Resumo

Proponho discutir as articulações entre os termos bem e mal a partir da história de vida e experiências de um pai-de-santo que publicamente declara praticar “magia negra”. Tal investigação é central para minha pesquisa de doutorado, cujo objetivo é etnografar as práticas de feitiçaria no sul da Bahia. Seguindo a inspiração de autores precedentes, gostaria de expor as variadas transformações e nuances adquiridas pelas noções de bondade e maldade quando a feitiçaria, violência, desordem e o mal tornam-se atributos constitutivos da religiosidade. Mesmo ao questionar a autonomia e os contornos desses termos, as práticas de feitiçaria produzem relações sociais cuja eficácia depende da guerra e, ao mesmo tempo, da reversibilidade de atributos ou papéis obrigatoriamente instáveis (bem/mal, belo/feio, enfeitiçado/feiticeiro). Não à toa a maldade foi chamada de arte. Conforme Gell, quando algo é perfeito ou infinitamente belo, tende-se a “abduzir” uma agência, seja humana ou divina – supõe-se que o belo é algo feito. Da mesma forma, na feitiçaria, algo bem feito supõe a perfeição maligna das mais diversas entidades, sejam elas espíritos, pessoas ou objetos: o feio é algo belo. Se a inversão dos padrões morais dominantes é evidente, gostaria de também sublinhar o aspecto imprevisível de tais operações, pois, ao transpor a noção de acaso, as práticas ligadas à feitiçaria são profusamente incitadas a criar novos significados e relações que desafiam as dicotomias mais bem estabelecidas.