Resumo

Muitos povos indígenas da América do Sul possuem cosmologias que desafiam dicotomias cristalizadas no pensamento científico ocidental. Estes não distinguem entre um mundo material, produto da “natureza”, e outro “artificial”. Geralmente os indígenas consideram o Cosmo como povoado por diferentes tipos de humanidades e espíritos, todos sendo sujeitos capazes de produzir os mais distintos e variados objetos, os quais, em conjunto, contribuem para compor a infra-estrutura do Universo. Nestes termos, florestas, rios e montanhas não podem ser vistos como sendo contrapostos a cidades e rodovias, todos contribuindo, em uma única combinação, na configuração da infra-estrutura de um determinado lugar. Mais significativo é para os índios classificar os objetos segundo sua eficácia, destino de uso e técnicas – muitas vezes políticas – para acessar e se empossar destes elementos, em um jogo de passagem de “donos”, para outros “donos”. Nesta comunicação, tomando-se como referência especificamente a perspectiva dos Guarani-Kaiowa, pretende-se analisar as transformações materiais oriundas do processo de urbanização e de outras modificações do habitat indígena como sendo o resultado de uma dinâmica cósmica, onde centros urbanos, técnicas e objetos introduzidos pelo “branco” colonizador são incorporados pelos nativos segundo lógicas e estratégias tecno-econômicas peculiares e coerentes com a própria visão do mundo e necessidades materiais.