ISBN nº 978-65-87289-08-3
Redes sociais da ABA:
Banner_32RBA
GT 02. Amazônia e Nordeste indígenas: por uma etnologia transversa
Apresentação Oral
Nathalie Genevieve Anna Le Bouler Santos (ANAÍ)
Uma gestão escolar compartilhada entre humanos e encantados no Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro (CEITSP).
Pretendo nesta apresentação evidenciar o papel dos encantados – principais entidades da cosmologia tupinambá - como “agentes educativos” na educação indígena tupinambá de forma geral, mas também na educação escolar indígena, no âmbito do Colégio Estadual Indígena Tupinambá Serra do Padeiro (CEITSP), localizado na aldeia Serra do Padeiro, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença. Apontarei, assim, para o fato de que a transmissão de saberes na Serra do Padeiro, tanto aquela de caráter informal quanto aquela sistematizada no âmbito da educação escolar indígena, é indissociável das ações dos encantados. Definir quem são os encantados não é fácil para os Tupinambá – enquanto sujeitos que praticam sua religiosidade e se relacionam cotidianamente com eles –, logo, também não o é para nós pesquisadores. Contudo, podemos tentar entender melhor de que maneira atuam em determinada situação. As pesquisas desenvolvidas entre os Tupinambá já evidenciaram a agencialidade desses seres enquanto atores políticos, principalmente no campo do reconhecimento étnico e na luta pelo território. Há também uma rica literatura etnográfica – inclusive no Nordeste – que analisa o papel da esfera espiritual dos povos indígenas no movimento indígena, com base no toré (Carvalho, 1994; Nascimento, 1994; Grunewald, 2005; Andrade, 2008). Foi também examinado o papel político do toré que, ao ser realizado entre os indígenas do Nordeste, contribui para o fortalecimento da identidade de cada um desses povos (Oliveira, 1999). Assim, o toré (também chamado porancim, awê, praiá, Ouricuri) unifica ao mesmo tempo que distingue os povos indígenas na luta, cada um utilizando pinturas, trajes, cantos específicos. Em outros contextos etnográficos, também se analisou a atuação de entidades não humanas em situações de reconhecimento étnico e direito territorial, tais como os works de Surallés (2017) desenvolvidos entre os povos Candoshi e Shiwilu, na Amazônia peruana. Em uma sessão dos “Seminários Perspectivas Comparativas sobre os Direitos dos Povos Indígenas”, coordenados por Bellier e Ricaud, em novembro de 2018, na EHESS, na França, Glicéria e Jéssica Tupinambá e eu mesma tivemos a oportunidade de refletir com o antropólogo Surallés sobre a temática “direitos dos povos indígenas: até uma extensão dos direitos humanos para os não-humanos?” Considerando os works desenvolvidos tanto no Nordeste brasileiro quanto na Amazônia, evidenciarei como a gestão escolar do CEITSP é compartilhada com os encantados, uma vez que “trabalham”, de várias formas, no/para o Colégio e de que forma além desta particularidade, o CEITSP atende também estudantes não indígenas. Chamarei então a atenção para as relações interétnicas entre Tupinambá e não indígenas bem como entre humanos e encantados neste contexto.
Palavras-chave: Tupinambá; Encantados; Educação