Redes sociais da ABA:
GT 005. Agências materiais e espirituais no cotidiano: experiências e narrativas de coexistência
Apresentação Oral em GT
Allan Wine Santos Barbosa
Espíritos e chapas de raio-X: técnicas e procedimentos no tratamento espiritual de doenças
Busco discutir neste work os métodos de cura e tratamento espiritual oferecidos por um pequeno centro espírita da cidade de São Carlos, interior de São Paulo. A partir de um caso etnográfico específico, contrasto as técnicas e discursos empregados pelos médiuns e espíritos que através deles se manifestam com o discurso médico convencional. Como as pessoas que buscam esse tipo de tratamento espiritual encaram as aproximações e diferenças entre tais modos de diagnosticar e tratar enfermidades? Em termos da experiência dessas pessoas, como a agência espiritual se manifesta materialmente em seus corpos? Essas questões implicam numa reflexão sobre como o discurso se relaciona (ou não) à dimensão sensória dos pacientes, buscando trazer à tona o modo pelo qual dores, alívios e outras sensações são apreendidas pelos frequentadores do centro, pelos médiuns/espíritos e pelos médicos. Discuto também como o tratamento espiritual não busca se opor à ciência médica secular, mas se constrói enquanto um desenvolvimento e alternativa frente a, assim apreendida, limitação do conhecimento humano. Essa postura, comum no contexto etnográfico do kardecismo, produz experiências bastante interessantes no trato de mazelas e sofrimentos de ordem fisiológica e psicológica. No centro estudado, uma junta permanente de médicos espirituais faz requerimentos de exames, pedem tempo para discutir os resultados, realizam operações, receitam tratamentos e cuidados, emitem pareceres favoráveis ou desfavoráveis aos diagnósticos de médicos encarnados, além de realizar acompanhamentos e consultas rotineiras. Esse nível em imbricação entre um contexto espiritualista e o conjunto de técnicas e procedimentos “materiais” advindos da ciência médica produz uma situação em que o processo de cura é encarado pelos pacientes de forma totalmente diferente da noção de “milagre”, presente em contextos católicos, pentecostais e neopentecostais. O procedimento da cura espiritual implica num trânsito constante entre espiritualidade e materialidade, ao ponto dos pacientes e médiuns insistirem enfaticamente na noção de “tratamento médico”, algo diferente da manifestação transcendental do divino na pessoa que caracteriza o milagre. Este work visa, portanto, fornecer uma contribuição etnográfica aos debates sobre a interface entre saúde e espiritualidade através de um enfoque nas formas pelas quais esse universo de significados e práticas se materializa na experiência de busca pela cura dos frequentadores do centro espírita.