ISBN: 978-65-87289-23-6 | Redes sociais da ABA:
GT38: Entre arte e política: articulações contemporâneas em pesquisas antropológicas
Apresentação Oral
João Paulo Campos
Ceilândia, Cidade Aberta: A Periferia Como Presença Insurgente Em A Cidade É Uma Só? (Adirley Queirós, 2011)
A tarefa deste ensaio é construir uma discussão interdisciplinar sobre o cinema como uma prática que se configura entre a arte e a política a partir da análise do filme A cidade é uma só? (2011), de Adirley Queirós. Partimos da hipótese de que esta obra elabora um pensamento estético-político em que as cisuras do Distrito Federal são postas em cena criticamente, gesto que revela aspectos da relação entre Brasília (Plano Piloto) e seus outros (Cidades-Satélites). Um dos motivos mais importantes do filme é a perambulação de personagens subalternizados entre Brasília e Ceilândia, cidades vizinhas cuja relação tecida na obra desvela a paisagem desigual do Distrito Federal. Saltando à origem histórica do conflito espacial em questão e desenvolvendo um jogo dramático que coloca personagens em movimento entre o centro e a periferia, o filme de Queirós constrói um registro que mistura documentário e ficção em cena, além de confrontar passado e presente através da montagem, com o objetivo de subverter a história oficial ou as "narrativas do progresso" (TSING, 2015) que narram a criação da cidade radiosa à brasileira. Levando a sério os recursos estéticos agenciados pelo cineasta, chegamos à conclusão de que este filme figura a periferia brasiliense como uma "presença insurgente" (ADERALDO, 2018) capaz de questionar a utopia modernista que serve como um "manto mito-poético" (HOLSTON, 1993) de Brasília, ofuscando suas origens históricas e os conflitos de classe que explodiram neste processo. Ceilândia é mostrada na obra, portanto, como as entranhas da cidade modernista - uma aventura estética que critica a história violenta, tão utópica quanto distópica, de construção e fundação da capital federal.