Resumo Palestra

Através de um estudo de caso, relativo a estratégias culturais desenvolvidas por uma população amazônica, queremos discutir como as orientações do Estado brasileiro, relativas ao caráter pluriétnico da sociedade, são elaboradas a nível local. O valor positivo da diversidade cultural e o propósito de incentivá-la e preservá-la, que hoje integra as orientações dos organismos internacionais, ganha uma flexão própria no Brasil. Setores do Estado, através de uma certa leitura do repertório cultural existente, buscam promover um rompimento com o ideal anterior da miscigenação cultural e biológica e, ao mesmo tempo, orientar suas ações no sentido de identificar as populações através de um registro étnico e racial. Os grupos sociais são encorajados a adotar práticas culturais que dêem relevo a simbologias que os especifiquem através dessas clivagens, distinguindo-se entre si através de novos critérios. Quais são os lugares atribuídos às genealogias concorrentes, agora minoritárias? Como são ritualizadas e encenadas as diferenças "culturais", "étnicas" e "religiosas"? Essas questões serão discutidas dando relevo às festas de uma vila amapaense que reivindica uma dupla ou talvez mesmo uma tripla herança: portuguesa com a festa católica de São Tiago, "negra" com a dança do marabaixo, e "índia" com a dança do "sairê" - esta última expressando atualmente um desejo, ainda não concretizado, de reativação.