processos de demarcação de terras sedimentadas na bacia baixa do rio San Jorge, na Colômbia. A partir de um trabalho etnográfico realizado entre 2018 e 2024 junto a comitês camponeses, examina-se como a memória socioecológica dos ribeirinhos – construída por meio de experiências transgeracionais – é sistematicamente invalidada pelos procedimentos burocráticos da Agência Nacional de Terras (ANT). Interessa-nos problematizar como os processos de validação/invalidação do conhecimento territorial camponês em disputas agrárias revelam como o Estado reproduz relações de poder epistemológico que privilegiam saberes técnicos em detrimento de memórias socioecológicas, mesmo quando ambos operam sob lógicas multitemporais similares.
Sob esta premissa, espera-se problematizar a hierarquização de saberes em contextos de conflitividade agrária, onde camponeses ribeirinhos possuem conhecimento territorial detalhado sobre a transformação de pântanos (ciénagas) em terras cultiváveis, resultado de processos de sedimentação fluvial. Este saber, ainda que validado localmente e fundamentado numa “multitemporalidade experiencial”, é subordinado a dispositivos tecnológicos de georreferenciamento que recriam cientificamente o passado territorial. Este exercício analítico revela como a luta pelas “terras sedimentadas” (“tierras abonadas”) transcende a disputa material entre camponeses e pecuaristas, configurando-se como um campo de batalha epistêmico onde se disputa a legitimidade de quem lembra e quais formas de conhecimento são reconhecidas como válidas para definir direitos territoriais em paisagens dinâmicas e sujeitas a inundações.
-
Economia dos ecossistemas? notas antropológicas sobre os agenciamentos econômicos da terra na Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais
— Ivis Fabiano Chagas Lima
— Ivis Fabiano Chagas Lima
O presente trabalho investiga o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) enquanto um dispositivo de economicização do governo da terra, por meio da qual se institui um modelo diferencial de avaliação, classificação e intervenção que agencia territórios e segmentos sociais em função de sua produtividade para a “economia”. O recorte empírico centra-se no trânsito burocrático da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais, desde o primeiro projeto de lei no Congresso Nacional até sua regulamentação no Poder Executivo. Concebido originalmente como um instrumento de mercado para a gestão ambiental, o PSA opera pela transferência de recursos entre pagadores e provedores de “serviços ambientais”, entendidos como benefícios ecossistêmicos mantidos ou ampliados por práticas humanas de manejo da terra passíveis de valoração econômica. Tal mecanismo é apresentado como um “incentivo” para que proprietários e usuários da terra, em múltiplos regimes de posse e uso, incorporem o valor monetário da natureza em suas decisões de manejo. Ao acompanhar a trajetória da referida política, o trabalho demonstra como o PSA conformou um campo relacional heterogêneo, no qual se articularam agentes desde o grande agronegócio até a agricultura familiar e o extrativismo, operando com diferenciais de poder e de interesses. No âmbito do Estado, disputaram-se princípios de classificação da terra e da economia, mobilizando justificativas morais distintas tanto para a mercantilização de funções ecológicas quanto para a ampliação da noção de economia de modo a abarcar regimes de manejo da terra não-mercantis. A política nacional, sancionada em 2021, instituiu categorias por meio das quais diversas formas de uso e manejo da terra passaram a ser reconhecidas como produtivas, na medida em que mantêm ou ampliam fluxos de matéria e energia considerados relevantes à "economia". Argumenta-se que essa trajetória evidencia a diversidade dos sentidos sociais do que vem sendo chamado de “economia dos ecossistemas” e permite compreender o PSA como um dispositivo de governo no qual a terra é agenciada em um continuum que se estende da dádiva à mercadoria, atravessando diferentes regimes de valor e de propriedade. Ao interrogar a estabilização da terra como provedora de serviços, bem como a plasticidade das categorias constitutivas do PSA — como “serviço”, “produtividade”, “ambiente” e “economia” — o trabalho analisa os efeitos de poder produzidos por sua institucionalização no Brasil frente a demandas distintas e contextualmente articuladas. A análise se fundamenta na pesquisa em arquivos documentais, sonoros e audiviosuais, abrangendo o período de 2007 a 2025.
-
Agenciamentos da terra e práticas de saúde: sustentação da vida no acampamento Marielle Vive (Valinhos, SP)
— Luciana Cavalcanti Alvarez
— Luciana Cavalcanti Alvarez
Este trabalho é fruto de uma pesquisa de mestrado na qual acompanhei, entre 2024 e 2025, práticas de cuidados em saúde desenvolvidas no acampamento Marielle Vive, organizado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em Valinhos, no interior de São Paulo.
A partir de um enfoque etnográfico, busco descrever aspectos da organização e do cotidiano do setor de saúde do acampamento, com atenção às práticas e atividades que envolvem o registro de tarefas, doações, pendências e fichas de saúde das famílias; a gestão da circulação de objetos como medicamentos, alimentos, itens de higiene básica e fitoterápicos produzidos localmente; a mediação com serviços públicos de saúde e assistência social, assim como com médicos e outros profissionais da saúde voluntários; o cuidado com o espaço físico do setor e do acampamento; o acolhimento, atenção e encaminhamento de demandas das pessoas moradoras; além da participação em atividades da militância como reuniões, assembleias e cursos.
Por um lado, mobilizo a ideia de sustentação (Solís, 2019; Solís, Buján e Chauca, 2018; Brage, 2022) como chave analítica para dar conta da amplitude de atividades desempenhadas pelas mulheres do setor de saúde. Essas práticas extrapolam o sentido estrito do cuidado ao âmbito familiar, privado e doméstico, contribuindo de forma fundamental para a reprodução da vida coletiva e para a resistência da ocupação frente a ameaças de despejo, violências diretas e violações de direitos sociais.
Por outro, busco evidenciar como essas práticas de sustentação aparecem misturadas a uma espécie de mimetização do Estado e de seus serviços públicos, como uma forma de diálogo com a linguagem e os mecanismos da burocracia deste ator, compondo aquilo que Sigaud (2000) nomeou de “forma acampamento”.
Proponho considerar as atividades das mulheres do setor de saúde como formas de sustentação que participam do “governo da terra” (Loera e Rolemberg, 2025) em um contexto de demanda por reforma agrária. A multiplicidade de ações descritas contribui para uma concepção alargada de saúde, revelando um “agenciamento” da terra que a articula a uma ideia de saúde popular amparada na perspectiva do cuidado. Desse modo, essas práticas são formas de disputar os usos e sentidos da terra ocupada, assim como estratégias coletivas de organização e permanência no espaço.
-
A produção da verdade fundiária: regularização, tecnologias e disputas territoriais em Roraima
— Marisa Barbosa araujo
— Marisa Barbosa araujo
Este trabalho analisa políticas e tecnologias de “governo da terra” (Loera e Rolemberg, 2025) em Roraima, tomando a regularização fundiária como eixo privilegiado para compreender os processos contemporâneos de produção, predação e proteção de terras-territórios em contextos de fronteira. Proponho examinar o conjunto de normas, dispositivos técnicos e práticas administrativas por meio dos quais a terra é classificada, tornada apropriável e disputada. Argumenta-se que, longe de operar apenas como instrumento de ordenamento e segurança jurídica, a regularização fundiária tem funcionado, em determinadas configurações, como tecnologia central de desapossamento e concentração fundiária, frequentemente legitimada pela legalidade formal. A análise focaliza o caso de Roraima, estado marcado por uma história recente de ocupação, elevada proporção de terras públicas não destinadas, presença de assentamentos da reforma agrária, terras indígenas e unidades de conservação. Nesse cenário, diferentes regimes de concepção e uso da terra entram em choque, configurando um espaço de disputas intensas nas margens do Estado. O artigo examina como tecnologias jurídico-administrativas, tais como leis estaduais de terras, procedimentos de discriminação fundiária, georreferenciamento, sistemas de cadastro, registros e normativas administrativas recentes — têm sido mobilizadas para viabilizar processos de regularização que favorecem dinâmicas de lavagem fundiária. A partir de conflitos fundiários concretos, discute-se o papel de normativas, documentos, medições técnicas, cadastros e decisões judiciais na produção da “verdade fundiária”, evidenciando como a disputa territorial se dá não apenas no plano material, mas também no domínio técnico-burocrático.
-
Políticas de restauração e imaginários sociotécnicos de produção da natureza: o caso do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg)
— Solana Irene Loch Zandonai, Salomão Alves Pereira
— Solana Irene Loch Zandonai, Salomão Alves Pereira
“Recuperação da vegetação nativa”, “renaturalização”, “regeneração”, “reabilitação”, “reflorestamento”... A multiplicidade terminológica em torno da restauração não resulta apenas de uma dificuldade semântica em definir este conceito. Longe de constituir uma resposta neutra à crise ecológica, a restauração se inscreve em complexas redes que articulam ciências, Estados, mercados e populações locais, produzindo efeitos sobre distintos territórios. Por essa razão, o tema também evoca múltiplas disputas sobre o que significa e como recompor ecossistemas; quais formas de vida devem ser priorizadas; e que futuros ambientais devem ser promovidos. Reconhecendo este caráter tecnopolítico da restauração ambiental, objetivamos expor os imaginários sociotécnicos sobre a proteção dos biomas, e como sua estabilização se baseia numa produção específica da natureza a partir da análise do Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg). O Planaveg é uma política pública que sistematiza metas, diretrizes e instrumentos para promover a recuperação da vegetação nativa em todo o território nacional. Originalmente instituído em 2017, a política pública passou por um processo de atualização, para o período 2025–2028, que reconfigurou prioridades e atores envolvidos na formulação e implementação das estratégias de restauração. Interessa compreender como os imaginários sociotécnicos apresentados em ambas versões do Planaveg operam possíveis lógicas promulgadas pelo Estado para agenciar formas de governo, reordenamento, usos e sentidos dos biomas na restauração ecológica. Considerando a impossibilidade de definição da restauração ambiental, esse estudo funciona como uma forma de localizar o Estado na configuração das relações entre Estado, ciência, mercado e comunidades na produção de futuros possíveis para territórios em recomposição.
-
Quando o cultivo vira ativo: da tropicalização da soja à financeirização da agricultura
— Vanessa Parreira Perin
— Vanessa Parreira Perin
As dinâmicas associadas à financeirização da agricultura e da terra no Brasil têm sido amplamente debatidas nos últimos anos em diferentes áreas do conhecimento (Leite 2024; Balestro; Lourenço 2014). Todavia, menor atenção tem sido dedicada aos modos pelos quais a prática agrícola e a terra se tornam, antes de tudo, suscetíveis à financeirização - bem como àquilo que pode escapar a esse processo. Como determinados cultivos passam a ser não apenas mercadorias (commodities), mas ativos (assets) passíveis de captura por uma lógica financeirizada de homogeneização, quantificação e (re)produção de capital? De modo a refletir sobre essa questão, esta comunicação propõe analisar um conjunto de processos tecnopolíticos de criação de valor, centrados no desenvolvimento das condições materiais, institucionais, tecnológicas, jurídicas e de governança que têm possibilitado a transformação da produção agrícola brasileira em ativos financeiros. Partindo, mais especificamente, do advento da "tropicalização" da soja - que permitiu que essa planta de origem asiática se tornasse a principal commodity agrícola cultivada no Brasil - , o foco da análise será uma série de mecanismos de assetização, isto é, de conversão da produção dessa leguminosa em uma "forma ativo": produtos que podem ser possuídos, controlados ou negociados de modo a gerar fluxos constantes e consistentes de rendimentos, armazenados no presente e descontados (com juros) no futuro (Birch; Muniesa 2020).
Coordenação
Júnia Marúsia Trigueiro de Lima (UFCG)
Andrey Cordeiro Ferreira (UFRRJ)
Sessão 1
Pessoa debatedora
José Vicente Mertz (CAPP)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Sebastián Granda Henao (UFGD)
Segundo Clausewitz (2010), “a guerra é a continuação da atividade política por outros meios”. É dessa forma que comumente se pensa a guerra como o epifenômeno, como o conflito armado em larga escala, sendo através da ação bélica que se faz dobrar a vontade de um adversário. Mas desde Clausewitz, a teoria e o fenômeno da Guerra transformaram-se em: guerras irregulares, guerras insurrecionais e populares; guerra irregular de contrainsurgência ou baixa intensidade; guerra ao terror; guerra às drogas; guerras híbridas. Essas são guerras quase invisíveis. Por isso Foucault inverteu a proposição e definiu a política “como a guerra por outros meios”. Um “estado de guerra” se coloca condicionando os sistemas políticos, territórios e culturas: paramilitarismo, narcotráfico, militarização da questão agrária e ambiental. E essa política cotidiana passa a ser, também, a guerra por outros meios; da destruição do tecido social; do desgaste cotidiano, no silenciamento que impacta corpos, coletivos e subjetividades. Todavia, esses sujeitos (povos, territórios, comunidades) não são apenas vítimas passivas do poder. Elas desenvolvem projetos de vida coletiva pela autonomia e construção do comum de forma heterogênea. Convidamos propostas que, a partir desse olhar de um “estado de guerra”, ressaltem resistências frente às violências e ideologias e políticas hegemônicas; que expressem a diversidade dos gêneros e sexualidades, classe, raça e etnicidade, e geografias plurais.
Títulos e Resumos
-
A "Guerra contra os Indesejáveis Urbanos": Entre os jogos de poder e redes de resistência nos mercados populares em São Paulo
— Ana Lídia O. Aguiar
— Ana Lídia O. Aguiar
Os mercados populares de São Paulo, especialmente o centro comercial territorial do Brás, são marcados por intensas dinâmicas de troca e atravessados por conflitos, violências e práticas de vigilância. Neles se articulam disputas complexas de poder e formas de controle, coerção (Tilly, 1996) e extorsão, tanto legais quanto extralegais, envolvendo dispositivos agressivos de extração da riqueza, circulação de mercadorias políticas e na conformação de mercados de proteção. Tais espaços reproduzem, em escala local, as disputas que se dão em âmbito estrutural do Estado. Este trabalho, resultado de reflexões da minha tese de doutorado, investiga as políticas urbanas voltadas ao controle desses mercados analisando medidas administrativas, projetos urbanísticos em parcerias público privadas e o uso crescente da violência policial, mobilizando dispositivos militarizados na produção de uma gestão diferencial dos ilegalismos (Foucault, 1986). Procuro mapear as relações conflituosas entre agentes estatais e os demais atores do mercado popular, em especial os trabalhadores urbanos, a fim de compreender como operam os mecanismos de gestão do espaço urbano e das populações. Aqui as formas de governo se consolidam em um modelo de cidade securo-militar-privatista, onde a política se torna imperativa à "guerra contra os indesejáveis urbanos" na disputa pela riqueza circulante da cidade. Além disso, busco compreender como, em meio a um cenário de pobreza e violência, trabalhadores articulam resistência, smobilizando táticas (Certeau, 2009), recursos de ação e repertórios distintos na conformação de redes sociotécnicas (Latour, 2012) engajadas nas disputas pelo direito ao trabalho e à cidade, contribuindo para a elaboração de epistemologias colaborativas (Weizman, 2017), construindo provas contra o Estado, elaborando outra cartografia política do conflito mesmo diante da "guerra".
Bibliografia
CERTEAU, Michel. A Invenção do Cotidiano. 1. Artes de Fazer. Editora Vozes, Petrópolis, 2009.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e punir: Nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 1986.
LATOUR, Bruno. Reagregando o social: uma introdução à teoria do ator-rede. Salvador: EDUFBA; Bauru: EDUSC, 2012.
TILLY, Charles. Coerção, Capital e Estados Europeus. Editora da Universidade de São Paulo. 1996.
WEIZMAN, Eyal. Forensic Architecture: Violence at the Threshold of Detectability. Nova York:Zone Books,2017.
-
O problema do conjunto: aquilombamento, fuga e outros temas das pessoas livres.
— Bernardo Curvelano Freire
— Bernardo Curvelano Freire
A presente comunicação tem como objetivo encontrar rastros de relação entre diferentes momentos históricos dos povos viventes na caatinga piauiense. Partindo da leitura da tese de Francisco Gleison Monteiro a respeito das pessoas livres pobres da província do Piauí no século XIX, busco rastrear fontes materiais que ecoem entre as histórias e acontecimentos que constituem a trama das formas tradicionais de uso da terra conhecida como terra de conjunto. Conceito presente na bibliografia antropológica desde o estudo seminal de Emilia Pietrafesa de Godoi, a noção de terras de conjunto ajuda a descrever a sociodiversidade de populações camponesas, territórios quilombolas e comunidades tradicionais que fazem do exercício do compartilhamento da terra uma prática de convivência que desafia frequentemente o ordenamento estatal da terra desde seu fundamento. A partir de um trabalho de extensão cuja atuação envolve assessoria técnica justamente no campo da antropologia (antropologia implicada, no caso) envolvendo segurança fundiária, esta comunicação tem como objetivo encontrar os rastros das formas compartilhadas da terra criadas por diferentes comunidades e territórios do sudeste piauiense na historiografia disponível sobre as pessoas livres no contexto ainda escravocrata. Com isso, busco tramar conexões e relações que permitam negociar esta historiografia com os acontecimentos que fazem parte dos territórios da caatinga, tanto na esfera afetiva quanto na esfera produtiva e política, particularmente quando a dialética do Dentro e do Fora se impõe como condição de mediação com atores estatais-governamentais e invasões articuladas por empreendimentos neo-extrativistas. Com isso, pretendo introduzir no cabedal da história social do semiárido uma reflexão atenta ao tema das pessoas livres proposta por GRAEBER & WENGROW como um ponto cego desta mesma história social. É assim que será possível, a partir da introdução de uma história de mais longa duração, compreender o quanto a formação desta estrutura fundiária das terras de conjunto opera como câmara de eco das estratégias de fuga próprias da arte de não ser governado, segundo proposição de James C. Scott, e sua íntima relação ainda ser explorada com o pensamento fugitivo segundo Neil Roberts.
-
Agências outras-que-humanas nas lutas sociais anarco-autonomistas: anarquismo, antropologia e revisão crítica da bibliografia
— Evelyn Raissa Lobão, Evelyn Raissa Lobão
— Evelyn Raissa Lobão, Evelyn Raissa Lobão
Parto da afirmação do campo de ação política anarco-autonomista como um campo analiticamente relevante para a observação e reflexão acerca das agências outras-que-humanas nas lutas políticas orientadas pelo questionamento dos poderes hegemônicos e institucionalizados. Esses núcleos associativos, compostos também por agentes outros que humanos, possuem perspectivas e técnicas de ação específicas, como a crítica da representação, a centralidade da ação direta e a produção de infraestruturas materiais - como ocupações, cozinhas coletivas e figurações políticas diversas - que, sustento, podem contribuir para o debate acerca do chamado antropoceno e das políticas mais-que-humanas.
Neste artigo, proponho uma revisão crítica da bibliografia que tematiza e permite entrever o papel dessas agências nas lutas políticas autonomistas, buscando apurar o olhar etnográfico para o trabalho de campo junto a coletivos anarco-autonomistas de Belo Horizonte, que constituirão o foco empírico da minha dissertação de mestrado.
-
Mãos pequenas: doulas de guerrilha e cuidado além-Estado ao aborto no Brasil.
— Luana Rodrigues de Moraes
— Luana Rodrigues de Moraes
Esta pesquisa é um projeto de mestrado e quer somar-se a uma literatura que nutra imaginários de outros mundos possíveis a partir da etnografia (dos mundos que já existem). Testemunhando uma coletiva feminista de saúde reprodutiva que atua de forma clandestina em regiões que margeiam diversos estados e territórios do país, proponho tensionar a centralidade do Estado na governança da vida, em interlocução com os estudos dos comuns, os feminismos do Sul global e perspectivas abolicionistas. A questão que orienta a investigação é: como a decisão pela interrupção da gestação pode se afirmar como prática legítima?
O projeto, para tal fim, será uma etnografia ligada a uma discussão conceitual (concepcional?) sobre a prática das chamadas doulas de aborto ou doulas de guerrilha. Parte-se do reconhecimento e da recente popularização da doulagem e dos cuidados paliativos — intervenções além-médicas em processos vitais — para estender mesmo olhar ao cuidado abortivo, compreendido como um componente historicamente negado do ciclo reprodutivo de mulheres e outras pessoas que gestam. O cuidado ao aborto é analisado como uma resposta a demandas de autodeterminação ligadas tanto à reprodução da vida em sua dimensão material quanto à produção de sentido da existência, especialmente em contextos marcados por precariedade, estigmatização e violência estatal.
No Brasil, são relativamente conhecidas as figuras das doulas de parto e puerpério, assim como vêm ganhando legitimidade os cuidados paliativos e, de forma mais restrita, a doulagem do fim da vida. Em contraste, a doulagem do aborto permanece amplamente marginalizada, apesar de o Brasil ter uma história intimamente ligada à sua prática, tendo sido o país em que se descobriu o uso abortivo do misoprostol. Essa assimetria na legitimidade entre acompanhamentos de momentos vitais revela hierarquias morais e políticas que regulam quais vidas e quais cuidados são considerados legítimos.
Ao me aliar etnograficamente às doulas de aborto, defendo que elas compõem um amplo horizonte não institucional de cuidado, capaz de reduzir violências e abrir perspectivas para os corpos femininos, especialmente os racializados, no Brasil. A pesquisa busca compreender como essas práticas produzem mais do que o abortamento, como também ontologias dissidentes, concepções acerca do ciclo reprodutivo, comunidade e reprodução da vida. A metodologia adotada é qualitativa, etnográfica, majoritariamente digital. Dado o caráter criminalizado do campo, a pesquisa anonimiza suas interlocutoras e locais de atuação. São ferramentas metodológicas a observação participante, entrevistas semi-estruturadas e análise de materiais digitais (como cartilhas). Complementarmente, uso a ficção especulativa feminista.
-
Rojava: a resistência curda e criação do Confederalismo Democrático, o autogoverno dos povos do Oriente Médio.
— Marina Nobel Pinheiro Maia
— Marina Nobel Pinheiro Maia
No contexto da Primavera Árabe, o governo de Bashar al-Assad da Síria reprimiu fortemente a população, ocasionando uma guerra civil com uma complexidade de atores. A população curda que vive no norte da Síria e integra o maior povo sem Estado Nação do mundo, ao se deparar com o vácuo de poder das forças armadas do governo que deslocou seu poder bélico para as regiões centrais da Síria, ao passo que lutou contra o Estado Islâmico, que atacava a região, instituiu junto a outros povos que vivem na região conhecida como Rojava, um novo paradigma político denominado Confederalismo Democrático. Estes declararam a formação da Administração Autônoma Democrática do Norte e Leste da Síria, cujo sistema legal acorda princípios de descentralização administrativa e política baseados em uma democracia radical; equidade entre homens e mulheres; respeito à pluralidade e à diversidade entre os diferentes povos, etnias e religiões, e práxis ecológica, sugerindo proposições para diversas questões e conflitos latentes no Oriente Médio e no mundo, possibilitando, enquanto objeto para a antropologia, a ampliação de reflexões e léxicos em relação a novos horizontes políticos, econômicos e sociais.
-
Guerra e Economia Política: Reflexões sobre o conflito ontológico, entre o esbulho e a recuperação territorial junto aos Guarani e Kaiowá
— Sebastián Granda Henao
— Sebastián Granda Henao
Este trabalho faz parte de um projeto de pesquisa maior no qual abordo as modalidades de 'guerra por outros meios' nos territórios reivindicados por comunidades tradicionais na América Latina, com foco mais específico nos povos indígenas Guarani e Kaiowá no estado do Mato Grosso do Sul, Brasil.
Neste trabalho analiso os processos de desapropriação, esbulho, grilagem e reterritorialização que historicamente afetam Guaranis e Kaiowás. Nos últimos anos, esses povos têm enfrentado ataques crescentes em seus territórios, devido tanto à especulação financeira, a ação e omissão estatal quanto às dinâmicas de economia neo-extrativista da região, baseada sobretudo nas culturas transgênicas de soja e milho.
Metodologicamente, realizo uma revisão bibliográfica de notícias, denúncias organizacionais e ativistas e artigos acadêmicos especializados para traçar os processos citados acima.
Até o momento pode ser constatada a ocorrência de ataques irregulares e assimétricos por parte das forças policiais e grupos ilegais de segurança privada, que colocam em risco de genocídio a essas comunidades, que estão entre as mais afetadas pela dinâmica do neoextrativismo agroindustrial no Brasil.
A minha reflexão é que este não é apenas um caso de conflito pela posse da terra, mas de conflito ontológico, uma vez que o que está em jogo são os próprios meios e modo de vida. Com base neste caso, analiso as conexões entre a guerra e a economia política global, apontando para as reconfigurações do imperialismo e das práticas coloniais no Sul Global.
Mais do que uma posição decolonial, apresento aqui uma postura crítica às diferentes modalidades em que a guerra é posta nestas territorialidades, afirmando que a colonização ainda é um processo em curso e que a terra está no centro da disputa, como tem ocorrido durante os últimos 500 anos. A terra é o ator relacional que fornece base material para a vida e é, portanto, parte constituinte da comunidade. A guerra e o perfil atual da economia política capitalista globalizada e mercantilizada apresentam-se como as causas da colonização eterna, uma vez que capitalismo/modernidade/colonialidade são faces da mesma configuração política.
-
O ronco surdo das batalhas: as narrativas visuais da vida na Favela do Moinho
— Yamin Ho Renaudeau
— Yamin Ho Renaudeau
A questão social das favelas migrou do foco nos trabalhadores para aqueles considerados marginais nas periferias, tornando-se um debate referente à segurança pública. Essa lógica de segmentação advém de uma governança seletiva que intervém a favor da lógica do capital, produzindo e reproduzindo uma cidade excludente (Feltran, 2014). A reivindicação do direito da população mais pobre de morar no centro é subvertida pelo "estado de guerra", no qual a violência é equiparada à requalificação e à restauração urbana. As imagens que circulam nos grandes veículos de mídia constroem retratos de uma Favela do Moinho tecida pela violência, destruição, drogas, precariedade, desapropriação e despejo. Esse enquadramento controla o que é visível e inteligível como vida, tratando-se de uma captura da narrativa calamitosa imposta pelo Estado (Butler, 2015 e Azoulay, 2024). As repetidas representações formam, no imaginário social, uma ideia de pobreza que se torna intrínseca a essas pessoas, em que "o que é catastrófico não é um evento espetacular, mas o que está acontecendo repetidamente, sem drama, sem ocorrências" (Das, 2024, p.26). Em contraponto, colocam-se os moradores do Moinho como agentes em meio às disputas do poder. O "rumor das batalhas" e o seu "ronco surdo" apontam para conflitos e enfrentamentos que não se limitam aos jogos internos das relações de poder estabelecidas, sobretudo sob as políticas de um "Estado de Guerra" (Foucault, 1987 e Telles, 2015). Neste trabalho, busca-se evidenciar as "forças de baixo" que se manifestam na superfície dos acontecimentos, em sublevações, insubmissões e revoltas, que desafiam as estruturas de poder existentes. Analisa-se o significado da presença da última favela do centro de São Paulo, o que é a vida que habita e faz o Moinho girar. Como vislumbre de uma realidade para além do estado de violência, examinam-se os retratos do perfil do Instagram dos próprios moradores, cujas fotos revelam narrativas visuais da vida que era pujante naquele local. Dessa forma, apresenta-se uma nova versão desses sujeitos que, em conjunto e através da construção do comum (Dardot e Laval, 2017), extraem "chances de vida", reafirmando suas agências na construção de suas próprias narrativas e realidades e tornam a vida, mais vida (Biehl, 2008).
Coordenação
Diogo Raul Zanini (UFRGS)
Guilhermo Aderaldo (UNESP)
Nos anos 1970, as juventudes afrodescentes no Atlântico Negro (Gilroy, 2001) criaram expressões culturais autênticas, influenciadas pelos bailes e sociabilidades culturais negras. Nos EUA, influenciados pelo Sound System Jamaicano, entre outras referências Afro-diaspóricas, surgiu a Cultura Hip Hop e seus Cinco Elementos (Breaking, DJ, Graffiti, MC e o Conhecimento). No Brasil a Cultura Hip Hop se manifestou nos Bailes Blacks e espaços públicos das grandes, médias e pequenas cidades brasileiras. Atualmente a Cultura Hip Hop se transversaliza e se intersecciona com diversas frentes de ação, notadamente as políticas públicas, e pautas sócio-identitárias ligadas à raça, gênero orientação sexual, território, juventudes, entre outras. A Antropologia, em suas diversas áreas, têm analisado a Cultura Hip Hop como um cenário de produção e disputa de espaços de expressão, educação, sociabilidade, arte, cultura, sustentabilidade e cidadania nas ruas, espaços públicos e instituições. Serão acolhidos trabalhos envolvendo estudos etnográficos, bibliográficos, qualitativos e quantitativos, práticas de atuação profissional na academia e para além dela, relacionados aos Cinco Elementos da Cultura Hip Hop (Breaking, DJ, MC, Graffiti, Conhecimento) Slam, batalhas, coletivos, campeonatos, Casas de Hip Hop, Museus do Hip Hop, feiras, exposições, acervos e patrimonialização da Cultura Hip Hop, articulações com o Estado e outros setores e dimensões imersas na sociedade, nas ruas e nas instituições.
Títulos e Resumos
-
A Batalha do Tanque: ressignificação simbólica e apropriação do espaço público em São Gonçalo (RJ)
— Chrystian Melon Marins
— Chrystian Melon Marins
O presente resumo apresenta os resultados parciais do estudo desenvolvido junto à Batalha do Tanque, no município de São Gonçalo(RJ). Fundada em 2011 se tornou uma das maiores batalhas de rimas do estado, ocupando a Praça dos Ex-Combatente, tradicionalmente concebido como espaço monumental marcado por objetos bélicos associados à memória da Segunda Guerra Mundial. Metodologicamente, adotou-se a revisão bibliográfica para construção de uma análise teórica sobre a própria Batalha do Tanque, como também sobre a Praça dos Ex-Combatentes. Em seguida foram realizadas visitas a campo e consultas a acervos de jornais com o objetivo de compreender as diferentes representações e narrativas produzidas acerca do espaço da praça e da roda cultural. Busca-se, analisar as possibilidades de ressignificação da praça e seus objetos a partir da atuação da Batalha do Tanque que atua produzindo novas formas de significados tanto para os objetos quanto para a praça.
-
Corpo, Câmera e Ritual: Uma etnografia "de dentro" das batalhas de Hip Hop Dance no Sul do Brasil.
— Deivid Garcia Viegas, Daniele Borges Bezerra
— Deivid Garcia Viegas, Daniele Borges Bezerra
Neste trabalho, trago um recorte da minha pesquisa de mestrado "Batalhas de Hip Hop Dance no Sul do Brasil: Um contexto ritual?", realizada na UFPel. Aqui, não falo apenas como pesquisador, mas como alguém que vive a dança de dentro. Me coloco como um "dançarino-antropólogo" (MAGNANI, 2002) para investigar se essas competições que rolam no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina podem ser vistas como rituais e o que elas realmente significam para quem está ali, suando e batalhando na roda.
Metodologicamente, este recorte destaca a abordagem de uma etnografia realizada "de perto e de dentro" (MAGNANI, 2002), no qual eu assumi a posição híbrida de "dançarino-antropólogo". Porem o diario de campo não foi suficiente para captar a adrenalina, o olhar, a respiração. Por isso, apostei numa proposta que chamo de "câmera dançante" uma GoPro acoplada ao Meu peitodurante as disputas. Inspirada na antropologia multimodal, essa técnica permitiu registrar não apenas a visualidade, mas a experiência sensorial, a respiração e os "afetos" (FAVRET-SAADA, 2005) que atravessam os corpos na cypher (a roda de dança). O corpo do pesquisador torna-se, assim, suporte de memória e instrumento de análise, acessando uma dimensão da performance que a observação externa tradicional não alcançaria.
Na teoria, uso Victor Turner (1974) para ler a batalha como um "drama social". A cypher é aquele momento de suspensão, um espaço onde a vida lá fora para e a gente entra numa espécie de communitas. E observando isso de perto que "topei" com uma figura central na minha caminhada: o "Vovô Uantpi". Percebi que ele atua como um verdadeiro "griô moderno" (BENJAMIN, 2012). O saber dele não está em livros, mas no corpo e na oralidade. Ele ensina misturando os fundamentos do Hip Hop com a mandinga da capoeira e a ancestralidade, passando o conhecimento adiante como quem partilha algo sagrado, não como quem apenas dá aula.
O ponto alto que trago neste recorte é um paradoxo que "peguei" no campo: nas batalhas, nem sempre ganha quem tem a técnica mais limpa (aquela "técnica corporal" do Mauss (Mauss, 2003). O que a galera respeita mesmo, o que faz o jurado levantar a mão pro seu lado, é a "identidade" e a "entrega". É quando o dançarino esquece tudo e entra num estado de transe, de conexão total com o groove. Ali, percebi que vencer não é só ser o melhor tecnicamente, mas é provar uma verdade do corpo. A batalha, no fim das contas, é um ritual onde a gente afirma quem somos e garante nosso lugar na comunidade.
-
Ilha da magia: Costurando narrativas de liberdade de mulheres negras da cena Hip Hop.
— Diennifer Eloísa Campos Cardozo
— Diennifer Eloísa Campos Cardozo
Esta proposta apresenta uma pesquisa de mestrado em Antropologia Social (UFSC), em fase de desenvolvimento, que investiga as agências e os sentidos de liberdade produzidos por mulheres negras na cena Hip Hop de Florianópolis. A pesquisa busca problematizar a noção de liberdade no contexto da modernidade, utilizando as lentes do Afropessimismo, Antinegritude e Feminismos Negros para analisar como a existência negra é tensionada em uma cidade marcada pelo apagamento histórico de sua população negra. Através de autores como Frank B. Wilderson III, Saidiya Hartman, Denise Ferreira da Silva e Lélia Gonzalez, busca-se compreender como essas mulheres produzem humanidade em um cenário de desumanização estrutural. A etapa empírica, atualmente em curso, envolve a observação participante em eventos como batalhas de rima e pocket shows, além de entrevistas semiestruturadas com agentes da cena local, incluindo artistas e coletivos. Ao centrar a análise nas narrativas dessas mulheres, a pesquisa busca fortalecer a produção de conhecimento antropológico a partir de epistemologias contra-hegemônicas e afro-diaspóricas.
-
O Hip Hop moçambicano e a (re)invenção intercultural da identidade nacional: uma abordagem socioantropofilosófica
— Dulcídio Manuel Albuquerque Cossa
— Dulcídio Manuel Albuquerque Cossa
O objeto deste estudo é o Hip Hop moçambicano, analisado enquanto prática cultural, social e simbólica capaz de produzir e expressar identidades nacionais no contexto da interculturalidade. Parto da problematização do termo "Hip Hop moçambicano" ou "Hip Hop Moz" para refletir sobre sua pertinência enquanto categoria identitária num país marcado pela diversidade etnolinguística, cultural e espiritual.
Objetivo compreender em que medida o Hip Hop pode ser pensado como espaço de intersubjetivação e diálogo intercultural, capaz de articular tradição e modernidade, saberes locais e influências globais, contribuindo para a construção de uma identidade nacional integrativa. Busco situar o Hip Hop no debate mais amplo da filosofia, sociologia e antropologia das sociedades africanas, conforme as propostas de Hountondji (2008), Macamo (2002), Castiano (2010) e Honwana (2002), defendendo a necessidade de pensar as realidades africanas a partir de seus próprios contextos existenciais e cosmo-sentidos, tal como sugerem Oyěwùmí (2021) e Noguera (2019).
A metodologia é de caráter teórico-interpretativo e interdisciplinar, articulando antropologia, filosofia e sociologia. Mobilizo autores africanos e afro-diaspóricos, como Hountondji (2008), Macamo (2002), Castiano (2010), Honwana (2002), Oyěwùmí (2021) e Noguera (2019), para fundamentar as noções de intersubjetivação, interculturalidade, identidade e produção de conhecimento a partir de África. Como suporte analítico, utilizo a interpretação da música "Mintxumu ya Ntumbuluku", de Dingzwayu (2021), tomada como narrativa sociocultural que expressa dimensões centrais do cotidiano moçambicano, como ancestralidade, espiritualidade, gênero, família, religião, vulnerabilidade social e tensões entre tradição e modernidade, em diálogo com a reflexão etnográfica de Cossa (2021).
Os resultados indicam que o Hip Hop, mais do que simples expressão artística, constitui um espaço de produção de saberes e de diálogo intercultural, onde se (re)negociam identidades, valores e sentidos de pertença. Evidencia-se que o Hip Hop Moz opera como prática crítica que articula línguas vernáculas, referências ancestrais, experiências urbanas contemporâneas e problemáticas sociais concretas, contribuindo para a emergência de referências epistêmicas próprias, tal como defendem Hountondji (2008) e Macamo (2002). O estudo sugere que ao falar em Hip Hop moçambicano, mais do que entendê-lo como homogêneo, seria adequado compreendê-lo como "Hip Hop das sociedades moçambicanas", reconhecendo sua natureza plural, híbrida e processual. Assim, o Hip Hop aparece como vetor de construção de uma identidade nacional integrativa, fundada no diálogo intercultural, na valorização da pluridiversidade e na articulação criativa entre o local e o global.
-
Vozes que desafiam: mulheres nas batalhas de rima e o protagonismo na cena hip hop de Goiânia
— Emiliana Pereira dos Santos
— Emiliana Pereira dos Santos
As batalhas de rima representam um espaço central da cena hip hop urbana, funcionando como palco de expressão artística, disputa simbólica e construção de identidades. Em Goiânia, essas batalhas vêm se consolidando como arenas de sociabilidade e produção cultural, nas quais as mulheres desempenham papéis cada vez mais visíveis, desafiando normas de gênero e reivindicando protagonismo em uma tradição historicamente dominada por homens. Este trabalho tem como objetivo analisar a participação feminina nas batalhas de rima da cidade, investigando como elas constroem espaço de resistência, afirmam suas vozes e negociam sua presença na cena local. A pesquisa adota uma abordagem etnográfica, combinando observação participante, registro audiovisual das batalhas e entrevistas semiestruturadas com artistas e participantes. Os resultados preliminares indicam que as mulheres desenvolvem estratégias próprias de performance e engajamento comunitário, reforçando redes de apoio e reconhecimento dentro do hip hop. Este estudo contribui para a reflexão antropológica sobre gênero, cultura urbana e produção de conhecimento popular, destacando a importância de espaços de resistência cultural na formação de identidades plurais.Palavras-chave: hip hop, batalhas de rima, gênero, mulheres, cultura urbana, Goiânia
-
As articulações de mulheres e as ondas do feminismo no Hip Hop
— Harumi Laini Agata da Rocha
— Harumi Laini Agata da Rocha
Este resumo é fruto do meu projeto de pesquisa de mestrando, em que proponho uma análise da articulação de mulheres no Hip Hop, com base na divisão, proposta por Mc Sharylaine no livro “O Projeto Rappers: A primeira casa de hip hop brasileiro” 2023, em três ondas do feminismo, sendo a primeira Femini Rappers (1992), a segunda Minas da Rima (2000) e a terceira Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop (2010). Ao investigar as mobilizações de mulheres, busca-se compreender a relação delas com os debates de gênero e raça, em especial, com o feminismo negro, além de se aprofundar na forma em que se organizavam e se articulavam dentro do movimento Hip Hop a partir dos anos 1990 e de que forma isso reverbera dentro do Hip Hop e na carreira das mulheres ao longo dos anos.
A pesquisa se faz necessária para preencher uma lacuna dentro do Hip Hop Studies em relação ao impacto e contribuições das articulações de mulheres para o movimento Hip Hop. A proposta de Mc Sharylaine em dividir o feminismo do Hip Hop em três ondas não foi antes explorada em mais detalhes, ou seja, este trabalho também contribuirá para um olhar minucioso para: i) o diálogo do Hip Hop com o feminismo negro, ii) as mudanças que aconteceram no movimento a partir das três ondas, iii) como a organização de mulheres já experienciada pelo Hip Hop influenciou a composição e o reconhecimento na cena paulistana hoje, expandindo os saberes feministas, antirracistas e culturais, iv) evidenciar a trajetória de vida de mulheres no Hip Hop e v) como as articulações de mulheres impacta as rappers da cena de hoje, pós 2010.
A metodologia escolhida será a abordagem qualitativa, essa abordagem permite a compreensão da complexidade do contexto a partir da percepção de diferentes sujeitos participantes da cena do Hip Hop, com repertórios e vivências distintas. Os dados da pesquisa serão coletados a partir de: 1) Revisão sistemática de literatura, 2) Análise de materiais audiovisuais como documentários, músicas, filmes e videoclipes de rap e 3) Entrevista semi-estruturada com as lideranças e/ou participantes do Femini Rappers, Minas da Rima e Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop e com outros praticantes de Hip Hop impactados pelas articulações.
Este trabalho dialoga diretamente com o “GT 085 - Hip Hop e Antropologia: Construindo conhecimentos na Cena Social, Acadêmica e Política Brasileira!”, pois aborda a história do Hip Hop a partir da produção das mulheres da cena e de suas articulações políticas e sociais, colocando o movimento Hip Hop em um espaço de letramento, organização, escuta, formação e produção de conhecimento.
Palavras-chave: Hip Hop; feminismo negro; rap; juventude
-
Estudos Hip Hop- contexto e perspectivas
— Jefferson de Assis Fleming, Diogo Raul Zanini
— Jefferson de Assis Fleming, Diogo Raul Zanini
Criado entre 1999- 2002 o Núcleo de Estudos do Movimento Hip Hop na USP- NEM2HH foi um espaço que congregou durante três anos participantes e integrantes da cultura Hip Hop: dançarinos, mc's, grafiteiros externos a universidade e estudantes de graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas de cursos como ciências sociais, história, geografia. Também foi um local de encontro para treinos de dança e debates junto a membros de posses e grupos de rap como a Posse Haussà de São Bernardo do Campo, Nino Brown, Sandrão do grupo de Rap, RZO, além de funcionários da instituição que vinham participar dos debates acerca da temática Hip Hop. Na prática líamos e debatíamos os materiais da época e que tinha sido referenciais nos estudos acadêmicos; A dissertação de Elaine Nunes (1997) defendida na FEUSP, o TCC de Spensy Pimentel na ECA-USP e em seguida o a dissertação e tese do Antropólogo, João Batista Félix na FFLCH-USP.
Dessa forma, a ideia é expor e apresentar uma breve introdução acerca das linhas de pesquisa que compõe a temática Hip Hop dos últimos vinte e cinco anos, produzida todavia, por atores sociais integrantes, membros de grupos e coletivos, hoje, pesquisadores- acadêmicos que por meio da perspectiva, "observador- participante" vem alterando a pretensa "neutralidade científica". Por meio deste pressuposto da alteração do perfil de pesquisadores (as), o objetivo é aprofundar a noção, sujeito- objeto-sujeito enquanto demarcador metodológico na pesquisa. Ainda sim, expor as questões encontradas em campo sobre a temática, e os desafios metodológicos de uma pesquisa implicada, encarnada (Nascimento), 2019) onde a observação- participante, se torna cada vez mais presente no estudos antropológicos, envolvendo em algumas vezes, o engajamento do pesquisador antes, durante ou após a etnografia. Por fim, compreender a contradições e estudar as as estratégias de combate e lutas contra o racismo, o sexismo e outras formas de opressão através destas novas posicionalidades adquirida por meio da inserção dos novos (as) atores do Hip Hop nas instituições acadêmicas, premissa essa pensada por nós já no final dos anos 90 em nossos encontros no NEM2HH.
-
Um bom malandro: adaptabilidade e sociabilidade em eventos de graffiti (DF)
— Lucas Yuri Fernandes Silva
— Lucas Yuri Fernandes Silva
Este trabalho explora a adaptabilidade dos grafiteiro lidando com a população local em eventos de graffiti, como mutirões, festas de hip-hop, aulas de stencil, etc. A partir desta, os grafiteiros conseguem conquistar a confiança da comunidade e pertencer às suas "quebradas", de maneira em que a cultura hip-hop alimenta a vizinhança e vice-versa, além de expandir os usos do espaço urbano por estes artistas. Alinhado à proposta do GT, o objetivo é entender essas redes de sociabilidade e de troca possibilitadas por esses eventos. Por se tratar de eventos onde a população não tem total conhecimento de quem são os grafiteiros, eles podem ser julgados como "pixadores". Desta forma, a ação e intenção dos agentes deve passar confiança e uma troca simbólica entre a liberdade do graffiti e as relações nas periferias de Brasília.
-
Patrimonialização do Hip-Hop a partir do projeto Sementes do Hip-Hop nas Escolas
— Nathan Anderson Menezes Pacheco
— Nathan Anderson Menezes Pacheco
O presente estudo é um desdobramento de pesquisa vinculada ao projeto Sementes do Hip-Hop nas Escolas, implementado em unidades da rede pública da região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. O trabalho propõe uma análise crítica sobre a patrimonialização da cultura Hip-Hop fluminense, buscando compreender como as práticas periféricas e de rua são apropriadas e ressignificadas no encontro com a esfera institucional e regulatória estatal.
A investigação fundamenta-se em marcos legais que institucionalizam essa inserção, destacando-se a Lei Federal nº 10.639/2003, que estabelece o ensino da história e cultura afro-brasileira, e as Leis Estaduais nº 7.837/2018 e 10.180/2023, que, respectivamente, reconhecem o Hip-Hop como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio de Janeiro e instituem o Programa Hip-Hop nas Escolas. Em consonância, esses dispositivos normativos configuram o cenário formal de entrada do Hip-Hop na educação pública.
A metodologia privilegia a imersão etnográfica, por meio de observação participante em oficinas e reuniões, entrevistas semiestruturadas, acompanhamento das interações entre oficineiros, estudantes e agentes escolares e realização de registros fotográficos. Ao considerar a entrada do Hip-Hop nas escolas não apenas como uma concessão estatal, mas como uma estratégia de ocupação de espaços institucionais amparada legalmente, o trabalho revela a agência desses atores como forma de resistência cultural. O objetivo, portanto, é analisar como esses atores manejam as normas educacionais para assegurar a continuidade de seus modos de fazer e saber, consolidando o Hip-Hop como ferramenta de afirmação territorial e política frente às tentativas de neutralização ou captura pedagógica pelo Estado.
Conclui-se que a entrada regulada do Hip-Hop na educação pública e em editais de fomento à cultura, viabilizada pelos recentes marcos legais, consolida a institucionalização como um processo dinâmico, marcado por tensões e ajustes entre o reconhecimento estatal e a necessidade de resguardo da autonomia cultural. Ao articular categorias como raça, classe e território, este estudo contribui para o debate antropológico ao compreender como a patrimonialização incide no cotidiano do movimento Hip-Hop, revelando novas formas de intersecção entre políticas públicas, cultura e educação.
-
Hip Hop na Amazônia: território como ontologia relacional no enfrentamento às mudanças climáticas
— Patrícia Patrocínio
— Patrícia Patrocínio
RESUMO
Esta pesquisa busca investigar o Hip Hop na Amazônia como um campo produtor de conhecimento, compreendendo o território não como cenário ou recurso, mas como uma ontologia relacional que articula cultura, clima e modos de existência. A partir de uma etnografia situada em periferias urbanas de Manaus, o estudo analisa como agentes do Hip Hop mobilizam discursos, práticas estéticas e redes sociotécnicas para reinventar sentidos sobre as mudanças climáticas e atuar na defesa do território amazônico. No trabalho de campo, acompanho situações em que essas redes se tornam visíveis tanto nas periferias quanto em outros circuitos, como exposições em parceria com marcas globais, encontros globais de artivismo, encontros inter-estaduais com comunicadores periféricos, congressos, batalhas e movimentos de rua. Dialogando com a antropologia urbana, os estudos decoloniais, o pensamento indígena e autores como Donna Haraway, Lélia González e Roy Wagner, a pesquisa propõe compreender o Hip Hop amazônida como uma prática cosmopolítica periférica, na qual humanos e não humanos, cidade e floresta, tecnologia e corpo se inter-relacionam na produção de mundos. Ao assumir a posição da pesquisadora como sujeito implicado - uma "ciborgue-pesquisadora" - , o trabalho questiona o ideal de neutralidade científica e afirma o conhecimento situado como fundamento metodológico e ético.
Palavras-chave: Hip Hop; Amazônia; Mudanças climáticas.
-
Batalha do Crematório: História, violência policial e a circulação da economia através do movimento Hip Hop que acontece na Praça Dalcídio Jurandir, bairro da Cremação - periferia de Belém do Pará.
— Rafael Sales Chaves, Luísa Maria Silva Dantas
— Rafael Sales Chaves, Luísa Maria Silva Dantas
A Batalha do Crematório acontece às quartas-feiras na Praça Dalcídio Jurandir, no bairro da Cremação, em Belém. Criada em 2019, a batalha transformou um espaço antes pouco frequentado e associado à violência e ao uso de drogas em um local de lazer e convivência. A praça abriga o antigo forno crematório, inaugurado em 1901, o primeiro da América Latina, responsável pela incineração do lixo da cidade durante o ciclo da borracha, fato que deu origem ao nome do bairro.
As batalhas de rima são competições de improviso entre MCs (Mestre de cerimônia) realizadas majoritariamente em espaços públicos e periféricos. A Batalha do Crematório integra o movimento Hip Hop e tem papel central na ressignificação do território. Por meio da observação e de uma pesquisa quantitativa com moradores do entorno e frequentadores da batalha, esta etnografia busca compreender a importância desse movimento para o bairro da Cremação e seus residentes.
O evento é frequentado majoritariamente por jovens negros. Com a realização da batalha, moradores da Cremação passaram a comercializar produtos como cerveja, cigarros e churrasco, enquanto pessoas de outros bairros encontraram no espaço uma oportunidade para vender trufas, fomentando uma economia pendular. O Hip Hop atua como ferramenta de transformação social, influenciando esses jovens a retomar os estudos e buscar o ingresso no ensino superior, especialmente a partir do contato com MCs acadêmicos.
Apesar de sua relevância social e cultural, a Batalha do Crematório enfrenta entraves constantes, sobretudo a violência e a intimidação policial, frequentemente relatadas por organizadores e frequentadores, configurando um dos principais desafios à continuidade do movimento.
Palavras-chave: Batalha do crematório; Hip Hop; Etnografia urbana; Belém; Amazônia;
-
A cultura hip-hop como linguagem pedagógica: um relato etnográfico no ensino de Sociologia.
— Sabrina Royer Stragliotto Brito
— Sabrina Royer Stragliotto Brito
Este resumo apresenta um relato de experiência de planos de aula ministrados no âmbito do PIBID, desenvolvidos na Escola Dom Infante Henrique, localizada na cidade de Porto Alegre, com turmas de 1º e 3º anos do Ensino Médio, sob orientação da professora e socióloga Amanda Machado. A experiência parte do entendimento de que os cinco elementos da cultura hip-hop constituem ferramentas potentes para a aproximação dos jovens com a cultura popular, atuando também como um "óculos sociológico" que possibilita aos estudantes perceberem a cidade, seus conflitos simbólicos e suas dinâmicas sociais.
A partir dessa potência, o trabalho explora os elementos da cultura hip-hop como linguagem e como ferramenta pedagógica para o ensino de conceitos da Sociologia, bem como, o despertar da consciência crítica, a leitura social e o debate sobre antirracismo, necessários à disciplina de Sociologia nas escolas. O hip-hop é mobilizado como mediador entre os conteúdos curriculares e as experiências cotidianas dos estudantes, valorizando saberes produzidos nas periferias urbanas.
Metodologicamente, a proposta se ancora em uma abordagem qualitativa, com inspiração etnográfica, a partir da presença em campo, da observação participante e da troca simbólica estabelecida em sala de aula. O hip-hop não como um objeto cultural, mas como um modo de linguagem e produção de leitura sociológica. Os registros visuais das práticas, dos grafites, das performances corporais e das produções dos estudantes são compreendidos como dados analíticos, dialogando com contribuições da antropologia visual, que concebem a imagem, o corpo e a prática como dimensões centrais da experiência social.
A experiência evidencia o hip-hop como uma prática pedagógica situada, capaz de tensionar currículos tradicionais, ampliar as formas de ensino-aprendizagem e contribuir para uma educação crítica, antirracista e conectada às realidades urbanas juvenis.
-
A cena das b-girls em São Paulo: trajetórias, fortalecimento e desafios
— Sofia Vieira Corrêa
— Sofia Vieira Corrêa
O presente trabalho analisa a constituição da cena das b-girls em São Paulo, refletindo sobre os desafios, disputas e estratégias políticas de fortalecimento da presença feminina na Cultura Hip Hop. Em diálogo com a proposta do GT de compreender o Hip Hop como espaço de produção de conhecimento e de disputa simbólica e material, a pesquisa enfoca as trajetórias de dois coletivos de breaking: Cendiras Bgirls e Flow Queens Crew. A partir de uma etnografia interpretativa, que combina observação participante em treinos, competições e eventos, além de entrevistas com integrantes dos coletivos, o estudo busca compreender a presença das mulheres no breaking não apenas como inserção estética, mas como uma disputa por legitimidade em um campo historicamente associado ao masculino. As análises mobilizam a categoria de gênero, a noção de performatividade e a compreensão da diferença sexual como construção política, evidenciando como as b-girls tensionam concepções naturalizadas de força, técnica e corporalidade no Hip Hop. Os resultados preliminares indicam que os coletivos femininos atuam como espaços centrais de sociabilidade, apoio mútuo e formação política, fundamentais para a permanência das mulheres na cena. Ao interseccionar gênero, raça e geração, o trabalho analisa como essas dançarinas reconfiguram a cena política e acadêmica do Hip Hop brasileiro, produzindo saberes que tensionam hierarquias de gênero e poder historicamente estruturantes do breaking enquanto um dos Cinco Elementos. Assim, a pesquisa contribui para os campos da antropologia urbana, dos estudos de gênero e das culturas juvenis, ao evidenciar o breaking como prática estética e política.
-
Casa "Escola" Ruína: o território como instância de saber no Hip Hop em Teresina, Piauí
— Vanessa Nunes Soares
— Vanessa Nunes Soares
Esta pesquisa integra a construção da Dissertação de Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal do Piauí (UFPI). O objetivo é analisar os atravessamentos da colonialidade do saber e as disputas em torno da produção, circulação e legitimação do conhecimento no campo da produção cultural. O recorte empírico toma como referência a residência artística CasaEscolaRuína, realizada entre 07 e 12 de outubro de 2025, em Teresina, na Casa do Hip Hop do Piauí. A residência reuniu artistas e agentes culturais brasileiros e franceses em um intercâmbio interdisciplinar que acionou diferentes territórios culturais da cidade, colocando em relação saberes locais e repertórios artísticos vinculados a circuitos externos de circulação cultural. A análise se concentra no período formal da residência, tomada como evento datado. No entanto, o olhar analítico é informado por saberes anteriores à sua realização, decorrentes da inserção da autora na produção cultural e de sua participação nos processos de elaboração do projeto, possibilitando reconhecer continuidades, expectativas e tensões já em curso no território antes do encontro presencial. A pesquisa adota abordagem etnográfica e reflexiva, fundamentada na participação direta da autora como produtora cultural, compreendendo o território não apenas como cenário, mas como instância ativa de produção de conhecimento. As observações indicam que a presença de agentes externos ao território operou como instância privilegiada de enunciação, produzindo camadas diferenciadas de reconhecimento e autoridade sobre os saberes em circulação. Nesse processo, conhecimentos produzidos localmente foram frequentemente naturalizados como operacionais ou secundários, enquanto saberes ligados a circuitos internacionais adquiriram maior legitimidade simbólica. Longe de uma posição passiva, a produção local respondeu a essas assimetrias por meio de fricções, reposicionamentos e disputas por reconhecimento, acionando o território como espaço de afirmação de valor, memória e reexistência. O referencial teórico articula contribuições da antropologia com reflexões críticas sobre a colonialidade do saber e suas implicações na produção de conhecimento e na constituição dos territórios, em diálogo com Lélia Gonzalez (1984/2020), Collins e Bilge (2016), Kilomba (2019), Oyěwùmí (2021), bell hooks (2000), Antônio Bispo dos Santos (2023), Agier (2011) e Certeau (1994). Conclui-se que, mesmo em contextos constituídos como espaços de resistência cultural, persistem assimetrias nos regimes de produção e legitimação do conhecimento, atravessadas por dinâmicas coloniais que se atualizam nas relações entre o "local" e o "externo", tensionando continuamente o território e seus modos de produzir sentido.
Coordenação
Francirosy Campos Barbosa (USP)
Silvia Montenegro (Conicet)
O presente GT busca reunir antropólogos(as) que investigam práticas sociais, religiosas e políticas vinculadas ao Islã em sociedades de maioria muçulmana ou comunidades diaspóricas. Diante do genocídio em Gaza, trabalhos etnográficos sobre os contextos de ocupação e resistência na Palestina e na diáspora são bem-vindos. Ao reunir pesquisas que dialogam com campos como antropologia da religião, antropologia política, antropologia das migrações, estudos pós-coloniais/decoloniais e etnografias de conflitos, o GT pretende reunir trabalhos representativos do estado atual do campo de estudos antropológicos sobre o mundo muçulmanos feitos no Brasil e no exterior 1. Etnografias do Islã no Brasil e na América Latina 2. Diásporas árabes, africanas e palestinas 3. Islamofobia, racismo religioso e securitização
Títulos e Resumos
-
A resistência das mulheres palestinas na defesa da sua Terra
— Daniella Borges
— Daniella Borges
A história do ativismo das mulheres palestinas na defesa de sua terra é pouco contada, menos ainda celebrada, e, com mais frequência, ganha interpretações marcadas por um ideário ocidental intersubjetivamente compartilhado sobre o lugar da mulher árabe em sua comunidade. Não é raro que o mundo islâmico seja reduzido a imagens simplificadas, repetidas à exaustão na mídia ocidental. A figura da mulher muçulmana — velada, silenciosa, submissa — aparece com frequência como um corpo sem agência, um sujeito sem voz.
Edward Said nos ajuda a entender esse enquadramento ao observar que "a cobertura [midiática] do Islã é caracterizada por uma repetição monótona de estereótipos, imagens e reduções, que fazem do muçulmano um ser genérico, unidimensional, identificado por sua religião e, quase sempre, por seu fanatismo" (Said, 1997, p. 11). Essa lógica simplifica e apaga nuances, histórias, diferenças, e, sobretudo, a ação política e a complexidade subjetiva das mulheres que vivem na Palestina.
Neste ensaio etnográfico, utilizo elementos da abordagem interpretativa de Geertz (1989) somados à hermenêutica de Gadamer (2002) e às contribuições de Cardoso de Oliveira (2018) sobre a interpretação de evidências simbólicas para compreender como práticas cotidianas adquirem significado político, sobretudo nas formas de resistência vividas por mulheres palestinas sob ocupação. A análise se fundamenta nos encontros etnográficos aqui relatados, interpretando as camadas simbólicas dos gestos e práticas observadas.
Tendo em mente a complementaridade entre as ideias de Geertz (1989) e de Gadamer (2002), a neutralidade interpretativa aqui não só é evitada, como também não é reivindicada, pois há uma tensão inevitável entre horizontes distintos de sentido, onde a compreensão não está posta, mas construída a partir da fusão de horizontes. Persegue-se aqui uma abertura dialógica que se inicia com a escuta que se deixa afetar por um canto vindo das escadarias do Damascus Gate, naquele 17 de dezembro de 2017. O canto é de Budour Hassan. Eu estava lá.
O encontro com Budour Hassan, ativista cega, feminista e jornalista palestina, bem como os relatos de Sophie Richter-Devroe (2011, 2018) sobre resistência cotidiana revelam como Sumud — palavra árabe costumeiramente traduzida por resiliência, mas que ultrapassa a noção ocidental de tal termo — opera nas vidas dessas mulheres. Assim, este ensaio sustenta que a resistência das mulheres pede alguma tradução, mas, principalmente, clama por escuta.
-
Islamofobia no Contexto Brasileiro e Estratégias para Enfrentá-la, a partir dos Relatórios Produzidos pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (GRACIAS)
— Francirosy Campos Barbosa, Luiz Felipe Dias Pereira
— Francirosy Campos Barbosa, Luiz Felipe Dias Pereira
Esta comunição propõe uma análise crítica da islamofobia a partir de relatórios e artigos produzidos pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (GRACIAS), um grupo de pesquisa coordenado pela professora Francirosy Campos Barbosa. Esses estudos tornaram-se uma das referências empíricas e teóricas mais relevantes sobre a islamofobia no Brasil e na América Latina. Em diálogo direto com a 5ª Conferência Internacional da Associação de Estudos sobre Islamofobia (IISRA), este trabalho argumenta que as pesquisas produzidas pelo GRACIAS oferecem um modelo consistente de articulação entre história, teoria e prática.
Com base em uma perspectiva histórica e contextualizada, o artigo demonstra como a islamofobia no Brasil não pode ser compreendida nem como um fenômeno a-histórico, nem como uma simples derivação da Guerra ao Terror, mas sim como um processo moldado por legados coloniais, formas de racialização, regimes midiáticos e práticas institucionais contemporâneas. Os relatórios analisados destacam como os discursos islamofóbicos se manifestam nas políticas públicas, no sistema educacional, na mídia e nas interações cotidianas, produzindo formas de exclusão que operam tanto em níveis simbólicos quanto materiais.
Simultaneamente, o artigo também evidencia a dimensão propositiva da construção de metodologias de monitoramento, da educação antidiscriminatória e da produção de dados situados, que desafiam tanto as metodologias hegemônicas ocidentais quanto as abordagens presentistas, conforme apontado no Primeiro Relatório sobre Islamofobia no Brasil. Assim, argumenta-se que esses relatórios constituem não apenas análises diagnósticas, mas também ferramentas práticas contra a islamofobia, situadas nas experiências locais do Sul Global.
Os autores concluem que a incorporação sistemática desse tipo de produção aos estudos sobre islamofobia amplia esse campo ao ir além do mero reconhecimento do fenômeno, oferecendo caminhos concretos para ações antirracistas, anticoloniais e interseccionais. Portanto, o investimento em pesquisa também constitui uma abordagem pragmática para o enfrentamento da islamofobia.
-
Deus provê e prevê: notas sobre a morte e o morrer em comunidades muçulmanas no Brasil
— Gisele Fonseca Chagas
— Gisele Fonseca Chagas
Ao longo das pesquisas antropológicas que venho conduzindo em instituições e comunidades muçulmanas no Brasil, voltadas para o estudo dos diferentes modos de produção, transmissão e circulação de conhecimento religioso, pude observar como questões relacionadas à morte e ao morrer desempenham um papel central nos discursos dos meus interlocutores como parte de seus pertencimentos e subjetividades religiosas. Neste sentido, proponho abordar esta temática a partir de uma análise das providências, divina e mundana, que são acionadas: os preparativos, os espaços e os rituais fúnebres ligados ao islã no Brasil. O intuito é compreender como sensibilidades religiosas, burocracias e memória comunitária são produzidas e negociadas a partir de concepções e práticas islâmicas específicas relacionadas à morte e ao morrer. O trabalho é parte de pesquisa etnográfica em andamento e realizada no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Curitiba.
-
Exílio e resistência: diásporas muçulmanas entre o Sul do Líbano e o interior paulista
— Luís Augusto Meinberg Garcia
— Luís Augusto Meinberg Garcia
Esta pesquisa propõe uma investigação etnográfica sobre as experiências de dor, violência, exílio, resistência e reinscrição moral e política entre membros da diáspora muçulmana no interior do estado de São Paulo. Por meio de trabalho de campo, a pesquisa busca a escuta atenta às narrativas que corporificam uma memória intergeracional de sofrimento e resistência frente ao vivido desde a criação do Estado de Israel em 1948, às consequências das invasões ao Sul do Líbano. Tomando como eixo etnográfico a trajetória de uma família de origem libanesa, que atravessa quatro gerações marcadas por prisões, luto, deslocamentos forçados e engajamento político, procuro examinar os modos como essas experiências são reinscritas e transformadas em práticas morais, comunitárias, políticas e de subjetivação religiosa em contextos diaspóricos. A pesquisa articula a história da diáspora muçulmana do Sul do Líbano - Hebbariyeh e Kfarhamam - para o interior paulista - Barretos, Colina e Guaíra - com os processos de formação das mesquitas locais e os vínculos transnacionais estabelecidos entre as regiões, mobilizando conceitos como sofrimento social, agência e dor, exílio como condição epistêmica e formas específicas de pertencimento forjadas em contextos específicos de violência.
-
Trajetórias de Mulheres Muçulmanas na Política Institucional no Brasil: Islamofobia, Gênero e Representatividade
— Natalia Augustini
— Natalia Augustini
Este trabalho investiga as trajetórias de mulheres muçulmanas na política institucional brasileira, focando nos desafios e estratégias de resistência diante da islamofobia, do gênero e da busca por representatividade. Embora exista uma diversidade religiosa no Brasil, a presença destas mulheres permanece pequena. Tais trajetórias enfrentam processos de exclusão resultantes da intersecção entre islamofobia, gênero e a violência simbólica que organiza a política institucional. Essa invisibilidade decorre de estigmatizações históricas que atravessam tanto o espaço público quanto a vida íntima de mulheres muçulmanas. A islamofobia em relação, principalmente, ao uso do hijab repercutem na saúde mental e na subjetividade, gerando medo, isolamento e retração social.
O projeto utiliza o conceito de orientalismo de Edward Said para analisar a construção do muçulmano como objeto de dominação e alteridade por meio de estereótipos fixos. O uso do hijab é analisado a partir do conceito de estigma de Erving Gofman, funcionando como um marcador visível de diferença que produz uma "despatriação simbólica" e o sentimento de não pertencimento dentro da própria cultura. A exclusão é também interpretada sob a ótica da violência simbólica e do habitus de Pierre Bourdieu, que naturalizam hierarquias culturais e desqualificam certas identidades. O diálogo com Stuart Hall fundamenta a discussão sobre identidades fragmentadas em culturas nacionais que operam discursos de unidade enquanto ocultam divisões profundas. Introduz-se a noção de sofrimento sociopolítico para evidenciar como as condições sociais adversas restringem a agência e o acesso a direitos.
O objetivo geral é compreender como essas mulheres vivenciam sua relação com a política institucional, identificando obstáculos práticos e estratégias de resistência. A metodologia segue uma abordagem qualitativa, centrada em entrevistas em profundidade com participantes que ocuparam cargos, se candidataram ou atuaram em partidos e coletivs.
De forma complementar, serão analisados materiais de campanhas, redes sociais e imprensa para contextualizar as narrativas. Busca-se, assim, interrogar os limites da democracia brasileira e ampliar o reconhecimento das muçulmanas como sujeitas políticas plenas.
-
Comidas, memórias, invenções e éticas muçulmanas a partir da trajetória de uma curda em São Paulo.
— Natália Neme Carvalhosa
— Natália Neme Carvalhosa
Este trabalho deriva da pesquisa de tese de doutorado "Entre Coragem, Invenções e Lobos", que analisa as experiências de mobilidade e a construção das práticas cotidianas por sírios, curdos e palestinos deslocados pela guerra civil síria. Em uma etnografia pelas linhas de movimento, a tese propõe a leitura deste circuito como um meio de "descida ao cotidiano" diante da violência do deslocamento, onde a produção de alimentos vincula-se a memórias, éticas e subjetividades, possibilitando um olhar de politização das práticas cotidianas (de Certeau) que desafia a definição totalizante de "experiência refugiada" (Malkki).
A partir deste contexto, focaremos na história de Samira, uma mulher curda e muçulmana de Aleppo que trabalhava na fábrica de tecidos da família antes do conflito. Sua narrativa expõe dilemas em meio à guerra: o rompimento com relações familiares e de vizinhança e a luta pela guarda dos filhos em um ambiente hostil. Nos limites da retratação dos traumas processados, Samira recorre à imaginação e cria "metáforas lupinas". Para ela, o lobo não representa a selvageria, mas um modelo ético de cuidado coletivo da alcateia, que contrasta com a decepção sentida ao ver humanos — vizinhos e familiares — fecharem portas e estocarem comida enquanto outros passavam fome.
Para Samira, a escassez de alimentos durante a guerra e o comportamento egoísta de sua comunidade geraram um sentimento de "chegar na terra pela primeira vez", uma estranheza com seu próprio mundo. Um episódio central é a sua recusa em aceitar o pão dado com desdém, em sua leitura, em filas de ajuda humanitária. Esse momento marca uma virada ética: a decisão de "fazer o seu próprio pão".
No Brasil, essa autonomia se traduz na sua inserção no circuito gastronômico. A comida para Samira não é apenas mercadoria, mas um veículo de memória que incorpora tempos passados e projeta futuros possíveis. O preparo de pratos como o babaganush ou o pão artesanal atua como uma blindagem contra a caridade verticalizada e a vitimização. Ao cozinhar "com o coração" — manifestando uma ética de inspiração muçulmana ligada à pureza da intenção e à retidão diante de Deus — e recusar o rótulo de "coitadinha", Samira utiliza a inventividade artesanal da memória e astúcias cotidianas como formas de resistência a competitividade que enfrenta no circuito de eventos gastronômicos que passa a integrar. Sua trajetória ilustra como as fronteiras nacionais e os rótulos burocráticos não conseguem conter a complexidade da experiência de quem, entre a coragem e a invenção, reconstrói a vida através dos sabores e saberes trazidos do exílio.
-
Entre Missão e Testemunho: A Ahmadiyya no Brasil e em Suriname
— Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
— Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Este trabalho faz uma análise comparativa entre a presença da Ahmadiyya no Brasil e em Suriname. Embora a Ahmadiyya se caracterize por um forte trabalho missionário entre comunidades muçulmanas de origem sul-asiática (Índia, Paquistão e Bangladesh) ela apresenta configurações completamente distintas no Brasil e em Suriname. A presença da Ahmadiyya no Suriname data de 1929, tendo criado uma vasta comunidade com extensa rede de mesquitas e institruições, enquanto no Brasil começa na década de 1990 e permanece limitada a uma mesquita em Petrópolis onde se reune uma pequena comunidade. No Suriname a Ahmadiyya cindiu-se em duas comunidades rivais, uma que recusa o caráter profético do fundador, tornando-se mais próxima dos sunitas majoritários no país, e outra que o vê como profeta. No Brasil a única comunidade é filiada a essa vertente. A comparação entre as comunidades irá explorar a relação entre etnicidade e identidsade religiosa, assim como os diferentes processos de localização da Ahmadiyya no campo religioso local.
-
"Quem poderá interceder junto a Ele, sem a Sua permissão?" Intercessão e mediação espiritual no sufismo Naqshbandi-Haqqani
— Rafael Magalhães Vasconcelos Maron
— Rafael Magalhães Vasconcelos Maron
A noção de intercessão na religião pressupõe a ideia de que a relação de um crente com a divindade pode ser mediada por outra entidade, o que funcionaria como um atalho para a obtenção de favores e bênçãos divinos. Na tradição discursiva islâmica, a possibilidade da intercessão é afirmada nas duas principais fontes, o Alcorão e os hadith (registros de falas e atos do Profeta Muhammad). No entanto, os limites, atores e formas dessa mediação geram uma diversidade de interpretações divergentes entre distintas denominações. Na tradição sufi, uma noção central diz respeito ao papel dos santos (awliyah) como mediadores entre os domínios divino e material. Por conta de sua proximidade com Deus, obtida pela purificação disciplinar do coração, os awliyah são capazes de receber e transmitir as bênçãos divinas (baraka) aos crentes comuns, além de guiá-los no caminho da purificação espiritual. O objetivo deste trabalho é analisar o papel relevante da intercessão nos ensinamentos da ordem sufi Naqshbandi-Haqqani, seu funcionamento na operacionalização do carisma do mestre e as discussões a respeito nos campos sufi e islâmicos em geral. Meu recorte teórico se ancora na abordagem crítica da religião, que, a partir de Talal Asad, compreende a experiência religiosa não como crença individual e incorpórea, mas como prática historicamente situada, discursivamente regulada, dotada de materialidade e corporeidade.
-
Educação para a paz: reflexões sobre estratégias didático-pedagógicas com Islã na formação inicial de professoras
— Rosenilton Silva de Oliveira
— Rosenilton Silva de Oliveira
Esta comunicação apresenta reflexões preliminares sobre os limites e as possibilidades de inserir o debate sobre pertencimento religioso na formação inicial de professoras, com vistas à construção de uma educação mais justa e igualitária (Brasil, 2004). O estudo decorre de um exercício didático desenvolvido com 34 estudantes da Licenciatura em Pedagogia de uma universidade pública paulista, no âmbito da disciplina Leituras sobre educação, racismo e religião, envolvendo leituras orientadas, debates, análise fílmica e visita a espaços de sociabilidade e culto. Nesta comunicação, destaca-se o impacto da inserção do Islã (por meio de textos, vídeos e visita a uma mesquita) no percurso formativo do grupo. A análise de questionários aplicados após a visita evidencia, de um lado, a necessidade da educação para a diversidade (Oliveira, 2023) no processo de enfrentamento do preconceito, da intolerância e do racismo na escola; de outro, a persistência de estereótipos negativos sobre o Islã no imaginário social, em parte motivada pela ampla circulação de imagens depreciativas nos meios de comunicação sobre a religião e pelo baixo contato direto com comunidades muçulmanas. As respostas destacam a hospitalidade e a disponibilidade do sheik para dialogar e responder perguntas, frequentemente descritas em chave pedagógica (como uma aula), bem como a materialidade do sagrado (arquitetura, beleza, limpeza, inscrições e organização do espaço). Elementos rituais e sensoriais, como o rigor dos horários de oração, a presença do tapete, a retirada dos calçados, o código de vestimenta e a recitação do Alcorão, emergem como experiências formativas que produzem reverência, deslocam percepções negativas e favorecem a compreensão de aspectos da religião para além dos estereótipos. No plano profissional, as estudantes associam a experiência vivenciada no âmbito da disciplina à ampliação do repertório cultural, à possibilidade de acionar os conhecimentos na mediação de conflitos e à elaboração de práticas educativas antidiscriminatórias no cotidiano escolar.
-
"Quando você viaja, você é diáspora": uma análise comparativa das mobilidades haitianas e palestinas
— Rosiane Trabuco de Oliveira
— Rosiane Trabuco de Oliveira
Este trabalho propõe uma reflexão comparativa sobre o conceito de diáspora a partir das contribuições de Jardim (2016) e Handerson (2015), tomando como referência empírica as experiências da diáspora palestina e da diáspora haitiana. Nesse sentido, a análise busca compreender como diferentes regimes históricos, políticos e morais produzem sentidos distintos de diáspora e de que maneira essas concepções tensionam definições universalizantes amplamente utilizadas nos estudos migratórios. Assim, o objetivo é examinar de que forma o conceito de diáspora é construído, classificado e vivido em contextos marcados por deslocamentos forçados, no caso palestino, e por mobilidades estruturantes da vida social, no caso haitiano, em que "a mobilidade é um fato central do universo haitiano". Busca-se demonstrar que a diáspora não se configura como uma identidade fixa ou mera dispersão territorial, mas como um processo relacional, atravessado por relações de poder, desigualdades globais e estratégias de agência dos próprios sujeitos. Logo, a metodologia adotada é a comparativa, baseada na análise teórica e etnográfica das obras desses autores, articulada a reflexões advindas da minha pesquisa de doutorado em curso, como exemplificado pela fala presente no título, pronunciada por um interlocutor. Nesse sentido, a comparação privilegia tanto os contrastes analíticos quanto os pontos de convergência entre abordagens que operam em escalas distintas – institucional e cotidiana – sem reduzir a complexidade dos contextos empíricos analisados. A partir de Jardim, observa-se que a diáspora palestina é produzida por tecnologias de governamentalidade que classificam e regulam populações deslocadas, gerando provisoriedade jurídica, restrições à mobilidade e a centralidade do refúgio e do direito de retorno. Já em Handerson, a diáspora haitiana emerge como uma categoria êmica e um princípio organizador da vida social, associada à circulação transnacional, às obrigações morais familiares – como contribuir com “dinheiro diáspora” ou “objetos diáspora” – e à produção de status e hierarquias internas. Desse modo, o diálogo entre essas perspectivas evidencia que a diáspora não constitui uma categoria analítica neutra ou universalizável, mas uma categoria analítica situada e plural, produzido em contextos históricos específicos e atravessado por disputas políticas, regimes de controle, moralidades sociais e projetos de mobilidade. A comparação permite, assim, deslocar a análise da diáspora de uma abordagem identitária para uma perspectiva processual, na qual a experiência diaspórica emerge da tensão permanente entre regimes de controle e formas situadas de agência, revelando como diferentes arranjos de poder produzem modos distintos de pertencimento, mobilidade e experiência social.
-
Do Mascate ao Influenciador: A Transformação da Imagem Árabe e a Luta pela Narrativa Palestina na Mídia
— Vitor Emanuel Weissheimer de Souza
— Vitor Emanuel Weissheimer de Souza
Com o aumento dos movimentos de migração e diáspora de países do oriente médio, como a Palestina (que se inicia com a Al-Nakba em 1948), Libano e síria, o ocidente teve que começar a lidar com as negociações culturais com as tradições árabes. E em decorrência disto aumentaram-se o número de aparições midiáticas sejam estas em filmes, series, novelas, música e mais recentemente com os influenciadores digitais nas redes sociais. O presente trabalho se propõe em levantar as representações de árabes sejam eles muçulmanos ou não dentro desta esfera, a partir do ano de 1980 até os dias atuais, e analisar como são representados as culturas e pessoas advindas destas localidades. Com enfoque em produções nacionais, internacionais, vindas de países árabes ou não, com foco em especial nas representações de palestinos e palestinas nesses meios. se dividindo em 5 partes, representação no cinema, em series, em novelas, na música e nas redes sociais. Sendo analisado a diferença entre as representações entre produções árabes e não árabes, os principais símbolos que reforçam ou subvertem os estereótipos já imputados a comunidade (o refugiado, o terrorista, a mulher oprimida, o mascate, etc.), problematizando a generalização das culturas árabes e o viés orientalista (Said, 1978) geralmente usado nas obras.
Coordenação
Geovana Tabachi Silva (UFF)
Adiles Savoldi (UFFS)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Raquel Brum Fernandes (UFF)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Fábio Carminati (docente)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Adiles Savoldi (UFFS)
O GT propõe um espaço de diálogo voltado à análise das múltiplas experiências juvenis na contemporaneidade, articulando marcadores sociais como raça, gênero, classe, território, sexualidade e geração às práticas culturais e educativas formais e não formais. Partindo de uma perspectiva antropológica, buscamos problematizar como os jovens, especialmente no Brasil e na América Latina, constroem sentidos sobre si, produzem pertencimentos e negociam projetos de vida em contextos atravessados por desigualdades e disputas simbólicas. Acolheremos pesquisas concluídas ou em andamento, estudos de caso, etnografias escolares e experiências articuladas à Lei 11.645/08, práticas pedagógicas inovadoras e reflexões teóricas que examinem os modos pelos quais a escola, a universidade e outros espaços educativos se tornam ambientes de produção de identidades, conflitos, resistências e invenções juvenis. Serão bem-vindas contribuições que valorizem olhares interseccionais na abordagem de temas como culturas juvenis, letramento racial, políticas de diversidade, formação docente, tecnologias e mídias digitais, juventudes indígenas, quilombolas e periféricas, interseções entre arte e educação, processos de vulnerabilização, práticas decoloniais e os impactos das reformas educacionais recentes. O GT pretende consolidar um campo de debate plural e crítico, compreendendo a juventude como categoria social fundamental para pensar a educação contemporânea.
Títulos e Resumos
-
Projeto interações: nas trilhas do conhecimento
— Adiles Savoldi, Fábio Carminati, Júlia Samily Kich
— Adiles Savoldi, Fábio Carminati, Júlia Samily Kich
Interações é um projeto de extensão do curso de Licenciatura em Ciências Sociais da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), Campus Chapecó, que dialoga com estudantes do Ensino Médio sobre temáticas de Ciências Sociais. A presente proposta busca discutir sobre a experiência colaborativa com estudantes Kaingang e Guarani do Ensino Médio da Escola Indígena Fen’Nó, na Terra Indígena Toldo Chimbangue. A atividade interdisciplinar consiste em integrar conteúdos de ciências humanas e sociais nas interações e trocas entre os estudantes da UFFS e da Escola indígena. Com base em atividades de georreferenciamento de plantas da Trilha Raízes, trecho de 600 metros de mata nativa, que se configura num projeto de valorização da cultura e conhecimento Kaingang e Guarani, os estudantes indígenas produzirão as informações sobre as plantas georreferenciadas que estarão disponíveis aos visitantes da trilha. Em parceria com a escola indígena a tarefa intenciona valorizar os saberes ancestrais na luta contra a colonialidade e também educar para a preservação ambiental. Os resultados serão apresentados em abril, durante a semana cultural desenvolvida pela Escola, que recebe visitantes indígenas e não indígenas. Esses encontros são marcados por tensões e estranhamentos, embora, a Lei 11.645/2008 reitere o ensino da história e cultura africana e indígena no Brasil, não há ainda o reconhecimento da contribuição social, econômica e política destes povos no Brasil.
Palavras-chave: Kaingang; educação; ensino médio.
-
Escrita e intervenção: o que cidade nos fala.
— Bruna Raquel Fontes Santana
— Bruna Raquel Fontes Santana
O presente trabalho tem origem em questionamentos nascidos no ambiente da sala de aula, em uma oficina proposta pela autora. Nessa proposta, os jovens estudantes do Instituto de Compromisso Social João Carlos Paes Mendonça (IJCPM) respondem o questionamento que a autora traz: o que a cidade tem nos falado? Com base nos conceitos de direito à cidade e de liberdade da cidade do geógrafo e antropólogo David Harvey, o trabalho etnográfico foi desenvolvido a partir da observação dos muros e das suas falas. Propagandas, grafites, pichações foram fotografados. O objetivo foi documentar através da fotografia o que a cidade de Aracaju nos falava em seus muros que acompanhavam os trajetos feitos por todos da turma até a sede do IJCPM, localizado na Zona Sul. Para além desses trajetos, os jovens foram levados para a Universidade Federal de Sergipe, onde puderam ter uma vivência de sentido dos escritos nas paredes dos prédios departamentais. Com fotos tiradas em seus próprios celulares, o resultado da oficina foram fotografias que mapeiam o deslocamento e falas dos jovens acerca do espaço em que ocupam, sobre seus territórios de origem e o reconhecimento do direito à cidade de cada um dos participantes. Foi desenvolvido também artes para lambe-lambe e para intervenções utilizando stencil, algumas dessas artes ocupam atualmente as paredes do IJCPM, onde os jovens continuam estudando, e também paredes de praças dos bairros onde os jovens residem.
-
A contra colonização no Ensino Médio: experimentando a oralidade entre jovens em Campos dos Goytacazes
— Douglas Costa de Sousa, Geovana Tabachi Silva
— Douglas Costa de Sousa, Geovana Tabachi Silva
Este trabalho nasce do Programa Licenciaturas (PROLICEN) da Universidade Federal Fluminense “Ensino de Sociologia e Povos Originários: Uma análise intercultural e inclusiva em Campos dos Goytacazes” e mostrará a experiência em salas de aula do Ensino Médio da rede pública no Estado do Rio de Janeiro, na cidade de Campos dos Goytacazes, ao qual também se fez cumprir enquanto parte da disciplina de Pesquisa e Prática Educativa II, onde exige dos discentes do curso de Licenciatura em Ciências Sociais, 100 horas de vivências na escola. A partir de análises bibliográficas sobre as relações nos primeiros contatos entre colonizadores e Povos Originários na região Norte Fluminense – território da Nação Goitacá –, capazes de nos preparar para a aplicação do conteúdo em aulas expositivo-dialógicas e oralizadas em turmas da disciplina de Sociologia do 1º e do 3º ano do Ensino Médio. Divididas em dois blocos: colonização e contra colonização, buscou-se discutir as formas de vida desdobradas pelo modelo colonial e as resistências contra colonizadoras guardadas e praticadas por comunidades indígenas e quilombolas no Século XXI. Além disso, buscamos dialogar sobre como essas práticas contra coloniais se fazem presentes em nosso cotidiano, o que fez surgir os talentos dos estudantes e os relatos dos tratos familiares entre plantas em seus quintais. O trabalho resultou na produção de cadernos artesanais e mapas mentais sobre as aulas, as opiniões dos alunos sobre elas, os desinteresses e os principais temas abordados. O estereótipo do senso comum também aparece muito forte nos desenhos, o que nos deixa inspiração para criar material didático para futuras aplicações.
-
Juventudes indígenas e a construção do GEPSIN como prática intercultural na Universidade Federal de Goiás
— Isabela de Oliveira Rosa, Elina Guajajara, Maluá Silva Kuady Karajá, Camila Nogueira do Nascimento, Gardenia de Souza Furtado Lemos, Pedro Caixeta Frota
— Isabela de Oliveira Rosa, Elina Guajajara, Maluá Silva Kuady Karajá, Camila Nogueira do Nascimento, Gardenia de Souza Furtado Lemos, Pedro Caixeta Frota
Este trabalho tem como objetivo publicizar, discutir e dialogar com outras ações de pesquisa e extensão voltadas à formação de jovens indígenas no ensino superior. O projeto de extensão Saúde Indígena e Interculturalidade, em andamento na Faculdade de Educação da UFG desde 2025, surgiu a partir uma pesquisa de doutorado em Antropologia Social, concluída em 2024, cujo objetivo foi conhecer vivências, dificuldades e desafios de estudantes indígenas em duas universidades brasileiras, a UFG e a Ufopa. Atualmente, o projeto de extensão apoia-se no compromisso do Centro de Ensino, Pesquisa e Extensão do Adolescente (CEPEA/FE/UFG) com os direitos da população jovem indígena, considerando interseccionalidades atreladas a desigualdades históricas de acesso e permanência nas universidades. A proposta busca articular comunidade acadêmica e sociedade, promovendo ações que conectam profissionais e estudantes, indígenas e não-indígenas, especialmente do curso de Psicologia, em atividades de estudo, atendimentos clínicos e ações de cuidado em saúde, voltadas para adolescentes e jovens indígenas. Serão apresentados neste GT as atividades desenvolvidas ao longo do ano e seus efeitos formativos, terapêuticos e à convivência intercultural, a partir de experiências dos participantes do projeto. Destaca-se a produção de um vídeo educativo, premiado na II Mostra Educativa do Museu da Pessoa, em dezembro de 2025. O material dá mostras de como o trabalho realizado por uma equipe intercultural pode contribuir para o fortalecimento de vínculos, para o reconhecimento de diferenças, para a flexibilização de certezas sobre si e o outro e para o desenvolvimento de compromisso social. Assim nasceu o GEPSIN - Grupo de Extensão em Psicologia e Saúde Indígena, que expandindo os muros da universidade, tem alimentado a possibilidade de sonhar e de concretamente contribuir para que jovens indígenas produzam e conectem seus saberes ao transitarem entre mundos, entre aldeia e cidade, entre tradição e inovação. A discussão pretende, por um lado, abordar como os processos de inclusão-exclusão na universidade produzem modos de sofrer frequentes entre os estudantes que habitam essa instituição, inicialmente não pensada para eles. Por outro lado, evidencia-se o potencial deste espaço para as reinvenções juvenis. Os indígenas transformam e são transformados pela universidade. Neste processo, um trabalho artesanal se coloca: o GEPSIN é um espaço coletivo em construção, com foco em práticas formativas e de cuidado atreladas à justiça social e ao reconhecimento dos jovens indígenas como sujeitos ativos na produção de conhecimentos e de modos de viver.
-
Em busca de pertencer: espaço acadêmico, religiosidade e vida pública
— Leandro de Paula
— Leandro de Paula
O objetivo desta comunicação é compartilhar resultados preliminares de uma pesquisa que enfoca a intersecção entre experiência universitária, pertencimento religioso e formação de públicos, sendo amparada por iniciativas de extensão e estudos anteriores conduzidos pelo proponente e por outros/as pesquisadores/as, com especial atenção etnográfica na cidade de Salvador (BA). A comunicação parte do suposto de que o ingresso no Ensino Superior tem o potencial de intensificar a transição dos sensos de identidade regularmente vivida pela juventude. A exposição a novas ideias e compreensões de mundo, fruto do ingresso no espaço acadêmico, produz sobre os estudantes efeitos duráveis, definindo parte mensurável das disposições éticas e políticas que carregam com o avançar da idade, como aponta a literatura especializada. Nesse sentido, interessa pensar de que modo as trajetórias de filiação religiosa podem passar por processos como a reelaboração do pertencimento herdado da família, o distanciamento de certas tradições e práticas, ou ainda o reforço de formas de adesão pregressas, em resposta a tensões atravessadas no percurso universitário. A pesquisa se volta então ao mapeamento do tipo de incidência pública verificável entre os jovens a partir desse novo repertório de vivências: com quais ações coletivas se engajam, quais referências mobilizam para justificá-las, quais circuitos informacionais integram e como se situa, entre seus interesses, o tema do pertencimento religioso? Em suma, a comunicação busca colocar em debate a formação de públicos que decorre de processos de reorganização da identificação religiosa a partir da assimilação de certo ethos próprio do ambiente da universidade e da condição do estudante.
