GT 81. Dimensões políticas da Antropologia do Esporte: legados dos estudos de Simoni Lahud Guedes
Apresentação Oral
Rosana da Câmara Teixeira (UFF - Universidade Federal Fluminense)
O associativismo torcedor em perspectiva: balanços de uma década de mobilizações e hipóteses de sobrevivência em tempos de tormenta
O associativismo torcedor no Brasil passou por importantes e profundas mutações no período compreendido entre 2000 e 2020. Contrariando as interpretações disseminadas nos meios de comunicação que afirmavam o caráter belicoso e intolerante que pautava o relacionamento entre as torcidas organizadas como um dos fatores de uma possível desagregação em um futuro próximo, observou-se a eclosão de uma nova face do fenômeno. A criação da Associação Nacional das Torcidas Organizadas (ANATORG) em 2014 representa de modo emblemático o processo de mobilização deflagrado pela realização dos megaeventos no país (Copa do Mundo 2014 e Jogos Olímpicos 2016), pelas medidas repressivas adotadas do poder público para o controle da violência e pelo surgimento de novos estilos de torcer. A constituição desta entidade foi fruto de negociações, diálogos e disputas envolvendo lideranças das associações em todo o país estimuladas, sobretudo, pelos seminários de prevenção da violência promovidos pelo Ministério do Esporte durante o governo da ex-presidente Dilma Rousseff. Tais seminários favoreceram a organização de um movimento coletivo para lutar por direitos em um universo social historicamente marcado por hostilidades recíprocas e ciclos de vingança orientados por padrões de masculinidade em que a categoria nativa “briga”, central na sociabilidade destes grupos foi colocada em xeque. Em busca do reconhecimento social na arena pública, e nas interações sociais entre as torcidas, a ANATORG lançou mão de dispositivos simbólicos, institucionais e pedagógicos. Esta comunicação pretende fazer um balanço desse processo à luz do princípio da dádiva do antropólogo Marcel Mauss e da noção de arena pública proposta por Daniel Cefai. Pretende-se por fim, avaliar o impacto da atual conjuntura política, marcada pelo desmonte das políticas públicas desenvolvidas até então. A redução do Ministério do Esporte a uma pasta no interior do Ministério da Cidadania, e a ampliação das penas com o projeto de lei n.13.912/19 sancionado pelo presidente da república Jair Bolsonaro destruíram os canais de comunicação entre torcidas organizadas e autoridades governamentais. Entregues à própria sorte, as agremiações torcedoras vivenciam o acirramento dos episódios violentos, e disputas no interior das mesmas voltam a se intensificar. Contudo, em meio a este cenário de tormenta, marcado pelo cerceamento da liberdade de expressão e pelo enfraquecimento da entidade nacional, que hipóteses de sobrevivência as torcidas organizadas têm formulado? Esta apresentação tem como fundamentos metodológicos a observação participante, o acompanhamento e o registro das ações coletivas torcedoras de modo sistemático ao longo dos últimos dez anos.
Palavras-chave: "associativismo torcedor"; "políticas públicas";"violência";