GT 78. Saberes, ciências e tecnologias insubmissas: o conhecimento que se produz nas margens
Apresentação Oral
Milena da Silva Magalhães (UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Rogério Lopes Azize Rosana Maria Nascimento Castro Silva
"Renalcast – falando sobre vida renal": um estudo etnográfico sobre sociabilidade, identidade e divulgação científica na era do podcast
O work aqui proposto analisa dinâmicas contemporâneas em torno da vivência com a doença renal crônica a partir de um formato peculiar e de particular sucesso no momento, o podcast. Trata-se de um material multimídia (que se multiplica em plataformas como instagram, youtube, spotify, deezer e facebook) no formato de podcast, que têm no relato dos adoecidos renais e especialistas do campo seu eixo norteador, chamado “Renalcast”. Os episódios são criados, produzidos e apresentados por duas pessoas com doença renal, funcionando como um espaço de biossocialidade (Rabinow, 2002), com trocas de experiência e construção de um sentido de pertencimento à categoria dos “renais”. Os interlocutores se aproximam pelo compartilhamento de um status orgânico, de disfuncionalidade de um órgão, próximo ao que Nikolas Rose (2013) identifica como uma identidade somática. Ao mesmo tempo, a narrativa se espalha por uma “vida renal”, que vai além de um órgão e sua disfuncionalidade. Os apresentadores narram suas histórias de vida atravessadas pela experiência do adoecimento crônico, em um movimento pendular que ora opera em um registro de humor e jocosidade, ora lança mão de discursos formais e institucionalizados de suas respectivas profissões – advogado e nutricionista – para trazer informações e aconselhamentos na posição de especialistas, apresentando dessa forma, um discurso de caráter híbrido. O programa é dedicado ao público dos “renais”, familiares, cuidadores e interessados no conteúdo, com episódios disponibilizados semanalmente em diferentes plataformas de mídias sociais. No cruzamento entre antropologia e saúde coletiva, o que se apresenta aqui é uma análise dos sentidos atribuídos a esta “vida renal”, reconhecendo e discutindo ainda as interessantes possibilidades de uso do podcast, em termos de forma narrativa e conteúdo. A partir deste “primeiro podcast 100% renal!”, queremos discutir as condições de análise e escrita etnográfica que este formato enseja, através de narrativas, identidades, formas de expertise e mídias sociais, todas envolvidas numa espécie de tempo-espaço virtual em que passado e presente, humano e não humano coexistem e interagem.
Palavras-chave: Antropologia da saúde; doença renal crônica; podcast