-
Para além do Projeto de Vida: As perspectivas de futuro de jovens de uma escola rural de Campos dos Goytacazes - RJ
— Maria Eduarda Emrich do Amaral, Raquel Brum Fernandes
— Maria Eduarda Emrich do Amaral, Raquel Brum Fernandes
Esta pesquisa investiga como a noção de “Projeto de Vida”, incorporada ao currículo do Novo Ensino Médio (Lei 13.415/2017), é compreendida por jovens de uma escola rural de Campos dos Goytacazes, município do estado do Rio de Janeiro. Partimos do reconhecimento de que as juventudes rurais possuem especificidades frequentemente negligenciadas por um modelo educacional focado no espaço urbano (Arroyo, 2011). Nesse sentido, o estudo busca compreender de que modo a escola, entendida como espaço de sociabilidade e construção identitária (Dayrell, 2007), influencia os projetos de futuro desses jovens, cujos “campos de possibilidade” (Velho, 2004) são atravessados por desigualdades territoriais e pela precarização do trabalho. Objetiva-se, assim, analisar como os jovens percebem o impacto das práticas de ensino — em especial aquelas vinculadas ao “Projeto de Vida” — na construção de suas perspectivas, considerando dimensões como estudo, trabalho e também a permanência no território. Para isso, a abordagem metodológica é qualitativa e participativa, posicionando os jovens como produtores do conhecimento juntamente com o pesquisador (Castro, 2008). Além disso, o trabalho de campo, a ser realizado ao longo do próximo ano, prevê grupos focais e rodas de conversa com estudantes do ensino médio. Os dados gerados serão analisados em diálogo com o referencial teórico que discute as juventudes no plural — afastando-se do caráter homogeneizante (Novaes, 2006) —, o currículo como território em disputa (Arroyo, 2011) e as políticas educacionais. A pesquisa espera contribuir para o campo dos estudos sobre juventudes e da Educação do Campo, problematizando a implementação de políticas nacionais em contextos locais e fomentando a reflexão sobre uma escola que dialogue com os saberes e projetos dos jovens rurais, ampliando seus horizontes de futuro em seu próprio território.
-
Novo ensino médio: uma análise a partir da categoria interseccionalidade em uma escola pública em Natal/RN
— Maria Iria Mabele Elias da Cunha, Elisete Schwade
— Maria Iria Mabele Elias da Cunha, Elisete Schwade
Este trabalho é fruto da minha pesquisa de mestrado em Antropologia Social, desenvolvida a partir das primeiras incursões em campo, constituindo-se como um conjunto inicial de percepções, observações e análises construídas ao longo do processo de pesquisa. O debate a respeito das reformulações no ensino médio tem se tornado pauta de diversas discussões no meio educacional, havendo controvérsias quanto à implantação do Novo Ensino Médio. Diante disso, questiona-se: como tem ocorrido a implantação desse modelo nas escolas públicas? O objetivo deste trabalho é apresentar, por meio de uma etnografia realizada em uma escola pública de Natal/RN, de que forma os diversos sujeitos que compõem a comunidade escolar estão sendo impactados pelo novo modelo de ensino médio, estabelecido a partir Lei nº 13.415/2017, que passou por diversas reformulações ao longo dos últimos anos. Nesta análise, a categoria da interseccionalidade como uma ferramenta analítica que nos permite evidenciar a variedade de problemas sociais e desigualdades, tornou-se chave para o entendimento dos arranjos sociais que permeiam a implementação do novo ensino médio no contexto observado. Busca-se descrever como os alunos estão vivenciando essas mudanças, considerando que cada indivíduo apresenta trajetórias, percepções de formação e experiências de vida distintas. Por fim, a execução da pesquisa fundamentou-se em uma metodologia composta por observação participante, análise documental e entrevistas semiestruturadas.
-
Juventudes escolares urbanas amazônidas: sociabilidades on e off por meio das brincadeiras e conflitualidades em uma escola de ensino médio de Belém - Pa.
— Mário Jorge Brasil Xavier
— Mário Jorge Brasil Xavier
As discussões em torno das formas de sociabilidades das juventudes, presentes no cotidiano escolar, fora deste e verificadas nas redes sociais, são atualmente instigantes, pois revelam uma diversidade de pessoas, grupos e vivências. A necessidade por entender, em parte, as vivências nos cotidianos nas escolas públicas estaduais de Ensino Médio e suas interfaces com o uso dos smartphones, conectados ou não à internet, tornou-se recorrente, envolvendo um grande número de pessoas, enquanto sociabilidades vividas dentro e fora das escolas.
A vida intensa das conexões na Internet, mesmo com todas as vicissitudes positivas, comunicação, informação, diminuição de distâncias, etc. trouxe consigo algumas formas de interatividade que expressam conflitualidades já há muito vividas por grupos humanos, pois congregam diversas características de sociabilidades, por meio, por exemplo, de mensagens de textos e imagens compartilhadas nos dispositivos de comunicação móveis.
Nas relações sociais mantidas pelas juventudes nas escolas, mas não só nestas, é possível dizer que houve um crescimento exponencial de atitudes e discursos de ódio e intolerâncias. Estas atitudes e interações favoreceram conflitualidades que, por vezes, se iniciam nas relações cotidianas em diversos ambientes, em casa, na rua e, inclusive, nos ambientes escolares.
É possível afirmar que tais conectividades vividas, compostas por seres humanos nos seus atos, por meio de uma publicação ou comentários irônicos, difamatórios ou falsos, são acompanhadas de atitudes e comentários intolerantes que acontecem e se manifestam de vários lugares e são potencializadas pelas redes sociais. Nestas interfaces, ocorrem as mais diversas interdependências dos que acessam seus ambientes de interatividade.
Das interações, surgem brincadeiras, conversas jocosas, zombarias - as chamadas zoeiras - bem como em face das opiniões diversas. Tais interações promovem uma exposição destes perfis de usuários que, algumas vezes, sem o uso de regras, tornam-se um espaço favorável para que discursos de vários tipos, inclusive de ódio, se ampliem pela conectividade, sendo estes capazes de se propagar e atrair cada vez mais quem os aceite e compartilhe. As brincadeiras entre jovens estudantes e, no que concerne aos objetivos deste projeto, nas escolas públicas estaduais em Belém, podem desencadear conflitos dentro da escola.
-
Escola, território e memória ambiental: uma etnografia na Colônia de Pescadores Z3
— Milena Rodrigues Estevão, Milena Rodrigues Estevão
— Milena Rodrigues Estevão, Milena Rodrigues Estevão
A presente pesquisa emerge da experiência de habitar a Colônia de Pescadores Z3, em Pelotas/RS, comunidade tradicional marcada pela pesca artesanal, por ciclos recorrentes de cheias e por fortes vínculos territoriais. Parte-se da análise da Escola Municipal Raphael Brusque, única instituição de ensino do bairro, como espaço privilegiado de articulação entre saberes locais, saberes escolares e saberes universitários, investigando como essas dimensões se expressam nas práticas educativas e na elaboração da memória ambiental e territorial. A enchente de 2024, a mais longa e intensa da região, constitui um marco empírico que reconfigurou o cotidiano comunitário e escolar, evidenciando tanto processos de vulnerabilização quanto estratégias coletivas de enfrentamento. Inserida nesse contexto, a escola revela-se como lugar de mediação entre modos de vida, políticas educacionais e experiências ambientais, tornando-se central na produção de pertencimento, identidades juvenis e narrativas sobre o território.
A pesquisa adota abordagem etnográfica, inspirada na observação do familiar (Velho), na etnografia da duração (Rocha & Eckert) e na descrição densa (Geertz), articulando observação participante, entrevistas e acompanhamento de projetos pedagógicos e ações de extensão universitária. Destaca-se a Mostra de Regiões, atividade em que estudantes mobilizaram memórias familiares, narrativas sobre enchentes e conhecimentos da pesca para representar a Z3, revelando a potência da escola como espaço de encontro entre gerações, saberes e histórias locais. Em diálogo com Freire, compreende-se a educação como prática de reconhecimento dos saberes dos sujeitos; com Dayrell, a escola é concebida como espaço sociocultural atravessado por conflitos, negociações e possibilidades de transformação. A reconstrução da biblioteca após a enchente simboliza esse processo, configurando-se como prática coletiva de reexistência e produção de memória.
Ao evidenciar como experiências territoriais e saberes tradicionais atravessam o cotidiano escolar, o estudo busca compreender que, na colônia de pescadores Z3, a escola atua como núcleo articulador entre comunidade, universidade e Estado, contribuindo para a elaboração coletiva do território diante das crises socioambientais. A pesquisa propõe, assim, compreender a escola não apenas como instituição educativa, mas como espaço de produção cultural e política em uma comunidade tradicional.
Palavras-chave: escola; território; comunidades tradicionais; memória ambiental; juventudes.
-
Construção da autonomia e fluidez de categorias: sexualidade e gênero entre jovens egressas do ensino médio
— Sasha Cruz Alves Pereira
— Sasha Cruz Alves Pereira
O presente trabalho, desenvolvido no âmbito de pesquisa de doutorado, apresenta, por meio da análise de entrevistas semi-estruturadas e observação participante, uma seleção parcial dos itinerários e trajetórias de vida de três jovens que finalizaram recentemente o ensino médio numa escola técnica localizada em bairro periférico da zona sul da cidade de São Paulo. O ponto central é verificar como elas tanto constroem para si certa noção de autonomia por meio do exercício da sexualidade frente ao processo de transição à vida adulta, quanto utilizam estrategicamente um repertório de categorias de orientação sexual e identidade de gênero na vida cotidiana. A sexualidade constitui, para essas jovens, um fator central na construção da autonomia, uma vez que ela informa não somente opressões decorrentes de LGBTfobia, como também projetos de futuro, carreira e relacionamentos. É a partir do exercício da sexualidade que elas relatam a busca por uma fonte de renda, a saída da casa dos pais, o acesso ao ensino superior e todo um investimento financeiro e emocional em relações afetivo-sexuais. Outra marca dessa sociabilidade juvenil é o distanciamento de identidades estáveis e/ou fixas, e uma ênfase na experiência, assentada nas relações cotidianas. Ou seja, antes de se identificar como "x" ou "y" propriamente, essas jovens engajam em relações e em práticas que só depois (ou nem sempre) são nomeadas ou categorizadas. Além disso, há um uso calculado e estratégico quanto a assumir uma sexualidade fora dos padrões heteronormativos, tendo em vista os riscos que isso poderia causar, principalmente nas relações familiares. Portanto, a fluidez de categorias não é exatamente uma "indecisão", mas um modo pelo qual elas conseguem restabelecer limites e ressignificar relações.
Coordenação
Lucybeth Camargo de Arruda (UFOPA)
Carla Ramos (Universidade do Texas)
Nos últimos anos, a participação de mulheres negras, quilombolas e indígenas no debate público institucional tem influenciado agendas políticas em diversos países, inclusive no Brasil. Essas lideranças, pensadoras e gestoras ocupam e disputam espaços nos setores público e privado, atuando em diferentes áreas. Este GT tem como objetivo reunir pesquisas que investiguem a inserção dessas mulheres em órgãos públicos e outros espaços de “poder e decisão”, onde se destacam como articuladoras, pensadoras e gestoras. Buscamos compreender de que forma elas desafiam normas e padrões estabelecidos, oferecendo novas perspectivas para analisar dinâmicas de poder e possibilidades concretas de transformação social; o papel de suas memórias e trajetórias de luta, frequentemente utilizadas como força motriz e referência de conteúdo para a formulação de políticas públicas; e, por fim, as estratégias mobilizadas para atuar em ambientes historicamente refratários aos seus corpos, saberes e experiências sociopolíticas. Nosso foco é, sobretudo, o período mais recente, considerando marcos institucionais como a criação da Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Racial e da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, em 2003, e, mais recentemente, em 2023, a criação do Ministério da Igualdade Racial, do Ministério dos Povos Indígenas e do Ministério das Mulheres.
Títulos e Resumos
-
Atuação, fortalecimento étnico e articulação: um panorama sobre o protagonismo feminino no quilombo de Coqueiros/RN
— Ana Alice Galdino Cavalcante
— Ana Alice Galdino Cavalcante
O presente trabalho busca apresentar e refletir sobre a atuação das mulheres quilombolas na comunidade de Coqueiros (RN). Coqueiros fica localizada na zona rural do município de Ceará-Mirim, interior do Rio Grande do Norte. Certificada como comunidade quilombola pela Fundação Palmares em 2017, a comunidade tem se fortalecido etnicamente ao longo dos anos, criando estratégias de resistência, articulação e mobilização. Nesse cenário, destaca-se o protagonismo das mulheres do quilombo, que atuam como articuladoras e lideranças, produzindo encontros formativos dentro da comunidade, acionando políticas de reparação e ocupando espaços de decisão. Por meio de entrevistas com as mulheres e do trabalho de campo, essa pesquisa de mestrado - ainda em fase inicial - visa entender como as quilombolas de Coqueiros se articulam em prol do fortalecimento étnico. Além disso, pretendo também investigar como a autoafirmação de suas identidades enquanto mulheres quilombolas é fundamental para a organização política do território. Por fim, buscarei analisar como as lideranças locais se articulam nas esferas municipais, estaduais ou federais na busca de políticas públicas para o quilombo de Coqueiros.
-
Corpos Indígenas Mulheres no espaço de poder
— Braulina Baniwa
— Braulina Baniwa
Esse trabalho é memória escrita sobre o processo de construção na participação das mulheres indígenas, ainda quando era diretora executida da A Articulação Nacional das Guerreiras da Ancestralidade, que em 2022 aceitou o desafio de competir e ocupar espaços historicamente negados por falta de oportunidade. Nossa trajetória é marcada pela liderança nas bases regionais e nacionais, com a demarcação e o eco de nossas vozes em fóruns nacionais e internacionais.
Este trabalho de engajamento social se consolidou através das "caravanas das originárias da terra", que percorreram 32 localidades no Brasil. O objetivo foi ouvir as demandas e subsidiar a construção de políticas públicas específicas para as mulheres indígenas.
Pioneiras, nós tecemos esses processos, ocupando os lugares de fala, escrita e voz, e transformando a ausência de espaços e políticas públicas para as mulheres indígenas. Nós, as mulheres terras co-fundadoras, sonhamos e caminhamos lado a lado com companheiras não indígenas que acreditaram neste sonho coletivo.
-
Mulheres Negras na Política: O que pautar, o que representar, quais temas a visibilizar
— Maria Railma, Claudia Luz de Oliveira
— Maria Railma, Claudia Luz de Oliveira
O trabalho integra a pesquisa intitulada Desigualdades Étnico - raciais e Representação Política: Vivência de Mulheres Negras no Norte de Minas Gerais e Vale do Jequitinhonha. O objetivo geral foi apreender a percepção de mulheres negras e não negras sobre as trajetórias femininas na política e seu desempenho eleitoral. As interlocutoras foram mulheres militantes (negras e não negras), participantes de movimentos sociais e/ou atuantes na política institucional, que concorreram aos pleitos de 2016 e 2020 nos municípios do Norte de Minas e do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
A estratégia metodológica fundamentou-se em duas dimensões. Na primeira, realizou-se um levantamento de dados secundários no Portal de Dados Abertos do Tribunal Superior Eleitoral – TSE (2023a, 2023b), cruzando as variáveis gênero, raça/cor e representação política em cargos do Executivo e do Legislativo (vereança). Na segunda, foram realizados dois grupos focais: um homogêneo, com mulheres pardas e pretas do Norte de Minas; um misto (brancas, pardas e pretas), na mesma região; além de um grupo homogêneo (pardas e pretas) e um misto (brancas, pardas, pretas e indígenas) no Vale do Jequitinhonha.
As interlocutoras destacaram que a atuação política e social feminina, especialmente a das mulheres negras, deve focar em pautas que visibilizem e resolvam questões raciais e de gênero, tanto em nível municipal quanto federal. Ressaltaram a defesa de comunidades marginalizadas por meio de temas como dignidade menstrual, combate à violência doméstica e inclusão de projetos de igualdade racial. Além disso, enfatizaram a necessidade de representar grupos frequentemente invisibilizados, como quilombolas e a população LGBT+, enfrentando a resistência estrutural à ascensão dessas pautas. Assim, este artigo objetiva dar visibilidade aos achados da pesquisa sob a ótica das mulheres negras, focando nos desafios do que pautar, o que representar e quais temas visibilizar.
Coordenação
Marco Julián Martínez-Moreno (UFRGS)
Asher Brum (UFMS)
Este GT propõe discutir o masculino a partir da noção de pessoa como forma relacional, produzida em interações concretas e não como identidade fixa. Em distintos mundos sociais, a pessoa emerge na circulação de afetos, substâncias, obrigações, moralidades e vínculos; é nesse entrelaçar que o masculino ganha valor e inteligibilidade. Ao privilegiar pessoas em relação, buscamos entender como práticas de cuidado, trabalho, conflito, silêncio, presença e reciprocidade produzem modos plurais de “ser homem”, evitando essencializações e reduções moralizantes. Em casas rurais e urbanas, coletivos juvenis, instituições estatais, comunidades indígenas, territórios populares, contextos religiosos, políticas públicas e arenas jurídicas, o masculino assume contornos diversos: ora vinculado à agência individual moderna, ora imbricado em regimes de interdependência, dádiva, tutela, vigilância ou afeto. A tensão entre indivíduo e pessoa relacional é central para compreender como masculinidades se tornam inteligíveis, disputadas ou contestadas em sociedades marcadas por desigualdades diversas. Sem desconsiderar o enfoque interseccional, buscamos mostrar como antropologias da pessoa problematizam a formação, responsabilização e reconhecimento das pessoas masculinas. Convidamos pesquisas que explorem, via etnografia, as relações que constituem o masculino em contextos domésticos, comunitários, legais, religiosos, institucionais e políticos, articulando gênero, pessoa e complexidade relacional.
Títulos e Resumos
-
"Não sou e não curto": satisfação e frustração de expectativas sobre performances masculinas em aplicativos de encontro
— André Henrique dos Santos Francisco
— André Henrique dos Santos Francisco
A “vida virtual” se tornou parte integrante da vida social das pessoas, especialmente nas sociedades com maior acesso a tecnologias digitais. Há vários exemplos de plataformas utilizadas como espaços virtuais de sociabilidade e socialização, onde conta, para além
do detalhamento gráfico e outros quesitos técnicos, a dimensão das regras e normas que regem a vida social neste ambiente virtual. Se é verdade que a internet encurta distâncias e diminui barreiras, é compreensível a transposição da vida social para ambientes virtuais.
Desse modo, pouco antes da virada do milênio, começaram a surgir sites especializados em serviços de namoro online, onde os usuários podem conhecer pessoas e, por conversas e encontros, desenvolver algum tipo de contato ou mesmo relacionamentos (amizade, namoro, ficadas etc.). Esse processo é facilitado pela difusão dos smartphones, que trazem a internet para a palma da mão do usuário. O acesso facilitado
à internet levou diversos indivíduos ao uso de redes geossociais, em busca de se relacionar com outras pessoas. Mas nem sempre esse “outro” é bem-visto, especialmente em contraposição ao “eu” que pode visualizá-lo e, também, invisibilizá-lo.
Assim, nos tempos atuais é importante falar das relações de gênero e questões de masculinidades como produtos culturais que se estabelecem e se(re)produzem nos ambientes virtuais. No âmbito dos relacionamentos que se estabelecem entre homens, a busca por parceiro(s) contempla exigências específicas sobre corpos, características e comportamentos vinculados a um padrão. Basicamente, ao se cadastrar num aplicativo
de encontros, a pessoa cria um perfil contendo algumas de suas informações pessoais, bem como é instada a citar suas expectativas quanto ao tipo de encontros que esperam e pessoas que desejam. Podemos entender que cada perfil é construído pelo usuário com o propósito de chamar atenção para si, de se fazer atraente para o máximo de pessoas possíveis, dentro das condições que o usuário espera. É interessante, então, observar textos, imagens e outros elementos dos perfis para entender um pouco mais sobre as estratégias de controle de impressões como forma de valorizar o próprio perfil e angariar mais atenção.
Além disso, como o perfil é uma “isca” para atrair o interesse enquanto se navega por um mar de usuários, a observação destes, bem como as análises de entrevistas, pode ajudar a entender a construção de expectativas, sua satisfação e frustração. Nesse sentido, é possível desvelar uma série de categorias, ideias e noções ligadas às masculinidades, que se produzem e reproduzem no ambiente virtual.
-
De Exu à Oxum: masculinidade negra gay no texto poético HomoAfroErótico de Jordan
— André Luiz de Souza Filgueira
— André Luiz de Souza Filgueira
Essa comunicação visa identificar a presença da tematização da masculinidade negra homossexual, pelo erotismo-amoroso, no universo simbólico-religioso do poeta Jordan: baiano negro gay que, no ano de 2024, publicou seu livro de poemas intitulado de "Coisa feita". Na cosmovisão afro-brasileira, erotismo e amor são domínios das divindades Exu e Oxum. O que se quer é meditar sobre as relações de gênero pela representação endógena. Para que, assim, se possa cotejar limites e possibilidades dessa representação negro-masculina. Para cumprir com a analítica textual, pela carga simbólico-imagística dos poemas de "Coisa feita" (2024), serão considerados cinco poemas emissários da cosmopoética afro-brasileira, potencializadores do erotismo negro gay. São eles: “o marujo”; “copo americano”; “moqueca de siri mole”; “quando um homem preto chora” e “melanina e mel”. O direcionamento teórico dessas fontes será dado por Antônio Bispo dos Santos (2023). Ele amolou a categoria guerra das nomeações. É a apropriação das armas de ataque, utilizadas pelo adversário colonialista, na dizimação dos não brancos. Essas são adotadas como forma de defesa em um mundo hostil e violento às corporeidades e culturas azeviches. Se a palavra e o aparato científico são empregados pelas ideologias que desumanizam e matam, recorre-se aos mesmos como garantia integral das vidas negras. A categoria proposta pelo poeta baiano, poemas HomoAfroEróticos, cumpre esse fito. Jordan aceitou o combate e luta com a palavra - interseccionada com corpo, raça, gênero e sexualidade - em prol dos seus coletivos. Se a racialidade, a sexualidade e o afeto foram colocados como negação da existência negra gay, aqui eles são trazidos como dispositivos subversivos existenciais. A metodologia é assinada pelo filósofo afro-caribenho Édouard Glissant (2021). É dele a poética da relação. É a apropriação daquilo que a epistemologia eurodescendente considerou como inaptidão científica: o conhecimento da etnia africana e de seus herdeiros. Glissant (2021) vale-se desses componentes do pretérito moderno para sua construção metodológica. A poética da relação é uma espécie de ética do encontro entre o que foi desprezado, dispositivos étnico-culturais dos corpos subalternizados, aqui manifestos pela sexualidade negra gay, e a cosmopoética afro-diaspórica, pelo resgate dos mesmos, via imaginário poético. Pensando nisso, estes escritos visam investigar a dimensão erótico-amorosa negra gay, disseminada pelos referenciais das orixalidades, nos poemas do poeta Jordan. Com isso, buscam-se confirmar a veiculação, no texto poético, de representações positivas de bixas negras, dissociadas de estereótipos racializados e homofóbicos.
-
Lobos em pele de meninos: a masculinidade ressentida e a socialização da juventude perante as redes sociais
— Bruna de Oliveira Martins, Matheus da Rocha Viana
— Bruna de Oliveira Martins, Matheus da Rocha Viana
As últimas décadas tiveram a presença de um “boom” em relação às redes sociais que de forma muito natural e acabou por começar a permear a criação de uma nova juventude que já cresceu como “nativos digitais”. Tal influência chegou a gerar repercussões trágicas e reflexões do próprio Estado em como lidar com as dificuldades apresentadas. Dentro dessas repercussões, observamos que há uma crescente de jovens (tanto meninas quanto meninos) sendo expostos a conteúdos de grande teor misógino que tem cooptado muitos desses jovens para movimentos extremistas como os redpill e INCELS. Esse trabalho é uma discussão sobre como vem se fortalecendo uma masculinidade ressentida como reflexo de falta de regulamentação das redes sociais e de uma masculinidade transmitida de gerações para gerações que culpabiliza mulheres e movimentos progressistas por problemas estruturais de sua própria visão sobre uma supremacia de gênero.
-
"Trajado, cabelo na régua e posturado, vou para qualquer lugar": produção das masculinidades em barbearias na zona oeste do Rio de Janeiro
— Carlos Gonçaves da Fonseca
— Carlos Gonçaves da Fonseca
O presente trabalho analisa a construção das masculinidades na Zona Oeste do Rio de Janeiro a partir das sociabilidades e das práticas de consumo observadas em barbearias localizadas no bairro de Guaratiba. Parte-se do entendimento de que esses espaços, especialmente por meio do corte de cabelo e das interações ali estabelecidas, configuram-se como locais privilegiados de produção e performatividade das masculinidades. O objetivo central é compreender as instâncias de elaboração dessa performatividade, investigando como as masculinidades são construídas, negociadas e expressas nesse contexto. Para isso, a metodologia adotada incluiu a realização de etnografia em uma barbearia do bairro, entrevistas com barbeiros, clientes, visitantes e vendedores — sujeitos que compõem esses espaços —, além de uma netnografia sobre a representação dessas barbearias nas mídias sociais. Também foi realizado um levantamento bibliográfico que fundamenta teoricamente a análise. Este trabalho busca contribuir para a complexificação do debate sobre as intersecções entre raça, gênero, classe e território, propondo compreender o masculino a partir da noção de pessoa em uma perspectiva relacional. Assim, as masculinidades não são tratadas como identidades fixas, mas como construções produzidas e performadas nas interações, nas sociabilidades e nas relações cotidianas, evidenciando as formas plurais de ser masculino. Como resultado, pretende-se demonstrar de que maneira os regimes de conduta que atravessam o território da Zona Oeste — religião, mundo do crime e Estado — se imbricam na construção dessas masculinidades. Tais elementos operam como dispositivos de produção dos sujeitos e ressignificam marcas anteriormente associadas a estigmas sociais, transformando-as em emblemas de autoestima e orgulho, como no caso do cabelo crespo. Nesse contexto, categorias nativas como trajado, posturado e cria são acionadas pelos próprios sujeitos como formas de compreender e classificar as masculinidades locais. Essas categorias articulam aspectos como o corte de cabelo, o vestuário, a expertise territorial e o desempenho em relacionamentos afetivos, contribuindo para a construção discursiva de uma masculinidade hegemônica local — aquela considerada mais aceita e respeitada. As barbearias, portanto, configuram-se como verdadeiros palcos da performatividade masculina, onde se aglutinam marcas de território, gênero e raça, evidenciando as múltiplas formas de viver e expressar as masculinidades.
-
Diálogos sobre Masculinidades Indígenas na comunidade Taxi da terra Raposa Serra do Sol em Pacaraima-RR
— Gilmara Pinheiro de Andrade
— Gilmara Pinheiro de Andrade
Este trabalho é resultado da visita à comunidade Taxi, na terra indígena Raposa Serra do Sol no município de Pacaraima em Roraima. O Diálogos sobre Masculinidades é a etnografia que venho desenvolvendo no curso de doutorado em antropologia social da Universidade Federal do Amazonas com homens universitários sobre suas vivências dentro e fora desse espaço acadêmico.
Em fevereiro de 2025 realizei na Universidade Federal de Roraima o encontro sobre masculinidades indígenas com acadêmicos da licenciatura em educação do campo, oportunidade em que recebi o convite para levar o debate à comunidade indígena do Taxi.
Realizei por meio deste projeto de extensão e pesquisa uma roda de conversa com homens e mulheres dentro da comunidade em dezembro de 2025. Na ocasião as pessoas presentes participaram de dinâmicas que foram realizadas em torno da noção do que é ser homem em uma perspectiva indígena da etnia macuxi.
No início do debate foi pontuado por uma das lideranças que o olhar da sociedade branca para o homem indígena foi sempre de alguém bruto, mas que isso não é uma verdade e sim um estereótipo que foi disseminado. Explica a sua visão sobre o que é masculinidade: “Para ser um chefe de um povo não precisa ser na força, mas também na inteligência, um grande líder não conquista na força sendo esse macho, mas com inteligência e com respeito”.
Outros conceitos elaborados durante a roda de conversa foram: “as masculinidades não vêm só de ser homem, mas de respeito, de ouvir a opinião do outro, entender o lado do povo, como exemplo do tuxaua para que todos tenham uma boa convivência”. Um professor indígena de filosofia conceitua com uma analogia à natureza: “masculinidade é um rio em que todas as ideias convergem para o mesmo sentido, e se não tiver obstáculos as coisas correm tudo bem, nós somos uma dessas fontes que levam esse conhecimento para o mar”.
Realizei uma atividade prática em dois grupos de homens e mulheres, em comum acordo eles poderiam escolher palavras que representam essa noção do que é ser homem. No grupo dos homens foram escolhidas (pai, responsável e racional), e no grupo das mulheres (responsável e macho). Ambos tiveram em comum a palavra responsável como uma característica sendo associada ao que representa ser um homem.
O debate das masculinidades indígenas junto ao povo macuxi, abriu um espaço coletivo para falar sobre relações de gênero dentro da comunidade e possibilitou discutir diversos assuntos que perpassam o campo da antropologia das masculinidades, levantou-se pautas que segundo os participantes são pertinentes e importantes para a boa convivência e resolução de conflitos que ocorrem. Assim percebi a relevância e necessidade de expansão desses diálogos para outros povos indígenas observando sempre suas particularidades culturais.
-
Masculinidades, trabajo de intervención y afectividad: exploraciones a través del archivo de los cuerpos penitenciarios
— Jose Ricardo Gurtierrez Vargas
— Jose Ricardo Gurtierrez Vargas
Esta presentación explora y problematiza la relación entre masculinidades, trabajo de intervención con hombres y afectividad a través del archivo de los cuerpos penitenciarios de la Colectiva La Lleca: un conjunto de registros (audiovisuales, textuales y objetuales) que dan cuenta sobre las intervenciones de carácter performático-pedagógico que dicha colectiva ha implementado durante más de 20 años en centros penitenciarios varoniles de la región central de México, con la finalidad de construir espacios que faciliten a los internos reconocer y cuestionar, desde el cuerpo y sus afectos, los modos en que habitan las cárceles. Así, se recuperan algunos registros provenientes de este acervo que son abordados bajo la idea del "vínculo archivístico", la cual apunta a entender que la lectura e interpretación de los documentos que componen un acervo no se puede hacer de forma diferenciada como si esos materiales fueran entidades aisladas. En cambio, siempre deberán ponerse en relación entre éstos y con otros elementos que están fuera del archivo. De ese modo, los registros seleccionados para esta presentación se vinculan con un trabajo etnográfico más amplio que escudriña de forma directa las intervenciones hechas por la Lleca en prisión, con el objetivo de dar cuenta cómo estas acciones trastocan lo que se denomina régimen de afectividad carcelario, potenciando reconfiguraciones en las corporalidades y las formas de identificación masculina de los hombres en reclusión. Con ello, se espera contribuir a repensar, en general, el enfoque de las masculinidades y la intervención con varones como un trabajo que no solo debería apostar por estrategias cognitivas centradas en la transformación de estereotipos, roles y creencias de los varones, sino también tendría que reparar en la estructura afectivo-corporal bajo la que éstos viven, produciendo vías sensibles e imaginativas que les permitan construir otras formas (no violentas) de ser hombres en los contextos que habitan. Trabajar la afectividad en intervenciones con hombres posibilitaría, como lo demuestra el trabajo de La Lleca, explorar sus formas de identificación masculina no solo desde una serie de representaciones mentales o estados individuales, sino también a través de orientaciones y posiciones del cuerpo con respecto al medio que le rodea.
-
O que eles têm na cabeça? Barbearia, masculinidades, juventudes negras e periféricas do Distrito Federal
— Laisa Fernanda Alves da Silva
— Laisa Fernanda Alves da Silva
O objetivo da pesquisa, em desenvolvimento no bacharel em Antropologia da Universidade de Brasília, é compreender qual o papel do cabelo na construção da identidade e autoestima de homens negros, jovens e periféricos do Distrito Federal. Os movimentos negros contribuiram para uma inserção positiva do corpo negro nos espaços, especialmente na mídia (GOMES, 2003). O cabelo se apresenta como um elemento importante na construção corpórea e identitária da população negra. É tomado como símbolo de negritude. Os usos e sentidos do cabelo para os homens negros são os mesmos de que para mulheres negras? Quais tipos de sociabilidades e afetividades masculinas são mobilizadas em uma barbearia? Em especial, na apresenta como um elemento importante na construção corpórea e identitária da população negra. A partir de revisão bibliográfica, entrevistas semi estruturadas e observação participante, busco compreender algumas questões: de que forma os processos de manutenção de determinados padrões de beleza masculinos produzem a marginalização e estigmatização de corpos específicos? Quem são e de onde vêm as referências juvenis masculinas e negras? Quais relações são construídas entre dois negros jovens de periféria - cliente e barbeiro - durante um corte? Qual impacto do cabelo na construção da estética do jovem e negro?
-
Masculinidades como operador moral: conversão, reciprocidade e inteligibilidade
— Marco Julián Martínez-Moreno
— Marco Julián Martínez-Moreno
Este trabalho parte de uma etnografia realizada no Rio de Janeiro para pensar masculinidades como categoria que circula entre dispositivos de intervenção, repertórios acadêmicos e linguagens públicas, adquirindo força particular quando se trata de narrar a violência, a autoridade e a transformação pessoal. Ao acompanhar grupos reflexivos e outros espaços institucionais, observa-se a formação de um campo de inteligibilidade em que a masculinidade deixa de ser um atributo social e passa a operar como figura moral: uma maneira de tornar certas relações legíveis, avaliáveis e passíveis de correção.
O texto descreve a atuação de agentes vinculados a uma configuração transnacional de práticas discursivas, onde as técnicas sobre como falar, escutar e refletir traduzem conflitos cotidianos em termos de interioridade, responsabilidade e conversão. Nesse regime, a mudança é performada e verificada por sinais reconhecíveis reconhecimento do dano, elaboração emocional, capacidade de narrar-se como sujeito em transformação. A legibilidade do relato torna-se, assim, um problema central. Narrativas que se alinham ao léxico da conversão ganham valor. Agora, narrativas atravessadas pela reciprocidade, a obrigação e as economias morais do parentesco introduzem opacidades, deslocamentos e tensões, evidenciando limites dos repertórios modernos de tradução do outro.
A partir desse material, o trabalho aproxima debates antropológicos sobre pessoa, moralidade e secularismo para pensar como regimes contemporâneos de intervenção produzem expectativas específicas sobre a autenticidade, a responsabilidade e a mudança. Ao mesmo tempo, sugere-se que a centralidade das masculinidades excede o domínio da violência, estendendo-se a campos como o cuidado, a família e a autoridade, onde se disputam as formas legítimas de relação e as fronteiras do que conta como sujeito. O objetivo é contribuir para uma reflexão antropológica que preserve a complexidade etnográfica e trate masculinidades como operador moral situado, capaz de condensar inquietações, promessas e ambivalências do mundo social contemporâneo.
-
E quando o homem é a vítima de um estupro?
— Renê Bastos Ventura
— Renê Bastos Ventura
Quando se fala de estupro é comum que a sua ocorrência seja associada a um cenário em que uma mulher seja a pessoa estuprada e o homem seja a pessoa estupradora. Essa imagem presente no imaginário social e que não destoa dos registros nos índices de violência sexual, representa o que pode ser caracterizado como uma maioria do significante que passa a ser o significado geral (ou majoritário) ao se tratar deste fenômeno. Esse enquadramento dialoga com a concepção de que nas cenas de violência, os papéis tendem a ser distribuídos de forma generificada entre algoz e vítima, sendo a mulher identificada como a vítima ideal, em decorrência das características históricas e socialmente construídas em torno desse corpo passível de ser vulnerável, fator entendido como crucial para a efetivação do estupro (Sarti, 2009), e o homem como o algoz ideal em decorrência de suas características viris, dominadoras e violentas. Porém, o que acontece quando há uma inversão desses papéis e o homem ocupa o local de vítima em uma violência sexual?
A partir de uma etnografia digital na plataforma X (antigo Twitter), perambulei (Leitão; Gomes, 2017) pelos tweets publicados entre 2007 e 2024 que mencionam a categoria estupro masculino, com o intuito de observar como e o que se diz, o que se pensa e como se lida com essa violência neste ambiente digital e para além dele. A análise das interações entre as publicações e os comentários que relatavam casos de violência sexual contra meninos e homens possibilitou a identificação de três reações distintas diante dos enunciados apresentados: a negação, a indagação e a afirmação da existência do estupro masculino. Entre as justificativas mobilizadas para sustentar os posicionamentos e as discussões geradas em torno dos casos, foi perceptível que elas se dão pela ocupação dos homens em um lugar socialmente não reconhecido como possível para eles. Dessa forma, tais reações dialogam com crenças pessoais e coletivas acerca das possibilidades e impossibilidades de práticas e experiências atribuídas aos homens, que estão ancoradas em expectativas de gênero e em um modelo específico de masculinidade. Diante disso, coloco em questionamento: como tornar inteligível a existência do estupro masculino para aqueles que negam ou indagam sua ocorrência? Além disso, que está em jogo diante da negação ou indagação? O que pode ser percebido em casos que majoritariamente há a afirmação da existência do estupro masculino? Que tipo de homem pode ser reconhecido e legitimado como vítima de violência sexual? Neste trabalho, me proponho a refletir sobre esses e outros questionamentos em diálogo com a pluralidade de masculinidades e de suas hierarquias que são produzidas a partir de eventos críticos e da relação com o outro.
Coordenação
Lilian Alves Gomes (UCAM)
Hugo Menezes Neto (UFPE)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Glauber de Lima (UFG)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Milton Ribeiro (UEPA)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Larissa Maria de Almeida Guimarães (IPHAN)
O conceito de patrimônio de matriz eurocêntrica frequentemente reitera narrativas conciliatórias a respeito do que é digno de lembrança. A denúncia do caráter estrutural da violência, protagonizada pelas populações silenciadas pelo colonialismo nos países da Améfrica Ladina (Gonzales, 1987), vai de encontro a essa perspectiva, trazendo à tona outras agências e protagonistas na dinâmica de preservação e esquecimento. Situações traumáticas, apagadas da história oficial e da memória coletiva, têm sido cada vez mais levadas ao debate público. Os meios para tanto são diversos, como, por exemplo, as intervenções sobre monumentos legitimados; a criação de memoriais e de museus comunitários; a elaboração de antimonumentos e ações de contramemória; a releitura/reconfiguração de exposições e acervos por agentes invisibilizados ou historicamente retratados de forma estereotipada. É pertinente analisar as estratégias de contestação de narrativas supostamente estabelecidas, frequentemente povoadas por personagens brancos, cisheterossexuais, fardados e masculinos. O GT, portanto, propõe discutir: quais são os objetos, corpos, narrativas e gestos mobilizados em estratégias de contestação de narrativas patrimoniais hegemônicas? Como as questões de raça, gênero, classe e/ou sexualidade são agenciadas na disputa pela maquinaria patrimonial? Como a interpelação mútua entre a rua e a arte movimenta processos de luta pela descolonização do espaço urbano?
Títulos e Resumos
-
Coleções particulares de parteiras tradicionais: de lembranças sensíveis a políticas de reconhecimento
— Elaine Müller, Júlia Morim
— Elaine Müller, Júlia Morim
Neste trabalho, tecemos alguns apontamentos à partir de projetos recentes do Museu da Parteira com os acervos particulares guardados por parteiras tradicionais e indígenas em suas casas, e do uso desta documentação para o acesso a direitos. Após anos de políticas de saúde junto às parteiras tradicionais, boa parte delas já passou por cursos de "atualização" ou encontros de trocas de saberes que lhes renderam certificados e fotografias - a "papelagem" que, como aponta Soraya Fleischer, pode ser acionada para atestar que essas mulheres são parteiras. Aos documentos, somam-se fotografias de viagens e de cerimônias públicas, documentos das associações, a bolsa da parteira com seus objetos, cartas e cartões trocados com outras comadres. As coleções particulares das parteiras são representativas das trajetórias dessas mulheres e também do engendramento de seu ofício em sociedade nos diversos papeis desempenhados por elas. Nos últimos anos, estas coleções começam a ser acionadas para além do reconhecimento comunitário, e passam a compor dossiês inscritos em editais de prêmios para a salvaguarda de mestres da cultura popular e de Patrimônio Vivo em Pernambuco e alguns municípios. Eles saem das pastas de elástico, envelopes e sacos plásticos e são organizados de forma mais sistemática (inteligível para pareceristas destes editais), contando uma história multivalente de forma mais linear. Digitalizados, são guardados em sistemas digitais ou pen drives. O acesso a direitos, especialmente as bolsas e prêmios em dinheiro, tem exigido das parteiras um novo olhar sobre suas coleções. Recortes de jornais e fotos de viagens não são mais recordações íntimas de relações com outras parteiras, são também testemunhos com valor patrimonial e museal. Novas questões são colocadas, como a necessidade de curadoria para a decisão do que é pessoal, o que pode ser articulado para a conquista de direitos, e o que pode ser publicizado em um museu; novas habilidades são necessárias para a preservação de acervos digitais, inclusive as fotografias feitas por celulares, por um público com pouco letramento digital.
-
Direitos Humanos em Biografia: memórias sensíveis, territorialidades e agências nas margens do Estado
— Francisco Sá Barreto dos Santos
— Francisco Sá Barreto dos Santos
Direitos Humanos em Biografia foi uma série de entrevistas realizadas com o fim de analisar as trajetórias de sete defensores e defensoras vinculados ao PPDDH-PE. Esta proposta de pesquisa investiga como a visibilidade de memórias sensíveis e territorialidades de lideranças ameaçadas em Pernambuco, articulada por meio de séries biográficas e podcasts, auxilia na compreensão dos desafios e das dinâmicas de resistência frente às agências de Estado e às vulnerabilidades sociais em um estudo de natureza qualitativa e antropológica. O objetivo central é compreender o "jogo" entre memória e resistência a partir da luta por território e visibilidade, transformando a dor biográfica em agência política.
A territorialidade emerge como o alicerce da resistência, transcendendo a mera posse da terra para configurar-se como base indispensável do bem-estar e da identidade coletiva. Para José Carlos, liderança quilombola, o território é o lugar onde se constrói a escola e a segurança, exigindo que o Estado reconheça uma dívida histórica superior a 500 anos. Vera, no Engenho Ilha, denuncia o racismo ambiental do Complexo de SUAPE, contestando uma proposta de "preservação" que exclui as famílias que há cinco gerações cuidam da mata. Essa disputa reflete-se no conceito de "maretório" de Leninha em Maracaípe, onde a privatização do litoral e a vigilância ostensiva ("BBB grátis") impõem um terror psicológico de Panopticon sobre as pescadoras. Já Nazaré, a "mulher do fim do mundo", resiste solitária ao veneno da usina que polui o mangue, outrora "lugar de barriga cheia", ancorando sua permanência em uma justiça transcendental que desafia a falibilidade das leis humanas. As memórias sensíveis revelam traumas profundos que estruturam a militância contemporânea. Pai Lívio e Pai Guara enfrentam o racismo religioso manifestado em incêndios criminosos e metralhamentos de seus terreiros. O medo deixa de paralisar para tornar-se uma ferramenta política de demanda por atenção estatal. A metodologia priorizou a escuta ativa e não colonial, respeitando os ciclos naturais em entrevistas narrativas conduzidas in situ. Os debates posteriores, intitulados "ecos", permitiram que a equipe processasse categorias conceituais como a precariedade produzida pela ausência ou ineficiência do Estado.
A pesquisa evidenciou o paradoxo de um Estado que protege enquanto viola, seja por meio da truculência policial ou da inação institucional. A resistência dessas vozes opera "dobrando" as normas estatais, agenciando políticas de educação e saúde para fortalecer o corpo político das comunidades. Em última análise, a série comprova que a defesa dos direitos humanos em Pernambuco é uma ação de promoção da liberdade e do desenvolvimento humano em contextos de alta complexidade.
-
Projeto de Memória Corredor do Mundo Inteiro: Acervo encantado e memórias juremeiras
— Henrique Falcão Nunes de Lima
— Henrique Falcão Nunes de Lima
Este trabalho discorre sobre o culto da Jurema Sagrada, religião nordestina de matriz indígena, como norteadora de memórias e acervos que salientam uma criticidade ao projeto de epistemicídio, folclorização e coisificação das comunidades juremeiras através do arquivo museológico colonial. Adverso a esse modo hegemônico, tem-se luz do Projeto de Memória Corredor do Mundo Inteiro, iniciativa com objetivo de salvaguardar memórias tradicionais da Jurema, com ênfase na oralidade e na manutenção de peças litúrgicas vivas, relacionadas ao Centro Manoel Levino, espaço dedicado a este culto fundado em 1931 no município de Timbaúba/PE. Dessa forma, o trabalho expõe como o Projeto de Memória Corredor do Mundo Inteiro notifica a prática do Catimbó-Jurema e a ancestralidade indígena na Zona da Mata Norte de Pernambuco sob um pertencimento de dentro, valorizando a autorrepresentação e o acervo como condutor de saberes contra-coloniais e de afirmação.
-
Cidade das Mestras: arte, encantamento e memória na Jurema Sagrada
— Izabella Barbosa da Silva
— Izabella Barbosa da Silva
Jurema Sagrada, expressão religiosa que surge do encontro entre cultos afro e pajelança nordestina, tendo como eixo central o culto as mestras e mestres, que são espíritos que viveram nesse mundo de forma marginalizada e depois de sua morte se encantaram ganhando morada no reino da Jurema (composto por 7 cidades espirituais). As Mestras são entidades que, em sua vida terrena foram mulheres (negras, caboclas e pobres) amefricanas (Gonzalez, 1988) que habitaram as ruas dos centros urbanos e das zonas rurais, viveram da prostituição e tiveram mortes trágicas. Esses corpos femininos abjetos, sofreram os efeitos da moralidade cristã e das práticas higienistas do estado, e habitaram territórios restritos marcados pela escassez e marginalidade, como é o caso da Rua da Guia no Recife (hoje compõe o centro histórico da cidade, mas no passado foi zona de prostituição). A despeito da fama da rua, as mulheres que lá viviam tiveram também suas trajetórias de vida apagadas da história oficial, mas possuem espaço privilegiado nas narrativas míticas da Jarema. Se essas mulheres viveram sob regimes de violência racializada e interseccional (Collins, 2021), de gênero, classe, e etnia, após suas mortes, tiveram sua existência reconfigurada a entidades encantadas, habitando as Cidades da Jurema. Longe de serem moralizadas ou purificadas, essas experiências constituem a própria ontologia da Jurema Sagrada, que condensa saberes de cura, magia, proteção e mediação entre mundos. Na Jurema, essas mulheres não são lembradas como vítimas a serem redimidas, mas como presenças que converteram as necropolíticas (Mbemb, 2018) da vida em potência espiritual e autoridade ritual. É precisamente nesse ponto que o trabalho de Amanda Souza, na mostra Cidade das Mestras se torna central para essa análise. A artista faz intervenções digitais em fotografias históricas de senhoras do século XIX e XX (do acervo da Coleção Francisco Rodrigues, da Fundação Joaquim Nabuco), reanimando-as em mestras da Jurema Sagrada. Compreendendo que o fazer artístico de Ammanda Souza, não opera como mera reinterpretação estética do arquivo, mas um processo de reencantamento ontológico. As imagens, originalmente produzidas como instrumentos de classificação e silenciamento são deslocadas de seu regime colonial de poder e reinscritas como presenças espirituais que habitam uma cidade encantada. Nesse sentido, a Cidade das Mestras tensiona a cidade moderna pós-colonial, fundada na negação das existências negras e indígenas e no apagamento das suas memórias. Ao reinscrever mulheres negras como entidades espirituais e não como objetos de arquivo, o que estava confinado em arquivos seletivos retorna como presença ativa, capaz de reorganizar o sensível e desafiar os regimes oficiais de patrimônio e memória.
-
Memórias em disputa e patrimônios incômodos: o caso Renildo
— Jinx Vilhas Mauricio da Silva
— Jinx Vilhas Mauricio da Silva
Esse trabalho se debruça sobre as disputas por memória em torno do caso do assassinato de Renildo José dos Santos, vereador de Coqueiro Seco-AL, ocorrido em 1993, após Renildo declarar ser bissexual em entrevista a uma rádio. O “caso Renildo” é historicamente cindido por narrativas concorrentes que buscam circunscrevê-lo ora à violência política (associada à sua atuação como líder local intransigente), ora, mais frequentemente, à “homofobia” (visão mais recentemente questionada, sobretudo, pelo emergente movimento bissexual brasileiro). Partindo da afirmação da família de Renildo de que esses âmbitos são inseparáveis – “foi um crime político, mas sexual” –, exploro o caso e as disputas a seu respeito por meio das tensões e deslocamentos operados nas distintas iniciativas de rememoração empregadas nas décadas seguintes ao assassinato por ativistas dos movimentos sociais, por organismos de defesa dos direitos humanos, pela família de Renildo e por setores e agentes do Estado. Analiso, nesse sentido, premiações de direitos humanos criadas em nome de Renildo e registros fotográficos de suas edições, e iniciativas de ruas nomeadas em sua homenagem, tendo como base entrevistas e material etnográfico produzido durante a consulta a arquivos ao longo dos últimos anos, no contexto dessa pesquisa. Argumento que a construção de Renildo como “mártir gay” pode estabilizar a figura de “vítima” que, se crucial para a denúncia da homofobia no país em determinado momento histórico, operou simultaneamente o escanteamento de sua bissexualidade e de sua inserção nos conflitos de terra locais. Em sentido similar, importa refletir em que medida tanto as narrativas constituídas sobre o caso – em especial aquelas que frisam a brutalidade do crime –, quanto sua documentação em arquivos, podem configurar patrimônios incômodos.
-
A estátua de Sarah Baartman na UCT: disputas ao redor de gênero, raça, memória e arte
— Luana Piveta de Moura Luz
— Luana Piveta de Moura Luz
Nesta apresentação, mapeio as disputas em torno da estátua de Sarah Baartman, que ficava na entrada da Biblioteca da University of Cape Town (UCT). Instalada em 2000, foi alvo de contestação de mulheres black, discentes e docentes, pelo menos desde 2001 (Davids, Matebeni 2017; Lewis, Wicomb 2021; Schmahmann 2025). Para elas, passar diariamente por aquela representação de Sarah, a caminho de seu espaço de estudo, era um lembrete de qual lugar deveria ser ocupado por seu corpo na universidade e na produção científica (Naidoo 2020).
Em 2015, a UCT foi chacoalhada pelo movimento Rhodes Must Fall (RMF), que levou à retirada da estátua do colonizador inglês Cecil John Rhodes do campus e denunciou o legado colonial, o racismo e o patriarcado na UCT (Mbembe 2015). Neste contexto as mulheres e pessoas queer black realizaram uma série de intervenções também na estátua de Sarah Baartman.
Em algumas dessas ações, a estátua foi vestida, adornada com turbante e presenteada com impepho (incenso tradicional sul-africano), gestos que buscavam reinscrevê-la em registros de cuidado e dignidade. Essas ações, entretanto, foram sistematicamente desfeitas pela instituição, produzindo debates sobre liberdade de intervenção e política institucional de memória.
Outras leituras tensionam interpretações que compreendem a estátua apenas como reprodução da violência colonial. Lewis e Wicomb (2021), assim como Schmahmann (2025), destacam que a obra deve ser situada na trajetória de Willie Bester enquanto artista coloured e ativista anti-apartheid. Nessa perspectiva, a escultura pode ser lida como denúncia de paradoxos coloniais e como tentativa de dignificação de Baartman no espaço universitário; e os atos como vestir a estátua, como desrespeito à obra e ao artista.
As disputas em torno da estátua não podem ser dissociadas da trajetória de Sarah Baartman. Saartjie foi uma mulher Khoikhoi, levada para a Inglaterra para ter seu corpo exibido em shows e feiras e ficou conhecida como Vênus Negra. Mesmo após sua morte seu corpo continuou sendo exibido no Musée de l’Homme em Paris até 1986. Apenas em 2002, seus restos mortais foram levados de volta para a África do Sul, com a realização de uma cerimônia Khoisan.
Em 2018, a escultura foi realocada para uma exposição no campus e, depois, transferida para o storage. No mesmo ano, o prédio central da UCT foi renomeado, no bojo das diversas transformações institucionais impulsionadas pelo movimento RMF. Antes, celebrava um inglês parceiro de Rhodes na empresa colonial e atualmente leva o nome Sarah Baartman Hall.
Sem propor um esquema simplificado, mapeio as complexidades da disputa ao redor da estátua de Sarah Baartman, que revela conflitos mais amplos sobre memória, raça, gênero, representação e descolonização na África do Sul.
-
A COLHEITA DE DAN - Instalação de Gê Viana: Assentamentos de Memórias Negras na 36ª Bienal de São Paulo
— Luzia Gomes Ferreira
— Luzia Gomes Ferreira
Dan, é um vodum na nação Jeje maranhense, é Bessen na nação Jeje do Recôncavo Baiano, e é Oxumaré na nação Ketu da Bahia, serpente sagrada, que anda sobre a terra, mas também é o arco-íris que está no céu e na água. O vodum Dan, não estava representado com suas insígnias na instalação “A colheita de Dan”, da artista maranhense Gê Viana, no entanto, o sagrado do vodum Dan se presentificou na ambiência do sensível que a artista criou e nos convidou a olhar e a escutar uma radiola de reggae maranhense com clássicos das pedras do reggae e do tambor de crioula, fotografias e notícias de jornais. Um assentamento de memórias negras, de frente para a porta de entrada da 36ª Bienal de São Paulo. Uma obra de grandes dimensões, mas que se expandia para além da forma, porque nos apresentava a possibilidade de pensarmos como as criações artísticas de autorias negras podem materializar restituição de imagens, recriar imaginários emancipatórios, almejar justiça social, apresentar territórios nos quais as matrizes religiosas são alicerces para muitas existências negras, compreender a beleza da alegria do corpo que dança como um direito incondicional, colher memórias cultivadas secularmente por mãos negras e semeá-las nas estradas que andam viandantes. A 36ª Bienal de São Paulo, ocorreu no período de 06 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026, teve como título Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática, inspirado no poema “Da calma e do silêncio”, da escritora brasileira Conceição Evaristo. A curadoria geral foi realizada pelo curador Prof. Dr. Bonaventure Soh Bejeng, camaronês, residente em Berlim, Alemanha. Visitei a Bienal nos dias 04 e 05 de dezembro de 2025 e senti-me acolhida para descansar o olhar, esfriar o corpo, desacelerar a mente e contemplar a beleza que as poéticas das obras de artes podem nos ofertar. A poesia de Dona Conceição Evaristo, estava nos alinhavos das memórias que me faziam transitar maleavelmente pelos trabalhos expostos nos andares do pavilhão projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Em dois dias de andanças pelas salas expositivas, a instalação “A Colheita de Dan”, conectou-me com as tecnologias religiosas das nações do Recôncavo Baiano de onde sou e que estão para além de mim, por outro lado, mostra como as populações negras construíram fundamentos de memórias que estando ou não, nos museus, nas grandes e famosas Bienais de arte, lembrou-me quando Dionne Brand afirma: “A arte, talvez a música, talvez a poesia, talvez movimentos constantes e ansiosos – a dança e a velocidade – sejam os únicos confortos.” (Brand, 2022, p.41).
Palavras-Chave: Arte Contemporânea; Bienal; Dan; Instalação; Memórias Negras.
-
Regimes de verdade e disputas pelo passado: A cidade como texto em Laranjeiras/SE.
— Mesalas Ferreira Santos
— Mesalas Ferreira Santos
Este trabalho analisa a cidade de Laranjeiras, município do estado de Sergipe, a partir da noção da cidade como texto, compreendendo a escrita da história local como prática discursiva atravessada por relações de poder, silenciamentos e disputas de memória. O foco recai sobre a narrativa historiográfica que se consolidou como versão oficial da história da cidade, estruturada por epítetos como “Atenas Sergipana” e “Idade de Ouro”, amplamente difundidos em obras eruditas, discursos institucionais, ensino escolar e políticas de patrimonialização. Tais enunciados operam como tecnologias de produção de verdade, naturalizando uma leitura evolucionista e teleológica do passado, fundada em matrizes do romantismo europeu, do positivismo histórico e do evolucionismo cultural, ao mesmo tempo em que invisibilizam conflitos coloniais, a violência da escravidão e as agências indígenas e afrodescendentes. Problematiza a patrimonialização desse passado como processo seletivo, no qual determinados marcos, edifícios e narrativas são celebrados, enquanto memórias sensíveis são relegadas ao silêncio ou enquadradas como folclore residual. Nesse contexto, as expressões culturais populares da cidade, especialmente os folguedos, são analisadas não como sobrevivências culturais, mas como performances que reinscrevem o passado no presente, tensionando e, por vezes, subvertendo a narrativa histórica hegemônica. As brincadeiras, cortejos, personagens e dramatizações acionados pelos brincantes atualizam memórias de violência, escravidão, conflito e resistência, operando como práticas de contra memória que expõem as fissuras do discurso patrimonial oficial. Ao performatizarem episódios históricos, hierarquias raciais e conflitos coloniais de forma ambígua, festiva e crítica, os folguedos produzem leituras alternativas da história da cidade, deslocando o patrimônio do registro monumental e conciliatório para o campo do patrimônio do vivido. Assim, o trabalho argumenta que a interpelação entre narrativa historiográfica, políticas de patrimonialização e performance cultural constitui um campo privilegiado para compreender como memórias subalternizadas disputam o espaço urbano, os regimes de verdade e os sentidos do passado. A análise contribui para os debates antropológicos sobre memória, patrimônio, colonialidade e descolonização das narrativas históricas no espaço urbano e da cultura.
-
Bordar memória, fazer política
— Milena de Oliveira Silva
— Milena de Oliveira Silva
Esta comunicação visa discutir questões suscitadas em uma investigação em andamento, dedicada ao campo dos ativismos têxteis no Brasil contemporâneo. Se propagando desde pelo menos os anos 1970 em diversos países latino-americanos, manifestações políticas protagonizadas por mulheres configuram modos renovados de expressão se valendo sobretudo de tecidos, linhas e agulhas. Por meio de uma reapropriação estratégica dos têxteis, ativistas visam subverter concepções e fazeres convencionalmente associados à experiência feminina e à vida doméstica, imprimindo suas vozes na arena pública. Tais ações políticas, conhecidas como “ativismos têxteis”, passam a se difundir no Brasil a partir dos anos 2010, com destaque para o conjunto de coletivos que se identificam como “Linhas” – do Horizonte, de Sampa etc. –, dedicados à produção de bordados de temas diversos, associados às pautas de movimentos políticos de esquerda brasileira e global.
Dentre tantas preocupações desses coletivos, uma de grande destaque é o compromisso com a preservação de memórias coletivas, que ganham com o bordado novas texturas e composições. Isso ocorre em projetos que, reunindo várias “Linhas”, têm por objetivo a criação de peças bordadas que levam nomes de mortos, desaparecidos, manchetes e outros símbolos de determinados períodos da história.
Considerando os traços particulares desse tipo de criação e de ação, que articula fazeres artísticos-artesanais à política, gênero e memória, proponho uma reflexão sobre dois projetos organizados pelas Linhas, sendo um deles uma homenagem aos mortos pelo vírus Covid-19 no Brasil, durante 2020 a 2022, e o outro dedicado aos mortos e desaparecidos no período da ditadura militar brasileira (1964-1985). Busco argumentar que esses projetos – compostos por grandes painéis bordados à mão – constituem suportes alternativos para uma memória que é feita e preservada a cada ponto como um compromisso ético e político.
-
Candomblé em Silêncio? Etnografia de Arquivo e a Resistência da Dinastia Padre Nosso em Maceió (1885-1940)
— Ulisses Neves Rafael
— Ulisses Neves Rafael
Analisamos aqui a trajetória da família “Padre Nosso”, cuja experiência percorre, através de uma série de artimanhas, um longo arco temporal da história política e cultural de Maceió. A categoria "Candomblé em Silêncio", vem das contribuições de Gonçalves Fernandes que em 1936 visitou o terreiro de Vicente Padre Nosso na capital alagoana e aparece aqui como uma indagação acerca do suposto desaparecimento dos terreiros em Alagoas no pós-Quebra de 1912. Discutimos essas vidas situadas em zonas intersticiais que, ora se beneficiaram da proteção benevolente das elites políticas, ora se viram sob forte ameaça por parte do Estado que sempre criminalizou as práticas religiosas também denominadas “Xangô”. A partir de documentos localizados recentemente estendemos o arco analítico de nossa investigação, que começa com o fim da monarquia (1885) para alcançar o advento do Estado Novo. Sob este aspecto, vimos etnografando arquivos como campo de poder e de violência institucional, mas também buscando neles as táticas de resistência que incluíam, por exemplo, ingresso nas forças de segurança para melhor camuflar os cultos domésticos. O silêncio é repensado como agência política e o suposto "apagamento” como forma de evitar as constantes “ciladas policiais”. Fundamentamos nossa análise em autores como Michel-Rolph Trouillot e Olívia Maria Gomes da Cunha, através dos quais compreendemos melhor aspectos da permanência dos cultos religiosos de matriz africana em Alagoas.
-
Casa Grande do Marinheiro no Quilombo-Indígena Tiririca dos Crioulos/PE ou: patrimônio, memória e identidades não autorizadas
— Vy Motta Ferreira
— Vy Motta Ferreira
A proposta desta apresentação é se debruçar sobre um local de uso ativo e de preservação da memória de um território, onde as confluências (SANTOS, 2023) entre os povos nativos e negros, no caso indígenas Pankará e quilombolas, se expressam sob o olhar da antropologia: a Casa Grande do Marinheiro, que se localiza no ‘Quilombo-Indígena’ Tiririca dos Crioulos em Carnaubeira da Penha, no sertão do estado de Pernambuco. É um espaço em que se encontram elementos fotográficos da comunidade e dos ancestrais mais antigos dela, objetos que narram vínculos familiares e cartazes de projetos que descrevem parte de sua história. “Como se fosse um museu” foi a primeira explicação do local recebida em campo, em um contexto de observação do último Toré do ano de 2025, que ali acontece mensalmente. Seus usos expressam como a memória que ocupam as paredes dialogam com a manutenção da tradição a partir de suas práticas rituais e do uso da jurema sagrada em um mesmo espaço que abrange as identidades dos moradores da Tiririca dos Crioulos, fazendo com que a Casa Grande possua importância não somente material mas tem simbólica. Sendo parte da pesquisa de Mestrado desempenhada no Programa de Antropologia Social da UNICAMP e estando em andamento sobre análises das enunciações de uma possível identidade ‘afroíndigena’ a partir das memórias particulares do território narrado, este trabalho busca sobrevoar questionamentos não somente circunscritos ao Discurso Autorizado de Patrimônios como elabora Laurajane Smith (2021), mas também sobre os locais, usos e as identidades que serão autorizadas dentro de um sistema hegemônico das discussões do campo político, social e acadêmico.
Coordenação
Roberta Sampaio Guimarães (UFRJ)
Adriana dos Santos Fernandes (UNIFESP)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Patrícia Birman (UERJ)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Edson Miagusko (UFRRJ)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Cibele Rizek (US)
Este GT visa estimular o debate em torno das metodologias de pesquisa sobre “memórias sensíveis”. Como memórias sensíveis, denominamos as elaborações conscientes sobre os eventos violentos ou críticos autorizados ou impetrados por agentes estatais – como os referentes à invasão e exploração de terras indígenas; às formas de segregação racial; à repressão, tortura e assassinato cometidos por forças da ordem; às expulsões e deslocamentos habitacionais forçados; aos crimes ambientais, entre outros. Trata-se de memórias que, além de marcadas por dor, sofrimento, raiva e vergonha, são forjadas, moduladas e negociadas por indivíduos e coletividades que clamam pelo engajamento público, pela identificação de culpados e por reparações no tempo presente. Com esta proposta, buscamos reunir trabalhos que reflitam sobre a investigação de arquivos oficiais, acervos pessoais, portais de notícias, falas testemunhais, expressões artísticas e demais fontes fragmentadas de registro e seus usos na elaboração etnográfica. Mais do que entrecruzar experiências individuais e coletivas, nos interessam reflexões dedicadas a compreender as ambiguidades, lacunas e imprecisões narrativas, os posicionamentos discursivos, os regimes de verdade, os dilemas éticos e políticos e as estratégias de enunciação para lidar com as ambivalências dos sentidos e ações.
Títulos e Resumos
-
Nos rastros de um acervo sobre moradores de rua: memórias e disputas nos anos da redemocratização
— Adriana dos Santos Fernandes, Joana Barros
— Adriana dos Santos Fernandes, Joana Barros
A partir da pesquisa documental e etnográfica num acervo da Associação Rede Rua dos anos 90, na cidade de São Paulo, assinalaremos os serviços criados nesse período (abrigos e políticas da assistência), procurando compreender os modos de vida e a economia moral que constituíam esse contexto. Eram tempos de utopia democrática na cidade com o governo de Luiza Erundina. Ao mesmo tempo, o neoliberalismo se instalava por dentro do Estado precarizando serviços e equipamentos. Assegurar direitos e construir uma rede efetiva de proteção social para os "lascados" eram pilares principais do grupo responsável pelo Centro de Convivência do Brás. Através de um conjunto de matérias de jornal (os clippings) e os livros-ata do Centro de Convivência propomos discutir os marcadores étnicos-raciais e de gênero para pensar a autonomia possível, os avanços e limites no processo de construção da vida digna.
-
Privatização da vida: mercadorização, finança, violência nos conjuntos habitacionais da capital paulista
— Ana Luiza Vieira Gonçalves, Cibele Saliva Rizek
— Ana Luiza Vieira Gonçalves, Cibele Saliva Rizek
A presente proposta parte de uma reflexão acerca do conjunto de violências que se entrecruzam nos processos de expulsão dos moradores de conjuntos habitacionais da capital paulista, sejam eles consolidados - já que produzidos como bairro pelo estado nas últimas décadas do século passado, como é o caso de Cidade Tiradentes na Zona Leste da cidade - ou muito recentes como o Conjunto Residencial Espanha na Zona Sul de São Paulo, produzido pelo Programa Minha Casa Minha Vida. Argumentamos que a privatização da gestão dos condomínios parece articular a violência da monetarização e da mercantilização da vida, recrudescendo as condições de endividamento que assolam a população de baixa renda no Brasil.
Dessa perspectiva articulam-se os projetos de privatização de serviços e equipamentos públicos, com processos de gestão condominial, hegemonizados pelos padrões de acumulação financeira, o recrudescimento severo do endividamento da população pobre, como resultado tanto dessa hegemonia como dos vínculos orgânicos entre as perspectivas do Estado e a dominância do capital financeiro. Essas articulações conformam padrões nem sempre inteligíveis de violência de Estado que incide sobre os moradores dos bairros periféricos reconfigurando fortemente até mesmo a face mais consolidada dessas periferias de formação anterior e mais consolidada. A incidência dos modos de privatização da gestão condominial escancara e agrava o fato de que “a conquista da casa própria via programa habitacional” não implica nem estabilização relativa nem das condições de vida nem dos conflitos em torno do direito de morar. Vale reforçar que a conquista da casa própria em geral não representa a superação de formas múltiplas de precariedade, independente do arranjo institucional da qual resulta.
O que argumentamos, no entanto, é que a privatização da gestão constitui novas formas de violência, que sua aceleração e recrudescimento obedece a um projeto que articula capital investido no setor imobiliário e Estado, processo que agrava o já elevado endividamento das famílias de menor renda. Esses processos combinados resultam assim do recrudescimento da produção de violência estatal pela instalação de um governo privatizante e privatizado da pobreza e de seus territórios.
-
Dor, luto e estigma: os desafios etnográficos de uma pesquisa com camelôs
— Ana Paula Potengy Grabois
— Ana Paula Potengy Grabois
Este trabalho tem como base a tese de doutorado de minha autoria defendida em 2025 no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UERJ, uma etnografia com uma família de camelôs que vende bebidas na noite do centro do Rio de Janeiro. Maria, a líder do grupo, foi a principal pessoa que contribuiu. Sua realidade é marcada por violências diversas. Há a violência das forças repressivas municipais que atuam contra o trabalho de ambulantes a Secretaria da Ordem Pública e a Guarda Municipal, sob um estigma social que enquadra os camelôs na marginalidade.
Houve a morte precoce de uma filha, usuária de crack. Espancada na rua, morreu após hospitalização. A busca por justiça era inviável: algumas áreas onde o trabalho de venda da família é realizado são comandadas pelo tráfico de drogas e, por consequência, pela circulação de mercadorias políticas (MISSE, 2006), o que envolveria agentes estatais. A filha foi morta provavelmente porque estava devendo ao tráfico.
Um dos primeiros desafios da pesquisa foi lidar com a questão do tráfico. Como eu poderia falar desse importante componente do cotidiano desses camelôs sem configurar um problema a eles? A decisão foi falar, embora sem dar nome às pessoas envolvidas e omitir os locais exatos dos pontos de venda.
A presença do tráfico se dava ainda em uma das ocupações onde Maria tinha um quarto para descansar. Durante a escrita etnográfica, me deparei com dúvidas sobre mencionar isso, pois poderia criminalizá-la. A estratégia foi mostrar a sua fala sobre, em como se deu essa enunciação (no fim da pesquisa de campo, quando havia maior confiança) e a sua opinião.
A morte brutal da filha abalava Maria, que não conseguia dormir e tinha crises de pânico. Tive que aprender a lidar com a dor e o luto, mas como narrar sentimentos tão individuais e, ao mesmo tempo, devastadores? Como dar sentido ao que ela falava ou pouco falava? Será que não estava interferindo muito na sua vida? Se aquilo que era tão pessoal, deveria ser exposto? Ao mesmo tempo, Maria queria falar da sua dor.
As situações de violência na vida ordinária, nos termos de Veena Das, estavam presentes o tempo todo. O quadro de exceções cotidianas me espantava. Como ela conseguia seguir? Como interpretar e descrever o que via e ouvia? Aos poucos, aprendi a entender mais o seu modo de vida, recheado de exceções ordinárias, e como ela seguia. Como destaca Das, testemunhar é uma forma de atestar a criatividade da vida, do que é criado por quem sofre com a violência para seguir em seu cotidiano e reabitá-lo.
A narração era uma forma de recusa à cumplicidade com o que Das denomina de "amnésia oficial". O próprio ato de sentir a dor no corpo do outro, assim, se torna uma maneira de elaborar um conhecimento através da escrita etnográfica.
-
Entre Memória e Esquecimento: Políticas da Aids, Testemunhos e Memoriais
— Carlos Guilherme Octaviano do Valle
— Carlos Guilherme Octaviano do Valle
A pesquisa propõe uma reflexão sobre os processos de memória e esquecimento relacionados à epidemia de HIV/aids, compreendida como um evento crítico global. Inicialmente marcada por representações associadas ao perigo, à estigmatização e à morte, a aids passou, a partir do início do século XXI, a ser ressignificada. Esse deslocamento produziu um processo de “banalização” da epidemia; por outro, contribuiu para a negligência das experiências pessoais e coletivas de sofrimento social. Nesse contexto, o silenciamento em torno da aids pode ser entendido como uma forma específica de estigmatização, operando por meio de uma violência simbólica dirigida àqueles que viveram, sofreram e resistiram durante a epidemia. O esquecimento, portanto, não se configura como um processo neutro, mas como resultado de dinâmicas sociais e políticas que produzem apagamentos e novos “não ditos”. Diante disso, o problema central desta pesquisa consiste em analisar os processos sociais que produziram o esquecimento, o silenciamento e a rememoração em relação ao HIV/aids. Com base no diálogo teórico com autores como Halbwachs, Pollak, Veena Das e Didier Fassin, e articulando essas contribuições à minha própria etnografia, investigo como a memória da aids vem sendo disputada frente ao esquecimento e ao progressivo desaparecimento de seus traços de memória. A análise é desenvolvida a partir de dois contextos nacionais distintos — Brasil e Espanha (Catalunha), permitindo compreender de que modo diferentes regimes de memória, políticas públicas e narrativas sociais moldam as disputas contemporâneas em torno da lembrança e do apagamento da epidemia.
-
Narrar a partir dos ruídos: cotidiano, Estado e violência em uma favela carioca
— Caroline Laya de Menezes
— Caroline Laya de Menezes
Situado na transição entre o mestrado e o doutorado, este trabalho emerge das inquietações que atravessam um momento de inflexão do percurso de pesquisa e propõe discutir como construir narrativas antropológicas a partir de ruídos de memória e de informações fragmentadas. A reflexão toma como ponto de partida a pesquisa de mestrado realizada na Favela do Muquiço, na zona norte do Rio de Janeiro, voltada à experiência cotidiana da violência estatal a partir do caso da morte de Evaldo dos Santos Rosa e Luciano Macedo, em 2019.
Na dissertação, o foco recaiu sobre os silêncios como estratégias de sobrevivência e gestão da violência, especialmente diante de acontecimentos que não se estabilizam como eventos reconhecíveis. No presente trabalho, o interesse analítico desloca-se para aquilo que circula apesar (e por meio) desses silêncios: rumores, boatos, mensagens de WhatsApp, sons e fragmentos narrativos que não se apresentam como informações completas, mas que orientam práticas, decisões e formas de habitar o cotidiano. Esses ruídos são compreendidos não como falhas comunicativas, mas como tecnologias ordinárias de produção de sentido, por meio das quais se administra o medo, se antecipa o risco e se sustenta a continuidade da vida.
Em diálogo com autoras e autores como Veena Das (2020), Michael Taussig (1993), Adriana Petryna (2002) e Clara Han (2021), o trabalho argumenta que, em contextos marcados pela violência reiterada, o cotidiano não se organiza apenas pelo que não pode ser dito, mas também por aquilo que só pode circular de forma ambígua e incompleta. Saber demais pode ser perigoso; saber de menos, inviável. Nesse sentido, os ruídos configuram uma economia cotidiana do não-saber, articulando cuidado e ameaça, proteção e risco.
Ao retomar e aprofundar essa noção, o trabalho propõe pensar os ruídos não apenas como objeto empírico, mas como princípio de construção narrativa, interrogando os limites da escrita etnográfica diante de contextos de guerra difusa. Essa aposta analítica abre caminho para os rumos do doutorado, voltado a investigar as percepções do Estado em territórios de favela, a partir da articulação entre documentos oficiais, comunicações digitais e registros ordinários. Assim, o texto busca iluminar tanto as continuidades e deslocamentos entre mestrado e doutorado, quanto as possibilidades de narrar o Estado a partir de suas presenças difusas, fragmentadas e ruidosas no cotidiano.
-
Entre o “velho oeste" e a ordem do crime: memórias sensíveis e desafios metodológicos numa favela da grande São Paulo
— Edson Miagusko
— Edson Miagusko
Este trabalho busca analisar as formas de governo nas margens em uma favela da Grande São Paulo, procurando compreender como diferentes poderes — incluindo as redes comunitárias, o governo estatal e o crime — moldam a vida cotidiana e a produção de subjetividades nas periferias urbanas. O trabalho dialoga com as memórias sensíveis ao investigar a transição entre o período do "velho oeste" — marcado por matadores e vinganças privadas sem fim, pela violência estatal — e a atual regulação centralizada pelo crime organizado (PCC), frequentemente descrita por moradores antigos como um "sentido civilizatório". Por meio de uma etnografia, analisamos as nuances desses diferentes modos de governo, a produção de subjetividades, os ordenamentos e as estratégias de sobrevivência dos moradores.
A primeira história acompanha a atuação de um disciplina do PCC nos espaços de sociabilidade da favela, a partir dos conflitos cujos desdobramentos regulam os ordenamentos na favela. Essa figura ilustra a influência do crime na gestão de conflitos e na imposição de normas informais, revelando uma forma de governo das margens.
O segundo caso etnográfico tem como foco a trajetória de uma liderança comunitária e ex-operário da favela. Sua experiência e memória das mudanças, do antes marcado por outras formas de violência, como o tempo dos matadores, ao depois, com a crescente influência da regulação do crime, oferecem uma perspectiva temporal sobre a reconfiguração das dinâmicas de poder e gestão dos ilegalismos, interconectando as mudanças sócio-econômicas, as memórias da violência e a consolidação de novas formas de governo nas margens.
-
Arquivos da suspeita: vigilância estatal, cultura e violência cotidiana
— Emanuelle Garcia
— Emanuelle Garcia
Nos últimos anos, os estudos sobre a ditadura militar brasileira passaram a contar com novas fontes históricas antes inacessíveis. O acesso a arquivos anteriormente classificados como sigilosos, viabilizado pela Lei de Acesso à Informação (2011) e pela Comissão Nacional da Verdade (2012), possibilitou novas abordagens sobre esse período da história brasileira. Nesse contexto, documentos produzidos por órgãos de repressão e vigilância, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), passaram a ser mobilizados não apenas como fontes históricas, mas como objetos analíticos capazes de revelar como o Estado produziu classificações, suspeitas e regimes de controle sobre a vida social e cultural.
Entre os sujeitos vigiados pelo aparato repressivo, artistas e intelectuais ocuparam lugar central, sobretudo aqueles cuja produção cultural tensionava projetos autoritários. Glauber Rocha, figura emblemática do Cinema Novo, foi alvo da vigilância estatal, tendo sua trajetória artística e pessoal acompanhada e classificada pelo SNI ao longo dos anos. A leitura desses documentos não se limita à reconstrução de episódios de censura ou perseguição, mas permite compreender a vigilância como prática cotidiana de governo.
Inspirada nas contribuições antropológicas de Ann Laura Stoler, esta pesquisa compreende o arquivo não como repositório neutro, mas como tecnologia ativa de poder, na qual o Estado designa fatos sociais como questões de segurança (Stoler, 2008, p. 26). Assim, os documentos do SNI são entendidos como práticas de escrita que produzem conhecimento, organizam suspeitas e constroem sujeitos governáveis. O arquivo não apenas registra Glauber Rocha como objeto de vigilância, mas participa da produção de sua imagem como ameaça cultural e política, ao traduzir sua linguagem cinematográfica e estética em categorias de risco e subversão à "ordem" do regime.
Ao mesmo tempo, argumenta-se que a vigilância e violações aos Direitos Humanos exercidas pelo Estado antidemocrático não devem ser compreendidas como eventos episódicos, mas como formas de violência que "se prendem e penetram à vida cotidiana", em diálogo com a antropóloga Veena Das (2020). E que afetam profundamente trajetórias de vida e processos criativos.
Assim, a vigilância sobre Glauber Rocha é analisada não apenas como controle político, mas como experiência que atravessa o cotidiano da criação cultural. O exílio, os deslocamentos e as interrupções de sua trajetória são compreendidos como efeitos de uma violência duradoura na vida social. Ao propor uma etnografia da vigilância a partir dos arquivos do SNI, a pesquisa busca compreender como práticas estatais ordinárias produziram formas persistentes de controle sobre a cultura, contribuindo para reflexões sobre autoritarismo, memória e democracia no Brasil.
-
Para Além do Componente Emocional: A trajetória das mulheres do MST na constante luta contra a repressão Estatal
— Gabriel Amaral de Carvalho
— Gabriel Amaral de Carvalho
Desde antes da primeira grande ocupação comandada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em 29 de outubro de 1985, na Fazenda Annoni, município de Sarandi (RS), o Estado já mobilizava suas forças de segurança para proteger a propriedade privada dos grandes latifundiários. A própria Fazenda Annoni contava, mesmo antes da ocupação, com o apoio da polícia local para impedir invasões às suas terras.
Na primeira ocupação do MST, a imagem de mulheres e crianças foi explorada para sensibilizar a opinião pública e, assim, mitigar a severidade da repressão policial sobre os ocupantes. Contudo, o papel das mulheres no movimento não podia ser reduzido ao componente emocional: era preciso garantir sua emancipação e reconhecê‑las como agentes políticos ativos, dentro e fora do movimento. Ao longo dos anos, sua participação deixou de ser coadjuvante para assumir papel central de liderança e influência no MST.
O ponto alto dessa construção política ocorreu em março de 2006, quando mulheres da Via Campesina ocuparam o canteiro da empresa Aracruz para denunciar os impactos ambientais, sociais e econômicos do agronegócio e da monocultura de eucalipto — batizada pelas manifestantes de “desertos verdes”.
Com esse novo reconhecimento, mulheres passaram a ocupar espaços de direção no movimento: liderando, coordenando, organizando e administrando os acampamentos. Mesmo assim, o Estado manteve a repressão às ocupações; a presença majoritária feminina em muitos acampamentos não reduziu a atuação das forças de segurança.
A partir desse contexto, este trabalho propõe, por meio de análise bibliográfica de notícias e textos, classificar as ações do Estado contra ocupações compostas majoritariamente por mulheres. Perguntas orientadoras: a presença feminina continua a sensibilizar e, com isso, a conter o uso da força estatal? E, desde 2006, quais estratégias e instrumentos o Estado tem empregado para reprimir essas manifestações?
-
"Seguimos..., mas sem jamais esquecer! 15/02": Petrópolis, as chuvas de 2022 e registros de memória de uma tragédia coletiva
— Gabriela Almeida Kronemberger
— Gabriela Almeida Kronemberger
A cidade de Petrópolis, na região serrana do Rio de Janeiro, vem sendo marcada ao longo de sua história por tragédias recorrentes relacionadas a fortes chuvas. Esses eventos críticos, sejam denominados por catástrofes, tragédias ou desastres, recebem cobertura jornalística intensa e, Petrópolis, se torna conhecida nacionalmente, não só por sua história imperial e atratividade turística, mas também por ser considerada um símbolo, talvez uma “memória exemplar” (TODOROV, 1998), de tragédias associadas às mudanças climáticas. Apesar de Petrópolis ser recordada frequentemente por esses episódios, há entre os petropolitanos uma preocupação frequente de que a tragédia ocorrida em 2022 - considerada como a maior tragédia climática já registrada na história do município - caia no esquecimento e se torne apenas mais uma entre as tantas já registradas na história da cidade. Neste trabalho, procuro investigar quais ações se sucederam às chuvas de 2022 em Petrópolis e demonstram uma “vontade de memória” (BORGES, 2016), um desejo de não se deixar esquecer e construir uma memória sobre a tragédia de 2022. Quais atos foram realizados para se falar sobre a tragédia? Quais práticas, suas formas, objetos e imagens, foram acionados para falar sobre a tragédia, não deixar esquecer e construir uma memória? Quais são os mecanismos produtores de “registros de memória” sobre a tragédia em Petrópolis? Para buscar responder a essas questões, segui o fluxo do tempo, valendo-me de materiais diversos consultados em ambientes digitais, como fotografias, vídeos, sites, e análise de materiais de imprensa relacionados aos episódios abordados. A pesquisa, ainda em andamento, revela que desde a semana seguinte às chuvas do dia 15 de fevereiro de 2022, vários atos públicos foram realizados em datas que passaram a funcionar como “marcadores de tempo” e “ativadores de memória” (JELIN, 2012) para o seu não esquecimento. A realização desses atos públicos como um trabalho de memória não diz respeito apenas ao não esquecimento do evento em si e daqueles que já se foram, mas também daqueles que permanecem, com o passar do tempo, vivenciando as consequências da tragédia, buscando, assim, cobrar mudanças e medidas preventivas para evitar sua repetição no futuro. Os atos públicos, realizados em datas “marcadores de tempo” da tragédia, são acompanhados pela produção e circulação de reportagens sobre os atos e sobre a recordação da tragédia. E de tal modo, diversos “registros de memória” vão sendo criados e compõem um mosaico fragmentado de construção de memória sobre esta tragédia em Petrópolis.
-
Mortes e Além: Etnografia da Violência Estatal e das Mobilizações por Justiça nas Operações Escudo e Verão
— Isabela Vianna Pinho, Evandro Cruz Silva, Anna Clara Pereira Soares
— Isabela Vianna Pinho, Evandro Cruz Silva, Anna Clara Pereira Soares
Este trabalho analisa as Operações Escudo e Verão, realizadas pela Polícia Militar do Estado de São Paulo na Baixada Santista entre julho de 2023 e abril de 2024. Embora exista essa delimitação temporal, consideramos que essas políticas produtoras de mortes continuam a se manifestar no cotidiano dos moradores de morros, palafitas e periferias das cidades da região. Juntas, as duas operações resultaram em pelo menos 93 mortes de civis - contando apenas as confirmadas oficialmente-, posicionando-se entre as ações mais letais da polícia paulista na história recente.
O objetivo principal é descrever o modo de funcionamento dessas operações e seus efeitos violentos e persistentes sobre territórios e populações, com atenção às maneiras como tais experiências são narradas, disputadas e legitimadas, e aos efeitos na vida cotidiana que se estendem para além do evento da Operação Policial. O artigo também examina as mobilizações coletivas de moradores, familiares de vítimas e ativistas, seus repertórios morais, jurídicos e políticos na busca por alguma reparação frente à violência estatal.
A pesquisa se apoia em fontes fragmentadas e heterogêneas, derivados dos métodos de campo das três pesquisadoras aqui em autoria. Os dados vão desde reportagens da grande imprensa e mídias alternativas, vídeos e fotografias compartilhados em redes sociais, falas públicas de autoridades e registros produzidos por moradores, vítimas e ativistas considerados aqui como uma forma de produção cidadã de dados. Também foram analisados documentos institucionais, como relatórios da Defensoria Pública do Estado de São Paulo e do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, além de relatos de campo derivados do acompanhamento de audiências, eventos públicos e conversas com familiares de vítimas. Para além da heterogeneidade empírica e da coincidência geográfica, espacial e temática, as três pesquisas também lidam - às suas maneiras - com desafios etnográficos e éticos relacionados ao estudo de memórias sensíveis.
Ao refletir sobre as disputas discursivas presentes nesses materiais, o artigo analisa os regimes de verdade que atravessam versões oficiais e contra-hegemônicas das operações, bem como os dilemas éticos e políticos implicados na pesquisa sobre violência estatal em contextos de extrema violência.
-
Ruínas do passado: luto e melancolia na construção da memória pública sobre a experiência da ditadura civil-militar (1964-1985)
— João Paulo Castro
— João Paulo Castro
Enzo Traverso, em Melancolia de esquerda, oferece uma leitura sobre o deslocamento do pensamento crítico, definido por ele como atrelado a uma cultura de esquerda nas últimas décadas do século XX. Diante da derrota de grandes experiências revolucionárias – 1917 na Rússia, 1936 na Espanha, os levantes de 1968 e os processos latino-americanos dos anos 1970, somadas ao colapso do socialismo real e ao avanço do neoliberalismo – , a práxis revolucionária perdeu seu suporte organizativo e coletivo. Os sujeitos da emancipação se diluíram, se reconfiguraram ou se deslegitimaram. Nesse vácuo, o pensamento crítico se deslocou. Como sinalizou Jacques Rancière, a elaboração estética do luto e da memória tornou-se o novo lócus da práxis política. Já não se trata de pensar as razões das derrotas políticas, mas de explorar as emoções produzidas pelas experiências, vividas em um tempo que reverbera no presente: um espaço de inscrição da subjetividade, da dor e do trauma.
Esta proposta de trabalho tem como objetivo analisar como determinadas memórias sobre a experiência da ditadura civil-militar são moduladas e negociadas por diferentes indivíduos e coletividades que buscam a promoção de uma memória pública. Pretendo abordar de que modo certos suportes de memória operam como promotores de sentidos e significados acerca do passado. O ponto de partida é a análise do filme premiado de Walter Salles, Ainda Estou Aqui, e de como ele se inscreve na construção de uma memória marcada pelo luto inacabado. A partir da obra, e das reações que suscitou na crítica, elaboro uma reflexão baseada em percepções fragmentadas, colocando num diálogo imaginativo as expressões utópicas dos anos 1960 e 1970 e as atuais disputas pelos enquadramentos dessas experiências.
Argumento que, nos anos de 1960 e 70, insinuava-se em certas formas de ação política revolucionária, de arte e de insurgência algo próximo ao que Walter Benjamin denominou “messianismo profano”: um instante em que os eventos históricos carregam um potencial de redenção não orientado por uma teleologia, mas pela força de sua irrupção. No Brasil pós-Anistia, contudo, esse horizonte parece ter se dissipado. A irrupção não ocorreu, e a insurgência foi progressivamente substituída por um novo espaço de moralidade, mais abstrato e universal. O discurso dos Direitos Humanos se consolidou como instância legítima de reparação, mas com frequência o fez em detrimento da dimensão sensível da experiência, esvaziando a ressonância capaz de transformar dor em pertencimento e sofrimento em laço comum. Esse deslocamento produziu uma integração moral desidratada, que enfraqueceu a potência formadora, crítica e revolucionária da experiência, convertendo a memória em arquivo e monumento.
-
Um escarafunchar não exato entre visitar e criar guardados: consulta ao arquivo morto e organização de um acervo de um hospital geriátrico
— Natalia Negretti
— Natalia Negretti
Esta apresentação trata de primeiros desdobramentos de uma pesquisa de pós-doutorado vinculada a documentos do acervo institucional e a prontuários de um hospital geriátrico localizado na cidade de São Paulo. Enquanto os prontuários referidos habitam o formalmente chamado Arquivo Morto que é visitado, os documentos institucionais, que foram organizados durante a pesquisa, seguem guardados num móvel disponibilizado pela instituição; um móvel antigo, de madeira e vidro, que lembra, talvez por efeito da companhia de uma longa mesa com doze cadeiras, uma Cristaleira. A contar do não enquadramento destes dois conjuntos documentais ao que concerne a práticas arquivísticas regulamentadas, busco apresentar novelos de memórias sensíveis enredados por pessoas, tempos e instituição em cadência com a tensão de limites de documentos, conforme Saidiya Hartman (2022). Assim, o arquivo e o acervo também oferecem chaves de problematização de concepções de vida e morte no plural; de vidas e mortes entrelaçadas por materialidades e imaterialidades de e em tais memórias sensíveis. A especulação sobre o que poderia ter sido, ainda em articulação com a autora, roça com o que pôde ter sido e pode ser tecido acerca de um longo período da instituição que teve o mesmo objetivo; ambivalentemente ali fora pretendido um instituto de acolher e recolher que dá densidade a discussões acerca de confinamento. Se o arquivo morto salvaguarda provas de vida de pacientes e habitantes atravessados pela finitude no singular, ele produz em tal instituição uma vida possível para seu passado. O acervo (Cristaleira), que incide em preocupações por não estar de acordo com um arquivo, é perspectivado também como possibilidade produtora; de páginas guardadoras de vidas a partir de linhas guiadas por cabeçalhos iniciados no ano 1885. Deste modo, nesta ocasião busco relacionar manejos e documentações a partir de: 1. Introdução de primeiras impressões vinculadas à leitura de dois livros de entrada que referem duas instituições pretéritas do hospital - o Asylo de Mendicidade (1885-1911) e o Asilo dos Inválidos (1911- sem finalização definida pelas nomenclaturas nos arquivos) amalgamadas à memória da população em situação de rua em São Paulo; 2. Descrições e compreensões a partir de prontuários do Arquivo Morto e da Cristaleira e, por fim, 3. Trajetos de compreensão enquanto pesquisadora num primeiro estudo com e sobre documentos(em arquivo e em não arquivo)-parte de uma instituição que precisa cotidianamente enfocar num presente enquanto, em algumas concepções, o passado com o qual convive pode ser considerado tanto distração quanto perigoso ou ainda indiferente.
