ISBN: 978-65-87289-23-6 | Redes sociais da ABA:
GT38: Entre arte e política: articulações contemporâneas em pesquisas antropológicas
Apresentação Oral
Eduardo Vargas
Fricções e ficções de imagens no norte de Moçambique
Resumo: Aberto na década de 1950, em pleno período colonial, um caminho de ferro corta o norte de Moçambique. De maneira intermitente por conta da guerra de Independência e da guerra dos 16 anos que a seguiu, ele conecta o oceano Índico, a leste, às férteis regiões de Cuamba e Lichinga, a oeste. Por ele passa há décadas um comboio que leva gente, sobretudo macuas, de Nampula a Cuamba. É o principal meio de transporte das pessoas e dos produtos de machamba entre os inúmeros povoados da região, a mais populosa do país. Este caminho de ferro foi refeito e estendido há uma década como parte de megaprojetos de exploração de carvão mineral e de agronegócio, que têm impactado severamente a região. Hoje é conhecido como o Corredor de Nacala. Este trabalho apresenta e discute imagens produzidas por diferentes agentes que cruzam este caminho de ferro, ou cujos caminhos este de ferro cruza, sejam elas feitas pelas instituições interessadas, sejam elas contrafeitas pelas populações envolvidas, numa particular guerra de imagens. Este trabalho também relata e discute experiências etnográficas em curso que envolvem a produção e a circulação de imagens fotográficas entre pessoas e instituições da região, notadamente a exposição fotográfica “Olhos Passageiros – Todos os Olhos” tal como ocorrida no início de 2020 no norte de Moçambique < https://youtu.be/U_7AaH3MbL0 >, quando foram expostas nas paredes externas dos vagões do comboio de passageiros uma centena e meia de retratos de utentes do mesmo comboio tirados em viagem realizada em 2016 e desta vez impressos e expostos em grande formato. Em todos os casos trata-se de saber o que (se) passa e o que não (se) passa nos caminhos que cortam de leste a oeste o norte de Moçambique; em que medida estes caminhos de gentes e entes se friccionam e se ficcionam reciprocamente, enfim, como transportar isso de um momento a outro, de um canto a outro, de uma associação a outra, de um mundo a outro reconhecendo e respeitando as armadilhas próprias aos modos de passagem, às palavras e às imagens, bem como aquelas que enredam quem as porta.