Resumo

Esta comunicação visa à interpretação etnográfica e à análise teórica dos modos como, um imaginário social que concerne uma noção acerca do Mal, pensada como fundante dos eventos inaugurais da escravidão e configurada nas paisagens de sua desumanidade e Terror é constituinte dos jogos de memória de sujeitos negros, moradores da cidade de Pelotas, antigo centro escravagista do Rio Grande do Sul. Tais jogos de memória, estão na base significativa dos modos como constituem-se comunidades de sentimento e interpretação acerca das reverberações temporais do Mal, que se inscreve numa topografia urbana mítica local assombrada tanto pelos tempos de fundação, na presentificação dos "espíritos dos escravos", dos "ancestrais africanos" e dos "senhores" em relação, como pelo racismo contemporâneo, cuja eficácia de um mal "para todos" estaria na base de uma desordem social mais generalizada, percebida no estado de "decadência" econômica e social da cidade, e que funde passado e presente, este e "outro mundo". Objetiva-se, então, interpretar como a memória social mais ampla da cidade dialoga com inscrições específicas do imaginário acerca do lugar social do negro e sua trajetória inscrita na sociedade brasileira e local, cuja etnogênese associada a um mal fundante seria constituinte de uma comunidade de destino.