-
Os discursos que emergem da lama: reparação simbólica e memória do rompimento da barragem de Brumadinho
— Nina Avila
— Nina Avila
Para compreender a construção do discurso de memória em torno do rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho/MG (2019) e identificar tensionamentos e negociações em torno das demandas por reparação simbólica, esta pesquisa analisa as modulações narrativas e disputas linguísticas em diferentes arenas institucionais e públicas. A pesquisa toma a memória como um campo de disputa, no qual categorias, enquadramentos e linguagens são administrados por diferentes atores em meio a relações de poder. A administração da linguagem constitui, assim, um problema político central, atravessando os processos de reconhecimento, responsabilização e reparação.
O trabalho tem como foco a vida social do Memorial Brumadinho, inaugurado seis anos após o rompimento, compreendido como um dispositivo institucional de produção de memória. A análise se concentra nos modos pelos quais o Memorial participa da estabilização e negociação dos sentidos atribuídos ao evento, em diálogo com outras formas de mobilização da memória no território.
Metodologicamente, adoto uma perspectiva etnográfica com entrada analítica a partir do ativismo das vítimas e do posicionamento institucional do Memorial Brumadinho. A pesquisa articula o acompanhamento de matérias jornalísticas, documentos do Ministério Público de Minas Gerais, publicações em redes sociais de associações de vítimas e do Memorial, bem como atividades públicas promovidas pelas vítimas, tomando esses materiais como arenas narrativas nas quais se produzem disputas em torno da memória e da reparação.
Compreendo o Memorial Brumadinho como uma infraestrutura de memória institucionalizada, distinta de outros atos de memória presentes no território, que opera a partir de um arranjo envolvendo vítimas, Estado, arquitetos, gestores e diferentes profissionais. Trata-se de um museu memorial que incorpora uma linguagem ambígua, que se intitula um espaço de memória idealizado pela associação de familiares de vítimas, mas não incorpora a linguagem de denúncia e responsabilização usada por ela em atos públicos e materiais escritos. Argumento que o projeto vem adquirindo uma vida social própria, progressivamente dissociada de outras demandas de reparação às quais esteve inicialmente vinculado. Ele dialoga com tendências internacionais de espaços dedicados à musealização da dor e do sofrimento, articulando objetivos pedagógicos, práticas de acolhimento ao luto e estratégias de inserção turística.
-
Dramas, Campos e "Verde e Amarelo": o 8 de Janeiro como Drama Social do Brasil Democrático
— Raquel Bouillet
— Raquel Bouillet
Para análise do 8 de Janeiro, pensando em seu caráter conflituoso na história contemporânea do Brasil, é preciso reestruturar seu contexto, suas narrativas e, claro, os fatos que foram constitutivos para sua concretização. Neste sentido, emprego à metodologia de Victor Turner, a partir do drama e dos campos sociais, na medida de tentar compreender a composição que culminou na insurreição verde e amarela no oitavo dia de 2023.
Os dramas sociais ocorrem nas “fases anarmônicas” do processo social em andamento (Lewin apud Turner, 2017, p. 28). Assim, eles representam sequências de eventos sociais que, quando observadas externamente, têm uma ordem estrutural caracterizada por fases.
Aqui, esta estrutura será organizada como instrumento de compreensão de um evento considerado “anarmônico” ou “desarmônico” no campo político brasileiro. Nessa chave, entendo o 8 de janeiro como um drama, ou como uma fase de um drama social em aberto no Brasil. Assim, compreendo o ocorrido no dia 8 de Janeiro não como um evento isolado, mas possibilitado por etapas e conflitos sociais que se estabeleceram no Brasil na última década. Com isso, suas fases podem ser delimitadas – segundo a orientação de Turner – e observadas conforme sua estrutura.
A partir disso, compreendo o contexto da organização do ato do 8 de Janeiro como uma história escrita em sequência. Inicialmente com uma ruptura, uma crise, uma ação corretiva e um desfecho. Este último que se divide em duas possibilidades analíticas: a cisão ou a reintegração. Em cada uma dessas etapas foram e são elencados diferentes atores sociais que, em grande medida, são os agentes que possibilitam o 8 de Janeiro enquanto movimento e expressão política. Mas também, são os agentes que legitimam, significam, tensionam e remontam os fatos ocorridos, construindo diferentes narrativas e memórias a serem disputadas sobre o evento em questão.
-
O silêncio dos vivos: registro, modulação e arquivo da memória pública das 28 mortes na favela do Jacarezinho, Rio de Janeiro
— Roberta Sampaio Guimarães
— Roberta Sampaio Guimarães
Este trabalho trata da construção da memória pública da operação policial que resultou em 28 mortes na favela do Jacarezinho, zona norte do Rio de Janeiro, no dia 6 de maio de 2021. Para analisar os sentidos atribuídos a essas mortes e seu conturbado processo de investigação, utilizei como material de pesquisa dezenas de reportagens jornalísticas, publicações independentes, postagens e relatos testemunhais. O desafio apresentado por esse material heterogêneo foi elaborar uma escrita etnográfica capaz de tensionar as ambiguidades da linguagem e fazer ressaltar o papel da fantasia e a nebulosidade do terror que atravessaram esse caso de violência extrema. Nesta proposta de trabalho, busco refletir de modo mais detido sobre as potencialidades e limites metodológicos apresentados pela utilização de reportagens armazenadas em portais midiáticos, levando em conta três possibilidades de leitura: como fontes de informação, como registros narrativos e como modulações discursivas. Para guiar essas reflexões, articulo as contribuições de Victor Turner, Saidiya Hartman e Ariella Azoulay e tento responder uma questão: como narrar um drama social quando se deseja contar uma história com e contra o arquivo?
-
Pelos fios de narrativas: a investigação dos arquivos na elaboração etnográfica
— Sylvia Teixeira Soares Bomtempo
— Sylvia Teixeira Soares Bomtempo
O presente trabalho propõe contribuir para o debate metodológico sobre pesquisas com memórias sensíveis a partir da minha dissertação de mestrado, que investiga como os procedimentos patrimoniais operam como táticas estatais de gestão de populações, territórios e memórias. Em consonância com a proposta deste GT, a dissertação desenvolve uma etnografia de documentos burocráticos, tomando arquivos oficiais, processos administrativos e pareceres técnicos não apenas como fontes empíricas, mas como artefatos que materializam a ação do Estado sobre sujeitos e territórios. O enfoque recai sobre a patrimonialização da Vila Operária de Cascatinha, em Petrópolis/RJ, pelo IPHAN em 1981, um ato estatal que deslocou um conjunto residencial operário para a condição de símbolo da identidade nacional.
Do ponto de vista metodológico, o trabalho reflete sobre os desafios de pesquisar em arquivos que operam processos de “objetificação cultural”, nos quais experiências sociais complexas são traduzidas em categorias abstratas, frequentemente excluindo aquilo que é percebido como híbrido, ambíguo ou inautêntico. A pesquisa evidencia um patrimônio conflituoso: de um lado, as estratégias de representação do Estado e de elites locais; de outro, moradores que percebem o tombamento como um dispositivo repressivo, abusivo e desvinculado de suas necessidades cotidianas.
Ao puxar os fios de narrativas sedimentadas em caixas de arquivo, documentos burocráticos, matérias de jornais, fotografias e outros suportes etnográficos, a dissertação busca evidenciar o patrimônio como um procedimento estatal. Ao fazê-lo, tensiona as noções de autenticidade e exemplaridade e demonstra como as políticas de memória são forjadas por disputas políticas e finalidades pragmáticas, produzindo conflitos e incertezas quanto aos futuros possíveis em contextos marcados pelo dissenso.
Coordenação
Gláucia de Oliveira Assis (UNIVALE)
Maria Catarina Chitolina Zanini (UFSM)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Igor José de Renó Machado (UFSCAR)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Diana Patricia Bolaños Erazo (UFSM)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Luciana Hartmann (UNB)
Este GT, ativo na ABA desde 2006, tem almejado continuadamente refletir e analisar diferentes contextos das dinâmicas de deslocamento/mobilidade, tanto nas dimensões históricas, como contemporâneas, nacionais e internacionais. Observa-se, nos cenários atuais, muitas vezes tensionados pela rigidez das legislações e das políticas de acolhimento nos países de destino, o quanto os encontros de diversidades tem gerado formas rígidas de interpelação. Violentas algumas, como tem se manifestado nos embates nos EUA, por exemplo. Pensamos que muitas destas questões devem ser estudadas e analisadas com a potência da Antropologia, inclusive quanto ao número crescente de crianças entre a população que se desloca. Em contextos de instabilidade e de incertezas, em que deportações, xenofobia, inflam e aumentam a percepção das discriminações, o objetivo deste GT é refletir acerca do diverso em espaços comuns e suas possibilidades de negociação. Neste GT agregaremos propostas que objetivam refletir e analisar as dinâmicas, processos e políticas migratórias, considerando que raça, gênero, classe, geração, etnia, religiosidade e outros marcadores influenciam nas vivências cotidianas dos sujeitos em mobilidade, bem como as formas de acolhida e de interações interculturais. A partir do diálogo interdisciplinar da Antropologia com outras áreas visamos, também, ampliar as trocas metodológicas, teóricas e partilha de estudos promovendo intercâmbio de experiências e de resultados de pesquisa.
Títulos e Resumos
-
A reconstrução da vida como categoria de análise: experiências de pesquisa com mulheres migrantes no México e em Honduras
— Barbara Marciano Marques, Tuila Botega
— Barbara Marciano Marques, Tuila Botega
Busca-se analisar a “reconstrução da vida” e suas variações - “rehacer la vida” e “seguir adelante” como categorias para compreender a experiência de mulheres em contextos migratórios, a partir da narrativa de mulheres migrantes que participaram das pesquisas do Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM) no México e em Honduras. A reflexão está ancorada no Núcleo Duro de Pesquisa do CSEM que enfoca o protagonismo das pessoas migrantes e refugiadas, ressaltando sua capacidade de agência (CSEM, 2018).
A pesquisa “Reconstruyendo la vida en la frontera: asistencia y atención a migrantes en la Frontera Norte de México (2017-2020)”, teve como objetivo compreender as formas com que migrantes e refugiados enfrentam situações adversas, de riscos e incertezas em regiões de fronteiras, bem como as ações sócio pastorais desenvolvidas pelas irmãs Scalabrinianas em resposta aos desafios migratórios (Botega, Dutra, Cunha, 2020). Em 2019 a pesquisa “Salud mental y mujeres migrantes retornadas con discapacidad y mujeres cuidadoras de migrantes retornados con discapacidad” em Honduras, buscou analisar especificamente como mulheres retornadas com deficiência e mulheres cuidadoras de pessoas retornadas com deficiência lidam com as rupturas em suas trajetórias de vida - marcadas pela não realização do projeto migratório.
A compreensão do “refazer a vida”, se dá de maneira relacional, uma vez que essa reflexão é feita pelas mulheres migrantes em contextos de atendimento integral promovido por agentes sócio pastorais, como no caso de Honduras, ou em um albergue, como se deu no México. A partir do atendimento, as mulheres migrantes obtêm ajudas para suprir suas necessidades - abrigo, comida, acesso à saúde, próteses e cadeiras de roda, inserção laboral, a depender do contexto - mas também passam a refletir sobre os próximos passos que precisam tomar em suas vidas, iniciando assim um processo decisório. A análise proposta não desconsidera os vários elementos que compõem a vulnerabilidade das mulheres envolvidas nas pesquisas, mas, assumindo sua complexidade, busca também observar seu protagonismo, resiliência e capacidade de agência para refazer a própria vida diante de constrangimentos estruturais (Bakewell, 2010).
As categorias de “rehacer la vida” e “seguir adelante” têm em comum o fato de referirem a um movimento de reconstrução da vida cotidiana após a ocorrência de eventos críticos (Das, 1997) - deportação, amputação consequência de um acidente que modifica o corpo e a violência sofrida na rota migratória. Assim, temas como a vivência da fé, a recuperação da saúde e o atendimento a necessidades emergenciais, são fatores intervenientes e importantes nesse processo, destacando a sua dimensão individual e coletiva.
-
Mobilidades e continuidade transnacional de normas morais confucionistas: experiências migratórias de chineses LGBTQIAPN+ no Brasil
— Bingzhang Wang
— Bingzhang Wang
O Brasil abriga uma população expressiva de migrantes chineses, mas pessoas LGBTQIAPN+ no interior das comunidades chinesas permanecem, em grande medida, situadas em posições de silêncio tanto nas narrativas públicas quanto no âmbito familiar. Este estudo focaliza chineses LGBTQIAPN+ que vivem no Brasil e analisa como eles negociam seus modos de vida e formas de autoidentificação. A pesquisa concentra-se em situações concretas nas quais pertencimento étnico, condição migratória, diferenças de gênero e sexualidade e expectativas morais centradas na família se entrelaçam, com atenção especial às práticas cotidianas de pertencimento e às estratégias desenvolvidas em contextos de mobilidade.
A pesquisa apoia-se na experiência prolongada do pesquisador em posição interna ao campo, ao longo de sete anos, articulada a entrevistas em profundidade e a registros reflexivos realizados em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador. O foco recai sobre como relações familiares, redes comunitárias e escolhas cotidianas influenciam as trajetórias migratórias, regimes de visibilidade identitária e arranjos de intimidade.
No imaginário público brasileiro, a história da migração chinesa é frequentemente narrada como uma trajetória de trabalho árduo, empreendedorismo e ascensão social. Entretanto, os materiais analisados indicam que, no plano da vida privada, essa narrativa é atravessada por silêncios prolongados, julgamentos morais e normas centradas na família. Valores associados ao pensamento confucionista como a filialidade, a manutenção da respeitabilidade e as responsabilidades familiares, não se dissipam com o deslocamento transnacional; ao contrário, acompanham os sujeitos para além das fronteiras nacionais, sendo continuamente reinterpretados, evitados ou negociados em novos contextos sociais, influenciando decisões pessoais ao longo do tempo. Este trabalho compreende esse processo como a continuidade transnacional de normas morais familiares em contextos migratórios.
Ao descrever práticas como o silêncio estratégico, a gestão contextual da identidade e a mobilidade seletiva entre cidades, este artigo apresenta as formas específicas como os migrantes LGBTQIAPN+ chineses lidam com as expectativas familiares e os ambientes sociais no contexto brasileiro. Enfatiza como essas experiências se desenrolam no tecido entrelaçado de múltiplas identidades, em vez de serem simplificadas como modelos culturais fixos ou como uma única estrutura de opressão.
-
(i)mobilidades de migrantes brasileiros LGBT em Nova York diante do recrudescimento das políticas anti-imigração e antigênero
— Bruno Nzinga Ribeiro
— Bruno Nzinga Ribeiro
Este trabalho investiga como as (i)mobilidades de migrantes brasileiros LGBT+ que vivem em Nova York são reorganizadas, tensionadas e negociadas no contexto recente de recrudescimento das políticas anti-imigração e antigênero nos Estados Unidos, especialmente a partir do segundo governo de Donald Trump. A pesquisa se ancora em uma etnografia multisituada, construída por meio de entrevistas, observação participante, pesquisa documental e acompanhamento prolongado de interlocutores brasileiros LGBT, cujas trajetórias atravessam regimes instáveis de circulação, permanência e contenção. Ao articular migração, raça, gênero, sexualidade e nacionalidade, o trabalho recusa a ideia de uma experiência homogênea de “migrante LGBT”, privilegiando uma leitura interseccional e situada das desigualdades que estruturam os deslocamentos. Categorias como “LGBT” são compreendidas não apenas como formas de identificação ou pertencimento, mas como dispositivos regulatórios mobilizados por políticas estatais, mercados e regimes humanitários, incidindo diretamente sobre as possibilidades de circulação, reconhecimento e sobrevivência desses sujeitos. Nova York, frequentemente imaginada como cidade liberal e “santuário”, emerge etnograficamente como um espaço ambivalente. Se, por um lado, concentra redes de sociabilidade queer, infraestruturas culturais e imaginários transnacionais que alimentam projetos de “fazer a vida na gringa”, por outro, expõe migrantes a processos intensificados de vigilância, criminalização da indocumentação e produção cotidiana do medo. Nesse cenário, políticas federais de deportação, acordos de cooperação internacional, ampliação de regimes de controle e discursos morais dirigidos a migrantes e pessoas trans e dissidentes de gênero produzem efeitos materiais profundos, atravessando o acesso ao trabalho, à saúde, à circulação e à possibilidade de projetar futuros. As políticas antigênero, articuladas às agendas anti-imigração, são analisadas como parte de um mesmo regime de contenção, no qual a fronteira opera para além do território nacional, inscrevendo-se nos corpos racializados e sexualizados no cotidiano urbano. A partir de fragmentos de trajetórias marcadas por interrupções, desvios e reinvenções, argumento que as (i)mobilidades não constituem estados fixos, mas processos continuamente produzidos em meio a negociações com o Estado, o mercado e redes afetivas. O trabalho busca, assim, compreender como migrantes brasileiros LGBT elaboram estratégias de permanência, pertencimento e resistência diante da convergência entre políticas anti-imigração e ofensivas antigênero no atual cenário político estadunidense.
-
Racialização em movimento: subjetividades "pardas" nos fluxos migratórios internos no Brasil
— Carolina Abreu dos Santos
— Carolina Abreu dos Santos
A proposta desta discussão é apresentar as bases teórico-metodológicas de um projeto de pesquisa etnográfica, ainda em construção, que tem como temática processos de racialização em contexto de migração interna no Brasil. Esta pesquisa pretende investigar como imigrantes, autodeclarados pardos, do Estado do Maranhão em Brasília, compreendem seus processos de racialização, buscando entender de que forma os movimentos migratórios internos influenciam a maneira que os indivíduos experienciam, percebem e negociam a racialização e identidade no Brasil.
As ciências sociais e humanas argumentam que identificações são construções sociais moldadas por articulações e diferenças (Hall, 2014; Guimarães, 1999, 2003; Silva, 2014), que não se baseiam em uma essência fixa ou imutável (Cardoso de Oliveira, 2023), mas resultam de um processo contínuo de elaboração, produção de sentido e delimitação de fronteiras simbólicas (Barth, 1998). Apesar de sua volatilidade intrínseca, as identidades alcançam uma estabilidade relativa em um dado contexto (Carvalho, 2020; Brubaker & Cooper, 2018), sendo, assim, compreendidas como simultaneamente fixas e não fixas, essenciais e não essenciais. Portanto, expressões identitárias estão profundamente conectadas às experiências individuais e às subjetividades, sendo culturalmente moldadas (Brah, 2006).
Ademais, contextos políticos e históricos desempenham um papel crucial na criação, significação e disputa de classificações identitárias ou raciais, que se constituem por meio do processo sócio-histórico de formação da nação (Segato, 2007) e das relações de poder existentes. Consequentemente, esses significados variam amplamente entre países, regiões e contextos (Daflon & Camargo, 2023; Loveman, 2021). No Brasil, a formação nacional produziu um Estado racial, ou seja, a raça foi estabelecida como um princípio estruturante da sociedade (Bernardino-Costa, 2023), refletindo-se nas categorizações do censo. Já a racialização refere-se ao processo de homogeneização de um grupo racial por meio de estigmatização e essencialização (Felix, 2024; Gato, 2019; Guimarães, 1999, 2003).
Considerando a diversidade étnica, racial e cultural do Brasil, bem como os diferentes entendimentos sobre racialização nos distintos contextos regionais, entende-se que a identificação - por ser relacional, situacional e flexível - pode produzir variações nos significados construídos por indivíduos que migram de uma região para outra. Uma vez que, migrar, mesmo internamente, envolve atravessar diferentes sistemas de classificação racial. Nesse sentido, essa pesquisa também busca compreender como os imigrantes internos se relacionam com as categorias raciais oficiais nos contextos pré e pós-migração.
-
Ativismos de newcomers queer africanos em Toronto
— Francisco Paolo Vieira Miguel
— Francisco Paolo Vieira Miguel
O texto aqui apresentado faz parte de um capítulo no prelo, coautorado com Isadora Lins França, em que lançamos mão de dados de pesquisa relacionados a imigrantes africanos que se reconhecem amplamente como LGBTQIA+ no Canadá e na Espanha, com o intuito de compreender como esses sujeitos circulam pelo campo humanitário e pelo ativismo – na condição de refugiados gays e trans de África – e como manejam identidades e sentidos que relacionam gênero, sexualidade, raça, violência e nação em um espaço social saturado de categorias morais. Apesar das dificuldades comumente enfrentadas por imigrantes africanos nesses países, buscamos entender como esse espaço social carregado de sentidos e moralidades é também um território no qual o ativismo permite aos refugiados LGBTQIA+ forjar estratégias cotidianas de sobrevivência em contextos muitas vezes precários. Buscarei nesta apresentação, a partir de pesquisa etnográfica própria, demonstrar como refugiados africanos queer passam por processos de desindentificação e duplo-vínculo particularmente no contexto canadense.
-
Influencers da migração: o caso brasileiro na Irlanda
— Guilherme de Lima, Igor José de Renó Machado
— Guilherme de Lima, Igor José de Renó Machado
Este trabalho tem como objetivo analisar a experiência migratória brasileira na Irlanda à luz das redes sociais digitais, com foco na produção de conteúdo por influencers imigrantes brasileiros em seus canais no YouTube. Esses influencers utilizam as redes sociais digitais para compartilhar suas ideias, vivências e dificuldades, oferecendo uma perspectiva sobre o processo migratório. Os canais analisados refletem a complexidade dessa experiência, ao abrangerem uma multiplicidade de relações – muitas vezes contraditórias – com a Irlanda, o Brasil e os brasileiros. Contudo, esses canais não funcionam apenas como transmissores de informações, mas dependem também da manutenção de um público-alvo, composto por brasileiros interessados em emigrar. Nesse contexto, os influencers da migração influenciam a formação de opiniões através do relato de suas experiências, enquanto permanecem sujeitos ao escrutínio tanto de seu público quanto de instituições irlandesas, como as escolas de idiomas, que frequentemente comoditizam suas trajetórias migratórias.
-
Nem Legal, Nem Ilegal, De Qualquer Maneira Pague Seus Impostos: a inserção de indocumentados brasileiros no aparato legal de Massachussetts/EUA
— Heron Cristiano Mairink Volpi
— Heron Cristiano Mairink Volpi
Este trabalho analisa a inserção de imigrantes brasileiros indocumentados na cidade de Framingham, Massachusetts, a partir de pesquisa etnográfica realizada em 2024, com foco nas formas de institucionalização e acesso a políticas públicas, especialmente no campo da saúde. Apesar de frequentemente classificados como ilegais, os brasileiros em Framingham demonstram intensa participação na vida econômica e social local, por meio do trabalho, do pagamento de impostos e do uso de instrumentos formais do Estado, como o ITIN Number, que possibilita a declaração de imposto de renda, a construção de histórico financeiro e o acesso a serviços públicos.
O artigo dialoga com a literatura clássica sobre imigração brasileira nos Estados Unidos, como os trabalhos de Margolis (1994), Bicalho (1989) e Fusco (2005), tensionando a ideia de que a inserção desses imigrantes ocorre exclusivamente por vias informais ou paralelas ao Estado. A partir dos dados de campo, argumenta-se que, embora a legislação migratória federal produza exclusão jurídica, há uma incorporação fiscal e administrativa significativa, que permite aos indocumentados acessar parcialmente políticas públicas, como o MassHealth, ainda que com restrições.
Os relatos etnográficos revelam também uma dimensão simbólica importante: muitos brasileiros demonstram satisfação com o sistema de saúde e evitam críticas ao país de acolhimento, expressando uma espécie de dívida moral em relação aos Estados Unidos. Essa postura contrasta com a atitude mais crítica de cidadãos norte-americanos nativos e indica como gratidão, medo e precariedade moldam as narrativas sobre a experiência migratória.
Ao analisar Framingham como um território marcado pela forte presença brasileira, o estudo evidencia os paradoxos de um sistema que exclui migrantes do ponto de vista legal, mas os integra economicamente e fiscalmente. Assim, o trabalho contribui para o debate sobre imigração ao demonstrar que a condição de indocumentado não implica ausência de institucionalização, mas sim uma forma específica, desigual e ambígua de pertencimento ao Estado norte-americano.
-
Epistemicídios nas experiências de mulheres haitianas e suas descendentes na República Dominicana
— Igor Borges Cunha, Susana Martínez Martínez, Delia Dutra da Silveira
— Igor Borges Cunha, Susana Martínez Martínez, Delia Dutra da Silveira
Este artigo deriva de uma pesquisa mais ampla conduzida pelo Centro Scalabriniano de Estudos Migratórios (CSEM), voltada à análise das condições de vida, das dinâmicas de mobilidade e das experiências sociais de migrantes haitianos e de pessoas dominico-haitianas na República Dominicana, com atenção especial a mulheres e crianças. No interior desse projeto coletivo, o presente trabalho focaliza a região fronteiriça de Dajabón, explorando empiricamente como a colonialidade do poder e do gênero se materializa na articulação entre raça, nacionalidade, língua e regimes contemporâneos de controle migratório.
Com base em trabalho de campo e em entrevista em profundidade com uma agente de uma organização que atua com direitos sexuais e reprodutivos, o estudo analisa como dispositivos institucionais e práticas estatais produzem formas específicas de vulnerabilidade social. Argumenta-se que a fronteira dominico-haitiana opera como um regime de poder que combina mecanismos biopolíticos voltados ao controle da reprodução e da circulação e mecanismos epistêmicos, responsáveis por regular quem compreende, quem consente e quem é reconhecido como sujeito legítimo.
Episódios como a ausência de mediação linguística em serviços de saúde, a repressão ao uso do creole em espaços públicos e a presença de agentes migratórios nas proximidades de hospitais revelam a produção cotidiana da deportabilidade (DE GENOVA, 2020), que transforma o acesso ao cuidado em um risco político. Em diálogo com abordagens feministas decoloniais, sociolinguística crítica e perspectivas interseccionais situadas, o artigo demonstra como língua, gênero, raça e nacionalidade se entrelaçam na naturalização da exclusão, ao mesmo tempo em que evidencia formas de agência e protagonismo construídas por mulheres e redes comunitárias frente à violência institucional.
Ao situar esse recorte empírico no interior de uma pesquisa institucional mais ampla, o trabalho contribui para compreender a persistência de dinâmicas coloniais no Caribe contemporâneo e para problematizar regimes de cuidado, pertencimento e direitos sociais em contextos de mobilidade forçada.
-
Internacionalização do Ensino Superior e "migração estudantil" face à ascensão da extrema direita em Portugal
— Jamiro Paulo Sanca, Medilanda Eliseu Amós Tubento Sanca
— Jamiro Paulo Sanca, Medilanda Eliseu Amós Tubento Sanca
Atualmente, embora não se possa ignorar o rápido crescimento do componente estudantil nos fluxos migratórios globais, impulsionado, em parte, pelas políticas de internacionalização do Ensino Superior, o estudo da migração estudantil internacional é ainda um campo relativamente tímido na pesquisa migratória (KING, 2013). O trabalho que se segue, intitulado de Internacionalização do ensino superior, migração estudantil e ascensão da extrema direita em Portugal", lança-se no desafio de compreender como essa ascensão está impactando as políticas de internacionalização do ensino superior, por serem políticas que, de certa forma, se concretizam através de atração, captura e manutenção dos estudantes internacionais, ora, vistos, também, como migrantes estudantis e laborais, ao mesmo tempo. Por isso, desejados (devido ao seu internacionalismo e contribuições financeiras) e indesejados (devido às políticas de controle migratório). Argumenta-se que qualquer vertente política ou ideológica extremamente adversa à migração tende a colocar em xeque a política da internacionalização da IES, porque afeta a migração internacional de estudantes. Para tanto, além de explorar bibliografias (KING, 2013; KNIGHT, 1994, WIT, 2028; MOROSINI, 2021) e documentos (RALATÓRIO DO PEPIP, 2023), será feita entrevista, online, com estudantes internacionais palopianos e com pesquisadores e pesquisadoras da temática, em Portugal. Além disso, será enviado alguns questionários através do formulário do Google. Por ser um trabalho em construção, entendemos que a RBA é um espaço oportuno de falas, de escuta e, portanto, de (re)construções pertinentes para o amadurecimento do que estamos propondo a partir deste trabalho.
-
Vidas em Tela: Etnografia Digital da Migração Brasileira em Londres, Redes de Apoio e os Impactos do Pós-Brexit
— Letícia de Luca Torres
— Letícia de Luca Torres
Este trabalho analisa como migrantes brasileiros em Londres utilizam plataformas digitais, com ênfase no YouTube, para narrar suas experiências, estruturar redes de apoio e produzir significados sobre pertencimento e identidade em um contexto marcado pelas transformações políticas do Brexit. A pesquisa fundamenta-se na hipótese de que o migrante contemporâneo constitui-se como um sujeito híbrido, ou "ciborgue social", que habita simultaneamente espaços físicos e digitais, tornando a mediação tecnológica inseparável da vida cotidiana.
A metodologia propõe uma etnografia digital articulada ao trabalho de campo face a face em Londres, cidade que abriga a maior comunidade brasileira na Inglaterra, estimada em 190.000 pessoas. Através da observação de canais de YouTube e entrevistas semiestruturadas, investiga-se como essas plataformas operam como dispositivos pedagógicos, afetivos e políticos. O estudo busca mapear como o conteúdo produzido por influenciadores migrantes oferece orientações práticas e suporte emocional, ao mesmo tempo em que estabelece gramáticas de "sucesso" e "fracasso" no exterior.
Alinhada aos objetivos do GT, a pesquisa examina as dinâmicas de mobilidade sob a ótica da Antropologia Digital e das Migrações, considerando as tensões entre a agência do sujeito e os mecanismos de vigilância, controle e captura algorítmica. Analisam-se, ainda, os impactos do endurecimento das políticas migratórias britânicas e como os marcadores sociais de diferença, como gênero e classe, influenciam as estratégias de regularização e a reconfiguração das redes de solidariedade.
Ao tratar o ambiente digital como um território densamente social, o trabalho dialoga com conceitos de transnacionalismo e "campos sociais transnacionais", onde o YouTube emerge como uma arena pública e arquivo da experiência diaspórica. Assim, a pesquisa contribui para o debate antropológico sobre migração e tecnologia, iluminando as ambivalências da presença digital e a vulnerabilidade do corpo migrante em território estrangeiro frente aos regimes de imaginação coletiva contemporâneos.
-
Etnografia performativa: uma proposta poética e política para a realização de pesquisas com infâncias migrantes
— Luciana Hartmann
— Luciana Hartmann
Esta comunicação pretende debater a “Etnografia Performativa” como abordagem metodológica que propõe, no cruzamento da antropologia com os estudos da performance, formas de engajamento ético, político e estético específicos para a realização de pesquisa com infâncias migrantes. O embasamento empírico da reflexão é fornecido por pesquisas etnográficas realizadas com crianças migrantes e refugiadas no Brasil, na França e em Portugal desde 2013, no âmbito da Rede Infâncias Protagonistas: migração, arte e educação (https://www.infanciasprotagonistasunb.com.br/). Inicio com um breve panorama de abordagens como a “Performing Ethnography” (Turner & Turner, 1982), a Etnocenologia (Pradier, 2007); o Etnoteatro (Salgado, 2019) e a “Performance as Research” (PaR) (Arlander, Barton & Spatz, 2018). Essas têm origem no chamado performative turn na antropologia (Conquergood, 1989), que ocorre a partir da década de 80 do século XX junto a outras disciplinas como sociologia, filosofia, linguística, história, literatura e teatro, provocando uma mudança paradigmática que questiona o texto-centrismo e a primazia das análises de estruturas sociais e simbólicas, voltando o foco para a ação humana e para o modo como os sentidos do corpo são mobilizados para significar e traduzir o mundo. Na sequência descrevo alguns processos de pesquisa e co-criação realizados com crianças e jovens migrantes e para finalizar reflito sobre as especificidades da Etnografia Performativa, tal como é desenvolvida na Rede Infâncias Protagonistas, que prevê uma radicalização da clássica observação participante por meio da partilha de performances que são, concomitantemente, processo e produto, criação e reflexão.
-
Reflexões sobre fazer famílias ao caminhar: três casos na fronteira do Brasil-Venezuela
— Ludmila Balanin Almeida Mello
— Ludmila Balanin Almeida Mello
Este artigo analisa como famílias e relações de parentesco são produzidas em contextos de mobilidade a partir de três casos etnográficos de adolescentes venezuelanos que migraram para o Brasil pela fronteira norte, no município de Pacaraima. Partindo do debate antropológico sobre o fazer família e o parentesco relacional, o texto dialoga com autoras e autores que questionam concepções universalizantes de família ancoradas na consanguinidade, na biologia e na normatividade jurídica. O primeiro caso aborda a trajetória de Mayerlin, adolescente que, ao migrar com seu filho, construiu vínculos familiares informais com uma mulher brasileira que a acolheu. O segundo caso trata de José, adolescente que reconhecia como família um casal com quem compartilhou o percurso migratório, mas que foi separado deles ao chegar ao Brasil por não haver vínculo consanguíneo ou documentação que legitimasse a relação perante o Estado. O terceiro caso analisa a experiência de Matias, adolescente que migrou desacompanhado e encontrou no acolhimento institucional os vínculos que nomeava como família, vivenciando com angústia a recorrente possibilidade de ruptura desses laços.
A partir desses casos, o artigo discute como vínculos familiares não consanguíneos se formam no curso da mobilidade, a partir do compartilhamento do cotidiano, do cuidado, da convivência e da memória, muitas vezes se sobrepondo aos laços da família biológica. Argumenta-se que, embora essas relações sejam plenamente vividas e reconhecidas pelos próprios adolescentes, elas frequentemente não encontram legitimidade nas categorias jurídico-normativas que orientam as políticas de proteção à infância, sobretudo em contextos de crise e emergência. Ao evidenciar as tensões entre formas relacionais de fazer família e modelos normativos de parentesco, o texto aponta para a necessidade de reconhecer a pluralidade das concepções de família e infância na formulação e implementação de políticas públicas voltadas a crianças e adolescentes em mobilidade.
-
Maternidades em trânsito: mulheres migrantes e os caminhos do cuidado entre a doença e a esperança
— María de los Milagros Camacho de la Cruz, Luciene de Oliveira Dias
— María de los Milagros Camacho de la Cruz, Luciene de Oliveira Dias
Maternidades em trânsito: mulheres migrantes e os caminhos do cuidado entre a doença e a esperança
RESUMO:
Os processos migratórios que atravessam o contexto de fronteira do estado de Roraima, no Brasil, carregam múltiplas histórias marcadas pela violência, vulnerabilidade e xenofobia. Tal contexto afeta fortemente mulheres migrantes e mães que se veem obrigadas ao trânsito não apenas por fatores econômicos ou políticos, mas também pela busca urgente de tratamento médico especializado para seus filhos doentes. Esta realidade provoca profunda reconfiguração em suas experiências migratórias e nas práticas de cuidado. Neste sentido, o presente trabalho propõe analisar, a partir de etnografia com mulheres migrantes, as intersecções entre maternidade e migração como dois elementos que, por trás das narrativas de mulheres migrantes e mães, sugerem uma abordagem de pesquisa que parte da compreensão de que o trajeto migratório vai além do ponto de destino e da necessidade permanente da reorganização da vida cotidiana. Diante das diferentes formas de violência imposta ao ato de migrar, as mulheres migrantes são impulsionadas a formar redes de apoio como estratégias coletivas de proteção. Uma dessas redes é a Casa de Apoio Lar de São José, localizada na periferia de Ceilândia, no Distrito Federal, que acolhe especialmente mulheres migrantes refugiadas da Venezuela, moradoras de abrigos no estado de Roraima, que são transferidas para Hospital da Criança de Brasília, onde os filhos recebem tratamento. Este espaço tem se convertido em um território de reconstrução de vínculos, afetos e práticas coletivas de maternagem, extrapolando a noção corrente de abrigo temporário. As narrativas destas mulheres evidenciam como a maternidade é ressignificada em contextos migratórios, sendo reconstruída de forma coletiva a partir do compartilhamento de dores, medos, esperanças e estratégias de cuidado. Assim, argumenta-se que a migração, quando atravessada pela experiência da maternidade e da doença, revela uma dimensão coletiva do fenômeno social, desafiando abordagens que tratam o deslocamento apenas como um percurso individual ou linear. Espera-se que o presente trabalho contribua para o debate sobre migração e gênero ao evidenciar como o cuidado, longe de ser uma prática individual, se constitui como uma experiência coletiva, sustentada por redes de apoio e solidariedade.
Palavras-Chave: Mulheres Migrantes; Maternidades em Trânsito; Antropologia do Cuidado; Fronteiras; Redes de Apoio.
-
De uma ilha para outra: a construção de redes de afetos por migrantes cubanas em Florianópolis
— Priscilla Gusmão Pinto Pereira
— Priscilla Gusmão Pinto Pereira
Este trabalho se estrutura a partir de uma pergunta, a qual também permeia minha atual pesquisa: como as cubanas então construindo suas redes de afetos ao migrar para Florianópolis? Meus primeiros passos de pesquisa se deram no Escritório Scalabrini de Atenção ao Migrante (ESAM), dentro da Paróquia Santa Teresinha. Ali, observando atendimentos, conversas informais e pequenas interações, comecei a entender como diferentes experiências migratórias se manifestam na região, que esses deslocamentos humanos são o resultado de um conjunto de fatores que possuem muitos aspectos e complexidades, e não se realizam de forma aleatória ou unicausal (Atlas das migrações, 2025, p.10). A partir desse entendimento tendo como foco principal as trajetória dessas mulheres, esta pesquisa pretende refletir, carregada de um compromisso ao não apagamento das mulheres no fluxo migratório, sobre as potências deste recente fluxo, buscando compreender como as migrantes cubanas residentes na região constroem redes de afetos e pertencimento no território.
Coordenação
Miriam Pillar Grossi (UFSC)
Christiano Key Tambascia (UNICAMP)
Trajetórias singulares de pesquisadoras/es e de grupos de pesquisa na história da antropologia brasileira — marcadas por apagamentos e desqualificações de gênero, raça, região e, pela inovação etnográfica, em diferentes momentos históricos — compõem o mosaico de dissidências que orienta este GT. Nosso objetivo é rastrear contribuições individuais e coletivas pouco (re)conhecidas na história da disciplina. Os debates contemporâneos sobre a história da antropologia confundem-se com reflexões críticas sobre a própria disciplina. Mais do que dar visibilidade a mulheres e sujeitos esquecidos/es, este GT é motivado por desejos de transformação da antropologia, seja em termos teóricos, metodológicos, epistemológicos ou políticos. Este GT visa recuperar e reconhecer trajetórias e a contribuição intelectual de pesquisadoras/es e coletivos marginalizadas/os e refletir sobre as razões e os efeitos desse apagamento/silenciamento, problematizando e valorizando as posições sociais de quem produziu e vem produzindo conhecimentos antropológicos, a partir de margens e marcadores sociais como gênero, classe, raça, sexualidade, deficiência, terrritórios, entre outros. Convidamos pesquisadoras/es que estudam mulheres e grupos subalternizados na história da disciplina a integrar este GT, de forma a estimular o diálogo e renovar criticamente a historiografia da antropologia brasileira.
Títulos e Resumos
-
Mariza Corrêa e as mulheres nas histórias das antropologias portuguesa e brasileira: notas a partir de um projeto transatlântico inacabado
— Amanda Gonçalves Serafim
— Amanda Gonçalves Serafim
Mariza Corrêa (1945–2016) foi uma antropóloga brasileira cuja trajetória intelectual articulou de modo pioneiro os estudos de gênero e a história da antropologia, com foco no contexto brasileiro. Entre suas principais iniciativas destaca-se o projeto Antropólogas & Antropologia, iniciado em 1989 e desenvolvido até o início dos anos 2000, que teve como objetivo refletir sobre o silêncio e o apagamento de mulheres nas primeiras gerações de profissionais da antropologia no Brasil. Mais do que recuperar trajetórias femininas esquecidas, Corrêa analisou criticamente como as relações de gênero moldaram as formas de reconhecimento, consagração ou esquecimento na história oficial da disciplina. Embora os resultados desse projeto, publicado em 2004 (Antropólogas & Antropologia), sejam amplamente conhecidos, há um capítulo ainda pouco explorado de sua trajetória intelectual que a levou ao outro lado do Atlântico. No final da década de 1990, Corrêa foi convidada a participar de duas iniciativas: apresentar no Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia; e integrar o projeto “Família, Mulheres e Género em Portugal e no Brasil” – no qual participou da coordenação em sua primeira fase. Esse contexto marcou o início de uma nova pesquisa, motivada pela questão de saber se existiriam, no cenário português, trajetórias femininas comparáveis àquelas identificadas no Brasil. A partir de incursões em acervos, interlocuções locais e levantamento de bibliografias e materiais de circulação restrita, Corrêa passou a investigar as trajetórias de Maria Archer, Maria Lamas e Margot Dias, refletindo sobre gênero, colonialismo, feminismo e seus paralelos com o contexto brasileiro. Essa investigação, contudo, permaneceu fragmentada e deixou poucos registros sistematizados (em ambos os países). Essa comunicação parte de minha própria busca por esse capítulo da trajetória de Corrêa, buscando compreender as questões formuladas, os materiais mobilizados, as reflexões produzidas e como elas retroalimentam as pesquisas sobre história da antropologia no contexto brasileiro. Embora o foco recaia sobre Mariza Corrêa, é fundamental também compreender quem foram essas mulheres portuguesas, cuja relação com a antropologia permanece em disputa e em construção no próprio país. Mesmo sendo esse período marcado por muitas lacunas, ele tem o potencial de contribuir para um estudo sobre a própria figura e trabalho de Corrêa, como também para o debate sobre a relação entre história da antropologia e gênero.
-
Reflexo de Invisibilidade: Cadê as mulheres no campo?
— Barbara Albues Campos
— Barbara Albues Campos
Este trabalho surge a partir de uma etnografia em andamento com um grupo de geólogas formadas pela Universidade Federal de Mato Grosso/UFMT. Ao descrever as vivências dessas mulheres que estão inseridas em espaços que por muito tempo foram ocupados predominantemente por homens, e que ainda há resistência e o entendimento de que existem papéis “tradicionalmente femininos” na sociedade, a minha intenção é compreender como essas reproduções, o imaginário social, condicionam as experiências dessas mulheres. Como essas dinâmicas de poder atuam sobre elas? Essa atribuição de espaços sociais diferenciados, em que são ocupados dominantemente por homens cisgênero, branco e hétero, são responsáveis por questionar, invalidar a presença de outros grupos, como o caso do meu campo de estudo. A baixa diversidade na contratação em determinados setores, ocorre com justificativas relacionadas ao fato de que as trabalhadoras apresentam certa fragilidade, sendo incapazes de realizarem determinadas tarefas, principalmente de terem dificuldades de realizar o campo (atividade essencial para a profissão de geóloga). Fazendo uma ponte entre a Geologia e a Antropologia, são áreas em que estar em campo é fundamental, ambas disciplinas têm suas histórias dominadas por um grupo específico e aquelas/es que não fazem parte são desqualificadas e invisibilizadas. Neste caso, o que teve início com o questionamento “Onde estavam as mulheres na Geologia?”, durante o curso de mestrado do PPGAS/UFMT, também observei uma invisibilidade feminina na Antropologia.
Muitos trabalhos de campo realizados em colaboração, até mesmo em casal, apresentam um apagamento das contribuições femininas e/ou não são dados os mesmos créditos a elas. Ao falar de Franz Boas e seus estudantes inspirados a desenvolverem ideias contrárias à perspectiva evolucionista, Zora Neale Hurston é pouco lembrada como uma de suas orientandas. Zora, apesar de sua importância, teve sua obra marginalizada por muito tempo e só foi redescoberta a partir da década de 1970, com a influência de autoras como Alice Walker. Diante disso, o apagamento de mulheres como Zora Neale Hurston na história da Antropologia e a sua ausência nos currículos do curso, só reforçam que a disciplina ainda tem um longo processo para descolonizar o seu pensamento. Como apontou Messias Basques “Consagrada como uma das principais expoentes da literatura norte-americana do século XX, Zora Hurston continua desconhecida pela maioria dos estudantes e pesquisadores de Ciências Sociais brasileiros” (2019, p. 103). Assim como a Zora, outros sujeitos têm suas contribuições para a disciplina desconhecidas, apagadas, resumidas a notas de rodapé. Com este resumo espero contribuir com os diálogos presentes neste GT.
-
Antropólogos contra antropólogos: reflexões sobre o conflito nos contextos universitários de ontem e de hoje
— Candice Vidal e Souza
— Candice Vidal e Souza
O trabalho reflete sobre as perspectivas narradoras de antropólogos envolvidos em conflitos interpares ocorridos em ambientes acadêmicos que perduram entre os anos 1970 e 1990 e nas primeiras décadas do século XXI. Serão considerados como materiais etnográficos principais a autobiografia (publicada em 2018) do ex-professor da UFMG Romeu Sabará (1941-2023) e a tese de doutorado de Daniel Baptista (defendida em 2023 no PPGAN/UFMG), com o intuito de captar as narrativas dos conflitos e as interpretações dos sujeitos–antropólogos sobre as situações, personagens e documentos administrativos envolvidos nas querelas institucionais em cena. Faço ainda referências a pesquisas anteriores sobre a antropologia na UFMG, incluindo duas entrevistas que fiz com Romeu Sabará em 2004 e 2005. A aproximação proposta aqui segue a recomendação metodológica de A. Irving Hallowell de tratar a história da antropologia como “problema antropológico”, considerando os contextos históricos das questões que movimentam a disciplina e seus praticantes. Essa postura também aponta para a atitude de quem escuta os participantes das contendas, escapando de juízos morais e posturas normativas sobre os atores em conflito. Concluo com reflexões sobre as implicações dessas lutas de classificação para o conhecimento sobre a produção antropológica dos protagonistas dos conflitos envolvendo antropólogos e sua presença/ausência no ensino e nas referências bibliográficas de áreas temáticas específicas da disciplina.
-
Reescrever o campo e deslocar o olhar: mulheres na reconstrução da antropologia em Cabo Verde
— Carmelita Silva
— Carmelita Silva
A antropologia produzida sobre Cabo Verde consolidou-se, ao longo do século XX, sob um cânone marcadamente androcêntrico, influenciado simultaneamente pelo culturalismo norte americano e pelo funcionalismo europeu, e estreitamente associado à geração da Claridade. Este quadro, protagonizado por figuras como João Lopes, Félix Monteiro e Gabriel Mariano, relegou para a periferia experiências, problemas sociais e dimensões centrais da vida das mulheres cabo-verdianas (SILVA, 2025). Antes mesmo da institucionalização de uma antropologia feminista no país, emergiram antropólogas cabo-verdianas formadas no exterior que abriram terreno para uma viragem epistemológica no campo. Destacam se Celeste Fortes, referência incontornável enquanto antropóloga feminista e militante e Eufémia Rocha, cujos trabalhos sobre relações étnico raciais, xenofobia, migrações e identidades ampliaram o escopo analítico da disciplina.
Com a criação e o fortalecimento da Universidade de Cabo Verde (Uni CV), em particular do seu Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais, articulado ao CIGEF (Centro de Investigação e Formação em Género e Família), procurou-se consolidar uma agenda endógena de investigação. Esta agenda tem vindo a centrar-se nos estudos de género, dinâmicas familiares, raça/identidade, mobilidades e antropologia das violências, materializando-se em coletâneas, redes de pesquisa e projetos que ampliam a produção situada sem romper com o diálogo transnacional (Portugal e Brasil, Moçambique, Canárias).
Nesta comunicação, proponho demonstrar como a entrada, afirmação e institucionalização do trabalho destas antropólogas reconfiguram objetos, métodos e finalidades públicas da disciplina em Cabo Verde. Busco, portanto, evidenciar, como suas propostas de pesquisa permitiram a endogeneização da agenda antropológica e a sua capilaridade institucional, reconfiguram o cânone disciplinar e robustecem uma antropologia situada, feminista e decolonial, com efeitos tangíveis na formulação e implementação de políticas públicas em Cabo Verde.
Para tanto, além da análise documental, proponho a realização do mapeamento temático, organizando a discussão em três eixos empíricos: dinâmicas familiares e sociabilidades (Fortes); raça, etnicidade e identidade (Rocha); e antropologia das violências (Silva).
-
Etnografias do Invisível: as lesbianidades na história da antropologia brasileira
— Gabriela Pedroni
— Gabriela Pedroni
Este trabalho parte do pensamento lésbico ao questionar a invisibilidade das existências lésbicas nos espaços de produção e difusão de conhecimento, por isso se propõe a lesbianizar da antropologia. Seu objetivo é produzir e socializar teorias lésbicas nos espaços formais de educação, articulando-se à política da visibilidade que busca informar à sociedade e à academia sobre a existência de mundos para além da cisheterossexualidade compulsória. A partir de uma perspectiva antropológica, revisito a história da antropologia brasileira buscando encontrar e visibilizar as etnografias produzidas sobre lesbianidades. Inicialmente, exploro a intersecção entre sexualidades dissidentes e antropologia, analisando como a sexualidade se constituiu como objeto de estudo relevante no campo antropológico nacional. Em seguida, mapeio estudos sobre lesbianidades que emergiram na antropologia brasileira desde os anos 1990, a partir de precursoras que introduziram a discussão sobre a homossexualidade feminina, destacando características fundantes dessas produções. Num terceiro momento, apresentamos um panorama de teses de mestrado e doutorado elaboradas a partir dos anos 2000, período em que a temática lésbica ganha maior densidade, com trabalhos que especificam e diversificam os enfoques sobre experiências lésbicas. Por fim, discuto a produção do que denomino "etnografias lésbicas", escritos produzidos por e para lésbicas a partir de um olhar antropológico, refletindo sobre como a subjetividade lésbica influencia a produção de conhecimento, inaugura novos olhares sobre temas clássicos e posiciona a sexualidade como elemento central na elaboração etnográfica.
-
A Trajetória de Berta Gleizer Ribeiro na Antropologia brasileira: repensando margem e centro
— Isabella Trevine
— Isabella Trevine
A antropóloga Berta Gleizer Ribeiro (1924-1997) foi uma autora de suma importância, embora até recentemente pouco reconhecida, para a antropologia brasileira. Este trabalho, no qual proponho fazer reconstituição de sua trajetória a partir de uma análise pautada na historiografia da antropologia, faz parte de uma pesquisa de mestrado em andamento.
Grande parte da carreira da antropóloga foi feita a partir dos estudos sobre a cultura material indígena e de sua atuação em museus, sendo o debate sobre a importância do saber material ponto crucial de sua trajetória acadêmica. Neste sentido, penso que esses estudos ocorreram "às margens" dos estudos canônicos dos grandes temas surgidos na Antropologia a partir dos anos 1960 – como parentesco e mitologia. Penso que a trajetória intelectual e pessoal da antropóloga é muito interessante para desestabilizar e reconstruir que é central e o que é marginalizado na história da Antropologia brasileira, devido aos lugares específicos em que ela habitou, estudou, se colocou. O gênero aparece neste trabalho, portanto, como categoria fundamental para entender os contornos que recebem as marginalizações de certos temas e personagens na Antropologia e na escrita de sua história.
-
Maternagem como transgressão no saber antropológico: cuidado, escrevivência e neurodivergência.
— Lisianne Lima de Santana, Luciane Silva de Souza Prudente
— Lisianne Lima de Santana, Luciane Silva de Souza Prudente
Este trabalho propõe refletir sobre maternagem como forma de transgressão no saber antropológico, partindo da afirmação de que o cuidado não apenas acompanha, mas produz conhecimento. A partir de reflexões situadas de uma mulher-mãe solo, negra e neurodivergente, com diagnóstico tardio de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), o texto tensiona o ideal hegemônico, masculino, branco e produtivista, historicamente dominante na antropologia e seus efeitos de apagamento sobre determinadas trajetórias intelectuais. Ancorado na noção de escrevivência, conforme formulada por Conceição Evaristo, e em diálogo com a teoria feminista negra, especialmente com bell hooks e sua proposição da transgressão como prática de liberdade, o trabalho argumenta que reconhecer o cuidado como produtor de saber contribui para a renovação crítica da antropologia e para a valorização de trajetórias historicamente silenciadas.
-
Quem foi Wanda Hanke?
— Mariana Moraes de Oliveira Sombrio
— Mariana Moraes de Oliveira Sombrio
Wanda Hanke (1893-1958), pesquisadora-viajante austríaca, dedicou boa parte de sua vida a fazer pesquisas etnográficas sobre grupos indígenas da América do Sul. Nascida no então Império Austro-Húngaro, optou pela cidadania austríaca após a dissolução de seu território de origem. A desterritorialização se tornou uma característica de sua vida, tendo passado anos circulando entre comunidades indígenas do Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai.
Com formação nas áreas de medicina, filosofia e direito foi a partir dos quarenta anos de idade que passou a dedicar-se à etnologia, trabalho realizado majoritariamente em campo, mas que também gerou um número grande de publicações e, especialmente, de coleções etnográficas entregues ou vendidas a museus. A falta de formação no campo da antropologia ou etnologia era comum entre etnógrafos da época, período em que estes cursos estavam em processo de institucionalização.
Fez seus primeiros trabalhos na Argentina, em 1934, após ter a licença para pesquisar no Brasil negada pelo Conselho de Fiscalização de Expedições Artísticas e Científicas do Brasil (1933-1968). Chegou em Buenos Aires e seguiu para o Norte do país, ao encontro de indígenas Cainguá. De lá seguiu para o Paraguai, tendo atuado como médica para financiar suas expedições até o povo indígena Guayaki. Em junho de 1936, voltou a Buenos Aires e três meses depois retornou à Europa. Em Viena, buscou financiamento para suas viagens, a seguinte iniciada um ano mais tarde, em 1937. Seguiu viajando pela América do Sul até sua morte, em 1958.
Sobre a experiência entre os Cainguá, Wanda Hanke escreveu um livro, publicado somente em 1995, após seu falecimento. Tentou publicá-lo ainda em vida, mas os processos editoriais se estenderam por anos, resultando na publicação póstuma pelo Centro Argentino de Etnologia Americana.
Wanda Hanke organizava viagens sozinha e trabalhou sem nunca ter estabelecido vínculos institucionais mais sólidos, reunindo recursos a partir da venda de coleções. Tornou-se uma figura polêmica, tanto por essa postura, uma mulher circulando sozinha sem uma instituição que a respaldasse, quanto por seus escritos que transparecem o eurocentrismo de boa parte das produções etnográficas da época. Essas condições contribuíram para sua relativa marginalidade na comunidade científica e no impacto de seus trabalhos. Produziu também compilados linguísticos, estes sim bastante significativos para estudos de linguística indígena até os dias de hoje. Não obstante, ela deixou uma quantidade impressionante de registros de campo e reuniu grandes coleções etnográficas, materiais com potencial para incrementar nossas reflexões sobre histórias indígenas e institucionais da América do Sul.
-
A vocação antropológica de Egon Schaden e a preservação do seu legado
— Tânia Welter
— Tânia Welter
Nascido em São Bonifácio/SC no início do século XX, Egon Schaden vivenciou, ao lado de seu pai, Francisco Schaden - um autodidata, o extermínio da população Xokleng nas encostas da Serra Geral tendo essa experiência despertado sua vocação antropológica que o levou a dedicar a própria vida ao estudo das populações indígenas, especialmente grupos guarani do litoral de São Paulo e Mato Grosso. A presente comunicação busca resgatar diferentes aspectos da trajetória de Egon Schaden e a proposta de registro e preservação do seu legado com foco da criação do Instituto Egon Schaden e construção do Centro Cultural Egon Schaden, na sua terra natal, São Bonifácio. No processo, destaca-se a importância da obra autodidata de Francisco Schaden e sua contribuição decisiva na carreira de Egon Schaden que se evidencia com a preservação de seu arquivo pessoal sob a guarda do instituto que leva seu nome.
Coordenação
Fabiano de Souza Gontijo (UFPA)
Estevão Rafael Fernandes (UNIR)
Os apagamentos e enquadramentos reguladores da diversidade sexual e de gênero constituem instrumentos de um dispositivo essencializador e naturalizador sustentado pelos sistemas médico-científico e jurídico-normativo modernos que operam na produção do projeto hegemônico de nação em contextos submetidos à situação colonial. Trata-se de nacionalidades euronorcentradas, racialmente marcadas, heteronormativas e reprodutoras de múltiplos colonialismos internos que definem as fronteiras entre cidadania e abjeção, entre vidas reconhecíveis e existências apagadas. O GT propõe abordar os dispositivos de enquadramentos da diversidade sexual e de gênero no âmbito dos processos de manutenção de formas de pertencimento e ideologias nacionais em perspectiva comparada, multissituada ou global consciente dos efeitos das situações coloniais. Busca-se verificar a relação do campo de produção de conhecimentos acadêmicos com esses instrumentos e dispositivos no seio daqueles processos, reconhecendo que a heterocolonialidade organiza e fundamenta os projetos nacionais através da regulação sexual e de gênero, indissociáveis de marcadores raciais, territoriais e epistêmicos. Serão debatidos resultados de pesquisas realizadas ou em andamento, reflexões teóricas e propostas metodológicas que contribuam para a compreensão da articulação de marcadores sociais da diferença como gênero, sexualidade, raça, classe, geração e religião com os projetos nacionais e as discursividades nacionalistas.
Títulos e Resumos
-
O Estado-Nação, O Não-Soberano, e A Diversidade Sexual e de Gênero na América Latina: Os Casos da Amazônia e Porto Rico
— Carlos Andrés Montes Jiménez
— Carlos Andrés Montes Jiménez
No contexto deste difícil momento histórico na política "global", latino-americana e caribenha, onde as crises neoliberais impulsionam a extrema direita ao poder e o consenso sobre a “soberania nacional” é cada vez mais contestado, fragilizado, este trabalho propõe prestar atenção a como pessoas LGBTQIAP+ criam estruturas de resistências capazes de nutrir seus contextos étnico-culturais para vislumbrar futuros além do Estado-nação. Para este fim, porei em conversa as trajetórias históricas e os movimentos contemporâneos de duas entidades geopolíticas frequentemente posicionadas nas margens do imaginário latino-americano: o Brasil e Porto Rico. Considerando a condição política não soberana de Porto Rico em relação aos Estados Unidos, busco desnaturalizar o Estado-nação como a formação política predominante na nossa conjuntura atual, expondo suas limitações em sua (incompleta) aplicação na América Latina e apontando como as expressões da diversidade sexual e de gênero na região podem constituir formas de “resistência criativa” (Gontijo, 2024) num presente colonial. Seguindo o convite da antropóloga Deborah Thomas (2019) para pensar a “constituição do sujeito político não principalmente através do nacionalismo ou de processos estaduais (e extra-estaduais) de subjetificação, mas através da cultivação de afetos encarnados”, analisarei as articulações de pertencimento apresentadas por pessoas e coletivos LGBTQIA+ no Caribe e na Amazônia brasileira.
Eu proponho pensar as lições do Caribe não soberano em relação à Amazônia brasileira, região cuja incorporação nos mecanismos desenvolvimentistas do Estado-nação brasileiro tem sido muito recente e resultado de projetos deliberados pelas classes político-militares com fins de exploração e controle. Essa relação desigual com o resto do Brasil não só se manifesta materialmente, mas também epistemologicamente, como no caso da antropologia, na qual saberes antropológicos desenvolvidos nas prestigiosas universidades do Sudeste são generalizados na Amazônia, particularmente no campo de estudos da diversidade sexual e de gênero (Gontijo, 2023). Pensar o Estado-nação como apenas uma de várias maneiras de reivindicar a soberania, portanto, permitirá apreciar as estratégias daqueles que ele deixa para trás.
-
INDÍGENA, TRAVESTI E PESQUISADORA: primeiras percepções a partir do doutorado em antropologia social
— Kiga Boe
— Kiga Boe
RESUMO: Esta pesquisa parte de uma indígena e travesti do povo Bóe (Bororo) e doutoranda em antropologia social. Busca investigar e compreender as relações existentes entre as Imedu/Aredu: Homem/Mulher (Trans/Travestis) e o povo Boe (Bororo), outros povos indígenas e os não indígenas. Observar as participações nas práticas culturais em rituais, dias festivos, eventos do povo Boe, outros povos e não indígenas. O povo Boe divide algumas funções sociais entre homens e mulheres. É possível observar e perceber a presença das Imedu/Aredu no que diz respeito a pintura facial e corporal, danças tradicionais femininas, cantos tradicionais femininos, preparo de alimentos, trançados, que são práticas mais comumente realizadas por mulheres. Tenho como objetivo trazer minhas observações iniciais a partir dos movimentos sociais tradicionais e não tradicionais, dentro e fora dos territórios e relatos de pessoas imedu/aredu de aldeias e territórios distintos do povo Boe, a fim de mostrar para sociedade acadêmica e civil a atuação dessas pessoas no âmbito cultural/tradicional, visto que, muitas vezes, não são consideradas pertencentes às culturas tradicionais indígenas. A pesquisa será realizada a partir de entrevistas semi-estruturadas, conversas informais com interlocutoras das aldeias Meruri (T.I Meruri), Apido Paru (T.I Tadarimana) e Arareiao (T.I Teresa Cristina) e a observação participante, fotos, gravações de áudios e vídeos, bem como literaturas relacionadas ao tema abordado, tais como Gersem Baniwa, Antônio Bispo, Gayatri Spivak, Estevão Fernandes, entre outros. Para coleta de mais informações, será possível também o contato e observações pelas redes sociais, tais como Facebook, Instagram e WhatsApp, onde podemos encontrar fotos, áudios, vídeos, textos e alguns documentários. Entre os resultados esperados, poderemos ter o empoderamento desse grupo tão estigmatizado pela sociedade, seja indígena ou não. Poderá trazer também mais motivação por parte da autora, das interlocutoras e de outras pessoas em produzir mais trabalhos voltados à valorização deste grupo.
-
Entrelugares Digitais e a Nação Angolana: Experiências LGBTQIAPN+ em disputas à ideia de tradição e modernidade.
— Lucas Ribeiro da Silva
— Lucas Ribeiro da Silva
Este trabalho, vinculado a pesquisa em desenvolvimento de mestrado no PPGCS/UFRRJ, analisa a emergência e a atuação de movimentos LGBTQIAPN+ em Angola, contextualizando a partir da descriminalização da homossexualidade em 2019. Argumenta-se que este avanço jurídico não constitui apenas um progresso linear, mas integra um regime que pode ser lido à luz do homonacionalismo (Puar, 2007), no qual o Estado mobiliza a retórica dos direitos humanos como signo de modernidade e legitimação internacional, sem romper com estruturas heterocoloniais e moralmente conservadoras que sustentam o projeto nacional. A pesquisa adota uma abordagem digital integrada ao cotidiano, pautada pelos marcadores sociais da diferença no contexto angolano (Hine, 2020). O material empírico compreende postagens, vídeos e lives das redes sociais da meta plataforms, sendo elas os perfis no Facebook e Instagram dos coletivos AIA (Arquivo de Identidade Angolano) voltado a experiências LBTI+ e feminismo negro e Diversidades articulado em torno de masculinidades GBTI+. Os dados são organizados em um banco estruturado, classificados por eixos analíticos convergentes ao foco de militância de cada grupo, o que permite identificar enquadramentos reguladores da diversidade sexual e estratégias de resistência a partir das ações desses grupos no campo digital. As redes sociais são aqui compreendidas como espaços sociotécnicos (Latour, 1997), a interação com essas plataformas produz uma relação social de mútua constituição, na qual o Facebook e o Instagram junto aos sujeitos se informam e se formam através de suas interações cotidianas, formando uma esfera pública de disputa política onde a militância produz visibilidade e contra-narrativas. A partir do conceito de entrelugares (Bhabha, 1998), se busca pensar como sujeitos dissidentes podem realizar traduções culturais de categorias globais de gênero e sexualidade, tensionando diferenças numa dinâmica de poder sobre o "universal LGBT" e o léxico queer. A hipótese central sugere como as redes emergem como espaços de disputa simbólica sobre tradição, moralidade e pertencimento. Nesse sentido, as ações digitais desses coletivos poderiam evidenciar não apenas a incompletude do projeto nacional angolano, mas também a produção de formas dissidentes de subjetivação e participação política.
-
Quando o queer encontra o axé: limites e deslocamentos
— Ronaldo Trindade
— Ronaldo Trindade
Este trabalho propõe refletir sobre a possibilidade de decolonizar o queer a partir das epistemologias do terreiro, tomando como base a produção bibliográfica brasileira nos estudos LGBT e nas pesquisas antropológicas sobre religiões afro-brasileiras. Parte-se da crítica de que, embora os estudos queer tenham sido centrais para a problematização das normatividades de gênero e sexualidade, suas categorias analíticas permanecem majoritariamente ancoradas em matrizes euro-americanas, o que impõe limites à compreensão de contextos afro-diaspóricos. A partir de etnografias e formulações teóricas sobre candomblé, umbanda e outras religiões afro-brasileiras, discute-se como os terreiros produzem regimes próprios de inteligibilidade do corpo, do desejo e da pessoa, nos quais gênero e sexualidade se articulam a ancestralidade, hierarquias rituais, performances e relações com entidades, tensionando a centralidade da identidade sexual moderna. O trabalho argumenta que as epistemologias do terreiro não devem ser tomadas como meros objetos de aplicação do queer, mas como interlocutoras capazes de deslocá-lo, contribuindo para a construção de uma crítica queer situada e comprometida com a descolonização do conhecimento antropológico.
-
Movimentos indígenas e a formulação de políticas públicas no Brasil: etnografia da 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+
— Tchella Fernandes Maso, Flávia Belmont
— Tchella Fernandes Maso, Flávia Belmont
Esta comunicação apresenta uma etnografia da presença indígena na 4ª Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, realizada entre 21 e 25 de outubro de 2025, em Brasília/DF. Com o maior número de participação indígena registrado em relação às conferências anteriores, o evento marca um momento singular em que dissidências sexuais e de gênero de diferentes etnias ocupam espaços institucionais de formulação da política pública brasileira, tensionando os enquadramentos reguladores da diversidade sexual e de gênero que constituem instrumentos do dispositivo essencializador e naturalizador discutido pelo GT. Nosso objetivo é analisar as estratégias de articulação política de movimentos indígenas LGBTQIA+ em espaços de participação social; examinar como as dissidências indígenas contestam simultaneamente a heterocolonialidade e os projetos nacionais hegemônicos; compreender as especificidades epistêmicas e políticas do movimento indígena LGBTQIA+ em relação ao movimento nacional LGBTQIA+. A pesquisa adota perspectiva etnográfica feminista e queer, dialogando com as contribuições teórico-metodológicas de Patrícia Castañeda Salgado, Carmen Gregorio Gil e Mari Luz Esteban. Desenvolvida no âmbito da Arandu - rede colaborativa de pesquisa sobre povos indígenas, gênero e sexualidade -, a abordagem incorpora a perspectiva de Tim Ingold sobre a etnografia como exercício de aprender com, privilegiando processos colaborativos de produção de conhecimento. Seguindo Viveiros de Castro, buscamos atuar desde a igualdade ativa para compreender como as dissidências indígenas propõem povoar nossos mundos e decolonizar a nação através de ontologias relacionais. A pesquisa incluiu participação durante a Conferência, acompanhamento de articulações dos movimentos organizados, análise documental de moções e conversas com lideranças. A etnografia acompanhou as atuações dos movimentos Miriãm Mahsã (pluriétnico- Amazonas), Ypakey (pluriétnico- Bahia) e Juind ( Guarani e Kaiowá -Mato Grosso do Sul), que atuam em coordenação com o Coletivo Tybyra. Um momento central foi a elaboração coletiva de uma moção reivindicando tratamento adequado da SESAI em relação à diversidade sexual e de gênero, evidenciando lacunas nas políticas de saúde indígena que reproduzem a heteronormatividade colonial. A análise demonstra como lideranças indígenas LGBTQIA+ produzem conhecimentos situados que desafiam a heteronormatividade e os colonialismos epistêmicos das discursividades nacionalistas brasileiras, propondo outros marcos de reconhecimento que articulam gênero, sexualidade, raça, território e cosmopolíticas indígenas.
Coordenação
Roque Pinto (UESC)
Maria Amália Silva Alves de Oliveira (UNIRIO)
O turismo se configura como um objeto de investigação dinâmico, complexo e multifoliado, exigindo um crescente esforço teórico e metodológico de cientistas sociais em geral, e em especial da antropologia, que encara o desafio de investigar o turismo a partir de várias aproximações, desde uma ampla abordagem socioeconômica até pesquisas etnográficas mais atomizadas, sempre buscando conectar aspectos sociais, culturais, patrimoniais, memoriais, econômicos, ecológicos, simbólicos e, mais recentemente, tecnológicos. Assim, este GT propõe reunir pesquisadoras e pesquisadores que venham realizando investigações ligadas ao turismo e seu entorno, abarcando temas como uso de recursos comuns, áreas protegidas, meio-ambiente, conflitos econômico-sociais, overturismo, comunidades haliêuticas, patrimônio, memória, turismo de base local, turismo e etnicidade, turismo e tecnologias de comunicação (internet e redes sociais) e temáticas contíguas e afins. Pretende-se, assim, contribuir para o incontornável e crescente debate contemporâneo em torno da temática do turismo e suas múltiplas interfaces.
Títulos e Resumos
-
O caravanismo como prática turística: modos de fazer turismo na estrada
— Amanda Paola Alves Caldo, Álvaro Banducci Júnior
— Amanda Paola Alves Caldo, Álvaro Banducci Júnior
O caravanismo consiste em uma forma de viajar em veículos que combinam transporte e acomodação. Essa atividade destaca-se pela variedade de modalidades e estruturas utilizadas, podendo, no caso dos motorhomes, integrar o espaço de habitação à própria estrutura do veículo, ou vincular-se de forma independente, como ocorre com os trailers (Marques e Rodrigues, 2024). Enquanto prática turística, o caravanismo, em razão de sua natureza móvel, constitui-se numa atividade privilegiada, pois possibilita a combinação de diferentes formas de se fazer turismo. Essa condição revelou-se aos pesquisadores durante uma incursão etnográfica, realizada no 4º Encontro de Motorhomes e Campistas de Mato Grosso do Sul, no ano de 2025, quando, no diálogo com os praticantes, diversas experiências turísticas emergiram associadas ao caravanismo, apontando para a expressiva proximidade entre ambos. Diante disso, este estudo foi concebido com o objetivo de analisar, de forma exploratória, como o caravanismo articula distintas maneiras de se fazer turismo, identificando as principais modalidades evidenciadas nos relatos dos caravanistas sul-mato-grossenses a partir de suas práticas e experiências. As viagens dos grupos investigados, mostraram-se frequentemente concebidas com finalidade turística e associadas a esses destinos, revelando diferentes modalidades e formas de praticar turismo, com destaque para o turismo de lazer, o turismo cultural, de aventura, bem como práticas relacionadas ao slow travel e ao turismo de proximidade. Sendo uma modalidade de viagem que ganha cada vez mais adeptos no estado de MS e em todo o país, o estudo procura discutir a sua inclinação turística, o que implica na reflexão não apenas acerca de novas estruturas e serviços diferenciados, mas na própria condição de viagem, que pressupõe relações mais amplas com o coletivo, formas distintas de trocas e acolhimento, sensibilidades com a natureza, entre outras características que perfazem o modo de ser e o propósito dos deslocamentos dos caravanistas.
Palavras-chave: caravanismo; motorhome; turismo; modalidades de turismo, estilo de vida.
-
ENTRE O DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE E A PRÁTICA DA MERCANTILIZAÇÃO: as múltiplas faces do turismo no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses
— Ana Luiza Sousa Romeiro, Benedito Souza Filho
— Ana Luiza Sousa Romeiro, Benedito Souza Filho
O turismo ecológico ou ecoturismo, surgido no final do século XX e introduzido no Brasil nos anos 1980, possui o propósito de valorizar premissas ambientais, sociais, culturais e econômicas. As unidades de conservação foram inseridas nesse contexto como destinos turísticos estratégicos. A efetivação desses princípios depende da participação das comunidades locais nos processos de planejamento, gestão e enquanto possíveis beneficiárias dos ganhos econômicos. A abertura dos parques nacionais à visitação pública tem favorecido processos de apropriação e transformação dessas áreas e de seus entornos a partir de demandas externas. Diferentes mecanismos de apropriação e uso do território, protagonizados por grupos envolvidos no processo de incremento do turismo em unidades de conservação, têm contribuído para a transformação da natureza em uma mercadoria a ser comercializada sazonalmente. Nesse cenário, as comunidades tradicionais residentes em áreas protegidas são duplamente afetadas. Primeiro, pela criação de unidades de conservação em sobreposição a territórios tradicionalmente ocupados, o que implica restrições e cerceamentos de atividades. Segundo, em razão de processos decorrentes da chegada de novos agentes econômicos e da especulação deflagrada no entorno dessas áreas. Embora o discurso institucional associe o turismo em parques nacionais ao "desenvolvimento sustentável", observa-se que, via de regra, os benefícios concentram-se nas mãos de grandes investidores articulados ao trade turístico. Compreendendo o turismo enquanto fenômeno social complexo, este trabalho propõe analisar as contradições do modelo de desenvolvimento turístico que vem sendo implementado no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (PNLM). Criado em 1981, sobrepondo-se a territórios tradicionalmente ocupados por grupos hoje reconhecidos juridicamente como comunidades tradicionais, e titulado em 2024 pela UNESCO como Patrimônio Natural da Humanidade, o PNLM tem experimentado um crescimento expressivo no fluxo de visitação. Esse processo tem evidenciado múltiplas implicações associadas ao modelo de desenvolvimento turístico promovido pelo Estado, especialmente por meio do estabelecimento de parcerias com o setor privado e o terceiro setor. Com base em trabalho de campo iniciado em 2017, observa-se que, embora as famílias de comunidades tradicionais, situada no interior e entorno do PNLM, tenham elaborado estratégias locais de resistência e adaptação, a concepção emergente de exploração econômica da natureza via turismo, tem resultado na degradação de espaços que o próprio Estado afirma proteger, ao mesmo tempo em que intensifica processos de desterritorialização.
-
Conservação e turismo: uma análise da relação entre educação ambiental e o ecoturismo no caso específico da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu (São Paulo-SP)
— Carolaine Nunes Silva
— Carolaine Nunes Silva
Esta pesquisa de mestrado está em andamento e trata-se de uma etnografia. Este resumo apresenta um aspecto importante do campo realizado até este momento: o ecoturismo praticado na Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu, situada no extremo sul da cidade de São Paulo. A pesquisa, de maneira mais ampla, busca compreender concepções de conservação ambiental elaboradas e praticadas nesta Unidade de Conservação.
O ecoturismo - utilizo este termo por se tratar de práticas de turismo focadas no meio ambiente e pela escolha dessa nomenclatura pelos interlocutores da pesquisa -, foi a via por mim encontrada para a inserção em campo. As minhas indagações intelectuais e científicas permeiam a compreensão das motivações e escolhas práticas de sujeitos que possuem alguma interação no extremo sul de São Paulo para conservar remanescentes de Mata Atlântica no território; para tanto foquei minha pesquisa na Área de Proteção Ambiental Capivari-Monos, Unidade de Conservação de âmbito municipal.
Por ser uma pesquisa de mestrado e visando a sua viabilidade, foi necessário atomizar o foco do trabalho de campo na RPPN Sítio Curucutu. A minha chegada neste território foi por intermédio do ecoturismo realizado na região em parceria entre o setor privado e a prefeitura da cidade que promovem passeios a diversos lugares como: sítios, parques naturais, propriedades rurais, aldeias indígenas, entre outros.
Assim, parte do meu trabalho de campo é acompanhar grupos de turistas em visitas à RPPN e observar como as gestoras e pessoas que trabalham na RPPN mobilizam ideias e práticas de conservação e repassam para os visitantes. Já pude ouvir de uma das gestoras que o turismo contribui para a conscientização da proteção ambiental e da fauna e flora; como se conhecer de mais perto e com os sentidos - olhar, tocar, sentir o cheiro - mobilizasse as pessoas para preservar o que ainda resta da Mata Atlântica e os seres que nela habitam.
O trabalho de campo possibilitou o contato com guias de turismo, um de meus interlocutores trabalha a cerca de 3 anos no Polo de Ecoturismo de São Paulo, uma região ampla que abriga grandes remanescentes de Mata Atlântica e um dos poucos rios limpos da cidade e fica localizado no sul da cidade de São Paulo, entre Parelheiros e Marsilac. Meu interlocutor entende a relevância das pessoas que moram na região em participar dos passeios visando justamente ampliar o conhecimento sobre as práticas de conservação ambiental da região.
Por fim, o ecoturismo é percebido, a priori, por meus interlocutores como um vetor para a conservação ambiental, apresentar às pessoas parte do que é feito para preservar a Mata Atlântica é percebido como um ponto fundamental de educação ambiental e de contribuição para a conservação da floresta.
-
Trabalho permanente e o descanso impossível: regimes de temporalidade e lazer de docentes na pandemia da COVID 19
— Dan Gabriel D'Onofre Andrade Silva Cordeiro
— Dan Gabriel D'Onofre Andrade Silva Cordeiro
Este trabalho investiga, a partir de uma abordagem antropológica, as experiências de tempo livre, lazer e descanso de docentes universitários durante a pandemia da COVID-19, compreendendo o turismo como prática social situada, vinculada às mobilidades, à suspensão do tempo produtivo e às formas de reprodução material e simbólica da vida. Em diálogo com a antropologia do trabalho, do lazer e do turismo, o estudo analisa como a crise sanitária reconfigurou regimes de temporalidade, tensionando as fronteiras entre trabalho, descanso e práticas turísticas.
A pesquisa baseia-se em etnografia de inspiração qualitativa, realizada por meio de entrevistas aprofundadas com dez docentes vinculados a uma universidade federal brasileira, contemplando distintos vínculos institucionais e marcadores sociais da diferença, como gênero, raça e responsabilidades de cuidado. Os dados foram analisados por meio de análise temática, permitindo identificar unidades de sentido associadas à intensificação do trabalho remoto, à sobreposição entre esferas produtivas e reprodutivas e à colonização institucional do tempo doméstico.
Os achados indicam que a pandemia operou como um evento crítico que suspendeu, deslocou e ressignificou práticas de lazer e turismo. Atividades tradicionalmente associadas à exterioridade — viagens, circulação urbana, eventos culturais e sociabilidades presenciais — foram substituídas por formas domésticas, digitais e individualizadas de lazer, ao passo que o turismo passou a figurar como expectativa projetiva, especialmente relacionada ao retorno às atividades ao ar livre, ao contato com a natureza e a deslocamentos de curta duração. Tais transformações, contudo, foram vivenciadas de modo desigual, incidindo com maior intensidade sobre mulheres docentes, sobretudo aquelas submetidas a jornadas ampliadas de trabalho reprodutivo e cuidadoria.
Ancorado no debate sobre o Antropoceno, o artigo argumenta que a pandemia explicitou contradições estruturais do capitalismo contemporâneo, revelando disputas em torno do controle do tempo, da disponibilidade permanente e do direito ao descanso. Nesse sentido, o turismo e o lazer são compreendidos não como práticas meramente individuais ou recreativas, mas como fenômenos sociais, políticos e morais, atravessados por desigualdades, conflitos e expectativas sobre o futuro. Ao explorar essas interfaces, o trabalho contribui para o debate antropológico sobre turismo, crises globais, trabalho docente e modos de habitar o tempo em contextos de instabilidade socioambiental.
-
Turismo, escravidão e direito à memória: práticas de memoração no Circuito Histórico da Pequena África
— Débora Anízio Rios
— Débora Anízio Rios
Este trabalho parte do reconhecimento do turismo como um conjunto de práticas memoriais (MacDonald, 2008), capazes de produzir experiências de memoração a partir do encontro entre sujeitos, narrativas e lugares. Em diálogo com debates da antropologia do turismo, a memória é compreendida não como reprodução do passado, mas como reconstrução performativa (Pfoser, 2025). Desse modo, consideramos que visitas a sítios relacionados à escravidão devem ser analisadas não como práticas passivas ou meramente contemplativas, mas como formas ativas de relação com passados sensíveis. Apesar da literatura sobre visitas a lugares associados à violência histórica recorrer frequentemente às categorias de dark tourism e thanaturismo (Körössy et al., 2018; Pereira et al., 2022), revisões críticas as apontam como uma rotulação limitada, aproximando essas práticas do turismo patrimonial e indicando que o fascínio específico pela morte é raro (Light, 2017). No caso de sítios ligados à escravidão, pesquisas destacam outras dimensões centrais, como a busca por pertencimento diaspórico (Leite, 2005; Pinho, 2018; Coles & Timothy, 2014), processos de reconhecimento e reparação simbólica (Araújo, 2020) e disputas em torno da memória pública (Araújo, 2010). Nesse contexto, o conceito de turismo de memória pode oferecer um enquadramento alternativo ao enfatizar sua função pedagógica, ética e cívica (González Vázquez & Mundet i Cerdan, 2018; González Vázquez, 2014). A pesquisa se fundamenta em revisão bibliográfica interdisciplinar sobre turismo, memória e patrimônio, articulada a observações realizadas a partir da participação em visitas guiadas na região da Pequena África, zona portuária do Rio de Janeiro, no período de 2020 a 2024, no âmbito do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana. Essa ação teve como objetivo analisar as narrativas mobilizadas durante esses circuitos e os usos sociais do patrimônio. A partir dessa análise, os resultados indicam que esses itinerários operam como dispositivos de reivindicação do direito à memória, contribuindo para a salvaguarda de sítios historicamente negligenciados e para a problematização do racismo no presente, tendo os guias e mediadores papel central no processo de memoração e na chamada criação de memórias, entendida como produção social e situada de narrativas sobre o passado (Pfoser, 2025; Rios, 2024). O turismo de memória, nesse sentido, vem se unir ao afroturismo e ao turismo afrocentrado (Teixeira, 2023; Santos & Gomes, 2022; Dias, 2023), como mais um possível articulador das memórias da escravidão, que desmobilize posicionamentos negacionistas, silenciamentos e amnésias deliberadas, nos termos do debate sobre patrimônios dissonantes (Tunbridge & Ashworth, 1996).
-
Para quem é o desenvolvimento? Estado, turismo e desigualdade no Tren Maya
— Estefania Santoyo Pérez
— Estefania Santoyo Pérez
Este trabalho analisa o projeto do Tren Maya como uma forma contemporânea de atuação do Estado no campo do desenvolvimento, tomando o turismo como ferramenta de governo e de ordenamento territorial. Longe de se limitar a uma infraestrutura de mobilidade, o Tren Maya articula transporte ferroviário, reconfiguração fundiária e a criação de empreendimentos turísticos administrados por empresas estatais vinculadas às Forças Armadas, como o Grupo Mundo Maya. A análise baseia-se em um trabalho de prospecção de campo realizado numa das regiões de influência do projeto, no qual foram conduzidos percursos territoriais, observação participante e entrevistas informais com moradores, trabalhadores e atores locais.
A partir desse material empírico, examinam-se as contradições entre o discurso oficial de integração regional, desenvolvimento social e turismo acessível, e a implantação de infraestruturas e serviços turísticos economicamente inacessíveis à população local. Argumenta-se que tais contradições não constituem falhas de execução, mas elementos estruturais do desenvolvimentismo contemporâneo, marcado por decisões centralizadas, pela militarização da gestão territorial e pela subordinação das necessidades cotidianas das populações locais a projetos de grande escala. Ao privilegiar obras emblemáticas e empreendimentos turísticos em detrimento do fortalecimento de infraestruturas preexistentes, o Estado atualiza práticas autoritárias no campo do desenvolvimento, reafirmando desigualdades sociais e territoriais. Assim, o Tren Maya é compreendido como um dispositivo estatal que reinscreve o território em circuitos de acumulação, limitando as possibilidades de uma transformação social efetivamente redistributiva
-
Estudo de base etnográfica na construção de um projeto de turismo comunitário
— Helena Catão Henriques Ferreira
— Helena Catão Henriques Ferreira
O turismo produz modificações nos usos e maneiras de conceber o território, o que pode originar diversas formas de conflitos. Frequentemente reflete desigualdades e distinções sociais, mas também pode ser um fator contributivo para o fortalecimento de sujeitos em luta pelo território e em busca de melhores condições de vida. Esta comunicação aborda o trabalho de campo em um povoado quilombola em Goiás, no Brasil, onde ocorre um fluxo turístico voltado à atrativos naturais. Situa-se no entorno do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, declarado Patrimônio Natural da Humanidade, em 2001. A comunidade foi reconhecida oficialmente como remanescente de quilombo em 2015, porém a demarcação do território ainda não foi concedida. Apesar da área ser muito visitada, os moradores não se sentem contemplados pelos benefícios desse turismo e buscam desenvolver turismo comunitário. O objetivo deste trabalho é trazer uma reflexão sobre a fase de diagnóstico participativo de um projeto de turismo comunitário, sobre as interferências do turismo já existente, as expectativas dos integrantes do grupo social sobre a atividade e a potencialidade para seu desenvolvimento. Para tanto, contou com uma perspectiva etnográfica, a partir da observação direta, de entrevistas em profundidade, de caminhadas transversais pelo território quilombola, com coleta de depoimentos e narrativas, como também com a produção e análise de material fotográfico e audiovisual. Considerando a complexidade do debate sobre sustentabilidade, principalmente diante dos avanços do capitalismo contemporâneo que impõem dificuldades a essa perspectiva, mas levando em conta ser possível almejar melhores formas de desenvolvimento, entendemos que um aspecto importante nessa busca é a efetiva participação da população local no planejamento e organização da atividade. Neste sentido, torna-se fundamental o engajamento do grupo em questão em todas as fases de construção e implantação do projeto e que sua cultura seja efetivamente representada. A etnografia pode ser útil nesse processo, já que supõe a imersão dos pesquisadores no campo de pesquisa, a aproximação e o vínculo entre pesquisadores e pesquisados, em um trabalho conjunto e negociado de interpretações e valores e, principalmente, a valorização da voz e o protagonismo dos grupos envolvidos.
-
Indagar "o estado mais seguro do Brasil": desenho de pesquisa etnográfica entre turismo e segurança pública em Santa Catarina
— Jo Pedro Barros Klinkerfus
— Jo Pedro Barros Klinkerfus
No estado de Santa Catarina, Brasil, ambas as Secretarias de Estado de Turismo (Setur/SC) e de Segurança Pública (SSP/SC) utilizam de um mesmo slogan em suas campanhas publicitárias: “o estado mais seguro do Brasil”. Neste trabalho, apresento o desenho de pesquisa de meu projeto de tese de doutorado em Antropologia Social (PPGAS/UFSC) orientado para os debates de uma antropologia política interessada na intersecção entre segurança pública e turismo e para discussões teóricas sobre a construção de imagens, representações e estéticas de territórios e populações e suas repercussões políticas. A partir de uma trajetória de pesquisas etnográficas ao redor da produção de imagens, representações e estéticas por parte das forças de segurança pública no estado e do trabalho que tenho construído conjuntamente no âmbito do Laboratório Universitário de Políticas, Direitos e Antropologia (LUPA/UFSC) sobre segurança, direitos, políticas e justiça em Santa Catarina; o atual projeto busca expandir as investigações ao redor das imagens de segurança atreladas ao estado e questionar como – por meio de tecnologias e políticas estatais voltadas para o turismo, documentos oficiais de ambas as secretarias de estado, de seus materiais publicitários e das experiências de trabalhadores dos dois ramos – são produzidas representações e percepções de segurança e uma imagem pública do estado de Santa Catarina como “estado ideal”. Esta é uma pesquisa etnográfica multissituada, com métodos e técnicas orientados para a realização de etnografia documental com arquivos jurídicos e peças comunicacionais dos campos da segurança pública e do turismo do estado e de trabalho de campo presencial a partir de observação participante e condução de entrevistas semiestruturadas com agentes dos dois ramos situadas nas nove regiões turísticas do estado (Caminho dos Príncipes; Costa Verde e Mar; Vale Europeu; Grande Florianópolis; Encantos do Sul; Caminho dos Cânions; Serra Catarinense; Vale do Contestado e; Grande Oeste). A hipótese inicial que motiva o atual desenho de pesquisa é de que a construção da ideia de segurança no estado e sua desejabilidade para públicos turistas estão atreladas ao histórico de representações do estado como território europeu no Brasil com uma população branca, marcadores presentes nas obras das antropólogas brasileiras Ilka Boaventura Leite, Alexandra Alencar e Flavia Medeiros e que parecem indicar uma relação complexa entre turismo, dispositivo de racialidade e segurança.
