GT 005. Agências materiais e espirituais no cotidiano: experiências e narrativas de coexistência
Apresentação Oral em GT
Flávio José dos Passos
Coexistência e co-agência do Marujo Martim Pescador em uma família de sangue e de santo no sertão baiano
Na vida do Povo de Dola, a relação com as entidades espirituais não é um momento separado do cotidiano. Há uma relação de interpessoalidade entre os integrantes da família de sangue e santo e as entidades, sobretudo, a presença do Marujo Martin Pescador, articulando e dinamizando a vida social do grupo. A centralidade da presença de “Seu Martim” inserida na dinâmica familiar, afirma-se à medida que o grupo é mantido em equilíbrio físico, mental e espiritual pela comunicação viva entre as grandes mães e as entidades da casa. A força ancestral das matriarcas – Dona Zita, Tia Elza e Mãe Fátima – sustenta-se pelo seu trânsito nesses universos, e o seu diálogo direto com os orixás, os caboclos e o “povo do tempo”, tendo à frente desse agenciamento o “Pai da casa” – “Seu Martim”. As trajetórias dos integrantes do Povo de Dola e do barracão de Xangô de Mãe Fátima confundem-se com a trajetória da própria entidade espiritual. Neste contexto de co-existência, co-agência e co-vivência de humanos e entidades espirituais, algumas questões suleiam a investigação: como se dá o processo de incorporação de Seu Martin no mundo social do Povo de Dôla? Em que medida e como entidades espirituais podem vir a ser, estão e participam enquanto sujeitos em um universo delimitado? Como participam da vida social dos seus “cavalos”? Em que circunstâncias essas entidades são (e estão) incorporadas? Como esse fenômeno é interpretado pelas pessoas? A força vital do terreiro ancora-se na figura – memória ancestral e contra hegemônica – de uma entidade espiritual, um bêbado, negro, marinheiro, um espírito, no dizer de mãe de santo, um “filho das águas”. Abordar sobre a presença, a agência e a centralidade de uma entidade espiritual em um grupo doméstico pertencente a um candomblé de tradição local nos aproxima de uma relação entre humanos e não humanos – no caso um “invisível” – os quais, em conjunto, tecem uma rede de relações espirituais e sociais, que convergem para um reordenamento da própria vida. Uma dinâmica social na qual um “invisível” cuida dos socialmente invisibilizados. A presença do Marujo garantiria a toda a comunidade acessar uma costura social e espiritual, individual e coletiva, ritual e festiva da vida. De um simples organizar da roda antes de um xirê, a um consultar o “povo do tempo” sobre alguma realidade espiritual em desajuste, de ver se um filho da casa corre algum perigo ou está doente, até organizar o calendário de uma festa, ou perceber que um determinado ogã não desempenha bem um toque específico. São índices, agências e efeitos que dizem respeito a uma coexistência, redefinindo as múltiplas fronteiras do cotidiano, para além do ritual, integrando corpos, ritos, entidades e orixás, enquanto um aprendizado mútuo (ênfase reiterada pelo próprio Marujo).