ISBN nº 978-65-87289-08-3
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GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Daniela Tonelli Manica (Unicamp), Regina Coeli dos Santos Goldenberg
Células do sangue menstrual e memória epigenética: o bioengenho de conversas e transformações possíveis
As numerosas e prolongadas controvérsias bioéticas sobre o uso de células embrionárias para pesquisa científica e terapias biomédicas levaram ao desenvolvimento de uma frente de pesquisas com células-tronco adultas do corpo, dentre elas as células mesenquimais. Partindo de uma pesquisa etnográfica conduzida no Laboratório de Cardiologia Celular e Molecular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ, temos trabalhado de uma perspectiva simpoiética (Haraway, 2016) com as CeSaM, células mesenquimais do sangue menstrual. Nesse paper, pretendemos desenvolver uma discussão sobre as temáticas da plasticidade celular e da memória epigenética dessas células. Diferentemente da pluripotência presente nas células embrionárias, e a despeito das técnicas consolidadas que induzem uma pluripotência às células adultas (iPS) - permitindo que elas se diferenciem em células de tecidos diferentes dos originários -, as células mesenquimais parecem resguardar características prévias, parecem de certa forma guardar uma “memória” da sua história vital, que tem a ver com os tecidos de origem. Isso pode ter consequências para as aplicações científicas e terapêuticas possíveis, mas parece estar sendo algo pouco elaborado, ou até negligenciado, pelas pesquisas na área, que apostam no modelo da pluripotência e da transformação celular modelada apenas pelos fatores moduladores já testados e descritos na literatura científica, desconsiderando sua história e sua memória. Propomos uma revisão bibliográfica pluridisciplinar num esforço de diálogo e reflexão sobre esse tema da memória epigenética e das possibilidades de transformação das células em laboratório, que exigem dinâmicas comunicativas específicas (“conversas” entre células e órgãos). Desenvolveremos essa discussão a partir das experiências de transformação das células do sangue menstrual, tal como desempenhadas no laboratório: sua capacidade de resistência às condições vitais do laboratório, descritas e caracterizadas pelas pesquisadoras da UFRJ, seu bom desempenho como meio de co-cultivo de embriões, e suas transformações em células cardíacas (cardiomiócitos) e do fígado (hepatócitos).
Palavras-chave: antropologia da ciência; sangue menstrual; memória epigenética