-
Cultura da pesca artesanal: turismo, memória e conservação ambiental em Magé (RJ)
— Maria Amália Silva Alves de Oliveira
— Maria Amália Silva Alves de Oliveira
A da Área de Proteção Ambiental (APA) de Guapimirim abrange uma porção significativa do território de Magé, integrando-se com Guapimirim, Itaboraí e São Gonçalo (RJ) e sua criação marcou um avanço para a conservação do ecossistema da Baía de Guanabara e para a história ambiental do País, por ser primeira APA voltada para a conservação de um manguezal no Brasil. A conservação deste bioma depende de populações tradicionais como pescadores artesanais e catadores de caranguejo que lá habitam, pois os conhecimentos tradicionais destes grupos são de vital importância para a conservação do bioma. A trajetória histórica destes grupos tradicionais revela um passado comum relacionado a Fazenda Feital (Magé/RJ) que no século XIX valia-se de grande quantitativo de pessoas escravizadas para manter sua relevância econômica e social. Descentes destes escravizados e de indígenas da Região mantiveram ao longo do tempo a cultura de seus ancestrais no que tange a prática da pesca. Desta forma, pescadores artesanais e catadores de caranguejos da Região realizam distintas modalidades de pesca, tais como: o curral, isto é, instrumento de pesca fixo feito de estacas de madeira; diferentes modos de arrasto manual (cerco de praia); coleta manual de moluscos e crustáceos; uso da tarrafa e do puçá, e; armadilhas para a captura de caranguejos e siri. O passado em comum e o conhecimento tradicional da pesca artesanal conferiu ao grupo distintos reconhecimentos, tal como o de Comunidade Quilombola, concedido pela Fundação Palmares em 2018 e o de pescadores tradicionais, conforme Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP).
A sobreposição de reconhecimentos, as modalidades de pesca artesanal empreendidas e o território compreendido enquanto Área de Proteção Ambiental, tem despertado a atenção do público e produzindo fluxo de visitação para o município de Magé. Paralelamente, esforços têm sido empreendidos pelo poder público para divulgar turisticamente a cultura da pesca no local. Pelo exposto, a proposta da presente comunicação reside em apresentar o processo de turismização do Quilombo Feital e dos pescadores de curral de Magé.
-
O serrano como refúgio que pulsa vitalidade: ecoturismo e projetos de "futuro" na construção de um território
— Matheus Piter
— Matheus Piter
A região serrana entre Petrópolis e Miguel Pereira (RJ) tem sido atravessada por iniciativas ligadas ao ecoturismo e a discursos de um certo “desenvolvimento sustentável”, em meio a processos de neorruralização. Essas iniciativas se apoiam na presença da Mata Atlântica, mobilizada como elementar nas narrativas sobre preservação da natureza e qualidade de vida, frequentemente construídas em um refúgio atmosférico que se opõe ao “caos” urbano das capitais. A proposta para o GT se insere junto ao início de minha pesquisa de doutorado nesse campo e parte de problemas ainda em formulação, entre os quais o turismo aparece como uma das vias possíveis para pensar expectativas, disputas e projetos de "futuro" no distrito. Interessa-me observar como noções de ecologia, saúde e bem-estar circulam entre interlocutores locais, visitantes e empreendimentos que atuam no território, e como essas circulações afetam formas de engajamento comunitário e uso dos espaços. O deslocamento da ideia de saúde para fora da centralidade biomédica surge aqui como chave para refletir sobre essas construções, reforçando a associação à vitalidade e às práticas que orientam a ocupação “consciente” do território daqui pra frente, tensionando sentidos da moradia e da atividade turística em expansão - atravessados, analogamente, por memórias pouco estabilizadas e documentadas da região, o que complexifica a expectativa de um olhar para o “futuro”.
-
Homo figuratus: Biografias de destinos, figurações sociais e narrativas digitais no Instagram
— Roque Pinto da Silva Santos
— Roque Pinto da Silva Santos
Este trabalho apresenta resultados preliminares de pesquisa que busca analisar narrativas visuais pessoais em contexto de viagem, no âmbito de plataformas digitais na internet, verificando como as imagens turísticas, entendidas como souvenirs digitais, circulam, acumulam valor, delineiam elementos políticos e estéticos e até mesmo moldam identidades.
Partindo da ideia elisiana de figuração – que borra o limite entre o psicológico e o social e assinala que o “eu” e o “nós” são interdependentes, inseparáveis e mutuamente constitutivos –, propõe-se aqui o entendimento de pessoas no campo digital como valências abertas que são moldadas e ao mesmo tempo moldam os outros em interações dinâmicas e relações recíprocas (homines aperti), de modo que as redes sociais se apresentam também como um campo turístico, marcado por conexões que entrelaçam turistas, residentes, influenciadores, instituições e algoritmos.
Nesse contexto, as imagens de pessoas e destinos modelam expectativas, desejos e performances, atuando como parte ativa de uma figuração digital em que a atividade turística extrapola o próprio deslocamento físico que a definiria a priori, alcançando, assim, uma forma de prática simbólica e comunicativa com efeito tanto na experiência turística propriamente, com a busca de lugares “instagramáveis” e registros que otimizem likes, quando na sua veiculação midiática performatizada pelo autor e pelos perfis que reagem às imagens, gerando sobre o “eu digital” uma pressão social cada vez maior pela imagem “perfeita”.
Nesta perspectiva, propõe-se uma síntese teórico-conceitual da persona digital aqui nomeada de Homo figuratus, que deriva tanto da ideia de figuração de Norbert Elias, como pano de fundo mais geral, como também é tributária das proposições de biografia social das coisas (Appadurai) e das imagens (Kopytoff) e de aceleração social (Hartmut Rosa), considerando as trajetórias e o regime de valor das imagens dentro da temporalidade cíclica em que a viralização e o esquecimento se sucedem rapidamente, exigindo constante atualização da identidade digital.
Desse modo, a noção de Homo figuratus como expressão do viajante em exposição nas redes sociais se apresenta como uma chave para compreender de que modo se constituem as relações de interdependência e performatividade na internet e como as pessoas atuam enquanto produtos e produtores em contextos tecnológicos, ampliando o turismo e seus efeitos para o campo digital.
Esta proposição contribui para melhor entender como as imagens pessoais operam como marcadores e mercadorias simbólicas que revelam disputas de valor, poder e pertencimento, tornando-se mediadoras centrais na constituição de sujeitos e na reprodução de hierarquias sociais no turismo e em outras práticas culturais contemporâneas.
Coordenação
Ninno Amorim da Silva (UFPB)
Simone de Oliveira Mestre (UFSCAR)
O Grupo de trabalho é um desdobramento do minicurso intitulado "Fundamentos da Escrita Etnográfica”, que foi ministrado pelos proponentes deste GT nas últimas duas edições da Reunião de Antropologia do Mercosul (2023/2025). Durante o minicurso as/os participantes compartilharam inquietações, incertezas e apontamentos em torno dos desafios da escrita etnográfica contemporânea. A etnografia é marcada pelo exercício reflexivo constante sobre estilos e formatos do registro etnográfico, constantemente em expansão, com perspectivas que vão desde o debate em torno da “descrição densa” e passam pela discussão sobre “autoridade etnográfica”, além de evidenciarem uma diversidade de estilos narrativos. Como exemplo, temos a tendência de pesquisas que adotam uma abordagem autoetnográfica ou etnografia multissituada. Dessa forma, o objetivo do GT é reunir trabalhos que promovam o debate sobre a escrita etnográfica e suas possibilidades teórico-metodológica, buscando estabelecer diálogos entre a realização do trabalho de campo, a construção de conhecimentos situados e epistemológicas plurais. Serão aceitos artigos que discutam temas como estilos de escrita, autoridade etnográfica e trabalho de campo. O GT visa a contribuir com a construção de uma comunidade dedicada a fomentar os usos da etnografia na produção do conhecimento dentro e fora do campo da antropologia.
Títulos e Resumos
-
Entre a Antropologia e a Literatura: O escritor como Antropólogo ou o Antropólogo como Escritor?
— André Gouvêa Andrade
— André Gouvêa Andrade
O trabalho apresentado corresponde ao primeiro capítulo da minha dissertação de mestrado intitulada A cidade é cantada: Uma Etnografia Literária das Canções Contemporâneas de Belo Horizonte. A pesquisa teve como objetivo, a partir do conceito de Canção Crítica de Santuza Cambraia Naves, refletir sobre o papel do compositor belorizontino como sujeito que pensa o espaço urbano do qual faz parte, articulando questões sociais e políticas por meio de suas canções, especialmente aquelas que tematizam lugares da cidade. O método adotado foi o da etnografia literária, com ecos de diversos autores. No entanto, nesta pesquisa, a etnografia literária assume a forma de uma equivalência de temporalidade e espacialidade entre minha posição enquanto pesquisador da cena musical e a dos músicos recortados, o que denominei como meu trabalho de campo. Esse campo constituiu-se pela presença em espaços de apresentação dos compositores, envolvendo trocas pontuais de mensagens, conversas breves em shows e encontros fortuitos pela cidade, sem relações sistematizadas com os músicos, mas com suas obras e com os espaços públicos e privados de performance. Foram selecionadas 20 canções em que os compositores apresentaram cenas líricas como visões de cidade, perspectivas do cotidiano e de uma mineiridade belorizontina crítica, atenta às questões urbanas, sem abrir mão da festa como forma de resistência. Ao final, constituiu-se uma paisagem lírica composta por 34 lugares mapeados pelas canções, entendida como a forma de composição do espaço urbano pelo músico, mediada pela leitura que fiz das letras.
Nesta apresentação, vou me deter no primeiro capítulo: Antropologia e Literatura. Parto das perspectivas pós-modernas, especialmente de James Clifford, para traçar um panorama das relações entre Antropologia e Literatura na fundação e período clássico do campo, com a Literatura sendo muitas vezes preterida, apesar de perenemente presente. Como uma mula, para usar a expressão de Geertz. Discuto o texto A propósito da poesia como método sociológico, de Bastide, a crítica de Strathern aos pós-modernos, e o lugar da literatura no pensamento antropológico brasileiro em autores como Viveiros de Castro, DaMatta, Mariza Peirano e Becker sobre Antônio Cândido. A partir da Literatura, abordo a figura do escritor-antropólogo de Silviano Santiago em Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Guimarães Rosa e Darcy Ribeiro, além de abordar o subcampo da Antropologia Literária descrito por Ellen Wiles. Finalizo com um estudo de caso a partir de textos de Viveiros e Nodari sobre Clarice Lispector e Rosa. E levanto como questionamentos: a centralidade da prosa sobre a poesia nos trabalhos nessa intersecção e a atenção ao padrão estético na escrita antropológica como forma de crítica à escrita moderna.
-
Quando a tese se torna romance: etnografia, ficção e os limites da escrita antropológica
— Beatriz Brandão dos Santos
— Beatriz Brandão dos Santos
Este trabalho discute os deslocamentos teórico-metodológicos implicados na transformação de uma pesquisa etnográfica acadêmica em uma obra de ficção literária. Partindo de uma investigação originalmente desenvolvida no âmbito da antropologia, cujo material de campo envolveu experiências marcadas por forte densidade afetiva, moral e simbólica, proponho refletir sobre o momento em que a escrita acadêmica se mostra insuficiente para sustentar determinadas camadas da experiência etnográfica, abrindo caminho para a fabulação como continuidade, e não negação, do gesto antropológico.
A análise insere-se nos debates contemporâneos sobre escrita etnográfica, autoridade narrativa e conhecimento situado, problematizando as fronteiras entre descrição, interpretação e invenção. Argumento que a passagem da tese ao romance não constitui uma ruptura epistemológica, mas um deslocamento de regime narrativo que permite elaborar dimensões da experiência que permanecem latentes, silenciadas ou excessivamente enquadradas nos formatos acadêmicos convencionais. A ficção, nesse contexto, opera como dispositivo de pensamento etnográfico, capaz de reorganizar cenas, vozes e temporalidades sem a pretensão de representar fielmente sujeitos empíricos, mas buscando produzir inteligibilidade sobre mundos sociais complexos.
A partir da reflexão sobre o processo de transposição de materiais de campo: relatos, atmosferas, conflitos e ambiguidades morais, para uma estrutura narrativa ficcional, examino os desafios éticos e epistemológicos dessa operação. Discuto, especialmente, como a criação de personagens e enredos pode funcionar como estratégia de deslocamento da identificação direta com interlocutores, ao mesmo tempo em que preserva a densidade relacional da experiência vivida em campo. Tal movimento tensiona noções clássicas de autoria, autoridade etnográfica e responsabilidade narrativa, convidando a repensar o que entendemos por "restituição" em antropologia.
Defendo, assim, que a ficção pode constituir uma forma legítima de elaboração antropológica, não como ilustração da pesquisa, mas como campo de experimentação metodológica e analítica. Ao acompanhar o percurso da tese ao romance, o trabalho contribui para os debates sobre os desafios contemporâneos da escrita etnográfica, propondo que a literatura pode ampliar o alcance crítico e sensível da antropologia.
-
Documentos como campo: desafios da escrita etnográfica sobre protocolos antirracistas
— Cristiane de Oliveira Rosa
— Cristiane de Oliveira Rosa
Este trabalho apresenta reflexões iniciais de uma pesquisa etnográfica em andamento que investiga os desafios da escrita etnográfica quando o campo de pesquisa é constituído exclusivamente por documentos institucionais e práticas burocráticas relacionadas ao enfrentamento do racismo na educação escolar. A pesquisa será realizada nas Secretarias Municipais de Educação de três cidades do estado de São Paulo: Campinas, Ribeirão Preto e São Carlos e tem como foco a análise de documentos produzidos no âmbito da formulação e implementação de protocolos antirracistas, tais como normativas internas, fluxos de encaminhamento de ocorrências, atas e registros administrativos.
Nessa perspectiva, o campo etnográfico é compreendido como multissituado, deslocando-se entre diferentes contextos institucionais e conjuntos documentais, conforme proposto por George Marcus. A escrita etnográfica, inspirada na abordagem interpretativa de Clifford Geertz, orienta a análise desses documentos não como registros neutros, mas como textos que produzem sentidos, organizam responsabilidades e enquadram institucionalmente situações de violência racial. Em diálogo com Annelise Riles, os documentos são tratados como objetos etnográficos centrais, cujas materialidades e linguagens técnicas revelam modos específicos de reconhecimento, administração ou silenciamento do racismo.
A fundamentação teórica articula ainda contribuições da Antropologia da Educação, a partir de Miguel Arroyo e Marli André, que permitem compreender as instituições educacionais como espaços atravessados por desigualdades, disputas e silêncios. No plano normativo, a pesquisa dialoga com a Lei nº 10.639/2003 e com a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola (PNEERQ), compreendidas como marcos que orientam, tensionam e também limitam as práticas institucionais no enfrentamento do racismo.
Como contribuição, o estudo busca ampliar o debate no campo da Antropologia, Etnografia e Educação ao propor uma reflexão metodológica sobre a escrita etnográfica em pesquisas antirracistas baseadas em documentos, evidenciando as tensões entre políticas institucionais, burocracias e os desafios contemporâneos do antirracismo na educação escolar.
-
Feras, céus e formas: novos ângulos da escrita da cultura
— Eduardo Moura Oliveira
— Eduardo Moura Oliveira
Este texto busca posicionar o lugar da literatura na antropologia examinando como a narrativa literária pode refletir, construir e contestar realidades culturais, históricas e políticas. De natureza bibliográfica, a investigação explora as relações entre a crítica dos modos de representação da alteridade e os esforços em busca de novas linguagens. Na primeira seção, procuro levantar o debate a partir do qual a crítica do pensamento antropológico estabelece uma compreensão segundo a qual a etnografia pode ser abordada como gênero literário. Na segunda parte, algumas tendências contemporâneas são mobilizadas a partir da crítica a certa compreensão moderna da , de caráter binário e antropocêntrico. Na terceira e última parte, ensaio um esboço e leitura a partir de dois percursos narrativos: o relato em primeira pessoa constituído pelo antropólogo nas fronteiras estilhaçadas onde natureza e cultura se dissolvem, em Escute as feras, e o relato em primeira pessoa constituído pelo pacto etnográfico e suas ressonâncias políticas, em A Queda do céu. Como resultados, é possível reconhecer a centralidade do caráter híbrido como aspecto formal dos textos etnográficos, de forma a mobilizar poéticas de implicações políticas, na esteira do debate contemporâneo.
-
Ficções e não ficções: os espaços do real no fazer antropológico
— Janaína Ferreira Fernandes
— Janaína Ferreira Fernandes
As discussões, na Antropologia, acerca das relações entre o real e o ponto de vista do etnógrafo, têm servido como meios reflexivos do fazer antropológico que, de várias maneiras, alteraram o modo de pensar a prática e os objetos desta ciência, resultando, sobretudo, na adição, nos textos etnográficos, de pautas epistemológicas e metodológicas que necessariamente incluem o antropólogo enquanto agente central na observação do real, especialmente a partir do que se convencionou chamar a virada ontológica. Partindo de uma relação de tensão produtiva propiciada pela crise representacional na pesquisa antropológica, pretende-se pesquisar possíveis analogias entre realidade e ficção na literatura ficcional e na escrita etnográfica. Entendo aqui ficção como a produção narrativa descompromissada - embora não desvinculada - com a realidade e que, diuturnamente, afasta-se das narrativas científicas, nas quais as exigências de comprovação e validação compõem critérios inabaláveis para se auferir o rigor científico. Tendo como referências principais as relações entre realidade e ficção, de Saer (2012), e as noções de "ficção persuasiva", de Strathern (2013), e "Antropologia como Literatura Especulativa", de Nodari (2012), procuro por espaços de encontro entre duas formas textuais que por vezes se aproximam em seus trejeitos e modelos, mas que são separadas rigorosamente quando se coloca em questão a relevância acadêmica. Para isso, este trabalho tecerá comparações entre a produção de uma etnografia que se propõe a ficcionalizar a partir do trabalho de campo ("Liberdade, terra e união na Almofala dos Tremembé: um díptico etnográfico-ficcional", defendida pela autora deste trabalho no Departamento de Antropologia da Universidade de Brasília) e uma ficção que, de algum modo, trata sobre um momento histórico ("Oração para desaparecer", de Socorro Acioli). Para a discussão, são levados em consideração os modos pelos quais os dois textos lidam com a constante tensão entre realidade e ficção e de que modo podem ser tratados como alegorias, conforme Clifford (1986).
-
Olhar de perto e de dentro: uma Autoetnografia sobre a Educação Matemática no Currículo Infantil Boliviano
— Joana Inês Novaes, Harryson Junio Lessa Gonçalves
— Joana Inês Novaes, Harryson Junio Lessa Gonçalves
Este trabalho tem por objetivo comunicar as inquietações que me tomaram na construção do caminho metodológico, até chegar à decisão de vivenciar e depois comunicar o processo de pesquisa por meio de uma autoetnografia que envolveu as minhas vivências e experiências, pesquisando nos documentos curriculares bolivianos articulando a educação infantil com a educação matemática. A autoetnografia admite que o pesquisador traga para seu estudo a sua experiência pessoal no contexto das interações sociais e práticas culturais, dando visibilidade às suas emoções. As noções matemáticas destacadas nos documentos devem ser articuladas em conjunto com o idioma materno, contribuindo para o desenvolvimento da língua e do pensamento, dentro da cosmovisão originária de sua história de vida e de seu contexto.
-
Os desafios de etnografar vivências de crianças e adolescentes em espaços educativos: Uma reflexão sobre o trabalho de campo no Projeto Proara Araci em São Carlos-SP.
— Letícia Firmino Abdala, Simone de Oliveira Mestre
— Letícia Firmino Abdala, Simone de Oliveira Mestre
Este resumo é um desdobramento da pesquisa de iniciação científica em andamento, sobre o Projeto Proara, realizado no bairro Cidade Aracy, município de São Carlos (SP). Trata-se de uma iniciativa de uma organização não-governamental, que desde 2006 promove atividades culturais, esportivas, pedagógicas e de lazer voltadas para o atendimento de crianças e adolescentes que residem na localidade. A referida pesquisa, foi iniciada em setembro de 2025 com previsão de término em setembro de 2026, e propõe investigar, em uma perspectiva etnográfica, como as práticas educativas não formais e as vivências em espaços não escolares contribuem para a formação social, identitária e educacional de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. O objetivo geral do estudo é compreender como as práticas desenvolvidas no Proara contribuem para que ele se constitua como um espaço educativo e qual seu impacto nas trajetórias das crianças e adolescentes atendidos. A pesquisa utiliza abordagem qualitativa de cunho etnográfico, prevendo a realização de observação participante, entrevistas semiestruturadas com crianças, adolescentes e coordenadores, além da análise documental de relatórios e registros internos do projeto. A fundamentação teórica combina as contribuições dos estudiosos Dermeval Saviani, Paulo Freire, Miguel Arroyo, Maria Stela Graciani e José Henrique da Silva Cunha, que discutem educação popular, integral e social em contextos de exclusão, com as perspectivas dos pesquisadores Cardoso de Oliveira, José Magnani, Tim Ingold, Carmem Mattos, para pensar aspectos da etnografia nos espaços educativos. Portanto, considerando o escopo da pesquisa e seu enquadramento metodológico, pretende-se nesta comunicação apresentar algumas problematizações iniciais sobre os desafios de etnografar as vivências de crianças e adolescentes em um espaço educativo não escolar, adotando como pontos centrais para a reflexão as seguintes questões que emergem no trabalho de campo: 1) Quais os desafios e limites étnicos de entrevistar e observar crianças e adolescentes? 2) Como os percalços na realização do trabalho de campo impactam na relação das/dos sujeitos envolvidos na pesquisa, tanto as/os participantes quanto a pesquisadora? 3) Quais os entraves e possibilidades da escrita etnográfica em contextos educativos não-escolares, considerando as subjetividades das/dos sujeitos envolvidos na pesquisa?. Pretende-se, com essa proposta, contribuir para o debate sobre os limites e possiblidades tanto do trabalho de campo quanto da escrita etnográfica em pesquisa na educação, sobretudo em contextos não escolares.
-
Pensando a escrita etnográfica colaborativa: experiências e vivências no curso de Pedagogia.
— Melissa Natasha dos Santos Ferreira, Letícia Coelho Honório, Cristiane de Oliveira Rosa
— Melissa Natasha dos Santos Ferreira, Letícia Coelho Honório, Cristiane de Oliveira Rosa
O presente trabalho discute os desafios de uma escrita etnográfica colaborativa a partir das vivências tanto no estágio quanto na monitoria na disciplina de Educação Infantil: A criança, a infância e as instituições, ambas atividades realizadas no âmbito do curso de Pedagogia da Universidade Federal de São Carlos, sediada em São Carlos SP. A atuação na referida disciplina consistiu no acompanhamento e auxílio à docente responsável e aos estudantes matriculados, viabilizando que a estagiária do Programa de Estágio Supervisionado de Capacitação Docente (PESCD), vinculada à pós-graduação, e as duas monitoras da graduação, que já haviam cursado a disciplina anteriormente, se organizassem entre as turmas do período matutino e noturno, possibilitando a inserção contínua nas rotinas da disciplina. Essa inserção não se limitou ao apoio técnico, mas configurou uma participação ativa no cotidiano pedagógico, por meio da elaboração de materiais, proposição de atividades, construção e correção de avaliações e mediação de discussões em sala de aula, assim resultando na escrita deste trabalho. No entanto, apesar da experiência compartilhada que as autoras vivenciaram, estas encontraram dificuldades no processo de elaboração da escrita coletiva, tendo em vista seus diferentes estilos de escrita, bem como as diferentes percepções que cada sujeito desenvolve acerca de suas experiências. Diante disso, o objetivo deste estudo é compreender os limites e possibilidades da escrita etnográfica colaborativa, considerando os desafios de articular, em um texto coletivo, vivências atravessadas por olhares, sensibilidades e implicações distintas. A discussão fundamenta-se em referenciais sobre a formação de professores e o exercício de ensinar de Maurice Tardif, Miguel Arroyo, Paulo Freire, Bell Hooks, combinados com o debate sobre o fazer etnográfico de Clifford Geertz, José Magnani, Jeanne Favret-Saada e Gilberto Velho. Como contribuição, o trabalho busca ampliar o debate sobre a escrita colaborativa em pesquisas etnográficas, buscando reconhecer as singularidades das experiências.
-
O uso de "personagens" no texto etnográfico ou como apresentar as pessoas presentes na pesquisa.
— Ninno Amorim da Silva
— Ninno Amorim da Silva
Este trabalho aborda os desafios éticos e metodológicos da representação de pessoas na escrita etnográfica. Parto da tensão entre a garantia do anonimato e a necessidade de uma representação densa e autêntica das pessoas que participam da pesquisa quando são transformadas em "personagens" no texto antropológico. A discussão se fundamenta no debate presente na antropologia. Mobilizo reflexões sobre "autoridade etnográfica", "conhecimento situado" e os dilemas políticos do anonimato. Argumento que o uso de nomes fictícios e o recurso ao anonimato, embora sejam ferramentas essenciais para a garantia da privacidade, não são meros procedimentos técnicos, mas decisões teórico-metodológicas com profundas implicações políticas e epistemológicas. A análise explora como a eleição de determinadas "personagens" pode, involuntariamente, operar silenciamentos e reforçar narrativas hegemônicas, marginalizando outras vozes e experiências, uma preocupação central na escrita etnográfica contemporânea. Para ilustrar esses debates, o trabalho recorre a experiências de campo do autor, notadamente a pesquisa sobre as tradições dos Cocos no Ceará e o estudo sobre produção e consumo de cachaças no Brasil. Nestes contextos, a apresentação dos mestres de conhecimentos tradicionais, produtores de cachaças e demais participantes da pesquisa impõe desafios particulares: como nomear (ou não nomear) um mestre de Coco ou um produtor de cachaça artesanal, cuja identidade e notoriedade estão intrinsecamente ligadas ao seu saber-fazer, sem expô-los a riscos ou reificar a densidade de suas práticas sociais? A partir desses exemplos, reflito sobre estratégias de negociação contínua do consentimento e sobre uma escrita etnográfica que seja reflexiva, compartilhada e eticamente responsável. Ao final, o artigo visa contribuir para a construção de uma comunidade de prática, como propõe o GT, ao fomentar o debate sobre os usos e os limites da etnografia na produção de conhecimentos plurais, dentro e fora da antropologia, e reafirmar o compromisso ético como pilar da prática etnográfica.
-
De Paciente à Etnógrafa: a transformação da vivência com o câncer em escrita etnográfica
— Rita de Cássia Domingues Lopes
— Rita de Cássia Domingues Lopes
O trabalho trata de uma narrativa pessoal (relato de experiência e etnografia), de uma autoetnografia sobre o tratamento de câncer de mama desde o diagnóstico até a remissão, passando por questões emocionais envolvendo o adoecimento, o tratamento em si com quimioterapia, cirurgia, radioterapia e reconstrução da mama, a autoestima e a percepção do corpo neste momento da vida de uma mulher adulta. Durante o tratamento o tema se tornou uma reflexão inicial de pesquisa por que eu ficava observando o ambiente dos consultórios, laboratórios, clínicas, ala oncológica dos hospitais. Ao mesmo tempo, dessa vivencia, aprendia uma nova linguagem – o vocabulário médico, dos laudos dos exames entre outras questões. Apresento o problema da pesquisa: Como escrever sobre a vivência com uma doença (câncer de mama) do diagnóstico à remissão e se tornar uma escrita etnográfica? O objetivo geral é refletir sobre como (auto)etnografar uma doença do diagnóstico até a remissão para o campo da antropologia e da escrita etnográfica. Esta é uma pesquisa exploratória partindo da minha experiência pessoal, passando para a pesquisa bibliográfica sobre Antropologia do corpo, da saúde, do adoecimento, da escrita etnográfica e (auto)etnografia e/ou narrativa pessoal. Dessa forma, a pretensão é contribuir com a discussão e reflexão sobre metodologia para a Antropologia, assim como abordar o câncer de mama – o tipo mais incidente na população feminina (INCA, 2023) – que ainda é um tabu para muitas pessoas, podendo uma mulher com o seu relato influenciar outras mulheres ao autocuidado e a realização de forma periódica dos exames preventivos.
-
A procissão de Nossa Senhora dos Navegantes em Barra de Mamanguape: um relato de experiência
— Sérgio Henrique Ferreira da Silva
— Sérgio Henrique Ferreira da Silva
O artigo apresenta um relato de experiência etnográfica sobre a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes, realizada na comunidade tradicional pesqueira de Barra de Mamanguape, localizada em uma Área de Proteção Ambiental no litoral norte da Paraíba. O objetivo é compreender como a celebração religiosa se articula às formas de vida, ao trabalho pesqueiro e à relação simbólica e material da comunidade com o território, especialmente com o rio e o mar. A metodologia baseia-se na observação participante, no acompanhamento direto da procissão ocorrida em dezembro de 2025 e em conversas informais com moradores, lideranças comunitárias e pescadores artesanais, além do diálogo com a literatura antropológica sobre comunidades tradicionais, religiosidade popular e povos das águas. Os resultados evidenciam que a procissão ultrapassa o caráter estritamente religioso, constituindo-se como uma prática social complexa que organiza o tempo, o espaço e as relações comunitárias, sendo orientada pelo ritmo das marés e pelas dinâmicas do trabalho pesqueiro. O encontro simbólico entre Nossa Senhora dos Navegantes e Sant'Ana emerge como o momento central da celebração, concentrando forte carga emocional e reafirmando vínculos de pertencimento, memória e identidade coletiva. Observou-se ainda uma divisão espacial construída pela própria comunidade entre o sagrado e o profano, bem como uma ética comunitária expressa na organização do rito, na proteção da imagem da santa e na mobilização diante de situações imprevistas, como um incêndio ocorrido durante a festa. As ações de cuidado no pós-festa, especialmente os mutirões de limpeza, revelam que a experiência religiosa está profundamente associada à responsabilidade ambiental e à preservação do território. Conclui-se que a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes atua como um dispositivo de reafirmação da tradicionalidade da comunidade de Barra de Mamanguape, integrando fé, trabalho, natureza e vida coletiva, ao mesmo tempo em que evidencia a potência da etnografia como método capaz de captar as dimensões sensíveis, relacionais e territoriais da experiência social.
-
Quantos atravessamentos cabem na pesquisa? Pensando subjetividades, interseccionalidades e limites da escrita etnográfica
— Simone de Oliveira Mestre
— Simone de Oliveira Mestre
A palavra atravessamentos assume, com ênfase no plural, neste trabalho, assume um significado central e específico para a reflexão sobre a escrita etnográfica. Aqui, o termo é mobilizado em seus sentidos de passar, transpor e cruzar. Parte-se do entendimento de que, ao desenvolver uma pesquisa etnográfica, busca-se, em certa medida, “passar” a viver o mundo do/a outro/a, transpondo para a escrita significados, experiências e percepções situadas sobre determinados grupos ou realidades sociais. Nesse processo, a escrita etnográfica se constitui a partir do cruzamento de múltiplos marcadores sociais da diferença — como gênero, raça, classe, sexualidade, geração e território — que atravessam tanto as/os interlocutoras/es da pesquisa quanto as/os pesquisadoras/es. Assim, a etnografia torna-se um espaço de produção de subjetividades interseccionadas, no qual as posições sociais, os regimes de poder e as assimetrias estruturais incidem diretamente sobre o olhar, a escuta e a narrativa. Ao reconhecer esses atravessamentos, contestar a ideia de neutralidade na escrita etnográfica e problematizar seus limites relacionais, éticos e criativos, evidenciando que o conhecimento produzido emerge do entrelaçamento de vozes, corpos e experiências socialmente marcadas. O objetivo consiste em promover uma discussão acerca das inter-relações entre o “outro” e o “eu” na escrita etnográfica, compreendendo-a como um espaço de produção de subjetividade. Pretende-se analisar esses encontros, tensões, limites e possibilidades, destacando a escrita como um campo ético, político e relacional, no qual o conhecimento é construído por meio do entrelaçamento de distintas vozes, experiências e narrativas.
Coordenação
Regina Maria do Rego Monteiro de Abreu (UNIRIO)
Izabela Maria Tamaso (UFG)
Pessoa debatedora
Renata de Almeida Oliveira (UNIGRANRIO)
Patricia Silva Osorio (UFMT)
Fillipe Alexandre Oliveira Alves (UFF)
Propomos reunir reflexões sobre processos de (re)construção cosmopolítica de territórios, caracterizados, especialmente, por resistências e lutas “contra-coloniais”. Visamos identificar memórias e repertórios patrimoniais em contextos contra-hegemônicos traçando novas ocupações e ressignificações do espaço público, como museus sociais, cartografias, percursos, estátuas, caminhos. O GT priorizará experiências exitosas no campo das políticas públicas patrimoniais, museais e/ou de iniciativas coletivas que lancem novos olhares sobre saberes, experiências e heranças de povos invisibilizados na retórica patrimonial hegemônica e que garantam meios de reconhecimento de contribuições culturais, especialmente as de matrizes afro-diaspóricas e indígenas. Especial interesse será conferido aos estudos etnográficos em favelas, quilombos, aldeias indígenas, ocupações e espaços territoriais de resistência. O GT pretende reunir resultados alinhados com políticas públicas para a valorização das culturas tradicionais e/ou populares. Um dos eixos ancora-se na Recomendação para a Salvaguarda do Patrimônio Imaterial gestada pela UNESCO no início dos anos 2000. Acolheremos estudos de caso, muitos deles iniciados como temas de pesquisas acadêmicas em Universidades e Centros de Pesquisa, mas também incluindo a participação de mestres, mestras e detentores de saberes e fazeres diversos, avançando na constituição de acervos e na delimitação de rotas de pesquisas comparativas e colaborativas.
Títulos e Resumos
-
Patrimônio vivo: discursos, políticas e práticas no Centro Histórico de São Luís (Maranhão)
— Abigail Vale Rocha
— Abigail Vale Rocha
Este trabalho, desenvolvido a partir da minha dissertação de mestrado, analisa etnograficamente os usos e as transformações do patrimônio no Centro Histórico de São Luís (Maranhão). O espaço foi reconhecido como Patrimônio Cultural Mundial pela Unesco em 1997, em razão do seu conjunto arquitetônico de origem portuguesa. A pesquisa parte dos discursos patrimoniais dominantes, mobilizados por políticos e pela mídia local, que classificam a área como “degradada”, “abandonada” e “perigosa”. Esses discursos orientam intervenções que hierarquizam usos, presenças e atuações consideradas legítimas ou ilegítimas na área. Eles frequentemente ignoram modos de habitar, trabalhar e cuidar dos espaços, reforçando a exclusão social e os estigmas sobre populações negras e de classes populares que ocupam a região. Durante o trabalho de campo, realizado entre 2023 e 2024, a partir da convivência com diferentes interlocutores - quando fiz entrevistas com moradores, trabalhadores informais e artistas, e analisei as narrativas midiáticas - observei que, apesar de o Centro ser frequentemente retratado como abandonado, ele é densamente ocupado. Além disso, percebi que ele é mantido por inúmeras atividades cotidianas presentes nos modos de morar, na produção artística, na circulação de bens e nas redes de cuidado. Assim, neste trabalho, apresento algumas dessas práticas cotidianas - como as reformas nos casarões feitas pelos próprios moradores, as iniciativas e alterações feitas nos espaços pelos pequenos comerciantes. Minha intenção é mostrar que elas constituem modos de resistência, lógicas e usos contra-hegemônicos, preservando a vitalidade social e cultural da área e tensionando normas, expectativas estéticas e controle institucional. Elas evidenciam os sentidos atribuídos aos espaços patrimoniais, e o papel da economia popular e das expressões culturais locais, mesmo diante de políticas de desapropriação e de processos que buscam definir quem pode ocupar essa região. Compreendo que as disputas e as classificações sobre essa área patrimonializada, revelam diferentes formas de atribuição de valor simbólico por parte de quem mora, circula e convive no local. Mas, elas também criam efeitos no cotidiano ao reforçar quem pode ou deve viver no patrimônio de origem lusitana.Por meio da moradia, do comércio, da produção artística e do cuidado com os espaços, o trabalho evidencia que a vida cotidiana sustenta o patrimônio, mostrando como os habitantes resistem, transformam os espaços e desafiam continuamente a hierarquização e a exclusão presentes em determinados discursos sobre o patrimônio.
-
Cortejos e Trajetórias contra-hegemônicos: o processo de renovação da inscrição do Kola San Jon de Cova da Moura no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, em Lisboa-Portugal.
— Alcides José Delgado Lopes
— Alcides José Delgado Lopes
Este trabalho aprofunda o debate sobre festividades cabo-verdianas praticadas, inicialmente, por trabalhadores migrantes e descendentes, na diáspora transnacional africana em Lisboa, Portugal, desde a década de 1990. Recortamos as histórias do emblemático Bairro Cova da Moura, em Amadora; da Associação Cultural Moinho da Juventude (ACMJ); do processo de inscrição das festas de Kola San Jon no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial (INPCI, 2013); e da recente renovação da inscrição do Kola San Jon de Cova da Moura no INPCI, em Portugal (2025). No contexto neoliberal contemporâneo, o nosso principal argumento avalia o uso público do espaço urbano, as modalidades e as consequências da sua apropriação para a vida social. A análise se fundamenta em pesquisa etnográfica realizada em Lisboa entre 2017 e 2019, assim como em resultados deste processo e eventos posteriores. Focamos na festividade enquanto prática cultural, que ressignifica processos sociais, e dispositivo identitário estratégico, que reivindica a visibilidade da comunidade. Para além da organização anual da festa e do cortejo de Kola San Jon no bairro, existe uma agenda de atividades externa que disputa junto à sociedade civil, a valorização do lugar – Cova da Moura – na Área Metropolitana de Lisboa. Abordamos estes aspetos por razões históricas e justificamos a partir de três perspectivas diferentes. Primeiramente, consideramos as condições da adesão de Portugal à Comunidade Econômica Europeia (CEE) em 1986 e a sua integração econômica na União Europeia (UE) em 1996. Em segundo lugar, reconhecemos a trajetória de luta e resistência do Bairro Cova da Moura, da sua população, das suas associações, como a ACMJ, especialmente durante as décadas de 1990 e 2000. Por último, e mais importante, demonstramos como a mobilização coletiva das tradições africanas de resiliência, através da música, da dança, culinária e práticas do cuidado, não só proporciona diversas formas vernaculares locais de conhecimento e interações, mas também possibilita novas e revolucionárias formas de uma cosmopolítica da hospitalidade praticada entre diferentes grupos de migrantes, cidadãos e nacionais em ambientes diaspóricos. Sob a ótica de Lefebvre, no que tange o direito à cidade, consideramos o mundo contemporâneo, os conflitos culturais e os “novos” racismos, e refletimos sobre esta prática comprometida com estratégias de mobilização e agências que fomentam um processo de resiliência no qual se manifestam formas de resistência, diversos modos de performance da identidade e de racionalidade das práticas culturais.
-
"Senhora da Abadia, venha avoando sem ter asas": heranças afro-diaspóricas e resistência negra na devoção à Nossa Senhora da Abadia no Planalto Central
— Artani Grangeiro da Silva Pedrosa
— Artani Grangeiro da Silva Pedrosa
O estudo articula etnografia, memória negra e crítica historiográfica para analisar a historicidade da devoção a Nossa Senhora da Abadia entre os séculos XVIII e XX, a partir de relatos de viajantes, cronistas e historiadores regionais, reconstruindo a trajetória de capelas dedicadas à santa no antigo arraial de Santa Luzia (atual Luziânia) e suas possíveis conexões com os quilombolas de Mesquita, território goiano em área limítrofe ao Distrito Federal, que integrou a zona rural de Luziânia até meados da década de 1990. A documentação disponível aponta ao menos sete momentos distintos de aparecimento, desaparecimento ou reconstrução de capelas ligadas à Nossa Senhora da Abadia no território. À luz de Michel Trouillot, as lacunas, sobreposições e contradições desses registros evidenciam silenciamentos sucessivos. A multiplicidade de templos não é interpretada apenas como resultado da mobilidade religiosa, mas como indício de processos de dominação simbólica, nos quais patrimônios culturais associados à população negra foram apropriados, transformados ou apagados, contribuindo para a consolidação de uma narrativa hegemônica da cidade e de sua religiosidade. O objetivo do trabalho não é validar uma narrativa documental, mas expor as raízes dos silenciamentos observados em diferentes etapas do processo histórico: na constituição dos fatos, observa-se que as devoções sustentadas por mineradores e trabalhadores negros não aparecem como centrais; na inscrição documental, pela alternância de datas, imprecisão dos nomes dos templos, apagamento de capelas vinculadas a populações negras e escassez de informações sobre destruições e reconstruções; e, na produção narrativa. Observa-se que devoções sustentadas por mineradores e trabalhadores negros não ocupam lugar central na historiografia local, que privilegia a elite, relegando as práticas religiosas dos mesmos a um lugar secundário ou folclorizado. Em Quilombo Mesquita, a devoção à Nossa Senhora da Abadia integra a narrativa de origem do quilombo: três mulheres negras, ao conquistarem a liberdade do sistema escravocrata, teriam iniciado a novena mariana. Transmitida por gerações, essa devoção se consolidou como festa religiosa, com novenas, folia e tríduos, constituindo um repertório patrimonial. Ao colocar em evidência uma memória historicamente silenciada em contraposição às narrativas dominantes dos “poderosos”, a festa se afirma como espaço de produção de sentido e memória. Ao refletir sobre essa devoção como prática cotidiana de resistência, o trabalho de campo, narra modos de vida que reescrevem a presença negra no Planalto Central.
-
Salvaguarda, patrimônio e memória no Cavalo Marinho Raiz Cultural do Mestre Zequinha (Bayeux - PB).
— Arthur Pereira da Costa, Alan Carlos Monteiro Junior
— Arthur Pereira da Costa, Alan Carlos Monteiro Junior
Neste trabalho comentarei alguns caminhos percorridos durante as ações do projeto de Salvaguarda Emergencial do Cavalo Marinho do Mestre Zequinha, grupo sediado na cidade de Bayeux (PB), zona periférica da região metropolitana de João Pessoa (PB). O projeto decorreu da medida nº 09 do termo de ajuste de conduta firmado entre o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e o Grupo Alphaville (TAC 012016), tendo suas ações produzidas por mim e por Alan Carlos Monteiro Junior, coordenadores gerais e pedagógicos. O cavalo marinho é uma manifestação cultural que envolve encenações, música, poesia e ritual, tradicionalmente realizada na Paraíba e em Pernambuco, retratando o cotidiano do contexto social e cultural na qual está inserida, sendo reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo IPHAN desde o ano de 2014. O Cavalo Marinho do Mestre Zequinha, atualmente intitulado "Raiz Cultural do Mestre Zequinha", é um grupo tradicional coordenado pelo Mestre Nandinho (José Fernando de Oliveira), o "aprendiz de louco", como costuma se intitular, herdeiro cultural do Mestre Zequinha (José Francisco Mendes), importante referência das brincadeiras de cavalo marinho e boi de reis da Paraíba. Após o falecimento de Zequinha em 2012, o grupo passou por um período adormecido, sendo retomado definitivamente a partir das ações do projeto, que ocorreram entre outubro de 2022 e julho de 2023. O projeto envolveu ações de ensino e aprendizagem das pisadas, toadas, passagens e figuras desenvolvidas tradicionalmente pelo grupo, além de ter contado com aulas de toque e confecção de rabeca e duas culminâncias que reuniram grupos e mestres(as) de diversas cidades da Paraíba, do Rio Grande do Norte e de Pernambuco. A partir das memórias acessadas ao longo dos encontros semanais, antigas partes da brincadeira foram retomadas, graças aos conhecimentos de brincadores como o próprio Mestre Nandinho da Cultura, e ainda Seu Geovando, Dona Eliete, Luiz Baixinho e Josinaldo (em memória), antigos integrantes do grupo que tornaram à brincadeira durante a sua retomada. Um ponto de grande relevância para a continuidade do grupo foi a agregação do Mestre Luis Cirandeiro e de Seu Catorze, antigos brincadores do Cavalo Marinho do Mestre Augusto Herculano, de São Miguel de Taipu (PB), que estavam há aproximadamente 30 anos sem brincar, bem como a da Mestra Tina, do Cavalo Marinho Infantil Sementes do Mestre João do Boi, de João Pessoa. As ações de salvaguarda desenvolvidas junto ao Cavalo Marinho Raiz Cultural do Mestre Zequinha foram primordiais para sua retomada e continuidade, movimentando brincadores de diversas localidades, fortalecendo-os mutuamente.
-
Arena Pública e Escala da Memória: O Ecomuseu como Dispositivo de Ação Coletiva no Quilombo da Dona Bilina.
— Cláudio José Santiago Vega de Moura
— Cláudio José Santiago Vega de Moura
O museu é um espaço simbólico e complexo em que lugar, tempo e objetos — materiais e imateriais — representam uma fração da memória coletiva selecionada por determinados grupos sociais para preservação. Nesse processo, estabelece-se um limiar entre quais memórias são legitimadas, quem tem acesso a elas e quais interesses justificam sua conservação. Embora os museus contemporâneos mantenham a relação fundante entre poder e memória, afastaram-se de sua origem como espaço de criação coletiva e inspiração artística, e passaram a operar, como instrumentos de dominação simbólica (Bourdieu, 1984). Conforme aponta Foucault (1988)," onde há memória há também esquecimento", e "onde há poder, há resistência". A memória museológica é, portanto, seletiva e construída a partir dos interesses das classes dominantes. Em contrapartida, emergem práticas contra-hegemônicas que disputam essas narrativas, como os movimentos de preservação da memória local e comunitária. Vale destacar que a Museologia Social possui sua gênese na França, no final dos anos 1960 e início dos 1970, como crítica à museologia tradicional, propondo o reconhecimento de sujeitos, territórios e saberes historicamente marginalizados como produtores legítimos de memória, arte e cultura.Essa perspectiva se materializa nos ecomuseus, que articulam três dimensões fundamentais: ecologia, museologia e comunidade. O patrimônio valorizado deixa de ser apenas tangível, incorporando também práticas, saberes e histórias orais, enquanto a comunidade assume papel central na gestão e na tomada de decisões. Autores como Hugues de Varine e Georges Henri Rivière, na França, e Mário Chagas, Mário Moutinho e Regina Abreu, no Brasil e na América Latina, foram fundamentais para a consolidação desse campo.O Ecomuseu Quilombo da Dona Bilina, localizado na vertente norte do Maciço da Pedra Branca, no Rio de Janeiro, exemplifica uma museologia social viva e transformadora. A figura de Dona Bilina, matriarca, rezadeira, parteira e lavradora, simboliza a resistência e a preservação da memória ancestral quilombola. O ecomuseu atua como instrumento de fortalecimento identitário e de reivindicação territorial frente a forças hegemônicas, incluindo o Estado, o mercado imobiliário e grupos armados ligados à milícia. As terras do quilombo encontram-se em processo de demarcação junto ao INCRA, sem reconhecimento definitivo da titularidade coletiva, o que evidencia a complexidade da arena pública local. Diante disso, a pesquisa propõe o conceito de “Escala da Memória”, compreendendo a memória como recurso político e espacial mobilizado na legitimação de usos do território. O estudo articula Museologia Social e Sociologia Pragmática francesa, por meio de uma etnografia multissituada.
-
Cidades e patrimônios: conflitos, descontinuidades do tempo e a persistência da vida social
— Elisa Algayer Casagrande, Flávia Maria Silva Rieth
— Elisa Algayer Casagrande, Flávia Maria Silva Rieth
O presente trabalho busca retomar e avançar em reflexões realizadas sobre o lugar do patrimônio das e nas cidades brasileiras, com foco nas cidades de Porto Alegre e Pelotas, a partir de culturas que estão à margem das narrativas oficiais da cidade e dos espaços museais. Nesse sentido, os acervos e arquivos não operam somente como dispositivos de preservação, são práticas ativas de reinserção de memórias, sobretudo quando lidam com patrimônios imateriais e culturas historicamente marginalizadas. Ao serem pensados a partir da ruína e da paisagem conforme Simmel, tornam-se espaços onde a descontinuidade do tempo e a persistência da vida social se tornam visíveis. Trazemos aqui o trabalho junto ao Banco de Imagens e Efeitos Visuais (BIEV), grupo que há quase 30 anos atua em pesquisas nas e das cidades brasileiras, a partir de uma perspectiva da antropologia urbana e da imagem, e dos procedimentos da etnografia da duração propostos por Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert, e do método de convergência de Durand. Para amparar o debate, trazemos as experiências de pesquisas e trabalhos em andamento, ainda em experimentação com a reinserção de memórias a partir das narrativas de Walter Mello Calixto, o Mestre Borel, personalidade amplamente reconhecida do batuque gaúcho e um guardião da memória do povo negro e povo de terreiro, bem como da cidade de Porto Alegre e do avanço da ocupação do solo urbano. E apresentamos a ação de extensão Pelotas Pelas Águas, trazendo as memórias e os itinerários urbanos dos grupos habitantes das margens do canal São Gonçalo para pensar as relações entre a cidade e o ambiente, em tempos de crise ambiental. Atentamos aqui para a discussão da ambientalização dos problemas sociais (Leite Lopes,2006) considerando as relações da cidade com as águas.
-
Distrito Cultural Pequena África: a fabricação institucional de um território e o patrimônio como técnica de governo urbano
— Fillipe Alexandre Oliveira Alves
— Fillipe Alexandre Oliveira Alves
Nessa pesquisa olho para o patrimônio cultural como tecnologia de governo, acompanhando sua articulação com memória, gestão territorial e produção de visibilidades na região portuária do Rio de Janeiro. O argumento se organiza por um enquadramento de governamentalidade que desloca o foco do patrimônio como algo a ser preservado, para o patrimônio como forma prática de ordenar condutas e tornar o território administrável.
Para compreender esse uso do patrimônio, tomo como objeto o caso da Pequena África, no Rio de Janeiro, espaço que vem se consolidando como berço da herança africana carioca, sobretudo a partir da revelação e do posterior processo de patrimonialização do sítio arqueológico do Cais do Valongo. Nesse contexto, a “Pequena África” deixa de nomear apenas um referente histórico-territorial e passa a operar como vocabulário de intervenção em diferentes projetos, acionando uma gramática específica, em especial as associadas à UNESCO, ao mesmo tempo em que incorpora ao debate vozes e ideias de sujeitos para além dos gestores públicos.
Entre os projetos propostos atualmente para a região, escolho acompanhar o projeto de estruturação do Distrito Cultural Pequena África, idealizada pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por possuir acesso privilegiado a reuniões e materiais produzidos ao longo da elaboração da proposta, uma vez que atuo como consultor contratado pelo banco desde o início do projeto, iniciado no final de 2024.
O BNDES enquadra a Pequena África como “museu a céu aberto” e propõe estruturá-la como Distrito Cultural, com masterplan, instâncias participativas e critérios específicos de autenticidade reorganizando a memória negra em um formato legível para consumo. A formulação do Distrito parte de uma operação de musealização do espaço urbano, tratada em linguagem de planejamento, branding urbano e geração de valor para a “marca” Pequena África a partir do que o BNDES entende como “vocações do território”, de modo, que o patrimônio é utilizado para organizar como o território pode ser usado, por quem e com quais acordos. O que se vê é a conversão do patrimônio em recurso, onde “cultura” e memória não aparecem apenas como algo a ser comunicado, mas como atributos distintivos mobilizados para reposicionar o território, ordenar prioridades e estabilizar um novo imaginário de zona portuária.
Nessa exploração inicial, observo que a Pequena África se apresenta como um laboratório de governamentalidade que produz um regime de evidência sobre o passado e reordena usos, centralidades e formas de permanência a partir do patrimônio cultural, que é testado como ferramenta, por atores locais e gestores públicos, tanto para ordenamento do território quanto para responder a reivindicações por direitos e reparação.
-
Territórios de memória e resistência: práticas patrimoniais afro-diaspóricas no centro de Cuiabá
— Flávia Carolina da Costa, Patricia Silva Osorio
— Flávia Carolina da Costa, Patricia Silva Osorio
Este trabalho tem por objetivo apresentar reflexões etnográficas sobre processos de (re)construção cosmopolítica do patrimônio cultural na região central de Cuiabá (MT), a partir da experiência do projeto coletivo “Patrimônio cultural das populações negras da região central de Cuiabá: memória e turismo”, desenvolvido pelo grupo Caleidoscópio – Estudos de Cultura Popular, vinculado à Universidade Federal de Mato Grosso e com recursos da FAPEMAT. A pesquisa se ancora na área da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, situada entre o Morro da Luz e a Prainha, espaço reconhecido simultaneamente como marco fundador da cidade e como território historicamente atravessado por práticas culturais negras.
O estudo investiga as formas pelas quais memórias, devoções, festejos e usos cotidianos do espaço urbano associados às populações negras produzem narrativas contra-hegemônicas sobre o patrimônio. A devoção a São Benedito, santo negro, e os registros de festejos populares desde o início do século XVIII revelam práticas culturais que operam como estratégias de resistência simbólica, reinscrevendo no espaço público experiências historicamente marginalizadas pela retórica patrimonial dominante. Essas práticas configuram repertórios patrimoniais vivos, cuja legitimidade emerge da experiência social e da transmissão intergeracional de saberes, mais do que exclusivamente dos dispositivos institucionais de tombamento.
A abordagem etnográfica empreendida durante a execução do projeto permitiu compreender o patrimônio como processo relacional e situado, constituído nas interações entre agentes, memórias, políticas públicas e dinâmicas urbanas contemporâneas. Nesse sentido, a proposta aqui apresentada objetiva dialogar com a tradição antropológica dos estudos sobre culturas populares, reconhecendo-as como campos de tensão nos quais se articulam heranças culturais, transformações urbanas, turismo e disputas por reconhecimento. Além disso, espera-se que as manifestações associadas às matrizes afro-diaspóricas em Cuiabá ajudem a evidenciar modos específicos de habitar, narrar e significar a cidade, desafiando leituras homogêneas sobre identidade e história urbana.
O trabalho se alinha à Recomendação para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO, ao enfatizar a centralidade dos grupos detentores de saberes e práticas culturais nos processos de valorização patrimonial. Ao destacar uma experiência de pesquisa comprometida com políticas públicas de reconhecimento das culturas tradicionais e populares, esta proposta visa contribuir com o debate sobre museus sociais, territórios de memória e iniciativas coletivas que promovam a democratização do patrimônio e a afirmação de epistemologias contra-coloniais no espaço urbano.
-
A Cruz do Anhanguera, 25 anos depois: repertórios patrimoniais em contexto contra colonial
— Izabela Maria Tamaso
— Izabela Maria Tamaso
Em 2001, quando eu estava em trabalho de campo na Cidade de Goiás, vi a Cruz do Anhanguera submergir no Rio Vermelho (juntamente como o monumento em alvenaria que a sustentava), na enchente que atingiu a cidade, apenas dezoito dias após a conquista do título de Patrimônio Mundial pela Unesco. Um dia após ter sido carregada, a Cruz foi localizada. Foi quando teve início uma disputa sobre o mito do Anhanguera: algoz ou herói? A disputa se deu nos espaços públicos, nos jornais da capital, nas rádios e telejornais. Envolvia Igreja Católica e Evangélica, além de movimentos sociais, de um lado; e de outro, uma parte da elite intelectual conservadora, políticos, artistas, agentes culturais e patrimoniais. Os primeiros demandavam que a Cruz não fosse recolocada; os outros insistiam que, sendo parte da história do Estado, deveria permanecer no espaço público. A Cruz voltou para o mesmo lugar seis meses depois, em forma de réplica. A "original" foi incorporada ao acervo do Museu das Bandeiras. Após 25 anos, muita coisa mudou na Cidade de Goiás. Os coletivos contra coloniais e antirracistas ganharam força e têm o apoio de boa parte de estudantes e docentes das três universidades públicas da cidade (UFG, UEG e IFG). Atuam em atividades que interpretam os patrimônios contra-hegemonicamente, tensionando os setores mais conservadores, seja pela arte, seja pela produção acadêmica, seja pela atuação política, seja pela festa. Esta comunicação visa analisar as representações sobre o Anhanguera (neste ano em que a cidade "comemora" os 300 anos de fundação de Goiás) a partir da observação do processo de disputa cosmopolítica da cidade e das resistências e lutas "contra-coloniais" contemporâneas. Visa, outrossim, identificar repertórios patrimoniais neste contexto contra-hegemônico, a partir das novas ocupações e ressignificações do espaço público, por parte de coletivos afro-diaspóricos e indígenas.
-
Patrimônio cultural e a construção do espaço em contextos de proteção e conflitos ambientais
— Kalil Felix Pena, Breno Trindade da Silva, Gustavo de Oliveira Celestino, Kalil Felix Pena
— Kalil Felix Pena, Breno Trindade da Silva, Gustavo de Oliveira Celestino, Kalil Felix Pena
Resumo:
O trabalho problematiza as estratégias de construção de bases de dados geoespacializadas no contexto da identificação, do tombamento, do registro e da análise de impacto ao patrimônio cultural no estado de Minas Gerais. Parte-se do entendimento de que os mapas e as infraestruturas de dados espaciais não são instrumentos neutros, mas dispositivos técnicos e políticos atravessados por disputas de poder, regimes de visibilidade e processos de exclusão. Nesse sentido, o artigo dialoga com o debate antropológico e geográfico sobre cartografias sociais, contracartografias e guerras de mapas, evidenciando as tensões entre cartografias de Estado e formas locais de produção do espaço, do território e do lugar.
No âmbito institucional, o patrimônio cultural é analisado a partir de sua inserção nas Infraestruturas de Dados Espaciais, especialmente no contexto do IDE/SISEMA e da Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais (INDE), compreendidas como instrumentos de governança territorial e, simultaneamente, como dispositivos de garantia de direitos para grupos e comunidades reconhecidos como patrimônio cultural. Discute-se, assim, como a espacialização de bens tombados e registrados pode tanto reforçar políticas de salvaguarda quanto produzir simplificações da realidade sociocultural protegida.
O trabalho analisa ainda o papel do IEPHA-MG como órgão interveniente no licenciamento ambiental em Minas Gerais, destacando os desafios técnicos e conceituais envolvidos na produção de registros de alcance estadual e na definição de áreas de influência do patrimônio cultural. Argumenta-se que a adoção de buffers, raios e recortes territoriais padronizados constitui uma tentativa de tradução da dinâmica sociocultural dos bens protegidos para a linguagem técnico-administrativa, ao mesmo tempo em que revela seus limites analíticos e reducionismo da realidade.
Por fim, o artigo discute os desafios e impasses do enquadramento cartográfico da diversidade cultural em bases geoespaciais homogêneas, problematizando os efeitos dessa operação sobre a compreensão do patrimônio cultural enquanto processo vivo, relacional e situado, e apontando para a necessidade de abordagens mais sensíveis às múltiplas escalas, temporalidades e territorialidades que conformam os bens culturais protegidos em Minas Gerais.
Palavras-chave: espaço/território, patrimônio cultural, antropologia do Estado
-
MUUDA - patrimônio pós-antrópico não tombado
— Luiz Carlos Rodrigues da Luz
— Luiz Carlos Rodrigues da Luz
A formação de uma ruína inicia-se muito antes de sua construção. As evidências presentes no edifício da antiga Celg Seduc indicam que sua vocação sempre foi a de tornar-se ruína daquelas que resistem ao tempo e às intempéries, em que o concreto, ao se tornar poroso, revela sua capacidade de permanência. À medida que a água penetra o cimento, a vida se enraíza por microfilamentos; ora o cimento e o ferro dilatam, ora contraem, de modo que culturas humanas e não humanas se manifestam em camadas de tinta sobre o concreto e em musgos que se instalam nas frestas. Esse agenciamento revela a relevância do MUDDA para a cidade de Goiânia, ao provocar debates e despertar sentimentos patrimoniais que reconfiguram a memória urbana. Constituído como museu em processo, no qual práticas expográficas se misturam a ocupações culturais, o espaço serviu de cenário para artistas goianos e para expressões que revelavam personagens da vida cotidiana, fruto de diásporas intrarregionais, como pessoas negras, periféricas e indígenas. O abandono da estrutura nunca se efetivou, como demonstra o constante movimento de pessoas, plantas, animais e fungos. Nesse sentido, é necessário reconhecer que, como obra original brasileira, o modernismo produziu edificações permeadas por múltiplas sociabilidades. Trata-se de cosmopolíticas patrimoniais compreendidas em contextos pós-antrópicos, que se manifestam em ambientes digitais, em instituições públicas, na mídia e nas ruas, sob o anseio de um fim não trágico.
-
Congadas, memória coletiva e disputas simbólicas
— Marcos Guilherme Medeiros Pereira
— Marcos Guilherme Medeiros Pereira
O presente estudo aborda as Congadas como espaços de produção de memória, identidade e disputas simbólicas no contexto das festas populares brasileiras, com ênfase na realidade goiana e na experiência afrocatalana. O aporte teórico fundamenta-se nos debates sobre memória, lugar e patrimônio, bem como na crítica ao discurso autorizado do patrimônio, possibilitando uma abordagem que articula memória coletiva, prática social e patrimônio cultural. As Congadas operam como lugares de memória ativa, nos quais se tensionam relações de poder, reconhecimento e legitimação cultural, especialmente no que se refere às populações negras que historicamente sustenta essa tradição. Em diálogo com Evans-Pritchard, ao enfatizar a importância da experiência vivida e da compreensão dos rituais como formas de organização do mundo social, a partir do ponto de vista dos próprios congadeiros, ruas, praças e igrejas de Catalão esses territórios de performatividade, resistência e afirmação da cultura afrocatalana, onde o corpo, o canto e o ritmo inscrevem a memória negra na história local, contrapondo processos de invisibilização. A crítica de Laurajane Smith ao discurso autorizado do patrimônio possibilita problematizar os processos de patrimonialização das Congadas, evidenciando as tensões entre os significados atribuídos pelos congadeiros e aqueles produzidos por agentes externos, como o Estado, igreja e o turismo cultural. As Congadas configuram-se, assim, como arenas de disputas simbólicas, nas quais se negociam tradição, autenticidade, visibilidade e reconhecimento.
Palavras-chave: Congadas; Memória coletiva; Patrimônio cultural; Festas populares.
REFERÊNCIAS
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A festa do Santo de Preto. Rio de Janeiro: Instituto
Nacional do Folclore, 1980.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994.
EVANS-PRITCHARD, E. E. Os Nuer. São Paulo: Perspectiva, 1978.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.
HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Tradução: Tomaz Tadeu
da Silva, Guaracira Lopes Lourdes. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
KATRIB, Cairo Mohamad Ibrahim. Foi assim que me contaram: recriação dos sentidos do
sagrado e do profano no congado na festa de Nossa Senhora do Rosário. 2009. 257 f. Tese
(Doutorado em História) Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2009.
PEREIRA, Marcos Guilherme Medeiros. O ensinar e o aprender das Congadas: o Terno do
Prego e sua tradição através da história. 2025. 114 f. Dissertação (Mestrado em História)
Universidade Federal de Catalão, Catalão, 2025.
SMITH, Laurajane. Uses of heritage. London: Routledge, 2006.
-
Saberes ancestrais e educação patrimonial no Kilombo Manzo Ngunzo Kaiango
— Natiele Rosa de Oliveira, Makota Kidoiale, Juliana Miranda Soares Campos
— Natiele Rosa de Oliveira, Makota Kidoiale, Juliana Miranda Soares Campos
A presente comunicação objetiva trazer reflexões acerca do Projeto Na gira do tempo: saberes ancestrais como prática de educação patrimonial a partir do Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango. Trata-se de uma proposta de educação patrimonial conduzida pelo próprio quilombo, em colaboração com as presentes autoras e financiada com recursos do IPHAN. O Kilombu Manzo Ngunzo Kaiango tem seus territórios localizados nos municípios de Belo Horizonte e Santa Luzia (MG) e sua organização social se estrutura em torno da família de sangue e de santo de Mametu Muiandê, matriarca da comunidade e mãe de santo do terreiro de Candomblé Angola de mesmo nome. O projeto, que está em andamento, tem como um de seus objetivos centrais compreender como os próprios membros da comunidade entendem e significam sua história, suas memórias, seus saberes e seu patrimônio sociocultural, levando em conta que essas noções, longe de serem universais e imutáveis, são circunscritas de acordo com as tradições de cada coletivo. O trabalho pretende construir um corpo de registros sobre a história e o patrimônio da comunidade, a ser alocado em uma plataforma digital em desenvolvimento pela própria comunidade. Nesta comunicação, pretendemos, portanto, apresentar algumas discussões sobre as atividades desenvolvidas na comunidade até o momento, abordando o modo como elas têm evidenciado possibilidades singulares de mobilização de conceitos e métodos de patrimonialização/educação patrimonial, tensionando, assim, as próprias noções hegemônicas de história e patrimônio.
Coordenação
Sandra Pereira Tosta (UFF)
Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento (UFPI)
Proposto pela “Rede Argonautas de Pesquisadoras e Pesquisadores em Antropologia e Educação” este GT parte de uma concepção abrangente do fenômeno educacional como aquele que se realiza escola e/ou em tantas outras esferas da vida social. Compreende, assim, a educação como cultura que ultrapassa a formação desenvolvida nas instituições educacionais formais, configurando-se como um processo dinâmico que envolve os modos de ser, interpretar e transformar o mundo. Desse modo, o GT busca reunir e debater estudos que considerem os múltiplos modos de aprendizagem, inclusive no mundo digital, com nossa dependência cada vez maior das ferramentas virtuais sobre todas as dimensões da vida e que, não raro, tentam prescindir da mediação das culturas, subvertendo o próprio conceito de emancipação e educação. Notadamente aqueles associados ao combate ao racismo, preconceitos e discriminação de toda ordem que, na maioria das vezes, desencadeiam situações de violência no cotidiano escolar e não escolar, gerando segregação, exclusão e indiferença em relação ao outro. Para tanto, acolheremos propostas que sistematizem e reflitam sobre experiências educacionais que revelem danos causados pelo racismo, preconceito, discriminação e outros tipos de violência e/ou sejam capazes de prevenir e cuidar com vistas a reduzi-los. Finalmente, a exemplo da Rede Argonautas, este GT visa estimular a criação de redes científicas, nacionais e internacionais que ampliem os diálogos entre Antropologia e Educação.
Títulos e Resumos
-
A contribuição do Livro didático para formação da identidade étnica na educação pública
— Antonio Andreson de Oliveira Silva, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
— Antonio Andreson de Oliveira Silva, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
A pesquisa analisa a representação do negro em livros didáticos de História e Sociologia do Ensino Médio, investigando como esses materiais influenciam a construção da identidade étnico-racial no ambiente escolar. A metodologia ancora-se em uma abordagem antropológica no campo da educação, utilizando procedimentos como a observação participante, aplicação de questionários a estudantes da 3ª série e entrevistas semiestruturadas com docentes e gestores de uma escola pública em Teresina-PI. O recorte teórico fundamenta-se no conceito de representação de Woodward (2000), compreendido como um sistema simbólico produtor de significados que posiciona os indivíduos como sujeitos, e na antropologia visual, que interpreta as imagens não apenas como ilustrações, mas como discursos construídos sobre a realidade que moldam o imaginário social. Os resultados apontam que, na disciplina de História, persiste um apagamento histórico onde o negro é frequentemente restrito ao papel de "ex-escravo" ou associado estritamente a contextos de violência, servidão e resistência física, sem o devido protagonismo intelectual. Já na Sociologia, embora se observe uma postura mais crítica que problematiza o racismo científico e o mito da democracia racial, as imagens ainda tendem a vincular o corpo negro à pobreza, à criminalidade e à vulnerabilidade social. Tais constatações destacam a importância fundamental de uma representação diversificada e positiva para o reconhecimento da identidade étnico-racial no Brasil, visto que o silenciamento ou a estereotipação nos manuais escolares afetam a autoestima e o processo de autorreconhecimento dos discentes, que necessitam identificar sua cultura representada de forma valorativa para a formação da cidadania. Conclui-se que a plena efetivação das Leis 10.639/03 e 11.645/08 é essencial para desconstruir visões etnocêntricas e promover uma educação decolonial e antirracista, que valorize as contribuições africanas e afro-brasileiras além dos estigmas coloniais.
-
Capacitismo acadêmico e racialização do mérito: uma escrevivência da formação universitária.
— Carlos André dos Santos Oliveira, Gabriel Bertolo
— Carlos André dos Santos Oliveira, Gabriel Bertolo
Este artigo analisa a universidade pública como um espaço de disputas políticas em torno da produção de hierarquias epistêmicas. Embora frequentemente apresentadas como neutras, tais disputas operam por meio de práticas racializadas e capacitistas. A partir de uma experiência situada no contexto da formação em Ciências Sociais, o texto discute as noções de mérito, excepcionalidade e autoridade acadêmica, mobilizadas institucionalmente como meio de legitimar processos de exclusão e deslegitimar determinados sujeitos, especialmente estudantes racializados negros e indígenas, oriundos de cursos de graduação considerados “periféricos”.
A partir de uma perspectiva crítica da estruturação acadêmica/universitária, elaborada através de uma articulação direta do conceito de escrevivência (Evaristo, 2003) como uma modulação etnográfica, o artigo examina episódios ocorridos em eventos acadêmicos e em ambientes de sala de aula, compreendidos aqui como espaços educativos não escolares nos quais se manifestam formas (não tão) sutis de violência simbólica: mudanças arbitrárias de regras, constrangimentos públicos e a suspeição seletiva sobre as práticas acadêmicas discentes, que, apenas citando alguns exemplos, configuram quadros de perseguições e dispositivos de poder que produzem efeitos formativos perniciosos, gerando insegurança, silenciamento e adoecimento, em vez de promoverem a formação crítica e o cuidado pedagógico.
Ao evidenciar como o racismo institucional, entre outras hierarquias sociais, e o capacitismo acadêmico atravessam o cotidiano universitário, o artigo defende a centralidade da experiência discente na reflexão sobre uma educação crítica e transformadora, reafirmando a necessidade de práticas institucionais comprometidas com ambientes acadêmicos mais justos, éticos e formativos que priorizem um bem-viver educacional.
-
Educação e Interculturalidade: caminhos para a inclusão escolar dos indígenas Warao
— Eliane Anselmo da Silva
— Eliane Anselmo da Silva
Esta pesquisa é parte do projeto aprovado pelo Edital nº 17/2023 - Políticas Afirmativas e Diversidade da CAPES, que objetiva colaborar com a investigação da efetivação do Ensino da História e Cultura Afro-brasileira e Indígena em escolas indígenas e quilombolas, e com a identificação dos desafios da interculturalidade e do multilinguismo na ambiência escolar, onde estudam os indígenas venezuelanos da etnia Warao. A pesquisa em tela e seus resultados limitam-se, dentro do escopo maior, à inclusão escolar dos Warao que vivem em Mossoró em situação de refúgio, desde 2019. A condição de minoria étnica refugiada dos Warao implicou enormes esforços institucionais articulados entre órgãos públicos de assistência e de prestação de serviços jurídicos para a acomodação das famílias em situações de vulnerabilidade social no urbano mossoroense. Nesse contexto, nossas pesquisas têm apresentado as especificidades socioculturais dos Warao em sua relação de contrastividade étnica na cidade e da dinâmica migratória, que tem evidenciado vários desafios, entre eles, o combate ao racismo e a xenofobia. A etapa da pesquisa até aqui identifica as escolas e verifica o processo da inclusão escolar, através das matrículas e dos desafios da inserção no ambiente da escola. O campo da pesquisa constituiu a Escola Estadual Padre Alfredo, primeira escola a receber crianças e adolescentes Warao na cidade de Mossoró, ainda no ano de 2022, a Escola Municipal Antônio da Graça Machado e a Unidade de Educação Infantil (UEI) Lindalva de Oliveira Dias Castro, ambas também em Mossoró. A pesquisa é realizada, além do acompanhamento desde a chegada deles na cidade, por meio de visitas as escolas, entrevistas com representantes da gestão e professores. Entre os resultados, verificamos o quantitativo de 13 crianças matriculadas e 11 frequentando a escola, entre o 1º, 2º e 5º ano e no infantil II. A comunicação foi ou ainda é a principal dificuldade no processo de ensino/aprendizagem, pelo contraste das línguas que falam e que aprendem (espanhol/warao e português), assim como a adaptação aos costumes e cultura local e a rotina escolar. A evasão e ausências, bem como a falta de documentação, como consequência da cultura migrante do povo Warao também interfere nesse processo, assim como dificuldades e resistências referentes as questões burocráticas. Evidencia-se, assim, os desafios para uma inclusão escolar efetiva, ressaltando-se ainda a necessidade da interculturalidade e do multilinguismo na escola, considerando as particularidades dos Warao enquanto indígenas e em sua condição de refugiados e migrantes.
-
A Aplicabilidade da Lei 11.645/08: Um Estudo sobre o Ensino de História e Cultura Indígena dos Tapuyas Payakús em Escolas do Município de Apodi/RN
— Eula Paula Gomes de Morais, Eliane Anselmo da Silva
— Eula Paula Gomes de Morais, Eliane Anselmo da Silva
O silenciamento da memória dos povos originários de um território implica nas relações sociais e no desenvolvimento de toda a sociedade. Os povos indígenas de Apodi, no Rio Grande do Norte, buscam justiça por sua memória e de todos os povos que resistiram ao genocídio e ao epistemicídio, através da retomada da história e sua recontagem.
Conhecer o processo de formação sócio-histórica do território de Apodi por meio da educação é fundamental para o reconhecimento dos povos originários da região e constitui uma reparação histórica e cultural. Com esse objetivo, essa pesquisa busca investigar a execução da Lei 11.645/2008, no ensino da história e cultura indígena, com ênfase na história do povo Tapuya Payakú da Lagoa do Apodi. Focando nas disciplinas das ciências humanas, a análise será desenvolvida em uma escola da rede pública da cidade com turmas do ensino médio. As contribuições teóricas de pensadores como Quijano (2005) e Mignolo (2017), que abordam a colonialidade do poder e do saber, se mostram essenciais para a compreensão dessa dinâmica e para a consolidação de uma base crítica para a educação intercultural. Assim como Freire (1974) e Ingold (2020), no reconhecimento da importância de valorizar os saberes e práticas das culturas populares como fontes significativas de aprendizado e conhecimento. Baniwa (2023), por sua vez expõe como o movimento de resistência indígena vem acontecendo no Brasil, de modo organizado, articulado e expansivo. A pesquisa além de sua natureza etnográfica e qualitativa, que pretende aprofundar as reflexões e observações sobre a aplicabilidade da referida Lei, é uma "pesquisa colaborativa" (Apurinã, 2017), pelo meu papel no fazer científico, enquanto indígena pesquisadora/pesquisada e agente política.
-
Tec black RN: ensino e inclusão digital da juventude negra
— Guilherme Paiva de Carvalho, Andre Rodrigo Aprigio Rosino
— Guilherme Paiva de Carvalho, Andre Rodrigo Aprigio Rosino
A juventude negra no Brasil enfrenta desigualdades estruturais no mercado de trabalho, expressas em maiores taxas de desemprego e informalidade, menor remuneração e concentração em postos de trabalho precários e de baixa qualificação. No estado do Rio Grande do Norte observa-se a desigualdade de oportunidades da população negra associada a um racismo institucional, conforme mostram os dados do Boletim Bimestral II do Observatório do Trabalho e de Políticas Sociais no Rio Grande do Norte (2023). Esse cenário se agrava diante do processo de precarização das relações de trabalho, afetando de forma mais intensa a população negra. Nesse contexto, o governo do Estado do RN, através da Secretaria de Mulheres e Juventude, implementou o programa Tek Black (Tech Black – Tecnologia Preta), voltado ao ensino de programação para a juventude negra, com o objetivo de enfrentar desigualdades socioeconômicas e promover a inserção no setor de tecnologia. Esta pesquisa analisa a formação ofertada pelo Tek Black enquanto política pública voltada à juventude negra, discute seus limites e potencialidades no enfrentamento do racismo institucional e das desigualdades estruturais no acesso ao trabalho e à tecnologia. Assim, o objetivo desta pesquisa é examinar os impactos socioeconômicos do ensino de programação para jovens negros participantes do programa Tek Black, investigando especificamente em que medida a formação ofertada contribui para a inserção profissional, a valorização racial e o enfrentamento das desigualdades no mercado de trabalho. Neste sentido a pergunta problema pensada foi como os conhecimentos adquiridos no curso se articulam a processos de inclusão social e econômica da juventude negra potiguar. Metodologicamente, o estudo adota uma abordagem mista, combinando procedimentos qualitativos e quantitativos. No eixo qualitativo, utiliza-se a netnografia (Kozinets, 2014) para a análise das interações no grupo de WhatsApp do programa, além de observação participante, aplicação de questionários e realização de grupos focais com egressos do curso. No eixo quantitativo, os dados coletados são comparados a bases estatísticas sobre trabalho, renda e desigualdade social no Rio Grande do Norte. A análise dialoga com os conceitos de exclusão digital, a partir de Castells (2002), divisão racial do trabalho, conforme Gonzalez (2020), e educação libertadora, na perspectiva de Freire (2011) e hooks (2013). Ao articular tecnologia, trabalho e raça, a pesquisa pretende contribuir para os debates sobre políticas públicas, ensino, racismo institucional e inclusão digital para a juventude negra.
Palavras-chaves: Juventude negra, ensino, inclusão digital, trabalho, políticas públicas.
-
Habitar a universidade: corpos, saberes e identidades Guarani e Kaiowá no ensino superior
— Inah Miranda Rios Serra
— Inah Miranda Rios Serra
Este projeto de pesquisa insere-se no campo da antropologia da educação e emerge de inquietações epistêmicas compartilhadas no Grupo de Pesquisa em Antropologia e Educação (GPAE/Unesp), articulando-se à luta histórica pela democratização do acesso à educação diferenciada no Brasil. A investigação dialoga com os desafios persistentes enfrentados pelos povos indígenas no ensino superior, especialmente no que se refere ao reconhecimento e à legitimação de seus saberes e epistemologias.
Entre esses povos, os Guarani e Kaiowá, majoritariamente localizados no estado de Mato Grosso do Sul, figuram entre os mais afetados por processos de desterritorialização, violência estrutural e exclusão social. No campo educacional, embora haja avanços decorrentes da criação de licenciaturas interculturais, permanecem obstáculos como o racismo institucional, a hierarquização dos conhecimentos e as elevadas taxas de evasão. Nesse contexto, a Licenciatura Intercultural Indígena “Teko Arandu”, oferecida pela Faculdade Intercultural Indígena da Universidade Federal da Grande Dourados (FAIND/UFGD), configura-se como um espaço privilegiado para investigar as dinâmicas de convivência, negociação e tensão entre saberes acadêmicos e saberes tradicionais.
A pesquisa tem como objetivo interpretar e compreender como estudantes Guarani e Kaiowá da habilitação em Ciências da Natureza constroem e integram conhecimentos culturais e científicos em suas trajetórias formativas, considerando as especificidades da Pedagogia da Alternância adotada pelo curso. Ancorado nos referenciais da interculturalidade crítica, dos estudos pós-coloniais e da decolonialidade, o estudo parte do pressuposto de que a produção do conhecimento é atravessada por relações de poder e disputas epistêmicas historicamente situadas.
Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa qualitativa de natureza etnográfica, desenvolvida entre 2025 e 2026, por meio de análise documental, observação participante durante o tempo-universidade e realização de entrevistas semiestruturadas e livres com estudantes, docentes, coordenação e gestão da FAIND. A etnografia é compreendida tanto como perspectiva metodológica quanto epistêmica, valorizando a reflexividade, o afeto e o compromisso ético na construção compartilhada do conhecimento.
Espera-se que a pesquisa contribua para a visibilização das experiências indígenas no ensino superior, para o fortalecimento do diálogo de saberes no campo das Ciências da Natureza e para o aprofundamento dos debates sobre políticas e práticas de formação docente intercultural, reafirmando a centralidade das epistemologias indígenas na construção de uma universidade mais plural, democrática e socialmente comprometida.
-
Interculturalidade como ferramenta antirracista na Educação escolar e não escolar na sociedade contemporânea
— Maimuna Muamy Injai, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
— Maimuna Muamy Injai, Raimundo Nonato Ferreira do Nascimento
No Brasil, as lutas antirracista desencadeada pelo movimento negro tem se intensificado nas últimas décadas e tem envolvidos outros seguimentos da sociedade civil, bem como outras entidades brasileiras em busca do reconhecimento de valores culturais da população negra, na educação escolar é não escolar. Nesse sentido, o conceito de interculturalidade nos parece uma ferramenta importante nesse debate, pois tende a mobilizar e tecer pontos que fortalecem a interação cultural na educação escolar, descentralizando o eurocentrismo para a valorização da diversidade cultural dos povos negros e originários. A criação de uma legislação que visa combater o racismo contra o povo negro e indígena na sociedade brasileira, a exemplo das Leis 10.639/2003, e 11.645/2008, tornando obrigatório na política educacional a implementação do ensino de História e cultura Afro-brasileiras, Africana e Indígenas na educação básica em toda a rede de ensino pública e privada do país, é um marco em nossa história recente. Contudo, após mais de vinte anos da publicação da primeira lei, ainda vemos em nosso dia-a-dia, situações de discriminação e preconceito contra a população negra e indígena, bem como contra outras minorias. Diante de tal situação propomos a seguinte questão: quais as contribuições e desafios da política antirracista praticada no Brasil? Este estudo tem como objetivo refletir sobre a política antirracista brasileira em vigor, no âmbito da educação escolar e não, cujo intuito é perceber seus impactos, bem como os fatores que impedem sua implementação. Busca também compreender como a história da África é abordada nas escolas, que autores são trabalhados e como a interculturalidade fortalece o antirracismo.
-
Estratégia de Lutas e Resistência de Mulheres Negras em Comunidades de Goiânia Através das Práticas de Educação Não Formal
— Maria de Lourdes Fernandes Silva
— Maria de Lourdes Fernandes Silva
Este resumo apresenta a temática central do meu projeto de mestrado, o qual adota uma abordagem etnográfica, fundamentada na premissa de que a etnografia é tanto uma prática de descrição quanto de educação. Pois, o estudo foca no protagonismo coletivo de mulheres negras e suas práticas de educação não formal, em que o campo empírico delimitado é o Setor Vila Mutirão, situada na região noroeste de Goiânia, tendo como interlocutoras centrais as integrantes do Grupo de Mulheres Negras – Samba Criola. Pensando que as formas de organização deste grupo de Mulheres Negras, vão ocorrer a partir das práticas que caracterizo de educação não-formal. Educação está que ocorre fora dos muros das instituições de ensino e entre grupos, comunidades e espaços presentes pelas minorias. Neste sentido para o desenvolvimento da pesquisa busco teorias das pensadoras e teóricas do Pensamento Feminista Negro que me aproximo mais das vertentes brasileiras e estadunidenses, que me possibilitam pensar aproximações e distanciamentos a partir de suas análises e teorias sobre as experiências de mulheres negras em comunidades com altos índices de violência, misoginia, sexismo e racismo. Deste modo, para realização da pesquisa, me amparo nas seguintes técnicas de coleta de dados: a observação participante – inserção direta no cotidiano e atividade do Grupo do Mulheres Negras – Samba Criola através de rodas de conversa – espaço de troca coletiva; entrevistas semiestruturadas e narrativas de vida; a pesquisa etnográfica - que mergulha na procura por padrões comportamentais, regularidades, temas ou dados que deverão perfazer um caminho para explicar a realidade observada (Agrosino, 2009). Outro campo fundamental nesta pesquisa são os estudos sobre educação não-formal. Assim, Paulo Freire (1974), a partir da Pedagogia do Oprimido, traz uma teoria que ressoa com as práticas de educação não formal, propondo uma educação libertadora, em que o conhecimento é construído de forma dialógica e coletiva, tendo que a pedagogia freiriana pode ser articulada para pensar as realidades das mulheres negras, suas experiências e saberes. Trazemos para esse diálogo na pesquisa Maria da Glória Gohn (2009, 2014) e Jaime Trilla (2008) que permitem avançar na discussão sobre educação não formal e suas práticas. Para análise dos dados coletados, me proponho mergulha na análise do discurso, método de análise que busca fazer uma leitura do enunciado levando em consideração os contextos históricos, sociais e ideológicos que compõem os sujeitos (Pêcheux,1995).
-
Etnografia e Educação Quilombola: A luta pela implementação do direito à educação escolar quilombola na comunidade Mirandiba/PE
— Maria Elizandra Santos de Oliveira
— Maria Elizandra Santos de Oliveira
A Educação Escolar Quilombola (EEQ), enquanto direito, visa não apenas a garantia de terras, mas também a inclusão dos saberes populares, conforme prevê a Constituição Federal (Brasil, 1988) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Brasil, 1996). Conforme Silva (2012, p. 167), a educação escolar quilombola "é a educação viva, que nasce do saber do próprio povo, para devolver a esse mesmo povo o que lhe foi negado e por isso, valoriza, reconhece, fortalece, identifica, partilha, qualifica os saberes e os conhecimentos locais, sem com isso abandonar os conhecimentos universais. É uma educação que busca emancipar o homem e a mulher e se transforma em instrumentos de luta". A EEQ parte, portanto, do princípio da valorização da memória coletiva, do reconhecimento das lutas territoriais e das tradições que asseguram a continuidade das comunidades. A presente pesquisa, que integra meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) em Ciências Sociais, busca analisar, a partir do panorama da Antropologia da Educação, os avanços no direito ao ensino escolar quilombola a partir da implementação das Diretrizes Curriculares Municipais da Educação Escolar Quilombola no município de Mirandiba, no sertão de Pernambuco. Para tal, toma como referência a Lei Municipal nº 82/2020, que se fundamenta na Resolução CNE/CEB nº 8/2012 e define diretrizes para uma educação contextualizada, intercultural e antirracista. A investigação direciona-se pela análise dos dados coletados no projeto desenvolvido pelo Centro de Cultura Luiz Freire (CCLF) - o Projeto Educacional EducQuilombo: Educação Escolar das Meninas Quilombolas de Mirandiba - , em coautoria com a Articulação Social das Comunidades Quilombolas de Mirandiba (ASCQUIMI) e com apoio do Malala Fund. Utilizou-se, assim, da efetivação da Lei nº 82/2020, de obras que contribuíram para o engajamento na produção de saberes e da investigação documental do material produzido pelo CCLF, além dos pareceres homologatórios de legislações já citadas. A partir da minha experiência de estágio no CCLF, inserida no referido projeto e em contato com os principais agentes envolvidos na implementação das diretrizes, foi possível observar a construção de estratégias nos processos formativos visando à sistematização das concepções de educação quilombola e, dentro destas, da educação escolar. O trabalho se volta à reafirmação da fundamentalidade do direito de pertencer e a preservação das culturas, além do incentivo à propagação de estratégias para construção de currículo específico na EEQ em Pernambuco. Foi possível compreender os processos que visam fortalecer os sujeitos coletivos demandantes de políticas públicas gerais e específicas que compõem uma articulação local.
-
Aldear e aquilombar o IF Baiano: estudantes indígenas e quilombolas no Ensino Superior
— Raphael Rodrigues, Amanda Jardim da Silva Rezende, Simone Souza Lopes
— Raphael Rodrigues, Amanda Jardim da Silva Rezende, Simone Souza Lopes
Neste trabalho, apresentaremos desdobramentos e reflexões resultantes da execução do projeto de extensão "Semeando saberes: estudantes indígenas e quilombolas em rede". Temos elaborado uma série de registros sobre os percursos acadêmicos desses discentes no Instituto Federal Baiano campus Bom Jesus da Lapa, com ênfase na abordagem de suas trajetórias enquanto sujeitos pertencentes a Povos e Comunidades Tradicionais. Entre as ações desenvolvidas, destaca-se a produção de um podcast composto por episódios que versam sobre suas trajetórias, vivências, desafios ("dororidades") e aspirações no ensino superior. Os discentes também elaboraram um material informativo, intitulado “Vem pro IF, parente!”, em linguagem atrativa e acessível, que oferece informações sobre a vida acadêmica com o propósito de incentivar o ingresso de mais estudantes de Povos e Comunidades Tradicionais na instituição. Adicionalmente, o projeto produziu um Guia Prático com orientações para os estudantes indígenas e quilombolas recém-ingressantes ao campus, denominado “Estou no IF, e agora?”. Tais iniciativas se fundamentam na constatação de que, apesar do avanço na garantia do direito ao acesso ao ensino superior, decorrente da implementação de políticas de ações afirmativas, esses discentes enfrentam uma série de obstáculos institucionais e pedagógicos na vida acadêmica. A insuficiência de recursos destinados à assistência estudantil, a escassez de representatividade e participação nas instâncias decisórias e as manifestações cotidianas do racismo institucional são exemplos dos desafios a serem superados. Constatamos que o projeto “Semeando saberes” tem contribuído para estabelecer um espaço de formação, fortalecimento e engajamento dos estudantes indígenas e quilombolas na própria instituição, por meio da afirmação de suas identidades étnicas, raciais e de gênero.
