Coordenação
Cornelia Eckert (UFRGS)
Este minicurso propõe a socialização e a discussão de achados arquivísticos recentes sobre a obra de Zora Neale Hurston (1891-1960), antropóloga afro-estadunidense associada à escola culturalista fundada por Franz Boas. Fundamentado em conceitos como imaginação arquivística (Hochberg, 2021) e reanimação dos arquivos (Azoulay, 2008, 2024), o minicurso analisa duas fases distintas da produção audiovisual de Hurston, conectadas a uma etnografia dos arquivos realizada em cinco cidades norte-americanas. O trabalho de campo, voltado para a localização dos filmes e materiais complementares, incluiu visitas a instituições arquivísticas, memoriais comunitários, um cemitério e universidades onde Hurston estudou, com o intuito de compreender melhor a atmosfera e o contexto de sua produção. O objetivo da proposta é refletir sobre as contribuições de Hurston para a constituição da antropologia visual, por meio de duas sessões temáticas que incluirão a exibição de filmes. Durante essas sessões, será promovido um diálogo crítico entre as imagens e as teorias que sustentam a tradição antropológica. Na primeira sessão, serão discutidas as condições de produção e os filmes realizados entre 1927 e 1929, nas comunidades rurais do sul dos Estados Unidos, durante o início da formação de Hurston em antropologia sob a orientação de Franz Boas. Na segunda sessão, será abordada a produção de 1940, encomendada por Margaret Mead, focada no estudo do transe religioso em uma igreja na Carolina do Sul.
Títulos e Resumos
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Formação antropológica e filmes dos anos 1920
— Débora Wobeto (UFRGS)
— Débora Wobeto (UFRGS)
Este minicurso propõe a socialização e a discussão de achados arquivísticos recentes sobre a obra de Zora Neale Hurston (1891–1960), antropóloga afro-estadunidense formada pela escola culturalista de Franz Boas. Fundamentado em conceitos como imaginação arquivística (Hochberg, 2021) e reanimação dos arquivos (Azoulay, 2008, 2024), o minicurso analisa duas fases da produção audiovisual de Hurston, conectadas a uma etnografia dos arquivos realizada em cinco cidades norte-americanas. O trabalho de campo incluiu visitas a instituições arquivísticas, memoriais comunitários, um cemitério e universidades onde Hurston estudou, buscando compreender melhor o contexto de sua produção. O objetivo é refletir sobre suas contribuições à antropologia visual, por meio de duas sessões temáticas com exibição de filmes e debate crítico entre arquivo, imagem e práticas etnográficas. Sessão 1 – Formação antropológica e filmes dos anos 1920 A primeira sessão do minicurso abordará as condições de produção e os registros visuais realizados entre 1927 e 1929 nas comunidades rurais do sul dos Estados Unidos. Nesse período, Hurston iniciava sua formação em antropologia sob a orientação de Boas, no Barnard College, e começava a integrar o uso da câmera às práticas etnográficas. Seus filmes, considerados alguns dos primeiros registros etnográficos feitos por uma mulher negra nos Estados Unidos, retratam brincadeiras infantis, danças, práticas religiosas e o cotidiano afro-americano do sul. A sessão discutirá a relação dessas imagens com a tradição boasiana e o modo como Hurston utilizou o cinema como inscrição sensível do corpo e da cultura negra em meio à segregação racial, tensionando a objetividade científica e os interesses de financiadores. Serão também examinados os desafios arquivísticos de preservação e recontextualização dessas obras.
Coordenação
Vi Grunvald (USP)
Este minicurso propõe explorar como, a partir de diferentes grafias, brechas e modos de partilha, a antropologia da arte tem ampliado suas fronteiras teóricas e metodológicas ao dialogar com expressões estéticas plurais. Desse modo, o minicurso está estruturado em duas sessões, na primeira sessão discutiremos a arte enquanto objeto central na construção do conhecimento antropológico, revisitando diferentes perspectivas teóricas e metodológicas e seguindo até abordagens mais contemporâneas sobre visualidade, circulação e os modos pelos quais artefatos visuais produzem efeitos sociais, políticos e sensíveis. Discutiremos a agência da imagem a partir do cinema amazônida, que ao criar novos modos de relação com a arte, a partir de diferentes maneiras de fazer cinema, engendram transformações nas relações, nas formas de participação e nos modos de agir coletivamente. A segunda sessão será dedicada às aproximações entre corpo, performance e gênero, enfatizando práticas performativas, gestos e corporificações que desafiam perspectivas hegemônicas sobre criação artística. Serão discutidos experimentos etnográficos, propostas artísticas contra-hegemônicas e debates que articulam arte, política e marcadores sociais da diferença. O minicurso busca, assim, oferecer um espaço de leitura, conversa e partilha sobre múltiplas antropologias da arte, destacando as potências analíticas das imagens, dos corpos e das performances como formas de conhecimento.
Títulos e Resumos
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Alguns eixos temáticos na antropologia da arte: imagens, agência, corpo e performance
— Gabriela Laroca Araujo (UFRGS)
— Gabriela Laroca Araujo (UFRGS)
Em nosso segundo encontro, deslocamos os foco das formulações teóricas mais gerais para alguns eixos temáticos da antropologia da arte, articulando-os a partir de nossas pesquisas etnográficas. O objetivo é discutir como esses debates se desdobram empiricamente, permitindo refletir sobre práticas artísticas situadas, seus modos de produção, circulação e recepção, bem como sobre os regimes de valor e as sensibilidades que as atravessam. A partir da análise de experiências de produção audiovisual no contexto da Amazônia brasileira e de práticas performáticas do corpo, como o transformismo, as performances drag e a arte performance, buscamos evidenciar como a arte opera como uma forma de intervenção no mundo social e em como arte, política e território se entrelaçam no desenvolvimento de micro lugares utópicos onde a dissidência é uma necessidade na criação de mundos mais habitáveis, lugares que se ativam relações sociais e políticas do encontro.
