Resumo Palestra

O exame dos percursos da literatura brasileira contemporânea assinala que a cidade tem sido objeto privilegiado de reflexão e imaginação poética. Escritores como Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu, Chico Buarque e outros exploram os aspectos desagregadores da vida na metrópole e seus efeitos sobre os processos de subjetivação, sensibilidades e formas de convívio social. Tal literatura focaliza a cidade em cenários, personagens, enredos e, sobretudo, formas de narrar, que parecem evocar a dificuldade de “traduzir” a cidade fragmentada que hoje habitamos (Renato Gomes, 1994, 1998; Alexandre Faria, 1999). Este trabalho pretende explorar o terreno da construção simbólica da experiência urbana brasileira, analisando as imagens e representações sobre a cidade num conjunto de textos ficcionais. Acompanhando a crítica literária, argumentamos que esses textos encerram percepções sobre a vida urbana brasileira que revelam um espírito de perda ou colapso da cidade moderna idealizada. Buscamos ainda aproximar tais reflexões das contribuições da antropologia acerca da problemática. O escritor, tal como o antropólogo, ao estranhar seu próprio espaço e tempo, deslinda as faltas, as ruínas e as patologias da vida urbana em tempos de modernidade tardia.