-
Entre sonhos e práticas decoloniais: memórias, afetos e pertencimentos na experiência de uma educação antirracista
— Regiani Aparecida de Andrade
— Regiani Aparecida de Andrade
A escola deveria ser um espaço de construção de saberes, desenvolvimento de identidade e formação cidadã, entretanto sabemos que na maioria das instituições estamos distantes de alcançar estes objetivos. Na concretização de uma educação antirracista no Brasil, mais do que dispositivos legais, é preciso que práticas pedagógicas sejam implementadas para a superação do eurocentrismo ainda dominante nos currículos escolares, para que a partir do protagonismo das pessoas que foram inseridas nas margens da sociedade, vítimas de um processo histórico, possamos proporcionar um espaço educativo focado nas ancestralidades aliados aos conhecimentos de uma base comum curricular. A Lei 10.639/2003 representa um marco importante nesse processo, ao tornar obrigatória a abordagem da história e cultura afro-brasileira e africana no ensino básico (BRASIL, 2003). No entanto, na prática existem diversos desafios a serem superados, desde a falta de acompanhamento do governo para verificação da aplicabilidade da lei nas escolas, resistência das instituições, a formação precarizada dos professores e a ausência de lideranças escolares comprometidas com uma perspectiva decolonial e antirracista. A escolha do tema emerge de uma experiência pessoal e acadêmica, intensificada a partir do contato com a obra e a atuação da professora Bárbara Carine, idealizadora da primeira escola afro-brasileira do país. O que justificou a minha pesquisa foi criar um paralelo entre a minha trajetória e experiências pessoais enquanto criança e adolescente negra, que sofreu cotidianamente situações de racismo nas escolas públicas por onde passei, com a realidade atual apresentada a mim, da existência "da escola dos sonhos". Nessa perspectiva, a Escola Maria Felipa surgiu como um exemplo relevante para análise, por fundar um espaço educativo que se propõe a romper com as lógicas eurocêntricas predominantes na educação brasileira. A pesquisa será desenvolvida como um estudo de caso, tendo como análise a Escola Maria Felipa por sua relevância enquanto experiência pedagógica inovadora no contexto brasileiro e a coleta de dados por meio observação participante, bem como a realização de entrevistas semiestruturadas famílias de alunos matriculados nestas instituições. Ao investigar a Escola Maria Felipa busca-se contribuir para identificarmos práticas pedagógicas que se contrapõem à "história única" e que procuram reconstruir um projeto pedagógico a partir das vozes negras, não apenas para o fortalecimento das políticas de educação étnico-racial, mas também para a construção de modelos replicáveis em outras instituições, bem como identificar os impactos da relação entre família e escola, para a construção de um ambiente educativo antirracista, acolhedor e diverso.
Coordenação
Martina Ahlert (UFMA)
Antonádia Monteiro Borges (UFRRJ)
Do que são feitas as universidades? Uma visão finalística reproduzida institucionalmente constantemente nos leva à produção da Ciência como razão de ser desses espaços que frequentamos. Essa visão toma por ponto de partida o “eu transparente”, de que nos fala Denise Ferreira da Silva, de um modo de conhecimento tido como universalmente válido à despeito da analítica da racialidade que ele pressupõe. Nessa perspectiva, a universidade-plantation (Borges, 2020) agrega seu valor a partir da sua capacidade produtiva: laboratórios, artigos, congressos, diplomas, títulos, recursos humanos. Porém, se perguntarmos quem realmente habita a universidade, logo percebemos que sua vitalidade depende de múltiplas agências (humanas e não-humanas) cujas presenças raramente ganham centralidade nas narrativas institucionais — servidores, equipes de limpeza e segurança, vendedores ambulantes, pequenos comerciantes, cozinheiras, motoristas, estudantes, animais, plantas, prédios. Todos compõem a infraestrutura vital do campus, na medida em que são fundamentais para que ele permaneça como um território vivo. Serão bem-vindas etnografias com aqueles que fazem a universidade acontecer no cotidiano. Também aceitamos trabalhos que tematizem a operação da plantation epistêmica e suas tentativas de aniquilamento dos modos de conhecer, saber e ser, bem como às lutas e políticas que reafirmam a imanência da vida frente a essas investidas cognitivas.
Títulos e Resumos
-
Antídotos Metodológicos
— Aina Guimarães Azevedo, Lucas Coelho Pereira
— Aina Guimarães Azevedo, Lucas Coelho Pereira
Este trabalho compartilha as experiências e propostas pedagógicas vivenciadas no projeto de extensão e pesquisa Antídotos Metodológicos. O projeto reúne os desejos e inquietações dos autores proponentes - professores de antropologia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) - e de seus estudantes em face da aprendizagem, da partilha e da experimentação do conhecimento.
Ao longo de cinco encontros ocorridos dentro e fora da universidade, conjugamos a discussão de textos previamente selecionados com experiências de coleta, caminhada, dança, bordado, desenho, colagem, dentre outros. A ideia foi abrir espaço para que outras formas de conexão com a universidade e o conhecimento pudessem acontecer. O espaço aberto foi literal e metafórico: visitamos lugares que fazem parte da universidade, como a Mata do Buraquinho ou o Núcleo de Arte Contemporânea, mas que não são visitados frequentemente pela comunidade acadêmica.
Nesta comunicação, gostaríamos de compartilhar essas experiências e reverberar nossas questões moventes, oriundas desses encontros e que são as seguintes:
(i) O que ocorre com os saberes que as pessoas trazem de suas vidas quando chegam à universidade? De que modo a presença de estudantes cotistas - negres, indígenas, quilombolas, baixa renda, mas também trans, PcD, dentre outres - modifica os interesses e as práticas pedagógicas?
(ii) Será que existe algo tão teórico, tão abstrato que não possa ser trazido para o corpo? Ou como podemos ampliar as habilidades perceptivas e criativas dos estudantes? Será que existe uma teoria impossível de ser dançada? Com esses questionamentos é possível reconstruir a própria ideia de teoria - teoria visual, têxtil, táctil - a partir do corpo?
(iii) Como usar as metodologias sem que elas sejam camisas de força, nem manuais envenenados? Como deixar florescer no ensino de antropologia a serendipia, o acaso e o risco tão presentes no trabalho de campo? Quais os efeitos de andar sem ideias, deixando-se capturar? Quais as forças das desaprendizagens?
(iv) Na universidade só há espaço para a métrica ou também há espaço para a paixão e o sonho? Professores dedicados com paixão à sala de aula no ensino superior geralmente são vistos com desconfiança por colegas, conforme elaborado por bell hooks no seu Ensinando a transgredir. Não se espera que a sala de aula ocupe centralidade no fazer de professores universitários, suas publicações sim.
Guiados por essas inquietações, pretendemos apresentar como as atividades realizadas no Antídotos Metodológicos fornecem ferramentas para desenvolvermos modos de habitar a universidade a partir de diálogos e experimentações com os meios e viventes que fazem o campus, mas não só.
-
Territorialização da Educação Superior Pública no Brasil
— Antonádia Borges
— Antonádia Borges
Nesta comunicação serão discutidos os avanços iniciais de um projeto de pesquisa cujo objetivo é desenvolver uma plataforma de dados que integra informações etnográficas, históricas, estatísticas e geográficas sobre a configuração territorial moldada pelas instituições públicas de ensino superior no Brasil. O mapeamento e a análise das territorializações universitárias fornecem elementos cruciais para a conscientização sobre as dívidas históricas, auxiliando-nos a nos manifestarmos politicamente frente aos avanços privatizantes sobre o atual espaço público da universidade. Inspirando-se em Sylvia Wynter, a equipe de pesquisa está construindo um plot digital que, semelhante aos jardins digitais, cultiva e compartilha uma coleção diversificada e de acesso aberto de materiais relacionados aos campi universitários e às terras que eles ocupam. A formação dessa coleção e as interações não lineares, porém interconectadas, entre seus usuários e colaboradores constituem o foco central desta apresentação.
-
Escrevivências, Percursos e Fronteiras: ensaio sobre a experiência da pesquisa sob a ótica da racialidade.
— Claudiane Alves Gonçalves
— Claudiane Alves Gonçalves
Este trabalho constitui-se como uma escrevivência marcada pela violência racial e a imposição de um lugar historicamente subalterno. Escrevo a partir da vivência de mulher negra nascida em comunidade de Minas Gerais, confrontada precocemente pela violência do tráfico e abandono estatal. Na infância, fui forçada a deixar meu território com minha mãe e irmã, fugindo do aliciamento que ameaçava nossa sobrevivência. Na escola, a truculência pedagógica negligenciou um diagnóstico de dislexia, o transmutando em uma sentença, proferida por professores, que afirmavam ser meu destino "trabalhar em casa de família". A permanência nos estudos, ameaçada pelo não-sentido daquele espaço, só foi possível pela insistência de meus pais, pai pedreiro e mãe doméstica, que vislumbravam para as filhas um horizonte distinto.
Com essa motivação, realizei nosso sonho de entrar na universidade pública, onde decidi dedicar-me à academia. Contudo, se na graduação me senti pertencente, na pós-graduação a diferença tornou-se um abismo. Por tempos sentia-me sozinha; poucos são iguais a mim, e o racismo opera de forma tão naturalizada que minha presença (ou repulsa a ele) é o que causa estranhamento. Partindo dessa escrevivência, este trabalho observa que a universidade, idealizada como local da razão universal (Silva, 2007), revela-se na vivência de corpos racializados uma extensão sofisticada da plantation.
O objetivo é analisar, via relato autoetnográfico e revisão crítica, como a estrutura acadêmica mantém uma lógica colonial que não desenhou este espaço para a mulher negra como produtora de conhecimento, mas como objeto ou mão de obra (Kilomba, 2019). O aporte teórico fundamenta-se em Gonzalez, Carneiro, Evaristo, Mbembe e Silva, chave para compreender como o racismo opera na sociedade e na educação.
Concluo que, embora distintas, há um continuum de violência. Na educação básica, explícita e ligada à precarização da vida e do território; na pós-graduação, refinada em violência simbólica. A academia reitera a divisão denunciada por Gonzalez: o lugar "natural" da mulher negra é lido como o do serviço, o que gera adversidades e repulsa. Conclui-se que a "universidade-plantation" (Borges, 2020) é prática institucional ativa que tende a desestimular a permanência de jovens negros, reafirmando a necessidade urgente de transcender o acesso numérico, lutando pela descolonização dos saberes e pela validação das epistemologias negras como condição essencial para a universidade deixar de ser um local de sobrevivência penosa e torne-se um território de vivência plena.
-
Corpo-território em vivência acadêmica indígena
— Joelma Boaventura da Silva, Antonio Hilario Aguilera Urquiza
— Joelma Boaventura da Silva, Antonio Hilario Aguilera Urquiza
O presente trabalho resulta de pesquisa intitulada “Corpo-território em vivência acadêmica face ao processo de territorialização - reterritorialização indígena”, em andamento, junto ao Programa de Antropologia Social – PPGAS da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS. O tema parte da percepção de corpos indígenas desterritorializados nas universidades, pois os dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais - INEP mostram que “o total de alunos indígenas na faculdade foi de 9.764 em 2011 para 46.252 em 2021, o que representa um salto de quase 374%” (Dias, 2023, p. 1). Objetiva-se discutir sobre os processos de territorialização e reterritorialização de discentes indígenas (corpo) em seus contextos universitários (território) em consonância com os conceitos de vivência e a permanência acadêmicas. A metodologia contempla uma abordagem qualitativa que permite descrever os processos de territorialização indígena no ambiente universitário. Trata-se de um texto com perspectiva interdisciplinar articulando elementos antropológicos com educacionais, filosóficos e geográficos, associada aos procedimentos de revisão de literatura. Os conceitos basilares desse artigo estão dispostos a seguir. O primeiro deles é a etnogênese, pensada enquanto surgimento recente de povos considerados originários (Lifschitz, 2011); “reetinização” ou ainda como uma estratégia de sobrevivência, de recriação das tradições, principalmente, na região Nordeste e no sul da região Norte (Luciano, 2006). Um segundo conceito é o processo de territorialização – desterritorialização- reterritorialização – TDR, considerando a amplitude da conceituação de território, e tomando o pensamento de Deleuze; Guattari (1995) do movimento sobre os territórios. O terceiro conceito chave é povos originários, em caráter transversal, a partir de marcadores ideológicos, históricos e semânticos, considerando os elementos de pertencimento, culturais e cosmovisionários das diversas etnias que habitam o Brasil (Silva, 2024). A educação superior indígena – ESI é o quarto conceito fundamental e locus da abordagem no contexto de população indígena urbana (Aguilera Urquiza; Nascimento, Brand, 2010; Bergamaschi, 2013). O Corpo-território baseado em Costa (2010) e Lago; Silva; Reis (2023) reflete diretamente na discussão sobre vivência acadêmica em interface com permanência (Silva, 2024; Sampaio, 2010; Husserl, 1975). Salienta-se que a permanência está ancorada na política de assistência estudantil e em iniciativas institucionais. A vivência, devido a seu caráter mais dinâmico e subjetivo, necessita de mais estudo e proposições que contribuam para sua efetivação.
-
Práticas de cuidado e conhecimentos comunitários: a recusa à monocultura universitária
— Karine Pereira de Freitas, Yeison Andres Rojas Ramirez
— Karine Pereira de Freitas, Yeison Andres Rojas Ramirez
A produção de conhecimento na universidade-plantation (Borges, 2020) assemelha-se a um modelo de monocultura: uma produção exclusiva, rápida, voltada a resultados tangíveis, com uma capacidade produtiva focada em métricas e em caixas metodológicas e epistemológicas tradicionais. Ao transpor para o campo da produção do conhecimento a lógica da monocultura, esse modelo produz uma narrativa como única e verdadeira. Chimamanda Ngozi Adichie (2019) nos alerta para o perigo de uma história única, porque ela rouba a dignidade das pessoas e dificulta o reconhecimento de nossa humanidade em comum. Motivada pelo compromisso com a pluralidade de narrativas, essa pesquisa busca escutar e discutir práticas de cuidados comunitários em territórios racializados e, a partir delas, romper com as narrativas ontoepistemológicas (Ferreira da Silva, 2022) do pensamento moderno, valorizando conhecimentos populares, comunitários e rurais.
Compreende-se o campo da reprodução social a partir da noção de planejamento fugitivo (Moten e Harney, 2024), capaz de enfrentar a composição-plantation da universidade (Borges, 2020). As discussões baseiam-se em revisão bibliográfica e narrativas etnográficas provenientes de trabalho de campo em duas comunidades, sendo uma urbana (Brasil) e a outra rural (Colômbia), envolvidas com o trabalho na agricultura. São privilegiadas interlocuções com mulheres negras idosas e jovens rurais com deficiências intelectuais e/ou suas cuidadoras que, ao construírem práticas de cuidados enquanto devir de formas de vida, produzem conhecimentos que tensionam tanto a estrutura universitária - organizada como uma plantation e projetada para expansão capitalista por meio da exploração de sujeitos como recursos humanos - , como também o corpo que ela reivindica como "apto" para produzir valor. Assim, entende-se que as reflexões elaboradas juntamente com as interlocutoras não apenas incidem sobre a lógica da descartabilidade imposta por essa estrutura, mas também permitem pensar outros meios (já existentes) de criar e aprender por outros sentidos.
-
Modos ocupar a universidade e a cidade: apontamentos a partir de São Luís (Maranhão)
— Martina Ahlert
— Martina Ahlert
Este trabalho pretende analisar diversos modos de "ocupação" que podem ser pensados a partir do campus onde leciono como professora, na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís. Partindo da minha experiência como docente e pesquisadora no local e da revisão de alguns documentos - como matérias de jornal e produções institucionais -, pretendo apresentar uma discussão sobre ocupação considerando, em primeiro lugar, a construção do campus e a relação com a região da cidade onde está localizado, assim como com a comunidade que lhe é vizinha. Nesse escopo, trata-se de um modo de ocupar a cidade e a terra. Em segundo lugar, me interesso pelo uso de espaços que pertencem à Universidade e são, em diferentes momentos, ocupados ou desocupados, reformados, revitalizados ou levados a processos de arruinamento. Nesse segundo âmbito, trata-se de um modo de ocupar o patrimônio, tanto como propriedade quanto em sua perspectiva histórica. Ao observar estes dois aspectos, procuro estabelecer um debate que demonstre como a Universidade é uma instituição que se relaciona com a cidade, participando das dinâmicas que envolvem mobilidade urbana, valorização imobiliária e a definição do uso de certos locais etc. Igualmente, busco compreender como as pessoas se relacionam de modos muito diversos com esse espaço, a partir de formas que extrapolam as atividades vistas como estritamente acadêmicas.
-
O bairro, O campus - memória ambiental de uma relação não consolidada
— Natã Souza Lima, Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares, André Menezes Firmino, Raíssa Helena da Silva Chaves
— Natã Souza Lima, Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares, André Menezes Firmino, Raíssa Helena da Silva Chaves
O Campus universitário Senador Arthur Virgílio Filho, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é o maior em extensão territorial do Brasil e compõe uma Área de Proteção Ambiental da cidade de Manaus, a APA Floresta Manaós, terceiro maior fragmento verde em área urbana da Terra e o primeiro do país (Oliveira, 2019). Ao seu lado, o bairro Coroado, situado na zona Leste da cidade, foi criado a partir de um longo processo de ocupação urbana no início da década de 70 em terras que haviam sido destinadas para a Universidade, produzindo uma história de conflitos entre moradores e funcionários da UFAM. Madeira, caça de animais, coleta de frutos, roçados, produção de farinha, muitos eram os usos tidos como irregulares durante o processo de ocupação e consolidação do bairro do Coroado, nas terras que pertenciam ao campus.
Atualmente, mais de 50 anos depois da formação do bairro e da reestruturação do Campus universitário, com a reforma de diversos prédios e construção de novos espaços onde havia floresta nativa, temos revisitado as narrativas sobre os usos do campus e suas transformações, tanto pelos servidores públicos da instituição, quanto pelos moradores do bairro Coroado, através do conceito de memória ambiental (Soares, 2021), refletindo sobre as permanências e os desdobramentos dos processos de conflito urbano por moradia, as relações de troca, ocupação, afastamento, ressentimento e idealização que ainda ressoam na relação entre comunidade e universidade. Em nossas pesquisas, o campus e seu entorno também tem sido compreendidos como espaços multiespécie, marcados por elevada diversidade biológica e por interações constantes entre fauna, flora e população humana, conforme evidenciado nos levantamentos sobre a biodiversidade presente no campus da Universidade Federal do Amazonas (Monteiro; Oliveira; Silveira, 2022).Trata-se de um cenário no qual a presença dos animais integra o cotidiano, as práticas de uso e convivência no campus e as memórias associadas à paisagem.
Esses dados têm sido trabalhados como parte de uma pesquisa de longa duração sobre os Impactos Antrópicos no Ecossistema de Floresta Tropical Sítio MANAUS (IAFA), financiada pelo CNPq, além de uma pesquisa de mestrado e outra de iniciação científica, que abrangem o Campus Universitário Senador Arthur Virgílio Filho e o bairro do Coroado, em Manaus, AM.
-
Baobás, banheiros, burocracia: ocupação e errância contra a plantation universitária
— Stella Zagatto Paterniani, Marilia Santos (Pendente), Lígia Notariano Belizario
— Stella Zagatto Paterniani, Marilia Santos (Pendente), Lígia Notariano Belizario
Esta comunicação visa apresentar algumas experimentações do Grupo de Estudos em Pensamento Negro Radical e Teoria Etnográfica da Universidade Estadual de Campinas (Errante/Unicamp) ao longo dos anos de 2024 e 2025 que tem se orientado pela ideia de estudo negro (Moten & Harney). Serão apresentadas algumas considerações a partir da mostra de cinema Cinerrante, que reuniu produções audiovisuais produzidas e/ou protagonizadas por movimentos sociais de Campinas; e resultados de duas pesquisas de Iniciação Científica que nos revelam, a partir de, respectivamente, o plantio de baobás no campus e intervenções nos banheiros pela Frente Pró-Banheiros Neutros do Núcleo de Consciência Trans da Universidade, tecnologias de transtopias contra a brancotopia da plantation universitária.
Para receber diárias por seu trabalho na mostraCinerrante, financiada pela Universidade, uma das participantes, mulher trans, precisou passar pelo constrangimento de apresentar seu RG com seu nome morto; outra, levou meses até receber porque a administração da universidade exigia um documento que ela não tinha carteira de trabalho assinada. A burocracia da universidade, vis-a-vis a ontologização-trabalhador, violenta as gentes que a ocupam a plantation universitária.
Lígia Belizario pesquisa os banheiros sem distinção de gênero na Unicamp. Em 2024, durante o 48o Encontro Anual da ANPOCS, a Frente Pró-Banheiros Neutros realizou uma intervenção: colocou mudas de espadas de São Jorge nos mictórios de banheiros do IFCH/Unicamp. Os mictórios continuaram sendo utilizados e os banheiros ficaram cheirando mal, afinal, a argila expandida retinha parte da urina. Argumentaremos como, se, por um lado, a ação pareceu inócua, pois os mictórios continuaram sendo utilizados, por outro, ela também parece ter causado uma espécie de curto-circuito na cognição-plantation de alguns usuários.
Marília C. Freire, por sua vez, pesquisa com os baobás plantados por mestre TC Silva, da Casa de Cultura Tainã, também em Campinas. As primeiras sementes de Baobá chegaram a suas mãos em 2006, e foram plantadas no quintal da casa. Ele semeou um punhado de sementes, todas germinaram e em poucos dias ele se viu diante de um viveiro de bebês baobás, uma pequena África em seu quintal. TC começou a espalhar as mudas, caminhando por outros quilombos e organizando plantios em cortejo. Plantar um Baobá era ao mesmo tempo uma forma de celebração da terra, enraizamento da memória e ancestralidade que as sementes carregam, e demarcação comunitária do território. Alguns baobás já foram plantados na Unicamp e, posteriormente, arrancados. Retomaremos esses plantios e destruição de baobás para entendê-los como a materialidade do conflito ontoepistemológico entre a plantation universitária e a transtopia afrofuturista.
-
Cerzindo pontas e encontrando sentidos: uma autoetnografia dos percursos formativos em psicologia
— Vera Rocha
— Vera Rocha
Este trabalho analisa, sob uma perspectiva autoetnográfica, como as experiências de vulnerabilidade, maternidade e neurodiversidade atravessam e ressignificam o percurso formativo. O objetivo é investigar o potencial transformador dessas vivências na produção de conhecimento, deslocando-as da condição de "ruído" para a de centralidade epistemológica. Fundamentada em uma metodologia qualitativa, a pesquisa utiliza a autoetnografia para narrar, em primeira pessoa, uma trajetória acadêmica marcada por rupturas e desafios institucionais. O arcabouço teórico dialoga com a crítica à neutralidade científica, valorizando o saber situado e a centralidade da experiência como fundamento ontológico da formação. O material empírico, composto por relatos pessoais e registros reflexivos, revela que a formação em Psicologia é frequentemente atravessada por camadas de exclusão que silenciam a pluralidade de corpos e mentes. No entanto, os resultados apontam que o tensionamento dessas normas permite o surgimento de potências criativas e práticas inovadoras, especialmente quando a vulnerabilidade é assumida como ferramenta de análise política e pedagógica. Em conclusão, esta proposta argumenta que a inclusão da vulnerabilidade, da neurodiversidade e da maternidade no debate acadêmico não é apenas uma questão de permanência estudantil, mas uma necessidade para a diversificação das vozes e saberes na academia. O estudo contribui para a reflexão sobre práticas formativas que acolham a pluralidade e reconheçam a formação como um processo contínuo de subjetivação e resistência.
Coordenação
Breno da Silva Carvalho (UFRN)
Luan Gomes dos Santos de Oliveira (UERN)
Pessoa debatedora
Mariana Balen Fernandes (UFRB)
A crise climática global no contexto do antropoceno desdobra-se em um sistema de policrises, seja do ponto de vista ontológico, da grande narrativa do sujeito ocidental/universal, acompanhada ainda de crises estruturais do capitalismo digital. Frente a esse cenário, urge traçar imperativos éticos, políticos e epistemológicos no que se refere ao campo de produção do conhecimento da antropologia, enquanto um espaço de contaminações (Tsing, 2019), capazes de provocar respostas e tensionamentos nas relações entre povos e comunidades tradicionais (indígenas, quilombolas, ciganos etc.). Assim, o Grupo de Trabalho dedica-se a textos que abordem as relações desses sujeitos com tais policrises, atravessadas pela ecologia política, como também pelos desafios impostos pela mediação digital. Para tanto, busca mapear análises e etnografias com perspectiva contestatória, mobilizadora, engajada e crítica praticadas por esses agentes, que visem o enfrentamento social em prol da manutenção de garantias políticas e do respeito aos direitos humanos. Os textos selecionados podem ser teóricos e/ou metodológicos, decorrentes de pesquisas (em curso e/ou finalizadas), registros etnográficos, relatos de experiência, relatórios técnicos, escrita experimental (e experiencial) entre outros formatos que possam transmitir os valores, as expectativas e as estratégias da luta cidadã comum realizada no âmbito do antropoceno – espaço complexo, ambivalente e contaminado.
Títulos e Resumos
-
"A vida no reino do cálculo político": cuidado e contaminações multiespecíficas num contexto de invasão biológica
— Guilherme Vasconcellos Leonel
— Guilherme Vasconcellos Leonel
Partindo da experiência etnográfica com o estabelecimento do peixe-leão (Pterois volitans) no nordeste brasileiro, em particular no município cearense de Icapuí, este trabalho — parte de uma pesquisa de doutorado em andamento — pretende discutir como um fenômeno de invasão biológica pode evidenciar as contaminações ensejadas pelo Capitaloceno.
Espécie exótica nativa do Oceano Indo-Pacífico, o peixe-leão ocupa hoje uma área do Amapá até praticamente o sul da Bahia. Sem competição e representando risco de extinção para diversas espécies nativas desses ecossistemas, o peixe-leão passou a ocupar o topo da cadeia trófica das paisagens em que se estabeleceu no mar brasileiro. Em Icapuí, isso se traduz numa contaminação por metais pesados como chumbo e mercúrio, tornando a carne do peixe-leão imprópria para consumo habitual, invalidando-o como uma alternativa alimentar para as comunidades locais (Souza-Araujo et al., 2024).
Essa contaminação ocorre em função das substâncias tóxicas liberadas na água pelas “marambaias”, recifes antropogênicos produzidos a partir de objetos afundados no leito oceânico com o objetivo de estimular o agrupamento de peixes e facilitar as atividades dos pescadores tradicionais da região. Ao concentrar a presença de peixes, as marambaias são ocupadas também pelo peixe-leão, que se contaminam ao concentrar em seu corpo as substâncias acumuladas pelos animais abaixo dele na cadeia alimentar. Ao mesmo tempo, a característica peçonhenta do peixe-leão e seu status de uma espécie exótica enfatizam a necessidade de políticas públicas de manejo da paisagem e da invasão orientada por uma perspectiva ambivalente de cuidado, aberta aos riscos do contato e dessas múltiplas contaminações, na qual “pensar-com não humanos deve sempre ser viver-com, atento às relações perturbadoras e buscando a alteridade significante que transforma aqueles envolvidos na relação e nos mundos em que vivemos” (Bellacasa, p. 83, 2017).
Assim, considerando a antropologia como um espaço de contaminação, esta comunicação coloca-se diante deste cenário para ponderar: como estes efeitos inesperados de uma diversidade contaminada (Tsing, 2019) podem nos levar a pensar as maneiras pelas quais outras formas de vida concentram em seu corpo os efeitos colaterais de um conjunto de práticas que não têm elas como alvo? O que esses fenômenos têm a nos ensinar sobre os efeitos contaminantes do próprio Capitaloceno que ameaçam “novos terrores na falta de habitabilidade” (Tsing, p. 114, 2019)? Como podemos cultivar uma “ética situada de responsabilidades emaranhadas” (Van Dooren, p. 273, 2010) que preste atenção aos modos inesperados pelos quais as ações humanas afetam seus coabitantes outros-que-humanos, transformando com isso também as relações possíveis em cada contexto?
Coordenação
Érica Quinaglia Silva (UNB)
Sônia Weidner Maluf (UFSC)
Pessoa debatedora
Ana Paula Müller de Andrade (UNICENTRO)
Esta proposta visa reunir trabalhos sobre dimensões, sentidos e experiências de sofrimento no âmbito da saúde mental em diferentes contextos e regimes de subjetivação. As contribuições antropológicas têm apontado que as dinâmicas no âmbito da saúde mental são plurais e produzidas a partir de lógicas, configurações morais e dimensões contextuais, contrapondo-se à perspectiva universalizante e individualista dos regimes de patologização e medicalização da vida. O alcance da saúde mental adotado vai dos diagnósticos psiquiátricos e da atuação psicossocial à abordagem das emoções, das experiências subjetivas e dos regimes de subjetivação em sua dimensão social. Serão aceitos pesquisas etnográficas e/ou ensaios reflexivos e críticos que discutam: práticas, políticas e saberes locais, oficiais e/ou dissidentes de sujeitos e coletividades em relação à saúde/adoecimento/sofrimento mental; políticas públicas, serviços e ações do Estado, envolvendo redes de atendimento, dispositivos epidemiológicos, políticas e biopolíticas pretensamente universais e dissidências; os saberes científicos e especializados e as tecnologias biomédicas, psiquiátricas, psicológicas e farmacológicas, bem como os saberes tradicionais e culturais. Como parte das discussões do INCT Brasil Plural, a ideia é ampliar a compreensão dos processos sociais de sofrimento, aflição, perturbação, adoecimento e morte, e as políticas, saberes, ciências, práticas e discursos acionados em diferentes escalas e perspectivas.
Títulos e Resumos
-
Por uma Antropologia dos Autismos: examinando narrativas e ativismos de autistas adultos e de "mães atípicas"
— Altiva Garcia de Paula, Carlos Eduardo Henning
— Altiva Garcia de Paula, Carlos Eduardo Henning
Esse projeto foi concebido a partir do campo etnográfico de uma das autoras, uma mãe atípica, com dois filhos autistas e mestranda em Antropologia Social na Universidade Federal de Goiás – UFG, em coautoria com seu orientador, docente da UFG, doutor em Antropologia Social e diagnosticado com autismo. As experiências e trajetórias pessoais dos autores tornam-se ferramenta na análise do que é o autismo, para diferentes sujeitos. Uma análise antropológica dos “autismos”, essa é a proposta. Adultos autistas, mães de autistas, educadores e profissionais da biomedicina: o que é o autismo para eles? Não apenas o que é, mas como performam o autismo, cada em sua trajetória de vida dentro da comunidade autista. Quais são suas perspectivas, como são suas relações com seus pares e com os demais atores desse universo? Nessa etnografia, partiu-se preliminarmente de uma definição de autismo posta pela ciência biomédica para entrar em campo em busca de narrativas que trazem os múltiplos autismos vivenciados e performados por diferentes sujeitos dentro do universo autista. Ao longo do trabalho de campo da autora, pretendemos descrever e analisar critérios locais de definição de autismo, com potencial e relativa autonomia das definições biomédicas. Nossos interlocutores são autistas e pais (sobretudo mães) de autistas e o campo se concentra no âmbito da UFG, seu corpo de servidores e discentes de graduação e de pós-graduação, incluindo o coletivo autista da UFG, que tem confirmado entre seus membros autistas adultos e mães de autistas. Em consonância com a teoria da filósofa e etnógrafa holandesa Annemarie Mol, em Política Ontológica (1999), não se procura apenas termos e conceitos diferentes, mas as diferentes performatividades da noção de autismo. Nesta perspectiva, no universo do autismo, não haveria somente diferentes versões do autismo, mas “diferentes autismos” sendo colocados em prática, através de diferentes atores e locais específicos. Desenvolver esta etnografia não fazendo uma antropologia do autismo, mas dos “autismos”, pode nos possibilitar um trânsito mais calmo e fluído entre os dois (mas não únicos) diferentes pólos desse campo, pois autistas adultos e mães de autistas nem sempre concordam entre si, pelo contrário, observa-se nesse território uma disputa de discursos, de perspectivas e de protagonismo. Mas ambos vivenciam o autismo. As formas como o autismo é compreendido pela parte da sociedade não autista transita entre a patologização e o estabelecimento do transtorno do espectro autista e outras neurodivergências como mais uma diferença que atravessa e constitui as pessoas, como gênero, classe, raça, sexualidade, idade, geração, entre outras, o que nos leva também ao diálogo com o conceito dos estudos feministas de interseccionalidade.
-
Entre a dor e o sofrimento: reflexões etnográficas sobre adoecimento mental e a expressão das emoções em pacientes com fibromialgia.
— Ana Carolina Verdicchio Rodegher
— Ana Carolina Verdicchio Rodegher
A fibromialgia (FM) é uma síndrome de dor crônica predominante em mulheres. Entre seus principais sintomas, destacam-se as dores por todo o corpo, a fadiga, a insônia ou o sono não restaurador e a alta sensibilidade auditiva, olfativa, tátil e visual. A literatura biomédica também descreve com frequência a associação entre a patologia e alguns transtornos psiquiátricos, enfatizando a depressão e a ansiedade. Este trabalho busca analisar as diferentes formas pelas quais temas relacionados à saúde mental, ao sofrimento psíquico e a expressão das emoções são mobilizados tanto nos discursos e práticas que conformam o cotidiano de um ambulatório especializado em tratar pessoas diagnosticadas com FM quanto na construção de políticas públicas sobre a síndrome.
Durante a minha pesquisa de campo em um serviço de saúde multidisciplinar voltado para o tratamento de pessoas com FM pude notar a centralidade de questões pertinentes à saúde e ao adoecimento mental em especial o sofrimento como aspectos fundamentais para compreender a rotina do ambulatório. A importância desses elementos se deu não apenas do ponto de vista simbólico e discursivo, mas também nas dimensões práticas e políticas que compunham as decisões tomadas no dia a dia do serviço. Para tanto, neste trabalho buscarei apresentar algumas cenas etnográficas que possibilitam vislumbrar os diferentes sentidos atribuídos por pacientes e profissionais da saúde ao sofrimento, assim como ao adoecimento e à saúde mental. Também procurarei tensionar as relações entre as noções de dor e sofrimento, algo essencial para aprofundar a discussão sobre os regimes de subjetivação de pessoas diagnosticadas com doenças e/ou síndromes de dor crônica.
Esta proposta será desenvolvida desde uma perspectiva situada, nos termos de Donna Haraway (1995) e AnneMarie Mol (2002). Considerar as especificidades do contexto etnografado e a relação entre os marcadores sociais da diferença que conformam o cotidiano do ambulatório tornam-se premissas imprescindíveis para a análise de quais sentidos sociais são acionados quando pacientes e profissionais da saúde daquele local em específico narram dinâmicas e processos de adoecimento mental, de sofrimento e da expressão das emoções. Por fim, objetivando compreender como o contexto específico da etnografia se inscreve e corrobora para a produção de cenários mais amplos, buscarei articular os relatos realizados a partir da experiência em campo aos discursos e práticas que sustentam a construção de políticas públicas sobre a fibromialgia.
-
Políticas públicas e processos de subjetivação: reflexões a partir da interface entre gênero e saúde mental.
— Ana Paula Müller de Andrade
— Ana Paula Müller de Andrade
Este trabalho tem como objetivo discutir a interface do gênero com a saúde mental em diferentes políticas públicas. Apresenta reflexões preliminares de pesquisa etnográfica que visa analisar os efeitos das políticas públicas nos processos de subjetivação de sujeitos que acessam os serviços do Estado que buscam lhes afiançar direitos como saúde, assistência psiquiátrica antimanicomial, proteção social e enfrentamento da violência contra as mulheres. Tal como apresentado em Andrade e Sordi (2025), os serviços apresentam singularidades e podem revelar intersecções com outras políticas, à exemplo das residências inclusivas previstas na política nacional de assistência social que, ao acolher pessoas adultas com deficiência, precisam acionar, na micropolítica do cotidiano, as políticas de saúde, de saúde mental e de proteção à violência contra as mulheres. O mesmo pode ser reconhecido em serviços de proteção à violência contra as mulheres, em que situações específicas podem demandar as demais políticas. É nessa intersecção das políticas públicas que é possível reconhecer um campo de análise importante para compreender os processos de subjetivação na sua interface com a saúde mental, a partir do gênero. Deste campo profícuo, neste trabalho serão destacados dois aspectos: (a) como as experiências sociais de mulheres que acessaram diferentes serviços, possibilitam reconhecer interfaces importantes entre as políticas públicas de diferentes setores, fazendo aparecer questões de saúde mental e determinadas políticas de sofrimento (b) os modos como o sofrimento mental, numa perspectiva de gênero, é apreendido nos diferentes planos da política, considerando as repercussões que podem ter para a elaboração, execução e avaliação das políticas públicas. Por fim, saliento a emergência de determinada política do sofrimento resultante da execução de tais políticas públicas em seus diferentes planos. ANDRADE, APM e SORDI AM. Residências Inclusivas: processos de subjetivação e desinstitucionalmização de mulheres-matadoras. In: ANDRADE, A. E BIANCHI, R. Psicologia e Assistência Social: reflexões, práticas e desafios. Londrina: Editora da Universidade Estadual de Londrina, 2025. V.1, p. 485 -515.
-
Quando a depressão não é doença: possibilidades outras da significação das experiências
— Gabriel Bandeira Cantu
— Gabriel Bandeira Cantu
No que se refere àquilo que se convencionou chamar de saúde mental – campo predominantemente tomado por psiquiatras, psicólogos, psicanalistas e afins – definições como saúde e doença parecem cada vez mais complexas, uma vez que os embates entre perspectivas biomédicas, que reduzem as experiências ao biologicamente palpável/explicável e outras tantas que deslocam o centro da discussão para categorizações e entendimentos êmicos, por exemplo, se fazem com cada vez mais frequência e força.
Trabalhando depressão, noções de si e criação de grupos de ajuda mútua entre pares diagnosticados – formalmente ou não - com depressão em páginas do Instagram, pude perceber que a instrumentalização dos diversos arcabouços mobiliza diversas finalidades tanto na construção de itinerários terapêuticos atravessados por tensionamentos entre saberes populares e biomédicos quanto no firmamento daquilo que se entende quando evoca-se para si e para os seus o signo da depressão. Este cenário faz com que meus interlocutores desenvolvam parâmetros de autoavaliação/diagnóstico que não necessariamente convergem em sua integralidade com o oficialmente disposto em manuais biomédicos como o DSM ou o CID, por exemplo. Isso porque há na categoria êmica que encontrei, a necessidade de classificar experiências de sofrimento em geral através de um mesmo signo, não a partir da somatização ou comorbidades, como fazem em geral os psis. Depressão é, aqui, a impossibilidade de se movimentar, trabalhar, cuidar da casa e de afazeres diversos que, por isso, causaram sinapses alteradas, traumas, hormônios em baixa ou algo assim, e não o contrário como se queixam meus interlocutores que querem seus médicos.
E a insuficiência da noção e do tratamento biomédico abre não só a possibilidade da criação de itinerários terapêuticos que fujam da via farmacoquimica – ou de sua exclusividade – mas a via de entendimento plural do papel desempenhado pela significação das experiências de sofrimento como depressão. Não se trata apenas de um alargamento conceitual do que seja saúde e doença, e especificamente a depressão, mas antes de tudo uma ampliação das aplicações práticas dessa significação no cotidiano. Para além de doença, então, a depressão passa a ser signo de autonomia para avaliar sofrimentos, ditar com autoridade sobre si quais os traços que se referem à doença e quais são traços que não se quer mudar, são seus e não devem sofrer quaisquer tipos de intervenção, sem falar do caráter aglutinador que une meus interlocutores em laços de amizade/intimidade que só são possíveis pela significação comum de experiências diversas.
Portanto, e quando a depressão não é doença? Surgem ou se sustentam modos de ser e existir até então marginalizados que reivindicam para si protagonismo e legitimidade.
-
Protocolos flutuantes: o sofrimento pré-menstrual em disputa
— Maria Clara Nemer Arena
— Maria Clara Nemer Arena
Afinal, o que torna os sintomas pré-menstruais passíveis de enquadramento nos regimes vigentes de classificação de doenças? Neste artigo analiso o Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM) como uma forma de nomeação de situações sociais de sofrimento e aflição, situada na fronteira entre a psiquiatria, a ginecologia e a endocrinologia. A partir de debates feministas e da antropologia política da saúde, reflito sobre os pressupostos de gênero e funcionalidade que orientam a classificação do TDPM nos manuais diagnósticos contemporâneos. Em tais capturas, a experiência social que antecede a menstruação é hierarquizada segundo seu grau de impacto na vida cotidiana, de modo que o diagnóstico se apoia na noção de prejuízo funcional como elemento distintivo em relação a outras variações “típicas” do ciclo menstrual, como apontam as versões mais recentes da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) e do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Para isso, parto do meu próprio processo de adoecimento com o TDPM, constituído pela experiência simultânea de pesquisar e viver as itinerâncias de cuidado e tratamento do transtorno, incluindo o acompanhamento em serviços públicos e privados no Rio de Janeiro, durante dois anos de trabalho de campo, entre 2023 e 2025, e em interlocução com doze mulheres também diagnosticadas. Proponho a consideração analítica de algumas cenas desdobradas ao longo do período citado, com objetivo de discutir a tessitura parcial e contingente das implicações sociais, corporais e afetivas do que defini como duplo excesso: a reinscrição de comportamentos normalizados e historicamente associados a corpos feminizados e sua tradução hodierna em (re)patologia neuropsiquiátrica. Argumento que as narrativas de incerteza presentes em nossos relatos tratam de um tipo específico de dor que carece de um repertório visível para codificação e reconhecimento como uma questão relevante do ponto de vista coletivo, mobilizando a gramática biomédica da disforia como um qualificador afetivo que instaura um estado contínuo de vigília e suspeição moral - uma condição inscrita nos limites entre sofrimento psíquico, dores crônicas e impedimento funcional, marcada por episódios cíclicos de “crise”, que alternam eventos de saúde e doença ao longo da vida reprodutiva feminina. Em última instância, sugiro que essa alternância asseverada pelo diagnóstico apresenta um lócus privilegiado para pensar de que forma os regimes nosológicos de classificação tensionam e são tensionados pelas experiências concretas de aflição que investiguei no contexto de meu trabalho de campo com o TDPM.
Palavras-chave: Sofrimento; Transtorno Disfórico Pré-Menstrual (TDPM); Classificação Diagnóstica; Gênero; Saúde Mental.
-
Entre proibicionismo e redução de danos: abordagens e preocupações no campo de saúde mental entre povos indígenas na tríplice fronteira amazônica, Brasil, Peru, Colômbia
— María Rossi Idárraga
— María Rossi Idárraga
O consumo de álcool, drogas e outras substâncias por parte de jovens indígenas no Alto Solimões, no sudoeste do estado Amazonas, na tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru, é hoje uma das preocupações mais frequentes entre lideranças indígenas, representantes religiosos, instituições de ensino e serviços de saúde. Parte significativa da sua população é formada por povos indígenas, dentre eles: Tikuna, Kokama, Kanamarí, Matsés, Marúbo, Kaixana, Matís, Kambéba, Kulina Pano, Korúbo e Witóto).
Este consumo é caracterizado como problemático, desde as seguintes considerações: excesso; o caráter ilegal de algumas das substancias ou as não consideradas aptas para o consumo (como gasolina); os conflitos associados (furtos, brigas, assassinatos, violência sexual, violência familiar, suicídio e depressão); a presença expressiva do crime organizado na região de fronteira (ver: https://amazonunderworld.org); e as proibições dadas desde posições morais e religiosas ou desde entendimentos legais. Em consequência, o conjunto de relações, práticas, sentidos e proibições neste campo, são tratados alternando entre saúde mental e bem-estar, ou segurança pública, conflitos violentos, e guerra contra as drogas.
Neste contexto, os problemas relacionados com este consumo, são assunto de serviços de saúde pública (tanto no Sistema Único de Saúde, quanto no sistema de Saúde Indígena), órgãos de assistência social, como o Conselho Tutelar, e, desde abril de 2025, o CAIS Povos Indígenas, Centro de Acesso a Direitos e Inclusão Social na Política sobre Drogas para povos indígenas. Este último, depende do Ministério da Justiça e Segurança Pública, e procura promover a prevenção ao aliciamento no contexto do narcotráfico, e garantir atendimento multiprofissional especializado a indígenas em situação de vulnerabilidade pelo uso problemático de álcool e de outras drogas.
Desde 2022 comecei a pesquisar neste campo, e entre 2023 e 2025 coordenei um projeto de pesquisa – ação apoiado pela FAPEAM, titulado “Jovens indígenas especialmente mulheres, na prevenção do uso abusivo de álcool e drogas no Alto Solimões”, desde uma perspectiva etnográfica, com participação de uma equipe interdisciplinar e desenvolvendo atividades com diferentes atores institucionais e comunitários da região. Entre os resultados desse processo encontramos, de um lado um forte proibicionismo, e do outro, uma abordagem da saúde indígena desde a redução de danos. Em este contexto, esta pesquisa se pergunta sobre como o fenômeno é entendido, atendido e gerido, pelos atores institucionais e das organizações indígenas que tratam do tema; e considerando as leituras morais e legais da proibição; as aproximações dos serviços públicos, e as noções de saúde mental, dependência e a profissionalização do cuidado.
-
"O lugar dele é aqui em casa com a gente": cuidado, deficiência e sofrimento em contextos de precariedade
— Pedro Francisco Guedes do Nascimento
— Pedro Francisco Guedes do Nascimento
A partir de pesquisa etnográfica sobre cuidado, família e trabalho doméstico realizada em João Pessoa/PB, este trabalho discute como a categoria “deficiência” emergiu de forma central no trabalho de campo, tomando-a como chave para compreender experiências de sofrimento relacionadas à saúde mental em contextos de precariedade. Entre as famílias pesquisadas, observam-se elementos recorrentes, como pobreza, moradias com dificuldades de acesso a bens e serviços, baixa escolaridade e recursos limitados para lidar com as exigências burocráticas do Estado. Tais condições se tornam particularmente desafiadoras em configurações familiares marcadas pela presença de pessoas diagnosticadas com deficiência, nas quais a busca por diagnósticos, documentação e acesso a tratamentos e benefícios sociais — como o Benefício de Prestação Continuada (BPC) — assume papel central. Nesses contextos, as experiências de sofrimento narradas revelam a dificuldade de distinguir os efeitos da deficiência daqueles produzidos pela precariedade material da vida, evidenciando a coprodução entre desigualdades sociais e classificações biomédicas. A análise se concentra no caso de um jovem identificado como pessoa com deficiência intelectual após a morte de sua mãe, a cuidadora principal, momento em que ocorre uma reconfiguração das redes de cuidado. Embora persistam limitações importantes, o trabalho enfatiza as transformações observadas a partir da mobilização de diferentes agentes e do fortalecimento da rede de cuidados, com destaque para a transformação do pai em cuidador principal. Essas mudanças se refletem tanto na melhora do “quadro geral” de saúde do jovem quanto nas condições de vida da família, especialmente a partir da participação nas atividades do CAPS, do acesso ao BPC e à aposentadoria. Ao tomar questões como racismo, pobreza e burocracia estatal como dimensões centrais, o trabalho reflete sobre a complexidade dos processos sociais que produzem e reproduzem o sofrimento no campo da saúde mental, evidenciando seus atravessamentos morais, políticos e materiais.
-
Crise, sofrimento social e subjetividades contemporâneas: as contribuições da antropologia
— Sônia Weidner Maluf
— Sônia Weidner Maluf
O objetivo desta comunicação é analisar a produção de subjetividades nos contextos contemporâneos de crise e produção continuada de diferentes formas de sofrimento social. Na irrupção da pandemia de covid-19, o campo científico esteve mobilizado para buscar compreensões e respostas a uma situação compreendida de modo quase consensual como uma “crise” (sanitária) vivida em nível global. Passada a pandemia, o quadro que era tomado como um contexto provisório, temporário e circunstancial de crise não se desfez. Outras dimensões críticas da vida social emergiram ou se agravaram, como os contextos de guerra, de catástrofe ambiental e climática, de falência das estruturas da democracia representativa ocidental, cristalização de relações de trabalho marcadas pelo fim dos direitos coletivos e pela individualização radical do contrato social. As diferentes formas de sofrimento social são abordadas através de uma dinâmica de deslocamento do político para os campos da patologização/medicalização de um lado, e da criminalização/penalização de outro, como faces complementares da ação do Estado, mas sobretudo das formas de governamentalidade geridas pelo “mercado”. Pretendo analisar as contribuições da antropologia e especificamente da antropologia do sujeito para uma compreensão desse novo contexto mundial e suas localizações em torno das questões de crise e sofrimento social. A abordagem antropológica do sofrimento social atenta para como as dimensões individual e coletiva, subjetiva e social se articulam, para além das dicotomias entre indivíduo e sociedade ou natureza e cultura. Abordar a dimensão social do sofrimento não significa abandonar a importância das singularidades individuais, mas buscar articulá-las com questões sociais, políticas, econômicas, culturais e simbólicas e do imaginário social e seus efeitos na produção de subjetividades e corporalidades. De certo modo, o uso do conceito de sofrimento social pode padecer pela amplitude de colocar numa mesma definição um conjunto de experiências de mal-estar, perturbação, aflição, dor, que possuem significados culturais diferenciados. Por isso, é necessário atenção para pensar o sofrimento como um processo social e culturalmente diverso, atentando para os modos de nomeação, significados e contextos de sua emergência. O mesmo cuidado deve ser tomado em relação à abordagem da crise – e dos eventos chamados críticos. Para pensar uma antropologia da crise necessário “ser crítico com a crise” (Didier Fassin), pela própria inflação do conceito, que acaba servindo para definir muitas situações. Crise e sofrimento social (com as suas múltiplas significações) compõem o contexto contemporâneo da produção de subjetividades, sujeitos e suas ações e práticas sociais.
Coordenação
Fabiane vinente dos Santos (Fiocruz)
Raquel Dias-Scopel (Fiocruz)
Este Grupo de Trabalho propõe reunir pesquisas antropológicas que analisem processos sociais contemporâneos que reconfiguram a vida e a saúde dos povos indígenas nos diversos biomas brasileiros. Partindo de uma perspectiva crítica, etnograficamente situada e de uma noção de saúde mais ampla do que a imposta pelo modelo médico hegemônico, o GT pretende acolher estudos sobre processos sociais e históricos que impactam sobre a saúde indígena, como por exemplo: violência estrutural e racismo; consequências das mudanças climáticas; dinâmicas das migrações; papel políticos das mulheres indígenas; participação social e as transformações no campo dos direitos indígenas; protagonismo de lideranças indígenas na interação com o Estado e; desafios persistentes da atenção à saúde em territórios marcados por desigualdades, pressões ambientais e disputas. O objetivo é fomentar a reflexão antropológica privilegiando estudos etnográficos de modo a ampliar e consolidar redes de pesquisa e aprofundar debates sobre saúde, cuidado, território e resistência em um contexto de rápidas transformações socioambientais, valorizando diálogos interinstitucionais, inter e transdisciplinares, perspectivas de pesquisadores/as indígenas, estudantes e coletivos tradicionais para compreender como os múltiplos atores sociais enfrentam os desafios contemporâneos na saúde dos Povos Indígenas.
Títulos e Resumos
-
A composição prática de corpos doentes e as tentativas de construção de práticas de cuidado através da intervenção médica sobre uma "família" Warao no Ceará
— Arthur Felipe Lins de Souza Pontes
— Arthur Felipe Lins de Souza Pontes
Ao serem recebidos na capital do Ceará, Fortaleza, na última década, diversos migrantes indígenas da etnia Warao, provenientes da Venezuela, foram submetidos a triagens médicas. Proponho-me a analisar o caso de uma "família" cujos integrantes foram diagnosticados com tuberculose após a realização de uma série de exames, acompanhando os procedimentos subsequentes de tentativas de construção de práticas de cuidado em meio às resistências dos Warao e das fragilidades institucionais dos órgãos de saúde pública e de saúde indígena. Seguindo as sugestões de Annemarie Mol, penso, nessa situação, como os corpos e as doenças “são feitos” em um “nós amplo”, abrangendo diversas pessoas em diferentes “cenários”, dentro e fora do hospital, atentando-me aos sentidos que são atribuídos a cada elemento, na prática, na construção de “problemas e preocupações”, assim como as pessoas reagem e se expressam diante dessas construções. A isto, somo as análises políticas de Michel Foucault acerca do exercício de poder, de Souza Lima e Pacheco de Oliveira sobre o poder tutelar nas práticas indigenistas, e de James Scott em torno da infrapolítica para interpretar as configurações das relações interétnicas construídas entre os agentes públicos de saúde (e outros) e os Warao no contexto das práticas de cuidado em saúde.
-
“Nós não comemos porcaria!”: Transição alimentar e os desafios da nutrição na saúde indígena a partir de um projeto de intervenção entre os Mura do rio Madeira
— Fabiane Vinente dis Santos, Jean Ricardo Ramos Maia
— Fabiane Vinente dis Santos, Jean Ricardo Ramos Maia
Este artigo analisa as tensões entre as diretrizes de vigilância alimentar e nutricional e a complexidade das práticas dietéticas cotidianas do povo Mura do rio Madeira, no Amazonas. A partir de uma etnografia das oficinas de saúde realizadas no âmbito do Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) Manaus, entre 2024 e 2025, o estudo problematiza a aplicação normativa do conceito de transição nutricional em contextos indígenas. Observou-se que intervenções institucionais podem operar sob uma lógica binária e moralizante desconsiderando os determinantes socio-históricos do consumo. A análise mobiliza a noção de etnogênese e territorialização para compreender a identidade Mura contemporânea, caracterizada historicamente pela fluidez e pela capacidade política de “mistura” e resistência. Argumenta-se que a atual incorporação de alimentos ultraprocessados não deve ser lida apenas como aculturação ou desinformação nutricional, mas como uma estratégia de sobrevivência frente a duas dimensões de escassez: a biológica, decorrente da exaustão dos estoques pesqueiros; e a política, imposta por conflitos territoriais e grandes empreendimentos que bloqueiam o acesso às fontes tradicionais de subsistência e forçam a monetização da dieta. Ao contrastar a paleofilia alimentar das abordagens biomédicas com a realidade observada nos mapas de roças e refeições produzidos pelos participantes, propõe-se o conceito de “Ecologias Alimentares”, que reconhece a alimentação como um fenômeno bio-sócio-cosmológico, sugerindo que a promoção da saúde indígena não pode dissociar a vigilância nutricional da defesa da soberania territorial e do reconhecimento das estratégias locais de existência.
-
Mobilidade guarani e políticas de saúde do estado
— Isadora Spadoni Sguarezi
— Isadora Spadoni Sguarezi
Pretendo expor como os debates em torno da saúde indigenista se estabelecem, por meio da multiplicidade de vozes dentro das aldeias Guarani Mbya do litoral sul paulista, refletindo em diferenças internas entre as aldeias e disputas entre os indígenas. Um dos aspectos, envolvendo a mobilidade, é a criação de novas aldeias e o desejo que elas têm em serem atendidas pela Sesai, não apenas pela importância da assistência em saúde, e por ser um atrativo para trazer mais moradores à aldeia recém-criada, mas também como uma forma de legitimar a existência da nova aldeia, assim como a função da escola para os Yanomami (Gow, 1991), que define uma comunidade nativa como uma “aldeia legítima”. A inclusão de uma aldeia nova nos atendimentos pela Sesai gera conflitos internos, visto que ocasiona no espaçamento dos atendimentos pelas equipes, de semanais para quinzenais, por exemplo. Também resulta na necessidade de criação de cargos de AIS e Aisan, o que impacta no orçamento destinado à região. As reuniões de controle social evidenciam como as ações de saúde estatais colocam indígenas contra si, em razão dos recursos escassos. Em vez de reivindicarem o aumento do orçamento para a política, eles se opõem à criação de novas aldeias, de novos cargos, entre outas dissidências. Entre os embates, posso citar as aldeias que recorrem ao MPF para obter atendimento versus as aldeias que não recorrem (judicializar é uma forma de “furar a fila” na lista de prioridades da Sesai). Outro embate é entre os indígenas que moram em aldeias versus os indígenas de contexto urbano.
A criação de novas aldeias está intrinsicamente ligada à noção de mobilidade muito presente entre os mbya. Eles se mudam em busca do bem viver, em “ter saúde e estar alegre por onde se vai” (Pissolato, 2007). Além de grupos indígenas que saem de uma aldeia e criam uma nova, em outro local, há também indivíduos e famílias que se mudam de uma aldeia para outra, e isso traz entraves burocráticos para seu atendimento pela saúde indigenista, visto que cada aldeia possui um cadastro com moradores, e o indígena só é atendido pela equipe de saúde se estiver cadastrado naquela localidade.
Outro aspecto envolvendo a mobilidade é a restrição que os cargos assalariados (AIS e Aisan) impõem a esses indígenas, que comumente são lideranças políticas e não podem se ausentar para participar de eventos como Acampamento Terra Livre e reuniões da Comissão Guarani Yvyrupa, visto que precisam bater ponto e cumprir metas. Também não conseguem acompanhar atividades dentro da opy, pois elas podem se estender até o amanhecer, o que é incompatível com a rotina de trabalho desses funcionários.
Trata-se de um recorte da minha pesquisa de doutorado em Antropologia (USP) e minha experiência como Especialista em Indigenismo na FUNAI.
-
Agência política e cuidado diferenciado: os Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi-Marowrono e Galibi Kali’na na saúde indígena do Oiapoque-AP
— Karine Assumpção
— Karine Assumpção
Neste trabalho, analiso a dinâmica da saúde indígena institucional na região do Oiapoque-AP e como a organização política dos povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi-Marworno e Galibi Kali’na contribui no combate ao racismo presente nos serviços oficiais de saúde. Para tanto, baseio-me na análise crítica da legislação pertinente, dos dados coletados em campo e entrevistas com gestores públicos, profissionais de saúde e ativistas, indígenas e não indígenas, realizadas como parte da minha pesquisa doutoral. Os resultados demonstram que a formação e o apoio político a profissionais indígenas resultaram em conquistas concretas, tais como: Equipes Multidisciplinares de Saúde Indígena (EMSI) com composição majoritariamente indígenas; a implementação de escalas diferenciadas para técnicos de enfermagem indígenas em um hospital local; cargos de chefia do Subsistema de Saúde Indígena (SasiSUS) ocupados por indígenas; e a atuação de médicos indígenas dentro e além desse Subsistema. Nesse contexto, “os indígenas” enquanto “o outro” da EMSI dá lugar aos “parentes” que confiam nos profissionais indígenas que a compõem. Estes, por sua vez, sentem uma “dupla responsabilidade” entre ser profissional de saúde e ser indígena – ou entre afirmar a importância do tratamento biomédico hospitalar e não aceitar abordagens discriminatórias advindas de seus colegas não indígena que ali atuam. Assim, reflito que essa conjugação de fatores materializa um repertório prático diferenciado de se relacionar, que tem o potencial de tensionar e transformar as percepções e práticas hegemônicas de cuidado, apontando para uma atenção à saúde produzida pela e para os indígenas da região.
-
Saúde, território e crença: práticas indígenas e produção da vida a partir do cuidado na comunidade indigena de Rio dos Índios/RN
— Maria Eduarda das Neves Souza
— Maria Eduarda das Neves Souza
Este trabalho integra a discussão desenvolvida no meu mestrado em Antropologia Social pela UFRN, realizado na comunidade indígena de Rio dos Índios e atualmente em andamento. A pesquisa analisa as relações entre saúde, saberes locais, cultivo e cura. A comunidade Potiguara Ibirapi de Rio dos Índios está localizada no município de Ceará-Mirim, na região metropolitana de Natal/RN. Fazendo fronteira com o Quilombo de Coqueiros e com a comunidade indígena de Aningas, configurando um território marcado pela presença de múltiplas etnias que sofreram e ainda sofrem os impactos da violência étnica, a qual atravessa tanto as políticas públicas quanto as relações sociais na região. Neste trabalho, proponho um recorte mais específico na área da saúde, compreendida não apenas como ausência de doença, mas como um conjunto de práticas cotidianas que articulam a produção de alimentos, o manejo do território, a transmissão de conhecimentos e formas coletivas de vivenciar esse processo. O campo nos conduz, dessa forma, à compreensão de que os saberes mobilizados a partir do cuidado, da crença nas formas de cura e do cultivo produzem sentidos distintos daqueles propostos pela biomedicina moderna. Durante a pandemia de COVID-19, período em que a comunidade precisou reorganizar sua estrutura cotidiana, foi possível identificar fatores que contribuem para a compreensão de como a saúde é concebida e praticada, bem como do papel central dos conhecimentos locais no enfrentamento desse momento difícil em escala global. A necessidade de consumir o que era produzido localmente, somada à mobilização de conhecimentos tradicionais de cura, revelou o cultivo e os saberes ancestrais como estratégias fundamentais para a manutenção da vida. Do mesmo modo, a crença nesses conhecimentos fortaleceu sentimentos de proximidade, identidade e pertencimento no interior da comunidade. Ao articular saúde, cultivo, e saberes indígenas, o trabalho busca compreender como a saúde indígena evidencia práticas situadas, historicamente construídas e politicamente relevantes, que tensionam modelos hegemônicos de atenção à saúde e reafirmam o território como condição central para a produção da vida.
-
"Por isso que os jovens tentam se matar": sofrimento juvenil e transformações do xamanismo no Guaporé
— Mia Duarte Castro
— Mia Duarte Castro
Uma pesquisa recente da Fiocruz (2023) aponta um aumento alarmante nas taxas de suicídio entre jovens indígenas da Amazônia brasileira, um fenômeno recente e preocupante que evidencia as graves questões de saúde mental enfrentadas por esses povos. Os indígenas da margem direita do médio Guaporé (RO), com os quais realizo pesquisa desde 2022, não são exceção nesse cenário. Neste trabalho, busco compreender como esses grupos elaboram o problema, levando a sério as próprias reflexões e propostas como ponto de partida fundamental para discutir questões mais amplas de saúde mental. Em outubro de 2022, Ronildo Makurap, universitário e liderança indígena da aldeia Ricardo Franco na Terra Indígena Rio Guaporé (RO), me contou que o problema dos jovens de hoje em dia são essas canções tristes que se ouve comumente na aldeia - sejam os “piseiros”, um tipo de forró eletrônico, que, apesar do ritmo animado e dançante, as letras normalmente versam sobre sofrimentos amorosos, amores impossíveis e traições, sejam as canções em inglês, que apesar de poucos entenderem os versos, falam também sobre os mesmos temas. “Tu entende a letra das músicas? Elas são tristes né?”, perguntou-me. “Por isso que os jovens tentam se matar”. Nessa apresentação, relaciono essa “tristeza” aos xopokot, espíritos canibais que são a marca da anti-socialidade no Guaporé. Estes seres, normalmente provocadores de doenças e roubo de almas, agem principalmente por meio da audição: “eles falam coisas feias no nosso ouvido e faz a gente querer brigar, faz a gente querer bater nos parentes”, como me disse Dona Isaura, uma anciã Makurap. A única forma de afastar esses espíritos é por meio da ação xamânica, ou por meio da contenção do corpo antes de um ataque. Diante do novo cenário de sofrimento psíquico juvenil, argumenta-se que há uma atualização do discurso xamânico e das formas tradicionais de entender a doença.
-
A questão da saúde mental entre povos indígenas: reflexões a partir da etnografia Wai Wai (2018-2023)
— Rui Massato Harayama
— Rui Massato Harayama
A discussão da antropologia da saúde indígena tem um campo profícuo de desenvolvimento no Brasil, tendo contribuído para a sua implementação como política pública, sobretudo na avaliação das categorias "saúde diferenciada" e intermedicalidade. Nesse sentido, elencamos para discussão e análise o tema da saúde mental entre povos indígenas que tem sido impulsionado pela aproximação das questões de saúde mental não-indígena, como suicídio, abuso de álcool e outras drogas, a partir da composição de equipes para o atendimento psicossocial dentro da Sesai, assim como pela introdução de conceitos como o do bem-viver. Em nossa reflexão, a partir de uma etnografia realizada entre povos indígenas Wai Wai do norte do Pará, apresentamos os itinerários terapêuticos e os processos de autoatenção decorrentes de casos considerados como sendo de saúde mental. Ao processo do diagnóstico e cura dentro dos equipamentos de saúde são adensadas socializações das queixas com familiares, a busca por práticos tradicionais em comunidades indígenas e de matriz africana, e em processos de automedicação e consultas particulares. Um itinerário terapêutico compósito e impulsionado pelo encontro colonial acerca das dores e queixas sem causas evidentes, que são analisadas como processos individuais e somáticos pelas equipes psicossociais e processos de enfeitiçamento coletivos pelos indígenas. Nesse sentido, a etnografia nos possibilita a compreender os percursos e experiências de pessoas com problemas definidos como sendo de saúde mental tensionando a compreensão biomédica de saúde mental centrada em processos individuais de subjetivação.
Coordenação
Sandro José da Silva (UFES)
Rita de Cassia Maria Neves (UFRN)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Franklin Plessmann de Carvalho (UFRB)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Andrea Maria Narciso Rocha de Paula (UNIMONTES)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Vânia Rocha Fialho de Paiva e Souza (PPGCSPA/UEMA)
A presente proposta tem como objetivo reunir experiências que analisem, sob a perspectiva central da Antropologia e em diálogo com outras disciplinas afins, os impactos socioambientais decorrentes da implementação de empreendimentos para produção de energia, tais como centrais eólicas, centrais solares e térmicas, agroindustriais e de infraestruturas em territórios de povos e comunidades tradicionais. Trata-se de problematizar os efeitos desses empreendimentos nas dimensões territoriais, culturais, ecológicas e sociais, que tem acarretado o deslocamentos populacionais, transformações nos modos de vida, disputas jurídicas e reconfigurações das relações comunitárias. Ao mesmo tempo, pretendemos examinar os processos de mediação, negociação e conflito instaurados entre comunidades afetadas, agentes estatais e empresas, considerando os instrumentos legais e institucionais que regulam tais dinâmicas, assim como os saberes e práticas desenvolvidas pelos comunitários nesses contextos. Será observado na seleção das propostas a diversidade regional, institucional, de gênero e étnico-racial, incluindo as contribuições de representantes de povos indígenas e tradicionais não pertencentes à academia. Para garantir a qualidade dos debates, a submissão do trabalho completo é altamente recomendável.
Títulos e Resumos
-
Sistemas agrícolas e conhecimentos ribeirinhos: estudo preliminar no contexto de reterritorialização pós-barragem de Belo Monte
— Amália Gabriela Rocha Aguiar, Sonia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos
— Amália Gabriela Rocha Aguiar, Sonia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos
O presente trabalho tem como objetivo compreender como os sistemas agrícolas e os conhecimentos dos ribeirinhos vêm sendo reconstruídos no contexto de reterritorialização das comunidades deslocadas por Belo Monte. Trata-se de uma pesquisa colaborativa de caráter etnográfico na comunidade Paratizinho, integrante do “Território Ribeirinho”, no município de Altamira, médio Xingu. Realizou-se uma identificação das espécies nos espaços de sítio e roças, caminhadas guiadas, registros fotográficos, observação participante, entrevistas abertas sobre a relação das plantas com as pessoas e o território. A identificação das espécies foi realizada in loco por meio do conhecimento tradicional ribeirinho e verificadas as semelhanças morfológicas com fotografias em publicações científicas. Os resultados preliminares apontam que as espécies vegetais manejadas e produzidas compõem espaços de reconstrução e resistência do modo de vida ribeirinho, bem como expressam uma territorialidade ribeirinha, na qual o ato de plantar e conservar as variedades de espécies resulta na busca por pertencimento, memória e direito territorial. Além disso, o deslocamento e circulação das plantas atestam relações de reciprocidade pré-existentes. Os locais de origem das plantas sugerem a capacidade de articulação de redes sociais de troca ou doações de sementes e mudas. A diversidade vegetal coletada é correlata aos registros de trajetórias de circulação de pessoas, plantas e conhecimentos. A presença de frutíferas perenes para hábito alimentar cotidiano funciona como marcador de continuidade já que foram plantadas recentemente em compatibilidade com o tempo de moradia do novo ponto de reterritorialização. A escolha de frutas sugere a busca por segurança alimentar, sombra e cobertura vegetal natural. Esse espaço é parte de um sistema produtivo integrado que produzirá em um longo período de tempo exigindo uma relação contínua. Assim, a pesquisa indica que a continuidade das práticas agrícolas e o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais são fundamentais tanto para a reprodução sociocultural local como para propostas de reparação e justiça socioambiental.
Palavras-chave: sistemas agrícolas, conhecimentos tradicionais, território ribeirinho.
-
Puerto Antioquia: conflictos socioambientales y resistencias étnico-territoriales en Urabá, Colombia.
— Andrés García Sánchez
— Andrés García Sánchez
En la región de Urabá, al noroccidente de Colombia, desde la década de 1940 la implementación de distintos proyectos económicos centrados en la agroindustria y las infraestructuras ha generado diversos impactos ecológicos, socioespaciales y políticos, especialmente en los territorios de comunidades étnicas y campesinas. En Turbo, el modelo de desarrollo hegemónico centrado en la explotación agrícola a través de extensas plantaciones de banano y plátano, la ganadería extensiva y la construcción de infraestructuras viales y portuarias, superpuesto con distintos ciclos de conflicto armado, han profundizado la desigualdad regional y afectado principalmente los medios de vida, las territorialidades y formas organizativas de las comunidades afrodescendientes, quienes han experimentado múltiples formas de violencia como desplazamiento forzado, despojo territorial, asesinatos, intimidación de liderazgos y la usurpación de la representación política de los consejos comunitarios, entre otras. Frente a los efectos devastadores del extractivismo de grandes emprendimientos económicos y la guerra, en muchos casos profundizados por la acción estatal, las comunidades y formas organizativas negras, en articulación con otros agentes sociales, han desplegado estrategias de acción colectiva y política para defender sus vidas, los territorios y la naturaleza. Desde una perspectiva de investigación colaborativa que articula enfoques y procedimientos etnográficos y de la cartografía social, esta ponencia reflexiona sobre los diversos efectos socioambientales de la implementación del puerto multipropósito Puerto Antioquia en el Golfo de Urabá, así como sobre las estrategias de resistencia y movilización política adelantadas por el Consejo Comunitario Los Manatíes para defender sus derechos étnico-territoriales ante los proyectos de desarrollo económico.
-
Quilombolas e assentados: conflitos socioambientais e formas de habitar na comunidade quilombola de Picadas (Ipanguaçu/RN)
— Augusto Carlos de Oliveira Maux
— Augusto Carlos de Oliveira Maux
Essa apresentação trata de pesquisa em andamento na comunidade quilombola de Picadas (Ipanguaçu/RN). Picadas se notabiliza por ter acessado seus direitos territoriais enquanto assentamento de reforma agrária anteriormente ao autorreconhecimento da comunidade quilombola. Dessa maneira, as habitações erguidas nas últimas décadas seguiram o ordenamento territorial da política de assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, implicando um redesenho da comunidade orientado pelo modelo de agrovilas: para o Estado, Picadas existe simultaneamente como agrovila inserida no assentamento Pedro Ezequiel de Araújo e como comunidade quilombola. Diante disso, busco problematizar etnograficamente como as casas e quintais tradicionalmente ocupados pelos quilombolas se tensionam com a estrutura de assentamento de reforma agrária preconizado pelo Estado. As categorias "quilombola" e "assentado" se chocam e desse embate surgem formas organizativas distintas, representadas por associações com engajamentos territoriais divergentes. Um conflito socioambiental em curso envolvendo o licenciamento de linhas de transmissão que cortam o território foi particularmente revelador das múltiplas posicionalidades imbricadas nas distintas maneiras de habitar o território, e proponho com esta etnografia do habitar investigar as possibilidades do agenciamento da habitação tradicional quilombola perante intervenções em seu território.
-
A Estratégia de Receber: Política Quilombola e Empreendimentos Energéticos
— Daniella Santos Alves
— Daniella Santos Alves
O presente texto é parte da minha tese de doutorado, realizada na Comunidade Quilombola Malhadinha, no Estado do Tocantins, entre os anos de 2019 e 2021. A partir de uma abordagem etnográfica, o trabalho buscou analisar a categoria nativa receptividade no contexto de um empreendimento intitulado Energisol, que impactou o quilombo com doze torres de energia elétrica. Com pouco mais de 2.000km de extensão, o empreendimento saiu de Altamira (PA) até Nova Iguaçu (RJ) sendo financiado pela empresa Rede Elétrica – companhia chinesa – e a sua subcontratada, a Ágil Ambiental. Nesse sentido o trabalho buscou entender a relação entre os condicionantes jurídicos e operacionais do empreendimento ante a vida e a rotina quilombola. Isto é, por ser uma comunidade hospitaleira e conhecida regionalmente por isso, como os moradores receberam esse empreendimento? Como conversaram com os funcionários? Como resistiram, aceitaram ou acomodaram a chegada das torres de energia elétrica?
O trabalho busca entender tanto o que significa ser receptivo para os malhadenses, mas também como essa categoria se modifica a partir da chegada dos de fora. Segundo as lideranças receber bem envolve oferecer um café, uma água, um assunto, uma pausa e até mesmo uma risada. Muito direcionada aos de dentro e na sociabilidade malhadense essa categoria começa a ser estendida aos de fora, a partir de 2006, quando recebem o certificado de remanescentes quilombolas e no que designam como a época da política. As época da política foi marcada pelo Programa Brasil Quilombola (PBQ) especialmente com a chegada das casas de alvenaria e da energia elétrica. Ao receberem bem os funcionários do programa, notaram que a receptividade poderia não só acelerar a efetivação dos projetos, mas também possibilitar a realização de parcerias com as instituições das esferas municipal, estadual e federal.
Essas experiências mostraram aos moradores que receber vai além do oferecimento de um café, de uma água, um beiju e uma boa conversa. Receber bem acaba modulando a estranheza, aproximando os distantes, o que corrobora não só para unir o útil ao agradável, mas também para a construção de afetos somados à vigilância e ao controle. Esse modus operandi é direcionado a outras comunidades quilombolas da região e, a partir de 2015, ao empreendimento organizado e financiado pela multinacional. O receber bem passou a ser visto no sentido político, funcionando simultaneamente como estratégia de aproximação, controle e expectativa de retorno. E é justamente sobre essas mudanças que o trabalho mostrou que na malhadinha afeto e controle coexistem e a receptividade emerge como uma ferramenta central da política cotidiana quilombola, por meio da qual se constroem alianças, se delimitam fronteiras e se negociam as transformações.
-
Uma análise das relações de parentesco pós deslocamento compulsório de famílias ribeirinhas no rio Xingu, município de Altamira-Pa
— Felipe Matheus Santa Brigida Oliveira, Sonia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos
— Felipe Matheus Santa Brigida Oliveira, Sonia Maria Simões Barbosa Magalhães Santos
O “território ribeirinho”, localizado no entorno do reservatório de água para a hidrelétrica de Belo Monte, nos municípios de Altamira, Vitória do Xingu e Brasil Novo é resultado de uma longa luta de resistência das famílias ribeirinhas expulsas de seu território tradicional para a instalação da UHE Belo Monte. Trata-se de um direito conquistado: o retorno dos ribeirinhos para as margens do rio Xingu, hoje convertidas em Área de Preservação Permanente (APP) do mencionado reservatório. Desde 2018, a instância de representação das famílias – o Conselho Ribeirinho – assumiu protagonismo no processo de distribuição das áreas de ocupação, que segue lentamente e com muitos conflitos sobre os critérios de destinação das áreas. Um dos principais conflitos diz respeito à reivindicação de recomposição da rede de parentesco prévia à construção da barragem. O Território é destinado a 322 famílias, reconhecidas pelo Conselho Ribeirinho como integrantes da comunidade tradicional, pré-Belo Monte. Destas, cerca de 100 famílias já se encontram instaladas no território. Neste trabalho apresento os resultados preliminares da pesquisa que desenvolvo no âmbito do mestrado, cujo objetivo é evidenciar como se conformava a rede de parentesco e as unidades sociais de deslocamento territorial no período anterior e que é esta conformação que sustenta as reivindicações atuais referentes à destinação das áreas de ocupação. Realizo uma metodologia colaborativa com três integrantes do Conselho Ribeirinho e suas famílias, participo de Reuniões entre os Conselheiros, entre estes e o Ministério Público Federal, e a empresa responsável pela medida de “compensação” do território inundado. Os primeiros dados apontam a coexistência tanto de sistema patrilinear quanto matrilinear, assim como ampla fluidez nos tempos e espaços do deslocamento territorial tradicional. Estas evidências sinalizam complexa divergência com as normas defendidas pela empresa, algumas delas ancoradas no Código Civil brasileiro – este, no caso, também em desacordo com este sistema tradicional.
-
Análise dos conflitos socioambientais que ameaçam as comunidades pesqueiras quilombolas de Ilha de Maré - Salvador BA .
— Gilmar Santos, Franklin Plessmann de Carvalho
— Gilmar Santos, Franklin Plessmann de Carvalho
As Terras Tradicionalmente Ocupadas pelas famílias que pertencem as comunidades pesqueiras quilombolas de Ilha de Maré encontram-se ameaçadas por complexos petroquímicos, portuários, turísticos e industriais causadores de vários impactos, conflitos e injustiças socioambientais. Através desse texto objetiva-se sinteticamente analisar os conflitos existentes que ameaçam os sistemas agroecológicos e a reprodução física e cultural das comunidades contribuindo com o debate sobre a operacionalização dos racismos ambiental e institucional no contexto da imposição do projeto economicista neoliberal global e suas inequívocas injustiças socioambientais. Este texto se insere no contexto da minha pesquisa em curso onde utilizo a observação participante/acompanhante, com entrevistas, discussão com grupos focais e análise de dados secundários. Por se tratar de um emblemático caso de racismo ambiental e institucional esse texto objetiva denunciar os conflitos socioambientais existentes, bem como dar visibilidade as estratégias de resistência das comunidades em defesa dos seus meios de vida.
Palavras chaves: Racismos ambiental/institucional; violência estrutural; resistência cultural.
-
Território, confluência e articulação: o Quilombo Lagoa frente à expansão eólica no sertão piauiense
— Isadora Fortes do Espírito Santo
— Isadora Fortes do Espírito Santo
Este trabalho discute a trajetória de confluência (Bispo, 2023) e de articulação sociopolítica da Comunidade Quilombola Lagoa, localizada em Lagoa do Barro do Piauí (PI), diante das transformações provocadas pela instalação de um empreendimento eólico em seu território tradicional. O artigo se sustenta na escuta e na etnografia como métodos centrais, articulando também pesquisa bibliográfica, entrevistas, participação em reuniões com lideranças regionais e análise de processos de licenciamento ambiental. A partir desse percurso, a história do Quilombo Lagoa é abordada em consonância com suas interações históricas e políticas com os quilombos Sumidouro e Tapuio (Queimada Nova-PI), compondo uma rede de mobilização situada no Alto-Médio Canindé piauiense. Esses dois municípios — Lagoa do Barro do Piauí e Queimada Nova (cidade que abriga o maior complexo eólico em operação na América Latina) — evidenciam a aceleração da expansão de empreendimentos eólicos e infraestruturas associadas no contexto da transição energética (Espírito Santo, 2024). Entretanto, esse processo paradoxalmente revela contradições profundas, e sob o discurso de sustentabilidade, reproduzem-se práticas extrativistas, racistas e territorialmente assimétricas, já amplamente permeadas no Nordeste brasileiro. Diante desse contexto, o Quilombo Lagoa atravessa uma jornada marcada simultaneamente por avanços e desafios relacionados à garantia de seus direitos quilombolas, territoriais e socioambientais, que perpassam o desafio de “saber fazer o papel falar” (Veron, 2018), mobilizando diferentes linguagens, organizações, documentos e protocolos para traduzir uma história viva em termos reconhecíveis pelo Estado e pelo mercado. Nesse processo, observa-se a constituição de uma “episteme da confluência” (Bispo, 2023), marcada pelo aprendizado coletivo, a circulação de saberes e o fortalecimento político das comunidades frente à pressão dos empreendimentos. Ao acompanhar o caso do Quilombo Lagoa em diálogo com Tapuio e Sumidouro, o artigo busca evidenciar a potência das redes de articulação quilombolas na reinvenção de estratégias de defesa territorial e na produção de garantias territoriais e socioambientais em meio às disputas da transição energética no sertão brasileiro.
-
Território Quilombola do Sapê do Norte: a negociação como dispositivo de adiamento do direito à terra no Espírito Santo.
— Lucas Pacif do Prado Muniz, Sandro José da Silva
— Lucas Pacif do Prado Muniz, Sandro José da Silva
Os conflitos fundiários que perpassam o território quilombola do Sapê do Norte, Estado do Espírito Santo, encerram uma sucessão de situações sociais, políticas e jurídicas protelatórias que inviabilizam a realização do direito constitucional ao território. As lutas simbólicas nessas arenas expressam-se na mobilização do Direito pelas comunidades para a garantia de permanência no território, ao passo que os representantes das indústrias ali instaladas agem para a não permanência dos habitantes, utilizando-se do poder cultural ampliado assente nos capitais econômico, cultural, político e jurídico. (BOURDIEU, 1989). Dessa ambivalência tem prevalecido a face disciplinadora do Estado que se coloca para a contenção dos movimentos políticos no Sapê do Norte – especialmente as ações de retomadas do território – notadamente por meio da mobilização da justiça estadual, por agentes da Suzano, empresa celulósica que ocupa grande parte do território, com o ajuizamento de ações de reintegração de posse que deslocam a questão territorial para o direito privado, desviando a atenção do tratamento jurídico constitucional, portanto, de direito público, que a matéria exige. É nesse vácuo entre a face garantidora e a face restritiva do Direito que se faz necessário acompanhar as discussões do Grupo de Trabalho Quilombola (GTQ) no âmbito da Comissão Permanente de Conciliação e Acompanhamento dos Conflitos Fundiários (CPCACF), instituída pelo governo estadual, com a finalidade de tratar, dentre outras, as questões fundiárias entre as comunidades do Sapê do Norte e a Suzano. Portanto, o intuito desse trabalho é refletir o funcionamento da CPCACF no Sapê do Norte, em que se popularizou como “Mesa” (de solução e/ou resolução de conflitos; de negociação), a partir da realização de etnografia, de análise documental e reflexão “autoanalítica” (WAGNER, 2017) ancorada no referencial teórico escolhido. Considerando que a negociação – método autocompositivo predominante no mundo corporativo – ocupa espaço relevante no Direito mais como instrumento de gestão que de solução de controvérsias, objetiva-se pensar como essa tem sido articulada no âmbito da “Mesa” com relação a propostas que englobam o direito ao território. Sabendo-se que a empresa celulósica se consagra como parte habituada ao litígio e dispõe de poder cultural ampliado que a favorece e, de outro lado, o Sapê do Norte, por seus órgãos representativos e que se consagra como parte não habituada ao litígio, e com menor disposição desse poder, pretende-se a análise das negociações e as desigualdades aferíveis nas proposições no que toca a desidratação do direito de titulação do território e quais os efeitos daí decorrentes nas comunidades, as resistências, os enfrentamentos, as decisões deliberadas. (GALANTER, 1941).
-
A corrida pelo ouro branco e seus efeitos-derrame: gênese de uma jurisdição minerária e seus dispositivos de governo
— Raquel Oliveira Santos Teixeira
— Raquel Oliveira Santos Teixeira
A partir do exame etnográfico de uma feira de negócios da mineração e da revisão dos mecanismos de desregulação ambiental em curso no estado de Minas Gerais, o trabalho objetiva discutir o avanço das investidas extrativas no Vale do Jequitinhonha, no contexto da profusão discursiva em torno da “transição energética”. Nesse percurso, problematiza-se a atualização de uma geopolítica empresarial para o Jequitinhonha e seus efeitos sobre os direitos territoriais dos povos e comunidades tradicionais na região (Oliveira et al, 2025). Ênfase é dada ao mapeamento dos empreendedores institucionais e suas estratégias para a conformação de uma “jurisdição minerária”, cuja governança climática tem conduzido ao escalonamento das tensões entre grupos locais e ao estreitamento dos repertórios históricos de contestação às ameaças espoliativas. Nesse sentido, a proposta pretende contribuir para uma reflexão acerca das modalidades da gestão corporativa dos conflitos e sua “mecânica da violência” (Santos, 2014) no âmbito do chamado “consenso da descarbonização” (Bringel e Svampa, 2023).
-
A monocultura da energia: Processos de implantação de Grandes Empreendimentos de Energia Renováveis em comunidades tradicionais, nos estados da Paraíba e do Rio Grande do Norte.
— Rita de Cassia Maria Neves, Josiel Ventura Alves
— Rita de Cassia Maria Neves, Josiel Ventura Alves
A expansão dos projetos de energias renováveis tem avançado gradativamente e em ritmo acelerado no contexto da chamada transição energética, justificada pela proposta de redução do uso de combustíveis fósseis no Brasil. Nesse cenário, o estado do Rio Grande do Norte destaca-se como um dos principais produtores de energia eólica e solar do país, concentrando grandes áreas destinadas a esses empreendimentos. Outro estado que vem ganhando destaque nesse processo é a Paraíba. Ambos estão localizados na região Nordeste, historicamente marcada por estigmas e longos períodos de estiagem na parte semiárida desses estados. São regiões que preservam suas identidades culturais, formas de adaptação ao clima e abriga o bioma Caatinga, único no mundo. Apesar do discurso de sustentabilidade associado às energias renováveis, o avanço das usinas de produção de energia tem representado uma ameaça à Caatinga e aos territórios onde vivem populações tradicionais e camponesas, que mantêm relações históricas com essas áreas há séculos. Esse trabalho busca analisar o processo de implantação desses empreendimentos em duas comunidades quilombolas no estado da Paraíba (Pitombeira e Serra do Abreu) e no Rio Grande do Norte (Macambira e Caiçara), com também uma pequena incursão em algumas comunidades de pesca artesanal, no RN, o que possibilita ampliar o debate dos efeitos sobre essas populações afetadas diretamente em suas formas de vida e organização territorial. Entre os principais efeitos observados na implementação e manutenção desses empreendimentos, destacam-se os efeitos na paisagem, no meio ambiente, além da poluição sonora das hélices e das grandes explosões, alterando a dinâmica organizativa das comunidades. Por fim, toda essa dinâmica é acompanhada de uma recorrente ausência de consulta prévia, livre e informada junto às populações atingidas, o que tem provocado a mobilização através de audiências públicas, acionadas pelas comunidades e pelo Ministério Público, como forma de debater o tema que tem, inclusive, provocado conflitos internos nas comunidades pesquisadas.
-
Quem é realmente dono dos ventos? Percepções e agenciamentos de uma comunidade candomblecista sobre o avanço do empreendimento eólico em Caetité (BA)
— Yuri Tomaz dos Santos, Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, Amanda Jardim da Silva Rezende
— Yuri Tomaz dos Santos, Antônio Carlos da Silva Costa de Souza, Amanda Jardim da Silva Rezende
O objetivo deste trabalho é examinar estratégias de agenciamentos e regimes de (re)conhecimentos e (in)visibilidades empenhados por integrante da comunidade candomblecista Ilé Àṣẹ Ojú Oòrùn, localizada em Caetité (BA), frente às crescentes violações de direitos ambientais e outras violações que ameaçam a continuidade de ritualísticas em lugares sagrados, como a Passagem da Pedra, devido às instalações de torres eólicas realizadas por empresas especializadas no ramo. Buscamos contribuir com discussões já consolidadas no campo antropológico sobre megaempreendimentos, impulsionados pelo modelo neoliberal de economia e apoiados em discursos falaciosos sobre sustentabilidade e transição energética. Em nosso caso, interessa-nos como as tensões, os conflitos e as violências se apresentam como um conjunto tripartite de coisas que tornam essas comunidades vulneráveis, visto que o tratamento dos ventos como mercadoria revela uma dinâmica de poder que tanto verticaliza hierarquicamente, por meio dos operadores do direito, quanto horizontaliza, como se os interesses pela manutenção do status quo de maior produtor de energia eólica, no caso do nordeste brasileiro, desconsiderasse a finitude dos recursos naturais. Ou, ainda, que esses interesses pudessem ser equiparados àqueles que as comunidades tradicionais encampam. Para este fim, além do trabalho de campo em curso, interessa-nos escrutinar entrevistas com interlocutores(as) candomblecistas, especialmente os que moram no terreiro supracitado, além de analisar pequenos excertos de uma decisão judicial recentemente expedida acerca da violação.
Coordenação
Gabriel Calil Maia Tardelli (UFF)
Artionka Capiberibe (UNICAMP)
As relações entre Estado, instituições religiosas e políticas indigenistas foram duradouras e profícuas em diferentes contextos da América do Sul. A depender do perfil das organizações religiosas, das táticas e estratégias adotadas e dos relatos dos próprios missionários, a tarefa de evangelizar os indígenas poderia ser mais ou menos árdua. Por um lado, dizia-se que esses grupos continham em si a “semente” do evangelho, o que facilitaria sua transformação em “cristãos”; por outro, revelavam que o “peito de bronze” pareceria instransponível. O fato é que o encontro entre indígenas e missionário produziu resultados distintos. Este GT tem como objetivo fomentar reflexões sobre as relações de poder estabelecidas entre povos indígenas e instituições religiosas ligadas ao cristianismo em suas diferentes vertentes. Serão bem-vindos trabalhos que abordem a agência dos povos indígenas, seja em relação às cosmologias do contato e às transformações das práticas de xamanismo, seja em relação aos sentidos que atribuíram ao cristianismo ou à recusa de participarem do processo de conversão. Outro enfoque possível diz respeito à atuação de missionários em terras indígenas – incluindo como executores de políticas de saúde e educação –, as representações que eles produziram acerca das populações a serem evangelizadas, bem como a respeito dos efeitos do contato e das negociações interétnicas.