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Algumas perspectivas teóricas da antropologia da arte
— Pâmela de Souza Costa (UFRGS)
— Pâmela de Souza Costa (UFRGS)
A ideia deste minicurso é articular debates centrais da antropologia da arte, com o intuito de reconstituir a trajetória que a arte ocupa no interior da disciplina antropológica, tendo em vista que, como apontou Alfred Gell, a antropologia social moderna é constitutivamente antiarte, em razão de um imbróglio aparentemente sem solução: o relativismo cultural da antropologia e a pretensão universal da categoria estética. Propomos, então, em nosso primeiro encontro, apresentar algumas perspectivas teóricas da antropologia da arte, evidenciando diferentes abordagens do campo. Partiremos do culturalismo boasiano, no qual a arte é concebida como um componente central do projeto teórico de Boas. Na sequência, apresentaremos a abordagem culturalista de Geertz, que propõe compreender a arte como um texto cultural, cuja interpretação está necessariamente ancorada nas redes de significados que organizam a vida social. Avançando para a perspectiva estruturalista lévi-straussiana sobre arte, na qual, mais uma vez, a arte ocupa uma posição central na economia teórica do autor. Concebida como intermediadora, a arte se apresenta como uma forma de mediação entre o mundo sensível e as estruturas do pensamento, desempenhando, assim, um papel central na produção de inteligibilidade. Em seguida, abordaremos a teoria antropológica da arte de Gell, voltada para as relações sociais que se articulam em torno dos objetos de arte ou, como ele os denomina, índices, dotados de intenções e agência. Trata-se de uma teoria menos preocupada com o que a arte diz ou significa e mais atenta ao que ela produz, isto é, aos seus efeitos no interior das relações sociais, diferenciando-se, assim, das abordagens anteriores, centradas sobretudo nos aspectos semânticos da arte. Apesar da teoria gelliana ter provocado uma renovação radical na Antropologia da Arte ao afastar o foco da estética para o processo social, alguns pressupostos ontológicos persistem, os quais limitam a análise antropológica, principalmente, quando voltadas a sociedades não ocidentais. Nesse sentido, propomos discutir atualizações recentes no campo da antropologia da arte que apostam na dissolução dessas generalizações ontológicas, por meio da adoção de perspectivas analíticas atentas à instabilidade das categorias e à diversidade das formas expressivas tal como se configuram no campo etnográfico. Trata-se de deslocar o olhar da definição do que é arte para os modos como diferentes práticas expressivas produzem sentidos, vínculos e efeitos no mundo social.
Coordenação
Mariane da Silva Pisani (UFPI)
Vinicius Kauê Ferreira (UERJ)
O Minicurso proposto pela Revista Novos Debates (ABA) e apoiado pela CEPCA (ABA) apresenta um panorama das práticas de produção científica em revistas e periódicos das Ciências Sociais e da Antropologia. Ofertado desde a XIV RAM (2023), o minicurso atualiza a cada edição seus conteúdos e, neste ano, amplia o escopo para incluir também a elaboração de diários de campo e ensaios visuais, de modo a contemplar diferentes formas de escrita antropológica. Organizado em três sessões, o minicurso inicia com uma discussão sobre registros etnográficos, reflexividade e estilos de escrita de diários de campo, destacando seus potenciais usos em futuras publicações. A segunda sessão é dedicada ao ensaio visual, explorando linguagem, curadoria de imagens e modos de narrar visualmente em Antropologia. A terceira sessão aborda a escrita de artigos acadêmicos, com ênfase em estrutura, construção de argumentos e estratégias de publicação. O objetivo central é oferecer ferramentas para estudantes das Ciências Sociais e da Antropologia, apresentando diferentes gêneros de produção e aproximando os(as) do universo das revistas científicas, elemento fundamental na consolidação de trajetórias acadêmicas em todas as etapas da formação.
Títulos e Resumos
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Ensaio visual em Antropologia
— Ana Clara Sousa Damásio dos Santos (UNB)
— Ana Clara Sousa Damásio dos Santos (UNB)
Esta sessão é dedicada à discussão do ensaio visual como estratégia etnográfica, analítica e narrativa na Antropologia contemporânea. Partiremos de uma reflexão crítica sobre a linguagem visual, especialmente a fotografia, mas também o desenho, o vídeo e outros suportes, entendendo-a não como mero complemento ilustrativo do texto, mas como forma própria de produção de conhecimento antropológico. Serão abordados os processos de curadoria e edição de imagens, discutindo escolhas, enquadramentos, sequências e ausências, bem como as implicações éticas, políticas e epistemológicas envolvidas no uso de imagens em contextos de pesquisa. A sessão propõe pensar o ensaio visual como um modo específico de narrar etnograficamente, no qual texto e imagem se articulam (ou tensionam) na construção do argumento antropológico. Também serão discutidos diferentes formatos de ensaio visual, suas possibilidades de circulação (revistas acadêmicas, exposições, livros, plataformas digitais) e os critérios mais recorrentes de avaliação editorial. A partir de exemplos concretos, a sessão busca oferecer ferramentas para que as/os participantes possam conceber, estruturar e justificar ensaios visuais como parte legítima e potente da escrita e da publicação antropológica.
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Escrita e publicação de artigos acadêmicos
— Matilde Quiroga Castellano (UFSC)
— Matilde Quiroga Castellano (UFSC)
A terceira sessão propõe uma reflexão sobre a escrita e a publicação de artigos acadêmicos, entendendo esse processo como parte da elaboração teórica, política e ética do conhecimento antropológico. A partir de trocas e exemplos, serão discutidas questões relacionadas à organização dos textos, à construção de argumentos e aos caminhos possíveis de circulação da produção antropológica em revistas científicas. O objetivo é oferecer ferramentas práticas e reflexivas para estudantes das Ciências Sociais e da Antropologia, aproximando-os(as) dos diferentes gêneros da escrita antropológica e do universo das revistas científicas, dimensão central na consolidação de trajetórias acadêmicas em todas as etapas da formação.
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Diários de campo e escrita etnográfica
— Virgínia Squizani Rodrigues (UFSC)
— Virgínia Squizani Rodrigues (UFSC)
Compreendidos não apenas como instrumentos técnicos de registro, mas como dispositivos analíticos fundamentais da pesquisa antropológica, parte-se da premissa de que o diário de campo constitui um espaço privilegiado de elaboração teórica, no qual observação, descrição, interpretação e reflexividade se articulam de maneira contínua ao longo do trabalho de campo. Serão explorados distintos estilos de escrita etnográfica, com atenção às tensões entre descrição densa, narrativa, análise conceitual e experimentação textual. Nesse sentido, o diário de campo será tratado não apenas como um repositório de dados “brutos”, mas como um material fértil para a construção de argumentos, para a formulação de problemas teóricos e para a transformação posterior dos registros em textos acadêmicos, como artigos, monografias e dissertações. Além disso, será discutido também as possibilidades de organização do diário de campo conforme diferentes formatos e suportes materiais e digitais.
