GT 02. Amazônia e Nordeste indígenas: por uma etnologia transversa
Apresentação Oral
João Roberto Bort Júnior (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo)
A "alegria" dos Xucuru-Kariri de Caldas de dançar, brincar e jogar com parentes e brancos
O work tratará sobre os Xucuru-Kariri do município de Caldas-MG. Compõem, com exceção dos bem jovens, um grupo de pessoas vindas das aldeias de Palmeira dos Índios-AL e de Nova Glória-BA. O problema ao qual nos dedicaremos refere-se à socialidade e à política xucuru-kariri que, nos últimos anos, pesquisamos nessa área indígena no Sul mineiro.
Demonstraremos que a "alegria" nos jogos de futebol e nas apresentações de toré xucuru-kariri de Caldas, eventos na cidade ou na aldeia que envolvem brancos, é a mesma emoção que os indígenas expectam quando, entre si, realizam suas festas na mata e relacionam-se na parte do território que habitam cotidianamente. Isto é, esse sentimento e o "respeito" são os ideais da socialidade humana. Embora isso, as relações inversas que essas ocasiões sociais pressupõem são inevitáveis, a saber, há sempre brigas que instauram uma situação de "guerra" entre parentes ou com os não indígenas. Se formos bem-sucedidos na descrição desses eventos, então poderemos confirmar que, também em nosso contexto de pesquisa, a festa é mesmo a face complementar da guerra. A vida ameríndia acontece entre festa e guerra (PERRONE-MOISÉS, B.. "Festa e guerra", USP, 2015).
Os efeitos de relação em cada uma dessas circunstâncias festivas são, embora isso, diferentes para os Xucuru-Kariri de Caldas. Os aliados conquistados em apresentações e jogos são geralmente ditos amigos – ainda que fora observado um filho e irmão –, aos quais normalmente o cacique dirige o termo que qualifica os próprios indígenas, i.e., cumprimenta-os dizendo meu guerreiro. No que se refere ao ouricuri, pessoas genealogicamente distantes ou não relacionadas genealogicamente são reclassificadas por terminologia da consanguinidade; avó (neta) e avô (neto) são os termos usados. Enfim, a proposta é pensar dimensões estruturais de festas salientando quais são os distintos nexos sociológicos produzidos. Desse modo, avançaremos no ensaio analítico pelo qual focalizamos as variações corporais em função das diferentes capacidades perceptuais dos participantes (índios e não índios) dessas ocasiões (BORT JR, J. R.. "O corpo dos Xucuru-Kariri e de seus ancestrais no mato, na aldeia e na cidade". 3º CIPIAL, 2019).
A socialidade e a política xucuru-kariri de Caldas não é, no entanto, estritamente um fenômeno terreno e humano. Acontece mediante ação de seres não humanos no ar. Ao que parece, a aliança política e a aproximação sociológica, respectivamente, com gente da exterioridade (categorizada rua ou cidade) e de gente da interioridade (definida aldeia) processam-se com participações de seres que os Xucuru-Kariri consideram inomináveis aos Outros. A dificuldade tem sido a evidenciação de como agem esses entes, o que não significa que inexistam indícios que permitam alguma descrição.
Palavras-chave: Socialidade; Política; Festa