GT 02. Amazônia e Nordeste indígenas: por uma etnologia transversa
Apresentação Oral
Ana Letícia de Fiori (UFAC - Universidade Federal do Acre), Leandro Marques Durazzo
Cosmopolíticas interculturais: dispositivos indígenas de tradução e conhecimento do Baixo Amazonas ao Submédio São Francisco
Investigações americanistas recentes têm investigado diferentes modos de produção e circulação de conhecimentos a partir das quais formas de coletivização, alteridade, trocas e conflitos são desenvolvidas em diferentes esferas intra e interétnicas, bem como cosmopolíticas. O presente artigo propõe conexões parciais entre os modos Sateré-Mawé, povo do tronco Tupi habitante do Baixo Amazonas, de manejo dos dispositivos de interculturalidade na produção de utopias políticas e educacionais guiadas pelo complexo do Guaraná no contexto da formação no Ensino Superior e os modos Tuxá, do Submédio São Francisco (BA), de, por meio do “complexo ritual da ciência”, articular a autodemarcação de suas terras, projetos de revitalização linguística e o estabelecimento de redes cosmopolíticas heterogêneas. Baseando-nos em etnografias desenvolvidas respectivamente para o doutoramento na Universidade de São Paulo e Universidade Federal do Rio Grande do Norte, evidenciamos como projetos políticos e educacionais dos coletivos indígenas, conquanto enredam-se pelas constrições das estabilizações jurídico-estatais da sociedade nacional que enquadram enunciados por direitos, acionam também agências múltiplas de diferentes regimes ontológicos, que desestabilizam categorias e promovem encontros os mais diversos. Assim, se a busca Sateré-Mawé pelo acesso à universidade potencializa e energiza redes e práticas políticas que se desenrolam há séculos e atualizam os atributos da chefia e ao mesmo tempo modos de relação com os brancos, mediados pelo professor waranã-sese (o guaraná verdadeiro em oposição ao waranã-rana) e prefigurados nas dicotomias inscritas no puratig (o remo mágico que encontra-se em analogias com a Bíblia, as cartilhas escolares e a Constituição Federal); os projetos linguísticos e político-pedagógicos dos Tuxá instauram uma dimensão de estudo ao conhecimento da ciência, na qual as relações - marcadas pela cautela - com eles (os encantados) é determinante para o acesso à língua e ao complexo ritual, por meio do qual se compreende a força da terra. Em ambos os contextos etnográficos, elementos festivos e rituais - a Dança da Tucandeira, o Toré - delineiam enquadramentos interétnicos ao serem performados em diferentes contextos com intensidades distintas, mas também delimitam saberes restritos, esotéricos, para os quais outras concepções de tradução e compreensão se fazem necessárias.
Palavras-chave: Interculturalidade; Sateré-Mawé; Tuxá