Resumo

O presente trabalho analisa as práticas e discursos envolvidos nas estratégias de atuação dos vendedores ambulantes nos ônibus do Rio de Janeiro. A partir de um exercício etnográfico, busca perceber como recuperam trajetórias e fazem determinadas escolhas para sobreviver em um universo de fronteiras fluidas. Ao circularem por diversos locais, negociam seu espaço físico e simbólico através de relações com motoristas, cobradores, fiscais e passageiros. Se, em um plano legal, não têm autorização para comercializar seus produtos, moralmente acionam diferentes recursos visando obter reconhecimento social. A ambigüidade de sua posição diante das leis, faz-nos questionar como se dá a construção de sua dignidade, tendo em vista que estes atores sociais são geralmente confundidos com “pedintes”, “malandros”, “um-sete-um”, “vagabundos”. Neste contexto, destaca-se a utilização de recursos retóricos e performances como apresentar-se como pai de família e trabalhador, saber se vestir e se comunicar com a clientela. Estas estratégias permitem driblar as regras e reelaborar intersticialmente outras formas de sociabilidade, práticas e saberes. Observando os múltiplos contatos com outros agentes, a pesquisa busca identificar as situações problemáticas que viabilizam ou não o trabalho do vendedor nos espaços da rua. Sua atuação envolve todo um conjunto de práticas e valores que extrapolam os códigos de socialização institucional e que são o resultado de dinâmicas negociadas cotidianamente.