Resumo Palestra

A medicalização da sexualidade teve sua origem no final do séc. XIX, quando surgiu uma primeira sexologia, cuja preocupação era com a sexualidade extra-familiar, periférica ao casal e à família. Neste momento a perversão sexual se constituiu como objeto da medicina. Uma “segunda onda” sexológica surgiu nos anos 1960/70. É deste segundo momento que trata esta comunicação. Ao contrário da primeira sexologia, em que a capacidade reprodutiva era condição para uma “sexualidade normal”, os anos 1960/70 são marcados pela cada vez mais radical disjunção entre sexualidade e reprodução. Este é o momento em que eclode a chamada “revolução sexual”, a reboque da revolução contra-cultural, que tende a deixar de lado as grandes questões ligadas à luta entre capital e trabalho para centrar-se nas figuras marginalizadas da história: as mulheres, os loucos, os homossexuais, os não-brancos. Com esse deslocamento, temas ligados à sexualidade e ao gênero são altamente politizados. Em meio a tais embates, surge a “segunda onda” sexológica que abandona a sexualidade "desviante", concentrando-se no casal heterossexual. À intensa politização da diversidade sexual tem correspondido uma não menos intensa psicologização e medicalização da heterossexualidade. Meu objetivo é discutir este processo a partir do surgimento e da difusão das disfunções sexuais bem como das terapias e drogas produzidas para tratá-las, o desempenho sexual sendo colocado como ideal de saúde e bem estar.