Títulos e Resumos
-
Antropologia em missão: tensões, disputas e implicações da produção acadêmica missionária
— Ana Carolina Saviolo Moreira
— Ana Carolina Saviolo Moreira
As relações institucionais entre agências missionárias e universidades são históricas e foram interpretadas de maneiras diferentes ao longo do tempo por intelectuais e agentes institucionais no Brasil. Para citar apenas um exemplo recuperado da bibliografia especializada no tema, temos o já conhecido - na história da antropologia - convênio entre o antigo Summer Institute of Linguistics (atual SIL Global) e o Museu Nacional, assinado no final da década de 1950. Embora este convênio tenha sido revogado pela universidade, principalmente pela fragmentação e insuficiência da produção científica daquela agência missionária sobre línguas indígenas - condição sine qua non para a sua continuidade - ainda é possível observar a presença missionária em universidades laicas, públicas e particulares. Além de participarem da vida acadêmica de universidades sem vinculação religiosa específica, missionários têm construído o seu próprio universo acadêmico e educacional, como é o caso da Unievangélica e do Instituto Antropos, cuja especialização lato sensu em Antropologia Intercultural é uma de suas opções curriculares. A produção acadêmica realizada nesses espaços é alvo de crítica recorrente por setores hegemônicos da disciplina, uma vez que é considerada instrumentalização do saber acadêmico. As tensões decorrentes dessas relações, portanto, nos convidam a refletir sobre as implicações de uma produção acadêmica antropológica voltada a atender interesses religiosos. A proposta desta comunicação visa a refletir sobre como se constrói, no interior do campo missionário evangélico, uma antropologia própria, e que concepções de cultura, alteridade e tradução ela mobiliza para legitimar seu projeto evangelizador. Para isso, tomarei como estudo de caso central o Método Antropos de Aproximação Intercultural, elaborado pelo missionário-antropólogo Ronaldo Lidório no livro Antropologia Missionária, por considerá-lo uma sistematização influente no meio missionário brasileiro de uma antropologia aplicada à evangelização. Para analisar esse material, recorrerei a referências da antropologia da religião e da história da antropologia. O objetivo é explorar as concepções de cultura, língua e alteridade que alicerçam tal método, contrapondo-os às noções hegemônicas da disciplina. Para isso, a análise do método é enriquecida por dados etnográficos de minha pesquisa de doutorado em andamento, mais especificamente entrevistas com missionários transculturais brasileiros e estadunidenses.
-
Entre Tradições Indígenas e Religiões Cristãs: reflexões sobre os dados do Censo 2022
— Artionka Capiberibe
— Artionka Capiberibe
Com base no cruzamento dos dados censitários e em análises qualitativas sobre processos históricos e contemporâneos de evangelização indígena, esta apresentação propõe uma leitura dos fatores socioculturais que contribuem para explicar os novos dados apresentados pelo Censo de 2022. O cruzamento dos dados da categoria “Indígena” com aqueles referentes aos “Grandes Grupos de Religião” no Censo Demográfico de 2022 permite identificar ao menos dois fatores significativos correlacionados aos levantamentos censitários anteriores. Em primeiro lugar, observa-se que, embora 74,5% dos indivíduos declarados pertencentes às “Tradições Indígenas” se autodeclarem indígenas — proporção que vem crescendo ao longo dos últimos censos —, a filiação indígena a essa categoria permanece reduzida, correspondendo a apenas 7,6% do total registrado entre os “Grandes Grupos de Religião”. Em segundo lugar, os dados de 2022 indicam que as religiões evangélicas alcançaram 32,2% de adesão entre os indígenas, percentual superior à média nacional (26,9%), enquanto os católicos correspondem a 42,7% da população indígena, abaixo da média nacional de 54%. Esses números sugerem que a transição religiosa observada nas últimas décadas — marcada sobretudo pela passagem do catolicismo ao evangelicalismo — ocorreu de forma mais intensa entre os povos indígenas. A pergunta que esta apresentação se faz é qual a relação entre esses dois movimentos.
-
Onde o sagrado se arranja: processos de composição cosmológica em contextos atravessados pelo cristianismo.
— Christina Soares Carneiro
— Christina Soares Carneiro
A comunicação proposta examina os altares domésticos em contextos indígenas como arranjos por meio dos quais são produzidas articulações entre humanos e mais-que-humanos, encantados, imagens e entidades associadas ao cristianismo. A partir de pesquisa etnográfica desenvolvida na Aldeia Kiriri de Mirandela, no sertão da Bahia, investiga-se como esses altares inserem-se nas práticas da vida doméstica, operando como pontos de condensação de relações cosmológicas que sustentam formas específicas de coexistência no interior das casas.
Longe de serem compreendidos como expressões exclusivas do cristianismo ou como evidências de sincretismo religioso, os altares são abordados como composições situadas, constituídas em contextos afetados pelo contato colonial, e continuamente (re)elaboradas. A experiência de campo tem, ademais, sugerido que os elementos indígenas e cristãos não se organizam como domínios estanques nem como polos em oposição, mas como partes de configurações móveis, nas quais gestos, objetos, rezas, narrativas e disposições socioespaciais produzem modos singulares de relação com o denominado sagrado.
A atenção etnográfica aos processos de cuidado, manutenção e reorganização desses altares permite, por outro lado, observar a casa como um espaço no qual se negociam presenças, se atualizam vínculos e se sustentam continuidades cosmológicas. Tais práticas produzem efeitos que extrapolam o âmbito doméstico, incidindo sobre formas de habitar o território, de lidar com temporalidades diversas e de manter alianças com entes mais-que-humanos em contextos atravessados por regimes religiosos amplamente difundidos, articulados a lógicas capitalistas de valor, circulação e ordenamento da vida.
Tais dinâmicas evidenciam formas de agência discretas, porém decisivas, para a persistência e a reinvenção de cosmologias indígenas no presente. Os altares domésticos emergem, assim, como dispositivos a partir dos quais se tornam visíveis processos de confluência e composição entre mundos, e nos quais distintas referências cosmológicas passam a operar conjuntamente, e não por meio de hierarquias fixas ou domínios claramente separados.
-
Conversão e Política: O Pentecostalismo entre os Guarani e Kaiowá na Reserva de Amambai Guapo'y - MS
— Ezequiel Valiente
— Ezequiel Valiente
O presente resumo visa descrever algumas histórias de vida de evangélicos ava guarani e kaiowá (krente kuera) na Reserva de Amambai Guapo'y, ou seja, indígenas convertidos a religiões pentecostais e neopentecostais que frequentam igrejas no interior da terra indígena e nas regiões existentes no entorno. A partir disso, pretendo discutir os motivos que levam a conversão ao pentecostalismo, relacionado aos grupos políticos internos e externos, podendo identificar as suas posições e as interações como por exemplo, com as eleições municipais que ocorreram. Atualmente a reserva possui a segunda maior população indígena do Mato Grosso do Sul, segundo o IBGE, mais de nove mil pessoas vivem nessas áreas, segundo pesquisa realizada em 2008. Em minha pesquisa de mestrado, demonstrei que mais de 90 pontos de evangelização possam estar atuando na reserva a maioria ligadas a Deus é Amor, com o maior número de fiéis das famílias e parentelas extensas guarani e kaiowá (teyi kuera) na reserva Amambai Guapoy. Sendo assim, há muitos interesses de partidos políticos (kandidato kuera) buscarem as igrejas e se associarem aos grupos, assim obtendo forças e peso durante as candidaturas de eleições, por exemplo. Nesta comunicação procurarei demonstrar como ocorrem atualmente essas relações dos pentecostais guarani e kaiowá com as políticas de partidos, candidaturas, etc. etc. para poder contribuir com a análise das transformações dos povos guarani e kaiowá ao aceitar viver no mundo dos pentecostalismo, assim também, como ocorrem as relações com as políticas internas e externas, tanto governamentais.
Palavra-chave: história de vida dos pentecostalismo guarani e kaiowá; relações com as políticas interna e externa tanto governamentais; modos de vidas e transformações;
-
"Sus sandalias hicieron nuestras fronteras": memórias das missões dos capuchinhos entre os Warao
— Gabriel Calil Maia Tardelli, Leany Gabriela Torres Moraleda
— Gabriel Calil Maia Tardelli, Leany Gabriela Torres Moraleda
Ao longo do século XX, inúmeras instituições religiosas cristãs realizaram missões entre os povos indígenas da Venezuela, dando continuidade à uma história de longa duração. Entre os Warao do delta do Orinoco, a Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, parte da tradição franciscana, atuou em diferentes comunidades, retomando e renovando as tentativas de evangelização empreendidas no século XVIII. Os resultados desse contato foram variados, a depender da intensidade e dos contextos locais. Mas, de maneira geral, parecem ter ocorrido transformações em relação à organização política, aos laços de parentesco e às práticas xamânicas. A presença desses missionários em suas terras originárias era rememorada por algumas pessoas e famílias que, desde 2016, têm atravessado as fronteiras em direção ao Brasil. As recordações vinham à tona em diferentes momentos, como quando passavam a lidar com outros perfis de missionários que atuavam em um contexto de ajuda humanitária com refugiados e imigrantes. Suas ações configuravam-se na lógica da “bondade repressiva”: por um lado, os missionários teriam sido os responsáveis por lhes ensinar a ler e a escrever; por outro, eram muitas vezes “duros”, isto é, podiam lançar mão de punições e violência física a fim de que as normas fossem observadas e os comportamentos, corrigidos. Neste trabalho, a partir das memórias dos Warao e dos relatos produzidos pelos próprios capuchinos, analisaremos como as relações entre indígenas e religiosos foram estruturadas, os efeitos que foram produzidos e como discursos e práticas pretéritas atualizam-se no presente.
-
A agência dos encantados na cosmopolítica do povo Kiriri
— Mario Spock Fernandez da Cunha
— Mario Spock Fernandez da Cunha
Por meio de registros etnográficos de campo produzidos entre 2023 e 2025 e do diálogo com a literatura antropológica, a comunicação se propõe a analisar a agência dos encantados -- entidades espirituais ligadas ao território indígena -- na cosmopolítica inter e intraétnica do povo Kiriri situado na Terra Indígena Kiriri, localizada nos municípios de Banzaê, Quijingue e Ribeira do Pombal (BA), e homologada desde 1990. No que concerne aos principais aspectos que compõem esta cosmopolítica Kiriri, é notável a influência exercida pelos encantados e outras entidades no cotidiano, nas práticas xamânicas e nas formas de mediação com forças externas. A pesquisa aborda, como eixos centrais, o passado histórico de colonização e suas reverberações no presente, bem como as concepções relacionadas aos distintos trabalhos espirituais, tais como as noções nativas de coisa de direita e coisa de esquerda, associadas, respectivamente, às ciências do Bem e do Mal. Além disso, evidencia a polarização entre grupos políticos no território Kiriri e sua articulação com diferentes práticas espirituais, que se mostram centrais nos processos de retomada territorial e no enfrentamento às violências históricas impostas pela Igreja e pelo estado imperial, e que se renovam no presente. Essas disputas cosmopolíticas revelam modos distintos de organizar alianças e produzir respostas em situações de instabilidade ontológica.
Coordenação
Ana Beatriz Vianna Mendes (UFMG)
Eliana Creado (UFES)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Marisa Barbosa Araujo (UFV)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Gabrielly Merlo de Souza (UFES)
Diante de um mundo em ruínas, as formas de vida e de consumo dos chamados, por alguns, de recursos naturais desvelam iniquidades e projetos de sociedade em larga medida regulados pelo Mercado e pelo Estado. Diversos são os contextos em que essa regulação ocorre à margem da legalidade, da legitimidade e da justiça socioambiental. O objetivo deste GT é o de refletir sobre situações empíricas em que alianças entre Mercado, Estado e Ciência estão em disputa pela ou com a produção de mundos em territórios específicos. Quais são as estratégias mobilizadas pelas pessoas do lugar para resistir às intrusões do Estado, do Mercado e da Ciência? Como os praticantes da ciência operam, diante de financiamentos públicos escassos e de propostas e de assédios advindos de empresas? Como tem se dado o papel do Estado nesses contextos? Os praticantes da ciência têm conseguido dialogar com os coletivos e disponibilizar suas atuações e resultados para a tomada de decisões e ou a defesa de direitos? Como podemos entender os aprendizados ao longo desses processos? Quais são as dinâmicas de (re)apropriação dos conhecimentos e das práticas científicas, dentro e fora da academia?
Títulos e Resumos
-
Contra-necropolíticas trans numa fronteira amazônida: mundos possíveis e dispositivos comunitários de transição em Tabatinga
— Brune Mantese de Souza
— Brune Mantese de Souza
Embora o Brasil lidere por 17 anos consecutivos o ranking do país que mais mata pessoas trans e travestis no mundo segundo dados oficiais, na cidade de Tabatinga, região transfronteiriça amazônida, os assassinatos de pessoas trans e travestis parecem sempre estar associados ao envolvimento com o crime organizado e com o tráfico de drogas. Em entrevista realizada em maio de 2025, Suellen Desana, coordenadora da pasta de saúde para população LGBTQIAPN+, afirmou que não existem transfeminicídios na cidade, o que aponta para uma contra necropolitica trans que tem se organizado localmente, ao menos no que se refere à prevalência dos assassinatos e a uma lógica de deixar morrer ou de fazer morrer, assim como o conceito de Mbembe postula, perpetrada pelo Estado, e instituições, por meio de medidas repressivas ou omissões deliberadas. Essa apresentação traz algumas reflexões sobre minha pesquisa de pós doutorado sobre a malha de salões e barbearias capitaneados por transfeminilidades nessa região de fronteira, realizada no PPGAS /USP com apoio da Fundação Wenner-Gren.
A contra necropolitica aqui nomeada não tem a ver com medidas estatais de proteções dos direitos humanos das pessoas LGBTQIAPN+ no geral e das pessoas trans em particular. Não se trata de medidas que partem da institucionalidade e que poderiam indicar uma mudança de paradigma em relação a quais corpos devem viver e quais corpos devem morrer por parte do aparato estatal brasileiro. Esta contra necropolítica se organiza a parir de dispositivos de transição de gênero comunitários, dos quais participam 1) hormonização organizada fora dos serviços de saúde, 2) a construção de uma corporeidade trans na qual existe uma prevalência muito grande de estéticas capilares, 3) uma rede de apoio em que mulheres trans e travestis que estejam trabalhando em serviços domésticos ou nas cozinhas de restaurantes sejam incentivadas a tornarem-se cabelereiras e barbeiras por outras já atuantes no ramo, 4) a própria cidade de Tabatinga como dispositivo de transição e 5) dispositivos de nomeação, que consistem na atribuição ou escolha de seus nomes próprios.
Corpos trans são de uma pluralildade que termina por não caber nos protocolos de transição disciplinares e disciplinados pela biologia, pela medicina e pela psicologia modernas. Para romper com a necropolítica do mandato do que é ser trans precisamos criar mundos nos quais vidas plurais sejam possíveis é o que as interlocutoras têm feito em Tabatinga, criando mundos em que vidas trans não sejam apenas aquelas sancionadas pela tais protocolos. Parece ser mais o caso de dissolução de mundos e da prática de worlding do que o de disciplinar corpos dentro de protocolos modernos derivados do que Denise Ferreira da Silva denomina como homo modernus.
-
Ilha de Mercês: território, memória e a violência do desenvolvimento
— Clara Vitória Vieira Francisco da Silva
— Clara Vitória Vieira Francisco da Silva
A Ilha de Mercês, no entorno do Complexo Industrial Portuário de Suape, em Ipojuca, Pernambuco, é marcada por uma disputa que não se resume à posse da terra. O que está em jogo é o próprio sentido do território. Para a comunidade quilombola que vive na Ilha, o território não aparece como um recorte administrativo ou uma área passível de compensação, mas um espaço produzido ao longo do tempo por relações de parentesco, trabalho, memória e circulação entre o mangue, o rio e o mar. Trata-se de um território que é vivido, lembrado e narrado, um território que existe porque é praticado. Essa concepção aproxima-se do conceito de “territorialidades específicas” proposto por Alfredo Wagner (2012), isto é, formas de relação com o território que escapam à lógica jurídico-administrativa do Estado, por serem constituídas por experiências históricas, sentidos e modos de vida próprios. A partir da expansão de Suape, a Ilha é progressivamente re-inscrita em uma gramática do desenvolvimento que transforma paisagens habitadas em infraestrutura estratégica. Como mostram Ferguson (1994) e Li (2007), o desenvolvimento opera menos como solução técnica e mais como uma forma específica de poder, capaz de redefinir quem pertence, quem deve sair e sob quais condições a permanência se torna possível. Já a memória quilombola, longe de ser apenas evocação do passado, funciona aqui como política. Ela sustenta a legitimidade da presença no território e confronta aquilo que Trouillot (2016) descreveu como “a produção institucional do esquecimento”. Ao reivindicar a Ilha como território ancestral, os moradores não apenas narram sua história, mas desafiam um regime oficial de temporalidade que insiste em tratar o espaço como vazio ou subutilizado antes da chegada do porto. A despossessão que atravessa a Ilha de Mercês não se dá apenas pela remoção direta, mas pela erosão cotidiana das condições de vida, uma violência que se acumula lentamente, como sugere Nixon (2011), e que incide de maneira racializada sobre corpos e territórios negros, em diálogo com Mbembe (2018). O conflito pode, assim, ser lido como um choque entre “ontologias desiguais”, nos termos de Mauro Almeida (2013): de um lado, o território como infraestrutura; de outro, o território como condição de existência. A partir de uma abordagem etnográfica (Shah 2010; Peirano 2007) na Ilha, este trabalho argumenta que a expansão portuária de Suape não produz apenas transformações espaciais, mas reorganiza memórias, futuros e possibilidades de permanecer. A Ilha de Mercês emerge como um espaço onde desenvolvimento, colonialidade e resistência se entrelaçam de forma tensa, revelando os limites de projetos que continuam a tratar territórios quilombolas como obstáculos ao progresso.
-
Reflexões Antropoéticas sobre o Mapeamento de Povos e Comunidades Tradicionais da UFMG
— Eco Lofego Silveira
— Eco Lofego Silveira
Este é um artigo sobre o Programa de Mapeamento de Povos e Comunidades Tradicionais da UFMG que caminha no ritmo da prosa antropoética, uma dança quase coordenada entre etnografia, poesia e teoria. A relação da autora com o programa é trabalhada a partir de uma etnografia de dentro, que aproveita para contextualizar brevemente a invisibilização, a criminalização e o silenciamento que os Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs) enfrentam desde a colonização. O Programa de Mapeamento, descrito como essa "Confraria dos Bruxos" (Costa Filho, 2012) praticante de uma peculiar antropologia quente, atua no texto como uma ponte entre o geral e o específico que aponta para as relações de aliança que se materializam em torno dos Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) e tensiona reflexões sobre a luta dos PCTs por reconhecimento e garantia de direitos com enfoque no caso do Território Tradicional Geraizeiro e Vacariano do Lamarão.
-
Mapeando caminhos percorridos: processos de (re)produção sócio-territoral do bairro Romão dos Reis (Viçosa, Minas Gerais)
— Luiza Rodrigues Mansur da Silva, Marisa Barbosa araujo
— Luiza Rodrigues Mansur da Silva, Marisa Barbosa araujo
O trabalho analisa a (re)produção socioterritorial do bairro Romão dos Reis, marcado historicamente por desigualdades socioespaciais vinculadas à colonialidade, à expansão urbana e à consolidação da UFV. Objetiva compreender essa história comum na perspectiva de quem faz morada, problematizando a influência da colonialidade na produção de desigualdades socioambientais e na relação entre cidade, universidade e comunidades locais. A abordagem é autoetnográfica, integrando experiência pessoal e vivências comunitárias, subvertendo a perspectiva científica tradicional. O método é a observação participante, com diário de campo, entrevistas e audiovisuais. A hipótese é que das condições de colonialidade derivam desigualdades que determinam a (re)produção socioterritorial, impactando dinâmicas, organização do território e acesso a recursos. Ao valorizar as vozes de moradores e suas formas de habitar, o estudo fomenta reflexões críticas sobre os vínculos entre universidade, cidade e periferias, promovendo aproximações éticas e epistemológicas entre ciência e comunidade. Estado da arte: finalização do segundo capítulo.
-
Jurema e suas agências: entre ciências indígenas, resistências à biopirataria e a criminalização da DMT
— Maria Carolina Arruda Branco
— Maria Carolina Arruda Branco
Este trabalho avança em reflexões iniciadas durante a pesquisa de doutorado em curso, acerca das múltiplas agências da Jurema incorporando vivências e discussões realizadas durante o I Seminário de Medicinas Ancestrais Jurema: ciências, cuidados e proteção, realizado entre os dias 21/05/2025 e 24/05/2025, no Território Indígena Truka, na cidade de Orocó, Pernambuco, Brasil. Busco aprofundar a compreensão das relações entre os povos indígenas no Nordeste e Leste e a Jurema, destacando a centralidade dos conhecimentos indígenas e as problemáticas contemporâneas enfrentadas por estes. Destaco particularmente a problemática da biopirataria da Jurema e a criminalização da substância DMT (dimetiltriptamina), que jamais constituiu o foco principal dos usos tradicionais indígenas. Trago à discussão as estratégias indígenas de resistência e proteção frente à exploração comercial e apropriação indevida de saberes ancestrais associados à Jurema. Por meio da abordagem etnográfica, evidencio como as práticas indígenas desafiam as fronteiras impostas por legislações e políticas públicas que criminalizam substâncias como a DMT. Este trabalho visa, portanto, contribuir com debates sobre ecologia política, etnobotânica e os múltiplos modos indígenas de se relacionar com as plantas, enfatizando como esses povos constroem alternativas políticas e epistemológicas diante das ameaças contemporâneas à sua autonomia.
-
Por uma etnografia dos Ribeirinhos Da RESEX Jauaperí: Conflitos entre os usos tradicionais dos recursos naturais e as novas regras de residir na Reserva.
— Samuel Castro Lobato, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
— Samuel Castro Lobato, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
Este trabalho apresenta resultados preliminares de uma pesquisa de mestrado em andamento, com o objetivo de compreender os conflitos de adaptação criados entre as instituições governamentais e a população local. Os conflitos se dão pelas novas regras ambientais e sociais devido a criação da reserva extrativista de Jauaperi no cotidiano da vida dos moradores locais. Na narrativa dos empreendimentos desse tipo, as reservas extrativistas aparecem como uma ótima alternativa para solucionar problemas relacionados ao meio ambiente, porém este pressuposto parece desconsiderar os impactos negativos no estilo de vida ribeirinha. Sobretudo aqueles relacionados ao uso dos recursos naturais. O modo de vida em uma determinada localidade pode ser compreendido como pertencente àqueles que nela vivem, sem a obrigatoriedade de seguir estruturas ou modelos externos. Nesse sentido, Almeida (2022) aponta para a possibilidade de uma abordagem antropológica que reconhece a existência de múltiplos mundos e múltiplos modos de conhecer e habitar a realidade simultaneamente. Os resultados estão sendo produzidos a partir da vivência etnográfica na comunidade Itaquera, que faz parte do conjunto de catorze (14) comunidades que compõem a área da reserva extrativista Jauaperí.
Palavras chaves: RESEX, Ribeirinhos, Regras, Conflitos
-
Paradoxos do turismo em território compartilhado: o caso da Comunidade do Retiro no Parque Nacional da Serra do Cipó (MG)
— Wesley Leandro da Silva Ferreira, Ana Beatriz Vianna Mendes, Coral Veloso de Oliveira, Douglas Neves de Oliveira, Giovanna Vieira Casarin Henriques
— Wesley Leandro da Silva Ferreira, Ana Beatriz Vianna Mendes, Coral Veloso de Oliveira, Douglas Neves de Oliveira, Giovanna Vieira Casarin Henriques
Este trabalho busca refletir sobre as relações das famílias da comunidade do Retiro com o Mercado, o Estado e a Ciência, com enfoque na relação dos moradores com o turismo. Trata-se de uma comunidade composta atualmente por 12 famílias, oriundas de 2 troncos familiares distintos, cujos modos de vida, que eram profundamente atrelados à produção camponesa, foram profundamente alterados com a criação do Parque Nacional da Serra do Cipó, em 1984. A pesquisa que realizamos aponta para desapropriações violentas ao longo de vários anos, tendo muitas famílias alegado terem tido de deixar suas terras sem qualquer indenização.
Buscamos documentar como as várias gerações de pessoas que têm aquele território como parte de si foram tecendo suas trajetórias de vida, entre rios, serras e lapas. Desde aqueles que nasceram, cresceram e sempre viveram ali; aos que foram viver fora quando adultos ou adolescentes - no distrito ou em outras cidades; até as crianças de hoje em dia, que passam sua infância na casa dos avós, no Retiro.
Após a assinatura do Termo de Compromisso, em 2018, houve um grande retorno de muitas famílias ao lugar. Esse acordo garantiu o direito de realizar atividades de agricultura familiar, pecuária de subsistência, extrativismo, artesanato em barro, entre outras práticas herdadas do passado, além da própria moradia, no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó.
Diante disso, pretendemos refletir sobre os paradoxos envolvidos com o turismo na vida dessas famílias do Retiro. O Parque como um todo registra uma média de visitas anuais em torno de 55 mil visitantes, de todas as partes do Brasil e do mundo. Como as famílias do Retiro constroem seu cotidiano? Como era antes do parque e após o parque? Quais são as atividades de trabalho que as famílias do Retiro executam? Como se dão as disputas no território sobre os sentidos dados ao lugar, entre turistas, comunitários, gestores e cientistas?
Assim, pretendemos descrever como o Termo de Compromisso foi construído e embasado em termos jurídico-administrativo, científico e de participação social e quais são as implicações em termos de Mercado desse acordo, levando em consideração desde direitos fundiários, que seguem em disputa judicial, a atividades promovidas pela comunidade para o turismo. Como as atividades turísticas e de lazer, que vêm crescendo nos últimos anos na região do Cipó, impactam o cotidiano do Retiro? Espera-se compreender os impactos e os potenciais dessas relações e levantar dados que possam subsidiar decisões coletivas e institucionais que garantam uma educação ambiental crítica, reconhecendo o valor cultural das práticas da comunidade e buscando qualidade às vidas que se tecem naquele lugar.
Coordenação
Cintia Miller (UFBA)
Ricardo Cid Fernandes Giordano (UFPR)
De acordo com o Censo 2022 os quilombolas somam mais de 1,3 milhões de pessoas no Brasil, destas apenas 167.769 pessoas residem em territórios identificados como quilombolas. Ao longo da última década Programas de Pós-Graduação no Brasil produziram vários estudos com quilombolas, dentre os 2.399 registros para a palavra quilombo no Banco de Teses da CAPES, 696 estudos foram registrados entre os anos de 23 e 24, sendo 237 na área das Ciências Humanas (nov.25). Conflitos multiescala têm sido descritos e analisados em todas as regiões do país, através de monografias, imagens, artigos e textos periciais. A proposta deste Grupo de Trabalho é promover visibilidade e discussões que analisem conflitualidades agravadas por problemas relacionados às Mudanças Climáticas e ao Antropoceno e sua característica de gerar e acentuar perturbações já existentes junto aos quilombolas. Para discutir estas transformações, propomos um GT com três sessões: 1. Ecologias e multiespécies na composição de territorialidades em conflito; 2. O papel do estado em conflitos que produzem e agravam perturbações na paisagem e nas relações de habitabilidade nos quilombos; e 3. Cosmopolíticas e mobilização quilombola.
Títulos e Resumos
-
Sementes insurgentes: As tecnologias sociais quilombolas do Médio Vale do Ribeira através de iniciativas rurais comunitárias de luta e resistência diante da emergência climática no Antropoceno
— Bianca Cruz Magdalena
— Bianca Cruz Magdalena
Este trabalho visa analisar a agência de comunidades tradicionais quilombolas do Médio Vale do Ribeira através de pesquisa etnográfica realizada desde 2020, com agricultores/as e coletores/as. A partir de suas tecnologias sociais rurais, enquanto expressões de identidade étnica, organização social, manejo da paisagem e práticas insurgentes no contexto do Antropoceno, tais considerações articulam a práxis associativista e cooperativista nos territórios quilombolas. Em diálogo com Beatriz Nascimento, o quilombo é compreendido como forma político-existencial que articula corpo, território e ancestralidade, constituindo modos de vida baseados na luta e resistência para afirmar continuidades cosmopolíticas. Essas tecnologias sociais, fruto do Sistema Agrícola Tradicional Quilombola, permitem o uso comum da floresta, com cultivo em roças de coivara, assegurando a soberania e a segurança alimentar, além da coleta de sementes florestais para restauração ecológica de ecossistemas. Com grupos locais de governança e parceiros, compõem territorialidades multiespécie, com humanos, plantas, animais, rios e solos que participam da produção da vida e da paisagem na Mata Atlântica. Em consonância com Vandana Shiva e Malcom Ferdinand, o artigo evidencia a indissociabilidade entre justiça ambiental e racial, situando os conflitos climáticos como desdobramentos de uma ordem colonial que, historicamente, despossuiu corpos e territórios negros. No Vale do Ribeira paulista, políticas estatais de conservação, com viés preservacionista, legislação ambiental restritiva, empreendimentos desenvolvimentistas, somados à não titularidade das terras produziram conflitos. Ao tensionar os modos de vida quilombola de habitar, cuidar e manejar a terra, o Estado acaba por desconsiderar seus saberes epistêmicos e ecológicos. Nesse cenário, o manejo da paisagem emerge como prática de cuidado em que o território é concebido como corpo coletivo, atravessado por relações multiespécies e temporalidades, com guardiões e guardiãs da mata, que plantam, colhem e coletam sementes culturais. Ao enfatizar as ecologias quilombolas como formas de composição territorial em conflito, tais considerações contribuem ao debate ao evidenciar cosmopolíticas situadas que desafiam a separação entre Natureza e Cultura, oferecendo alternativas com iniciativas comunitárias concretas, com práticas materiais e políticas, frente à crise climática e socioambiental.
-
Paisagem entre marés, conflitualidades e vivências multiespécie no Recôncavo da Bahia
— Cíntia Beatriz Müller
— Cíntia Beatriz Müller
Fundamentado em dados empíricos registrados na Baía de Todos os Santos, área do Recôncavo da Bahia, este artigo propõe uma análise das socialidades e assembleias multiespécies que se emaranham em paisagens entremarés, abrangendo praias e manguezais, e com interseccionalidades que entrelaçam mulheres, negritude e religiosidades. O foco do artigo recai sobre as comunidades de moluscos, especialmente as ostras presentes na costa da baía, e suas interações com os seres humanos no ecossistema e em seu entorno, compondo comunidades negras e quilombolas. Nesse contexto, as ostras são consideradas espécies companheiras de pesquisa, acompanhando de modo transversal o trabalho de campo; desempenham o papel de espécie guardiã e nutriz de populações tradicionais, em especial quilombolas, quando identificam situações de conflito e agressão ao ecossistema decorrentes de intervenções intensificadas no Antropoceno. Ao adotar a perspectiva multiespécie na elaboração deste texto, busco descrever relações entre não humanos, humanos e entidades para além do humano (tais como seres encantados), enfatizando um ambiente constituído por linhas que se articulam e compõem múltiplos emaranhados de vidas, processos de arruinamento e práticas de resistência criativas entre espécies no Antropoceno.
-
Floresta Cultivada: As tecnologias sociais dos quilombos Sítio Coqueiro e Rio Verde (Guaraqueçaba-PR) como formas de arranjo ecológico e de resistência
— Filipe Silva Ribeiro, Rodolfo Bezerra de Menezes Lobato da Costa, Paulo Roberto Homem de Góes
— Filipe Silva Ribeiro, Rodolfo Bezerra de Menezes Lobato da Costa, Paulo Roberto Homem de Góes
As comunidades quilombolas Batuva (Sítio Coqueiro) e Rio Verde desenvolveram, entre o final do século XIX e a década de 1950, um arranjo ecológico que as permitiu resistir às pressões do mercado e da administração pública. Enquanto em grandes partes do estado do Paraná as monoculturas avançavam, as práticas tradicionais, além de produzirem uma identidade local própria, coproduziram uma floresta cultivada. A Serra do Gigante e seus arredores, região praticamente desconhecida dos centros administrativos e rotas comerciais, configurou-se como região estratégica para o estabelecimento de comunidades quilombolas, que buscaram nestas áreas de mata próximas à montante dos rios, de difícil acesso e navegação, locais de refúgio do sistema escravagista pós-abolição. Estas comunidades encontraram nesta região limítrofe entre os estados do Paraná e São Paulo, acessada até então quase que exclusivamente por comunidades indígenas Guarani, espaços propícios para poderem viver em relativa liberdade e consolidação de certa autonomia por meio de diferentes técnicas de manejo do solo, da floresta e dos rios. Buscaremos neste artigo, portanto, caracterizar a tradicionalidade dos modos de organização social das comunidades de nossa área de estudo. Apesar de possuírem identidades próprias, as duas comunidades, e outras da região, estão ligadas geográfica, econômica e socialmente. Para tal caracterização, faz-se relevante citar as tecnologias sociais compartilhadas no território, com destaque para a prática dos diversos arranjos ecológicos, sistemas de mutirão e outros patrimônios materiais e imateriais locais. Por tecnologias sociais estamos nos referindo a uma diversidade de saberes e práticas tradicionais desenvolvidos pelas comunidades em suas formas próprias de ocupação do território e de relação com o meio ambiente. Essas tecnologias também poderiam ser traduzidas como arranjos ecológicos que se adaptaram às diversas formas de violências a que foram submetidas, ou, também a um manejo de fauna e flora que manteve e constituiu a biodiversidade nos últimos cem anos. Nesse sentido, a "floresta cultivada" significa um conjunto de modos de trabalho coletivo ligados ao plantio de roçados e ao manejo do rio, aos diferentes tipos de técnicas de caça ou nas atividades lúdicas e de lazer. São essas práticas que compõem o que identificamos como patrimônio cultural destas comunidades, e que possibilitaram o seu estabelecimento nestas áreas de refúgio, floresta adentro.
-
Territorialidade, identidade e resistência: uma análise antropológica da Comunidade Quilombola Visão de Águia (Tocantins, Brasil)
— Renata de Castro e Silva, Maria Cecília g kayal, Claudia Inês Parellada, Schneidar Barbosa Guerreiro
— Renata de Castro e Silva, Maria Cecília g kayal, Claudia Inês Parellada, Schneidar Barbosa Guerreiro
Palavras-chave: Quilombo; antropologia social; etnografia.
Resumo: Este trabalho analisa a Comunidade Quilombola Visão de Águia, localizada em Chapada da Natividade (TO), a partir de uma abordagem antropológica centrada nas relações entre territorialidade, identidade coletiva e práticas de resistência. A condição quilombola é compreendida como socialmente construída, não restrita a critérios jurídico-formais, sendo produzida por meio de memórias partilhadas, práticas culturais e vínculos simbólicos com o território1,2. O território emerge como elemento central da experiência quilombola, articulando ancestralidade, reprodução cultural e conflitos associados à ausência de regularização fundiária e à atuação limitada do Estado3,4.
Metodologia: A pesquisa adotou abordagem qualitativa de natureza etnográfica, baseada na observação participante, entrevistas semiestruturadas e análise documental, permitindo compreender dinâmicas de pertença, organização comunitária e resistência cotidiana.
Resultados: Os resultados indicam que a organização comunitária estrutura a vida social e regula o pertencimento. Práticas culturais, como a Folia do Divino Espírito Santo e a dança da Sussa, constituem espaços centrais de sociabilidade e afirmação identitária. O território é percebido como espaço de memória e ancestralidade, mas também de vulnerabilidade frente à ausência de políticas públicas e à presença de atividades minerárias5.
Discussão e Conclusão: A identidade quilombola revela-se como construção relacional e dinâmica, produzida no cotidiano e atravessada por relações de poder1. A resistência manifesta-se sobretudo por meio de práticas ordinárias, da manutenção cultural e da organização comunitária, evidenciando a centralidade da territorialidade na afirmação identitária e na persistência dos modos de vida quilombolas6,4.
Referências
1 GONTIJO, L. A.; LEITE, M. M. G. Os quilombos e a superação da colonialidade moderna. 2020.
2 SILVA, A. F. P. V.; RIBEIRO, R. T. C. Estrutura social em comunidades quilombolas. 2023.
3 CARVALHO, G. S. Regularização fundiária dos territórios quilombolas. 2011.
4 TARREGA, M. C. V. B. Racismo institucional e direitos quilombolas. 2023.
5 DO AMARAL, G. B.; PEREIRA, C. M. R. B. Interseções entre território e identidade étnica. 2016.
6 BISPO DOS SANTOS, A. O racismo institucional e o acesso aos serviços de saúde. 2024.
-
Terra de Preto: cosmopolíticas quilombolas, meio ambiente e lutas no Sul do Brasil
— Thiago da Silva Santana, Emanuel Rocha de Matos
— Thiago da Silva Santana, Emanuel Rocha de Matos
Esta pesquisa analisa as cosmopolíticas quilombolas como práticas situadas de resistência e produção de vida diante das formas contemporâneas de racismo ambiental e dos conflitos intensificados pelas mudanças climáticas no contexto do Antropoceno, no estado de Santa Catarina. Com base em etnografia realizada em comunidades quilombolas do estado de Santa Catarina, no Sul do Brasil, o trabalho examina como a precariedade jurídica dos territórios e a exposição sistemática a riscos - como enchentes recorrentes, contaminação industrial e avanço de monoculturas invasoras - configuram processos de vulnerabilização multiescalar que expressam a persistência de assombrações coloniais empenhadas em transformar territórios negros em zonas de sacrifício. Em contraposição a essa necrológica territorial, a pesquisa demonstra como o cuidado se constitui como uma tecnologia ancestral e um operador cosmopolítico central, excedendo o âmbito do doméstico para articular memória, parentesco, espiritualidade e territorialidade. Argumenta-se que, para essas comunidades, o território não se reduz à condição de recurso ou base fundiária, mas se afirma como um corpo político-espiritual dotado de agência. Tal concepção emerge tanto nas narrativas locais, quanto nas práticas cotidianas de manejo, nas quais a limpeza de rios e a recuperação de solos reinscrevem formas de soberania negra anteriores e exteriores ao reconhecimento estatal, frequentemente em tensão com políticas públicas que produzem ou agravam perturbações na paisagem. No plano teórico, o artigo sustenta que as formas quilombolas de habitar e cuidar da terra tensionam a clivagem moderna entre natureza e sociedade, instaurando ontologias nas quais justiça ambiental, justiça ancestral e mobilização política são indissociáveis. Conclui-se que as tecnologias quilombolas do cuidado desestabilizam a gramática hegemônica do ordenamento territorial e oferecem alternativas concretas de continuidade histórica e de refazimento de mundo diante da crise socioecológica e da violência estrutural no Antropoceno.
Coordenação
Denise Fagundes Jardim (UFRGS)
Marcos Silva da Silveira (UFPR)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Waldemir Rosa (UNILA)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Waldemir Rosa (UNILA)
Sessão 3
Pessoa debatedora
Waldemir Rosa (UNILA)
O Racismo Institucional é um fenômeno político e o Racismo Estrutural toma uma dimensão econômica e histórica. A partir dessa consideração, a proposta reúne trabalhos sobre Racismo Estrutural e Racismos Institucionais em uma perspectiva antropológica. Reuniremos pesquisadores que examinam tais conceitos nas políticas públicas e na atuação de organismos não governamentais. Esses conceitos tem alcançado um uso amplificado na sociedade brasileira contemporânea, mas ainda figuram com declinações que abarcam situações de auto justificação e banalização dos racismos que buscam denunciar. Damos continuidade ao GT realizado na RBA de 2024, em que examinamos políticas afirmativas e ações de inclusão social, através das apreciações de pessoas beneficiadas pelas mesmas. Evidenciaram-se ali outras situações de discriminação negativa e preconceitos operacionalizados e que traziam à tona novas faces do racismo e das lutas por reconhecimento. É consenso de que o racismo possui uma dimensão individual, manifestada por algumas pessoas em algumas circunstâncias, mas é urgente dar atenção às dimensões institucionais, presentes em políticas públicas universalistas ou mesmo dificultando a implementação das próprias políticas reparatórias. O GT reúne trabalhos sobre racismo institucional em dois eixos:1) A Interseccionalidade e como o preconceito racial se articula com outras exclusões sociais; 2) A noção de branquitude e os processos contemporâneos de branqueamento e ocidentalização da população.
Títulos e Resumos
-
Trajetórias quilombolas na pós-graduação: desafios e conquistas no acesso e permanência de estudantes da região nordeste do Brasil.
— Ana Paula Comin de Carvalho
— Ana Paula Comin de Carvalho
Este trabalho apresenta os resultados parciais de minha pesquisa de pós-doutorado sobre trajetórias de pós-graduandos quilombolas nordestinos, questionando quais são os desafios enfrentados e avanços obtidos por eles para ingressar e persistir nos cursos? Nesse sentido, meu objetivo geral é identificar tais dilemas e conquistas, enquanto os objetivos específicos são: a) mapear os obstáculos de ordem pessoal, institucional e epistêmica que marcam as trajetórias dos quilombolas na pós-graduação e que estão vinculadas as diferentes expressões do racismo; b) conhecer as estratégias individuais e coletivas de enfrentamento a essas barreiras empregadas pelas (os) interlocutoras (os) e os seus efeitos; c) analisar as trajetórias acadêmicas das(os) entrevistadas (os) com ênfase no período da pós-graduação, rastreando disposições e suportes. Para dar conta das questões propostas, estamos realizando uma pesquisa qualitativa, de cunho etnográfico, que implica na realização de entrevistas narrativas episódicas (FLICK, 2002) para a construção de retratos sociológicos (LAHIRE, 2004). Nas entrevistas estamos focando em questões e momentos específicos de vivências para incitar a reflexão de nossas(os) interlocutoras (os) sobre tais temas e períodos, neste caso a pós-graduação, sem desconsiderar que tais experiências tem conexão com outras que lhe antecederam. Nosso intuito, ao reconstituir trajetórias individuais, é conectá-las aos quadros sociais que as configuraram, desenhando desse modo os retratos sociológicos. Este último é um dispositivo teórico metodológico de natureza biográfica, que emprega narrativas orais e outras expressões de um ator social para a recomposição do acervo de disposições dele, com o intuito de compreender como ele incorpora o social. Para analisar o percurso dos sujeitos empregamos os conceitos de disposições (LAHIRE, 2004) e suportes(MARTUCCELLI & SINGLY, 2012). Enquanto o primeiro se refere a maneiras persistentes de ser, resultantes de práticas socializadoras incorporadas que são recorrentes, o segundo diz respeito a rede de apoio e proteção mobilizada por nossas (os) entrevistadas (as) ao longo do tempo. Para localizar nossas (os) interlocutoras (es) estamos nos valendo de indicações da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ ), das orientandas quilombolas que possuo nos Programas Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFRB e de Antropologia da UFBA e de informações obtidas junto a coordenação dos programas de pós-graduação de diferentes áreas de conhecimento que foram pioneiros na introdução de vagas ou processos seletivos para quilombolas.
-
Itinerários legislativos da Lei do Racismo no Congresso Nacional
— Cyntia Cristina de Carvalho e Silva
— Cyntia Cristina de Carvalho e Silva
Este artigo analisa os discursos parlamentares produzidos no itinerário legislativo da Lei nº 7.716/1989 (Lei do Racismo), com foco na atuação da branquitude como posição dominante no Congresso Nacional. A partir de uma abordagem socioantropológica do Estado e do direito, o trabalho examina como a produção normativa em torno do racismo foi atravessada por disputas discursivas que limitaram o alcance político e simbólico da criminalização da discriminação racial no Brasil.
O estudo se ancora na etnografia documental do processo legislativo da Lei do Racismo e de suas alterações subsequentes, que inclui os debates parlamentares, relatórios, votos e substitutivos que marcaram a elaboração e as sucessivas modificações da Lei do Racismo, mobilizando a análise de discursos parlamentares proferidos ao longo de mais de três décadas, desde a elaboração da Lei Caó em 1987 até 2022.
Parte-se da premissa de que o processo legislativo não se resume a um procedimento formal, mas constitui um espaço privilegiado de produção de sentidos, no qual se expressam representações sociais, hierarquias raciais e estratégias de manutenção do poder.
A análise evidencia que, embora o racismo tenha sido formalmente reconhecido como crime, os discursos predominantes no Congresso Nacional operaram reiteradamente para esvaziar sua gravidade social. A branquitude manifesta-se, nesse contexto, por meio de padrões recorrentes de argumentação, tais como a minimização do racismo como desvio individual, a recusa em reconhecê-lo como fenômeno estrutural, a invocação seletiva de princípios jurídicos abstratos — como a individualização da pena e a liberdade de expressão — e a resistência à ampliação dos tipos penais e das formas de responsabilização.
Esses discursos produzem efeitos concretos no desenho normativo da Lei do Racismo, contribuindo para sua fragmentação, para a hierarquização interna das condutas criminalizadas e para sua baixa eficácia social. Ao longo do itinerário legislativo, observa-se a permanência de uma lógica que preserva privilégios raciais ao mesmo tempo em que desloca o racismo para uma posição marginal no sistema penal, contrastando com outras agendas que lograram maior densidade normativa e institucional.
Ao evidenciar como a branquitude estrutura os limites do dizível e do pensável no campo legislativo, o artigo contribui para os debates antropológicos sobre racismo institucional, produção legislativa e Estado, oferecendo uma leitura crítica da Lei do Racismo como produto de relações sociais racializadas e como expressão de um poder que se exerce tanto pelos ditos quanto pelos silêncios.
-
Labirinto interseccional: análise das desigualdades de gênero e raça no ensino superior a partir das trajetórias profissionais de docentes negras na Universidade de Brasília (UnB)
— Érika Costa Silva
— Érika Costa Silva
A presente proposta de trabalho apresenta resultados parciais da minha dissertação de mestrado cuja pesquisa versou sobre o tema das desigualdades de gênero e raça na carreira docente. A Universidade de Brasília (UnB) – locus da investigação – é reconhecida pelo seu pioneirismo, pois foi uma das primeiras universidades públicas federais a adotar ações afirmativas para ingresso na graduação. Passado mais de quinze anos de implementação das ações afirmativas, o corpo discente da instituição tornou-se mais plural.
Porém, essa mudança não alterou a composição do quadro docente da universidade. No ano de 2019 mulheres negras docentes representavam cerca de 7% do total de um universo de 2.785 docentes da instituição. Tais dados revelam as desigualdades de gênero e raça na participação das mulheres negras na docência de ensino superior da UnB. Por meio de entrevistas semiestruturadas realizadas com treze docentes de distintas áreas do conhecimento, investiguei a trajetória de formação profissional, o acesso à docência de ensino superior e o labirinto interseccional presente na carreira docente.
Historicamente as instituições científicas foram configuradas pelo ethos masculino, branco e eurocêntrico. Esta configuração também formatou as instituições universitárias no Brasil. Os estudos de gênero, ciências e tecnologias trouxeram importantes contribuições para a compreensão da participação das mulheres nas carreiras científicas brasileiras, contudo, sem refletir sobre a inclusão das mulheres negras na ciência. Mediante a abordagem interseccional, investiguei o processo de tornar-se docente, os desafios no exercício profissional e as resistências elaboradas pelas mulheres autodeclaradas negras, docentes na UnB.
As instituições de ensino são lugares que não estão isentos da reprodução de dinâmicas sociais demarcadas pelo gênero, pela raça e por outros marcadores sociais que produzem opressões interseccionais. As imagens de controle objetivam a subalternização das mulheres negras e funcionam como gramática que orientam as ações dos agentes sociais pertencentes à comunidade acadêmica. Tal imaginário social articulado ao racismo institucional afeta o cotidiano profissional das docentes entrevistadas, impossibilitando assim, o reconhecimento enquanto doutora e docente do ensino superior.
Portanto, identifiquei como as dimensões de gênero e raça constituem obstáculos enfrentados pelas docentes durante a formação profissional e após a ascensão ao cargo. A travessia de tornar-se docente foi marcada pelas estratégias de resistência elaboradas pelas interlocutoras da pesquisa e constituem formas de subjetivação para a permanência na carreira docente.
-
Qual fé pode ser fiscalizada?: racismo religioso e perseguição às religiões afro-brasileiras
— Evelyn Marcele, Lina Dèlé Nunes
— Evelyn Marcele, Lina Dèlé Nunes
Esta comunicação é parte de uma pesquisa realizada para o mestrado em Ciências Sociais na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), o estudo analisou um caso de fiscalização por supostos maus-tratos a animais ocorrido em um terreiro afro-brasileiro na cidade de Aracaju (SE), tomando esse episódio como chave analítica para discutir o racismo religioso no Brasil. O caso desencadeou uma controvérsia pública que mobilizou diferentes atores sociais e instâncias do Estado, alcançando o Supremo Tribunal Federal em debates sobre liberdade religiosa, direito ao culto e proteção animal. Argumenta-se que tal episódio não pode ser compreendido como um evento isolado, mas como expressão de um histórico mais amplo de perseguição às religiões afro-brasileiras, sustentado por práticas institucionais e por estruturas sociais marcadas pela racialização da diferença religiosa. Partindo da compreensão de que o racismo institucional se manifesta como um fenômeno político, inscrito nas ações e rotinas estatais, e que o racismo estrutural assume uma dimensão econômica e histórica, a pesquisa adota uma perspectiva antropológica para examinar os conflitos em torno da sacralização animal e da atuação dos órgãos de fiscalização. Nesta perspectiva, concluiu-se que o caso representa um evento contemporâneo que reverberar situações históricas de perseguição às religiões afro-brasileiras e reforçam o racismo religioso. O referencial metodológico mobiliza a teoria da justificação, no âmbito da sociologia dos problemas públicos e das abordagens críticas e pragmáticas francesas, acompanhando as justificativas produzidas por agentes públicos, representantes religiosos e operadores do direito. A análise evidencia como discursos universalistas, como a defesa da legalidade administrativa ou da proteção animal, podem operar de forma seletiva, produzindo e legitimando desigualdades raciais e religiosas.
-
Do vidro ao concreto: configuração das dinâmicas de desigualdade de gênero e raça no serviço público do Distrito Federal
— Jalisson Carvalho
— Jalisson Carvalho
O presente artigo tem como objetivo analisar a configuração das desigualdades de gênero e raça no serviço público do Distrito Federal, investigando as trajetórias de mulheres negras que, apesar de acessarem a burocracia estatal, enfrentam barreiras estruturais para a ascensão profissional. A relevância do estudo reside na contradição do cenário atual: embora mulheres e pessoas negras constituam a maioria numérica do funcionalismo público brasileiro, observa-se uma nítida segregação vertical, onde mulheres negras ocupam a base da pirâmide e recebem os menores rendimentos médios, enquanto homens brancos dominam os cargos de direção e assessoramento (DAS).
Fundamentado na teoria da interseccionalidade (Crenshaw, 1989; Gonzalez, 1984; Collins & Bilge, 2021; Collins, 2022), o trabalho examina como as desigualdades de gênero e raça se articulam para criar obstáculos que vão além do "teto de vidro" enfrentado por mulheres brancas, configurando-se, para as mulheres negras, como um "teto de concreto" ou barreiras mais rígidas e opacas. O artigo contextualiza historicamente a educação como principal mecanismo de mobilidade social e resistência da população negra, desde a atuação da Imprensa Negra e da Frente Negra Brasileira até o Teatro Experimental do Negro, até a implementação das Leis de Cotas (12.711/2012 e 12.990/2014), que foram decisivas para "dessenhorizar" (Borges; Bernardino-Costa, 2022) as universidades e os quadros estatais.
Metodologicamente, a pesquisa apoia-se em uma abordagem qualitativa através de entrevistas semiestruturadas com quatro servidoras negras do DF (Valéria, Kátia, Deise e Maria). As interlocutoras, portadoras de altos títulos acadêmicos (mestrado e doutorado) e ocupantes de cargos em diferentes esferas (educação, justiça e tecnologia), relatam trajetórias marcadas pela migração para Brasília e pelo papel central do incentivo familiar e das políticas afirmativas em seu ingresso.
Os resultados apontam que a alta qualificação e a aprovação em concurso público embora garantam a entrada não blindam essas mulheres contra o racismo. As narrativas evidenciam o isolamento profissional (sendo muitas vezes a única negra no setor), o questionamento constante de suas competências técnicas e a dificuldade de acesso aos círculos de poder, protegidos pelo que se define como o "pacto narcísico da branquitude".
Conclui-se que o Estado brasileiro, ao mesmo tempo que oferece canais de mobilidade, reproduz hierarquias simbólicas que confinam a mulher negra a lugares subalternos. O artigo propõe que as ações afirmativas, cruciais para o acesso, precisam ser expandidas para políticas de permanência e ascensão, visando romper o concreto que impede a diversidade no núcleo estratégico de decisão governamental.
-
A "(re)cientifização da raça": os manejos da antropologia e do direito no discurso anti bancas de heteroidentificação racial.
— Mauro Anderson Baracho
— Mauro Anderson Baracho
Mais de 20 anos depois da implementação da lei de cotas no Brasil, as politicas de ação afirmativa direcionadas à população negra voltaram a ser destaque no debate racial brasileiro. Desta vez, as discussões se direcionam à atuação das comissões de heteroidentificação racial implementadas no final da segunda década dos anos 2000, para coibir fraudes. As bancas, como também são conhecidas, atuam como procedimento complementar a autodeclaração racial, partindo da premissa de que a autodeclaração racial goza de veracidade relativa. Segundo seus críticos, as bancas estariam, deliberadamente, prejudicando candidatos "pardos" e obstando seu acesso à universidade, o que os faz judicializar a decisão proferida pelas comissões de heteroidentificação racial. Este trabalho tem como objetivo analisar o "mercado dos indeferimentos", que surge em consonância com os casos denunciativos midiáticos sobre candidatos autodeclarados pardos indeferidos pelas comissões de heteroidentificação racial. Este nicho mercadológico é formado por advogados e antropólogos que trabalham em conjunto na produção de provas que atestariam a cor/raça do candidato indeferido. Problematizo as provas produzidas por estes profissionais, entendendo que elas remetem a práticas de aferição racial praticadas no século XIX. Refiro-me a estas práticas como "recienfitização da raça". Para tal, proponho a análise de entrevistas, conduzidas por mim, com advogados deste meio, bem como a analise dos chamados "laudos antropológicos" produzidos por antropólogos e apresentados pelos advogados à justiça como forma de provar a condição racial de seus clientes. Os laudos, aos quais tive acesso, fazem uso de métodos de identificação racial que estão em desacordo com a concepção de raça sociológica, optando por uma abordagem mais biológica de raça. Por fim, reflito sobre os impactos negativos deste tipo de abordagem tanto para o debate racial quanto para a politica de cotas raciais, que podem provocar mais animosidade contra as politicas de promoção da igualdade racial, e um retrocesso na luta antirracista.
Palavras chave: Cotas raciais; Ação afirmativa; Antirracismo; Pardo.
-
Novos Corpos, Velhos Códigos: Diálogos Intergeracionais e Disputas de Sentido no Vestibular 60+.
— Maysa Lannah, Marina Ribeiro Souza Santos Reis, Luciana Rika Ito
— Maysa Lannah, Marina Ribeiro Souza Santos Reis, Luciana Rika Ito
​A expansão do acesso ao ensino superior no Brasil, especialmente nas universidades públicas, só é efetivamente possível quando acompanhada por políticas de inclusão como as cotas raciais, que buscam não apenas corrigir desigualdades históricas, mas também transformar o espaço universitário em um campo mais plural e representativo. Essas políticas operam como dispositivos que reconfiguram as fronteiras simbólicas, desestabilizando a normatividade de um perfil estudantil historicamente homogêneo.
​Este artigo analisa o Vestibular 60+ da Universidade de Brasília, fundamentando-se metodologicamente no diálogo com três interlocutores, cujas narrativas e experiências vividas oferecem a densidade necessária para compreender os sentidos atribuídos a essa política. Sob uma lente antropológica, a inclusão de pessoas idosas é lida como uma ruptura com a linearidade das biografias acadêmicas, desafiando noções normativas de tempo, produtividade e juventude.
​Através das vozes e da agência desses sujeitos, emergem os obstáculos intrínsecos ao cotidiano universitário: a adaptação a um universo cultural distinto, as tensões da intergeracionalidade e a persistência de preconceitos naturalizados. A universidade, enquanto espaço culturalmente construído, revela códigos e práticas que muitas vezes não legitimam trajetórias oriundas de contextos marginalizados. Conclui-se que as políticas de inclusão não operam no vazio; elas se materializam em um campo de disputas simbólicas onde a presença desses três sujeitos e suas histórias tensionam e redefinem o que significa habitar a academia.
-
Mapeando a antropologia negra no/do Mato Grosso do Sul: perspectivas de discentes e egressos negros em cursos de pós-graduação
— Milena Oliveira da Silva
— Milena Oliveira da Silva
Este pré-projeto de pesquisa tem o propósito mapear a Antropologia Negra nos
Programas de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS) da Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul e em Antropologia Sociocultural (PPGAnt) da Universidade Federal Da
Grande Dourados, no estado do Mato Grosso do Sul, realizando um mapeamento e
interpretação da trajetória e as contribuições de discentes e egressos negros para a atual
situação da Antropologia Negra no estado. Este estudo ressalta a necessidade de uma postura
política contracolonial e intercultural na produção de conhecimento. A uma pergunta que
pretende ser respondida no trabalho "Como a presença de antropólogos negros impacta os
programas de mestrado em antropologia no Mato Grosso do Sul, mesmo quando suas
pesquisas não se concentram na temática racial?"
-
Desestabilizando a branquitude: notas reflexivas sobre processos institucionais e ações afirmativas no campo da saúde pública
— Nádia Heusi Silveira
— Nádia Heusi Silveira
Esta comunicação discute, sob uma perspectiva antropológica, a experiência de implementação de uma política afirmativa no estado do Rio Grande do Sul. Trata-se de um serviço, conduzido por uma equipe multiprofissional, cuja finalidade é favorecer o acesso e a permanência de cursistas beneficiários de ações afirmativas em especializações na área da saúde pública, no âmbito do SUS. A reflexão se desdobra de inquietações e provocações relativas à proposição de medidas institucionais que fomentem processos de inclusão de pessoas com deficiência, negras, indígenas e LBTQIA+, que orientam o trabalho da equipe. Busca-se evidenciar a potencial produção de exclusão embutida em certos dispositivos institucionais, muitas vezes considerados atividades meramente técnicas nas rotinas de trabalho. Para isso, toma-se como ponto de partida a categorização weberiana da burocracia estatal. Processos de trabalho, balizados por interfaces com os campos administrativo e jurídico, constituem o material para abordar racismo institucional, tendo em vista tensões entre legalidade e legitimidade nas práticas político-institucionais. A discussão pretende delinear uma abordagem implicada que relacione branquitude e institucionalização de ações afirmativas.
-
Ação Afirmativa em perspectiva comparada: os casos do Brasil e da África do Sul
— Paulo Sérgio da Costa Neves, Laura Moutinho
— Paulo Sérgio da Costa Neves, Laura Moutinho
A partir da comparação dos debates sobre as ações afirmativas em dois países do Sul Global, a saber, Brasil e África do Sul, buscaremos apreender como as ações afirmativas são mobilizadas para discutir as desigualdades sociais, o racismo e as percepções de justiça em cada sociedade. Com efeito, partimos do pressuposto de que as políticas voltadas para públicos considerados historicamente discriminados e subalternizados (tais como negros, povos indígenas, pobres, dentre outros) mobilizam não apenas imaginários sociais arraigados sobre esses grupos como também os modelos de sociedade em disputa em cada contexto nacional. Afinal, o que significa uma sociedade justa em cada uma dessas conjuntura? Além disso, tentaremos mostrar como o modo como as ações afirmativas foram implantadas no Brasil e na África do Sul diz muito sobre as relações de força e de poder nesses países em termos de classes sociais, grupos étnico-raciais e movimentos sociais, uma vez que as reivindicações por políticas públicas que combatam as desigualdades inspiram debates redistributivos intensos. Assim, o movimento estudantil na África do Sul (sobretudo durante os movimentos #RhodesMustFall e #FeesMustFall entre 2015 e 2017) e o movimento negro no Brasil tiveram um papel fundamental para o aprofundamento das discussões sobre as desigualdades que permeiam as duas sociedades e para a necessidade de uma ação do Estado para reduzir essas disparidades. O que tem gerado resistências de diversos grupos, que se manifestam inclusive no interior do Estado e no modo como essas políticas são implementadas. Comparar essas duas realidades pode ser, pois, um meio para discutirmos caminhos possíveis para lutarmos contra as desigualdades em contextos marcados por tendências econômicas e políticas globais que tendem à concentração de riqueza e de crescimento da pauperização dos mais desmunidos.
-
Nós quem? Entre silenciamentos, insubmissões e a emergência da Antropologia Negra no Brasil
— Rodrigo dos Santos Bispo
— Rodrigo dos Santos Bispo
Após as políticas de ações afirmativas no ensino superior, tornou se impossível negar o acesso de corpos marcados; porém, as violências racistas passaram a atuar na invalidação de saberes negros. A este processo, a filósofa Sueli Carneiro chama de epistemicídio (2005), e a exclusão desses saberes também afeta os sujeitos produtores desses conhecimentos, conforme descrito pela antropóloga Luciana de Oliveira Dias com o conceito de ontoepistemicídio (2020). Entendendo o ambiente universitário como um espaço privilegiado de produção e reprodução das hierarquias sociais, o estudo e a reflexão crítica sobre as dinâmicas desse espaço tornam-se centrais para os anseios de uma universidade verdadeiramente inclusiva e é nesse contexto que se insere esta comunicação. O presente resumo está relacionado aos trabalhos de iniciação à pesquisa que começaram no ano de 2023. A investigação partiu de um mapeamento do campo da Antropologia a fim de verificar as presenças/ausências de agências e autorias negras nos planos de ensino das disciplinas de Pós-Graduação em Antropologia, analisando sua contribuição para o ensino-aprendizagem do conhecimento antropológico. Para tanto, foram selecionadas dez universidades para estudo mais aprofundado, sendo elas: Universidade de Brasília (UnB), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal da Bahia (UFBA), Universidade Federal de Goiás (UFG), Universidade Federal do Pará (UFPA), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Observando os planos de ensino das disciplinas ministradas nos períodos 2022/1, 2022/2, 2023/1 e 2023/2, coube, a partir deles, organizar e levantar obras que contam com agências e autorias negras, a fim de caracterizar e localizar a Antropologia Negra no Brasil. Acerca dos planos de ensino levantados, confirma-se a tendência de sub-representação de agências e autorias negras, fruto de um racismo epistêmico (Gonzalez, 1979). Quando representadas, esta ocorrência se dá por meio de textos complementares ou em disciplinas não obrigatórias. Sobre os textos de principal circulação de autoria negra e fundamentados em um saber-fazer antropológico negro, observa-se que são, em sua maioria, de autoria de não antropólogos, o que implica em baixo reconhecimento na área. Para o delineamento da Antropologia Negra, foi necessário levantar também instâncias que contribuem para a produção desse campo, tais como grupos de pesquisa com enfoque nas relações étnico-raciais.
-
Repercussões das ações afirmativas na trajetória de mulheres negras no ensino superior
— Stefany da Silva Guimarães, Rodrigo dos Santos Bispo, Marina Tainá Santos Rêgo
— Stefany da Silva Guimarães, Rodrigo dos Santos Bispo, Marina Tainá Santos Rêgo
O acesso à educação é marcado por uma série de restrições de ingresso ao ambiente acadêmico voltado, especialmente, para a população negra brasileira. Para promover a ocupação do espaço universitário de maneira igualitária, foram criadas políticas como as ações afirmativas. Ainda assim, o ambiente acadêmico apresenta desafios à população negra em geral e para mulheres negras em particular, quando observada a intersecção entre classe, raça e gênero. Entretanto, mulheres negras seguem (re)existindo nesse espaço restrito. Assim, o que se busca com esta comunicação é compreender como as pesquisas demonstram o impacto das ações afirmativas na trajetória de mulheres negras. O objetivo, portanto, é analisar as pesquisas de várias áreas do conhecimento que abordam as ações afirmativas. Através da revisão de artigos selecionados no Portal de Periódicos da CAPES, busca-se captar o papel das ações afirmativas no percurso acadêmico das mulheres negras cujas experiências foram refletidas nas pesquisas. O levantamento foi realizado com o uso das palavras-chave "mulheres negras" e "ações afirmativas". Além disso, foi realizado o recorte temporal de 2016 a 2026, tendo em vista que o aumento do acesso de mulheres negras ao ensino superior tem como marco a implementação da Lei nº 12.711/2012, que institui nacionalmente a política de cotas raciais no país. Os critérios de seleção iniciais dos artigos foram a leitura do título e dos resumos alinhados ao objetivo geral. Foram excluídas revisões bibliográficas. A análise dos trabalhos selecionados foi feita a partir da teoria feminista negra, evidenciando conceitos como o de interseccionalidade e o de autodeterminação. Acredita-se, com isso, encontrar evidências textuais de um impacto limitado das políticas de ações afirmativas: exitosas no acesso, mas ainda insuficientes para garantir a permanência, a diplomação e o êxito acadêmico. Tal constatação demonstraria que a universidade ainda atua como reprodutora de lógicas de exclusão orientadas pelo racismo sistêmico.
-
Entre dores e resistências: experiências de pessoas com Doença Falciforme na Paraíba
— Uliana Gomes da Silva
— Uliana Gomes da Silva
Este trabalho dialoga sobre as pessoas com Doença Falciforme (DF) no estado da Paraíba, destacando a construção do cuidado e a luta pela vida em uma sociedade que impõe obstáculos e silenciamentos diante do adoecimento. Trata-se de uma reflexão derivada da tese de doutorado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal da Paraíba, intitulada Minha companheira de vida: uma etnografia sobre estratégias de cuidado e itinerários de negligência com pessoas com Doença Falciforme no estado da Paraíba. A DF, reconhecida como a doença genética de maior prevalência no Brasil e considerada questão de saúde pública (Diniz; Guedes; Trivelino, 2005), configura-se como condição crônica que exige adaptações cotidianas e cuidados permanentes (Silva, 2013), sendo sua vivência marcada por processos de aprendizado e adequação social (Silva, 2016). Predominante na população negra, sua disseminação no Brasil decorre de mutação genética ocorrida no continente africano e introduzida pelo processo de escravidão (Werneck, 2016). Nesse contexto, Werneck (2016) evidencia o racismo institucional como dimensão estrutural e negligenciada, responsável por perpetuar desigualdades por meio da exclusão seletiva de grupos racialmente subordinados, o que reforça a intersecção entre doença falciforme, saúde pública e ideologia racista. Conforme as interlocutoras e os interlocutores, viver com a Doença Falciforme significa enfrentar constantes batalhas por atendimento, garantia de direitos e valorização da vida. Essa experiência é marcada por uma duplicidade de dores: as dores físicas e emocionais decorrentes do adoecimento e aquelas provocadas pelo racismo. Em uma sociedade que insiste em negar seu caráter racista, mas que se organiza para desvalorizar e asfixiar a população negra, as pessoas com Doença Falciforme são submetidas a uma realidade de exclusão e invisibilidade. As participantes da pesquisa mobilizam-se cotidianamente, em dimensões individuais e coletivas, a exemplo da Associação Paraibana de Portadores de Anemias Hereditárias (ASPPAH), para enfrentar os desafios impostos pelo racismo estrutural e institucional. Suas manifestações traduzem a luta por condições dignas de existência, ao mesmo tempo, em que denunciam negligências históricas e reivindicam a implementação de políticas públicas efetivas. Nesse cenário, associações de pessoas com Doença Falciforme desempenham papel central ao sensibilizar a sociedade sobre as implicações do racismo em suas trajetórias de vida e ao demandar políticas públicas qualificadas que assegurem o direito ao cuidado integral e à plena valorização da vida.
-
Por uma Antropologia Negra no Brasil: Documentação de agências e autorias de pessoas negras na antropologia.
— William Douglas Ferraz De Lima, Luciana de Oliveira Dias
— William Douglas Ferraz De Lima, Luciana de Oliveira Dias
Este trabalho apresenta resultados de uma pesquisa de iniciação científica dedicada à documentação de agências e autorias de pessoas negras na Antropologia brasileira. A investigação, desenvolvida entre 2023 e 2025, consistiu no levantamento e análise dos planos de ensino dos Programas de Pós-Graduação em Antropologia de dez universidades públicas, com foco nas bibliografias das disciplinas obrigatórias e optativas. Foram examinados 224 planos de ensino, a partir da identificação do pertencimento étnico-racial, de gênero, nacionalidade e formação das/os autoras/es negras/os referenciadas/os, bem como do corpo docente. Os resultados parciais indicam que, embora 45% das disciplinas incluam autorias negras, apenas 5% apresentam mais de dez referências desse tipo, revelando a persistência de assimetrias na circulação e legitimação dos saberes no campo antropológico. A análise dialoga com o conceito de dispositivo de racialidade (Carneiro, 2005) e com as noções de epistemicídio e ontoepistemicídio (Carneiro, 2005; Dias, 2020), evidenciando como o racismo estrutura a formação acadêmica e a produção do conhecimento. Apesar disso, o trabalho destaca as agências de intelectuais negras/os como práticas de resistência que tensionam o cânone disciplinar e ampliam as possibilidades de uma Antropologia Negra no Brasil.
Coordenação
Antonella Maria Imperatriz Tassinari (UFSC)
Felipe Tuxá (UFBA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Silvia Lopes da Silva Macedo (UPEC)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Silvia Lopes da Silva Macedo (UPEC)
Este GT pretende aprofundar a discussão sobre regimes de conhecimentos indígenas, convidando trabalhos que abordem diferentes formas de gerenciar o conhecimento na interação social, o que articula conceitualizações de “conhecimento”, relações sociais envolvidas na sua produção, obtenção, manutenção, circulação e transformação. Considera que, nas últimas décadas, a Etnologia Indígena vem se abrindo para a compreensão de diversificados modos de transações de conhecimentos, mobilizando redes locais e extra-locais, humanas e não-humanas. Estudos sobre corporalidade e produção da pessoa, sobre transações de conhecimentos através de sonhos ou estados alterados de consciência, sobre conhecimentos transmitidos através da oralidade ou de forma não verbal (por meio de sons, motivos gráficos, coreografias ou outros), a relação dos conhecimentos com a territorialidade e com o manejo ambiental, são alguns temas que vêm sendo explorados por etnografias atentas aos regimes indígenas de conhecimentos. Também interessa compreender como esses temas se articulam com experiências de escolarização indígena ou com a atuação indígena no Ensino Superior, a partir de propostas de educação intercultural que respeitem “processos próprios de aprendizagem”, como prega a legislação. As implicações políticas e os perigos cosmológicos relacionados à aquisição e circulação de conhecimentos exógenos também merecem destaque.
Títulos e Resumos
-
Saberes outros, outros donos de saberes, outros modos de conhecer: transações de conhecimentos e alteridade entre povos indígenas
— Antonella Maria Imperatriz Tassinari
— Antonella Maria Imperatriz Tassinari
A comunicação pretende refletir sobre formas indígenas de transações de conhecimentos e seus vínculos com a alteridade, com base em pesquisa bibliográfica preliminar e na experiência etnográfica junto aos povos indígenas do Oiapoque. Inspira-se na Antropologia do Conhecimento proposta por Fredrik Barth e desenvolvida em vários dos seus trabalhos (1975, 1987, 1995), atenta para diferentes formas de gerenciar o conhecimento na interação social, o que articula conceitualizações de conhecimento, relações sociais envolvidas na sua obtenção, manutenção e circulação e acaba gerando diferentes moldagens de tradições.
Barth (2000) compara a figura do iniciador Melanésio, detalhada nos textos anteriores, com o guru do Sudeste Asiático, para pensar como diferentes modos de transações de conhecimentos geram diferentes moldagens de tradições. É nesse diálogo que proponho pensar em outras formas de gerenciar conhecimento nas Terras Baixas da América do Sul, que podem encontrar semelhanças, mas não se conformam apenas às figuras do guru e do iniciador e que merecem ser reconhecidas em seus próprios termos. A proposta não é estabelecer comparação com os modelos do sudeste Asiático e da Melanésia propostos por Barth, mas se inspirar na sua análise sobre transações de conhecimentos para refletir sobre os regimes de conhecimentos nas chamadas Terras Baixas da América do Sul e, se possível, suas implicações nas moldagens de tradições.
Para tanto, também me apoio em análises comparativas elaboradas no final do século XX, com o intuito de sistematizar a literatura que vinha se acumulando sobre a região nos campos da construção da pessoa (Seeger, Da Matta e Viveiros de Castro 1978), do pensamento sócio-político (Overing 1983/1984) e do parentesco (Viveiros de Castro 1993). O primeiro trabalho aponta a necessidade de se construírem modelos próprios às sociedades sul-americanas, deixando de usar modelos construídos em outros continentes como referências. Os dois últimos exploram formas locais de conceitualizar a diferença, a alteridade e a afinidade, associadas tanto ao perigo quanto à possibilidade da reprodução social.
A partir de alguns exemplos etnográficos, argumento que as formas indígenas de transações de conhecimentos nas Terras Baixas da América do Sul privilegiam o estabelecimento de relações com a alteridade e a exterioridade, incluindo outros relativos às estruturas locais de parentesco (afins mais ou menos distantes), outros relativos às redes extra-locais (outros grupos indígenas e populações não-indígenas, organizações governamentais e não-governamentais), outros não-humanos (mortos, espíritos, animais, plantas).
-
Vozes e Caminhos: a articulação de saberes indígenas e o protagonismo feminino na Universidade
— Edilene Alves da Silva
— Edilene Alves da Silva
Este trabalho discute a complexa articulação de conhecimentos indígenas e as interações resultantes no ambiente acadêmico a partir das trajetórias de estudantes indígenas que ingressaram em cursos de graduação na Unicamp. Os resultados, obtidos a partir da pesquisa de mestrado da proponente, adotam uma abordagem qualitativa e etnográfica, baseada em entrevistas semiestruturadas realizadas com 32 estudantes indígenas de diferentes etnias e áreas do conhecimento. As entrevistas ocorreram em dois momentos, no início da graduação a partir de 2019 e nos anos finais do curso entre 2022 e 2023, permitindo apreender
transformações nas experiências, nos posicionamentos e nas formas de mediação entre mundos sociais distintos. A partir desse material, foram construídos 22 retratos sociológicos, entendidos aqui como narrativas etnográficas contextualizadas. Para este evento, elencamos um retrato sociológico específico que analisa a trajetória de
Melissa (nome fictício), mulher indígena do Alto Rio Negro, no Amazonas. Sua experiência evidencia como os saberes e vivências de sua comunidade de origem, marcados por uma escola integrada à vida comunitária e pela coexistência de múltiplas línguas e espiritualidades, contrastam e dialogam com o regime de conhecimento universitário. Ao ingressar na Unicamp, Melissa confronta expectativas e temores relacionados ao preconceito, bem como a ausência de professores e temáticas indígenas no currículo. Sua experiência sublinha a desarticulação entre o conhecimento acadêmico e as realidades indígenas.
A trajetória de Melissa é atravessada por experiências de estereotipação, micro agressões, disputas de protagonismo acadêmico e situações de vulnerabilidade relacionadas às violências de gênero. Em resposta, ela desenvolve formas próprias de enfrentamento e empoderamento, mobilizando o conhecimento acadêmico como ferramenta de ativismo, especialmente na defesa dos direitos das mulheres indígenas e na atuação em coletivos. O trabalho incorpora ainda uma dimensão auto reflexiva, na medida em que a autora, doutoranda indígena em Educação na Unicamp, mobiliza sua própria trajetória como parte do
processo analítico. Evidenciam-se, assim, os modos pelos quais estudantes indígenas produzem ressignificações, deslocamentos e novas formas de habitar o espaço universitário, bem como as implicações sociais e políticas dessas experiências para a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo.
-
A curricularização da História e da Cultura Indígena: reflexões sobre os dispositivos legais e da abordagem obrigatória na Educação Básica a partir da formação de professores na UFAC
— Elcio Severino da Silva Filho Manchineri
— Elcio Severino da Silva Filho Manchineri
Este texto apresenta reflexões sobre os dispositivos legais que exigem a abordagem, na Educação Básica, de conteúdos relacionados a história e a cultura afro-brasileira e indígena a partir do processo de formação de professores desenvolvido no âmbito da Universidade Federal do Acre. Para isso, analisamos a presença de elementos relacionados com a temática em tela nas estruturas curriculares dos cursos de licenciatura, da Ufac, pois acreditamos que a efetivação da abordagem na Educação Básica perpassa o processo de formação inicial desenvolvido na Universidade. Inicialmente queremos destacar que a abordagem dos dispositivos legais, aos quais nos referimos, pauta-se no texto da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, da Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 e na Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008, que estabeleceu há pelo menos quinze anos, as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. A partir deste último dispositivo é que efetivamente a história e a cultura indígena passam a ser, obrigatoriamente, elementos do currículo da educação básica.
Isto posto cabe parafrasear Myrian Krexu (2020) quando indica que os povos indígenas não são aqueles dos livros de história, porque os livros de história não foram escritos pelos povos indígenas. Talvez seja essa a reflexão inicial que precisa ser realizada por aqueles que atuam na formação de professores e por aqueles que, como professores formados, irão abordar a temática em sala na educação básica. Ela nos apresenta muito do que se espera dessa obrigatoriedade de abordagem, especialmente, em relação à forma e ao enfoque.
Além disso, essa breve frase sintetiza aquilo que, de um lado, queremos, ao longo do texto, apresentar com o intuito de instigar o leitor a pensar ou repensar aspectos sobre as percepções da aplicabilidade da Lei 11.645/2008, nas instituições escolares, nos diferentes níveis, educação infantil, ensino fundamental e médio, nos sistemas público e privado e ainda nas diferentes modalidades de oferta. De outra banda, tem-se a necessidade de refletir, ainda, sobre aquilo que se espera da formação superior ofertada nas universidades, e, principalmente, nos cursos de licenciatura.
Para isso, desenvolvemos um trabalho de abordagem qualitativa, caracterizado como pesquisa bibliográfica, por meio da qual elaboramos algumas perguntas retóricas e a partir delas construímos nossas reflexões e tecemos nossas críticas.
-
Ficções e fricções: "saberes indígenas", a universidade e outras histórias
— Felipe Sotto Maior Cruz
— Felipe Sotto Maior Cruz
O presente trabalho reflete sobre as condições de valorização, reconhecimento e circulação dos conhecimentos indígenas no interior das universidades. Parte dos debates contemporâneos sobre o antropoceno e a crise climática como pontos de inflexão no imaginário global, nos quais os conhecimentos indígenas passam a ocupar uma posição estratégica nas reflexões sobre sustentabilidade, territorialidade e modos de vida. Concomitantemente, considera os diversos projetos indígenas de institucionalização de seus conhecimentos em espaços acadêmicos, protagonizados por distintos povos nas últimas décadas, ressaltando o interesse em ocupar universidades e pautar agendas próprias, como evidenciam iniciativas recentes em torno da criação de uma Universidade Indígena no Brasil.
Com o objetivo de refletir sobre a polissemia atribuída aos enunciados indígenas — tanto em seus conteúdos quanto em suas funções sociais e políticas —, o artigo analisa os processos de abertura acadêmica à presença de sujeitos indígenas, individual e coletivamente, como portadores de conhecimentos considerados socialmente úteis. A partir de uma perspectiva histórico-antropológica, examinam-se as disputas em torno do status desses conhecimentos, suas condições de validação no sistema universitário hegemônico, os regimes de autoria e direitos intelectuais envolvidos, bem como os processos contemporâneos de mercantilização dos saberes indígenas.
-
Quando o Sujeito Vira Autor: A Escrita Indígena como Mecanismo de Construção de uma Memória Viva
— Henrique da Silva
— Henrique da Silva
A reivindicação do direito à memória e à autoria da própria história constitui-se como uma das frentes centrais e mais antigas da luta intelectual e política dos povos indígenas no Brasil. A negação da humanidade dos povos originários foi, antes de mais nada, sobre uma ideologia que nega a sua capacidade de pensar, narrar e interpretar o mundo (Krenak, 2020). Nesse contexto, trazer visibilidade às figuras e lideranças indígenas, principalmente no espaço acadêmico, não se resume a um gesto me descritivo, mas um ato profundo de justiça histórica e descolonização epistemológica. A academia, uma instituição que validou durante tantos séculos os saberes coloniais e silenciando as vozes subalternizadas, transforma-se, assim, em um campo de disputa narrativa essencial.
Nesse sentido, a produção de narrativas biográficas sobre lideranças indígenas, em especial as realizadas por autores indígenas, emerge como uma metodologia potente nesse processo. Se alinhando a chamada insurgência narrativa, uma prática de re-existência onde ocupa-se os meios de produção de conhecimento para contar, a partir de um lugar de fala interno e comprometido, as trajetórias de luta, os saberes tradicionais e as complexidades políticas de suas comunidades (Núñez, 2021).
É justamente nesse marco teórico-político que se insere a presente biografia da lider Cleide Kanuã, do povo Jiripankó de Alagoas. A escolha por uma liderança feminina é estratégica e significativa, e responde a um processo de dupla invisibilidade: a dos povos indígenas em geral e a das mulheres indígenas especificamente, cujos papéis políticos e espirituais têm sido frequentemente apagados, tanto nas narrativas coloniais quanto em certas perspectivas antropológicas androcêntricas. Ao se debruçar na trajetória de Cleide Kanuã, o presente autor, também pertencente ao mesmo povo, não apenas resgata uma história individual, mas joga luz sobre a centralidade da luta das mulheres indígenas, as guardiãs dos territórios físicos e culturais, aquelas que sustentam a comunidade em contextos de violência e desterritorialização (Potiguara, 2021). Buscando assim, tornar a obra pra além de um farol que ilumine um passado de resistência, mas uma fonte de inspiração para as novas gerações do povo Jiripankó e de conhecimento tradicional vivo para povos originários, assim como, um espaço pluriepistêmico, onde as vozes indígenas, em sua diversidade e autoria, sejam não apenas ouvidas, mas reconhecidas como produtoras legítimas de teoria e conhecimento universal.
-
Força, menstruação e conhecimentos indígenas: reflexões a partir de um processo colaborativo de investigação-criação com o povo Murui da Amazônia colombiana
— Juana Valentina Nieto Moreno
— Juana Valentina Nieto Moreno
Esta apresentação examina os múltiplos sentidos da menstruação entre o povo Murui da Amazônia colombiana, compreendendo-a como um regime indígena de conhecimento que articula corporalidade, pensamento e formação feminina. A partir de narrativas e expressões linguísticas, examino uma poética da constituição do corpo-pensamento das mulheres, na qual a menarca é concebida como uma florada: momento em que o corpo da jovem se abre, produz odor e se torna permeável à incorporação e circulação de conhecimentos por meio de conselhos, alentos, substâncias, cheiros e trabalho. A menstruação emerge, assim, como uma força vital que agencia a formação de habilidades, disposições morais e capacidades criativas das mulheres, do coletivo e do território, mobilizando relações intergeracionais, de gênero e interespecíficas.
A apresentação dialoga com dois trabalhos colaborativos que estou realizando recentemente. Uma é a realização da animação Jiarede (vermelho): conselho da menstruação, em parceria com Francy Zafirekudo, jovem indígena Murui, estudante de artes visuais. Este trabalho combina metodologias etnográficas, criação artística, tecnologias digitais e oficinas intergeracionais de cartografia corporal. E outra é a tradução conjunta de narrativas de conselho de menstruação de anciãs com Antonieta Vasques, professora indígena de ensino fundamental na aldeia Murui. Argumento que essa experiência de pesquisa colaborativa e multimodal amplia as formas de produção, circulação e apropriação dos conhecimentos indígenas sobre as corporalidades femininas, gerando novas perguntas, interpretações e entendimentos, bem como alcançando públicos mais amplos.
-
"Iniciação às práticas de bahsesé": experimentando antropologias tuyuka na pós-graduação
— Justino Tuyuka, Thiago Mota Cardoso
— Justino Tuyuka, Thiago Mota Cardoso
O artigo apresenta uma prática pedagógica inovadora de uma (in)disciplina antropológica ministrada no Programa Pós-Graduação em Antropologia Social (UFAM) em 2025, que conjuga teoria e a prática dos bahsesé com estudantes indígenas e não indígenas. Os repertórios de bahsesé (entendido por outros como xamanismo, ou fazer pajé) pertencem aos detentores de conhecimentos dos povos da família linguística tukano oriental. A motivação pessoal da realização deste curso foi a inovação de conteúdos antropológicos ao propor a realização de uma disciplina nos marcos no PPGAS tendo como fundamento teórico/prático as fórmulas do bahsesé, tensionando assim as estruturas curriculares do programa e as bases ontoepistemologicas da academia. Para alcançar os objetivos, os requisitos básicos tanto para o professor como para os estudantes, é o exercício de manter-se concentrado e silencioso, falar baixinho as palavras operantes de bahsesé, insuflar a força transformadora na matéria, manter-se com boa intencionalidade, escolher boa matéria, praticar bahsesé em bons horários e sentar-se em espaços adequados. Desta forma essa prática (in)disciplinar mostra a força de saber pensar (teoria), transformar o pensar numa ação (prática) e garantir nova sensação (bem-estar). Esta comunicação objetiva contar uma história antropológica sobre o processo de realização do curso, da formulação da ideia, da sua criação e planejamento à sua realização, articulando este processo às dimensões mais amplas da abertura de espaços e fissuras no PPGAS para a consolidação das teorias, cosmopercepções e antropologias indígenas.
-
Tempo do barro, tempo da universidade: encontro entre mestres indígenas e estudantes não indígenas em territórios compartilhados
— Marina Ribeiro Romero, Chantal Medaets
— Marina Ribeiro Romero, Chantal Medaets
Este trabalho analisa a inserção de conhecimentos indígenas no ensino superior a partir da etnografia de uma disciplina oferecida na Universidade Federal de Minas Gerais, no âmbito do programa de Encontro de Saberes, na qual mestras e mestres Xakriabá ensinaram técnicas de construção de casas de "enchimento de barro", cerâmica e culinária.
Partindo da noção de "regimes de conhecimento" (Carneiro da Cunha, 2009), do conceito de "comunidades de prática" (Lave, 2011, 2019) e da literatura em torno da concepção de transposição didática, analisamos como saberes tradicionalmente transmitidos por participação, observação e engajamento corporal são transpostos para o formato escolar-universitário, marcado por tempos, ritmos, dispositivos pedagógicos e formas de objetivação próprias. A análise evidencia tensões entre a "hora do barro", regulada por ciclos ambientais, ritmos do corpo e da prática, e o tempo disciplinar da universidade, organizado por um cronograma pré-definido e expectativas de produtividade.
Mostramos ainda que a entrada desses saberes na universidade não implica sua simples escolarização nem sua reprodução tal como praticados fora do espaço acadêmico, mas a constituição de novas configurações de aprendizagem e de novas comunidades de prática, nas quais conhecimentos indígenas e acadêmicos se rearticulam. Nesse processo, emergem tanto desencontros e assimetrias quanto efeitos de revalorização, fortalecimento e reativação de técnicas, memórias e formas de transmissão, sobretudo em contextos marcados por descontinuidades geracionais e pressões por substituição de tecnologias tradicionais.
Ao discutir a coexistência de temporalidades, corporalidades e epistemologias no espaço universitário, o trabalho reflete sobre como programas como a Formação Transversal em Saberes Tradicionais produzem processos de negociação entre diferentes modos de conceber, ensinar, validar e gerir o conhecimento, colocando em questão os limites da forma escolar e abrindo espaço para arranjos que reconhecem a pluralidade de regimes epistêmicos no ensino superior.
-
Interlocuções possíveis? Uma breve etnografia da jornada de apresentação das pesquisas de doutorado dos bolsistas Guatá à Paris (janeiro 2026)
— Silvia Lopes da Silva Macedo
— Silvia Lopes da Silva Macedo
O programa de mobilidade de bolsistas de doutorado Guatá visa dar acesso aos estudantes indígenas brasileiros à mobilidade internacional (https://saopaulo.consulfrance.org/Bourse-de-mobilite-Guata-2025) . Esse programa promove, por um lado, a mobilidade dos doutorandos brasileiros para instituições de ensino francesas e, por outro, uma diversificação dos perfis dos estudantes e das pesquisas que são desenvolvidas nas instituições francófonas.
Se a presença das populações autóctones não é novidade nas instituições francesas, a inovação do programa Guatá está na visibilidade dessa presença e em sua valorização. Durante a estadia dos doutorandos, procura-se valorizar as contribuições desses junto às instituições francesas, para além das contribuições dessas instituições para a formação dos bolsistas.
O programa, que representa mais um importante avanço no longo processo de acesso à educação escolar e universitária pelas populações indígenas no Brasil, favorece o encontro entre diferentes regimes de conhecimento, regimes de transmissão e formas de validação de saberes.
O encontro da tradição universitária francesa - densamente institucionalizada -, com as pesquisas dos doutorandos Guatá favorece o diálogo entre conhecimentos, regimes de transmissão e de validação, incitando uma postura reflexiva tanto dos bolsistas do programa quanto dos supervisores que os acolhem e do público universitário em geral.
Durante a estadia dos bolsistas, que dura de 6 a 11 meses, um evento acadêmico é realizado, o Seminário do Programa Guatá, com a participação de doutorandos, supervisores e membros da comunidade universitária francesa. Os doutorandos realizam apresentações de suas pesquisas; os supervisores participam animando os debates, traduzindo e contribuindo com a organização; os palestrantes convidados fazem conferências; e a comunidade universitária contribui ao debate. Esse encontro é um momento privilegiado para observar e refletir sobre os múltiplos encontros de conhecimentos e regimes de transmissão e validação que se realizam durante o evento.
Participando desse seminário como co-organizadoras, uma como bolsista do programa Guatá, outra como supervisora, as autoras dessa comunicação se propõem realizar uma breve etnografia desse encontro com objetivo de visibilizar e discutir:
1. os conhecimentos mobilizados nesse contexto;
2. as formas de mobilização e de transmissão desses conhecimentos (escrito, oral, gráfico, sonoro, performático, etc.);
3. as interações que são favorecidas ou impedidas;
4. e as formas de recepção pelo público presente.
