GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Marina Bohnenberger (USP - Universidade de São Paulo)
Feminismo e antropoceno: novos olhares sobre saberes, política e natureza
A pesquisa teórica que ora levo a cabo pretende adentrar as temáticas do que pode ser chamado “feminismo do antropoceno”. O que inspira essa denominação é a publicação da coletânea Anthropocene Feminism, em 2015, reunindo textos de autoras como a antropóloga Elizabeth Povinelli e a filósofa Rosi Braidotti. A proposta, apresentada na abertura do livro, é empreender uma visão feminista para abordar os problemas do que vem sendo chamado antropoceno, a nova era que tem o humano como força geológica. Por um lado, as teorias de gênero, especialmente sob o olhar antropológico, têm feito importantes contribuições à investigação de paradigmas modernos e à questão da diferença, centrais no debate sobre as crises ambientais. Seguimos Marilyn Strathern, para quem a antropologia tem comunhão com uma “parte do empreendimento feminista, a saber, a minuciosa pesquisa acerca dos construtos ocidentais” (STRATHERN, 2009, pp. 86-87). Analogamente, problemáticas ecológicas do antropoceno lançam nova luz e fazem novas exigências à maneira como lidamos com os saberes, debate que oferece espaço profícuo às indagações feitas pela antropologia da ciência e o interesse por questões epistemológicas e ontológicas que tem povoado a antropologia. Mas como se faz o vínculo entre algumas questões feministas e outras latentes do antropoceno, e para onde ele nos leva? O que se apresenta é mesmo uma provocação instigante, crítica e atenta aos “paradigmas ocidentais” - dentre eles, a noção de uma natureza impactada e devastada pela ação humana, em paralelo com as relações de poder e subjugação com as quais os feminismos dialogam. Para isso, vamos navegar por breves leituras de Isabelle Stengers e um olhar renovado sobre “a Ciência” e sobre política; Anna Tsing, com uma análise sobre relações multiespécies no mundo do capitalismo em ruínas, e Donna Haraway, a partir da sua já clássica noção de saberes localizados e mais atuais discussões sobre as relações entre a modernidade e as crises ambientais e científicas. Marisol de la Cadena, antropóloga peruana vivendo nos Estados Unidos, traz a discussão sobre multimundos e pluriverso, contribuindo para pensar questões como a da diferença em políticas ontológicas. São muitas as aberturas que o feminismo do antropoceno possibilita. Através destas autoras, tento traçar um caminho entre questões que permeiam práticas de saberes, política e natureza.
Palavras-chave: antropoceno; feminismo; epistemologia