ISBN nº 978-65-87289-08-3
Redes sociais da ABA:
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GT 02. Amazônia e Nordeste indígenas: por uma etnologia transversa
Apresentação Oral
Ellen Fernanda Natalino Araujo (PPGAS MN)
Os Fulni-ô no nordeste e seus princípios sociocosmológicos
A comunicação que pretendo apresentar neste GT resulta do work de campo intensivo que realizo atualmente junto ao grupo indígena Fulni-ô, o qual habita a região da Serra do Comunaty, entre o Agreste meridional e o sertão sub-médio Rio São Francisco, PE, em uma terra indígena localizada na circunscrição do município de Águas Belas. Junto ao português, também são falantes de uma língua própria, o yathê. A literatura etnológica vem estudando os povos indígenas situados na região nordeste do Brasil a partir de uma abordagem histórica (Oliveira, 1999) que busca descrever os processos sociais desencadeados a partir do ‘contato’ com a sociedade ocidental. As análises centram-se, em geral, nas distintas estratégias políticas que tais grupos empreendem de modo a construir suas identidades étnicas (em uma dinâmica referida como etnogênese) e obter direitos territoriais e específicos diante do estado brasileiro. Sem desconsiderar a importância que tais works possuem na economia da disciplina antropológica e, principalmente, para as lutas reivindicatórias dos povos da região nordeste, a pesquisa aqui proposta se afasta dessa abordagem da ‘antropologia histórica’ “que pressupõe que os modos de vida dos povos que experimentam durante largo tempo os efeitos do capitalismo terão que ser compreendidos em resultado desses processos históricos de colonização política e econômica” (VIEGAS, 2007, p.61) para ir na direção de outra que busca compreender “o que esses povos fizeram da história” (VIVEIROS DE CASTRO, 1999, p.165). Isto é dizer que interessa a esse work compreender a vida social contemporânea dos Fulni-ô em suas múltiplas relações internas e externas, levando em conta eventos e transformações considerados importantes da perspectiva deles. Na esteira de Gow (1991), pretende-se aqui “lida[r] com a história de dentro da cultura dos povos nativos”. Minha experiência em campo (quase seis meses) tende a confirmar o que se diz sobre a interdição aos não-indígenas do conhecimento das particularidades de seus rituais sagrados, da cosmologia de seus mundos, etc. a questão do segredo, se é um limite para a pesquisa junto aos Fulni-ô certamente não é o no sentido geográfico daquilo que encerra e os separa do outro, impedindo qualquer ato comunicativo, mas sim no sentido matemático, o segredo, pregnante que é àquela vida, funcionaria então como uma espécie de vetor que aponta para as dimensões que importa àquela vida. Seguindo por essa linha, que pode contribuir para romper o isolamento da região etnográfica do Nordeste, no âmbito da etnologia brasileira, este projeto visa compor uma etnografia abrindo-se à possibilidade e ao desafio de descrever os princípios sociocosmológicos que constituem os Fulni-ô enquanto uma coletividade específica.
Palavras-chave: Fulni-ô; sociocosmologia, alteridade