GT 054: Povos e Populações Tradicionais e Política Públicas na Perspectiva Antropológica
Apresentação Oral em GT
Francisco Antunes Caminati
Projeto: pensando e trabalhando em projetos
O cientista social que trabalha com populações tradicionais no Brasil é invariavelmente chamado a colaborar com a formulação de projetos, que propõem atuação nas mais diferentes áreas. A despeito de cada vez mais presente na vida do cientista acadêmico, chegando quase a constituir um pressuposto ou contrapartida necessária para a realização de pesquisa etnográfica, a forma-projeto raramente é objeto do pensamento social. Projetos medeiam o diálogo com instituições públicas e privadas; permitem a captação de recursos; possibilitam a execução de obras de infraestrutura sanitária; e, de experimentos culturais/sociais. Para um enquadramento consistentemente crítico da forma-projeto, é preciso considerar a discussão sobre a ausência do Estado e do não cumprimento de seu papel público, que é transferido para a sociedade civil, quando não para as próprias comunidades que deveriam ser o objeto de políticas públicas. Assim como as questões relativas à precarização do work acadêmico e informacional, cuja principal evidência é o estabelecimento de regimes de colaboração que, na maioria das vezes, ensejam work não-remunerado. Contudo, apesar destes aspectos negativos, os quais serão levados em conta durante toda a reflexão, o que acontece se consideramos genuíno o interesse em realizar projetos tal como expressam as comunidades e as coletividades indígenas e tradicionais? Nossa aposta, baseia-se na possibilidade de explorar um potencial, de caráter marginal, que há na forma-projeto o qual permite às populações tradicionais que subvertam a chave clássica da produção de conhecimento na qual seus saberes são necessariamente objetificados. Obviamente, este uso emancipatório de projetos não é automático, tampouco simples. A partir de uma análise etnográfica de dois projeto de implementação tecnológica atualmente em curso – um realizado na Reserva Extrativista do Alto do Juruá (Acre), com agricultores e seringueiros, outro realizado junto aos Xavante (A'uwẽ Uptabi) da Aldeia Wede'rã, Terra Indígena Pimentel Barbosa (Mato Grosso) – pretendemos, ao mesmo tempo, explorar alguns aspectos que possibilitam que esse potencial seja efetivo, interessados em ver, também, na outra direção, ocorrências que evidenciam limites e conflitos que a forma-projeto precipita e implica.