Coordenação
Carolina Parreiras (USP)
Este minicurso tem como objetivo refletir sobre ética em pesquisa,com ênfase na Antropologia.Como as peculiaridades desse campo e seus modos de produzir conhecimento impactam os dilemas em torno da ética em pesquisa?Nos últimos 15 anos, o Código de Ética da ABA passou por três revisões, evidenciando o quanto as discussões sobre ética se intensificaram, especialmente após a Resolução nº 510/2016 e a consolidação dos Comitês de Ética em Pesquisa.Esses movimentos respondem a diversas tensões que atravessam uma questão central: como realizar etnografias éticas do trabalho de campo até à escrita? O minicurso inicia com uma discussão sobre debates éticos recentes e os desafios que marcaram a disciplina,como as controvérsias em torno do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e seus limites frente a uma prática que, como ressalta Claudia Fonseca, opera por uma lógica relacional, processual e contingente.A segunda aula abordará os dilemas éticos no campo digital, considerando a escassez de diretrizes e questões relativas ao acesso responsável ao material de pesquisa, armazenamento e proteção de dados e o uso de IA generativa,reconhecendo a especificidades do digital.A terceira aula discutirá as implicações éticas da escrita etnográfica como forma de produção coletiva.Ao debater estratégias textuais sensíveis às demandas das parcerias estabelecidas em campo e da própria antropologia, o objetivo é refletir sobre as potencialidades e os tensionamentos raciais e sociais de coproduções.
Títulos e Resumos
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Ética em pesquisas na Antropologia: tensões, regulações e relações
— Ana Carolina Braga Azevedo (USP)
— Ana Carolina Braga Azevedo (USP)
Esta sessão propõe uma reflexão sobre a ética em pesquisa na Antropologia a partir de seu caráter histórico, contextual e relacional, concebendo o encontro como um espaço aberto de diálogo e troca de experiências. O debate parte das discussões acumuladas pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) desde o final dos anos 1980, com a criação de seu Código de Ética e de sua Comissão de Ética, situando as sucessivas revisões desse código como respostas a críticas internas à disciplina, a questionamentos sobre práticas coloniais de pesquisa, às transformações nas relações entre pesquisadoras(es) e suas/seus interlocutoras(es) e, por fim, às fortes influências do campo biomédico e de seus protocolos nos debates contemporâneos sobre ética em pesquisa nas humanidades, sobretudo a partir dos anos 2000. A proposta é discutir como a consolidação do sistema CEP/CONEP, ancorada em modelos biomédicos de regulação, gerou tensões ao aplicar parâmetros normativos a uma prática etnográfica que, como enfatiza Claudia Fonseca, se constrói de modo processual, contingente e relacional. A sessão irá problematizar, ainda, as limitações do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) em contextos etnográficos atravessados por negociações permanentes, assimetrias de poder e processos de produção compartilhada do conhecimento. Dialogando com diferentes referências do campo, o encontro busca repensar a ética como uma prática política situada. A partir desse enquadramento, o encontro convida as pessoas participantes a compartilharem dilemas, impasses e desafios éticos vivenciados em suas próprias pesquisas, refletindo coletivamente sobre como diferentes formas de pesquisar na Antropologia — incluindo investigações “entre pares”, em contextos de poder (“pesquisas up”) e com populações tradicionalmente consideradas vulnerabilizadas, como discutem Claudia Fonseca e Guita Grin Debert — produzem novos deslocamentos e debates no campo da ética antropológica.
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Ética e etnografia digital
— Carolina Parreiras (USP)
— Carolina Parreiras (USP)
A proposta desta sessão é discutir as inflexões trazidas pelo digital nas pesquisas etnográficas no que se refere à metodologia e ética de pesquisa. Ainda que os preceitos éticos básicos se apliquem ao digital, estamos falando de pesquisas que suscitam muitas dúvidas em relação à ética. Para embasar a discussão, serão discutidos alguns documentos norteadores: os três guias da AoiR (Association of Internet Researchers) sobre ética em pesquisas que envolvem a internet (2002, 2012, 2019); o documento da Fiocruz intitulado "Orientações sobre ética em pesquisa em ambientes virtuais" (2020) e a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Para além desta discussão mais normativa, propõe-se pensar em formas e estratégiais digitais de consetimento, nas negociações contextuais de pesquisa, na porosidade que as categorias público e privado ganham no digital e nos riscos e adversidades em etnografias digitais.
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Ética em metodologias de pesquisa engajada
— Maíra Cavalcanti Vale (imuê)
— Maíra Cavalcanti Vale (imuê)
Esta sessão discutirá as implicações éticas da escrita etnográfica como forma de produção de pesquisa coletiva a partir do debate entre três metodologias de produção engajada. Dentro do campo artístico, Deisiane Barbosa (2020) desenvolve os “levantes poéticos”, encontros para a escrita coletiva de histórias através do que chama de “invenção de memórias e compartilhamento de sonhos”. Ao se reunir com mulheres da Ilha de Itamaracá e do quilombo Conceição das Crioulas, em Pernambuco, e da Ilha de Itaparica e da Ladeira do Milagre de Santa Bárbara, na Bahia, Barbosa (2020) buscou maneiras diferentes de contar narrativas de mulheres por meio de experiências compartilhadas e escritas em suportes materiais diversos, como lençóis e cartolinas. Junto ao imuê - Instituto Mulheres e Economia, os levantes poéticos foram a base metodológica da produção de livros da Coleção Cachoeiras e do livro de Mestra Andréa Guerreira (https://institutoimue.org/category/publicacoes/). No campo da história oral, Idelma Silva e Dernival Ramos Júnior (2024) propõem a construção de comunidades político-epistêmicas por meio de alianças políticas e epistemológicas entre universidades, movimentos sociais e comunidades tradicionais como solução para a superação do que chamam de “isolamento intelectual e do exclusivismo epistêmico”. O imuê e o Laboratório de Experimentações Etnográficas (LE-E/ UFSCar) vêm desenvolvendo pesquisas conjuntas a partir de uma abordagem etnográfica na construção de composições coletivas na escrita e na formulação de estratégias de luta (imuê 2019), essa produção permitiu a experimentação de diferentes metodologias de escrita conjunta que resultaram em formatos e argumentos textuais diversos, dificilmente enquadrados como mero resultado de uma pesquisa individual. O objetivo desta aula é, assim, pensar o fazer etnográfico como uma produção coletiva e compartilhada por corpos e cotidianos marcados pela diferença racial e de classe que comumente atravessa as relações de pesquisa antropológica (Ferraz de Lima and Vale 2019). Ao aproximar formas de se fazer pesquisa com engajamento político em áreas diversas, como história oral, artes e antropologia, a aula propõe um debate sobre formas coletivas de divulgação dos resultados de investigações feitas em conjunto. Ética aqui está acompanhada do posicionamento político de todas as pessoas envolvidas na pesquisa e será debatida nos tensionamentos que surgem a partir de diferenças e desigualdades étnico-raciais, assim como nas estratégias metodológicas de escrever coletivamente a partir da diferença, sempre explicitada.
