GT 30. Drogas, saberes e direitos
Apresentação Oral
Lígia Duque Platero (UFF - Universidade Federal Fluminense)
Transformações e reinvenções do Santo Daime a partir das traduções do xamanismo Yawanawá (Pano)
O tema do artigo é o diálogo xamânico estabelecido entre adeptos de uma igreja do Santo Daime do Rio de Janeiro e membros do povo indígena Yawanawá (Pano), das aldeias Mutum e Nova Esperança, do Acre. Em meio a esse diálogo, ocorre uma dupla transformação: cada parte da relação se transforma a partir das traduções que realiza em meio ao diálogo com o outro. São essas traduções e transformações - tendo em vista o ponto de vista dos adeptos do Santo Daime – que busco explorar neste artigo. Desde 2009, os adeptos de uma igreja urbana do Santo Daime do Rio de Janeiro adotaram o consumo de algumas medicinas da floresta – rapé, sananga e kambô, e produziram novos hinos, danças, imagens e dietas (as santas dietas), relacionadas ao xamanismo Yawanawá.
Nesse sentido, pergunto-me: como os adeptos do Santo Daime dessa linha expansionista vem traduzindo e ressignificando o xamanismo Yawanawá, produzindo novas diversificações do Santo Daime? Essas transformações podem ser consideradas como uma nova forma de reinvenção da tradição do Santo Daime? Assim, o problema do problema do artigo se refere às traduções equívocas (Viveiros de Castro, 2004) daimistas em relação ao xamanismo Yawanawá, e a produção de transformações e reinvenções da tradição. Assim, o objeto do artigo é a questão da diversificação do Santo Daime dessa linha expansionista em meio a esse diálogo com esse outro indígena.
work com a hipótese de que as traduções equívocas em meio ao diálogo xamânico são um processo inventivo, produtor de transformações na cosmologia e nos rituais do Santo Daime, e diferenciações nessa religião ayahuasqueira e/ou xamanismo coletivo (Couto, 1989). Essas traduções daimistas ocorrem a partir de uma linguagem espírita e umbandista, com ênfase no diálogo entre espíritos humanos e não humanos. Parto da hipótese de que essas transformações podem ser consideradas também como reinvenções da tradição ou da cultura. Como objetivos do artigo, busco descrever e analisar as traduções daimistas relacionadas à adoção de plantas-espírito (sobretudo o rapé e a sananga), e a adoção e ressignificação de cantos, de danças, da estética e de dietas Yawanawá. Busco também analisar as convergências e divergências do conceito de transformação usado na Etnologia Sul-americana e o conceito de reinvenção das tradições, utilizado no campo de pesquisas sobre ayahuasca. Ao longo do artigo, dialogo com pesquisas sobre transformações ameríndias, Santo Daime, ayahuasca e medicinas da floresta (rapé, sananga e kambô), sobretudo com a bibliografia que aborda a questão do diálogo xamânico entre Santo Daime e povos indígenas. Este work é baseado em observação participante, realizada na igreja carioca entre 2015 e 2017, e na Terra Indígena Rio Gregório, em julho de 2016.
Palavras-chave: Santo Daime; Yawanawá; medicinas da floresta;