GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Nádia Maria Cardoso da Silva (Secretaria de Eduação do Município de Salvador)
Virginia Leone Bicudo e Guerreiros Ramos – para uma antropologia decolonial da perspectiva negro-brasileira nas Américas
Buscando contribuir para a consolidação de uma antropologia decolonial na perspectiva negro-brasileira na América Latina, apresentamos dois intelectuais negros invisíveis nas ciências sociais no Brasil – Virgínia Leone Bicudo e Guerreiro Ramos - que viveram o mundo sócio-antropológico no Brasil, a partir dos anos 40 do século XX. A intenção é colocar em visibilidade seus pensamentos, pois, ambos apresentaram argumentos decoloniais que podem ser configurados como inaugurais de uma epistemologia decolonial nas Américas, interpelando o racismo/sexismo epistêmico das universidades brasileiras e perseguindo uma segunda descolonização do Brasil, apesar desses subalternos negra e negro pouco terem podido falar. Virgínia e Guerreiro fazem parte da geração dos primeiros cientistas sociais no Brasil, e foram alvos de uma poderosa operação de silenciamento. Virgínia Leone Bicudo se destacou já nos anos 1940 com uma inusitada tese em que negras e negros surgem não como objeto, mas como sujeitos falantes, narrando suas experiências sociais, econômicas, amorosas, educacionais em um contexto social paulista marcado por profundas hierarquias raciais e forte herança colonial. Guerreiro Ramos se destacou no mesmo período, ao apontar a colonialidade epistemológica das ciências sociais no Brasil quando objetifica o negro brasileiro, o constrói e o apresenta como um humano estático, exótico, mumificado, problemático. Ao mesmo tempo, defende que a descolonização/decolonialidade dos estudos sobre o negro no Brasil já estava em curso não na vida acadêmico-intelectual brasileira, mas no ativismo negro. Ambos silenciados, migram para a Psicanálise e para a Administração se tornando referências fundadoras nessas áreas no Brasil, evidenciando, com suas trajetórias intelectuais, como a violência epistêmica vem nos atingindo há muito tempo, produzindo invisibilização e silenciamento nas ciências sociais. Em plena década de 40, Virgínia e Guerreiro adotaram perspectivas críticas decolonias para pensar as permanências das estruturas coloniais na sociedade brasileira em que viviam. Apesar desse campo ainda não ter se constituído nesse momento, tomamos Virgínia Leone Bicudo e Guerreiro Ramos como nossos ancestrais que inauguraram o campo decolonial das ciências sociais na perspectiva negra no Brasil. Portanto seus pensamentos foram considerados aqui estruturantes de uma perspectiva negra de descolonização/decolonialidade que seguem presentes nas comunidades negras contemporâneas - nos quilombos, nos ativismos anti-racistas, nos terreiros de candomblé e nas rodas de capoeira – pois, anda que afetadas pela colonialidade dos poderes, tais comunidades vêm produzindo epistemologias de existências e resistências no Brasil.
Palavras-chave: Decolonial; racismo-sexismo epistêmico; colonialidade.