-
Modos de se ensinar e aprender sobre o weju no Tumucumaque Leste
— Sofia de Carvalho Galvão
— Sofia de Carvalho Galvão
Nessa proposta pretende-se refletir sobre os diferentes momentos em que se ensina e aprende sobre a produção do weju (tanga frontal feita de miçangas) entre as mulheres Wayana, Aparai e Tiriyó das Terras Indígenas Parque do Tumucumaque e Rio Paru DEste, localizadas no Norte do Pará e Amapá. A reflexão empreendida aqui considera diferentes momentos de aprendizagem, tanto os tradicionalmente utilizados para produção e ensino quanto os espaços artificiais facilitados por meio de oficinas, para compreender como ambos se tornam legítimos na transmissão dos conhecimentos sobre weju entre mulheres mais velhas e mais jovens. Argumenta-se que a continuidade desse conhecimento não depende exclusivamente de espaços tradicionalmente considerados adequados, mas do interesse das aprendizes, das relações estabelecidas com as mestras e da capacidade de transformar as circunstâncias de ensino diante das transformações que passam ao longo de sua existência. O trabalho propõe demonstrar como essas mulheres indígenas têm produzido e transformado seus conhecimentos, reinventando práticas de ensino e aprendizagem em novos contextos de interação, como oficinas e atividades mediadas por parceiros externos. O argumento fundamenta-se na necessidade de compreender como concepções indígenas dialogam, incorporam e reelaboram valores ocidentais em vez de serem por eles anuladas. A reflexão está sustentada a partir de questões emergentes de uma oficina de weju realizada na aldeia Bona, em agosto de 2023; em um encontro de mulheres ocorrido em 2024, também na aldeia Bona; e a partir conversas realizadas com as mulheres ao longo de 2025 na aldeia e na cidade de Macapá. Conclui-se que os modos de se ensinar e aprender sobre o weju se modificam, passam por transformações através das próprias formas que essas mulheres e suas vidas são transformadas. Na busca de uma explicação sobre a importância desses conhecimentos seguirem existindo, as mulheres seguem dando foco ao interesse e ao fato de que gostam das miçangas, das linhas e das cores. É assim que elas seguem encontrando formas de produzir, ensinar e aprender porque gostam e porque se interessam pelo weju e, para elas, isso parece bastar.
-
Ĩdze Akinhagü – A história do Pequi: a transmissão do conhecimento através de narrativas epistêmicas e suas relações ecológicas
— Susi Leme de Moura, Tahudjani Kalapalo
— Susi Leme de Moura, Tahudjani Kalapalo
Esse trabalho se propõe analisar a forma de transmissão de conhecimento através de narrativas epistêmicas tendo como base a cosmovisão/cosmologia kalapalo, a partir da história “akinha” da Origem do Pequi, para os kalapalo. Os kalapalo, etnia pertencente a família linguística Karib, representam uma das nove etnias que compõem complexo sociocultural, multiétnico e multilíngue do Alto Xingu, no Território Indígena do Xingu - TIX. A história “akinha” que será mobilizada neste texto foi narrada por Aussuki Kalapalo, Mestre e grande detentor de conhecimento, “Oto” (dono), de histórias do povo Kalapalo e traduzida por Tahudjani Kalapalo, seu neto e co-autor deste texto. A história da origem do pequi perspassa através da cosmologia kalapalo por vários aspectos do modo de vida kalapalo, nesta narrativa: o Pequi originou-se de um jacaré que havia sido morto e enterrado, de onde brotou o primeiro pé de pequi, ao longo desta narrativa, surgem novos personagens animais/”itseke” e o desenrolar da narrativa se relaciona com práticas e ensinamentos do cotidiano kalapalo, como a forma de preparo do pequi, regras para seu plantio, período de colheita, interações ecológicas, entre outros. O obtivo desse trabalho é narrar de que forma o conhecimento ancestral associado a “akinha” está presente na transmissão de conhecimentos na educação escolar indígena, nos espaços escolares e demais espaços de aprendizado na aldeia Aiha, refletindo sobre a importância da valorização do conhecimento ancestral e da presença de narrativas epistêmicas no processo de ensino-aprendizagem e transmissão de conhecimento tradicional na educação básica e também no ensino superior. Sob a múltipla perspectiva dos autores: um deles pertencente a etnia Kalapalo, graduando de licenciatura intercultural indígena e professor na educação escolar na aldeia Aiha; a outra mestranda em antropologia social, bióloga e professora, atuou por oito anos como docente na educação escolar indígena na aldeia Aiha, tendo sido professora do primeiro autor, que neste momento se encontram como pesquisadores do povo kalapalo.
Palavras-chave: Alto Xingu, Cosmologia Kalapalo, Interações multiespécies
Coordenação
Antonio Hilario Aguilera Urquiza (UFMS)
Jorge Eremites de Oliveira (UFPEL)
Pessoa debatedora
Levi Marques Pereira (UFGD)
Rosa Sebastiana Colman (UFGD)
Joana Aparecida Fernandes Silva (UFG)
O GT trata da socialização de saberes e discussões sobre a produção de estudos antropológicos acerca dos movimentos indígenas, a luta pelos territórios ancestrais e conflitos. Os movimentos indígenas chamam de “retomada”, uma série de ações que interpelam o Estado brasileiro ao seu reconhecimento como povos com direitos originários, acolhidos pela CF/88. Porém, a recepção dos direitos territoriais não gerou os procedimentos administrativos necessários ao reconhecimento dos territórios de ocupação tradicional. A omissão do Estado levou muitos povos a buscarem ocupar seus territórios, sem o cumprimento da obrigação de realizar os laudos de reconhecimento, demarcação e desintrusão das terras indígenas. A ênfase das retomadas recai sobre a entrada em territórios reconhecidos por esses povos e dos quais foram expropriados. A retomada é precedida pelo acionamento de processos do parentesco, práticas rituais e intensificação de conexões com a ancestralidade. Acolhemos estudos que tratam dos movimentos indígenas e pesquisas acerca de configurações sociais e relações com o território ancestral, as quais remetem à ancestralidade de populações originárias e reivindicam direitos territoriais, bem como o reconhecimento de expressões culturais que demandam pesquisas e produção de laudos no campo da Antropologia. O GT estará aberto à participação de estudantes e profissionais em diferentes níveis de formação, especialmente indígenas, que possuam estudos e reflexões sobre essas realidades.
Títulos e Resumos
-
Mitã e Oguatá Porã: As crianças Guarani e Kaiowá no contexto da mobilidade e fronteira.
— Amanda Sayuri Koba Pires
— Amanda Sayuri Koba Pires
O presente trabalho procura evidenciar o cotidiano das crianças Guarani e Kaiowá no contexto
da mobilidade e fronteira, analisando a reconfiguração da Oguatá Porã. A pesquisa adotou uma
abordagem qualitativa, baseada em pesquisa bibliográfica, observação participante em campo,
e produção de imagens visuais das próprias crianças como fonte de análise. Os resultados
incluem um contraste geracional com a entrevista de uma jovem Guarani e Kaiowá, atestando
o cotidiano atual das crianças, marcado pela violência territorial. O trabalho conclui que a
criança é um ator político fundamental no presente, atuando ativamente para manter a cultura
e o Ñandereko, diante dos desafios e da negligência estatal.
-
O Marco Temporal como "Genocídio Legislado": laudos antropológicos e resistência Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul
— Ana Elizabete Pires Rocha Firmino
— Ana Elizabete Pires Rocha Firmino
Este trabalho investiga a tensão entre o direito originário à terra e a tese do Marco Temporal (Lei 14.701/2023), cuja aplicação resulta na anulação prática do reconhecimento constitucional da posse indígena. O problema central reside na deslegitimação da prova antropológica como mecanismo de justiça e na persistência do descumprimento da obrigação estatal de demarcar terras indígenas, com efeitos diretos sobre a reprodução física e cultural dos povos em territórios de ocupação tradicional. Objetivo: analisar o Marco Temporal como forma de “Genocídio Legislado” a partir do estudo de caso do povo Guarani e Kaiowá, focalizando a agência política das retomadas e a centralidade dos laudos antropológicos nos conflitos territoriais. A análise mobiliza os conceitos de Indigenato (direitos originários) e Pluralismo Jurídico para examinar a judicialização dos conflitos no Mato Grosso do Sul, com base em etnografia jurídica e análise documental de laudos antropológicos e cartas públicas da Aty Guasu. Tese central: ao negar o Indigenato e subordinar a posse indígena à lógica civilista da propriedade privada, o Marco Temporal reconfigura o conflito fundiário como disputa de títulos, deslocando a prova da ancestralidade para a perícia antropológica e contribuindo para um quadro de violência estrutural contra os Guarani-Kaiowá. O referencial articula contribuições da Antropologia do Direito (Kant de Lima) e do Pluralismo Jurídico (Boaventura de Sousa Santos), permitindo reinterpretar a luta Guarani-Kaiowá à luz da etnografia jurídica e da agência indígena nas retomadas. Contribuições esperadas: (i) refinamento da conceituação de “Genocídio Legislado” à luz da Antropologia do Direito; (ii) mapeamento das estratégias jurídicas e políticas de resistência indígena ao Marco Temporal, com ênfase nas retomadas e na atuação da Aty Guasu; (iii) discussão das implicações para a atuação do Ministério Público Federal e para a elaboração, uso e avaliação de laudos antropológicos em procedimentos demarcatórios e ações judiciais.
-
Mbakuku e retomada de práticas tradicionais de cultivo entre os Kaiowá de MS.
— Arnulfo Morinigo Caballero
— Arnulfo Morinigo Caballero
A pesquisa demostra uma parte da dissertação do autor e da experiencia no processo de trocas e doações de sementes e discute a partir da cosmovisão Kaiowá e Guarani, seus vínculos e a relação de reciprocidade entre as famílias, parentelas e as práticas tradicionais na recuperação/retomada de algum dos cultivos de grande importância para estes povos como é o mbakuku(feijão macuco). Antes da expropriação territorial os tekoha desenvolviam intensas redes de trocas matrimoniais, festivas e rituais, que insistem em manter até os dias de hoje, dentro das limitações impostas pela perda do território e a vida controlada pelas instituições do Estado. Assim, pretende-se descrever como na atualidade os Guarani e Kaiowá mobilizam uma série de estratégias para seguirem produzindo suas formas tradicionais de produzir alimento. Esta dinâmica acontece dentro de um amplo território/tekoha guasu e vem recuperando e reconhecendo as diferentes formas de plantio e de consumo através dos relatos dos mais idosos e idosas e escuta dos jovens sobre a importância do plantio e do consumo sem o agrotóxico. Tradicionalmente, as pessoas que moravam no ongusu/oyngusu/casa de reza dos Kaiowá e ao redor do Jerokyaty/casa de reza dos Guarani tinham um kokue guasu/roça grande, ali plantavam mbakuku, considerado um temitỹ ruvicha/principal cultivo, é um tubérculo com a raiz comestível, um tipo de batata que, segundo as famílias, é uma comida tradicional dos Kaiowá, mas que, com a perda territorial, foi se perdendo e hoje está em processo de recuperação. Esta pesquisa realiza a descrição da forma de plantio tradicional e da recuperação de diferentes sementes como são as diversas variedade de feijão de corda, das variedades de ramas de mandiocas como comida tradicional descrevendo desde a colheita, forma de guardar, plantar, cuidar e comer. Esta pesquisa parte das experiencias com as famílias que recuperaram o mbakuku e outros cultivos tradicionais e hoje são as que trocam, doam as sementes para que outras famílias possam produzir dentro dos tekoha.
Palavras-Chave: Mbakuku. Kaiowá. Sementes tradicionais. Trocas e reciprocidade
-
Entre a tradição e a lama – O retorno do tempo de festas do Encontro de Cultura Indígena dos Botocudos de Linhares ES e o repactuação do rompimento de Mariana
— Daniel Luiz Arrebola
— Daniel Luiz Arrebola
Este trabalho, desdobramento de pesquisa de pós doutorado junto ao departamento de arqueologia e antropologia da Universidade Federal de Minas Gerais, investiga sobre a retomada das atividades culturais tradicionais do povo Botocudo da Aldeia Areal, em Linhares ES, através do Encontro de Culturas Indígenas que se vê constantemente ameaçado pela morte do Rio Doce e os processos excludentes de repactuação junto aos povos indígenas capixabas. Nesta pesquisa, analisa-se a importância do tempo das festas para os indígenas locais e suas confluências com outros povos dos territórios vizinhos. A pesquisa é desenvolvida a partir da atuação em campo junto a Assessoria Técnica dos Atingidos, bem como, análises bibliográficas. O objetivo da pesquisa é evidenciar como os tempos de festas são importantes na manutenção das relações inter povos na região, bem como, as formas como a perda do Rio Doce impactam a realização deste importante evento. O resultado esperado da pesquisa é apresentar outros elementos culturais que possam auxiliar no processo indenizatório dos povos e comunidades tradicionais atingidos por este e outros grandes projetos de mineração.
-
Recuperar o território, produzir futuros: agenciamentos kaingang na retomada Gãh Ré
— Eduarda Heineck Fernandes
— Eduarda Heineck Fernandes
Esta comunicação discute resultados parciais de uma investigação sobre agenciamentos políticos e temporais acionados pelos Kaingang na retomada Gãh Ré, no Morro Santana, em Porto Alegre (RS). Tais agenciamentos consistem no acionamento do parentesco, da etnicidade e da memória coletiva, assim como a sobreposição de diferentes temporalidades que atravessam o processo de recuperação territorial: um passado lembrado pelo esbulho e pela resistência, o presente quadro do processo de territorialização e a projeção de futuros mais dignos para as novas gerações. O trabalho, oriundo de dissertação de mestrado, concebe as retomadas como processos que reconfiguram as relações com o território ancestral e produzem tensões nas fronteiras entre Estado, Capital e cidade, uma vez que a retomada kaingang está localizada na zona leste de Porto Alegre, área fortemente impactada pela expansão da especulação imobiliária. Assim como na literatura sobre retomadas de terras, o parentesco e o fortalecimento dos indígenas através de práticas rituais emergem como dimensões centrais na sustentação do processo político, produzindo vínculos de cuidado, reciprocidade e pertença que garantem a permanência no território. Argumento que esses elementos não apenas organizam a vida cotidiana na aldeia, mas também constituem uma forma específica de ação política indígena, na qual território, corpo e memória se articulam como fundamentos para a luta. Ao evidenciar esses agenciamentos, a comunicação contribui para o debate antropológico sobre territorialização indígena em contextos urbanos, destacando as retomadas como práticas que tensionam regimes hegemônicos de propriedade, temporalidade e urbanização, ao mesmo tempo em que afirmam modos outros de habitar a cidade e produzir futuro.
-
Uma etnografia a partir da perspectiva indígena feminina Kaiowá e Guarani em Mato Grosso do Sul
— Maria Antônia Oliveira Miranda
— Maria Antônia Oliveira Miranda
Este projeto de pesquisa propõe investigar como mulheres Kaiowá e Guarani de Mato Grosso do Sul constroem e expressam sua historicidade e agência política em meio a um contexto de violência e colonialismo de longa duração. A partir de um estudo etnográfico focado em narrativas e produções audiovisuais, buscaremos visibilidade a suas "escrevivências", compreendendo-as como manifestações de uma "etno-historiofotia" que resiste ao silenciamento histórico e à "necropolítica" do Estado.
-
Quando a justiça não alcança a terra: reflexões a partir da cerâmica
— Patricia Benedita Aparecida Braga, Antonio Hilario Aguilera Urquiza
— Patricia Benedita Aparecida Braga, Antonio Hilario Aguilera Urquiza
O presente artigo propõe deslocar o debate sobre justiça climática a partir de uma reflexão antropológica sobre a relação entre terra, povos indígenas e justiça em contextos atravessados por problemas ambientais e ecológicos de longa duração, cujos efeitos são aprofundados pelas alterações antropogênicas no regime climático global. Parte-se da compreensão de que a terra não constitui um bem, um recurso ou um suporte da vida social-coletiva, mas uma condição de existência historicamente produzida, na qual se constroem, de forma situada, modos de viver, trabalhar e criar, por meio dos quais se produzem pertencimentos, vínculos e continuidades no tempo.
Nesse contexto, a justiça climática, mais do que um princípio normativo orientado à solução, seja por correção, compensação ou reparação, revela limites estruturais. Ontológicos, porque a perda de uma relação vital com a terra não é mensurável nem passível de equivalência; políticos, porque as instâncias que reivindicam a produção da justiça operam, em grande medida, a partir dos mesmos regimes institucionais e epistemológicos que historicamente produziram a expropriação territorial e a degradação ambiental e ecológica, mostrando-se insuficientes diante de processos de ruptura de mundos e de ameaça à vida e à continuidade mínima da existência.
Nesse sentido, a cerâmica é mobilizada não como objeto empírico a ser descrito, mas como operador analítico que permite tornar visíveis os limites das categorias mobilizadas para pensar justiça em contextos de perda irreparável. Ao evidenciar a indissociabilidade entre terra, vida, trabalho e criação, a cerâmica torna legível aquilo que não se deixa traduzir em equivalência, compensação ou reparação. O artigo não busca oferecer uma solução normativa para esses impasses, mas explicitar o deslocamento analítico produzido quando a linguagem da justiça se mostra insuficiente diante da ruptura de mundos e da defesa precária da continuidade da vida.
-
Retomadas silenciosas: etnografia de não contato e autodeterminação territorial de povos indígenas isolados na Amazônia brasileira
— Rosalvo Ivarra Ortiz
— Rosalvo Ivarra Ortiz
Este trabalho propõe uma releitura crítica da noção de “retomada” no contexto dos movimentos indígenas no Brasil, incorporando as experiências territoriais de povos indígenas em isolamento voluntário e de recente contato. Argumenta-se que, diante da persistente omissão do Estado nos processos de reconhecimento, demarcação e proteção das terras indígenas, as retomadas não se restringem a ações públicas ou judicializadas, mas incluem práticas territoriais silenciosas, contínuas e estrategicamente orientadas, realizadas no interior dos próprios territórios ancestrais. Para povos indígenas isolados, a retomada não corresponde a um “retorno” após a expropriação, mas à permanência ativa, à circulação controlada e à reativação de lugares social e historicamente produzidos, como acampamentos, trilhas, áreas de caça, portos fluviais e paisagens de uso reiterado. Essas práticas expressam formas próprias de autodeterminação territorial, sustentadas por regimes de parentesco, memórias coletivas, vínculos cosmológicos e estratégias de proteção da vida, ainda que não se manifestem por meio de discursos políticos explícitos ou demandas diretas ao Estado. Em regiões amazônicas caracterizadas pela coexistência de múltiplos povos indígenas isolados, tais retomadas podem envolver o uso alternado, temporário ou sobreposto de áreas tradicionalmente conhecidas por diferentes coletivos, revelando formas indígenas de gestão territorial que tensionam concepções jurídicas ocidentais baseadas em fronteiras fixas, exclusividade espacial e ocupação permanente. Essas dinâmicas evidenciam racionalidades territoriais próprias, frequentemente invisibilizadas nos procedimentos oficiais. As materialidades associadas a essas práticas — estruturas efêmeras, vestígios de habitação recente, marcas na paisagem, rastros de circulação e usos estratégicos dos rios — constituem registros centrais para a análise antropológica das territorialidades indígenas contemporâneas. Tais rastros não devem ser interpretados como sinais de precariedade ou ausência histórica, mas como expressões materiais de escolhas políticas conscientes, relacionadas à recusa ao contato indesejado, à resistência às frentes de ocupação e à afirmação de direitos originários. Nesse sentido, o trabalho dialoga com os desafios da produção de laudos antropológicos em áreas habitadas por povos isolados e de recente contato, propondo a etnografia de não contato como uma ampliação do fazer etnográfico. Ao reconhecer o território como arquivo e a materialidade como forma legítima de discurso político, a pesquisa contribui para repensar as retomadas, os conflitos territoriais e os instrumentos de reconhecimento no campo da Antropologia.
-
"Queremos voltar ao Chandless, onde nascemos!": Territorialidades em disputa no Acre.
— Sérgio Góes Telles Brissac
— Sérgio Góes Telles Brissac
A proposta desta comunicação é apresentar a mobilização dos povos indígenas Sharanawa e Jaminawa, que atualmente vivem em periferias urbanas e nas margens do rio Purus, no Acre. Tendo habitado desde a época da exploração do caucho em áreas de floresta do rio Chandless próximas à fronteira com o Peru, eles relatam que foram expulsos de suas terras por fazendeiros a partir da década de 70 do século XX. Posteriormente, em 2004, o governo do estado do Acre constituiu naquelas terras uma unidade de conservação de proteção integral: o Parque Estadual Chandless. Por outro lado, desde antes da criação do Parque, há relatos do encontro de vestígios da presença de indígenas isolados, Mashco Piro. Há mais de uma década, os Sharanawa e Jaminawa têm se organizado para reivindicar o seu retorno ao Chandless. Algumas famílias ribeirinhas permaneceram na área do Parque Estadual e várias delas se opõem ao retorno dos Sharanawa e Jaminawa.
Frente às demandas territoriais desses povos indígenas, o Ministério Público Federal nos solicitou um laudo que pudesse contextualizar essas territorialidades em disputa e apontar caminhos para a efetivação dos direitos dos Sharanawa e Jaminawa. Concebido sob uma lógica de proteção integral de uma região de grande biodiversidade, o Parque Estadual Chandless foi implantado sem a realização de adequados estudos fundiários e sem a consulta prévia dos indígenas. Em meio a tais conflitos, o etnônimo Sharanawa é reafirmado em um contexto multiétnico de estreitos laços de parentesco com ribeirinhos e outros grupos, como os Jaminawa, os Kulina e os Kampa. Em inícios de 2025, a Funai editou uma portaria visando a proteção dos indígenas isolados Mashco Piro, destinando uma área de restrição de uso que abrange 80% do território do Parque. Durante a COP30, em novembro de 2025, a Funai anunciou a constituição de Grupo Técnico para a demarcação da Terra Indígena Chandless, dos Mashco Piro e dos Sharanawa.
-
Não-lugar x Corpo-Território: retomada identitária e reterritorialização indígena em contexto urbano
— Susan Ribeiro Eloy
— Susan Ribeiro Eloy
Este trabalho analisa a retomada identitária como um processo de reterritorialização existencial vivido por uma mulher indígena em contexto urbano, articulando as noções de não-lugar (AUGÉ, 1992; 2005), corpo-território e ancestralidade. Parto de uma autoetnografia situada, atravessada por memórias, experiências de deslocamento, violências de gênero, racialização e vivências espirituais, para refletir sobre como a expropriação territorial e simbólica incide sobre os corpos indígenas e como, simultaneamente, emergem formas de re-existência. Dialogando criticamente com Marc Augé, argumento que a categoria de não-lugar, embora potente para pensar a supermodernidade, é insuficiente para compreender corpos-território atravessados por colonialidade, ancestralidade e resistência cotidiana. Em contraponto, mobilizo Rogério Haesbaert (2021) para pensar a multiterritorialidade e os processos de reterritorialização simbólica e afetiva, compreendendo o território não apenas como espaço físico, mas como experiência vivida, vínculo e produção de sentido. Articulo ainda as reflexões de Joelma Boaventura da Silva (2020) sobre memória e descoberta da ancestralidade no percurso acadêmico, entendendo a retomada identitária como um processo epistemológico e político que reconfigura a produção do conhecimento. O texto discute como o corpo indígena urbano, frequentemente situado em zonas de não pertencimento, torna-se um arquivo vivo de memória, dor, espiritualidade e potência, no qual a ancestralidade se manifesta por sonhos, intuições e reencontros familiares. A retomada é compreendida, assim, não apenas como ocupação territorial, mas como reapropriação simbólica, corporal e espiritual do território, antecedendo e sustentando lutas mais amplas por reconhecimento e direitos originários. Ao articular experiência vivida, teoria antropológica e crítica decolonial, o trabalho propõe uma ampliação da noção de retomada para além do jurídico-territorial, evidenciando suas dimensões subjetivas, corporais e cosmopolíticas, especialmente no contexto de indígenas em situação urbana. Defendo que pensar as retomadas exige considerar os corpos como territórios em re-existência, nos quais se inscrevem conflitos, afetos, memórias e projetos de futuro.
Palavras-chave: Retomada Identitária; Corpo-território; Ancestralidade; Não-lugar; Multiterritorialidade; Indígena em contexto urbano.
Coordenação
Raquel Sant Ana da Silva (UFF)
Thiago Cazarim (CEFET/MG)
Pessoa debatedora
Mateus Marcilio de Oliveira (USP)
Carly Barboza Machado (UFRRJ)
Thiago Cazarim (CEFET/MG)
O objetivo deste GT é reunir pesquisas que tratem da importância e dos desafios teóricos e metodológicos de tomar o som como aspecto relevante em pesquisas realizadas nos mais variados contextos etnográficos. Damos continuidade às discussões iniciadas na 35a RBA, levando em conta os debates mais recentes sobre a multissensorialidade nas pesquisas antropológicas, o reconhecimento crítico das implicações do peso dado ao olhar na tradição etnográfica, (marcado em certa ideia de observação participante), bem como as inúmeras teorizações sobre a narrativa e a escrita no trabalho antropológico. O caráter pervasivo da experiência sonora oferece desafios específicos que nem sempre são respondidos pelo recurso às categorias próprias do olhar. Dentre as explorações possíveis, interessam-nos, particularmente (mas não só), aquelas que trabalhem as especificidades epistemológicas, metodológicas, políticas, éticas e técnicas do som: paisagens sonoras; pesquisas com, sobre ou atravessadas pela música; tensionamentos classificatórios; a dimensão performativa da música e sua relação com dinâmicas urbanas; a produção e o fazer musical, suas redes, articulações entre música, religião, política, emoção, território, lugar; técnicas sonoras; epistemologias da escuta e da escrita/descrição do som; reflexões teóricas e metodológicas sobre etnografia e som. Interessam também propostas que se debruçam sobre os eventos como situação antropológica, recorrente em trabalhos que tratam de som e música.
Títulos e Resumos
-
Fazer e Tocar Viola de Buriti: música, território e saberes tradicionais na região do Jalapão (TO)
— Amanda Sucupira Pedroza
— Amanda Sucupira Pedroza
Este trabalho, desenvolvido a partir de pesquisa de mestrado em andamento, analisa os modos de fazer e tocar a viola de buriti em comunidades quilombolas e rurais da região do Jalapão (TO) enquanto uma forma de elaborar sonoramente conhecimentos sobre seus territórios tradicionais e o bioma do cerrado. Esta pesquisa resulta do trabalho de campo realizado em Taquaruçu e em duas comunidades quilombolas da região, Barra de Aroeira e Mumbuca, com a interlocução com fazedores e tocadores de viola de buriti, suas redes e comunidades das quais eles fazem parte. As experiências de campo envolveram a observação de práticas musicais da viola de buriti em festividades das comunidades, em noites de fogueira e em eventos como o Café com Viola de Buriti de Taquaruçu e a Festa da Colheita da comunidade Mumbuca. Além disso, foram realizadas conversas, entrevistas, fotografias e gravações como forma de ampliar as possibilidades de descrição e reflexão da pesquisa. Alinhando-se às discussões sobre a relevância da atenção etnográfica aos eventos sonoros, argumento que a atenção aos modos de fabricar e tocar essa viola contribuem para a compreensão das relações dessas comunidades com o território. Essas performances musicais carregam em sua sonoridade, seus ritmos, no modo de cantar e no próprio timbre do buriti histórias, memórias e resistências. As técnicas de fabricação da viola de buriti envolvem um vasto conhecimento sobre o cerrado e o manejo do buriti. A retirada do talo da palmeira para fazer o corpo e o pescoço da viola requer que o fazedor de viola conheça profundamente sobre a geografia da região e o ciclo de vida da planta. É preciso saber onde encontrar as veredas com buritis jovens, que servirão para fazer o instrumento. Como explica mestre Arnon Ribeiro, da comunidade Mumbuca, o buriti precisa estar fich, e é com o som da batida de facão nos talos secos da palmeira que ele reconhece quais são os talos ideais. As relações de biointeração e os conhecimentos sobre o território também ressoam nos temas das músicas dos tocadores, pois é comum que as composições abordem a distância e o isolamento das comunidades; os modos de vida e o cotidiano; as histórias das comunidades quilombolas; e a beleza e riqueza das paisagens, da fauna e da flora do cerrado e do Jalapão. Assim, as comunidades quilombolas e rurais de Tocantins articulam técnicas sonoras com o bioma do cerrado e seus recursos para encontrar soluções estéticas e formas de se expressar musicalmente. Essas formas expressivas sonoras são um engajamento ativo nas relações com o ambiente, constituindo e sendo constituídas pelas dinâmicas territoriais. Essas técnicas estabelecem uma relação ativa com o bioma, configurando-se como formas de transmitir saberes, valores e identidades ao longo do tempo.
-
Áudio e sensorialidades: (im)possibilidades de expressão em podcasts
— Daniela Tonelli Manica, Maria Sol Anigstein
— Daniela Tonelli Manica, Maria Sol Anigstein
O objetivo do paper é apresentar a proposta experimental de trabalhar com multimodalidades para ampliar as interligações e os resultados da pesquisa em antropologia e ciências sociais, a partir de duas experiências: a realização de etnografia sensorial em um contexto insular do Chile e seu registro em formato de podcast. Propomos refletir de forma propositiva sobre como os processos de cocriação e autoria coletiva em etnografias sensoriais, que colocam em cena outras materialidades e outras relações sociotécnicas e suas (im)possibilidades de registro e exposição (sons, cheiros, sabores, sensações corporais), promovem novas formas de agência dentro e fora da universidade. Essa abertura sensorial produz outras percepções, que abrem a possibilidade de outras expressões interpretativas e descritivas da experiência de pesquisa e de intercâmbio com o outro. O objetivo é dialogar com a proposta do painel e defender a incorporação de uma perspectiva etnográfica criativa, multimodal, sensorial e propositiva por meio das vozes, dos corpos humanos e mais-que-humanos que se expressam no material produzido em áudio.
-
Corpos que escutam, rituais que vibram: paisagens sonoras da Wicca em eventos religiosos
— Daniele de Oliveira Machado
— Daniele de Oliveira Machado
A escuta do som como elemento central da experiência ritual wiccana orienta a reflexão etnográfica aqui proposta, desenvolvida a partir de trabalho de campo realizado em dois eventos religiosos no Brasil: a XX Convenção de Bruxas de Paranapiacaba (SP) e a Mystic Fair RJ 2025 (RJ). Inserida no debate antropológico sobre multissensorialidade, performatividade, analisa-se como os sons musicais, ritmos e silêncio participam da produção do sagrado. Partindo de uma etnografia situada, realizada por uma pesquisadora que também é sacerdotisa wiccana, em diálogo com Favret-Saada (2005) e com as reflexões metodológicas de Peirano (2002), essa posição é compreendida não como obstáculo, mas como condição que exige reflexividade constante e elaboração analítica.
Ao tensionar a centralidade do olhar na tradição etnográfica, a proposta desloca a atenção para a escuta como ferramenta epistemológica, aproximando-se da noção de descrição densa formulada por Geertz (2008), ao compreender o ritual como produção ativa de sentidos. Nos rituais observados, o som opera como agente que organiza o tempo ritual, sustenta estados liminares e produz afetos compartilhados, em consonância com a perspectiva de Turner (2013) sobre liminaridade. Os cânticos entoados em círculo, o contato dos pés descalços com a terra e os silêncios intencionais compõem paisagens sonoras nas quais o sagrado é vivido como experiência corporal, relacional e sensível.
A análise evidencia que os eventos funcionam como situações antropológicas privilegiadas, nas quais o som articula diferentes escalas da experiência religiosa, do íntimo ao coletivo, do ritual, e do sagrado ao espetáculo. A contraposição dos campos analisados em ambientes distintos de uma escuta mais ampla em um vilarejo e um evento fechado no espaço urbano e mercantilizado produz uma sobreposição de sons, música ritual, vozes, anúncios, performances que tensiona as fronteiras entre espiritualidade, consumo e entretenimento, dialogando com as análises de Magnani (2000) e Giumbelli (2019) sobre circuitos religiosos urbanos. Ao compreender o som como forma de conhecimento e mediação cosmológica, o trabalho sustenta que a Wicca contemporânea pode ser apreendida a partir de uma antropologia sensível às relações entre corpo, ritual, materialidade e experiência.
Referências:
FAVRET-SAADA, Jeanne. Ser afetado. Cadernos de Campo, n. 13, p. 155161, 2005.
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008.
GIUMBELLI, Emerson. Religião e mercado. Rio de Janeiro: Mauad X, 2019.
MAGNANI, José Guilherme Cantor. Festa no pedaço. São Paulo: Hucitec, 2000.
PEIRANO, Mariza. Rituais como estratégia analítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2002.
TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e antiestrutura. Petrópolis: Vozes, 2013.
-
Pelas ruas do centro goytacá: Circuitos de cultura alternativa, rituais desviantes e conflitos na cidade
— Fábio da Silva Martins
— Fábio da Silva Martins
A pesquisa “Pelas ruas do Centro goytacá: Circuitos de cultura alternativa, rituais desviantes e conflitos na cidade” investiga os circuitos de cultura alternativa presentes no centro da cidade Campos dos Goytacazes (RJ), a partir das perspectivas da etnografia urbana, de José Magnani e etnografia da música, de Anthony Seeger. Assim, é possível compreender o evento musical como expressão inserida em uma rede político-cultural e econômica local, partindo de uma inserção “de perto e de dentro”. O trabalho parte da observação de festas e eventos alternativos que tensionam usos hegemônicos do espaço urbano, evidenciando práticas artísticas, formas de cooperação, fomento à produção cultural e conflitos — como disputas simbólicas e materiais para a liberação de espaços públicos, ou a atuação de agentes da ordem pública, que ameaçam e interrompem eventos. Com base nas contribuições de David Harvey sobre “a cidade que queremos”, a pesquisa insere-se no debate sobre o direito à cidade e sobre como coletivos culturais estigmatizados lutam por visibilidade em um cenário marcado por valores conservadores e higienistas impostos pelas elites locais. Dialoga também com a noção de outsiders de Becker e com a teoria dos dramas sociais de Victor Turner, que ajuda a compreender os conflitos como rupturas, reintegrações e tensões. Assim, articula-se às áreas da Sociologia e Antropologia Urbanas, da Sociologia Política e da Sociologia do Desvio. Desenvolvida no âmbito da Pós-Graduação em Sociologia Política da UENF e financiada pela CAPES, a pesquisa adota metodologia etnográfica entrelaçando coleta/análise de dados observacionais, verbais e documentais. Assim, busca-se compreender como arte, afeto e festa (especialmente na vida noturna campista) se configuram como práticas de resistência e construção de outros modos de viver o urbano.
-
Ressonâncias urbanas: som, corpo e experiência no carnaval de rua contemporâneo
— Joanna Munhoz Sevaio
— Joanna Munhoz Sevaio
O carnaval de rua contemporâneo consolidou-se como uma das principais formas de ocupação coletiva dos espaços públicos nas cidades brasileiras, produzindo deslocamentos nas temporalidades, nas sociabilidades e nos regimes sensoriais da vida urbana. Com base em uma etnografia realizada entre 2022 e 2024 nas cidades de Porto Alegre e Rio de Janeiro, este trabalho analisa como os blocos de carnaval engendram modos específicos de relação com a cidade a partir de suas sonoridades, com destaque para o papel dos tambores e para a constituição de paisagens sonoras festivas. A partir da noção de paisagem sonora e em diálogo com abordagens que problematizam o primado do olhar na antropologia, argumento que o som opera como um mediador central da experiência urbana. No contexto carnavalesco, as sonoridades percussivas atravessam corpos e espaços, reorganizando usos ordinários das ruas, praças e avenidas e produzindo experiências coletivas de copresença, mobilização sensível e pertencimento. A cidade passa a ser vivida como espaço praticado, marcado pela escuta, pela ressonância e pelo encontro. Compreendo a música como uma força capaz de tensionar os fluxos normalizados do capitalismo urbano, introduzindo fissuras nas temporalidades produtivistas e nas lógicas utilitárias de circulação e controle dos corpos. Os cortejos carnavalescos configuram eventos sonoros que abalam a cidade ao instaurar ritmos dissidentes, suspendendo momentaneamente o cotidiano e abrindo possibilidades de interação não normativas. Nesses eventos, o som não se reduz a expressão cultural, mas atua como prática situada que rearticula relações entre pessoas, espaços e ritmos urbanos. Ao articular etnografia sensorial e reflexão teórica, o trabalho propõe pensar o carnaval de rua como uma experimentação urbana que conjuga festa e política, ancestralidade e invenção. As gramáticas dos tambores evocam histórias de resistência afro-diaspórica e, simultaneamente, produzem sociabilidades contemporâneas baseadas na improvisação, na alegria e no encontro, contribuindo para o reencantamento do espaço público e para a imaginação de outras formas de vida coletiva nas cidades brasileiras.
-
"Música é assunto do céu": Uma reflexão sobre música e voz como mediadores de uma ética corpórea na PraiseCon da Igreja Novos Começos.
— Juliene Almeida Gomes Braga
— Juliene Almeida Gomes Braga
Este trabalho é parte de uma pesquisa em andamento que visa discutir o papel do som como produtor e produto de identidades, materialidades e experiências religiosas na Igreja Novos Começos a partir da observação de um evento musical de ativação espiritual, a PraiseCon. Esta investigação tem um interesse particular sobre a voz falada e cantada, por entender que elas são instrumentos que fundamentam e sintonizam as experiências sensoriais naquele espaço. Essa perspectiva surge da ideia de que pensar a partir de um instrumento que nasce no corpo e do corpo ajuda a refletir sobre os efeitos práticos da sonoridade como ponto de integração entre o real e o supranatural. A pesquisa também leva em consideração a importância religiosa da voz para os evangélicos como ferramenta de manifestação, assim como sua relevância no amparo e na instrução das sociabilidades de um modo geral, refletindo sobre sua projeção a partir de questões que envolvem autoridade e posicionamento.
-
Memórias, sonoridades e práticas artísticas em favelas cariocas: uma jornada com os Penitentes do Santa Marta
— Marcelo de Medeiros Reis Filho
— Marcelo de Medeiros Reis Filho
Este artigo é baseado em trabalho de campo realizado a partir da favela Santa Marta, na Zona Sul do Rio de Janeiro, para outras favelas e periferias. A pesquisa é construída junto a um grupo de Folia de Reis presente na comunidade há setenta anos, os Penitentes do Santa Marta. Esse grupo canta, caminha e toca instrumentos durante seu percurso, que celebra o nascimento de Jesus Cristo e os Três Reis Magos que o seguiram. Por meio da observação participante e de entrevistas, acesso regimes, histórias e técnicas de escuta (Feld, 2020) produzidos por seus membros e lideranças durante ensaios e eventos. Em seguida, exploro como esse grupo ensaia, produz e reproduz sons que criam interações e lugares com o divino (Eisenlohr, 2024), ao mesmo tempo em que aprendo a tocar o prato e participo da jornada com eles enquanto ritmista. Além disso, analiso como se constroem repertórios de habilidades sensoriais (Hirschkind, 2021) e a possibilidade de acessar diferentes identidades e moralidades por meio da escuta do outro (Oosterbaan, 2008).
-
Quartas do reggae - O lugar da música, da festa e do território nas construções das relações sociais
— Maria Vitória Melo Cordeiro
— Maria Vitória Melo Cordeiro
O presente estudo é um trabalho etnográfico que tem como objetivo compreender e apresentar como o reggae, enquanto expressão cultural, se insere nas dinâmicas sociais e territoriais de Recife através das "quartas do reggae", evento quinzenal realizado no Zezinbar, espaço de sociabilidade marcado pela música e pela resistência cultural. O trabalho aborda o território não apenas como um espaço físico, mas como um campo de disputas simbólicas e de construção de identidades, onde as relações de raça, gênero e classe se entrelaçam, investigando como as práticas musicais e festivas não são apenas manifestações de prazer e lazer, mas atuam como ferramentas de luta política e afirmação de pertencimento, especialmente para os corpos periféricos, racializados e marginalizados. Assim, o estudo propõe, portanto, uma reflexão sobre como espaços de sociabilidade como esse contribuem para a produção de sentido, a negociação de poder e a reestruturação de identidades urbanas dentro do contexto da cultura do reggae.
-
Um Grito De Raiva e um Suspiro De Esperança: A Orquestra Rosas Dos Ventos
— Nayra Joseane e Silva Sousa
— Nayra Joseane e Silva Sousa
Este trabalho é uma reflexão tecida a partir de uma cena etnográfica durante o trabalho de campo de minha pesquisa de doutorado que está em andamento na área da Antropologia Social. Em um momento de interlocução, ocorrido durante uma gravação de um álbum de uma das interlocutoras da investigação, a produtora cultural que acompanha essa artista confidenciou-me o surgimento de um novo projeto: a criação de uma orquestra composta exclusivamente de mulheres. O sorriso de satisfação do relato era tensionado por uma frase dita entre dentes: “Esse projeto nasce da raiva, de mais uma exclusão das mulheres”.
Exploro a emoção da raiva como categoria analítica e política, operando como uma ferramenta que tensiona os mecanismos de poder e transpõe barreiras sexistas no cenário musical de Teresina (PI). Ao acompanhar as manifestações sonoras e as práticas coletivas do fazer musical das interlocutoras, identifico a Orquestra como uma prática de sobrevivência no trabalho com a música. Esse enfrentamento, contudo, não se encerra em uma dicotomia essencialista frente à produção masculina na capital piauiense, pelo contrário, denuncia silenciamentos históricos e processos de invisibilização ao confrontar as estruturas patriarcais que moldam o fazer musical. A Orquestra Rosas dos Ventos performa, assim, um gesto ambivalente: a força de um grito de indignação e o suspiro de esperança.
As reflexões deste artigo estão ancoradas na prática situada de uma antropóloga que não é musicista e que pesquisa trabalhadoras da música, a partir da qual o som emerge como dimensão central das relações de poder, evidenciando hierarquias de audibilidade e outras interfaces políticas e metodológicas.
Palavras-chave: Fazer musical; Mulheres na Música; Evento Etnográfico.
-
O campo escuta de volta: fonograma digital, eventos de escuta e economia da escuta como situação antropológica
— Ollivia Maria Gonçalves
— Ollivia Maria Gonçalves
Esta comunicação propõe refletir sobre o som — e, mais especificamente, sobre o fonograma digital — como operador epistemológico e metodológico na pesquisa antropológica contemporânea. Partindo do diálogo com debates recentes da antropologia sensorial e das epistemologias da escuta, a apresentação tensiona o privilégio histórico do olhar na tradição etnográfica, propondo a escuta não apenas como dimensão perceptiva, mas como prática situada, relacional e atravessada por mediações técnicas, afetivas e políticas.
O trabalho se ancora em pesquisa etnográfica em ambientes digitais dedicados à circulação musical, especialmente plataformas de streaming, onde o fonograma se encontra profundamente desmaterializado e reconfigurado como fluxo contínuo. Nesse contexto, argumenta-se que a escuta passa a operar dentro de um regime específico — aqui compreendido como uma economia da escuta — que organiza temporalidades, hierarquiza visibilidades sonoras e condiciona as possibilidades de circulação, permanência e reconhecimento de determinadas produções musicais.
A noção de economia da escuta é mobilizada não como categoria econômica estrita, mas como ferramenta analítica para compreender as condições sociais, técnicas e afetivas que tornam certas escutas possíveis e outras improváveis. Nesse sentido, escutar deixa de ser um ato neutro ou espontâneo e passa a ser entendido como prática atravessada por algoritmos, dispositivos técnicos, lógicas de recomendação e disputas por atenção e permanência sonora.
A comunicação propõe, ainda, compreender os eventos de escuta como lançamentos digitais, playlists, performances mediadas por plataformas e escutas cotidianas com fones de ouvido, como situações antropológicas. Esses eventos, embora nem sempre marcados pela copresença física, produzem efeitos performativos, afetivos e territoriais, articulando som, corpo, técnica e experiência urbana de modos específicos. Ao deslocar a noção de evento para além do espetáculo presencial, busca-se ampliar o entendimento dos contextos em que o som atua como agente de socialidade e produção de sentido.
Por fim, a apresentação dialoga diretamente com os desafios metodológicos e narrativos de descrever e escrever o som na antropologia, propondo que a etnografia da escuta exige atenção às técnicas sonoras, às formas de mediação e às condições de circulação que estruturam a experiência sonora contemporânea. Ao tratar o fonograma digital e os eventos de escuta como campos legítimos de investigação antropológica, a proposta contribui para o debate sobre multissensorialidade, performance, técnica e escrita etnográfica, alinhando-se aos objetivos do GT ao explorar as especificidades epistemológicas, metodológicas e políticas do som.
-
"Música que transforma - um olhar antropológico para projetos sociais de educação musical"
— Paula Bessa Braz
— Paula Bessa Braz
A reivindicação das artes, em geral, como uma ferramenta para "transformar", "incluir", "desenvolver", e "civilizar" sujeitos "vulneráveis" é bastante popular e largamente aceita não apenas pelo senso comum, mas também por grande parte da produção acadêmica. Esta larga aceitação, quando direcionada à investigação de projetos sociais de educação musical que estão orientados para a produção de "inclusão social" tem como efeito não apenas a atribuição de uma relação direta entre (algumas) práticas musicais e seus efeitos socializadores, inclusivos e positivos para seus praticantes; mas também o pressuposto de que todas os fazeres musicais que operam sob esta prerrogativa são, virtualmente, equivalentes, pois cumprem um mesmo propósito: transformam vidas. A ideia de promover transformação social pelo ensino de música é o que há em comum, por exemplo, entre um projeto social de ensino de música fundado por uma família na periferia de Fortaleza, na sua própria casa (Projeto Acordes Mágicos); O Instituto Baccarelli, em Heliópolis, e a Neojiba, com seus núcleos estaduais na Bahia. No entanto, tais experiências se configuram como formas radicalmente distintas de relação com a prática musical - tanto da forma institucional, pedagógica, como da própria forma, performance e experiência musical em si.
Neste trabalho, a partir de pesquisa etnográfica realizada junto a uma rede de projetos sociais de educação musical (a Plataforma Sinfonia do Amanhã), discuto de que forma a prerrogativa da transformação social revela, na constituição dos fazeres musicais desses projetos, transformações de diversas ordens: na forma como se produzem imagens desses musicares; na forma como os projetos se estruturam; na forma de se relacionar com o espaço e o entorno, e até na forma de tocar.
-
"Barulho de rua": conflitos em torno da lei do silêncio e produção de público e privado no espaço urbano
— Raquel Sant`Ana da Silva
— Raquel Sant`Ana da Silva
Neste trabalho, busco analisar os aspectos conflitivos da ocupação do espaço urbano a partir do som, focando, em especial, em sua relação com as concepções de espaço público consolidadas na chamada "lei do silêncio". A partir da análise dos conflitos que se instauram entre trabalhadores que circulam com os chamados "carros do ferro velho" e outros dispositivos sonoros para anúncio de serviços, analiso o papel pervasivo do som na criação de uma experiência pública da cidade, bem como a disputa em torno dos seus limites. O conflito em torno do "ruído invasivo" dos anúncios permite, por isso, pensar de que modo os contornos entre público e privado são construídos e experimentados no cotidiano da cidade. O trabalho é devedor da tradição iniciada por Schaeffer, formulador do conceito de "paisagem sonora", e procura também explorar os desdobramentos da ideia de "poluição sonora" mobilizados no acionamento situacional da "lei do silêncio".
-
Um estudo etnográfico de como a construção de memória coletiva da cena musical indie rock do Centro da Cidade do Rio de Janeiro se torna uma de suas improváveis identidades
— Rodrigo Di Santo Pastore
— Rodrigo Di Santo Pastore
O objetivo deste trabalho é estudar como um cenário musical indie rock, situado na esquina da Rua da Constituição com a República do Líbano, no Centro da Cidade do Rio de Janeiro, produz memória da cidade e tem se tornado, ao longo dos últimos 13 anos, componente importante na construção da identidade da cidade carioca, pela perspectiva do som, da música e da ocupação de espaço público. Assim, apesar de não se tratar de uma cultura popular folclórica, defendo aqui que a referida cena musical produz uma cultura popular e independente, onde circulam, regularmente, pessoas de diferentes cantos do Estado, como cidades da Baixada Fluminense, Niterói, bairros da Zona Norte, Centro e Zona Sul do Rio de Janeiro.
O local se chama Escritório da Transfusão Noise Records (TNR) e se situa no segundo andar de um sobrado. Já a TNR, é uma gravadora independente com origem na Baixada Fluminense, radicada no Centro da Cidade carioca em 2013, e funciona tanto como estúdio de ensaio e gravação, quanto como uma pequena casa de shows, que abriga integrantes da cena musical. Por ser um ponto de encontro cultural, musical, onde diversas classes sociais se encontram, de duas a três vezes por semana, em relações de amizade e de comunidade, o Escritório tem aproximado músicos de diversos estados do Brasil em eventos que, muitas vezes, ocupam as ruas em suas proximidades, e assim, atravessa mais de uma década de mudanças importantes na cidade, tanto econômica quanto arquitetônica, se reinventando e renovando o público regularmente, enquanto observa diversas outras casas culturais e comerciais fecharem suas portas e se modificarem.
Portanto, através de uma pesquisa etnográfica, me inserindo também como músico nesse ambiente que é movido pelo som, pretendo compreender as implicações que a música leva para construir essa cena e o que ela carrega para a constituição de memória social e de uma das identidades da cidade, mesmo que subterrânea, marginal, por não se tratar de samba, mas de indie rock. Nesse espaço, os eventos musicais (tanto as gravações, quanto as apresentações ao vivo) são produzidos por pessoas de diferentes partes da cidade. Além disso, a cena musical tem por característica própria produzir suas gravações e seus lançamentos artísticos de maneira autônoma, em uma espécie de bricolagem, em gravações chamadas de lo-fi, que se entende por baixa fidelidade sonora. Isto influencia também o estilo de vida, bem como toda a produção artística da cena musical: como cartazes, capas de discos, fitas cassete, zines etc. Neste sentido, me insiro nesse ambiente e me proponho a analisar como esse estilo de vida também modifica a cidade e a transforma.
-
Entre a arte e a política: a música como resistência
— Simone Cunha
— Simone Cunha
Em 1968 o regime militar no Brasil experimentou um endurecimento, a partir desse ano muitos músicos, cineastas, professores, entre outros intelectuais, foram presos e exilados. As artes em geral, mas, em especial, a música produzida pelos setores mais criativos e progressistas eram vistas como ameaças ao regime de exceção. Quando se discute resistência à ditadura através da música no Brasil em geral são lembrados compositores, como Chico Buarque, que expressavam essa resistência nas letras de suas composições. No presente trabalho se discute o caso de um percussionista com composições instrumentais que investia mais no som e na performance: Juvenal de Holanda Vasconcelos (1944-2016), conhecido como Naná Vasconcelos, um músico pernambucano, percussionista, compositor, arranjador, produtor musical.
Autodidata, negro e de origem popular, Naná aprendeu a tocar praticamente todos os instrumentos de percussão. Com menos de 20 anos participa do Movimento de Cultura Popular (MCP) em Recife onde teve contato com artistas, intelectuais e com pesquisa musical na tradição popular. Com Nana em Pernambuco participavam também desse movimento Teca Calazans e Geraldo Azevedo, entre outros. Naná ainda participou do Teatro Popular do Nordeste (TPN). Fazia assim parte de uma rede artística que foi depois bastante perseguida. O próprio MCP teve fim com o golpe de 1964. Alguns anos depois em 1967, Naná se muda para o Rio de Janeiro. Quando entrevistado sobre sua trajetória ele não se refere a razões políticas para sua saída nem de Pernambuco e nem do Brasil, embora convivesse na época com músicos que foram presos e torturados. Naná compartilhava ideias e convivia com muitos que foram presos pela ditadura.
Buscando entender o contexto maior que envolve música e ditadura, o estudo desse caso ajuda a pensar como a música pode ser um ato político mesmo sem necessariamente ter letras políticas. Sugere-se que a própria figura de Naná e sua trajetória eram por si uma defesa das ideias reprimidas pelo golpe. Argumentamos, portanto, que Naná fez parte desse processo de resistência musical. Embora não fosse político em termos de discursos ideológicos, participava em movimento artístico que foi perseguido com o recrudescimento da ditadura em 1968.
Para defender nosso argumento vamos acompanhar a trajetória do músico e seus laços com diferentes músicos, desde Milton Nascimento a Egberto Gismonti, Gato Barbieri, Don Salvador, Geraldo Azevedo, Teca Calazans. Ainda discutiremos a formação do trio Codona. Nossa análise será baseada em entrevistas com Naná e com músicos que faziam parte de sua rede artística e que sofreram perseguição na ditadura. Também utilizamos material da mídia.
-
Gregory Bateson: passos para uma audiologia da mente?
— Thiago Cazarim da Silva
— Thiago Cazarim da Silva
Nessa apresentação, retomo a leitura de alguns capítulos da obra "Steps to an ecology of mind: collected essays in Antrhopology, Psychriatry, evolution, and epistemology", do multipesquisador Gregory Bateson. O interesse na releitura desta obra para o GT "Som, música e eventos: experimentações etnográficas" é duplo. Numa chave mais direta, a obra de Bateson se vale de categorias partilhadas com o universo do áudio para pensar fenômenos sociais, funcionamento de circuitos eletrônicos, cadeias e interações comunicativas etc. Resumidamente, Bateson lançou mão daquilo que o musicólogo Carlos Palombini define como descritores sonoros, aliás, extremamente poderosos do ponto de vista da capacidade de explicar a integração sistêmica elementos heterogêneos. Dentre tais descritores, adquire centralidade o de feedback, em música e áudio comumente experimentado como o fenômeno da microfonia. Além disso, sabemos que a ideia de ecologia adquire interesse antropológico mais recente na obra de Tim Ingold, indicando um registro epistêmico caracterizado pelo fazer e, especificamente, pelos fazeres artísticos baseados na convivência, escuta, manualidade etc. Daí um segundo interesse de leitura na obra da Bateson a partir de provocações contemporâneas: a experimentação de feedback eletroacústico como caminho de prática sonora e metodológica. Portanto, esta apresentação se divide na apresentação de conceitos da obra de Bateson, numa parte demonstrativa-sonora com técnicas de feedback eletroacústico em tempo real e numa terceira seção em que se tenta situar as questões levantadas por Bateson à luz dos problemas discutidos no GT "Som, música e eventos: experimentações etnográficas" ao longo dos dois últimos anos.
-
Escutar o boi: experimentações etnográficas com som e paisagem sonora no bumba meu boi do litoral ocidental maranhense
— Vitor Sampaio Soares
— Vitor Sampaio Soares
Este trabalho propõe reflexões etnográficas a partir de um experimento sonoro desenvolvido durante a pesquisa de mestrado sobre a festa do bumba meu boi no litoral ocidental maranhense, junto aos brincantes do Boi da Fortaleza, em Cururupu. Ao acompanhar um ciclo festivo completo - do ensaio ao ritual da morte do boi -, a pesquisa se deixou conduzir pelos processos de materialização da festa e pelas relações entre humanos, materiais, ambientes e intensidades sensoriais que compõem sua existência. O ponto de partida é a recusa de tratar o som apenas como um elemento simbólico ou representacional da festa. Em vez disso, proponho pensá-lo como uma presença ativa e contínua, capaz de compor paisagens, produzir atmosferas e orientar movimentos, afetos e temporalidades. No universo do bumba meu boi, o som não se limita a acompanhar os acontecimentos: ele os anuncia, convoca, conecta pessoas e coisas, marca ritmos coletivos e, muitas vezes, antecede o próprio encontro visual com o boi. Antes de vê-lo, escuta-se sua chegada. Foi a partir de uma atenção etnográfica às camadas sonoras que atravessam ensaios, cortejos, rituais, reuniões e conversas cotidianas que emergiu a proposta de um experimento sonoro em formato de áudio documentário, construído a partir de gravações realizadas durante o trabalho de campo em 2023. O objetivo não foi ilustrar a festa, mas acompanhar etnograficamente aquilo que o som faz no mundo do boi, evidenciando sua dimensão performativa e relacional. Toques, toadas, rezas, ruídos, silêncios e sobreposições compõem uma cosmofonia na qual saberes, narrativas e experiências corporais se produzem e se reconhecem por meio das vibrações e ressonâncias. Ao seguir essas trilhas sonoras, o trabalho tensiona a centralidade do olhar na tradição etnográfica e propõe pensar o som não como uma plataforma de significados a ser interpretada, mas como uma presença ativa que participa da própria feitura da festa.
Coordenação
Lucas P. Álvares (UFRPE)
Sara Morais (UNB)
Pessoa debatedora
Zacarias Milisse Chambe (USP)
Tiago Guidi (UNB)
João De Regina (UNICAMP)
Como pensar “teoria” na antropologia sem reduzi-la a um cognitivismo nem a tratar como espelhamento das categorias mobilizadas pelas pessoas que participam da situação etnográfica? A atenção às formas de classificação e às práticas em que os agentes sociais se engajam, o que Lévi-Strauss chamou de “ciência social do observado”, se diferencia da teoria antropológica voltada para a parcela da “cultura que não é dita”, uma elaboração discursiva de dimensões tácitas da vida social. Essa aparente dualidade tem se dissolvido quando publicações como Ethnography e HAU enfatizam modos de articular descrição etnográfica e elaboração conceitual, ou quando Marilyn Strathern se refere aos relatos etnográficos ou antropológicos como um “gênero misto”. A dificuldade consiste em formular uma noção de “teoria” que se desloque entre essas ênfases sem perder seus ganhos. Quais as maneiras possíveis de articular as múltiplas representações da vida social, explorando como o pesquisador, em diálogo e colaboração com os agentes de sua experiência de campo, elabora pensamentos que tornam visíveis dissonâncias entre campo e escrita? O GT propõe-se a receber trabalhos que dialoguem com: 1) contribuições à teoria etnográfica; 2) historiografia de debates teóricos e metodológicos no campo da antropologia; 3) reflexões sobre a produção de ideias entre pesquisadores e interlocutores de campo; e 4) desafios de traduzir em texto situações particulares vivenciadas no fazer etnográfico.
Títulos e Resumos
-
Para além da monarquia ontológica: agência e reconhecimento em diálogo com o Perspectivismo Ameríndio
— Andressa Lidicy Morais Lima Freitas
— Andressa Lidicy Morais Lima Freitas
Este trabalho propõe uma reflexão metateórica sobre a expansão das fronteiras da alteridade e da agência animal, situando-se na interseção entre a Teoria do Reconhecimento (Honneth, 2003) e o Perspectivismo Ameríndio (Viveiros de Castro, 2018). Partindo da premissa de que a antropologia contemporânea questiona a exclusividade dos seres humanos na constituição dos mundos sociais, investigo como a gramática moral do reconhecimento, tradicionalmente restrita a humanos, pode ser tensionada e ampliada ao dialogar com cosmologias onde animais e outros seres são dotados de agência e intencionalidade. ​A análise foca na crítica à "monarquia ontológica" do sujeito moderno, mobilizando as contribuições Viveiros de Castro sobre o perspectivismo, onde o animal não é um objeto de representação simbólica, mas um sujeito que apreende o mundo de um ponto de vista próprio. Isto permite reinterpretar o conceito de reconhecimento de Honneth, retirando-o de uma moldura meramente cognitivista e inserindo-o em uma dimensão relacional e cosmopolítica. ​Argumento que o "esquecimento do reconhecimento" (reificação) pode ser aplicado à forma como a modernidade silencia a agência animal, tratando-a como mera "natureza" ou recurso. Ao propor uma simetria entre o pensamento antropológico e o pensamento indígena, defende-se que a humanidade é um estatuto pragmático, variável e extensível, e não uma substância fixa. Logo, questiono: é possível conceber relações de reconhecimento entre humanos e não humanos ou entre animais não humanos e coisas? Essas são questões que a teoria do reconhecimento tal como formulada por Honneth não concebe. Mas podemos considerar outras trilhas da teoria social que permitem equacionar essas questões. O chamado giro ontológico apresenta novas análises acerca da alteridade e da diferença, sobretudo ao considerar aquilo que emerge das experiências etnográficas para pensar sobre o ponto de vista do outro. Diferentes correntes das viradas ontológicas na Teoria Social desde as contribuições de Viveiros de Castro, Bruno Latour, Philippe Descola, Tim Ingold e Marilyn Strathern , entre outros parecem, nesse sentido, fornecer um quadro conceitual e análitico pertinente e bastante vivo para a análise da ontologia no presente. Metodologicamente, a pesquisa caracteriza-se como uma atualização sistemática que integra a história dos conceitos e a metateorização, buscando responder aos impasses das sociedades democráticas contemporâneas a partir de um pluralismo ontológico. Conclui-se que a aproximação entre essas tradições oferece novas chaves analíticas para compreender arranjos sociais multiespécies, onde a dignidade e a participação social emergem de interações, afetos e trocas de perspectivas entre diferentes seres que habitam um mundo comum.
-
A Reflexão da imagem: o desenho como etnografia
— Apollo Guerra
— Apollo Guerra
O artigo em questão busca refletir sobre o uso do desenho na antropologia a partir das contribuições de Michael Taussig (2011), entendendo o gesto gráfico [act of drawing] não apenas como uma forma de registro visual, mas como parte ativa do próprio processo etnográfico. Ao discutir conceitos como mimesis, experiência sensorial e presença no campo, argumenta-se que o desenho permite ao pesquisador se envolver de maneira única com o que é pesquisado, treinando o olhar de outras formas, não representando somente o que se objetivamente vê, mas também o que se mostra subjacente ao olhar. Nesse sentido, o caderno de campo deixa de ser apenas um espaço de anotação textual e passa a funcionar também como um lugar de experimentação visual, no qual observação, imaginação e percepção se articulam. Em diálogo com trabalhos de Karina Kuschnir (2018) sobre práticas gráficas e produção visual no contexto brasileiro, adicionando a visão acerca do conceito imaginativo na antropologia trazida por Ingold (2010), o artigo sugere que o desenho pode ampliar as formas habituais de representação antropológica e contribuir para uma pesquisa mais sensível, explorando horizontes que são, por certas vezes, representados de modo plano quando apenas por escrito. Assim, defende-se que incorporar o desenho à etnografia não significa abandonar o rigor científico, mas repensar os modos pelos quais o conhecimento antropológico é produzido e compartilhado.
-
Colonoficialidade nos PALOP: crioulos e línguas pré-coloniais em diáspora brasileira - pretuguês como ponte unidistante
— Jhon Alfredo Pazmiño Huapaya
— Jhon Alfredo Pazmiño Huapaya
A comunicação propõe o conceito de colonoficialidade para compreender as hierarquias linguísticas produzidas pelo português oficial nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), evidenciando suas diferentes gradações entre Angola e Moçambique (onde o investimento português consolidou a norma colonial), Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (espaços crioulos híbridos) e Guiné-Bissau (marcada pela luta armada pela independência). O português “colonoficial”, distinto do europeu, mas institucionalizado como língua estatal, reprime o caráter político e público das línguas africanas précoloniais, relegando-as à esfera privada , frequentemente desqualificadas como "dialetos" ou variedades locais, sem estatuto político. Paralelamente, os crioulos (kriolu caboverdiano, forro santomense, guineense) atuam como espaços vivos de hibridização e resistência cultural.
A partir de cenas etnográficas realizadas junto a estudantes universitários dos PALOP na UNILAB, onde constituem maioria em relação a outras universidades brasileiras, analiso como essas experiências de fala e de escrita configuram corpora identitários que tensionam a oficialidade linguística, convertendo-a em colonoficialidade. As metodologias afetivas de campo sugerem que esses interlocutores co-produzem categorias contracoloniais (Dos Santos), articulando sentidos morais e epistêmicos entre África e Brasil.
A colonoficialidade emerge, assim, como ferramenta teórica situada, em diálogo com a historiografia linguística do português afro-brasileiro e com os estudos sobre políticas de língua nos PALOP, permitindo repensar a colonialidade do poder (Quijano) a partir do domínio da linguagem. No Brasil, o cruzamento entre o português local, que se torna "pretuguês" (Gonzalez) por força de empréstimos e recriações afro-brasileiras, os crioulos africanos e as variantes lusófonas contemporâneas gera um campo epistêmico privilegiado para repensar as fronteiras entre norma, comunicação e identidade. Discuto ainda os desafios de traduzir as dissonâncias entre campo e escrita, destacando o papel da língua como território de elaboração conceitual e de resistência contracolonial.
Palavras-chave: colonoficialidade; PALOP; pretuguês; crioulos; diáspora africana; contracolonialidade linguística.
-
CULTIVAR É TRANSFORMAR: caminhando por algumas ramificações teóricas
— Joallysson Desterro Bayma, Cleiane Pereira Souza dos Santos
— Joallysson Desterro Bayma, Cleiane Pereira Souza dos Santos
Este ensaio é um exercício no qual proponho uma breve incursão por perspectivas teóricas referentes às relações entre humanos e plantas, buscando delinear essa interação por meio de uma atividade que acompanha historicamente a humanidade: o ato de cultivar. Reconheço a miríade de possibilidades que as referências aqui utilizadas podem oferecer para distintas interpretações e, justamente por isso, sinto-me estimulado a imaginá-las em diálogo.
O esforço consiste em encontrar pontos de articulação entre textos específicos de Thom Van Dooren (2024), Joana C. de Oliveira (2016), Carole Ferret (2015) e Marilyn Strathern (2006). Por essa razão, pretendo realizar um exercício criativo de "caminhada rizomática", simulando o movimento das raízes de certas plantas. Observa-se que um conjunto de ramificações pode se aproximar e se distanciar em uma tentativa de reconhecer o solo, buscando nutrientes e meios para que sua estrutura interaja com o que está abaixo e acima da superfície. Esse processo, evidentemente, não desconsidera a interface com a humanidade, visto que as perspectivas desses autores buscam observar detidamente as nuances dessa interação.
-
História, cultura e poder na cultura oprimida de Jean Casimir
— Pablo Quintero
— Pablo Quintero
Em 1981 aparecia a primeira edição do livro La cultura oprimida, publicada primeiramente em espanhol e republicada em francês só duas décadas depois, em 2001. A importante obra, elaborada pelo cientista social haitiano Jean Casimir (1938-) como tese de doutoramento em sociologia na Universidade Nacional Autónoma de México, analisa os processos de estruturação da sociedade e do Estado haitiano à sombra do colonialismo, dando ênfase tanto aos principais processos históricos quanto às dinâmicas de hierarquização social contemporâneas na formação social haitiana. Influenciada fortemente pela antropologia e a sociologia marxista desenvolvida no México por nomes como Rodolfo Stavenhagen, Pablo González Casanova e Guillermo Bonfil Batalla; a obra de Casimir realizou contribuições fundamentais para o desenvolvimento de pesquisas antropológicas e sociológicas sobre a questão colonial no Caribe, assim como para a expansão e o emprego da categoria conceitual colonialismo interno. Esta última noção serviu como abstração teórica na análise de diversas formações sociais no Terceiro Mundo entre as décadas de 1960 e 1980. Não obstante, as contribuições de Casimir também se manifestam na articulação metodológica entre trabalho historiográfico e etnográfico o que permite uma compressão abrangente e sistemática do Haiti dentro do sistema-mundo. O objetivo central deste trabalho, é analisar a mencionada obra de Casimir dentro do seu contexto histórico-social de produção, tendo como foco as contribuições teóricas e metodológicas do autor e sua especial articulação, por uma parte, entre etnografia e historiografia, e por outra, entre história, cultura e poder.
-
What goes without saying: o limite do conceito em certo contextos etnográficos
— Tiago Guidi
— Tiago Guidi
Há duas formas de conceber a teoria na antropologia: primeiro, como teoria etnográfica e, nesse sentido, o que se procura é a “ciência social do observado”, isto é, não só as relações sociais nas quais os agentes estão inscritos, mas sobretudo as categorias que os agentes elegem para definir e tornar inteligíveis as próprias relações sociais; segundo, a teoria como teoria antropológica e, nesse sentido, o que se procura é essa grande parcela da cultura que “não precisa ser dita”, que escapa às conceitualizações indígenas justamente porque, adquirida na prática, encontra a sua síntese na ação social.
Por um lado, gostaríamos de dizer que a “teoria etnográfica” se fia na capacidade do sujeito de pesquisa de criar uma meta-representação da vida social a partir de diferentes representações de diferentes domínios sociais; por outro, a “teoria antropológica” focaliza a capacidade do sujeito de pesquisa de produzir pensamentos complexos sem que nunca ninguém efetivamente os pense ou expresse. A dificuldade aqui repousa em encontrar uma noção de “teoria” que se equilibre entre as duas “teorias”, sem perder os seus ganhos respectivos. Nem aquela, nem essa, mas algo como como uma conceituação nativa do limite dos conceitos — o modo pelo qual é possível, no curso das práticas sociais, assinalar o limite inteligível das práticas sociais.
Por exemplo, Marcela S. Coelho de Souza, numa investigação sobre as sutilezas metafísicas do universo kîsedje, pergunta a um interlocutor, “Da onde vêm as almas (mekarõ) das crianças?”, ao que ele replica “Que alma? Mekarõ? Mas isso só existe depois que você está morto!”. Gostaríamos de dizer que a reação do interlocutor joga luz também sobre um dado interno do seu mundo conceitual. Isso porque, antes de ser meramente sinal de uma não-comunicação entre dois universos sociais distintos, a reação do interlocutor revela também o fundo não-verbal da vida social, o que é positivado culturalmente como “what goes without saying”, aquilo que não precisa ser dito, mas, mais importante, aquilo que justamente precisa permanecer não-dito e sub-conceituado para adquirir força lógica. Portanto, não é que a pergunta seja absurda, ou radicalmente exterior ao mundo social em questão, pelo contrário, a pergunta não pode ser respondida, pois ela remete ao limite conceitual dos conceitos.
-
A noção da falta de noção: desrespeito, filosofia liberal e a descrição etnográfica do insulto
— Vinicius de Aguiar Furuie
— Vinicius de Aguiar Furuie
Essa apresentação reflete sobre a noção de respeito contrastando como ela é elaborada em, por um lado, uma vertente da filosofia liberal e, por outro, em um contexto etnográfico entre os povos beiradeiros do Médio Xingu. Discute-se as divergências entre como a filosofia define o conceito e os contrapontos que a teoria etnografia oferece, além de como o processo de reconciliação dessas diferenças e a expansão do marco teórico é um atributo do pensamento antropológico. Busca-se contribuir com o tema explorado pelo GT argumentando que um dos méritos da teoria etnográfica é sua capacidade de descrever práticas que vão contra o ideal coletivo, assim como o comentário social a respeito de tais transgressões; no caso do presente trabalho, a descrição do desrespeito e do insulto como parte de um sistema de valores centrado no respeito possibilita uma reflexão sobre a noção de pessoa e de intersubjetividade como resultado de um processo agonístico. Isso permite teorizar, para além da definição local de respeito, uma prática de socialidade em que pessoas buscam um equilíbrio entre autonomia e interdependência como ideal do bem viver.
Enquanto o debate filosófico sobre respeito, fortemente influenciada pelo trabalho de Immanuel Kant, parte de uma concepção de sujeito liberal e equaciona respeito com a noção de dignidade humana universal, o contexto amazônico oferece um contraponto no qual a noção de agência é distribuída e a categoria de pessoas inclui não-humanos e é construída principalmente a partir do corpo. Em tal contexto, respeito emerge de interações na qual os atores negociam a distância que deve existir entre elas: respeito é o ponto de equilíbrio ideal entre, por um lado a indiferença e falta de consideração e, por outro, a imposição tirânica de demandas sobre vizinhos ou entre parceiros em relações de troca. Nesse sentido, a descrição etnográfica da noção de respeito entre os beiradeiros não pode prescindir de uma análise da formação histórica e sociopolítica, com ênfase nas relações de crédito e dependência econômica típicas do aviamento amazônico, assim como modos de relação assimétricas que antropólogos descrevem como “predação familiarizante”.
Em certo sentido, tal exercício reflete um diálogo clássico entre filosofia e antropologia, com dados etnográficos oferendo contrapontos para teorias baseadas em interações abstraídas de contexto. Esse movimento é geralmente seguido por outro, no qual o antropólogo oferece um enquadramento que permite abarcar os dois pontos de vista dentro de uma mesma conjuntura expandida. Tal movimento de expansão é onde revela-se o valor teórico da descrição etnográfica capaz de dar conta tanto da formulação de valores ideais coletivos quanto das práticas que atualizam o significado de tais valores.
Coordenação
José Glebson Vieira (UFRN)
João Roberto Bort Júnior (PPGA/UFPE)
Pessoa debatedora
Fernanda Borges Henrique (USP)
Nas últimas décadas, a antropologia demonstrou muito interesse pelos processos de reorganização social, política e territorial dos povos indígenas diante da longa história de colonização no Nordeste e no Leste do Brasil. Mais recentemente, intensificaram-se as preocupações com os processos que conectam esses povos a seres classificados como não humanos, mais-que-humanos ou outros-que-humanos. Tais processos são centrais para entender as dinâmicas relacionais desses sujeitos, mas ainda persiste certa resistência em aprofundar descrições sobre as lógicas do parentesco que os unem, conformando as suas coletividades. Parece haver uma suposição de que o parentesco desses povos teria sido tão afetado pelas transformações históricas que pouco renderia etnograficamente. Ao contrário, entendemos que há muito a investigar sobre parentesco e outras formas de coletivização indígena nessas áreas. Observamos que indígenas se organizam, segundo múltiplas lógicas, para festejar, praticar esportes, lutar por direitos etc. Assim, buscamos reunir trabalhos de pesquisadores em diferentes níveis de formação, para ampliar a compreensão das teorias, práticas e categorias indígenas que estruturam vínculos sociais, políticos e cosmológicos e outros, nos diversos contextos de produção da vida. Mais do que destacar isoladamente territorialidade ou parentesco, desejamos explorar suas articulações e outras dimensões, aproximando-nos do que significa existir como indígena no Nordeste e no Leste do Brasil.
Títulos e Resumos
-
Memória social e resistência do Povo Kaxixó em meio a disputas por direitos
— Carlos Eduardo Reinaldo Gimenes
— Carlos Eduardo Reinaldo Gimenes
A proposição para este trabalho - parte de uma pesquisa de doutorado em andamento - é refletir como um grupo étnico, a partir de sua experiência, se constitui e mantém sua memória social, articulada com o presente, enquanto segue na disputa pela manutenção do território atual, pela conquista definitiva de sua terra indígena e, atravessado pelo desastre-crime da Vale que ocasionou o rompimento de barragem de rejeitos em Brumadinho em 2019, também luta pelo seu direito à reparação dos danos por ela causados.
Essa reflexão ocorre junto ao Povo Kaxixó que, forçado a ocultar por muito tempo sua identidade como estratégia de sobrevivência perante os ataques dos colonizadores e a lógica de dominação regional, apenas no ano 2000 foi reconhecido como grupo indígena pelo Estado brasileiro.
Nos estudos antropológicos existentes, aponta-se a crença desse povo em uma origem comum atrelada à junção de diferentes grupos formadores: indígenas locais, indígenas escravizados e os colonizadores da região. Essa ancestralidade inclui também os que recusaram o contato com esses colonizadores e foram habitar o fundo das águas do rio Pará, como forma de escapar desse domínio. Chamados de caboclos dágua, permanecem no rio até o presente.
Hoje, o povo Kaxixó concentra pouco mais de cem pessoas em três aldeias. Na margem direita do rio Pará, município de Pompéu, estão a aldeia Fundinho - que contém casas Kaxixó e, há uma curta distância, casas de posseiros não indígenas - e a aldeia Pindaíba, com apenas uma casa e um núcleo familiar. Na margem esquerda do rio, está a aldeia Capão do Zezinho, no município de Martinho Campos.
Sendo a maior aldeia, com maior população e onde habita o cacique e o vice-cacique, Capão é composta de casas e espaços comunitários, como uma UBS Indígena, uma escola estadual, uma igreja católica, um campo de futebol e uma cobertura sobre pilastras chamada de Barraquinha, espaço de reuniões e celebrações dos Kaxixó.
Não parece ser por acaso o campo ter lugar central na espacialização da aldeia. São muitos os elementos que indicam a importância do futebol como forma de interação dos Kaxixó com outras comunidades, realizando jogos e participando de campeonatos regionais. No passado, o esporte acontecia também em encontros com o quilombo Saco Barreiro, localizado em Pompéu. Após anos de afastamento, recentemente aproximadas por serem atingidas pela Vale, as lideranças de ambos os grupos recordam de pretéritas e frequentes partidas de futebol.
O proponente deste texto, que esteve nesse reencontro e em outras atividades com os Kaxixó como membro de assessoria técnica independente (ATI), entre 2020 e 2024, pretende, neste momento da pesquisa, refletir a partir da bibliografia existente, em diálogo crítico com elementos trazidos dessa experiência enquanto ATI.
-
Mulheres Potiguara e a Sustança da Terra: Gênero, Circulação de Renda e Interseccionalidade nas Práticas Agrícolas do Litoral Paraibano
— Cristina de Lima Bernardo
— Cristina de Lima Bernardo
Este artigo analisa as práticas agrícolas e alimentares protagonizadas por mulheres do povo indígena Potiguara, no litoral norte da Paraíba, tomando a mandioca como eixo central de uma etnografia situada entre as aldeias Alto do Tambá e São Francisco. A partir de uma abordagem autorreferenciada, que articula experiência pessoal, observação participante e entrevistas com mulheres de diferentes gerações, o estudo evidencia como a agricultura familiar feminina ultrapassa a dimensão da subsistência, configurando-se como um campo de produção de saberes, cuidado, espiritualidade, circulação de renda e resistência política. Ancorado nos debates sobre gênero, interseccionalidade e epistemologias indígenas, o artigo demonstra que os quintais produtivos, roçados e casas de farinha são espaços centrais para a reprodução social, a soberania alimentar e a continuidade da vida coletiva Potiguara. As práticas alimentares são compreendidas como linguagens políticas e morais, nas quais se entrelaçam território, ancestralidade, gênero e geração. Ao destacar o protagonismo das mulheres indígenas na organização econômica, no cuidado comunitário e na defesa do território, o estudo contribui para a valorização dos saberes tradicionais e para a formulação de políticas públicas culturalmente adequadas, especialmente em contextos marcados por crise climática, insegurança alimentar e ameaças aos direitos indígenas. O artigo reafirma a potência das epistemologias indígenas como formas legítimas de produção de conhecimento e como projetos de vida voltados ao bem viver.
-
O documento e a bússola indígena: mulheres tupis e a construção de alianças com portugueses no Ceará colonial (séc. XVI-XVII)
— David Rodrigues Stigger
— David Rodrigues Stigger
Nos séculos XVI-XVII, o território da costa atlântica da América do Sul, que hoje compreende o litoral da região nordeste do Brasil, foi marcado por intensas disputas pelo seu domínio político e espacial. Frequentada por corsários franceses e holandeses, além de densamente povoada por diversos grupos indígenas, essa região só teve seu domínio consolidado pela Coroa portuguesa na metade do mesmo século com a expulsão efetiva dos holandeses das capitanias de Pernambuco e do Ceará. Do ponto de vista da colonização portuguesa, somente em 1583 os primeiros esforços sistematizados pelo governo-geral do Brasil foram enviados em direção à Paraíba por vias marítimas e terrestres para pôr fim às hostilidades com os indígenas Potiguaras. Por outro lado, esses grupos nativos foram intensamente auxiliados por naus francesas e já tinham se posto contra o avanço português alguns anos antes na mesma região. Fundamentais em todas as tentativas de conquista dos franceses e portuguesas na região durante a passagem do século XVI para o XVII foram as alianças com os grupos nativos, como já destacaram Florestan Fernandes e Sérgio Buarque de Holanda (Holanda, 1963; Fernandes, 1963). Os esforços portugueses voltados para a construção de alianças na costa Leste- Oeste perpassaram todo esse período e foram feitos com grupos de diferentes matrizes linguísticas da região (como Gê e Tupi), mas foram mais intensas com os grupos de matriz linguística Tupi com quem construíram relações importantes para manter o domínio político da região. Acreditamos que o fundamento de tais alianças envolviam, como propôs Beatriz Perrone-Moisés (2025), o investimento em boas relações com os nativos assentadas numa matriz relacional própria da América indígena, a saber: Festa-Guerra; o que incluía o intercâmbio de pessoas, objetos e saberes na construção e desconstrução de coletivos, como uma forma de fazer política. Nesse contexto, as tentativas de alianças entre portugueses e grupos Tupis (Tabajaras e Potiguaras) na região do Ceará colonial se destacam como possibilidade de observar a construção dessas relações. Através de fontes manuscritas da época, como Relações, cartas e Consultas; podemos observar as relações de parentesco surgindo como ponto fundamental para as alianças. Exemplo disso é a posição e as ações das mulheres em relação aos estrangeiros, como no caso de capitães de tropas portugueses e de padres jesuítas. No presente trabalho, nossa aposta intelectual é a de que a posição das mulheres nas relações com estrangeiros pode servir para a pesquisa antropológica como uma bússola epistemológica das relações de aliança entre nativos e portugueses para pensarmos além das relações masculinas da guerra de vingança tupinambá (Fernandes, 2022; Castro e Cunha, 2017).
-
A conquista da Terra Verde: alianças multiespécies e afincamento entre os Kiriri do Acré, no sul de Minas Gerais
— Fernanda Borges Henrique
— Fernanda Borges Henrique
O trabalho analisa a trajetória das famílias Kiriri que, em 2017, deixaram o oeste da Bahia e passaram a ocupar a chamada Terra Verde, no sul de Minas Gerais, onde hoje se constitui a aldeia Ibiramã Kiriri do Acré. A partir de uma etnografia dos processos de deslocamento, ocupação e afincamento, o trabalho pretende examinar como a chamada “conquista da terra” envolve, de modo indissociável, negociações com o Estado e compromissos estabelecidos com encantados e donos da terra, seres outros-que-humanos que orientam decisões, produzem legitimidade e sustentam a permanência coletiva. Argumenta-se que, para os Kiriri, a terra não é um objeto a ser apropriado, mas uma relação de cuidado, esperança e sonho, conformada por alianças multiespécies que articulam dimensões políticas, cosmológicas e afetivas da vida social. Ao discutir as equivocações em torno da categoria estatal de “terras tradicionalmente ocupadas”, o trabalho mostra como a ocupação da Terra Verde instaura modos próprios de existência, parentesco e coletivização, evidenciando a centralidade das relações entre humanos e outros-que-humanos na produção do território e da pessoa indígena no Leste do Brasil.
-
Devir-pássaro e parentesco multiespécie entre indígenas Xukuru-Kariri e Xukuru do Ororubá
— João Roberto Bort Júnior, Edimilson Rodrigues de Souza
— João Roberto Bort Júnior, Edimilson Rodrigues de Souza
A proposta parte da problemática da relação mitológica e sociocosmológica estabelecida entre povos indígenas e os pássaros, compreendidos não apenas como seres naturais, mas como agentes fundamentais na organização do parentesco, da territorialidade e da composição da pessoa. Entre indígenas Xukuru-Kariri e Xukuru do Ororubá, aves encantadas como Beija-Flor, Andorinha, Jaburu, Bacurau, Uru e o Gavião Paineira figuram como mestres, parentes e mediadores cosmopolíticos, compondo uma paisagem viva na qual terra, mata, água, humanos e outros seres se coimplicam.
Inspirada nas descrições etno-históricas e nas narrativas indígenas contemporâneas, a comunicação propõe compreender o estatuto dos pássaros na conformação das relações de parentesco e na produção de significados associados aos lugares sagrados e aos territórios. As paisagens cósmicas em questão revelam uma cosmologia em que os pássaros são o próprio modelo da socialidade humana. Entre certos Xukuru-Kariri, por exemplo, as aves configuram uma verdadeira sociedade metafórica, orientando formas de aprendizagem, habitação e corporalidade, visíveis na estética ornitológica das casas, nos adornos rituais e nas coreografias, nas quais os corpos humanos performam um constante devir-pássaro.
Analisamos ainda como o parentesco com a terra, os bichos e a mata se articula aos fluxos narrativos de composição da pessoa xukuru do Ororubá, orquestrados pelo cultivo de plantas, objetos e corpos em campos interativos entre humanos e encantados. Os registros de narrativas sobre enfrentamentos históricos pela permanência na terra evidenciam o papel central do complexo ritual do Toré na sustentação dessas relações, possibilitando, nos últimos anos, a redescoberta de locais sagrados e a conformação de uma agricultura baseada no parentesco com seres tangíveis e intangíveis.
Por fim, discutimos como os pássaros também operam nos limiares entre vida e morte, cura e perigo, especialmente em narrativas envolvendo aves agourentas, como a rasga-mortalha, cuja agência reafirma a dimensão ética e relacional do mundo. Assim, a comunicação contribui para uma leitura do parentesco e da territorialidade como relações multiespécie, nas quais os pássaros são sujeitos ativos na produção do mundo social indígena.
-
Fazer parentes, fazer território: o sistema hidrográfico como diagrama relacional entre os Potiguara
— José Glebson Vieira
— José Glebson Vieira
Esta comunicação examina a articulação entre parentesco, território e história entre os Potiguara da Paraíba pelo sistema hidrográfico, entendido como um dos principais dispositivos responsáveis pela composição e pela manutenção de formas de coexistência entre humanos, encantados, lugares e forças. Em um contexto marcado por frentes históricas e contemporâneas de ocupação, expropriação e controle territorial, rios, riachos, margens, aldeias e percursos compõem uma malha relacional que revela um campo de fricção entre modos distintos de habitar e de produzir mundos possíveis, como também modos de habitar, de narrar a história e de produzir relações e estabelecimento de continuidades e descontinuidades, proximidades e pertencimentos na vida social. A discussão se concentra nas formas de ocupação e defesa do território e nas relações com os encantados. Nessas dinâmicas, os vínculos são tecidos pela partilha de lugares, pela circulação e pelos cuidados com espaços considerados de força, o que conduz à compreensão do parentesco como um regime de conectividade territorial e um modo ampliado de composição de coletivos que envolve pessoas, paisagens e entidades. A inscrição das relações em certos lugares e percursos participa diretamente da fabricação das pessoas e das coletividades. A inteligibilidade desse modo de composição se aprofunda quando se observa como rios, riachos e margens evidenciam, temporal e espacialmente, os processos de dispersão, concentração e recomposição de famílias e aldeias e figuram como alvos de projetos de controle, exploração e reordenamento territorial. O sistema hidrográfico aparece, assim, como um diagrama relacional atravessado por disputas por terras, por formas de existência, por regimes de relação e por modos de (des)continuidade entre mundos. Categorias como aldeia-mãe e troncos velhos operam como dispositivos de modulação da conectividade entre lugares, pessoas e segmentos territoriais e definem escalas de proximidade, distância, pertencimento e diferença. A história é narrada e pensada como parentesco, e o território integra as próprias formas de aparentamento, continuidade e diferenciação entre pessoas, gerações e grupos. As relações com encantados, lugares e forças inscrevem-se no mesmo regime relacional e participam da composição territorial e histórica dos coletivos, situando a noção de cosmopolítica em um processo mais amplo de fabricação do mundo social. A comunicação sustenta, por fim, que, entre os Potiguara, o parentesco constitui uma tecnologia indígena de composição territorial, por meio da qual se produzem pessoas, coletivos e paisagens, e oferece uma via etnográfica para discutir parentesco, territorialidade e cosmopolítica em contextos indígenas marcados por mobilidade, dispersão e recomposição histórica.
-
Quando os parentes guardam memórias: genealogia Aranã Caboclo do Médio Jequitinhonha, agências em um contexto de etnogênese
— Pedro Henrique Ferrari de Brito
— Pedro Henrique Ferrari de Brito
Em meio a paisagens exuberantes, um calor extenuante, em uma região que historicamente sofreu e ainda sofre um longo processo de empobrecimento, uma miríade de povos tradicionais, indígenas e quilombolas, habitam a região do Vale do Jequitinhonha. Localizados no Médio Jequitinhonha, em sua maioria nas cidades de Coronel Murta e Araçuaí, em Minas Gerais, o povo Aranã Caboclo é um dos muitos povos que compõem o quadro populacional dessa multiétnica região. Pretendo, assim, trazer para o presente GT da RBA os resultados obtidos em minha pesquisa de Iniciação Científica, a qual se refere ao processo FAPESP 24/22477-8, realizada junto ao povo Aranã Caboclo. Neste trabalho, me debrucei acerca da importância do parentesco no que tange à afirmação de uma identidade indígena em retomada étnica. Devido às idiossincrasias do processo de colonização dessa região (Médio Jequitinhonha), as vinculações ao território e aos laços sociais dos mais variados grupos indígenas que ali habitavam perpassam por violenta desagregação social, impossibilidade de exercício de suas práticas culturais, de sufocamento de suas línguas. Em meio a candente processo, valendo-me do método genealógico para entender a distribuição das famílias e dos padrões de ocupação do território, pude trabalhar junto da pergunta: Como essas famílias estão construindo sua identidade a partir do parentesco?; De que forma histórias e ascendentes são recrutados para afirmação de sua indianidade em relação a seu território? Pude informar a reflexão que se daria a partir dessas perguntas com os dados coletados em trabalho de campo, que totalizou cerca de um mês, junto a algumas famílias Aranã Caboclo tanto na cidade de Coronel Murta, como em Araçuaí. Mais do que pensar territorialidade e parentesco, espero contribuir para entender os modos de existência desse povo em franco processo de invenção cultural.
