ISBN nº 978-65-87289-08-3
Redes sociais da ABA:
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GT 81. Dimensões políticas da Antropologia do Esporte: legados dos estudos de Simoni Lahud Guedes
Apresentação Oral
Caio Cesar Cerpa Madeira (secretaria municipal de educação do Rio de Janeiro), Wecisley Ribeiro do Espírito Santo
SOBRE A METONÍMIA DA METONÍMIA: implicações da Antropologia do esporte de Simoni Lahud Guedes para o debate sobre relação estrutura e evento
O derradeiro artigo publicado por Simoni Lahud Guedes constitui um genuíno grand finale para sua prodigiosa obra. Ao oferecer um aporte iluminado para a compreensão do quase ilegível cenário político brasileiro hodierno, a antropóloga ratifica a vocação pública de seu work. A descrição que ali se encontra de um “segundo sequestro” das cores verde e amarela – associadas de modo mais enfático à camisa da seleção brasileira de futebol que propriamente à bandeira nacional – remonta à categoria interpretativa das mais potentes, elaboradas por Simoni: qual seja, a função metonímica do selecionado futebolista em sua relação com o povo brasileiro. O “primeiro sequestro” teria sido perpetrado por ocasião da ditadura civil-militar instalada no país em 1964, quando o “football mulato” descrito por Gilberto Freyre seria espetacularizado para servir de cortina de fumaça à usurpação da democracia. O símbolo verde e amarelo sofre hoje novo rapto, pela mesma elite escravista; eis a chave interpretativa de Simoni. Quebra-se com isso a metonímia seleção brasileira = “povo”, na medida em que a camisa da equipe futebolística é apropriada por um segmento específico que visa, antes de tudo, se distinguir do segundo termo da equação. O presente artigo visa debater esta descrição histórica elaborada pela pioneira antropóloga do futebol a partir de seu caráter estrutural. Argumenta-se que a função metonímica do futebol brasileiro, em particular, é ela mesma uma metonímia do fenômeno esportivo, em geral. Apresenta-se para isso, material empírico registrado por meio de work de campo etnográfico, sobre o pano de fundo mais geral dos estudos antropológicos do esporte. O objetivo é demonstrar, de um lado, que a segmentaridade da organização esportiva constitui um caso particular da natureza segmentar da vida social e, de outro, que precisamente por isso, a política é tanto mais homóloga ao esporte quanto mais enfáticas as emoções em jogo nos conflitos sociais. Lévi-Strauss diz acerca de Mauss que este teria estacionado diante das imensas possibilidades de sua obra, como Moisés teria conduzido o povo hebreu à terra prometida sem, contudo, contemplar seu esplendor. O fechamento da obra de Simoni sugere que ela foi capaz de olhar longe, tendo vislumbrado a centralidade da metonímia esportiva para o estudo de um país que, como se sabe, “não é para principiantes”. Ao fazer da Antropologia do esporte um capítulo indispensável da Antropologia da política, Simoni Lahud Guedes assemelha-se antes a Josué que a Moisés. Ela não apenas adentrou a terra prometida das implicações de sua obra como pode, ainda por muitos anos, nos ensinar formas múltiplas de ocupá-la.
Palavras-chave: Futebol; Política; Segmentaridade.