Redes sociais da ABA:
GT 005. Agências materiais e espirituais no cotidiano: experiências e narrativas de coexistência
Apresentação Oral em GT
Lanna Beatriz Lima Peixoto
A mulher e seu quintal, caminhadas por um universo mágico-místico-transformacional
Este work apresenta reflexões acerca do entrelaçamento de temas como gênero e paisagem a partir da experiência etnográfica no quintal de uma mulher que, segundo sua comunidade de pertença, “vira bicho”. O que está ligada à categoria nativa de populações amazônicas, “engerar”, referente a um processo mágico de metamorfose. Pressupõem um universo transformacional no qual um humano assume forma, aparência e comportamento de outros animais e vice-versa, envolvendo o deslocamento de perspectivas e a constituição de paisagens configuradas a partir da transformação, bem como de trânsito de corpos e subjetividades, respectivamente. Esta capacidade pode advir de um pacto feito com entidades sobrenaturais ou acompanha a pessoa desde o nascimento (de caráter hereditário) e que, na região estudada, atinge com mais frequência mulheres. O encontro com esta mulher se deu na Comunidade Quilombola de Mangueiras, na ilha do Marajó, estado do Pará. Durante uma pesquisa sobre as relações estabelecidas entre mulheres e plantas nos quintais quilombolas. Nestes espaços são estabelecidos vínculos complexos entre os elementos que os compõem. É o lugar da morada em que o humano estabelece laços com os não humanos e com o si-mesmo em movimento dialético, onde se põe em perspectiva e é perspectivado. Os limites se definem e se borram em constante (re)criação. É onde se produzem cotidianamente os sentidos do ser e estar no lugar à medida em que há uma coabitação entre os elementos humanos e não humanos, que, por sua vez, institui um movimento criativo, uma ético-estética de atuação e interação com ele. Esta senhora é referência na comunidade quanto ao cultivo e conhecimento sobre plantas e pela relação de proximidade que tem com animais e entes sobrenaturais, a ponto de com eles confundir-se ou transmutar-se. Seu quintal é como uma outra dimensão dentro da comunidade, um universo íntimo e particular que só ela tem acesso em sua amplitude. Um quintal-floresta, quintal-cosmos, quintal-mulher, mulher-floresta, mulher-bicho, sua morada. Desde o início da pesquisa fui sendo guiada pelos passos dessa mulher no seu quintal, o lugar onde os vizinhos dizem ocorrer sua transformação. As caminhadas por entre as árvores, vasos e baldes de plantas pendurados e espalhados por todo terreno iam evocando imagens, memórias sobre o local, a família, de momentos nele vividos, sobre as plantas e para que serviam, sobre os animais que ali habitam, também sobre si e seus sonhos, desenhando a (con)figuração daquela paisagem, uma (co)habitação. O entrecruzar das narrativas da mulher e dos filhos, familiares e vizinhos sobre sua capacidade transformacional desvela uma intrincada trama mágico-místico-religiosa, que diz muito sobre a formação do sistema de conhecimento desse coletivo quilombola.