— Luciana de Oliveira Dias (UFG), Paula Balduino (UNB), Wdson Lyncon Correia de Oliveira (UNB), Fabiano Campelo Bechelany (Ministério da Igualdade Racial)
Este minicurso debaterá governança climática em interface com a questão racial e ambiental a partir da experiência do Programa Kala-Tukula de Desenvolvimento de Lideranças para a Governança Global, voltado para lideranças quilombolas, tradicionais de matriz africana, de povos de terreiros, povos ciganos e outras representações da comunidade negra. Tem por objetivo conectar a agenda de governança global com as ações comunitárias que oferecem respostas à crise climática e socioambiental. O nome "Kala-Tukula" é uma referência à cosmologia Bakongo. Kala representa o nascimento, o início e o tempo de aprendizado. Tukula, por sua vez, representa o ápice da força e da liderança, o tempo de amadurecimento coletivo. Trata-se de uma iniciativa inédita do Ministério da Igualdade Racial (MIR) do Brasil, instituída pela Portaria N° 215, de 28 de novembro de 2024. Na primeira edição, realizada em parceria com a Universidade Federal de Goiás (UFG), o foco foi a 30ª Conferência das Partes (COP30) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, realizada em Belém, em novembro de 2025. O minicurso abordará racismo ambiental e justiça climática a partir das contribuições de um representante de cada segmento que participou da 1ª edição do programa. Espera-se promover o diálogo com o campo da antropologia, bem como acenar para continuidades do programa, especialmente na perspectiva de ampliação de incidências junto à diplomacia brasileira.
Títulos e Resumos
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Ambiente, povos e comunidades tradicionais e políticas públicas no Brasil
— Fabiano Campelo Bechelany (Ministério da Igualdade Racial)
— Fabiano Campelo Bechelany (Ministério da Igualdade Racial)
Tendo como eixo a proposta do Programa Kala-Tukula de Desenvolvimento de Lideranças para a Governança Global, iremos abordar as relações entre estado e povos e comunidades tradicionais a partir de políticas públicas que visam seus direitos territoriais e coletivos. A inciativa do Kala-tukula, no âmbito das políticas de promoção da igualdade racial, visa fortalecer as capacidades de influência política de lideranças negras em fóruns internacionais. Seu foco está na formação de lideranças quilombolas, de povos e comunidades tradicionais de matriz africana, povos de terreiro, povos ciganos e outras representações da comunidade negra para atuação em espaços de negociação internacional, com foco nas agendas climática, ambiental e de direitos humanos. A agenda ambiental é uma pauta central para os povos e comunidades tradicionais e o estado brasileiro é impelido a construir estratégias de atuação e formular políticas que reconhece o papel das comunidades na conservação e produção de biodiversidade. Vamos abordar como essas agendas - ambiental e de PCTs gerando avanços e também desafios no âmbito dos estado brasileiro.
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Interfaces entre questão racial e ambiental: histórico e avanços na política externa
— Paula Balduino (UNB)
— Paula Balduino (UNB)
Esta sessão refletirá sobre experiências relacionadas ao multilateralismo desde a perspectiva da antropologia e do Programa Kala-Tukula de Desenvolvimento de Lideranças para a Governança Global. A categoria “afrodescendência” será pensada em um sobrevôo pelas: Declaração e Programa de Ação de Durban (2001); Primeira e Segunda Décadas Internacionais de Afrodescendentes (2015-2024 / 2025-2034); Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável (2015); Convenção sobre a Diversidade Biológica (1992); e Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (1992). Observando a Declaração, o Programa de Ação de Durban e o Programa de Atividades da Primeira Década Internacional de Afrodescendentes, veremos que, no âmbito da política externa, o tema da afrodescendência esteve inicialmente ancorado nos direitos humanos. Até então não se considerava o papel de afrodescendentes na tomada de decisões globais sobre meio ambiente e clima. Este quadro começa a mudar em 2023 com a proposição do ODS 18 (Igualdade Étnico-Racial) pelo Brasil no âmbito da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. O ODS 18 reconhece que práticas e conhecimentos de povos indígenas e afrodescendentes são relevantes para proteger, conservar e cuidar do meio ambiente. Em 2024, a 16ª reunião da Conferência das Partes da Convenção sobre a Diversidade Biológica (COP 16 - CDB) foi um marco para a agenda afrodescendente no multilateralismo ambiental. A COP 16 reconheceu o papel central dos povos afrodescendentes para a conservação e uso sustentável da biodiversidade e criou o Órgão Subsidiário do Artigo 8(j). No que tange ao financiamento, a COP 16 determinou a criação de um mecanismo multilateral para a repartição de benefícios provenientes do uso de informações de sequência digital de recursos genéticos (Fundo Cali), estabelecendo que ao menos metade dos recursos sejam destinados a povos indígenas e comunidades locais. Em 2025, a 30ª reunião da Conferência das Partes da Convenção-Quadro sobre Mudanças Climáticas (COP 30 - UNFCCC) deu sequência aos avanços. O Programa de Trabalho de Transição Justa reconheceu que eficazes e inclusivos caminhos de transição justa devem contar com participação ampla e significativa de afrodescendentes. O novo Plano de Ação do Programa de Trabalho de Gênero fortalece a participação e liderança de mulheres afrodescendentes em processos de tomada de decisão relacionados a mudanças climáticas; e reforça a segurança, proteção e apoio a mulheres afrodescendentes defensoras ambientais e de direitos humanos. O Plano de Ação de Gênero enfatiza ainda a discriminação racial como um aspecto que vulnerabiliza as mulheres no contexto das mudanças climáticas. E os Indicadores dos Objetivos Globais de Adaptação incorporaram a perspectiva racial e de gênero.
