GT 19. As tramas da intolerância e dos racismos religiosos e as mobilizações políticas por direitos das religiões de matrizes afro-brasileiras
Apresentação Oral
Luís Cláudio de Oliveira (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Edlaine de Campos Gomes
Memórias documentadas do grupo “Tradição dos Orixás”: reações e resistência afro-brasileira nos anos 1980.
A reflexão proposta reúne experiências de pesquisas sobre formas de militância do ativismo negro emergentes nos anos 1980, marcados como o período de redemocratização, assim como foi a década dos cem anos da Abolição da escravidão, ambos ocorrendo em 1988. Em torno da intensa movimentação para os preparativos dos "Cem anos da abolição”, a Marcha contra a farsa da abolição, reunindo mais de 5 mil pessoas no centro da cidade, unificou diversos setores do ativismo negro, e trouxe a temática do racismo para o debate público. Entre a segunda metade da década de 1980 e a primeira metade dos anos 1990 houve uma aliança política entre ativistas do movimento negro e líderes religiosos do Candomblé, em particular, e de outras vertentes do campo afro-brasileiro, em torno do desenvolvimento de ações para a preservação de religiões de matriz africana no país. Era tempo também de crescimento de um novo campo religioso, iniciado em 1977, com a fundação da Igreja Universal do Reino de Deus e outras denominações subsequentes. O "Projeto Tradição dos Orixás" emerge neste contexto com o objetivo de organizar a partir de dentro dos terreiros a luta contra o racismo e a intolerância religiosa. Tinha como base o fortalecimento da tradição por meio do resgate e da valorização da memória baseada na afrocentricidade. A proposta do grupo incluía a produção de reflexão sobre a própria conformação interna dos terreiros, questionando a concepção de “religião” como conceito colonizador, inserindo a noção de “valores civilizatórios afrocentrados”. O grupo se reúne no momento no qual emergia uma nova forma de disputa no espaço público, promovida por determinadas denominações do chamado “campo evangélico, que investiam em ataques aos terreiros e aos seus integrantes. O Tradição (in)surgiu e se organizou dando ênfase a ações sócio-jurídicas, produzindo documentos e ações judiciais contra a IURD, por exemplo. As narrativas desses personagens são analisadas com o objetivo de amplificar o debate sobre formas e ressonâncias da organização e da luta contra o racismo religioso e/ou intolerância religiosa, e possíveis impactos no processo de transmissão de memórias e formas de resistência contemporâneas. O intuito era organizar uma reação estruturada contra os ataques de igrejas neopentecostais. À época eram recém-fundadas, mas rapidamente ganharam notoriedade ao adotarem o discurso da batalha espiritual, a teologia da prosperidade e a ocupação de espaços centrais nas cidades, na política e em outros eventos da vida. A conexão entre organização interna e o embate com essas igrejas é fundamental na reflexão destes atores sociais sobre a trajetória do grupo como precursor do movimento de combate ao racismo religioso direcionado às religiões afro-brasileiras.
Palavras-chave: Memória; Racismo religioso; Intolerância religiosa;