Resumo

O aborto provocado tem sido atualmente objeto de estudo de diversas áreas. No Brasil, a legislação condena essa prática, salvo raras situações. Entretanto, mesmo na clandestinidade, observa-se que é uma prática recorrente como um meio de interromper uma gravidez não planejada, ao mesmo tempo em que há dificuldades de coletar relatos de experiências sobre aborto. Nesse trabalho me proponho a analisar o contexto de oito mulheres que provocaram aborto na região de Porto Alegre/RS, através de suas narrativas sobre a prática, a fim de problematizar as noções de moralidade, vulnerabilidade e de legalidade. Os dados obtidos nessa pesquisa indicam que há quatro fatores vulnerabilizantes que envolvem as mulheres que realizam aborto, compreendendo ordens afetiva, familiar, financeira e de saúde. Além disso, pôde-se perceber que a moralidade permite definições para o aborto como “quase um crime” e “quase-tabu”, que são difíceis de qualificar por meio da noção de legalidade. Sugere-se que os conceitos de moralidade e de vulnerabilidade, componentes da “noção de Pessoa”, são ambos atravessados pela legalidade, sendo que o primeiro engloba o segundo. Portanto, a prática do aborto abre espaço para problematização desses três conceitos.