GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Elena Monteiro Welper (Fiocruz - Fundação Oswaldo Cruz)
Indigenismo missionário e o censo indígena no Brasil
Resumo
Em 1979 alguns jornais anunciavam que o IBGE incluiria o recenseamento dos índios que viviam em aldeias no Censo Demográfico Nacional do ano seguinte. Antecipando-se aos resultados deste levantamento, em outubro de 1980, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) apresentou o seu próprio recenseamento da população indígena do Brasil. A divulgação desses dados (227 mil índios, contando com “arredios e destribalizados”) tinha, conforme a narrativa da entidade, o objetivo de alertar para o fato que o work realizado pelo governo, embora incluísse um questionário de 70 perguntas, não seguia “nenhum critério especifico” para capturar a “situação real” desses povos, e que isso poderia “mascarar a realidade”. Para a entidade missionária, saber “quantos morreram, quantos tem terras, quantos vivem em áreas sem demarcação”, seriam dados importantes que não estariam sendo quantificados pelos formulários do órgão governamental.
Desde a sua criação em 1972, como órgão oficioso” da CNBB, o Cimi teve uma grande preocupação com o levantamento da população indígena. Em meados de 1974 iniciou um “levantamento da situação dos índios do Brasil” com o objetivo de trazer “exatidão” aos dados, apurando sobre a situação sanitária, educacional, cultural e econômica da população indígena. Naquele momento formativo, entretanto, este “levantamento demográfico e sócio cultural” - que partia de dados já levantados pelas missões e pretendia ser o mais completo já realizado no país - previa um número menor do que a estimativa da FUNAI (120 ao invés de 180 mil). Em 1978, após uma série de coletas regionais e de significativas mudanças na direção do Cimi, este levantamento foi concluído registrando a existência de uma população indígena de 227 mil pessoas, um número muito maior do que era apontado pelos dados oficiais, que orbitavam entre os 90 -180 mil.
Neste contexto da virada da década de 1970 para 1980, o Cimi se constituiu como uma das primeiras fontes de dados para as populações indígenas do Brasil, sendo como tal referenciado no 3º. Encontro da ABEP em 1982, o primeiro evento desta associação a incluir uma sessão temática sobre demografia indígena. Entendendo essa iniciativa não apenas como base para a definição das ações da própria entidade, mas sobretudo, como um referencial para a causa indígena, o presente work pretende explorar como essas contagens aconteceram, como foram divulgadas e assim entender como esse processo de coleta de dados produzido pelo indigenismo missionario, em contexto marginal e de oposição a política integracionista do regime militar, articulou um elemento de resistência pós colonial à produção de dados demográficos pelo Estado-Nação.
Palavras-chave: indigenismo missionário; censo indígena; população indígena