GT 02. Amazônia e Nordeste indígenas: por uma etnologia transversa
Apresentação Oral
José Moisés de Oliveira Silva (SEDUC-PA), Katiane Silva
Entre Caboclos de pena e os encantos do meio-dia: notas sobre territórios cosmológicos entre indígenas Kalankó no Alto Sertão alagoano e os Munduruku no Planalto Santareno, Baixo Amazonas, Pará.
Diante de uma caminhada de works de campo no Nordeste Semiárido, especificamente entre os grupos rama de Pankararu no Alto Sertão de Alagoas, como é o caso dos Kalankó, e o campo amazônico, junto aos Munduruku no Planalto Santareno, na região do Baixo Amazonas, propomos o presente diálogo. Desde a Caatinga Nordestina à Floresta Amazônica, encontramos estes grupos que possuem fortes vínculos com seus biomas, vínculos existenciais, com terminologias cosmológicas de fundamentação etnobotânicas. Estes territórios do ser e saber, operam as forças que impactam a realidade concreta, desde o território do Juremá, aos encantos de rios e florestas, compõem o complexo cosmológico onde habitam os encantados inerentes a determinados cultos de origem indígena e afrodescendente, entre eles o “tronco” e a “rama” Pankararu. Neste sentido, a ressignificação do termo caboclo, categoria classificatória polifônica, que pode ser observada como a representação do “homem simples” no sertão Nordestino e do “homem simples” nos seringais do Norte, também passou por um processo de ressignificação pelos grupos indígenas e tradicionais. Durante determinado momento histórico tratou-se de uma categoria conceitual imposta, foi traduzido e passou a ser utilizado por alguns dos sujeitos, assim categorizados, de modo a interligar variados processos históricos e cosmológicos, que vão da identidade nacional às identidades étnicas que legitimam os territórios geográficos, por seus usos e costumes. Esses contextos apontam para uma semelhança de elementos históricos, rituais, sonoros e rítmicos, como, por exemplo, dos Kalankó, a prática de consultar os encantados antes de tomar uma decisão política, e no ato de pedir permissão para entrada na floresta com a finalidade da caça, entre os Munduruku do Planalto. Compreendemos a produção da identidade e a cultura para além da categoria índio de cunho jurídico homogeneizante, assim como o caboclo é entendido enquanto recorte que assemelha, une, mas, não define nem limita a pluralidade étnica. De modo que, entre os Kalankó e os Munduruku as encantarias se manifestam na forma de conhecimento sobre os elementos da natureza, traduzidos em letras de toré e mitos fundantes, aqui representados pelos caboclos de pena e os encantos do meio dia.
Palavras-chave: territórios cosmológicos; Amazônia; Semiárido Nordestino