| Este trabalho apresenta uma etnografia sobre o black metal no Brasil, prática urbana organizada em torno da composição, audição e apresentação de um estilo de música homônimo. O black metal enquanto prática urbana formula, ao mesmo tempo, uma leitura do mal através de sua música e uma dramatização do mal através dos seus shows. Seus músicos e apreciadores são enfáticos quanto ao caráter blasfemador de suas músicas. E a blasfêmia está na oposição aos valores e princípios do que chamam “sociedade judaico-cristã”. Para eles, vivemos sob uma religião que nos transforma em escravos, através de sentimentos de culpa e amor ao próximo. Sendo assim, sua música incita o ataque e a destruição das instituições cristãs invocando elementos negativos do próprio cristianismo, em um termo, o mal. Procuro apontar como essa invocação se realiza na estética do black metal, sobretudo em sua iconografia e letras das canções. Mas essa estética do mal, dizem seus praticantes, não é apenas uma arte. Ela é uma moral e uma ética, uma crença e um estilo de vida. Ora, o mal do black metal é um mal absoluto. Misantropos, suas canções segundo eles, verdadeiros cultos da morte. Sendo assim, procuro averiguar como convivem com uma ideologia a qual, se levada às últimas conseqüências, demandaria a extinção de toda a humanidade. Crucial para a resolução deste aparente paradoxo é o show. Dramatizando o mal do black metal nas apresentações, seus praticantes o vivenciam ao mesmo tempo em que o resolvem. |