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Mundos em composição: uma abordagem antropológica sobre povos e territórios nos debates ambientais
— Wdson Lyncon Correia de Olieira (UNB)
— Wdson Lyncon Correia de Olieira (UNB)
Esta sessão propõe uma reflexão sobre a relação entre povos, territórios e a emergência climática a partir de debates consolidados no campo da antropologia e de experiências articuladas no Programa Kala-Tukula de Desenvolvimento de Lideranças para a Governança Global. O objetivo é examinar como coletividades negras e racializadas são implicadas, política e materialmente, pelas transformações ambientais contemporâneas e pelas respostas institucionais associadas às agendas de meio ambiente e clima. Parte-se do entendimento de que território não é uma categoria homogênea nem restrita a contextos tradicionais, mas um conceito atravessado por disputas históricas, jurídicas, raciais e econômicas. Serão discutidos os modos pelos quais políticas ambientais e climáticas produzem efeitos diferenciados sobre populações e espaços, assim como os limites e possibilidades das atuais arquiteturas de governança ambiental diante das desigualdades raciais. A sessão incorpora ainda a discussão sobre a categoria povos a partir dos marcos internacionais estabelecidos pela Conferência Mundial contra o Racismo (Durban, 2001) e seus desdobramentos. O debate em torno do reconhecimento dos povos afrodescendentes como sujeitos coletivos de direitos tem se mostrado relevante para a análise das interseções entre raça, ambiente e governança global, especialmente no campo da justiça climática.
Coordenação
Matheus França (UFU)
Ana Paula Purcina Baumann (UFG)
Este minicurso integra o esforço de fortalecimento da luta antirracista, com foco em segmentos societários historicamente discriminados, como comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais de matriz africana, povos de terreiro e povos ciganos. Seu objetivo é dar continuidade à agenda do projeto Promoção da Igualdade Racial (PROIR): direitos humanos e políticas públicas para quilombolas, povos e comunidades tradicionais de matriz africana, povos de terreiros e ciganos, iniciativa do Ministério da Igualdade Racial (MIR), executada em parceria com a Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e a Universidade Federal de Goiás (UFG). No âmbito do PROIR, foram realizados três cursos avançados, síncronos e remotos, voltados às políticas públicas para comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais de matriz africana e povos ciganos. Tendo a igualdade racial como eixo estruturante, os cursos buscaram qualificar gestores/as e servidores/as públicos/as de todo o país como agentes multiplicadores da promoção da igualdade racial. O minicurso retoma e articula as principais temáticas desses cursos, promovendo debates sobre políticas públicas, combate ao racismo, garantia de direitos humanos, reconhecimento das diferenças, valorização da diversidade e promoção da equidade. A programação será organizada em três sessões, com a participação de cursistas e representantes dos povos e comunidades envolvidas.
Títulos e Resumos
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Direitos humanos, liberdade religiosa e políticas públicas: povos e comunidades tradicionais de matriz africana e povos de terreiro
— Anna Canavarro Benite (UFG)
— Anna Canavarro Benite (UFG)
Esta sessão abordará as políticas públicas e os direitos humanos relacionados aos povos e comunidades tradicionais de matriz africana e aos povos de terreiro, com foco na promoção da igualdade racial, na garantia da liberdade religiosa e no enfrentamento do racismo religioso. Retomaremos debates desenvolvidos nos cursos avançados promovidos pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a ENAP e a UFG, voltados à formação de gestores e servidores públicos como agentes multiplicadores da política antirracista. Serão discutidos os processos históricos de criminalização, estigmatização e violência simbólica e material que atingem os povos de terreiro, bem como os desafios contemporâneos para o reconhecimento de seus direitos culturais, territoriais, religiosos e patrimoniais. A aula problematiza o racismo estrutural e institucional que atravessa as políticas públicas, destacando a necessidade de ações intersetoriais que garantam proteção, respeito e valorização das tradições de matriz africana. Ao articular fundamentos conceituais, experiências institucionais e a participação de representantes dos povos e comunidades envolvidas, esta sessão propõe uma reflexão crítica sobre o papel do Estado na promoção da equidade, do reconhecimento da diversidade religiosa e cultural e da efetivação dos direitos humanos. O objetivo é contribuir para a construção de políticas públicas comprometidas com a justiça social, o enfrentamento do racismo e a valorização das diferenças.
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Povos ciganos, políticas públicas e direitos humanos: reconhecimento, diversidade e enfrentamento do racismo institucional.
— Jonathas Xavier Pereira (UFG)
— Jonathas Xavier Pereira (UFG)
Esta sessão tem como objetivo discutir os desafios e as possibilidades das políticas públicas voltadas aos povos ciganos no Brasil, a partir da perspectiva da promoção da igualdade racial e dos direitos humanos. Inserida no minicurso vinculado ao projeto PROIR, dialogaremos com os conteúdos desenvolvidos nos cursos avançados promovidos pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), em parceria com a ENAP e a UFG, que buscaram qualificar gestores e servidores públicos para a atuação junto a grupos historicamente discriminados. A partir do reconhecimento da diversidade interna dos povos ciganos e das especificidades de seus modos de vida, a aula problematiza os processos de estigmatização, invisibilização e racismo institucional que historicamente marcaram a relação do Estado brasileiro com essas populações. Serão abordados os principais marcos normativos, as políticas existentes e as lacunas na formulação e implementação de ações públicas que garantam acesso a direitos fundamentais, como saúde, educação, assistência social e reconhecimento cultural. Será enfatizada a importância do reconhecimento das diferenças, do combate a estereótipos e da construção de políticas públicas sensíveis às realidades socioculturais dos povos ciganos. Ao articular experiências institucionais, reflexões críticas e a participação de representantes desses povos, busca-se fortalecer uma atuação estatal comprometida com a equidade, a justiça social e a promoção da igualdade racial.
