GT16: Antropologia e Alimentação: diálogos sobre cultura, identidade e direitos
Apresentação Oral
Marta Fran
Da bíblia ao século XXI: lei, comida e identidade judaica
Dos tempos bíblicos à contemporaneidade as leis dietéticas judaicas, também conhecidas como kashrut, tem mudado significativamente: alimentos novos apareceram em cena, além das mudanças nos contextos geográficos e socioculturais nos quais residiam e residem judeus, obrigando-os a reformular algumas regras. Paralelamente, o incremento da tecnologia na produção de alimentos e a circulação em nível global de certos alimentos exerceu um impacto importante na kashrut, que se manifesta na complexidade dos processos necessários para certificar quais alimentos são proibidos e quais, não, abrindo o caminho para o treinamento e a atuação de peritos em diferentes áreas de kashrut. Um trabalho de campo realizado em Israel e no Brasil entre 2015 e 2017 me levou a esboçar algumas hipóteses em relação ao impacto dessas mudanças na conformação da identidade judaica nos dias de hoje. O objetivo desta proposta é focar a atenção em uma das dimensão das leis dietéticas que sofreu mudanças substantivas nas últimas décadas e que, por isso, questiona a continuidade de uma tradição milenar entre aqueles que, paradoxalmente, se consideram os bastiões na defensa do único judaísmo autêntico e verdadeiro, isto é, os judeus ortodoxos. Se essas hipóteses são corretas, estaríamos diante de alguns problemas para definir os judeus ortodoxos de hoje como um povo santo (vide Douglas 1966). É necessário lembrar que a causa última para seguir as leis dietéticas em todas as épocas é o alinhamento ritualizado dos judeus com os desígnios divinos. Como consta em Levítico (11:44), onde são apresentadas as leis dietéticas com maior detalhe, a existe só uma razão para segui-las à risca: "Eu sou o Senhor, vosso Deus; portanto, vós vos consagrareis e sereis santos, porque eu sou santo". A dimensão da kashrut à qual me referi acima está relacionada ao silêncio das autoridades rabínicas em relação à circulação e consumo de carne não-kasher nas comunidades judaicas ortodoxas de Israel e do Brasil, certificadas como kasher pelas agências responsáveis. Isto acontece porque o ritmo das granjas e frigoríficos modernos tornou-se incompatível com as leis da kashrut. Os trabalhos clássicos de Mary Douglas (1966; 1993), Jacob Milgrom (1991; 1993), Eilberg-Schwartz (1990) e David Kramer (2009) foram o ponto de partida necessário para refletir sobre o objeto de estudo levando em consideração, porém, é necessário lembrar que esses estudiosos trabalharam o texto bíblico e não a prática da kashrut nos dias de hoje, o que me levou a procurar outra abordagens.