ISBN nº 978-65-87289-08-3
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GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Carlos Alberto Corrêa Moro (nenhuma), Helenito Hemes
Plantando floresta nos mares de cana: notas etnográficas sobre os saberes e práticas agroflorestais no interior paulista.
A região de Ribeirão Preto, cidade do interior do estado de São Paulo, é conhecida nacionalmente como um polo econômico da agroindústria sucro-alcooleira. No entanto, nos interstícios de um território visivelmente dominado pela monocultura de cana de açúcar e pelas gigantesca usinas do complexo sucroalcooleiro, vemos emergir experiências e projetos agrícolas que se colocam de forma antagônica ao modelo agrícola convencional. Neste artigo, escrito em colaboração com o agricultor e agrofloresteiro Helenito Hemes assentado no Projeto de Desenvolvimento Sustentável Sepé Tiarajú, abordaremos algumas características do manejo dos Sistemas Agroflorestais (SAF) que vêm sendo implantados em meio ao mares de cana de açúcar que dominam a paisagem do interior paulista. Das ruínas de uma terra esgotada por décadas de monocultura em larga escala irrompem, nas roças agroflorestais do Assentamento Sepé Tiaraju, experiências críticas à marcha homogeneizante do agronegócio. No lugar das dimensões sobre-humanas, a escala de manejo manual. No lugar da homogeneidade de espécies, a explosão de biodiversidade das roças. No lugar do saber produtivo cristalizado em pacotes tecnológicos, o processo de apropriação criativa e construção coletiva de conhecimento. No lugar de um modelo produtivo dependente de insumos químicos, fertilizantes e combustíveis fósseis, um modelo que busca, pela otimização das relações entre elementos bióticos e abióticos, manter o solo vivo e enriquecido por meio da ciclagem natural de nutrientes e da matéria orgânica produzida pelo próprio sistema. Neste artigo abordaremos sobretudo duas rupturas em relação à agricultura convencional. Em primeiro lugar, ao trabalhar com a biodiversidade e com a complexificação das relações interespecíficas, os SAFs rompem com a homogeneidade de espécies e com a coordenação linear e unitária do tempo de produção característica da monocultura. Por serem agroecossistemas complexos, compostos por uma maior variedade de plantas, que crescem e frutificam em tempos distintos, as agroflorestas são, para usar a metáfora de Anna Tsing (2015), arranjos polifônicos e de múltiplos ritmos. A segunda ruptura é em relação a alienação do conhecimento produtivo. Enquanto na agronomia dominante a transmissão de conhecimento é feita por meio de pacotes tecnológicos, protocolos fechados que são vendidos aos agricultores, na agroecologia, o conhecimento e as novas técnicas são pensados como apropriação criativa e construção coletiva, na qual cooperam cientistas, técnicos e agricultores experimentadores. Contra a unidade homogeneizada dos conhecimentos vendidos como mercadoria na forma de pacotes tecnológicos, os saberes dos agrofloresteiros consistem em regimes de conhecimento de caráter aberto e múltiplo.
Palavras-chave: Agrofloresta; narrativas contra o progresso; técnica