Coordenação
Rosana Maria Nascimento Castro Silva (UNB)
Ana Claudia Rodrigues da Silva (UFPE)
Este minicurso parte da compreensão de que o racismo, em intersecção com outras dinâmicas sistêmicas de opressão como o sexismo, o classismo, a xenofobia, as desigualdades territoriais e outras, são constitutivas das condições de vida, adoecimento e morte em contextos sociais diversos. Considerando esse cenário, propomos pensar como a pesquisa antropológica pode ser articulada para a visibilização, o registro detalhado e a reflexão crítica das iniquidades em saúde. O minicurso tem como objetivo apresentar e debater contribuições teórico-metodológicas de pesquisas antropológicas realizadas em contextos de saúde para uma abordagem etnográfica do racismo e outras formas interseccionais de produção do sofrimento, do adoecimento e da morte. As seções abordarão possibilidades de reflexão teórica, bem como abordagens e experiências etnográficas, que registram as corporalidades, os processos de racialização e as dinâmicas cotidianas de articulação e atualização de iniquidades, violências, negligências e silenciamentos racialmente configurados. Este minicurso visa contribuir para pesquisas nas quais a etnografia e a reflexão antropológica possam ser articuladas em termos teóricos, metodológicos e éticos para o estudo, a análise crítica e a produção de conhecimento socialmente implicado no enfrentamento de iniquidades raciais.
Títulos e Resumos
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Racismo, Saúde, Corpos e Interseccionalidades: Desafios e Contribuições Etnográficas
— Durvalina Rodrigues Lima de Paula e Silva (GRUPESSC - PPGA/UFPB)
— Durvalina Rodrigues Lima de Paula e Silva (GRUPESSC - PPGA/UFPB)
Na antropologia contemporânea, o corpo não é apenas um organismo biológico, mas um "corpo-território" onde se cruzam significados culturais e hierarquias de poder. Para a população negra, o corpo é um "território" primário de resistência diária contra o racismo, suas multifaces e expressões, sendo a necropolítica (MBEMBE, 2018) uma delas, a qual dialoga com a biopolítica de Foucault (1977) em que operam na determinação dos corpos dignos de cuidados e quais os passíveis de negligência, quem pode morrer ou viver, ou ainda, quais corpos são descartáveis. Da mesma forma, o corpo é um espaço de agência, memória ancestral (SANTOS, 2023) e luta por autonomia refletindo as lutas por direitos e identidade. Na atualidade, para um bom andamento e desdobramento do trabalho de campo, a metodologia voltada à população negra deve fundamentar-se na etnografia crítica com práticas científicas, com o reconhecimento da agência dos sujeitos e a quebra da hierarquia entre pesquisador e “pesquisado”. Um dos focos recai na interseccionalidade (CRENSHAW,1989); (COLLINS, 2019) (COLLINS, 2022), como categoria analítica para investigar como raça, gênero e classe se intercruzam com impactos e imbricações na experiência e subjetividade das pessoas negras e sobre a reparação histórica, utilizando a pesquisa científica como ferramenta de emancipação e justiça social. Esta sessão, objetiva discutir articulações teóricas e metodológicas sobre saúde e racismo, a construção social do corpo racializado (CARNEIRO, 2023) os desafios teóricos e metodológicos acerca da eurocentricidade; abordar reflexões sobre o pesquisador/a em reconhecer a sua posição na estrutura racial com o sentido de evitar a reprodução de lógicas coloniais na escrita sobre o "outro”; provocar a discussão acerca da similaridade como ponto de conexão e possibilidades para acolhimento, interação e corroboração das pessoas no campo; e dialogar sobre como os estudos etnográficos podem documentar não apenas as opressões, mas as estratégias de existência, resistência e resiliência da população negra na formação das redes de apoio comunitário e a manutenção do conhecimento e da memória ancestral. Como metodologia será utilizada a explanação, diálogos e trocas de saberes com as pessoas participantes.
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Etnografar com instituições: alianças, confidencialidade e manejo de dados sensíveis sobre racismo
— Raquel Lustosa da Costa Alves (UFPE)
— Raquel Lustosa da Costa Alves (UFPE)
Esta sessão busca explorar os desafios éticos que atravessam pesquisas etnográficas realizadas em organismos do Estado a partir de experiências etnográficas desenvolvidas em uma pesquisa realizada no Comitê Estadual de Estudos de Mortalidade Materna de Pernambuco (CEEMM-PE). Proponho uma reflexão teórico-metodológica sobre pesquisas conduzidas com profissionais de saúde e do Estado, especialmente em contextos marcados pela produção, circulação e manejo de dados sensíveis que não podem ser publicizados. O ponto de partida reside na compreensão de que, em muitas situações etnográficas, o acompanhamento de protocolos institucionais de trabalho descortina dinâmicas profundas de desigualdade racial, reprodução de estereótipos e processos de silenciamento no interior de práticas e discursos institucionalmente restritos, fechados e sigilosos. Nesse sentido, as perguntas que fazemos sobre como registrar e adensar os processos de racialização ao longo do trabalho de campo guiarão essa conversa. A sessão discute possibilidades de etnografar em aliança, considerando os pactos de confidencialidade e as tensões éticas que emergem nesses espaços. Além de abordar os dilemas éticos dessas experiências, a proposta busca refletir sobre a própria corporalidade da pesquisadora em campo, os processos de racialização que a atravessam e as dinâmicas cotidianas de produção e atualização das iniquidades raciais em saúde. A ideia é explorar ferramentas analíticas e narrativas que permitam contar histórias e silêncios produzidos no curso da pesquisa de forma crítica, ética e politicamente implicada, sem colocar em risco os pactos estabelecidos com interlocutoras(es). Ao fazê-lo, a sessão aposta na produção de conhecimentos comprometidos com o enfrentamento do racismo e com a problematização da reprodução de discursos e práticas discriminatórias no interior dos serviços de saúde e das políticas sociais.
