| A partir de trabalhos de campo com crianças, adolescentes, gestantes e mulheres vivendo com HIV/AIDS, usuários(as) de serviços públicos de saúde no RJ e Nova Iguaçu, cujas experiências de vida foram atravessadas pela infecção do HIV por transmissão vertical, o trabalho discute fenômenos sociais como a reprodução, gravidez e maternidade, estimulado por aquilo que a AIDS revela, em termos de construções sociais, frente ao “desencaixe” do socialmente estabelecido e esperado. Ainda que se trate de grupos de desafiante heterogeneidade, a “pobreza” aparece como um elemento comum, compondo um quadro imbricado entre gênero, sexualidade e classe social. As idéias e imagens de desvio e transgressão associadas à AIDS, somam-se ao estigma da pobreza. De modo paradoxal, a AIDS proporciona a entrada em “outro mundo”, marcado por uma enxurrada de conhecimentos e procedimentos técnicos, os quais dificilmente se teria acesso "se não tivesse pego o vírus". Em um contexto de dificuldades no acesso à prevenção da transmissão vertical, o HIV como possível “herança”, marca profundamente as relações de filiação. A idéia de que a soropositividade tiraria o direito de engravidar − ilustrada pelo grande número de esterilizações e gravidez não-planejadas − mostra não apenas a violação dos direitos sexuais e reprodutivos, mas tensões e conflitos de direitos (ex. da criança e da mulher), e num plano mais amplo, individuais e coletivos, passíveis de serem compreendidos pelo viés da biopolítica. |