Resumo

Eu só queria entender a mim mesma; construir uma explicação para o que eu vivia... e eles me jogaram no lixo... Este é um fragmento de uma tese marcada por histórias de vidas que não pertencem ao passado, mas que continuam ocorrendo de formas simultâneas e solapadas ao mesmo tempo em que escrevo. São muitas Marias e Josés que tiveram (e ainda têm) suas vidas marcadas pela violência em função de transgredirem as normas dos gêneros. Seus corpos desviantes desestabilizam as normas sociais, cruzam as fronteiras de gênero e sexuais ou, ainda, vivem na própria fronteira em transgressão permanente e colocam em questão o limite da possibilidade da própria sobrevivência. Ser remetida ao lixo é o cumprimento de um enunciado que retira o outro do lugar de pertencimento ao humano. É a constatação de que os limites da experiência individual se imbricam com a necessidade de reconhecimento social. Considerando que a existência humana se torna inviável sem inteligibilidade social, foi a problemática dessa investigação compreender as possibilidades e estratégias da atuação dos sujeitos que buscam a cirurgia de transgenitalização, explicitando a delicada relação entre a agência do indivíduo e a exterioridade das normas e é este o recorte que pretendo discutir nesse trabalho.