GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Luis Felipe Costa e Silva (UFAM - Universidade Federal do Amazonas)
Colaboração nas entrelinhas: do guia nativo ao mateiro - A importância dos conhecimentos tradicionais para a pesquisa científica na Amazônia
A produção de ciência com a colaboração do conhecimento nativo vem ocorrendo há séculos, de maneira discreta, porém constante, datando, em território amazônico, desde as primeiras expedições de que se tem registro. Esta presença ativa pode ser identificada, muitas vezes apenas nas entrelinhas, em diversos relatos dos diários de viajantes e cientistas que há séculos esquadrinham as florestas da Amazônia. As contribuições das culturas nativas de regiões distantes da Europa para o conhecimento científico adquirido ou construído, quase sempre têm sido desconsideradas pelos historiadores da ciência. A atenção destes é majoritariamente dirigida para as observações e teorias dos cientistas e acadêmicos, para suas formações, métodos de work e influências políticas e econômicas. Com frequência, as populações locais são descritas como iletradas e ignorantes, mas delas dependia, em boa medida, o êxito das expedições cientificas.
Neste work, estas interações colaborativas, registradas nas entrelinhas e rodapés dos diversos relatos de viajantes e cientistas que se aventuraram pela região, são trazidas à análise e contextualização de acordo com os principais eventos históricos que vieram a constituir o “fazer ciência” na região amazônica. Três diferentes momentos fundamentais são assim distinguidos: 1) Antes mesmo das primeiras expedições científicas de fato, já se fazia notável a participação do brasileiro nativo, quase sempre índio ou mestiço, no processo de “desbravamento” da região Amazônica que permanecera, até então, virtualmente intocada pelo contato com os povos europeus, através dos relatos escritos por missionários, agentes religiosos que integravam as expedições que exploraram a região durante o século XXVII; 2) Mais tarde, o século XIX traz para a região diversas expedições de cunho cientifico, cujo intuito consistia na exploração e investigação dos recursos encontrados, abrangendo sua flora, fauna, população e ambiente físico. Motivados pelos avanços científicos da época, incluindo o surgimento das primeiras instituições de ensino e pesquisa no Brasil, diversos estudiosos, denominados “naturalistas”, empreenderam suas viagens floresta adentro, contando com a colaboração da população nativa para que seu êxito fosse alcançado; 3) Em um terceiro momento, a partir da mudança de cenário sofrida pela região a partir do século XX, onde, no contexto da pesquisa científica realizada pelas diversas instituições então atuantes, destaca-se o fortalecimento e surgimento formal do agente social conhecido como “mateiro”, integrante fundamental das equipes de pesquisa, que, a partir de então, constitui sua profissão e papel social a partir dos conhecimentos empíricos adquiridos através de sua experiência prática vivida junto ao ambiente natural.
Palavras-chave: Conhecimentos tradicionais; Mateiros; Ciência na Amazônia