Resumo

Este trabalho analisa discursos médicos sobre a pelve da mulher e o papel que desempenha na reprodução da espécie. Nossa reflexão é fundamentada em pesquisa etnográfica acerca do ensino da obstetrícia realizada em duas conceituadas faculdades de medicina brasileiras. Procuramos mostrar como a tipologia pélvica adotada no ensino de obstetrícia, associa características anatômicas a categorias de gênero, “raça” e sexualidade, classificando-as hierarquicamente e apresentando tal ordenação aos alunos como fato natural. A imbricação de diversos sistemas de hierarquização social no ensino das tipologias pélvicas, do conceito de “vício pélvico” e da pelvimetria, técnica obstétrica de mensuração e avaliação anatomopatológica, resulta na reprodução de formas de descriminação das mulheres em geral e particularmente determinadas categorias de mulheres. A origem das tipologias pélvicas remonta à constituição social e interação entre os campos da antropologia e obstetrícia no século XIX. O questionamento da fundamentação científica da pelvimetria tem levado a condenação de seu uso como critério de definição da conduta obstétrica em diversos países, cabendo refletir sobre os sentidos da perpetuação de seu ensino no Brasil, onde ainda define prognósticos e justificativas de cirurgias. Procuramos mostrar como o diagnóstico de “vício pélvico” se configura em um mecanismo de produção e reprodução do exercício de dominação e controle profissional sobre o corpo da mulher parturiente.