GT 30. Drogas, saberes e direitos
Apresentação Oral
Caroline de Brito Santos (UERJ)
Encontros e deslocamentos do Nixi Pae
Nos últimos 15 anos, diferentes etnias indígenas vêm se inserindo e ampliando sua participação nos circuitos urbanos de rituais xamânicos. Este work resulta do acompanhamento de rituais de nixi pae (ayahuasca ou cipó) conduzidos pelos Huni Kuin, povo pano do Acre, no Rio de Janeiro. Em geral, essas cerimônias ocorrem através de agentes intermediários que atuam na organização das atividades da comitiva indígena durante sua permanência na cidade e seus arredores.
O encontro entre brancos e índios nos “works” realizados em cenários urbanos envolvem deslocamentos espaciais e simbólicos tanto do público participante como dos Huni Kuin. Se os visitantes dos centros urbanos, predominantemente ligados às expressões e práticas Nova Era, estão em busca da medicina sagrada em um contexto ritual de alteridade e vinculado à noção de originalidade indígena, também os Huni Kuin são sujeitos em certa medida deslocados de seus mundos, que ali estão simultaneamente como hóspedes e anfitriões. As transformações por que passam os ritos urbanos do Nixi Pae em relação aos modos como eles são realizados nas aldeias são maneiras de estabelecer comunicação e permitir o engajamento dos participantes. De fato, a bebida amazônica tem operado como um mediador relevante nas recentes relações dos Huni Kuin com as sociedades ocidentais modernas, assumindo não apenas dimensões religiosas e terapêuticas, mas também políticas.
Neste work dedico-me às produções de sentidos implicadas no contato entre mundos diversos. Mas essas relações são também marcadas por processos de “equivocação controlada” (Viveiros de Castro, 2004) que atravessam a comunicação entre brancos e ameríndios, conforme explora Coutinho (2016) ao apontar para os efeitos comunicacionais produzidos pela convergência entre termos da cosmologia indígena (Yube) e da psicanálise (inconsciente). Procuro atentar para esses trânsitos, fluxos e traduções de sentidos que circulam particularmente em torno das dimensões terapêuticas do ritual. Yube é a jiboia, ser encantado que engole aqueles que estão na “força” do cipó, conduzindo-os a outro mundo. Na ontologia Huni Kuin, baseada em um modelo de alteridade por gradação (Lagrou, 2002, 2018), a força do cipó abre caminho para a experimentação de mundos outros e coexistentes com o mundo habitado, o que produz uma experiência de devir-outro que parece fluir em uma direção diversa daquela que encontramos nos meios Nova Era, marcados pela busca pelo si mesmo, pelo eu verdadeiro, pela singularidade despida de identidades socialmente constituídas. Nesse sentido, busco refletir sobre os encontros e deslocamentos produzidos nesses rituais, particularmente em relação aos modos como os Huni Kuin e o público frequentador percebem as relações entre cura e alteridade.
Palavras-chave: Xamanismo; alteridade; tradução