GT 19. As tramas da intolerância e dos racismos religiosos e as mobilizações políticas por direitos das religiões de matrizes afro-brasileiras
Apresentação Oral
Isabel Soares Campos (UFPEL - Universidade Federal de Pelotas), Francisco Luiz Pereira da Silva Neto
As Marchas Contra Intolerância Religiosa em Pelotas (RS): Discutindo o sagrado
As Marchas contra Intolerância Religiosa são manifestações ocorridas em espaços públicos e organizadas especialmente por grupos e/ou líderes das religiões afro-brasileiras. Apesar dessas caminhadas terem o apoio ou a participação de outros grupos religiosos (católicos, budistas, espíritas, protestantes, etc), estas manifestações são oriundas dos processos de restrições em relação a liberdade de expressar e de praticar a religião de matriz africana conforme seus preceitos e dogmas religiosos, gerando demandas da comunidade afro-religiosa relacionadas a estes enfrentamentos. Assim, mesmo que na atualidade o cenário nacional nos apresente processos de conflitos entre grupos religiosos, como entre neopentescostais e afro-religiosos, há nessas caminhadas também uma busca por diálogos inter-religiosos. No Rio Grande do Sul desde 2009 ocorre, na cidade de Porto Alegre, a Marcha Estadual pela Vida e Liberdade Religiosa organizada pela Associação dos Povos de Terreiros e pelo Conselho Nacionais de Igrejas Cristãs no Brasil (CONIC), que manifesta nas ruas as demandas que são de interesse exclusivo da comunidade afro-religiosa. Na cidade de Pelotas, essa manifestação pública ocorre desde 2014, quando houve uma grande polêmica envolvendo a realização da Festa de Iemanjá que estava passando por ações restritivas por parte de órgãos públicos locais, provocando a primeira marcha nomeada: “A favor da liberdade religiosa e contra a discriminação racial em Pelotas. ‘Festa de Iemanjá, temo o direito de realizar!’”.
Deste modo, é possível observar que as Marchas contra Intolerância Religiosa, além de produzirem diálogos inter-religiosos e de visibilizarem as reivindicações dos afro-religiosos no espaço público, essas caminhadas apresentam novas estratégias desses atores nas suas relações com o político, inclusive conectando raça e religião como uma forma de fortalecer sua atuação política nas ruas. Considerando essa reconfiguração das relações entre religião e política que nos apontam para novas estratégias do religioso de se fazer presente na arena pública, abordaremos o debate acerca da proibição do sacrifício de animais nos rituais religiosos que ganhou alcance nacional ao ser discutido no Supremo Tribunal Federal nos anos de 2018 e 2019, levando a realização de marchas contra intolerância religiosa na cidade de Pelotas, bem como a manifestações destes atores religiosos na capital federal, em Brasília.
Palavras-chave: Religiões afro-brasileiras; marcha contra intolerância religiosa; espaço público