Redes sociais da ABA:
GT 005. Agências materiais e espirituais no cotidiano: experiências e narrativas de coexistência
Apresentação Oral em GT
Eliane Miranda Costa
Narrativas antropológicas sobre materialidade e espiritualidade na Amazônia marajoara
O texto tem por finalidade fazer uma discussão sobre materialidade e espiritualidade na Amazônia marajoara. Neste exercício tem-se por base um artefato chamado de Cruz Milagrosa, que se encontra localizado às margens direita do rio braço do socó, afluente do rio Mapuá, município de Breves, arquipélago de Marajó, Estado do Pará. É um objeto que integra o conjunto de materialidade dos moradores desse lugar e desempenha papel significativo na construção cultural e identitária desses agentes. Trata-se de um artefato que faz milagres de toda ordem. Homens e mulheres da localidade, bem como de outros lugares procuram pela cruz para cuidar do corpo e da alma e em troca da benção atendida, costuma-se oferecer oferendas em forma de fitas, velas, fogos, roupas e orações. O objetivo desse empreendimento é refletir com base neste artefato e sua dinâmica cosmológica sobre a reinvenção de práticas materiais, religiosas e sociais, e nesse movimento verificar o poder das tradições e crenças recriadas pelos coletivos do Mapuá. Na trilha da História Oral, as narrativas coletadas por meio de entrevistas semiestruturadas, me colocaram em conexão direta com as memórias resultantes de lembranças influenciadas e configuradas pelas condições materiais e simbólicas no momento das entrevistas, incluindo a relação entre a pesquisadora e os interlocutores. As reflexões em diálogo com teóricos do campo da história, da antropologia e da arqueologia, sobretudo, da vertente pós-processual, permitiram inferir ser a Cruz Milagrosa, instrumento que não está circunscrito ao plano religioso. Mas envolve escolhas e atitudes quanto ao cuidado com o corpo e a alma, desencadeado em um processo em que natural e sobrenatural apresentam-se entrelaçados. Em uma relação dialógica e dialética demonstra-se que a Cruz Milagrosa é um poderoso artefato que exercer naquele contexto o papel de agência material e espiritual e isso reflete nas práticas e saberes ressignificados a cada geração. Nas curvas e margens dos rios, materialidade e espiritualidade ganham sintonias e sentidos diversos, assim como diferentes tradições são reinventadas na dinâmica das cosmogonias e cosmologias locais. Destaco nesse movimento, a capacidade e criatividade humana evidenciada no ato de permanecer, abandonar, como também de recriar tradições, práticas e o próprio território, atribuindo-lhes diferente usos, apropriações e significados. Uma lógica que corrobora para questionar leituras lineares sobre o tempo, a história, o lugar, e assim, romper com a estrutura de colonialidade, que por longas décadas tem prevalecido e instituído a chamada violência epistêmica.