GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Virgínia Squizani Rodrigues (UFSC - Universidade Federal de Santa Catarina), Sônia Weidner Maluf
Práticas contraceptivas e outras epistemologias da ciência em ação: como mulheres ávidas por saberes múltiplos têm questionado a hegemonia biomédica
A partir de um estudo sobre as controvérsias em torno da pílula anticoncepcional, pode-se observar alguns dos motivos pelos quais jovens mulheres - em idade fértil - estão recusando o uso de contraceptivos hormonais e optando por outros métodos, considerados por elas, como “menos invasivos” e “mais seguros”. Na esteira desses acontecimentos, um “reclame por mais ciência”, por parte de algumas destas mulheres, foi verificado. O argumento de que “se encontra mais alento nos fóruns de internet do que nos consultórios médicos”, verificado em campo, provocou refexões a cerca da autoridade da hegemonia biomedica ocidental. Sabendo da crise do sistema de peritos que vêm se desenrolando há décadas, procurou-se pensar como a emergência de epistemologias “de viés não científico” vêm a se combinar de diferentes maneiras com “a Ciência”. Diante de um contexto de incerteza generalizada, Latour (1999) observa nas crises ecológicas, uma crise de objetividade. “As questões levantadas pela produção científica contemporânea são não apenas práticas, mas epistemológicas” (CESARINO, 2005, p. 172). Se formos pensar que, ao recusar a pílula e aceitar que um ciclo menstrual não precisa ter, obrigatória e normativamente 28 dias, por exemplo, e que esse pode ser cuidado por meio de chás e exercícios físicos específicos... "a Medicina Ginecológica" passa a dividir espaço com outras “práticas terapêuticas integrativas". Nada disso seria estranho se "a Ciência" (e nesse conjunto, "a Medicina Ginecológica") não tivesse inventado a si mesma enquanto única correspondente à realidade, produtora de normas cujos processos de produção intenta apagar. Assim sendo, o presente artigo se propõe a pensar: até que ponto, então, as práticas das mulheres que recusam a pílula anticoncepcional corroboram para uma distinção entre "a Ciência" e "as ciências"?
Palavras-chave: Contracepção; biomedicina; práticas alternativas;