GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Yuri José de Paula Motta (UFF - Universidade Federal Fluminense)
Do 'smoke report' ao laboratório farmacêutico: reflexões sobre os métodos de avaliação e agenciamento do consumo de cannabis no Brasil
O paradigma “médico-jurídico” é o saber que informa as normatividades e legislações relacionadas às drogas no Brasil e no mundo. Em pesquisas anteriores, busquei refletir através da interlocução com membros de uma associação canábica, localizada na cidade do Rio de Janeiro, sobre a diferença entre o consumo maconha social/recreativo e o terapêutico/medicinal, construindo dados socioantropológicos que demonstram a fragilidade de tal paradigma ao estabelecer um controle sobre a maconha no Brasil. Esta fragilidade pode ser percebida justamente através das fronteiras legais e ilegais que classificam a cannabis, podendo ser hora “remédio”, hora “droga”. Durante o work de campo estabeleci diálogo com pacientes e usuários que cultivam cannabis para diversos fins. Dessa maneira, tive a oportunidade de observar múltiplos ambientes, moralidades, finalidades, efeitos e substâncias que se movem em um circuito de atores que compartilham saberes, técnicas e conhecimentos práticos em torno da maconha, seja para fins terapêuticos, ou não. Focado nos saberes empíricos e práticos dos consumidores, acabei por deixar de lado conhecimentos científicos que estão presentes no cotidiano dos atores entrevistados, portanto, meu objetivo neste work é construir dados através da realização de entrevistas com pesquisadores, farmacêuticos e cientistas que trabalham com a cannabis Rio de Janeiro. A qualidade final da flor da cannabis, consumida para ambos tipos de uso (social ou terapêutico), é sobretudo um sistema classificatório que varia de acordo com a forma de como a planta foi cultivada, colhida e armazenada. Tal qualidade pode ser definida tanto a partir de conhecimentos práticos que implicam o consumo e o cultivo, quanto a partir do conhecimento científico onde são realizadas experimentações laboratoriais. Meu objetivo é compreender os métodos de avaliação e medição dos efeitos psicoativos presentes na planta Cannabis Sativa L, adotados por consumidores e pesquisadores. Portanto, viso a observar, descrever e comparar as práticas de ambos tipos e consumidores e além disso, as práticas de pesquisadores e farmacêuticos que utilizam de procedimentos científicos para classificar as cepas, informando a legitimidade e eficácia do consumo para tratamentos terapêuticos. Qual a relação entre a experimentação cientifica e a experimentação prática, e consequentemente, qual a importância da pesquisa acadêmica para o cotidiano das pessoas que utilizam a substância? Minha proposta é entrevistar e estabelecer interlocução com pacientes, usuários, e principalmente, pesquisadores, farmacêuticos e cientistas, a fim de compreender a construção dos sistemas classificatórios, como estas classificações influenciam no consumo e como os atores justificam as suas práticas.
Palavras-chave: Cannabis; Consumo; Ciência