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Rastreando objetos multifatoriais: aportes teórico-metodológicos sobre os entrelaçamentos entre raça, processos de racialização e saúde
— William Paulino Rosa (UNICAMP)
— William Paulino Rosa (UNICAMP)
Como rastrear os modos pelos quais a raça se apresenta e é produzida nas práticas médicas? Para responder a essa questão, tomo de empréstimo do léxico médico a categoria de multifatorialidade, a fim de mostrar como a raça pode ser compreendida como um objeto constituído a partir do entrelaçamento de múltiplos elementos, sendo resultado de práticas e relações contextuais. A multifatorialidade é amplamente empregada na Epidemiologia e se contrapõe ao modelo monocausal das doenças, pois não busca uma única justificativa para sua manifestação (Fuller, 2018). Cabe mencionar que, no campo da saúde, há debates relevantes sobre seus usos e sobre como, em certa medida, ela pode ser mobilizada de modo a marginalizar ou naturalizar elementos sociais (Krieger, 1994). Ainda assim, articular essa categoria para rastrear os modos pelos quais a raça se apresenta no campo da saúde e, em especial, nas práticas de cuidado da hipertensão - doença crônica prevalente na população negra brasileira, sobre a qual pesquiso no doutorado, ajuda a dar conta das complexidades que a produzem, uma vez que, a depender do contexto, a raça assume contornos e sentidos distintos. A população negra brasileira constitui a maior parcela de usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) e enfrenta maiores desafios no acesso a serviços e tratamentos adequados. Não por acaso, em 2009, como resultado de longas batalhas conduzidas por movimentos sociais negros, especialmente o movimento de mulheres negras (Batista, Monteiro & Medeiros, 2013), foi promulgada a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), que propõe medidas para enfrentar as iniquidades que afetam sua saúde. A PNSIPN explicita como diferenças e desigualdades se constituem como problemas crônicos que, progressivamente, se materializam nos corpos, produzindo processos de adoecimento e acessos desiguais ao cuidado. Ainda assim, nas práticas médicas, processos de racialização e de produção da raça podem ocorrer sem que sejam imediatamente reconhecidos, operando como presenças ausentes (M’Charek, 2013). Eles se manifestam nas diretrizes clínicas, nos registros de pacientes, nas consultas e, por vezes, nas bulas de medicamentos. Se a raça e os processos de racialização são, por vezes, difíceis de identificar, a mobilização da multifatorialidade como ferramenta analítica contribui para esse esforço, ao nos convidar a observar como múltiplos elementos, em relação, os produzem. Trata-se, portanto, de uma proposta teórico-metodológica voltada a lidar com objetos de difícil rastreamento e descrição, buscando estabilizá-los o mínimo possível, de modo a evidenciar as complexidades que lhes são inerentes e que ajudam a identificar como diferenças e desigualdades produzem efeitos nas práticas médicas e, consequentemente, na saúde.
Coordenação
Francirosy Campos Barbosa (USP)
Este minicurso oferece ferramentas teóricas e práticas para o uso da fotografia e performance como métodos de pesquisa e escrita etnográfica. Partindo de pesquisas em Antropologia da Performance, das Práticas Esportivas e Visual, combina aulas expositivas com atividades práticas envolvendo fotografia, corpo e performance como produtores de conhecimento. Destina-se a pesquisadores/as de Ciências Sociais e Antropologia interessados em ampliar repertórios teóricos e metodológicos e qualificar o uso de linguagens visuais e corporais. A primeira sessão enfatiza a centralidade do corpo, discutindo sua relevância na Antropologia e propondo um exercício baseado na dança contemporânea e estudos somáticos, destacando que o repertório de movimento é culturalmente demarcado e que a consciência corporal abre novas estratégias de pesquisa. Na segunda sessão, a reflexão desloca-se para a fotografia, abordando seus fundamentos como forma de conhecimento e sua trajetória na Antropologia, entendendo-a como escrita etnográfica que expande possibilidades interpretativas. A terceira sessão discute corpo, performance e política a partir de artistas indígenas, analisando performances de Olinda Tupinambá e Ziel Karapotó e as dimensões performáticas de suas imagenAção, explorando como evocam formas de vida relacionadas às cosmologias de seus povos e às corporalidades indígenas, articulando debates ambientais e suas cosmopolíticas de criação depois do fim.
Títulos e Resumos
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Limites e possibilidades do corpo no fazer etnográfico: uma Antropologia sobre e com o corpo
— Carolina Paes de Barros (Plano B Danca)
— Carolina Paes de Barros (Plano B Danca)
A primeira sessão do minicurso combina uma exposição teórica com uma prática corporal, e tematiza a centralidade do corpo para a pesquisa etnográfica a partir de dois pontos de vista: o do corpo pesquisado e do corpo pesquisador. Pretende-se, dessa maneira, encontrar modos criativos de investigação em Antropologia sobre, com e a partir do corpo. A respeito do primeiro ponto de vista, o do corpo pesquisado, será levantada uma discussão sobre a Antropologia do Corpo e a Antropologia da Performance, trazendo o tema de maneira recortada a partir dos autores David Le Breton (2011), Tânia Stolze Lima (2002) e Diana Taylor (2013). Busca-se pontuar sob quais aspectos os corpos dos sujeitos de pesquisa podem se revelar ao antropólogo ou antropóloga: enquanto o primeiro nos auxilia a demarcar o corpo na modernidade, a segunda nos oferece um contraponto a partir da experiência Juruna, e, ainda, a terceira autora nos dá as bases conceituais para pensarmos a memória "encorporada". No que diz respeito ao segundo ponto de vista, o do corpo pesquisador, a obra da antropóloga e bailarina Katherine Dunham será trazida à luz junto à contribuição de suas biógrafas e autoras comentadoras, tais como Aschenbrenner (2002), Das (2017), Gottschild (1996; 2003), Osumare (2010) e o brasileiro Fernando Ferraz (2017). Katherine Dunham viveu entre 1909 e 2006 e foi uma antropóloga, bailarina e ativista social negra estadunidense. Sua pesquisa antropológica no Caribe, em especial no Haiti, levanta importantes questões sobre limites e possibilidades colocadas pelo corpo, raça, gênero e religiosidade da pessoa pesquisadora. A presença marcante de seu corpo como dispositivo de investigação antropológica tensiona noções ingênuas de objetividade científica e expande as possibilidades de registro etnográfico para além do texto verbal escrito, pois a autora criou espetáculos de dança inspirados nas expressões artísticas e rituais dos povos que estudava. Após a exposição e discussão teórica, seguiremos para uma atividade prática fundamentada na dança contemporânea e em estudos somáticos. Com as provocações feitas pela discussão da obra de Dunham, o objetivo desta prática é despertar os participantes para a ideia de que o repertório de movimento que cada pessoa traz consigo é culturalmente demarcado, e que ter uma consciência do próprio corpo pode dar espaço para novas estratégias de pesquisa de campo, em que o corpo se torna uma ferramenta central para a investigação.
