Resumo

A partir do século XX, e com maior ênfase na década de 60, quando foram intensas as transformações de seu território tradicional, desfigurado numa imensa monocultura de eucaliptos e o crescimento de centros urbanos próximos, os Tupinikim foram forçados a estabelecer diversificadas relações com a cidade, contribuindo para a transformação da capital num grande centro e reconfigurando suas fronteiras étnicas. Nos relatos sobre os deslocamentos para os centros urbanos, motivados, principalmente, pela busca de sustento, a cidade adquire sentido pela sua acessibilidade, por constituir fonte de recursos, sem, no entanto, representar, necessariamente, um lugar definitivo, haja vista os numerosos retornos dos indígenas para as aldeias. Tais características atribuídas à cidade ajudam a compreender a intensa mobilidade “entre” e “dos” indígenas na cidade, das aldeias para a cidade, como também da cidade para as aldeias. Nestas mobilizações em rede, articuladas, sobretudo, por laços familiares, mas também por afinidades religiosas e relações de trabalho, e que incluem as relações estabelecidas com os brancos, circulam valores a respeito do viver/estar na aldeia e na cidade e também visões antinômicas defendidas pelos mesmos indígenas. Estes e outros resultados de nossa pesquisa apontam para uma reflexão sobre novos territórios étnicos, mapeados por referenciais materiais e simbólicos de pertencimento, lugares e histórias que articulam os sentidos indígenas de sua cosmologia e territorial