| Este trabalho propõe reflexões sobre a nominação do mal: ao considerar um texto literário e pesquisas de dois antropólogos sobre witchcraft (Siegel 2006) e sofrimento social (Das 2006), questiona-se sobre os limites de se narrar, nomear ou dizer sobre o mal. Em O pescador cego, conto do moçambicano Mia Couto, um homem dá seus olhos como alimento a peixes para que estes possam alimentá-lo, mordendo a isca viva retirada do corpo do pescador. As relações entre os personagens do conto, tomados como sujeitos etnográficos, inspiram-nos em uma análise sobre os limites da linguagem frente a acontecimentos que parecem situar-se além dos sujeitos sociais: acidentes (Siegel) ou critical events (Das), momentos que mudam modos de pensamento e ação. Sem saber a origem deste mal que desestabiliza referências sobre o que é o mundo, tenta-se nomeá-lo, localizá-lo, narrá-lo, para que ele possa separar-se ou descolar-se de quem se sente indefinido com sua presença: acusa-se alguém de witch, fala-se sobre violência social, tenta-se precisar a origem dos infortúnios, mas o uncanny (Siegel) ou o mal escapa: intangível, o mal não pode ser plenamente abarcado pela linguagem, que é social. A Literatura de Mia Couto, por sua vez, ao desconsiderar os limites da linguagem desatendendo as significações convencionais de signos lingüísticos, parece burlar o próprio social: sem tentar nomear o mal, Mia Couto lida com o uncanny figurando como um instrumento por meio do qual o poder obscuro (Siegel) tem voz. |