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Imagem, memória e experiência: a fotografia na pesquisa etnográfica
— Evandro Lima dos Santos (USP)
— Evandro Lima dos Santos (USP)
Esta sessão investiga a fotografia como forma de conhecimento e escrita etnográfica, articulando três dimensões fundamentais. A primeira explora a relação entre Antropologia e imagem, superando a noção de ilustração para posicioná-la como linguagem autônoma, apresentando como seu uso é fundamental na história da disciplina e como se articula com a pesquisa. Autores como Barbosa e Cunha (2006) destacam a imagem como método, dado, expressão do processo de pesquisa e objeto de análise, cujo sentido emerge do cruzamento de intencionalidades entre fotógrafo, retratado e observador, perspectiva reforçada por Sylvia Caiuby Novaes (2021), que defende a fotografia como comunicação que mobiliza sensibilidade e afeto, distanciando-se dos discursos acadêmicos convencionais. A segunda parte aborda a etnografia em acervos fotográficos, espaços que não podem ser reduzidos a repositórios fechados e guardiões da verdade, mas como arquivos vivos e dinâmicos. A partir de leituras de Mbembe (2002), Trouillot (2024), Triana (2022) e Edwards (2001), discute-se o acervo como construção mutável, espaço de latência e contestação de memórias hegemônicas. A pesquisa em arquivos é apresentada como ação que revela instabilidades, produzindo a pesquisa e o próprio pesquisador ao formular histórias outras, ressaltando o caráter processual, político e afetivo da imagem-documento. Por fim, a partir da pesquisa etnográfica no futebol de várzea de Taboão da Serra-SP, proponho uma prática de “fotografia de perto e de dentro”. Partindo do conceito de Magnani (2023), esta abordagem busca uma imersão sensorial no campo, utilizando cortes, desfoques, texturas e técnicas que buscam transmitir a experiência do campo. Trata-se de uma fotografia que problematiza contextos, gera questões e estabelece uma co-autoria com os sujeitos que se apresentam diante da câmera, expandindo as possibilidades de interpretação e comunicação. O uso da imagem na Antropologia não compete com o texto, mas dialoga com ele para construir um conhecimento etnográfico mais sensível e não menos científico, ampliando os horizontes da pesquisa etnográfica. A fim de concretizar essas reflexões, a sessão propõe uma atividade prática de construção de narrativa visual. Os participantes serão convidados a engajar-se em um exercício de análise e montagem a partir de imagens (de seus próprios acervos ou fornecidas pelo ministrante), experimentando os processos de seleção, enquadramento e sequenciamento que constituem a escrita etnográfica com imagens. Esta dinâmica visa não apenas ilustrar os debates teóricos, mas também corporificar a noção de que fotografar e ler fotografias são atos interpretativos e criativos, fundamentais para uma antropologia sensível às texturas, performances e afetos que compõem a vida social.
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Políticas da criação: A performance de Olinda Tupinambá no ato de (RE) ativar outros mundos possíveis
— Leandro Teixeira (USP)
— Leandro Teixeira (USP)
Nesta sessão, nosso objetivo é compreender como artivistas indígenas têm se mobilizado, a partir de práticas performáticas, para discutir questões centrais no contexto de luta por território no processo do tornar visível. Nosso ponto de partida serão os trabalhos de Olinda Tupinambá. Cineasta, artivista ambiental, performer, Olinda é indígena do povo tupinambá e pataxó hã hã hãe. Durante o minicurso, temos interesse especial em explorar as dimensões performáticas da imagem, tomando a ação da performance como princípio da imagem para discutir as imagens que instigam a ação. Fazendo uso das palavras de Braulina Aurora (2022), vejo Olinda como uma performer em um “corpo território”, um “corpo político em movimento”; um corpo que “é local de inscrição de um conhecimento que se grafa no gesto, no movimento, na coreografia, na superfície da pele” (Martins, 2022). Neste sentido, busca-se trazer para a discussão a dimensão da performance, entendida como expressão da experiência, como diria Victor Turner (1987), e, particularmente, Taylor (2013) oferece contribuições para pensar a performance a partir destas experiências corporificadas- corporificadas por meio de comportamentos restaurados (Schechner, 2023) -, enquanto ato eficaz para transmitir conhecimento, memória e identidade. Olinda é um corpo político: um corpo que é extensão do processo de colonização, que muda e transmuta para falar de outros mundos possíveis. Através da performance, ela retira a humanidade do centro para que possamos olhar para outras vidas existentes (Silva, 2024). A fim de concretizar essas reflexões, a proposta é elaborar uma síntese que busque compreender o encontro de Olinda Tupinambá com esses outros mundos que ela evoca: da Kaapora, de uma Onça entidade, uma Árvore. Segundo Paulo Raposo (2022) “para criar um novo mundo precisamos, então, de imaginar como o mundo se parece. Mas para atuar sobre o mundo precisamos sobretudo de gerar movimento criativo em nossos corpos, gestos, ideias, discursos (...)”. Olinda, de maneira sistemática, vai criando outros mundos onde a possibilidade de existência descentraliza a figura Humana. Mas essa criação de mundos, em seu caso, parece não ser ao acaso, estão relacionados com uma memória ancestral da cosmologia de seu povo, que a antecede. Estamos pensando nas memórias como estratégias de sobrevivência que são transmitidas de uma geração a outra por meio de práticas performativas. Essas práticas têm histórias (Taylor, 2013). Por fim, as ideias de krenak (2022) são fundamentais para entender como Olinda nos convida a transfigurar, através de um cartografia afetiva da performance, pois a performance é uma metamorfose, e, a metamorfose é nosso ambiente, assim como das folhas, das ramas, destas entidades reavivadas no ato de performar.
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