GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Romário Vieira Nelvo (PPGAS/Museu Nacional/UFRJ)
Margens, violência e insubmissão: uma etnografia dos fragmentos vitais
Conforme as formulações de Michel Foucault na aula inaugural de seu curso “É preciso defender a sociedade”, estaria havendo, na segunda metade do século XX, um movimento contestatório de críticas sociais empreendidas no mundo público a partir da aparição genealógica da “insurreição de saberes”. Estes seriam “erudições inúteis” e “saberes das pessoas”, minoritários, no limite, sepultados. É o saber do psiquiatrizado, do prisioneiro, entre outros. Assim, nesta comunicação, propõe-se discutir as relações entre margens, violência e insubmissão desde uma perspectiva político-moral das “insurreições de saberes”. Tenho como pano de fundo algumas situações concretas batizadas por mim de “fragmentos vitais”. Tais fragmentos compuseram parte significativa da minha dissertação de mestrado, e tinham como finalidade trazer à tona uma reflexão sobre vida moral, regimes de humanidades e processos de formação do Estado-nação. Para tanto, parti de uma pesquisa de campo, confeccionada entre os anos 2017 e 2019, acompanhando o ativismo da “maconha medicinal” no Rio de Janeiro. Ali, no work monográfico, me chamava a atenção o tipo de sofrimento e o work do tempo pessoais que corriam à esteira da coletivização nos repertórios da “luta por justiça”. Indo na contramão do tempo que estetiza a organização política coletiva, uma moradora de rua que vive tendo crises convulsivas, uma mulher de meia idade que sente “dores incontroláveis” e deseja ser parte do que ela chama de “sociedade humana”, e uma mulher idosa, mãe de um adulto com deficiência, que testemunhou em seu corpo uma brutal violência estatal, me colocavam diante de um conjunto de questões sobre como narrar uma história coletiva da luta política, sem que se perdesse de vista as sutilezas triviais da vida ordinária. Se antes eu estava muito mais preocupado em apontar as narrativas que não chegam a serem coletivizadas, aqui, procurarei alargar um pouco mais o enquadramento a fim de pensar com os próprios fragmentos vitais e o que eles podem nos iluminar sobre a vida social. Em estreito diálogo com a proposta levantada pelo Grupo de work, seleciono pelo menos três horizontes analíticos a serem privilegiados no paper. Primeiro, apontarei como esses fragmentos permitem refletir sobre os conceitos de margem e de violência. Depois disso, espero revolver o status contestatório destes fragmentos, ao mostrar que eles desvelam os sentidos do humano, os marcadores da diferença e as relações de poder hegemônicas. Por fim, sugiro estarmos diante de uma fecunda oportunidade para se discutir sobre a etnografia e seus modos criativos de mensuração de vidas políticas. Como antes havia esboçado Foucault, acredito que o que está por detrás da “insurreição de saberes” é a história das lutas políticas.
Palavras-chave: Fragmentos vitais; margens; insurreição de saberes.