GT 005. Agências materiais e espirituais no cotidiano: experiências e narrativas de coexistência
Apresentação Oral em GT
Izabella Barbosa da Silva
A jurema Fulorou: a simbólica feminina na Jurema Sagrada, uma etnobiografia de Mestra Paulina.
Quando começamos a nos interessar pelo sagrado feminino na Jurema, imediatamente nos chamou atenção o universo das Mestras, entidades femininas - com características semelhantes à das pombas-giras da Umbanda e do Candomblé - com histórico de sensualidade e prostituição. Diferente das Caboclas e das Pretas-Velhas que se aproximam muito mais de um ideal de “pureza”, as Mestras destacam-se pela sua postura transgressora e “impura”.
As divindades presentes no culto a Jurema trazem consigo uma história de vida que passa a compor a mitologia da Jurema e a influenciar na sua prática de culto, formando um panteão infinito de entidades, que são sagradas, mas que ao mesmo tempo carregam características tão humanas quanto os que as veneram.
A curiosidade em conhecer mais sobre as Mestras, nos levou a ouvir e a ler muitas narrativas a respeito destas moças que viveram em sua maioria no Nordeste brasileiro em séculos passados, prostituindo-se para sobreviver e repetidamente passaram por episódios de mortes trágicas. Como nas narrativas sobre Mestra Paulina, menina cigana, perdeu os pais cedo durante uma viagem de navio com destino ao Porto de Jaraguá em Maceió-Al, ao desembarcar foi vendida para uma Dona de Prostíbulo. Conta-se que, Paulina vendia frutas na beira do cais na intenção de juntar dinheiro e fugir da exploração e dos maus tratos no prostíbulo, diz-se ainda que não media esforços para proteger as outras meninas das maldades de sua tutora – motivo pelo qual veio posteriormente a ser reconhecida como protetora das mulheres. Até que então a bela moça consegue fugir para Recife-Pe, onde veio a habitar a rua da Guia e trabalhar no Cais do Apolo, onde era desejada por muitos homens e odiada por suas esposas. Paulina morre tragicamente, assassinada com sete facadas por um de seus amantes, acredita-se que por motivo de ciúmes.
O que se conta sobre a vida de mestra Paulina não difere muito da história de outras mestras, envolvidas no universo de exploração sexual, violência e marginalidade. Escolhemos nos debruçar então sobre a “vida” da jovem menina cigana ao encontrar no interior de Alagoas um grupo de praticantes da Jurema, liderado por uma jovem sacerdotisa discípula de Mestra Paulina, e que apresenta grande confiança e devoção a esta mestra.
Então delimitamos como universo de pesquisa, o Sagrado Feminino na Jurema Sagrada, a partir da etnobiografia da entidade Mestra Paulina entrecruzada com a da sua discípula, na busca por compreender as estratégias e agenciamentos desenvolvidos pelas figuras femininas presentes neste culto – seja no plano material ou espiritual, face a esta marginalização e invisibilidade que perpassa todo o culto a Jurema Sagrada, e se torna ainda mais pungente no que se refere ao feminino.