| Nas últimas décadas, observa-se um recrudescimento das chamadas doenças crônicas, cujos sofrimentos de longa duração obrigam os adoecidos a conviverem com um mal considerado incurável. Esse quadro tem exigido uma mudança no paradigma médico, obrigando-o a afastar-se dos tratamentos agudos em direção a um “controle” de longo prazo das doenças, ou seja, da “cura” para o “cuidado”. Nesse contexto, destaca-se o papel desempenhado pelos grupos formados por doentes que, por meio da troca de experiências, buscam construir um sentido para suas aflições. Um dos mais importantes grupos de doentes é a irmandade de Alcoólicos Anônimos (A.A.), formada por ex-bebedores que se reconhecem como portadores da “doença crônica e fatal” do alcoolismo. A partir de uma pesquisa etnográfica realizada em grupos de A.A. localizados na periferia da cidade de São Paulo – Brasil –, busca-se, neste trabalho, compreender os significados atribuídos à experiência do alcoolismo, concebido como uma “doença crônica” e, por essa via, o processo de reconstrução subjetiva por meio do qual os ex-bebedores cuidam de si mesmos e resgatam os laços familiares e profissionais rompidos no tempo do alcoolismo ativo. O modelo de A.A. possibilita aos ex-bebedores elaborar uma linguagem da doença, de maneira que o indivíduo que se considera doente crônico encontra um significado para suas aflições bem como um lugar para o seu corpo e para o seu espírito, ambos enfermos, reconciliando-se consigo mesmo e com seus familiares. |