ISBN: 978-65-87289-23-6 | Redes sociais da ABA:
GT16: Antropologia e Alimentação: diálogos sobre cultura, identidade e direitos
Apresentação Oral
Rafael Camaratta Santos
Dendê, Dendezeiro e azeite: um estudo etnográfico sobre o dendê
A presente comunicação trata-se de um empenho inicial de tese de doutorado na qual busco reflexionar sobre o material de pesquisa resultante do trabalho de campo que venho desenvolvendo, desde de 2014, junto ao terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, localizado em Salvador, Bahia, que visava, inicialmente, estudar os sentidos e significados que as interlocutoras e os interlocutores atribuíam à prática de cozinhar para os orixás. Contudo, ainda buscando me distanciar da dissertação que defendi em 2018 e sendo atravessado pela pandemia de covid-19 foi que cheguei ao dendezeiro e ao seu local de cultivo. Eu iniciei o doutorado em antropologia social no museu nacional em 2020 e venho realizando pesquisa etnográfica acerca do sistema alimentar ritual do candomblé. Porém para a tese estou perseguindo outros personagens não humanos que compõem esse sistema, no caso o dendê (dendezeiro e azeite), na perspectiva da vida social das coisas proposta por Appadurai (1981), de olho nas diversas relações que estes seres estabelecem com uma série de outros sujeitos - humanos e não humanos - desde a colheita por produtores, beneficiamento por processadores, a venda, em suas diversas modalidades, a circulação do produto do território do baixo sul até as feiras de São Joaquim e Sete Portas, em Salvador, por fim a sua chegada na cozinha do terreiro. Aqui, a personagem principal é a árvore que produz o fruto. Trazida de África e há séculos aclimatada ao litoral baiano e que dá nome à região turística do estado, a chamada costa do dendê que reúne cidades como Valença, Ituberá, Taperoá, Cairu. É notável a forte presença de comunidades remanescente de quilombolas nessa região, assim como milhares de palmeiras de dendê espalhadas ao longo das rodovias da região. Não há muitos registros sobre a inserção dessa espécie exótica no bioma da região e isso pode ser explicado tanto pelo fato de não ser uma cultura de plantio, ou seja, as sementes são espalhadas por dispersores de sementes e, nesse caso, o urubu é o maior responsável pela dispersão dos dendezeiros pela mata. Por ser um fruto carnudo e avermelhado, chama a atenção de diversos outros animais. Busco, assim, explorar os caminhos etnográficos do dendê, esse fruto avermelhado de origem africana e alimento estruturante do sistema alimentar do candomblé - religião de matriz africana que se estruturou ao longo de toda a costa atlântica brasileira. Os adeptos do candomblé são às vezes conhecidos como "povo do azeite" e as comidas votivas que compõem o seu sistema alimentar ritual são chamadas de "comida de azeite", esta, já há muito tempo, absorvida pelas mesas das casas baianas, tornando-se exemplo da assim chamada comida afro-baiana, ou simplesmente comida baiana.