ISBN: 978-65-87289-23-6 | Redes sociais da ABA:
GT38: Entre arte e política: articulações contemporâneas em pesquisas antropológicas
Apresentação Oral
Guilherme Vieira Bertollo
Funk e Covid-19: notas antropológicas sobre contágio, fluxos e sobrevivências
O presente trabalho objetiva apresentar os resultados iniciais de uma pesquisa sobre funk e pandemia, desenvolvida no âmbito das discussões do grupo Cultura e Covid, promovido pelo projeto Arte, Política e Experimentação Etnográfica, sob coordenação de Vi Grunvald (PPGAS/UFRGS). O funk brasileiro, também chamado de "funk carioca", é um gênero de música eletrônica dançante (PALOMBINI, 2009) que enfrenta ampla criminalização, assim como ocorreu com o samba, a capoeira, dentre outras práticas com origens nas tradições culturais da diáspora africana. A perspectiva de artistas periféricos com relação às ações do Estado são temas frequentes nas produções musicais do funk, constituindo-se como contra-narrativas sobre a violência urbana e reproduzindo muitos dos problemas enfrentados cotidianamente pelas pessoas pertencentes a grupos marginalizados. No contexto da pandemia global de covid-19, foi indicado pelas autoridades de saúde pública (tanto no âmbito nacional quanto internacional), a necessidade do distanciamento social como principal atitude a ser tomada para evitar o contágio em grande escala. Pela mídia hegemônica, e também através de redes sociais como Twitter e Instagram, foram noticiados bailes funk e outras festas que causaram aglomerações nos centros urbanos e nas periferias de cidades brasileiras. A ampla repercussão através de canais midiáticos favorece o fortalecimento de preconceitos a respeito do funk, ao mobilizar noções estereotipadas sobre a cultura das periferias no imaginário social da classe média branca. O uso (ou não) de máscara foi identificado como um demarcador social (SOUZA, 2021), sendo muitas vezes dispensado pelas pessoas que moram em favelas, como um ato de transgressão. Em contextos periféricos, a relação dos sujeitos com a vida e a morte é diferenciada. Também a maneira como a periferia significa o Estado e suas intervenções é diversa da percepção das elites urbanas. Contudo, mesmo nos setores mais privilegiados, que, via de regra, têm maior acesso à informação e às estatísticas epidemiológicas, como índices de mortalidade, grande parte não se importava em desrespeitar os protocolos de saúde pública. Com as festas populares (de rua) proibidas, emerge o fenômeno da privatização do lazer. Nas periferias, os bailes funk resistem como uma "cultura de sobrevivência" (FACINA, 2021). Enquanto promove a repressão violenta às formas de resistência cultural e política de grupos periféricos, o Estado garante a manutenção de privilégios de classe. Nesta conjuntura, o movimento funk têm conseguido não apenas fazer a sua política de conscientização acerca da importância da vacinação da população brasileira, mas têm também nos ajudado a pensar a criação de políticas de cuidado diferencial para os grupos socialmente vulneráveis.