ISBN nº 978-65-87289-08-3
Redes sociais da ABA:
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GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Palloma Valle Menezes (UFF - Universidade Federal Fluminense), Sonia Fleury Marcelo Fornazin Clara Polycarpo
O Dicionário de Favelas Marielle Franco e a descolonização do conhecimento
Historicamente, as favelas são consideradas pelos poderes públicos, setores da imprensa e camadas médias e altas da sociedade carioca a partir de definições a priori negativas. Tais definições ajudam a moldar políticas direcionadas a esses territórios e suas populações, tanto no caso da segurança pública quanto no acesso a serviços de infraestrutura, prestados de forma descontinuada e insuficiente. Contudo, um conjunto variado de atores coletivos, notadamente os moradores destas localidades, insistem em questionar tais formulações e os impactos negativos (e muitas vezes violentos) que elas produzem em seus cotidianos. Há um ano, alguns desses moradores de favelas, em uma iniciativa conjunta com acadêmicos, lançaram o Dicionário de Favelas Marielle Franco. A ideia da plataforma é reunir e ajudar a ecoar múltiplas falas de moradores, lideranças e intelectuais – tanto da favela como de fora dela. Ao reunir os conhecimentos produzidos por meio de uma plataforma Wiki própria, colaborativa e de construção coletiva, o Dicionário busca a difusão de outras narrativas acerca destes territórios e suas populações ao valorizar suas memórias e experiências, efetivando o direito à cidade como um direito de cidadania. O projeto parte da ideia de que o sujeito “favelado” – assim como o sujeito “subalterno” do qual fala Spivak (2014) – é irredutivelmente heterogêneo. Por isso, o Dicionário de Favelas se constrói a partir da colaboração de um grupo heterogêneo de pessoas e tem por objetivo incentivar uma ampla articulação do conhecimento (acadêmico ou não) produzido sobre as favelas, muitas vezes disperso ou hierarquizado. A ideia do projeto, desde seu início, foi fugir do perigo de se construir o “favelado” apenas como objeto de conhecimento por parte dos intelectuais que almejam meramente falar pelo outro. Com a licença de creative commons, se trata de uma tecnologia de ponta que inverte a lógica colonial pela qual a produção de conhecimentos se dá em circuitos inovadores centrais e depois é difundida para as periferias. A plataforma, com isso, inova como forma de decolonizar a produção e a circulação do saber em uma condição de horizontalidade que rompe as dicotomias de produção acadêmica/saber popular; autoria individual/produção coletiva; impessoalidade científica/experiência vivida. Neste work, especificamente, buscamos problematizar e refletir sobre como vêm se dando os encontros de saberes de acadêmicos, ativistas e moradores de favelas nessa plataforma digital que já conta com 405 verbetes e 285 pessoas registradas. Avaliaremos a experiência de produção desse conteúdo que vêm expandindo os sentidos dos artigos de modo a também registar filmes, músicas e poesias, além da tradição oral das memórias das favelas em uma construção coletiva e continua.
Palavras-chave: favela ; conhecimento ; wikipedia