-
Linhas de urucum e jenipapo: grafismo, figuração e cosmopolítica entre os Potiguara Catu/RN
— Tiago Santos Araújo
— Tiago Santos Araújo
Este trabalho propõe uma análise dos grafismos produzidos pelos Potiguara Catu, a fim de explicitar tanto seu caráter figurativo e cosmopolítico, quanto o seu lugar de ferramenta de luta contra a exploração extrativista do território e as relações que estes criam e reelaboram com múltiplos humanos e não-humanos. Os Potiguara Catu vivem no estado do Rio Grande do Norte, entre os municípios de Canguaretama e Goianinha, às margens do rio Catu, e integram o movimento indígena potiguar desde o início dos processos contemporâneos de mobilização étnica, desde de meados dos anos 2000. Seu território ainda não foi demarcado, e, desde o início de sua história recente tem sido afetado por conflitos advindos da lógica extrativista agroindustrial, personificada na região por engenhos e plantações de cana-de-açúcar, o que torna a luta pela terra uma reivindicação central para o coletivo. Dentre suas práticas, além da festa da batata e do ritual do toré, os grafismos também se fazem presentes. Feitos principalmente de tinta de urucum ou de jenipapo, esses últimos aparecem através de sua utilização, pelos indígenas, em diferentes espaços como em rituais, em palestras e audiências públicas, sendo associados não só a identidade do coletivo, mas também a luta indígena e a defesa de seu território. No que se refere à sua forma e conteúdo, diversas são as maneiras pelas quais se mostram, perpassando desde motivos gráficos relacionados a animais até outros relativos à encantados e elementos da natureza. A partir disso, e pensando os grafismos Potiguara Catu enquanto figurações (Descola, 2023), teve-se como objetivo principal deste trabalho entender e demonstrar como essas manifestações imagéticas tornam visíveis e vivazes entrelaçamentos entre múltiplos existentes, e como esses aglomerados de relações, conformados pelos grafismos, atuam como uma cosmopolítica (Stengers, 2018) de luta pela terra. Como resultados, percebeu-se que os grafismos e seus símbolos associados surgem do contexto de reafirmação étnica dos Potiguaras Catu, de sua participação no movimento indigena e do seu diálogo com outras comunidades do Rio Grande do Norte e da Paraíba, como demonstram os diversos intercâmbios estabelecidos entre esses e os Potiguara da Paraíba. Indo além, observou-se que o grafismo da Colmeia Potiguara, por exemplo, ilustra uma dupla dimensão, figurativa e cosmopolítica, ao passo que ativa uma agência coletiva que torna presente e operante a força da união e da defesa territorial, assim como algumas espécies de abelhas que ao sentirem que sua colmeia está sendo ameaçada atacam todas coletivamente um mesmo alvo. Assim, esse grafismo não é uma imagem passiva, mas sim um operador visual que condensa e projeta uma ética social.
Coordenação
Raquel Mombelli (UFPR)
Davi Pereira Junior (UEMA)
O Comitê Quilombos da ABA propõe neste espaço reunir pesquisas realizadas em diversas regiões do país que reflitam sobre as lutas antirracistas e os desafios enfrentados pelas comunidades quilombolas nos contextos de reinvindicação de reconhecimento territorial, sobretudo no enfretamento de conflitos territoriais, acirrados pelo avanço dos chamados megaempreendimentos de carbono, construção de energia, mineração, agronegócio, imobiliário, infraestrutura, criação ou privatização de unidades de conservação, barragens, entre outros, nos territórios quilombolas. Busca-se também analisar os processos de regularização fundiária e a aplicação da Convenção 169 da OIT quanto à consulta prévia, livre e Informada, como ferramentas de combate à violência, discriminação racial e desigualdade social. Pretende-se ainda refletir sobre os movimentos de resistência e mobilização social criada pelas comunidades quilombolas diante do racismo ambiental a aceleração das mudanças climáticas. Trabalhos que abordem a valorização da memória, saberes e a promoção da educação escolar quilombola e a importância das contribuições dos quilombos para a sociedade brasileira, são de interesse deste GT.
Títulos e Resumos
-
O Quilombo Cristininha de Caiapônia GO
— Adailton da Silva
— Adailton da Silva
Esta comunicação diz respeito ao trabalho desenvolvido junto ao Quilombo Cristininha, em Caiapônia, cidade da microrregião do Sudoeste Goiano. O Quilombo Cristininha obteve a Certificação pela Fundação Cultural Palmares em 2018 e tem processo aberto no INCRA para titulação desde 2021. A Associação Quilombola Cristininha mantém CNPJ ativo e tem dialogado com o poder público para viabilizar o reconhecimento da sua condição de quilombo urbano, com território de ocupação tradicional anterior ao surgimento do núcleo urbano de Caiapônia. Caiapônia esta 318 km distante de Goiânia, Capital do Estado de Goiás. A Universidade Federal de Jataí UFJ, localizada em Jataí, dista aproximadamente 118 km de Caiapônia e 320 km de Goiânia. A UFJ, através da Secretaria de Igualdade Racial do Município de Caiapônia, foi requisitada para contribuir para com o processo de titulação desta comunidade a partir de 2025. Enquanto docente da UFJ, e pela formação em antropologia, passei a participar deste trabalho.
-
Comunidade Quilombola e Apanhadora de Flores Sempre-vivas de Raiz – Presidente Kubitscheck/MG: exclusão histórica, silenciamento, resistência e inclusão socioprodutiva e política
— Aderval Costa Filho, Andreia Ferreira dos Santos
— Aderval Costa Filho, Andreia Ferreira dos Santos
O presente trabalho pretende apresentar e problematizar a situação da comunidade quilombola e apanhadora de flores sempre vivas de Raiz, sua dupla identidade, seu modo de vida e articulação política para construção do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação - RTID e garantia de direitos. A Comunidade de Raiz está situada na zona rural do município de Presidente Kubitschek, localizado na Serra do Espinhaço Meridional. A comunidade foi certificada como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares em dezembro de 2015 e foi certificada também pelo Governo do Estado de Minas Gerais como Apanhadora de Flores Sempre Vivas em junho de 2018. A situação social em questão conjuga a pauta patrimonial, sendo a comunidade integrante de Sistema Agrícola Tradicional de Importância Mundial (SIPAM) reconhecido pela FAO/ONU, e reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Minas Gerais, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais – IEPHA/MG, com a pauta fundiária, envolvendo o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária – INCRA/MG e a Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico – SEDE/MG, em corresponsabilização para regularização do território da comunidade. Ênfase será dada aos mecanismos de exclusão e silenciamento vivenciados historicamente pelo grupo e à sua mobilização, protagonismo e inclusão socioprodutiva e política, deflagradas com o apoio da Comissão em Defesa dos Direitos das Comunidades Extrativistas – CODECEX na luta contra o racismo e dominação do afazendamento, monocultivo e mineração em seu território.
-
Não falta apenas o INCRA: desafios comunitários para a regularização fundiária quilombola no Sertão de Pernambuco.
— Diego Vinícius de França Bezerra
— Diego Vinícius de França Bezerra
Para preservar o anonimato dos envolvidos, todos as localidades mencionadas neste resumo são fictícias. A partir da reunião informativa realizada em outubro de 2025 com lideranças das Comunidades Remanescentes de Quilombolas (CRQ’s) de Sítio Mandacaru e Várzea da Catingueira, ambas certificadas pela Fundação Cultural Palmares (FCP), este estudo discute os desafios da regularização fundiária quilombola diante das relações de poder, das tensões comunitárias e das desigualdades raciais que estruturam essa região do sertão pernambucano. A análise, baseada em observação etnográfica e nas anotações de campo produzidas durante o recente ciclo de visitas do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), evidencia que a ideia de que “falta apenas o INCRA” para o avanço da regularização fundiária oculta fatores internos decisivos, como o nível de mobilização, as divergências políticas, a circulação de informações e as disputas em torno do autorreconhecimento quilombola.
Os relatos revelam a persistência de um regime de segregação racial historicamente reproduzido no município de Serrana, expresso no cotidiano escolar, no acesso desigual a direitos e na deslegitimação pública das identidades quilombolas, incluindo ofensas ecológicas e religiosas, como a acusação de serem “quilombolas de algaroba”. Associadas ao racismo ambiental que marca o semiárido — água salobra, fragilidade produtiva e desigualdade fundiária — essas experiências influenciam tanto a capacidade organizativa das comunidades quanto suas percepções sobre o processo de regularização.
O estudo também aborda a tensão entre terra e território, destacando que a política quilombola difere da lógica produtivista da reforma agrária e exige engajamento comunitário contínuo. A baixa participação em reuniões que tratam do território e a centralidade de algumas lideranças revelam desafios metodológicos e éticos ao trabalho antropológico no INCRA, que deve evitar dependência de interlocutores únicos e contemplar a diversidade interna das comunidades. As desigualdades de gênero, expressas na sobrecarga das mulheres e na dinâmica participativa, reforçam a necessidade de uma atuação institucional interseccional.
Ao articular autorreconhecimento, memória, conflitos simbólicos e desigualdades estruturais, o trabalho mostra que a regularização fundiária se apresenta, para essas comunidades, não apenas como procedimento administrativo, mas como uma ação coletiva de luta antirracista, reparação histórica e retomada territorial. Os dados contribuem para refletir sobre limites e potencialidades da ação estatal diante das tensões locais que atravessam a implementação da Convenção 169 da OIT e a construção coletiva de territórios quilombolas no sertão pernambucano.
-
Conflitos e Direitos: Quilombolas no Judiciário
— Juliana Frassetto Moreno de Mello Sartori
— Juliana Frassetto Moreno de Mello Sartori
A consolidação dos direitos destinados aos quilombolas passou por momentos mais ou menos favoráveis aos seus interesses ao longo das últimas três décadas, mas sob o constante questionamento sobre sua validade e alcance. Situações sociais conflituosas e a morosidade na efetivação de políticas públicas colocam esses sujeitos diante de um sistema de justiça emaranhado de ritos, linguagem e procedimentos próprios. Instâncias jurídicas se deparam com diferentes configurações sociais, modulações locais e disputas específicas, incluindo a diversidade das próprias comunidades quilombolas, as quais desafiam as categorias legais. Processos judiciais enquanto conjuntos documentais que condensam experiências sociais podem revelar práticas e contextos, fazendo com que ações estatais, assim como estratégias e mobilizações das comunidades, se tornem objeto de interesse. Tendo em consideração o diálogo entre antropologia e direito, o presente trabalho parte da análise de processos judiciais que envolvem conflitos e direitos quilombolas para compreender como esses direitos são mobilizados perante o Judiciário e identificar campos de saber, práticas, agentes, narrativas em disputa e medições (Montero, Arruti e Pompa, 2012), que podem revelar limites e possibilidades para pensarmos como discursos antropológicos e jurídicos se apresentam, concorrem e, por vezes se interpenetram, impactando a realidade desses sujeitos.
-
Emersão de Memórias Coletivas do Povoado de Paracatu de Seis Dedos, Luta por Reconhecimento e Conflitos Ambientais
— Letícia Aparecida Rocha, Bruna Monique Machado Simoes
— Letícia Aparecida Rocha, Bruna Monique Machado Simoes
A memória coletiva tem um papel fundamental na construção das identidades coletivas tradicionais no Sertão Norte Mineiro, bem como cultural e da história de um grupo. Por diversas situações elas podem de se tornarem subterrâneas, e ganharem “narrativas oficiais” lendárias descaracterizando a sua condição de plasticidade em que acontecem constantes transformações e adaptações, influenciadas por transformações sociais e culturais. Mas estas podem ser reavivadas e mobilizadas para promoção de mudanças e superação de injustiças com a reinterpretação e autoafirmação quilombola das famílias remanescentes do Antigo povoado Paracatu de Seis Dedos no atual município de Ponto Chique no Norte de Minas Gerais. As memórias subterrâneas das famílias remanescentes se organizam separadamente sobre duas dimensões sociais, as quais, juntas, consolidam um modo tradicional de vida dos sujeitos às margens do rio São Francisco, ao mesmo tempo que são instrumentos de resistência na luta por reconhecimento.
-
Formas de fazer parentesco no Quilombo Córrego das Emas, MT
— Luciana Magalhães de França
— Luciana Magalhães de França
A pesquisa em andamento pretende desenvolver um estudo etnográfico do parentesco com os quilombolas da comunidade Córrego das Emas, Município de Barra do Bugres, MT. Pensando com o trabalho de Carlos Guilherme do Valle (2015), Quilombolas de Acauã, as relações de parentesco serão consideradas não apenas pela consangüinidade, mas pela ideia de como a comunidade de Córrego das Emas, define o que é família, parentes (consangüíneos e afins). Há mais de 200 anos, a comunidade tem a prática entre os jovens de casamento pela “fuga”, isto é, uma fuga ensaiada. A fala “vamos fugir” ou “você aceita amigar comigo”, corresponde à fuga e à procura de abrigo em casas de parentes que moram longe do quilombo. O casal espera três ou quatro messes até os pais os localizarem para pedir autorização e voltar a morar na comunidade. Procuro destacar a partir da análise de Figueiredo (2011), que o “ser quilombola” não se define apenas pelo passado, mas por uma “presença ativa”, que se renova nas práticas cotidianas, nas formas de organização comunitária e nas reivindicações por reconhecimento do território.
Palavras-chave: Quilombo, Parentesco, Comunidade Córrego das Emas.
_________________________________
1.Trabalho apresentado na 35a 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (Ano: 2026)".
2.Mestranda em Antropologia Social/UFMT e participante do projeto de bolsas do CNPQ.
3.Trabalho desenvolvido sob orientação da Profa Dra Sonia Regina Lourenço
-
Os protocolos comunitários de consulta para comunidades quilombolas e as estratégias de resistência na luta antirracista
— Marco Antonio Saretta Poglia
— Marco Antonio Saretta Poglia
Os protocolos comunitários de consulta são importantes instrumentos para assegurar o direito à consulta prévia, livre e informada previsto na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para Povos Indígenas e Tribais. Programas e políticas nacionais mais recentes voltados para a pauta quilombola têm enfatizado a obrigatoriedade de consulta às comunidades, a exemplo da Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola (PNGTAQ), construída a partir das reivindicações do movimento social quilombola e instituída pelo Decreto nº 11.786, de 20 de novembro de 2023, que tem entre os seus objetivos promover e apoiar a construção participativa de protocolos de consulta livre, prévia e informada nas comunidades quilombolas (Art. 10, inciso II). Nesta apresentação, pretende-se refletir: 1) sobre a importância da elaboração desse instrumento enquanto estratégia de resistência na luta antirracista; e 2) a partir do caso do estado do Rio Grande do Sul, que aderiu à PNGTAQ em 2025, enquanto objeto de políticas públicas de promoção da igualdade racial.
-
DO PASSADO AO PRESENTE: Um Estudo Sobre a Construção Histórica da Comunidade Remanescente Quilombola Nossa Senhora do Livramento.
— Sara Larissa Serrão Muniz, Igo José Sampaio de Sousa
— Sara Larissa Serrão Muniz, Igo José Sampaio de Sousa
Este estudo tem como objetivo analisar e compreender a construção histórica da Comunidade Remanescente Quilombola Nossa Senhora do Livramento, e suas raízes dentro das perspectivas de reconhecimento e pertencimento dos povos quilombolas, além disso, identificar as lutas, desafios e conquistas da comunidade Livramento. Aborda o debate que envolve as pessoas da comunidade, no qual o levantamento histórico desses povos quilombolas busca promover uma observação e compreensão de suas lutas e desafios para conseguir um espaço na sociedade, tomando como base as contribuições de Minayo (2007) e Chizzoti (2003). Para analisar essa problemática, utilizou-se a abordagem qualitativa, uma revisão de literatura sobre a temática, incluindo livros, artigos acadêmicos, entrevistas semiestruturadas, dados institucionais e observações para coleta de dados. Os resultados apontam para um entendimento da temática de forma que analise do passado ao presente a construção histórica dessa comunidade remanescente em que se observa um marco importante de grandes lutas e desafios para mudanças significativas na vila Quilombola, onde pudessem conseguir alcançar seus direitos e espaço dentro da sociedade. Portanto, conclui-se que o estudo feito na comunidade Livramento foi de suma importância para promover a construção e compreender historicamente as raízes desses povos, evidenciando suas lutas, desafios, conquistas e na busca de reconhecimento de pessoas quilombolas, fortificando e identificando seus direitos dentro da sociedade.
Palavras chaves: Comunidade, quilombola, pertencimento, reconhecimento e desafios.
-
Racismo ambiental, desastre e emergência étnica: a mobilização quilombola da comunidade Barreto-Campinas (MG) no contexto do rompimento da Barragem de Fundão
— Sharles Robert Mendes da Silveira Santos
— Sharles Robert Mendes da Silveira Santos
Este trabalho analisa o processo de emergência étnica da comunidade BarretoCampinas, localizada entre os municípios de Mariana e Barra Longa (MG), no contexto do desastre-crime do rompimento da Barragem de Fundão, ocorrido em 2015. Parte-se da compreensão de que os efeitos do desastre ultrapassam a dimensão material e ambiental, configurando um quadro de violência crônica ( Oliveira, Zhouri, Zucarelli, 2024; Zhouri, 2023) marcado pela desterritorialização, pela invisibilização das afetações socioculturais e pela exclusão das comunidades negras rurais dos processos decisórios e de reparação. Diante da violência promovida pela negligência institucional, o acionamento da identidade quilombola emerge como uma estratégia política, jurídica e existencial de enfrentamento ao racismo ambiental. A pesquisa examina como o autorreconhecimento quilombola e o processo de certificação junto à Fundação Cultural Palmares operam como instrumentos de reivindicação de direitos territoriais, de contestação às assimetrias do modelo de reparação e de reposicionamento da comunidade frente aos agentes estatais e corporativos envolvidos. A partir de uma abordagem qualitativa, sustentada por procedimentos etnográficos, como observação participante, entrevistas e análise documental, o trabalho investiga as motivações que levaram a comunidade a pleitear o reconhecimento enquanto quilombo, bem como os efeitos políticos e sociais desse processo. Busca-se, ainda, analisar os limites da atuação do Estado nos processos de regularização fundiária e de garantia de direitos, evidenciando as tensões entre reconhecimento formal, racismo institucional e a efetivação da justiça territorial no contexto de desastre.
-
Regularização fundiária, laudos antropológicos e lutas antirracistas em comunidades quilombolas do Sudoeste do Paraná
— Taisa Lewitzki
— Taisa Lewitzki
O processo de regularização fundiária de comunidades quilombolas no Brasil constitui um campo de disputas políticas, normativas e epistemológicas, intensificado nas últimas décadas. Embora a Constituição Federal de 1988 reconheça o direito das comunidades remanescentes de quilombos à propriedade definitiva de seus territórios tradicionalmente ocupados, a efetivação desse direito tem sido marcada por avanços pontuais e por uma persistente morosidade institucional, atravessada por práticas de racismo estrutural e institucional.
Nesse contexto, a elaboração dos Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs) configura um momento central do processo administrativo de regularização fundiária. Os laudos antropológicos que compõem esses relatórios têm a função de identificar, caracterizar e delimitar os territórios quilombolas, oferecendo subsídios técnicos e jurídicos para procedimentos que podem culminar na titulação coletiva. No entanto, a produção desses documentos extrapola uma dimensão meramente técnica, envolvendo escolhas metodológicas, disputas por legitimidade, expectativas comunitárias e tensões ético-políticas que atravessam a atuação de pesquisadoras/es, órgãos públicos e comunidades quilombolas.
A partir da elaboração de laudos antropológicos em duas comunidades quilombolas situadas na região Sudoeste do Estado do Paraná, entre os anos de 2024 e 2026, este trabalho busca problematizar os impactos da produção desses documentos enquanto instrumento de luta antirracista no interior paranaense. Argumenta-se que os laudos antropológicos operam não apenas como dispositivos técnico-administrativos, mas também como arenas de disputa simbólica e política, nas quais se confrontam narrativas hegemônicas sobre território, pertencimento e identidade racial. Ao explicitar formas históricas de expropriação, silenciamento e desigualdade racial, os laudos contribuem para a afirmação dos direitos territoriais quilombolas e para o enfrentamento do racismo estrutural que marca as políticas fundiárias no Brasil.
Coordenação
Adalton Marques (UNIVASF)
Desirée de Lemos Azevedo (UNIFESP)
Pessoa debatedora
Fábio Araújo (Fiocruz)
Liliana Sanjurjo (UERJ)
Dando continuidade aos trabalhos ocorridos nas RBA de 2020 e 2022, o GT pretende reunir etnografias e pesquisas históricas que constroem delineamentos acerca de transições democráticas, desafiando marcações temporais convencionadas e preferindo tomá-las como problema de pesquisa. Como explicação a priori, o binômio democracia/ditadura, muitas vezes, impede-nos de pensar a respeito dos processos que ajuda a descrever e dos problemas que é capaz de ocultar em nossas pesquisas. Nesse sentido, a proposta visa colocar em debate trabalhos, de caráter conceitual e/ou empíricos, para provocar reflexões imprevistas em torno do mesmo problema teórico-político. Sem limitar os campos de investigação que poderão ser acolhidos, nos interessam trabalhos que problematizem questões como: 1) as políticas humanitárias transicionais e suas ambiguidades; 2) as implicações das leis de anistia e os silenciamentos impostos aos diferentes atores sociais que sofreram violências, assim como a recepção de suas lutas por direitos; 3) as construções de fronteiras entre crime político e crime comum, e/ou entre segurança nacional e segurança pública, como mecanismos de controle social e/ou restrição de acesso a direitos; 4) as conexões entre expansão penal/violência letal/desaparecimento e os fazeres burocráticos e/ou técnico-científicos como dispositivos de terror e governo de populações; 5) os efeitos das políticas desenvolvimentistas e dos grandes empreendimentos de infraestrutura.
Títulos e Resumos
-
Rachar os "entulhos autoritários": continuidades insuspeitas entre a Ditadura Empresarial-Militar e a Nova República no Brasil
— Adalton Marques
— Adalton Marques
A proposta deste trabalho consiste em analisar enunciados de operadores da Ditadura Empresarial-Militar, iniciada em 1964, que evidenciam objetivos institucionais de legalizar – mais do que apenas legitimar – mecanismos coercitivos governamentais. Com isso, pretendo tornar mais explícito o obstáculo teórico-político que nominei, em outra ocasião (Marques, 2025), a propósito do esquecimento bibliográfico socioantropológico em relação a política penal dos militares, de "fechamento semiótico". Ao se estabelecer uma relação binária (e, portanto, normativa) entre Ditadura e Democracia, na qual a primeira é responsável por fontes autoritárias da nossa experiência política e a segunda é incumbida de desmontar e se livrar dessa parafernália antidemocrática, tornamo-nos completamente despreparados para compreender que a experiência ditatorial foi capaz de produzir leis e decisões administrativas em favor das quais continuamos a lutar, em democracia. Considerando isso, o presente trabalho indaga se não são exatamente as preocupações legais, e não os entulhos autoritários, como defende uma ampla bibliografia politológica, sociológica e antropológica que analisa a chamada transição democrática, um dos traços mais importantes da continuidade político-econômica entre a Ditadura Empresarial-Militar e a Nova República. Que conversão teórico-política podemos sofrer se notarmos que o que identifica a Democracia à Ditadura não são somente as violências governamentais perpetradas contra cidadãos, nem mesmo apenas as forças extralegais que se formam no seio do próprio Estado, mas também a preocupação institucionalista de legalizar os mecanismos coercitivos que espraiam essas violências pelo tecido social?
-
O caso de Tutxi Ãwa: o fluxo burocrático de um desaparecimento de pessoa indígena
— Carolina Silva Nogueira
— Carolina Silva Nogueira
A pesquisa de mestrado visa fomentar uma discussão sobre o desaparecimento de pessoas no Brasil a partir do recorte indígena. Em particular, discute-se o desaparecimento de Tutxi Ãwa, do povo (Avá-Canoeiro do Araguaia), com o objetivo de entender como ocorre a mobilização da categoria do desaparecimento dentro da esfera indígena. Utilizando uma metodologia qualitativa e exploratória, analiso o fluxo burocrático de solicitações jurídicas em torno do reconhecimento de Tutxi Ãwa enquanto desaparecido político da Ditadura Militar. Ao tomar esses documentos técnicos enquanto artefatos (Lowenkron e Ferreira, 2014) argumento como eles simultaneamente testemunham e produzem violências, contribuindo de modo ambivalente e tutelar para a ocorrência de múltiplas formas de violência. Exponho como o estudo de caso torna-se representativo dentro de uma coleção de desaparecimentos e violências cometidas contra os povos originários desde a colonização. Sustento que o desaparecimento indígena tem particularidades que precisam ser observadas, como suas respectivas cosmovisões e relações com a morte. O estudo argumenta sobre a urgência de abordar o desaparecimento de pessoas indígenas como uma necropolítica estatal que perpetua o genocídio dos povos originários.
-
O progresso como dispositivo de governo: o caso da barragem de Sobradinho
— Erick Maddson Rodrigues Bonfim
— Erick Maddson Rodrigues Bonfim
Este trabalho em desenvolvimento faz parte de um recorte da minha dissertação de mestrado e propõe uma análise crítica em torno da construção da barragem de Sobradinho (BA), um grande empreendimento hidrelétrico iniciado em 1972 e finalizado em 1979, “durante o chamado milagre econômico, ápice da repressão militar tendo em frente da presidência da república o general Emílio Garrastazu Médici.” (Marques et al, 2022, p.1). Esse projeto/empreendimento, bem como o processo de industrialização do Nordeste, era um dos caminhos possíveis para superar o “subdesenvolvimento regional”, muito defendido a partir da criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE), no ano de 1959. (Martins, 2001). A SUDENE foi criada com o intuito de fazer uma “(...) intervenção estatal planejada’” (Oliveira, 1981, p.99) em uma região considerada subdesenvolvida.
Contudo, por trás dessa narrativa de progresso, a construção de usinas hidrelétricas, exemplificado neste estudo pela barragem de Sobradinho, não esteve ligada somente a projetos de desenvolvimento energético, mas a engrenagens de controle social e integração forçada de territórios vistos como periféricos (Martins et al, 2025) e como consequência serviu também, como um dispositivo político para legitimar a desterritorialização compulsória de milhares de famílias ribeirinhas (Sigaud, 1986), principalmente durante o regime militar, pois “Sob o pretexto de restaurar a ordem institucional e conter o avanço do comunismo, os militares instauraram um regime autoritário que passou a articular o desenvolvimento territorial à lógica da segurança nacional e da expansão capitalista” (Martins et al, 2025, p.3).
Dessa maneira, este trabalho, que é de caráter qualitativo e histórico-antropológico, utiliza a análise de documentos oficiais da época, a exemplo de relatórios da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), revisão de bibliografia sobre desenvolvimentismo e conflitos por terra e água, bem como estudos posteriores que dão voz aos atingidos. Além disso, o trabalho tem a intenção de provocar reflexões ao colocar o desenvolvimentismo sob a lente da violência do Estado, pois mostra que grandes projetos/empreendimentos quando construídos especialmente em contextos autoritários, possuem mecanismos de controle social, mas que se mascaram em forma de progresso. Com isso, o trabalho pretende demonstrar que o projeto da barragem de Sobradinho, não foi um mero projeto de infraestrutura, mas serviu como um mecanismo de biopolítica em grande escala. (Foucault, 2008).
-
Os não ditos da justiça de transição: raça, memória e silenciamento
— Victória Smith
— Victória Smith
O objetivo deste artigo é discorrer sobre as limitações da justiça de transição em um
contexto de transição democrática de um país recém saído de uma ditadura militar (1964 -
1985). Busco, especialmente, localizar a maneira com que a população negra é enviesada
neste processo, seja pela forma de apagamento em relação às violências sofridas pelo aparato
repressivo da ditadura, seja pela forma com que algumas formas de luta e resistência foram
tratadas como aspectos menos relevantes no contexto geral de resistência e combate à
ditadura, o protesto político que ressurge nos anos 70 mudou a feição do movimento social
negro (Rios, 2019, p. 266). Para construção dos argumentos que darão embasamento ao
artigo, a articulação se dará a partir da apresentação de conceitos relativos ao significado
flutuante de raça, assim afirma Hall (1995, p. 2) um processo de perda de velhos sentidos,
apropriação, acúmulo e contração de novos sentidos; um processo infindável de constante
ressignificação, no propósito de sinalizar coisas diferentes em diferentes culturas, formações
históricas e momentos.
Coordenação
Heloisa Buarque de Almeida (USP)
Carolina dos Santos Bezerra (UFJF)
Casos de violência ou assédio nas universidades são fenômenos de repercussão contemporânea e embora na última década a visibilidade tenha aumentado, a produção sobre o tema é recente. Este GT visa articular pesquisas sobre formas de violência e agressão, histórias silenciadas nas instituições, processos mais recentes de denúncia e apuração, a luta dos coletivos, e a crescente construção de aparatos e políticas institucionais para lidar com o tema. As definições de violência mudam ao longo do tempo e de acordo com disputas, pressões e lutas por direitos. Atos que num certo período eram naturalizados e normalizados passam a ser questionados, como vimos com a definição de assédio sexual (Almeida, 2024). Nas universidades, nos últimos anos se reconhece que pode existir por trás da aparente paquera ou desqualificação intelectual de um docente, um abuso de poder ou uma ameaça. As mudanças na percepção do que é aceito ou não na vida acadêmica gerou novas normas, como a Cartilha de Prevenção aos assédios moral e sexual da CAPES. Movimentos sociais passaram a demandar das instituições que reconheçam o problema que sequer figurava nos regulamentos ou códigos de ética. Estas formas de agressão que se tornaram ofensivas são interseccionadas por desigualdades de gênero, raça, classe social, geração, orientação sexual, território, deficiência e outros marcadores sociais da diferença, além de serem sustentadas pela hierarquia acadêmica, por seus pactos e relações de poder.
Títulos e Resumos
-
Relatos de sonhos jamais vividos: o peso da intelectualidade "engessada" nas trajetórias acadêmicas abandonadas.
— Bernardo Cardoso de Almeida Vieira
— Bernardo Cardoso de Almeida Vieira
O trabalho em questão parte de relatos de parentes-interlocutoras afastadas do ambiente acadêmico perante processos de violência verbal e agressões simbólicas vivenciados ao decorrer da jornadas universitárias, ambas interrompidas após a consagração da primeira pós-graduação, nesse sentido as histórias narradas juntamente as emoções mobilizadas me trouxeram um questionamento diante do modelo de intelectualidade vigente e os preconceitos sociais reproduzidos nos corpos docentes e discentes.
Nessa perpectiva, a minha tentativa é transformar esse relatos de dor e abandono de sonhos profissionais em uma oportunidade produtiva para o reflorestamento do espaço universitário, visando a amplificação de vozes e a multiplicidade de agentes na produção do conhecimento antropológico, abrindo assim um leque de possibilidades para pensarmos temáticas emergentes do corpo social, logo falar em etnografias universitárias e antropologias intelectuais traz a tona um desejo em persarmos no nosso próprio campo, entendendo como determinados preconceitos sociais e estigmas como o machismo e o patriarcalismo influenciam na atividade hermenêutica e científica.
Dito isso, a partir dos relatos de Ana e Kátia e suas experiências de um não pertencimento e um não lugar entendo que essa exclusividade e processo de exclusão não provém de uma ação individual, porém consiste em um projeto institucional coletivo que tem por objetivo primário a manutenção do poder de legitimidade acadêmica para um grupo reduzido dos "notáveis", partindo de uma concepção profética e problemática, dado que formula um padrão para a intelectualidade, o Homu Academicus pautado em uma masculinidade cis-heteronormativa branca, assim trata-se de uma hegêmonia do saber.
Desse modo, trazendo enquanto arcabouço teórico os trabalhos de Donna Haraway e Clifford Geertz (1989), trata-se de pensar e imaginar mundos com esse outro, visando construir saberes localizados, contextualizados e corporificados, penso então que o conhecimento produzido nas universidades não deve estar desatualizado, já que reproduz relações hierárquicas e processos de apagamento , divisões misticas partindo de questões interssecsionalizadas de genêro e raça para a seleção de quem é ou não autorizado a produzir antropologia, sob essa ótica entendo como a psique-acâdemica legitima esse individualismo e produtivismo intelectual voltado somente para o engrandecimento desse eu pesquisador.
Portanto, os relatos dessas parentes-interlocutoras afetivas surgem enquanto dois exemplos das diversas trajetórias acadêmicas interrompidas por essa violência e seletividade que a partir desse padrão, silencia, afasta e impossibilita a circulação de determinados corpos e subjetividades nesse local, logo subjetivar esse conhecimento se torna essencial.
-
Racismo estrutural, branquitude e violência simbólica: experiências de estudantes negros no curso de Direito da UFOB
— Jéferson Oliveira Morais, Anne Gabriele Lima Sousa de Carvalho
— Jéferson Oliveira Morais, Anne Gabriele Lima Sousa de Carvalho
Este trabalho analisa as dinâmicas do racismo estrutural presentes no curso de Direito da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB), tomando como eixo as experiências emocionais, identitárias e de pertencimento de estudantes negros no contexto da convivência universitária. Partindo da compreensão de que as estruturas formais que comportam o ensino jurídico constitui um espaço historicamente marcado pela branquitude, pela reprodução de hierarquias raciais e pela naturalização de violências simbólicas, a pesquisa investiga como práticas institucionais, conteúdos curriculares e relações acadêmicas operam tanto como dispositivos de exclusão quanto como arenas de disputa, denúncia e re(ex)sistência. Ancorado em uma perspectiva antropológica crítica e decolonial, o estudo dialoga com o conceito de racismo estrutural, com as noções de capital simbólico e cultural, bem como com abordagens que articulam subjetividade, poder e processos de racialização. Considera-se, ainda, a dimensão interseccional das experiências analisadas, observando como raça, classe e trajetória social atravessam as vivências no espaço universitário e produzem impactos diretos sobre a saúde emocional e a construção identitária dos estudantes. Metodologicamente, adota-se uma abordagem qualitativa, descritiva e interpretativa, baseada na realização de entrevistas semiestruturadas com estudantes autodeclarados negros, complementadas por análise documental do Projeto Pedagógico do Curso e de normativas institucionais. As narrativas produzidas são compreendidas não apenas como relatos individuais, mas como expressões situadas de processos sociais mais amplos, que evidenciam formas contemporâneas de violência institucional, silenciamento epistemológico e desigualdade racial no ensino superior. Ao articular racismo institucional, políticas de inclusão, experiências de discriminação e estratégias de enfrentamento no cotidiano universitário, o trabalho contribui para os debates antropológicos sobre ações afirmativas, convivência acadêmica e produção de desigualdades nas instituições públicas de ensino. Busca-se, assim, evidenciar como estudantes negros elaboram sentidos, afetos e práticas políticas frente às estruturas que historicamente os marginalizam, reafirmando a universidade como campo de conflito, negociação e transformação social.
-
Patriarcado e Violências no ambiente universitário: desnaturalizando o cotidiano.
— Josélia Barroso Queiroz Lima, Kiria Silva Orlandi
— Josélia Barroso Queiroz Lima, Kiria Silva Orlandi
Este artigo/trabalho objetiva partilhar a experiência do projeto de extensão Rede de Proteção Contra a Violência a Mulher: rompendo a violência, o silêncio e a invisibilidade vinculado a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri em parceria com a Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Diamantina, juntamente com o Programa de Extensão Mulheres da UFVJM. Há 7 anos, desenvolvemos ações de prevenção, combate e enfrentamento à violência de gênero. Na região mineira, marcada pela colonização extrativista e escravagista, que se configura com intensa atividade rural. O projeto objetiva retirar da invisibilidade situações de violências: doméstica e familiar contra a mulher, sexual e homotransfóbica. Intervimos no ambiente universitário que atende a população do Jequitinhonha, secularmente composto por grupos vulneráveis, com históricas demandas por reparação de direitos e acesso à políticas públicas afirmativas. Interconectadamente, lidamos com os atravessadores de raça, gênero e classe. Divulgamos informações sobre identificação das violências, modos de denúncia e acolhemos demandas de proteção e tomada de providências. Neste trabalho refletimos e apresentamos os resultados do processo vivido, que inclui a existência de procedimentos administrativo e criminal contra um professor universitário por assédio sexual, a intervenção junto à mulheres trabalhadoras terceirizadas, que atuam na limpeza da UFVJM, constituindo um espaço dialógico, que rompe a invisibilidade e o silêncio dirigido a elas. Na luta política pelo enfrentamento a violência e a desigualdade de gênero no cenário universitário, compusemos trabalhos de extensão em rede, tendo o projeto sido convidado para comissões instituídas junto a UFVJM visando organizar legalmente um fluxo de tomadas de providencias, evitando que as demandas desaparecessem na burocracia de diversos setores. Não obstante, sendo a universidade um espelho da realidade social hierarquizada e patriarcal, não houve interesse/empenho na concretização de ações reais, formalizadas capazes de acolher e fazer frente às violências de gênero no ambiente universitário. Ainda assim, continuamos as ações em rede, constituindo o Programa de Extensão Rede de Mulheres da UFVM integrando ações que possam mobilizar reflexões, críticas e posturas capazes de modificar a cultura patriarcal naturalizada no ambiente educacional universitario, onde as hierarquias sociais justificam e legitimam diferentes formas de violências às mulheres. Em 2026, realizaremos a roda de conversa: Da militância à responsabilização, objetivando evidenciar o papel do testemunho em caso de denúncias de assédio, partindo do vivenciado no interior da UFVJM, pela ação do Núcleo de Orientação Socioeducacional Contra a Violência à Mulher.
-
Trote e subjetividade: corpo, ritual e cotidiano numa faculdade no interior de São Paulo.
— Maria Paula Calanzani Rocha, Heloisa Buarque de Almeida
— Maria Paula Calanzani Rocha, Heloisa Buarque de Almeida
A partir de pesquisa etnográfica de uma das autoras, o artigo reflete sobre os modos de produzir subjetividades profissionais e de filiação institucional que é gerado nas práticas ritualizadas conhecidas como trotes em um curso de prestígio numa faculdade do interior de São Paulo. O artigo se inspira nas análises sobre trote como ritual de passagem e de instituição e no debate sobre subjetividades devotas em artigo de Saba Mahmood para argumentar como se constitui no cotidiano de atividades trotistas as práticas de incorporação da hierarquia geracional e do pertencimento profissional e institucional. Observando o dia a dia inicial no curso marcado por humilhações, constrangimentos, atividades ritualizadas e risos, visamos entender a formação da subjetividade que garante depois a adesão ao ethos da profissão, e o respeito e adoração pela faculdade cursada, garantindo que o calouro incorpore o espírito de corpo.
-
Pedagogia do silêncio: a cultura da não denúncia e o pacto narcísico docente como instrumentos de blindagem institucional do assédio universitário
— Michele Campos Silva
— Michele Campos Silva
Este trabalho analisa os mecanismos institucionais que produzem e sustentam o silêncio e a impunidade diante de violências e assédios nas universidades. Argumenta-se que a ausência de denúncias não decorre de fragilidades individuais ou ausência de canais oficiais de registro, mas de um processo pedagógico informal, reiterado e relacional, por meio do qual estudantes aprendem que questionar ou confrontar práticas abusivas implica custos elevados para a trajetória acadêmica, tais como retaliações, isolamento e sofrimento psíquico. Em diálogo com a noção de poder disciplinar desenvolvida por Michel Foucault (1999), o silêncio é compreendido como efeito de uma cultura institucional que objetiva regular condutas, produzir sujeitos dóceis, desestimular a contestação e promover a autocensura como estratégia de sobrevivência no interior da universidade.
A partir de uma etnografia multisituada e dos estudos feministas sobre a biografia de uma denúncia, desenvolvidos por Sara Ahmed (2021), o artigo examina como essa pedagogia do silêncio se articula à construção de uma cultura da não denúncia. Tal cultura opera pela circulação de advertências explícitas e implícitas, pela deslegitimação recorrente das narrativas discentes e pela inversão da suspeição, na qual a credibilidade do corpo docente é presumida, enquanto estudantes são frequentemente enquadradas como ingratas ou oportunistas. A denúncia passa, desse modo, a ser percebida como ruptura da ordem institucional e como ameaça à reputação acadêmica de agressores e agressoras.
Nesse processo, destaca-se o papel do Pacto Narcísico Docente, conceito mobilizado a partir dos estudos de Cida Bento (2022), entendido como um acordo simbólico de autoproteção que atravessa o corpo docente e prioriza a preservação da autoridade e da imagem institucional. Esse pacto promove a blindagem de professores/as universitários/as diante de denúncias de assédio ou de práticas abusivas. Ao acionar mecanismos de defesa que neutralizam críticas, deslocam responsabilidades e individualizam o sofrimento, o pacto preserva as estruturas de poder, mas compromete a credibilidade dos órgãos responsáveis por receber as manifestações. Diante disso, consolida-se uma percepção de que essas instâncias, geralmente administradas por docentes da própria universidade, são parciais e ineficientes.
Conclui-se, portanto, que o enfrentamento das violências institucionais exige mais do que normativas ou reafirmações retóricas de compromissos institucionais: é necessário desestabilizar os processos pedagógicos que ensinam a silenciar e garantem a impunidade. É preciso, também, restituir a credibilidade dos órgãos institucionais construindo canais de escuta e responsabilização que não estejam subordinadas às lógicas corporativas de autoproteção.
-
A inauguração da sala Lilás Janaína Bezerra na UFPI: os avanços e as implicações do enfrentamento ao assédio e discriminações
— Tayná Egas Costa
— Tayná Egas Costa
O assédio moral e sexual e outras violências estão em plena efervescência no âmbito acadêmico e político das universidades brasileiras, principalmente após a publicação da lei 14540/2023, que institui o Programa de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio Sexual, à Violência Sexual e aos Crimes contra a Dignidade Sexual em todas as universidades públicas. O presente trabalho, de caráter qualitativo e exploratório, insere-se no contexto de uma pesquisa de doutorado em Sociologia, em andamento, que investiga as dinâmicas e o enfrentamento do assédio moral e sexual na Universidade Federal do Piauí (UFPI). O objetivo deste trabalho é apresentar um relato de experiência com recorte crítico reflexivo sobre as políticas e ações da nova gestão da Reitoria no combate a essas violências, a partir da análise de uma cena emblemática do trabalho de campo: a inauguração da Sala Lilás Janaína Bezerra, ocorrida em agosto de 2025, no campus Ministro Petrônio Portela, em Teresina. A inauguração da Sala Lilás, observada em trabalho de campo, não se limitou a um ato formal, mas representou um momento de articulação política e simbólica. A presença da nova reitora, de movimentos estudantis e, notavelmente, de parceiros externos como a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Piauí (SSP-PI) e a Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM), evidencia a estratégia da Reitoria de transformar o enfrentamento à violência em uma pauta prioritária e intersetorial. O espaço integra o Plano Setorial de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação na UFPI, aprovado pela Resolução nº 326, de 25 de junho de 2025, alinhando-se também ao Programa Nacional das Salas Lilás, lançado pelo Governo Federal em março de 2025. A͏ Sala Lilás e sua ligação com outras ͏organizações mostra grandes passos à frente, já que a UFPI colocou em ação planos e regras para͏ o combate à violência de gênero de forma interseccionalizada, a reconhecendo como uma questão estrutural. Trabalhando junto com a SSP-PI e͏ SPM, embora͏ muito importante para garantir apoio jurídico e ͏a segurança de vítimas ͏mostra preocupações importantes. Esta Sala Lilás é um ato reflexo de uma mobilização interna grande ͏trazida pela tragédia de ͏Janaína. O relato de campo sublinha a importância de políticas intersetoriais, mas chama a atenção para a necessidade de uma análise crítica sobre as implicações de tais parcerias e a sustentabilidade das ações. É importante que, além de valorizar o símbolo da Sala Lilás, a universidade também faça uma transformação na sua abordagem pedagógica e na sua cultura, de forma a enfrentar as causas das violências. Assim, podemos assegurar que o feminicídio que aconteceu com Janaína Bezerra não volte a acontecer.
-
Violência, assédio e produção de políticas na universidade: a experiência da CPAPEV/UFRR em um contexto de fronteira
— Veronica Prudente, João Paulo Roberti Junior
— Veronica Prudente, João Paulo Roberti Junior
Este trabalho analisa a experiência da Comissão Permanente de Acolhimento, Prevenção e Enfrentamento às Violências (CPAPEV) da Universidade Federal de Roraima (UFRR), instituição situada em um contexto universitário de fronteira atravessado por profundas desigualdades de gênero, raça, território, nacionalidade e classe social. A partir de uma abordagem interseccional, pretendemos discutir a construção institucional de políticas, fluxos de atendimento e estratégias de enfrentamento ao assédio e a outras formas de violência no âmbito universitário. Com base na sistematização do fluxo de acolhimento, escuta qualificada, orientação, encaminhamento e acompanhamento de casos, o trabalho evidencia os desafios envolvidos na definição do que é reconhecido como violência, nas decisões sobre denunciar ou não denunciar e na articulação entre instâncias internas da universidade e a rede externa de saúde, assistência social e justiça. Argumenta-se que a CPAPEV atua não apenas como um mecanismo administrativo, mas como um dispositivo político-pedagógico que produz novas gramáticas institucionais sobre assédio, poder, hierarquia acadêmica e direitos. Este trabalho também aborda ainda a organização, em 2025, do II Seminário Nacional de Políticas de Enfrentamento e Prevenção aos Assédios em Instituições de Ensino Superior e do I Colóquio do Observatório de Violências contra Mulheres em Roraima, compreendidos como espaços estratégicos de articulação nacional, circulação de experiências e construção de redes. Sustenta-se que o enfrentamento às violências na universidade exige mais do que canais formais de denúncia, demandando processos contínuos de escuta, formação, pactuação institucional e transformação das relações de poder que historicamente sustentaram a naturalização das agressões no cotidiano acadêmico. Assim, serão apresentados dados sobre atendimento de acolhimentos, casos acompanhados e encaminhamentos sobre os processos que a CPAPEV pode acompanhar do início até sua conclusão no recorte temporal de julho de 2024 a dezembro de 2025. A partir dos dados apresentados, observamos que embora as políticas implementadas sejam relevantes e inovadoras se comparadas com outras IES, ainda necessitamos de estratégias para dar mais celeridade aos processos acompanhados e incrementar as campanhas educacionais na UFRR para que o todos os indivíduos possam ter mais consciência sobre o combate aos assédios que ocorrem na universidade.
-
Mulheres negras na Universidade de São Paulo: violência simbólica, agenciamentos e resistências
— Victória Vedovato
— Victória Vedovato
Este trabalho investiga as experiências e percepções de alunas negras da Universidade de São Paulo, a fim de compreender os desafios, conquistas e mecanismos de enfrentamento relacionados à sua inserção e permanência na universidade. A história da USP é marcada por uma série de resistências ao ingresso de pessoas racializadas, tendo sido uma das últimas universidades do Brasil a aderir ao sistema de cotas raciais. Assim, a pesquisa busca compreender como alunas negras são recebidas pela instituição e refletir como suas experiências de exclusão e pertencimento são moldadas pela interseção de raça, gênero e classe. Exploro, por um lado, como as vivências de discriminação racial, machismo e outras formas de desigualdade são percebidos em suas trajetórias e, por outro, reflito em que medida participação em coletivos identitários e organizações estudantis afetam a construção da identidade e subjetividade das mulheres negras na universidade.
Através de 11 entrevistas realizadas com alunas negras de graduação da USP, procuro entender por quais adversidades as estudantes negras passam no ambiente acadêmico, os modos pelos quais lidam com essas experiências e como elas se articulam com as outras dimensões de suas vidas, com as suas subjetividades e identidades. Essa seleção foi realizada através de uma amostragem pela técnica conhecida como bola de neve. As entrevistas foram semi-estruturadas, buscando compreender suas trajetórias acadêmicas, desde o período escolar, passando pelas suas experiências universitárias, até as suas expectativas para o futuro.
O sentimento de deslocamento produzido por uma universidade elitizada como a USP pode ser entendido como violência simbólica (Bourdieu, 2001): as instituições de ensino superior naturalizam e legitimam a cultura e o habitus da classe dominante, impondo suas próprias significações e deslegitimando outras formas de conhecer e habitar o mundo. Assim, essas estudantes, ao ingressarem no ensino superior, sentem que sua existência é desqualificada. A falta de representatividade de professores e referências negros intensifica essa sensação. O campus, muitas vezes, transmite insegurança, tanto física quanto psicológica, já que é um local onde enfrentam discriminações raciais, de gênero, de classe e de deficiência e, em alguns casos, violência sexual. A universidade, apesar de promover feridas emocionais, também fomenta ativismo e coletivos identitários, que elevam a autoestima e autoconfiança dessas mulheres. Para persistir, contam com redes de apoio e coletivos étnico-raciais que promovem solidariedade e pertencimento, essenciais para enfrentar adversidades e alcançar objetivos acadêmicos e pessoais.
Coordenação
Moisés Lopes (UFMT)
Leandro de Oliveira (UFMG)
Este GT propõe refletir sobre as múltiplas formas de violência que atingem pessoas LGBTI+ no Brasil, considerando os entrelaçamentos entre sexualidade, gênero, raça, classe e território. A partir de uma perspectiva antirracista e comprometida com a pluridiversidade, buscamos acolher trabalhos que abordem experiências de violências e resistências vividas por sujeitos dissidentes das normas de gênero e sexualidade, bem como as formas de mobilização política, produção de saberes e disputas por reconhecimento. Interessa-nos, também, compreender como essas violências são nomeadas, denunciadas e enfrentadas por coletivos sociais, instituições estatais e agentes do sistema de justiça, especialmente após a equiparação da homotransfobia ao crime de racismo pelo STF. Convidamos etnografias e análises que explorem as tessituras cotidianas dessas experiências, os embates políticos e morais em torno das categorias de homofobia, transfobia e outras violências, e as formas de produção de políticas públicas e de narrativas jurídicas. O GT se insere no compromisso de uma Antropologia atenta às assimetrias de poder e orientada pelo desejo de reparação e pelo bem viver.
Títulos e Resumos
-
Um baby-doll rosa, identidade e gênero: por uma outra educação
— Cleomar Felipe Cabral Job de Andrade
— Cleomar Felipe Cabral Job de Andrade
Acolhida por uma família, ainda na infância, foi construindo sua identidade ora negada por seus familiares. Sofria bullying na escola e o medo a fez dormir em cima de uma árvore por toda uma noite. Nasceu na zona rural, mas cresceu em outro Estado, no centro urbano. A lembrança mais amorosa que recebeu foi o vestido comprado pela nova família, a ida ao cabelereiro, como sinalização de que abraçava sua transição. Era uma menina, uma menina trans negra. Cresceu e iniciou no mundo do trabalho muito cedo e nunca perdeu o contato com seus parentes consanguíneos. Quando seus pais precisaram de cuidado, retornou para casa deles. O retorno não foi só para o lugar da infância, foi o retorno para um corpo que não sabia habitar, para uma identidade de gênero distante, por respeito a sua mãe, que até então não aceitava a mulher que ela tinha se tornado. Na comunidade, vivia entre o filho que os pais desejavam e, na escola, a mulher que sabia ser. Tinha o sonho de cursar o ensino superior e, sobretudo, ter sua casa, para poder atender a porta vestida com seu baby-doll cor de rosa. A partir do estudo de caso, a proposta é refletir sobre os desafios da escola para a efetivação de um ambiente plural de cuidado e respeito, que garanta a entrada, permanência e êxito de pessoas socialmente minorizadas, como também de currículos e processos de ensino-aprendizagem voltados ao desenvolvimento humano e cidadão. O método adotado combina memórias, registros de sala de aula e reflexões críticas produzidas ao longo de cursos, orientações e atividades. Na adultez, assim que a discente retomou os estudos, disse aceitar os dois nomes, o de registro (masculino) e o adotado enquanto nome social (feminino), postura fruto de resiliência e violências. A partir de uma aula sobre “parentesco, gênero e afetividades”, aprendeu a distinguir as categorias de gênero e sexualidade (Basso, 2020; Louro, 2007; Butler, 2008; Grossi, 1998; Scott, 1995). Até aquele momento, a identidade de mulher transgênero tinha sido a ela negada, com isso, o direito da pessoa enquanto respeito ao nome, também. Chegou a dizer que, “de tudo que o curso poderia ensinar, aquele aprendizado da Antropologia tinha mudado sua vida”. Logo após, solicitou a mudança de nome nos diários escolares e prontamente foi atendida. Já estava na residência estudantil feminina. Havia ainda, em seu percurso escolar, o apoio de Núcleo de Estudos de Gênero e Sexualidade – Geni na instituição. Embora com esses passos e atos, houve resistência de alguns servidores em relação ao seu nome e pronome, um aspecto fundamental e que já tinha sido reiteradas vezes violado. Aos poucos seu brilho foi se perdendo, uma crise foi se instaurando, ela adoeceu e se afastou da escola. Ainda buscou retornar e, dado os prazos, já não foi possível.
-
Atravessamentos da violência de gênero e suas repercussões nos corpos de mulheres trans com experiência de consumo de drogas
— Dayane da Rocha Pimentel, Keila Silene de Brito e Silva, Camila Pimentel
— Dayane da Rocha Pimentel, Keila Silene de Brito e Silva, Camila Pimentel
As práticas de violências direcionadas às mulheridades, compreendidas como uma categoria política que afirma a pluralidade das diversidades de gênero, constituem-se no interior de uma ordem marcada pelo machismo estrutural, sendo também expressão das desigualdades e das determinações sociais da saúde.
Este trabalho pretende tecer reflexões sobre os atravessamentos da violência de gênero e suas repercussões nos corpos de mulheres trans. Seus corpos, dissidentes e deslocadores, são territórios de disputas, especialmente quando se trata daquelas com experiência de consumo de drogas.
Fruto de uma pesquisa qualitativa de base etnográfica, alinhada à epistemologia feminista, o estudo ocorreu no segundo semestre de 2025 em um Centro de Acolhimento Intensivo, localizado numa capital do Nordeste brasileiro. Como estratégia de coleta de dados foram utilizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade e observação participante. A análise centrou-se em recortes de trajetórias de vida de mulheridades em situação de acolhimento.
De violências sofridas desde o marco da primeira infância, ouvimos sobre estupros de vulnerável em ambiente intradomiciliar, relatos que revelam intensa vulnerabilização e a produção continuada de vidas marcadas pela precarização. Quando ficam mais velhas, entram em conflito com a lei devido a atividades no tráfico de drogas, vivenciando contextos de privação de liberdade, violências sexuais extremas, como estupro coletivo. No âmbito dos relacionamentos interpessoais, a maioria se desenvolve com contornos de controle, posse, dominação e interdições dos corpos, regulados a partir das múltiplas formas e meios de violências. No trânsito por equipamentos socioassistenciais acessados em busca de cuidados e proteção social, novamente encontram a reprodução de violências dentro de espaços institucionais.
Assim, as múltiplas opressões que interagem de forma sistemática e legitimam relações de subalternização às mulheridades convocam o uso da interseccionalidade como ferramenta analítica. A adoção de uma postura ético-política na investigação e práxis crítica é fundamental para examinar categorias de desigualdades, relações de poder e a complexidade das violências, especialmente no que se refere às experiências de mulheres trans com o consumo de drogas e aos modos como políticas e espaços de acolhimentos incidem sobre suas trajetórias.
Nesse sentido, perspectivas orientadas pela redução de danos, pelo cuidado em liberdade e pela corresponsabilização mostram-se centrais para fortalecer existências múltiplas, além de possibilitar a compreensão de que racismo, colonialismo, proibicionismo e heteropatriarcado estão interconectados e, por conseguinte, alargar a luta por justiça social.
-
Gênero, Poder e Resistência em Azeroth: uma etnografia no mundo virtual de World of Warcraft
— Denize da Silva Mesquita
— Denize da Silva Mesquita
O presente estudo é uma proposta de investigação antropológica, com foco em estudos de gênero, inserido no campo da antropologia digital, a partir de uma etnografia no jogo online World of Warcraft Classic (WoW Classic), para uma dissertação de Mestrado, no Programa de Antropologia Social, da Universidade Federal de Mato Grosso (PPGAS/UFMT). A pesquisa busca compreender como as normas de gênero são reproduzidas e tensionadas no ambiente virtual de um jogo, atravessado pelas assimetrias de poder, num espaço da cultura gamer, historicamente marcada pela presença hegemônica de um modelo simbólico relacionado às performances de masculinidades marcadas pela violência, do ponto de vista ocidenteal, a partir de teorias feministas na antropologia, como Sherry Ortner, Judith Butler e Marilyn Strathern. World of Warcraft é, além de um jogo, um produto mercadológico desenvolvido por uma empresa norte -americana, a Blizzard Entertainment e,ainda que estruturado por narrativas pré-estabelecidas (in game), suas jogadoras e jogadores produzem sociabilidades (in game e out of game) que atravessam disputas em torno da validação de habilidades e da própria legitimidade de existência de jogadoras mulheres neste espaço, simbolicamente associados às performances de masculinidades atreladas à violência (Geertz, 1973). A pesquisa se encontra em fase de levantamento bibliográfico e se fundamenta metodologicamente na etnografia virtual das autoras Débora K. Leitão e Laura G. Gomes que escreveram, em 2012, sobre a experiência de pesquisa etnográfica no mundo virtual do jogo Second Life. A partir de uma perspectiva interseccional, articula-se contribuições da antropologia feminista e dos estudos de gênero (Butler,1990) para se compreender as experiências de mulheres em espaços marcados por lógicas patriarcais, capitalistas e eurocêtricas (Maluf, 1993). O estudo começa, inicialmente, com uma proposta de análise das narradoras e profissionais em cenários competitivos, como o da narradora Ana Muniz (Anyazita), a primeira mulher a narrar um campeonato brasileiro de League of Legends, em 2024 e se desloca para um jogo de MMORPG, o World of Warcraft, baseado em estudos já realizados, como o de Bonnie A. Nardi no livro "My Life as a Night Elf Priest: An Anthropological Account of World of Warcraft (Technologies of the Imagination: New Media in Everyday Life)". Neste diálogo com estudo de jogos digitais e, também, pela experiência situada da própria pesquisa, que é uma jogadora de DOTA2, o objetivo principal é compreender os agenciamentos (Ortner,2000) que atravessam as jogadoras em suas interações com o jogo e a comunidade do jogo, que aparecerão durante o trabalho de campo.
-
Quando o lar deixa de ser um lugar seguro: reflexões sobre práticas homofóbicas no ambiente familiar
— Gleisson Roger de Paula Coêlho
— Gleisson Roger de Paula Coêlho
Embora a orientação afetiva sexual de uma pessoa não a defina, o processo de "assumir-se" frequentemente envolve uma complexa trajetória de autoaceitação. Esse percurso é usualmente marcado por momentos de dúvida, crises pessoais, isolamento e, em alguns casos, pela busca equivocada de uma suposta "cura" para sua condição. Esses desafios são intensificados pelo temor de não receber acolhimento daqueles que, teoricamente, deveriam oferecer amor incondicional. Nesse contexto, a aceitação pode não se concretizar plenamente ou transformar-se em um processo dinâmico e contínuo de negociações e ajustes no âmbito das relações interpessoais. A homofobia, por sua vez, configura-se como uma manifestação de preconceito, discriminação ou de atos de violência – sejam eles físicos, simbólicos ou morais – dirigidos a indivíduos que estabelecem relações afetivas e/ou sexuais com pessoas do mesmo gênero. Apesar de o Supremo Tribunal Federal (STF) ter equiparado, em 2019, a homofobia ao crime de racismo (Lei nº 7.716 de 1989), caracterizando-a como crime inafiançável e imprescritível, tal reconhecimento jurídico não garante a ausência de práticas discriminatórias no ambiente familiar. Diante desse cenário, o presente estudo tem como objetivo fomentar uma análise crítica acerca da homofobia no contexto das dinâmicas familiares. Para tanto, utiliza-se como base uma etnografia realizada em Cuiabá/MT, focada nas relações afetiva sexuais entre homens, buscando aprofundar o debate sobre os impactos dessa forma de discriminação no ambiente doméstico e suas implicações para as experiências individuais e sociais dos sujeitos envolvidos.
Palavras-chave: Família, Homofobia, Orientação Afetiva Sexual.
-
Experiências de jovens LGBT em pequenas cidades do Brasil: desafios da socialização e da cis-heteronormatividade
— Guilherme Lamperti Thomazi, Nathália Pacífico de Carvalho, Hevelyn Rosa
— Guilherme Lamperti Thomazi, Nathália Pacífico de Carvalho, Hevelyn Rosa
A juventude é um período de construção identitária marcado por tensões entre a busca de autonomia e a permanência do apoio familiar. Para jovens LGBT fora dos grandes centros urbanos, esses processos são intensificados pelo controle social acentuado e pela escassez de espaços de sociabilidade, dificultando a formação de redes de apoio e o fortalecimento de vínculos fora da cis-heteronormatividade. Este estudo analisa as vivências de jovens LGBT em uma cidade do interior do Brasil, discutindo como o território e as redes sociais moldam suas trajetórias. A metodologia fundamenta-se em um estudo qualitativo multicêntrico, com entrevistas individuais, que explorou comportamentos sexuais, reprodutivos e dinâmicas de sociabilidade de jovens entre 16 e 24 anos. O trabalho de campo ocorreu entre outubro de 2021 e julho de 2022. Aqui são analisadas as entrevistas de três jovens residentes em uma cidade com menos de 25 mil habitantes na região Sudeste: Patrícia (jovem branca cisgênera e bissexual de 17 anos), Pietro (jovem branco cisgênero e bissexual de 20 anos) e Maurício (jovem pardo cisgênero e gay de 16 anos). Os resultados indicam que as relações familiares são perpassadas pelo medo da revelação da orientação sexual, com reações distintas: desde a aceitação até humilhações constantes. O território surge como fator limitante da sociabilidade; a escassez de locais de encontro leva os/as jovens a buscarem cidades vizinhas para garantir o sigilo da orientação sexual, estratégia dificultada pela falta de independência financeira. Nota-se o afastamento dos serviços de saúde por receio de reconhecimento pelos profissionais locais. No âmbito educacional, observa-se o impacto do conservadorismo e da ascensão da extrema direita, com a perseguição a professores e o cerceamento de debates sobre gênero. A educação sexual é negligenciada ou restrita à dimensão biológico-reprodutiva, omitindo questões sobre prazer e diversidade sexual e de gênero. As redes sociais, embora permitam a criação de novas redes de suporte, também replicam formas de violência e vigilância. Conclui-se que o isolamento geográfico e a vigilância interpessoal restringem o exercício da sexualidade e o acesso a direitos básicos de jovens LGBT. O território, portanto, não é apenas um cenário, mas um marcador social que modula trajetórias e incide sobre possibilidades de existência e resistência desses sujeitos frente às normas vigentes.
-
Ofensivas anti-gênero e extrema-direita: a fabricação fantasmática das dissidências de gênero
— Hailey Kaas Alves Pedro da Silva, Marina Menezes Segatti
— Hailey Kaas Alves Pedro da Silva, Marina Menezes Segatti
Esse artigo tem por objetivo fazer uma breve análise da ofensiva anti-gênero dos últimos anos na esteira da ascensão do neofascimo mundial - principalmente estadunidense e europeu - marcada pelo caráter fantasmático do gênero conforme análise de Judith Butler sobre o fenômeno. O trabalho fará um percurso pelos principais marcos da ofensiva anti-gênero cuja principal linha de frente atual têm sido os ataques aos direitos trans mascarados e justificados por uma suposta proteção às mulheres e crianças. Nesse sentido, analisa-se como a retórica da “proteção às mulheres e crianças” tem operado como dispositivo legitimador de políticas excludentes, restrições de direitos e práticas de vigilância sobre corpos dissidentes. Por fim, o texto mostrará uma associação entre diferentes grupos, da esquerda e direita, na luta contra direitos trans e a “ideologia de gênero” como um todo. Assim, busca-se compreender a ofensiva anti-gênero não apenas como um fenômeno discursivo, mas como uma estratégia política articulada a projetos autoritários, racistas e neoliberais, que mobilizam afetos como medo, ressentimento e nostalgia colonial.
-
Gênero e Educação reflexões de corredores, saberes e dissabor: um estudo de caso da Escola Estadual Fernando Leite de Campos
— Ivone Rodrigues dos Santos
— Ivone Rodrigues dos Santos
Esta pesquisa intitulada “Gênero e Educação reflexão de corredores, saberes e dissabor: um estudo de caso da Escola Estadual Fernando Leite de Campos”, objetiva analisar o papel da unidade escolar no processo de ensino aprendizagem e nas relações sociais que se desenvolvem na escola, na tentativa de consolidar a cidadania de pessoas LGBTQIAP+, tendo em vista que, a instituição de ensino, por meio de suas práticas diárias, busca articular o Projeto Político Pedagógico à defesa da diversidade. Portanto, este trabalho tem como finalidade compreender se essa articulação se apresenta como política institucional e como ela é percebida pela comunidade escolar. Deste modo, observamos, ao longo desta pesquisa em desenvolvimento, as propostas de leis voltadas para impedir que ocorram a exclusão da
diversidade no contexto escolar, o impacto das fake news e discursos de ódio na vivência docente e discente da educação pública, bem como os desafios no processo de consolidação da cidadania das pessoas LGBTQIAP+.
-
"Ainda creio": religiosidade e dissidência em uma Pastoral da Diversidade evangélica.
— Luciano Rodrigues da Costa
— Luciano Rodrigues da Costa
Este trabalho tem como objetivo analisar o lugar da religiosidade na vida de pessoas LGBTQIA+ que integram a Pastoral da Diversidade da Primeira Igreja Batista dos Bultrins, em Olinda (PE). A partir de experiências marcadas por exclusão, culpa e violência simbólica em contextos eclesiásticos anteriores — tanto em igrejas conservadoras quanto em espaços autodeclarados inclusivos —, esses sujeitos constroem uma vivência de fé afirmativa e comunitária. A Pastoral da Diversidade, criada em 2023, tem promovido cultos, eventos e congressos que abordam as violências religiosas, especialmente contra pessoas trans, e propõem uma espiritualidade baseada no acolhimento, na dignidade e no direito de pertencer. Em 2024, o culto do Dia do Orgulho LGBTQIA+ trouxe como lema “Somos todos um em Cristo”, afirmando a unidade na diversidade. Já em 2025, um congresso abordou o uso da Bíblia para legitimar a exclusão. A atuação da Pastoral tem provocado mudanças no ethos da igreja, gerando tensões e disputas simbólicas, mas também abrindo espaço para a reconfiguração dos modos de ser igreja. A pesquisa parte de uma perspectiva etnográfica e dialoga com os estudos de gênero e religião, interseccionalidade e espiritualidades dissidentes. Refletir sobre essas trajetórias de fé é reconhecer que, mesmo após experiências de negação, há corpos que ainda creem — e que, ao crerem, transformam e resistem.
-
Ofensivas anti-gênero e extrema-direita: a fabricação fantasmática das dissidências de gênero
— Marina Menezes Segatti, Hailey Kaas Alves Pedro da Silva
— Marina Menezes Segatti, Hailey Kaas Alves Pedro da Silva
Esse artigo tem por objetivo fazer uma breve análise da ofensiva anti-gênero dos últimos anos na esteira da ascensão do neofascimo mundial - principalmente estadunidense e europeu - marcada pelo caráter fantasmático do gênero conforme análise de Judith Butler sobre o fenômeno. O trabalho fará um percurso pelos principais marcos da ofensiva anti-gênero cuja principal linha de frente atual tem sido os ataques aos direitos trans mascarados e justificados por uma suposta proteção às mulheres e crianças. Nesse sentido, analisa-se como a retórica da "proteção às mulheres e crianças" tem operado como dispositivo legitimador de políticas excludentes, restrições de direitos e práticas de vigilância sobre corpos dissidentes. Por fim, o texto mostrará uma associação entre diferentes grupos, da esquerda e da direita, na luta contra direitos trans e a ideologia de gênero como um todo. Assim, busca-se compreender a ofensiva anti-gênero não apenas como um fenômeno discursivo, mas como uma estratégia política articulada a projetos autoritários, racistas e neoliberais, que mobilizam afetos como medo, ressentimento e nostalgia colonial.
-
A nomeação da violência como forma de resistência
— Noah Gabriel da Silva Santos, Paula Esteves Pinto
— Noah Gabriel da Silva Santos, Paula Esteves Pinto
s resistências às violências contra pessoas trans se constroem em múltiplas frentes. Coletivos sociais, organizações não governamentais e redes de apoio comunitário desempenham papel central no acolhimento de vítimas, na produção de conhecimento, na incidência política e na pressão sobre o Estado. Essas iniciativas frequentemente suprem lacunas deixadas pelo poder público, oferecendo apoio jurídico, psicológico e material, além de promover estratégias de sobrevivência e afirmação identitária, desafiando narrativas patologizantes e criminalizadoras, reivindicando o direito à autodeterminação de gênero e à cidadania plena.
No plano da nomeação das violências, observa-se uma disputa política e simbólica central. Coletivos trans e movimentos sociais têm sido fundamentais na construção de categorias como "transfeminicídio", "transfobia institucional" e "violência cissexista", que buscam dar visibilidade às especificidades dessas agressões e romper com a invisibilização histórica dessas mortes e sofrimentos. Nomear a violência é, portanto, um ato de resistência: permite denunciá-la, produzir dados, exigir políticas públicas e responsabilização estatal. Em contraposição, instituições tradicionais muitas vezes recorrem a categorias genéricas como "homicídio comum" ou "conflito interpessoal", que despolitizam a violência e apagam sua motivação discriminatória.
No âmbito institucional, a atuação do Estado brasileiro tem sido marcada por ambiguidades e disputas. Um marco relevante nesse cenário foi a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2019, que equiparou a homotransfobia ao crime de racismo, diante da omissão legislativa. Essa decisão representou um avanço simbólico e jurídico importante, ao reconhecer a gravidade da violência motivada por orientação sexual e identidade de gênero e ao fornecer instrumentos legais para sua repressão. Contudo, sua efetivação enfrenta obstáculos significativos, como a resistência de agentes do sistema de justiça, a falta de formação específica sobre diversidade de gênero, a subnotificação dos crimes e a dificuldade de enquadramento adequado das ocorrências.
Assim, a violência contra pessoas trans deve ser compreendida como um problema social complexo, que envolve relações de poder, disputas discursivas e responsabilidades institucionais. Portanto, o enfrentamento pela nomeação de categorias que deem conta de tipificar especificamente as violências demonstram a capacidade de organização e produção de alternativas por parte das próprias pessoas trans, confrontando projetos de sociedade antagônicos: de um lado, a manutenção de hierarquias excludentes; de outro, a luta por reconhecimento, justiça e vidas trans dignas de serem vividas.
-
Projetos nas Margens do Poder: agências e (r)existências LGBTQIAPN+ na escola
— Ro Rother Gil
— Ro Rother Gil
O resumo aqui apresentado é fruto de pesquisa etnográfica desenvolvida entre os meses de abril e outubro de 2023 em instituição escolar pública de Ensino Médio localizada em região periférica da cidade de Curitiba, no Paraná.
Ingressei no Mestrado - e posteriormente em campo - com uma curiosidade, um interesse investigativo: compreender quais estratégias as pessoas dissidentes do "cistema" cisheteronormativo encontram e/ou produzem para sobreviver e superar a experiência escolar. É evidente que parti da hipótese de que a escola é uma instituição comprometida com a norma; responsável não apenas por reproduzir, mas sobretudo produzir esta norma.
Centenas de notícias de homotransfobia ocorridas em contextos escolares espalhadas pela mídia e um número significativo de pesquisas e trabalhos acadêmicos de diversas áreas que se debruçam sobre e denunciam o fenômeno da LGBTfobia Escolar, corroboram com minha hipótese inicial.
Mas minha curiosidade estava além: que a violência baseada nos marcadores de gênero e sexualidade está presente nas escolas, sei, sobretudo, pela memória do corpo. Mas que agências possibilitam a nós, dissidentes sexuais e de gênero, a sobreviver, (r)existir e permanecer nesse espaço? Quais brechas e estratégias encontramos e/ou inventamos? E quais os impactos de nossa (r)existência sobre essa instituição multissecular que não raro demonstra dificuldades em adaptar-se aos tempos? Quais impactos em seus currículos e pedagogias?
A observação em campo aconteceu em diferentes espaços e tempos, incluindo aulas de diferentes disciplinas, momentos de convivência e sociabilidade, e momentos de resolução de conflitos relacionados à homotransfobia a “portas fechadas”, e teve como lócus principal as aulas de Projeto de Vida. Essa disciplina em processo de recente implementação no currículo do Ensino Médio no momento da pesquisa se mostrou um espaço-tempo muito potente para a captura dos sentidos impressos por jovens secundaristas LGBTQIAPN+ a seus processos de escolarização e suas (r)existências de modo mais amplo.
Assim que adentrei no “chão da escola”, me deparei com uma situação muito delicada de “evasão escolar” de uma estudante travesti (como ela se auto identifica, com muito Orgulho). Suas “evasões” (que eu escolho nomear como “fugas”, em referência ao conceito deleuzeguattariano de “linhas de fuga”) e retornos foram constantes durante minha permanência de seis meses em campo. Percebi aí uma estratégia, por parte da estudante, de sobrevivência àquele ambiente tão hostil. Foi aí que percebi também, que ao mesmo tempo em que eu buscava por “Agências LGBTQIAPN+” eu buscava também por estratégias/e estava lidando com a questão da permanência estudantil, que no caso de estudantes dissidentes sexuais e de gênero não costuma ter a devida atenção.
-
Corpos que (re) existem: uma etnografia das experiências de LGBTQIA+ em situação de rua na Baixada Cuiabana
— Rodrigo da Silva Martins, Moisés Alessandro de Souza Lopes
— Rodrigo da Silva Martins, Moisés Alessandro de Souza Lopes
Este estudo propõe uma etnografia das experiências de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queers, intersexuais e outros (LGBTQIA+) que se encontram em situação de rua na Baixada Cuiabana, com foco nas práticas de cuidado e autocuidado que levam a produção de sua saúde. Ancorada na Antropologia da Saúde e no campo da Saúde Coletiva, a pesquisa analisa as tessituras cotidianas dessas experiências a partir de uma perspectiva interseccional, visando compreender como sexualidade, gênero, raça, classe e território se articulam na produção de vulnerabilidades específicas, como desigualdades no acesso a direitos, serviços e políticas públicas de saúde e seus impactos nos processos saúde-doença-(auto)cuidado. A pesquisa encontra-se em fase de coleta de dados. Para compreender as experiências articula-se com o pensamento de Maluf (2020) que ressalta que para o cuidado em saúde é primordial considerar as desigualdades sociais, políticas e culturais. Que a produção da saúde ocorre a partir das subjetividades dos sujeitos dentro das relações de poder, das vulnerabilidades sociais e dinâmicas de resistência. No cotidiano das ruas, os LGBTQIA+ vivenciam múltiplas formas de violências e privações, expressas em discriminações, violências físicas, simbólicas e estruturais, racismo, insegurança alimentar, sofrimento social, degradação das condições de vida e comprometimento da saúde, patologização de suas identidades de gênero e orientações sexuais, bem como a negação de direitos fundamentais, inclusive no cuidado em saúde, motivados por LGBTQIA+fobia. Ainda alta escalada de violência sustentada por moralidades excludentes, práticas simbólicas de aversão e desigualdades estruturais tanto no âmbito familiar, social e institucional. Mesmo após a decisão do Supremo Tribunal Federal que equiparou homotransfobia ao crime de racismo, persistem embates políticos e morais que tensionam ou silenciam sua efetivação por agentes do sistema de justiça, instituições estatais e políticas públicas. Como formas de resistência e afirmação de suas existências, a produção de saberes situados, constroem redes de cuidado e engendram estratégias de mobilização política que desafiam narrativas hegemônicas de marginalização e vitimização. Esta pesquisa busca contribuir para a Saúde Coletiva e a Antropologia ao produzir conhecimento situado, fortalecendo abordagens comprometidas com equidade, reparação histórica e construção de cuidados inclusivos, sensíveis à diversidade visando à melhoria da qualidade de vida, saúde e bem-estar de grupos historicamente marginalizados.
Palavras-chave: Pessoas em situação de rua; Minorias sexuais e de gênero; Diversidade sexual; Produção de saúde; Baixada cuiabana.
-
Conservadorismo, cisnormatividade e a produção estatal do pânico moral contra a linguagem não binária
— Ursula Boreal Lopes Brevilheri
— Ursula Boreal Lopes Brevilheri
A partir de uma investigação de projetos de lei e discursos parlamentares apresentados no Brasil nos últimos anos, este trabalho analisa a ofensiva institucional contra a linguagem não binária como uma forma contemporânea de violência dirigida a pessoas trans e não binárias. O argumento central sustenta que tal ofensiva se organiza por meio de uma triangulação específica: o conservadorismo opera como léxico moral legitimador, a cisnormatividade como critério ontológico de inteligibilidade dos sujeitos, e o Estado como forma jurídica capaz de transformar pressupostos morais e ontológicos em normas e políticas públicas.
Com base na análise qualitativa de proposições legislativas e de suas justificativas públicas, o estudo destrincha como categorias nativas como “proteção da infância” são mobilizadas para construir um pânico moral em torno da linguagem não binária. Argumenta-se que esse pânico não emerge de reações espontâneas da sociedade, mas constitui uma tecnologia política ativa, por meio da qual o Estado reorganiza fronteiras de reconhecimento e pertencimento após a equiparação da homotransfobia ao crime de racismo pelo Supremo Tribunal Federal.
Ao deslocar o foco da violência do corpo para a linguagem, tais iniciativas legislativas produzem uma forma de exclusão institucional que opera sem a nomeação direta das populações não binárias, mas que incide material e simbolicamente sobre suas condições de existência. Nesse processo, a cisnormatividade se expressa como uma ontologia com caráter prático, naturalizando o binarismo de gênero e desqualificando outras formas de existência como erro, confusão ou ameaça moral.
Compreendendo os textos legislativos como práticas estatais, o trabalho contribui para debates antropológicos sobre violência institucional e produção jurídica da diferença, evidenciando como o pânico moral cisnormativo em torno se torna um dispositivo central na governança contemporânea das dissidências de gênero e sexualidade no Brasil.
Coordenação
Ana Laura Lobato (UNOPS)
Maria Aparecida Webber (UNILA)
Sessão 1
Pessoa debatedora
Karla Adriana Martins Bessa (UNICAMP)
Sessão 2
Pessoa debatedora
Flavia Melo (UFAM)
No Brasil contemporâneo, para apreender mais detidamente as novas configurações das violências que ocorrem na esfera pública da violação de corpos de mulheres cis/trans à morte de crianças e jovens negros/as periféricos e/ou de pessoas ativistas nas diversas frentes de luta por direitos e justiça social tem sido necessário certa inovação teórica, metodológica ou mesmo o uso combinado de diferentes fontes, métodos, linguagens. Análises documentais de arquivos históricos ou administrativos, assim como as análises de conteúdo e/ou discursos audiovisuais, o uso cada vez mais expressivo de imagens e textos das redes sociais desafiam o saber etnográfico a se religar a outros saberes e campos disciplinares. Buscamos criar um espaço para discutir as diferentes estratégias no fazer antropológico em diálogo com outras humanidades e as artes, entre pesquisas que refletem sobre as complexas redes de sentido/significações e poder que perpassam as produções e reproduções de violências de gênero, interseccionadas pelos processos de racialização, bem como de exclusão e vulnerabilidades sociais de pessoas que vivem às margens do bem estar de direitos sociais. Nos interessa etnografias e estudos de caso que analisam situações específicas vividas no Brasil e América Latina; bem como análises das convenções e modos de representação que incitam violências de gênero, disseminando um repertório imagético racista e lgbtia+ fóbico.
Títulos e Resumos
-
Sob o nome do outro: a figura da "mulher de bandido" e os desafios da pesquisa em contextos de criminalização
— Beatriz de Melo Araujo
— Beatriz de Melo Araujo
Embora a categoria “bandido”, em especial os traficantes de drogas, apareça de forma recorrente nas produções científicas (ZALUAR, 1985; GRILLO, 2008; MISSE, 1997; MACHADO, 2008), a figura da “mulher de bandido”, ainda que presente em qualquer território de favela, não compartilha desse protagonismo. Os estudos existentes concentram-se, em geral, em duas abordagens: aqueles voltados à figura da “mulher de preso”, centrados nas dinâmicas do encarceramento (CÚNICO, 2019; SPAGNA, 2008; LAGO, 2007), e aqueles que analisam a chamada mulher “bandida”, envolvida diretamente nas práticas criminais (ZALUAR, 1993; BARCINSKI; CÚNICO, 2016). Este trabalho desloca o foco para mulheres que não atuam no tráfico, mas que, em razão de vínculos afetivos e familiares, passam a experimentar os efeitos dos ilegalismos (HIRATA, 2014) praticados por seus companheiros.
Assim sendo, esta pesquisa analisa a figura da “mulher de bandido” e reflete os desafios do campo em contextos de criminalização, investigando como vínculos afetivos com traficantes de drogas produzem dinâmicas de violência, estigmatização e controle social, tanto no interior dos territórios quanto na circulação de discursos no espaço público.
Argumenta-se que tais representações constituem formas de violência, articuladas a dinâmicas patriarcais e a processos de criminalização por associação. Essas mulheres ocupam posições ambíguas: por um lado, são associadas ao papel tradicional do lar (CÚNICO, 2019; ARAUJO, 2022); por outro, são representadas de modo pejorativo no imaginário popular, ora como oportunistas, outrora como símbolos de ostentação e status masculino (SPAGNA, 2008). O que se observa não é um reconhecimento dirigido à mulher enquanto sujeito, mas reações endereçadas à figura masculina que ela representa.
Diante da proximidade com o campo legal-ilegal, as consequências dos processos de criminação (MISSE, 1997) não recaem somente nas mulheres, mas se reproduzem nos desafios desse tipo pesquisa, mobilizando diferentes ferramentas de coleta de dados diante de limites éticos, políticos e relacionais, mesmo que estas não sejam agentes do tráfico.
A pesquisa parte de entrevistas semiestruturadas com seis companheiras e ex-companheiras de narcotraficantes, articuladas à análise de produções culturais e de conteúdos das redes sociais. Esses materiais permitem observar a circulação de discursos associados à “violência urbana” (MISSE, 2024) e identificar os modos pelos quais tais representações são construídas, moduladas e compartilhadas no espaço público (WERNECK, 2021). Assim, o trabalho concentra-se no estudo das (re)produções das violências como elemento constitutivo da sociabilidade, de modo a observar como o estigma opera, e não só em como é internalizado ou enfrentado pelos indivíduos.
-
Por uma antropologia de gênero sobre a atenção primária das delegacias e rede de enfrentamento no combate à violência contra mulheres em Boa Vista RR.
— Laysa Pâmella Neves dos Santos, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
— Laysa Pâmella Neves dos Santos, Madiana Valéria de Almeida Rodrigues
Resumo: Trata-se de pesquisa em andamento sobre a violência doméstica contra mulheres, que vem apontado aumento em dados quantitativos por anuários e atlas de segurança pública no Brasil. O estado de Roraima destaca-se ocupando o ranking de maior taxa de violências contra mulheres e meninas do norte, um fator preocupante e alarmante. Buscaremos refletir sobre a complexidade da dinâmica das relações interpessoais que envolvem este fenômeno na sociedade boa-vistense, a partir de um diálogo com a rede de prevenção e enfrentamento à violência doméstica existente na capital, trazendo a perspectiva das mulheres sobreviventes dos atos de violência. Este diálogo busca proporcionar o melhor entendimento do protocolo vigente da atenção primária (atendimento, acolhimento e encaminhamentos) prestado pelas repartições públicas na cidade de Boa vista, enfatizando a responsabilidade de refletir de forma crítica e de buscar caminhos para lidar com os desafios encontrados neste percurso.
Palavras-Chave: Violência, Gênero, Políticas Públicas.
-
Pânico moral, gênero e poder: reflexões sobre a agenda conservadora no cenário político atual
— Lorena Silva Martins
— Lorena Silva Martins
Esta comunicação propõe uma reflexão sobre as estratégias discursivas e políticas do conservadorismo mundial e nacional, que se colocam na contramão de pautas sociais progressistas de gênero e sexualidades, criando um contexto de violência e exclusão para sujeitos dissidentes da norma. Toma-se como exemplo os livros infantis “Ele é Ele” e “Ela é Ela”, de autoria do deputado federal Nikolas Ferreira e da deputada estadual Ana Campagnolo, que reafirmam identidades binárias e valores cristãos como resposta à chamada “ideologia de gênero” e objetivam influenciar práticas educativas e culturais. Interroga-se aqui, como tais ações operam como artefatos discursivos na construção de uma agenda anti-trans e contra a diversidade de identidades de gênero, que extrapola seus formatos formais e se insere em disputas públicas de poder. Para a discussão, utiliza-se o pânico moral na compreensão de processos em que determinados temas sociais são representados como ameaças existenciais à “ordem social” ou aos valores tradicionais, mobilizando medos e inimigos fantasmáticos (Butler, 2024) para legitimar respostas políticas excludentes. Ao problematizar essas produções discursivas busca-se compreender como os pânicos morais em torno do gênero funcionam como expressão de preconceitos individuais e ferramentas estratégicas de manutenção e ampliação de poder político. Considera-se as implicações dessa agenda para as instituições de educação e para as produções acadêmicas que buscam enfrentar violências simbólicas e materiais em contextos de desigualdade e marginalização.
-
Entre o acolhimento e o registro: gênero e interseccionalidades na escuta e vivências de uma universidade pública latino-americana
— Maria Aparecida Webber
— Maria Aparecida Webber
Este trabalho propõe uma reflexão antropológica a partir da atuação do Departamento de Equidade de Gênero e Diversidade da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), tomando os atendimentos realizados em 2024/2025 como ponto de partida empírico e analítico. O trabalho problematiza o acolhimento institucional, o atendimento e o ato da escuta como práticas socialmente situadas, atravessadas por relações de poder, expectativas normativas e marcadores interseccionais de gênero, nacionalidade, categoria de vinculação, sexualidade e status migratório.
Ao mobilizar registros administrativos disponíveis publicamente e narrativas produzidas no contexto de atuação da área, discute-se a tensão entre a ética do cuidado, a confidencialidade e a necessidade institucional de produzir dados que subsidiem políticas públicas internas e ações de enfrentamento às violências. Argumenta-se que o registro não se limita a uma função burocrática, mas constitui um dispositivo central de mediação entre experiências individuais de violência e respostas institucionais, produzindo categorias, visibilidades e silenciamentos. Contudo, a objetividade do dado formal nem sempre compreende a subjetividade e a complexidade dos atendimentos realizados.
O trabalho também evidencia as condições estruturais que marcam a implementação dessas políticas no cotidiano universitário, problematizando a insuficiência de equipes especializadas, recursos e protocolos, especialmente em uma instituição com alto grau de internacionalização e situada em contexto de fronteira trinacional, na cidade de Foz do Iguaçu Paraná (Brasil). Nessa configuração, as práticas de acolhimento e produção de dados tornam-se ainda mais complexas, exigindo articulações entre diferentes normativas, línguas, regimes de direitos e expectativas institucionais. Busco aqui explorar novas metodologias e etnografias institucionais que interrogam as linguagens administrativas, os limites da escuta e os desafios contemporâneos no enfrentamento das violências de gênero.
-
Não binariedade: categoria em (trans)formação
— Marina Manini Cypriano
— Marina Manini Cypriano
Esse trabalho procura compreender como pessoas não binárias experienciam gênero em situações relacionais, e como “não binário” é construído como categoria dentro da comunidade LGBTQIA+, fazendo um estudo a partir das mídias sociais, especialmente o X (antigo Twitter) e entrevistas semi estruturadas. O método foi pensado a partir da orientadora desta IC, “Entre segredos, posts e notícias” (Almeida, 2024), que procura visualizar como há um processo de demanda por reconhecimento da categoria assédio sexual, que também constituem uma luta política.
Butler dirá que são as práticas cotidianas que constituem a realidade do gênero, e há uma situacionalidade na qual o gênero precisa ser invocado, cada ato de gênero tem um efeito real que consolida a impressão de ser um homem ou uma mulher. Portanto, há aparatos de vigilância acerca do gênero, que o colocam como uma instituição disciplinar na qual todos são vigilantes acerca das regras deste.
Assim como a crítica de Butler a existência de um sujeito feminista que procura criar uma identidade universal, é importante compreender que não há uma experiência única de pessoas trans, uma espécie de identidade una que consiga envolver todas as experiências.
Nessa pesquisa, a não binariedade é compreendida como um “espectro caleidoscópico” não estando dentro de uma categoria una nem correspondente a determinada materialidade corpórea, não precisando estar ligada a uma noção externa, mas sim de autodeterminação. (Weber e Nascimento, 2024).
A ideia de transição será diferente da cirúrgico-farmacológica que está ligada a uma composição binária de gênero e a diferença sexual, mas sim com a desidentificação com o gênero que foi assignado ao nascimento (Souza, 2025)
A hipótese sendo investigada é que pessoas não binárias têm múltiplas experiências de gênero, considerando que em suas relações são invocados os aparatos da vigilância do gênero e elas podem ser lidas dentro de um sistema de binaridade de gênero, ou seja, lidas e tratadas como homem ou mulher. Além disso, pretende-se compreender quais desses aparatos de vigilância são usados para definir a categoria “não binário”. Trabalho em andamento.
ALMEIDA, H. Entre segredos, posts e notícias: A construção de categorias de violência sexual. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens Edições, 2024.
BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão de identidade. 6 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
SOUZA, B. O Peso do cabelo: relações entre corporeidade, estética capilar e não-binariedade. Revista de antropologia, v. 68, 2025.
WEBER, G; NASCIMENTO, S. Não binariedade emergente ou binariedade projetiva - reflexões exploratórias transdisciplinares. Periódicus, Salvador, n. 20, v. 1, jan.-abr. 2024 – Revista de estudos indisciplinares em gêneros e sexualidades, p. 273–307.
Nenhuma atividade encontrada.